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AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE ESPORTE DO MUNICÍPIO DE JAGUAQUARA-

BAHIA FRENTE ÀS PRERROGATIVAS DA POLÍTICA NACIONAL DE ESPORTES.


POLÍTICAS PÚBLICAS DE DEPORTES DEL AYUNTAMIENTO DE JAGUAQUARA-
BAHÍA FRENTE A LAS PRERROGATIVAS DE LA POLÍTICA NACIONAL DE
DEPORTES.
PUBLIC POLICIES OF SPORTS CITY OF JAGUAQUARA-BAHIA FRONT OF THE
PREROGATIVES OF THE NATIONAL SPORTS POLICY.

Ageu Bispo dos Santos *


ageubsp@hotmail.com

Temístocles Damasceno Silva *


tom@uesb.edu.br

Flávio Alves Oliveira *


flaviooliveira_fao@hotmail.com

* Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Bahia – Brasil


Resumo Resumen Abstract
O presente estudo teve por objetivo analisar as Políticas de Esportes no município de
Jaguaquara/BA frente as prerrogativas da Política Nacional de Esportes. Para tal, elencou-se
como principal categoria de análise, a estrutura administrativa destinada à temática em
questão. Enquanto procedimento metodológico trata-se de um estudo exploratório, de cunho
qualitativo, com busca em fontes de pesquisa: leis e documentos que versam sobre fenômeno
abordado. Logo, verificou-se que os documentos analisados, não se encontram em
consonância com as diretrizes da Política Nacional de Esporte. Ao mesmo tempo, constatou-
se a ausência de elementos que regulamentem a gestão participativa no processo de
planejamento e avaliação das Políticas Públicas de Esporte. Desta forma, evidenciou-se que o
poder público precisa repensar o aparato legal que permeia as ações destinadas ao esporte no
município, no intuito de garantir a materialização deste fenômeno enquanto direito social. Em
consonância, existe a necessidade da implementação de uma gestão participativa, visando,
solidificar o processo de planejamento, execução e avaliação das ações esportivas, através de
uma estrutura administrativa significativa.
PALAVRAS CHAVE: Políticas Públicas; Esportes; Brasil.

...
Este estudio tenido como objetivo analizar las Políticas Deportivas en el municipio de
Jaguaquara/BA frente a las prerrogativas de la Política Nacional de Deportes. Con este fin, se
ha catalogado como la principal categoría de análisis, la estructura administrativa para el tema
en cuestión. Mientras procedimiento metodológico se trata de un estudio exploratorio de
abordaje cualitativo, con la búsqueda de fuentes de investigación: las leyes y documentos que
tratan discutido fenómeno. Pronto, se encontró que los documentos analizados, no están en
línea con las directrices de la Política Nacional de Deportes. Al mismo tiempo, se produjo la
ausencia de elementos que regulan la gestión participativa en el proceso de planificación y
evaluación de las Políticas Públicas de Deporte. Por lo tanto, se hizo evidente que el gobierno
tiene que repensar el aparato legal que impregna las acciones a deportes en el municipio, con
Santos, Silva & Oliveira

el fin de garantizar la realización de este fenómeno como un derecho social. En consecuencia,


existe la necesidad de implementar una gestión participativa, con el objetivo de consolidar el
proceso de planificación, ejecución y evaluación de los deportes de acción a través de una
estructura administrativa significativa.
PALABRAS CLAVE: Políticas Públicas; Deportes; Brasil.

...
This study aimed to analyze the Sports Policies in the municipality of Jaguaquara/BA front the
prerogatives of the National Sports Policy. To this end, it has listed as the main category of
analysis, the administrative structure for the theme in question. While methodological
procedure this is an exploratory study of qualitative approach, with search in research
sources: laws and documents that deal discussed phenomenon. Soon, it was found that the
documents analyzed, are not in line with the guidelines of the National Sports Policy. At the
same time, there was the absence of elements that regulate participatory management in the
planning process and evaluation of Public Policies of Sport. Thus, it became clear that the
government needs to rethink the legal apparatus that permeates the actions to sports in the
municipality, in order to ensure the realization of this phenomenon as a social right.
Accordingly, there is a need to implement a participatory management, aiming to solidify the
process of planning, implementation and evaluation of action sports through a significant
administrative structure.
KEYWORDS: Public Policies; Sports; Brazil.

Introdução
Uma política pública pode ser vista e entendida de várias maneiras dependendo da sua
natureza, grau de intervenção ou até mesmo pela abrangência de seus benefícios
(Mezzadri, 2011; Vialich, 2012). Nesta lógica, Terra e Motta (2011) afirmam que a política
pública não possui apenas uma ação exclusivamente governamental, ou seja, a participação
popular é uma característica fundamental na elaboração e execução de tais ações,
possibilitando assim, uma tomada de poder da sociedade.
Logo, a análise das políticas públicas se estabelece enquanto um processo de reflexão sobre
as diversas necessidades da sociedade, sempre buscando sinalizar ações que contemplem e
garantam os direitos sociais, estabelecendo assim, um compromisso público que busca
atender diversas situações em diversas áreas (Souza, 2006).
Adiante, com o processo de abertura política e a instalação da democracia a partir da
década de 1980, inicia-se no Brasil, uma série de discussões acerca do fenômeno esportivo
no âmbito do poder público. Neste contexto, Mezzadri (2011) evidencia que ocorreram
diversas disputas neste setor, no intuito de possibilitar a ampliação da autonomia das
entidades esportivas perante sua estrutura administrativa bem como maior transparência
durante o processo de prestações de contas destas instituições.
Bueno (2005, p. 167) afirma que “mostrava-se necessário reformular estruturas, modos de
atuação e a articulação do setor esportivo com a sociedade”. Logo, o processo de

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elaboração da política nacional de esporte no Brasil gerou um intenso debate acerca da


estruturação dos órgãos administrativos relacionados ao setor esportivo.
Neste contexto, as realizações das Conferências Nacionais de Esporte (2004, 2006 e 2010),
possibilitaram a reflexão sobre o processo de formulação e implantação, de políticas
públicas inclusivas, e de afirmação do esporte e do lazer enquanto direitos sociais para os
brasileiros. Sendo assim, Silva e Abreu (2013, p. 169) sinalizam que a instalação de tal
processo, “constitui um alicerce de fundamental importância no processo de ressignificação
das ações implementadas em todo o país bem como se torna ferramenta auxiliar do
processo de consolidação da gestão participativa”.
Nesta perspectiva, aprovou-se a construção da Política Nacional do Esporte, a qual aponta
entre outras diretrizes, a necessidade de promoção da transparência dos gastos públicos
bem como o incentivo ao controle social, no intuito de estabelecer os princípios da
legalidade e da ética nas diversas práticas da administração pública ligadas ao esporte.
Sendo assim, Godoy (2013) aponta que “estes espaços possibilitaram a construção de um
sistema nacional voltado a unificar e coordenar as ações de todos os setores, agentes e
instituições envolvidas com o esporte no Brasil”. Logo, as prerrogativas apontadas no
sistema passaram a ser possíveis elementos balizadores da política no âmbito estadual e
municipal. Vale ressaltar que a estrutura administrativa do fenômeno em questão se
apresenta como eixo singular no processo de materialização do esporte e lazer enquanto
direitos sociais, garantidos na Constituição de 1988.
Entretanto, Starepravo (2007) afirma que apesar de ser uma temática presente na discussão
e nos eventos científicos, a produção de conhecimento na área ainda é discreta e voltada
aos relatos de experiências, necessitando de maior diálogo com as teorias. Neste sentido, o
presente trabalho buscou analisar as Políticas Públicas de Esporte e Lazer implantado no
município de Jaguaquara-Bahia, frente às prerrogativas da Política Nacional de Esporte,
tendo como categoria de análise a estrutura administrativa destinada ao esporte.
Desta maneira, tal pesquisa nasce como parte do processo de formação em educação física,
sendo que, a mesma justificou-se pela necessidade de ampliação dos estudos acerca da
referida temática. Ao mesmo tempo, a inserção no grupo de estudos em gestão desportiva
da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia permitiu adquirir uma visão multidisciplinar
sobre o fenômeno abordado, despertando o desejo de explorar as possíveis relações entre
a Política Pública e o cenário esportivo.

Procedimentos metológicos
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa documental de caráter qualitativo. Desta
forma, segundo Cerva e Bervian (2002), a pesquisa documental busca esclarecer os
fenômenos, por meio de referenciais documentados, a fim de analisar as contribuições
culturais ou cientificas do passado sobre determinado assunto, tema ou problema. Thomas,
Nelson e Silverman (2007) apontam que a principal finalidade da pesquisa qualitativa, é a
descrição, a compreensão e o significado da variável estudada.

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Michel (2009), por sua vez, define que a escolha pela análise documental permite ao
pesquisador coletar uma gama de informações que podem ser obtidas em diversas fontes,
escritas ou não, primárias ou secundárias. O que permite um cruzamento de informações a
fim de elucidar o objeto da pesquisa.
Dessa forma, devido ao delineamento qualitativo dado ao trabalho, executou-se
inicialmente uma busca por livros na biblioteca da Universidade Estadual do Sudoeste da
Bahia (UESB) que tratassem da temática, e artigos científicos nas bases de dados eletrônicas,
Scientific Eletronic Library Online (SciELO-Brasil), Scholar Google e no Portal de Periódicos da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Como critério para a restrição por artigos que fossem relacionados à temática, foram
utilizados os cruzamentos dos seguintes descritores (palavras-chave) em português e sua
correspondência em inglês: “Políticas Públicas” e “Esportes”; “Public Policies” e “Sports”. A
busca foi realizada entre novembro e fevereiro de 2014.
Os artigos selecionados deveriam preencher os seguintes critérios para inclusão no estudo:
serem em português, inglês ou espanhol; terem relação significativa com a temática
proposta; serem de livre acesso e disponíveis na íntegra; artigos com data de publicação
entre 2004 e 2014, e títulos e resumos que correspondessem aos descritores
preestabelecidos.
Para a exclusão foram adotados os seguintes critérios: notas científicas, comunicações,
editoriais, resenhas, duplicidade nas bases de dados, artigos de revisão e monografias.
Além dos dados coletados através dos livros e artigos científicos, também foram coletados
dados, por meio de documentos de fontes primárias e secundárias, publicados no período
de 2008 a 2012, a saber: a) a Lei Orgânica do município de Jaguaquara-Bahia; b) o Plano
Diretor Participativo do ano de 2008; c) a Lei n. 724 de 23 de dezembro de 2008 e; d) a Lei
n. 802 de 20 de dezembro de 2011, que dispõe sobre o ordenamento do município de
Jaguaquara-Bahia.

Resultados e discussão
A estrutura administrativa destinada ao esporte no município investigado encontra-se
alicerçada na Lei Orgânica municipal. Dentre os diversos temas presentes na referida lei,
elenca-se o Capítulo IX que trata sobre o desporto, apontando no artigo 247, que: ”é dever
do Município fomentar práticas desportivas, como direito de cada um”. Logo, nos itens I, II e
III percebe-se a influência conceitual de Tubino (2010) que classifica o fenômeno em:
esporte-educação, esporte-lazer e esporte-desempenho. Vale ressaltar que, tal lei encontra-
se em consonância com o Ministério do Esporte, que fomenta suas ações embasadas no
mesmo aspecto conceitual.
Logo, o item VIII e o parágrafo único estão em consonância com a legislação federal, que
através Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998, denominada Lei Pelé, a qual instituiu como
um dos seus princípios fundamentais, a democratização das práticas esportivas, buscando

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assim, garantir o acesso a estas atividades sem quaisquer formas de discriminação ou


distinção e ao mesmo tempo prevendo o fomento da prática desportiva para pessoas
portadoras de deficiência.
Esse ponto reflete um avanço na forma de gestão do estado, haja vista que, para Souza
(2006) deve-se pensar em políticas públicas e nas diversas necessidades da sociedade,
procurando sempre estabelecer um compromisso em atender as diversas situações em
diferentes áreas. Percebe-se então a importância das instituições nas relações de poder.
Segundo Waschkuhn (1994, p.188) estas instituições “servem não apenas para a satisfação
de necessidades humanas e para a estruturação de interações sociais, mas ao mesmo
tempo determinam posições de poder, eliminam possibilidades de ação, abrem chances
sociais de liberdade e erguem barreiras para a liberdade individual”.
Outra Lei que regulamenta as ações do município é o Plano Diretor Participativo. Foi
confeccionado no ano de 2008 e sancionado sob a forma de Lei Municipal nº.726 de 23 de
dezembro de 2008, vale ressaltar que tal documento direcionou as ações do esporte no
município, no período de 4 (quatro) anos. Neste contexto, no art. 4º da Lei Orgânica do
município, percebe-se a importância do plano Diretor Participativo, enquanto instrumento
de normatização das ações do município, (Jaguaquara-Bahia, 2008).
Logo, no Plano Diretor Participativo do município estudado, evidencia-se em diversos
momentos, a palavra esporte, entretanto, como instrumento de análise optou-se em avaliar
a Seção III que trata especificamente do esporte e lazer.
Art. 45 – A política do Esporte e Lazer será pautada nas seguintes diretrizes: I -
planejamento de espaços para prática de esportes, garantindo o acesso a crianças,
jovens e idosos, em condições de acesso e trânsito aos deficientes físicos; II -
estímulo ao desenvolvimento de atividades esportivas nas escolas; III – implantação
de um calendário esportivo; IV - implantação de projetos voltados à prática de
esportes competitivos; V - criação de Centros de Convivência nos bairros com maior
Índice de vulnerabilidade Social, para a prática de atividades de lazer, esporte e
recreação; VI - Promover estudos de viabilidade para a reestruturação e construção
de praças, tendo em vista a implantação de quadras de futebol, vôlei e playground
infantil, adotando essas instalações de iluminação noturna. VII - construção de
Ginásio de Esportes e de uma piscina semi-olímpica. VIII - construção de pista de
ciclismo/atletismo; IX - Incentivar a participação de equipes de esportes em
torneios e campeonatos regionais e estaduais; X - consolidação das potencialidades
turísticas – agro turismo e do patrimônio cultural do Município como fator de
desenvolvimento econômico e social e de geração de trabalho, emprego e renda; XI
- Promover estudos de viabilidade para implantação de um espaço de lazer
acessível aos cidadãos da região de Itiúba, Distrito de Ipiúna e Distrito Stela Câmara
Dubois, para a prática de atividades diversificadas, tais como: passeios, caminhadas,
musicais, seminários, realização de fóruns temáticos e outras atividades para
fomentar a cultura local e regional. XII – Desvincular a Secretaria de Esporte e Lazer,
da Secretaria de Cultura. XIII – construção de um estádio no Distrito Stela Câmara
Dubois. (LEI MUNICIPAL Nº.726 DE 23 DE DEZEMBRO DE 2003).

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Antes de proceder com a análise e discussão deste documento, é necessário ressaltar que a
confecção e aprovação do Plano Diretor devem constar com a presença de representantes
da sociedade civil e do gestor municipal, a fim de garantir uma efetiva construção coletiva e
democrática do documento que norteará as futuras ações, no campo das políticas públicas
do município. Neste contexto, conforme os estudos de Heclo (1978, p. 102) tais ações
poderiam ser classificadas como policy networks, ou seja, um conjunto de interações das
diferentes instituições (governo, sociedade, etc) no processo de implementação das ações
destinadas ao esporte.
Desta forma, na seção que trata unicamente do esporte e lazer no Plano Diretor, observa-se
que, em geral, surgem algumas consonâncias com a lei orgânica do município. Observa-se
no item V do documento, um alinhamento com a visão do Ministério do Esporte (2004
apud Bueno, 2008), o qual, busca promover as ações esportivas como forma de inclusão e
promoção social das camadas mais carentes e vulneráveis. Assim, a implantação de ações
dessa natureza se configura, conforme Windhoff-HÈritier (1987), em ações emergenciais, ou
seja, apresentam efeito paliativo. Em relação à abrangência, essas políticas tendem a serem
focalizadas visando atender um público específico da sociedade.
Em consoante, percebe-se nos itens VII, VIII e XIII, a construção de espaços para a prática
esportiva, sendo esta, uma atribuição do órgão executivo municipal. No cenário atual,
grandes obras esportivas nos municípios de pequeno porte são custeadas, pelo Governo
Federal ou Estadual que detém maior parte dos recursos, gerando assim, uma política
distributiva com pequeno nível de conflito, graças ao grande número de pessoas
beneficiadas e ao custeio que são específicos para esses fins (Mezzadri, 2011).
O item XII, o qual aborda a desvinculação da Secretaria de Esporte e Lazer, da Secretaria de
Cultura, possibilitará em tese, uma maior autonomia ao setor em questão. Utilizando os
estudos de Frey (1999), podemos afirmar que essa tomada de decisão se encontra na esfera
da polity, que designa a instituição política propriamente dita, aqui ilustrada pela Secretaria
de Esporte e lazer. Refletindo sobre o campo de disputa que se processa dentro das
políticas públicas, é fundamental importância a criação de uma Secretaria que terá como
pauta principal o fomento ao esporte no município investigado.
Ao analisar a Lei Orgânica e o Plano Diretor Participativo do município de Jaguaquara-Bahia,
verificou-se que tais documentos se encontram em consonância com leis de cunho federal.
Neste ponto aborda-se a constituição da estrutura administrativa de esporte do município
em análise. Segundo Mezzadri (2011), o termo polity refere-se prioritariamente à pasta do
executivo que deve pensar, executar e avaliar as ações ligadas ao esporte.
No período investigado, o órgão representante do gestor municipal que respondia por esta
pasta sofreu sérias mudanças em sua nomenclatura, bem como em sua autonomia e
disponibilidades de recursos. A Lei Nº. 724 de 23 de dezembro de 2008, que trata do
ordenamento do município de Jaguaquara-Bahia, traz na Seção VI do capitulo II, a estrutura
da Secretaria Municipal de Educação Cultura, Esporte e Lazer.
Ao analisar a lei Nº. 724 de 23 de dezembro de 2008, que trata do ordenamento do
município de Jaguaquara-Bahia, traz na Seção VI do capitulo II, a estrutura da Secretaria

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Municipal de Educação Cultura, Esporte e Lazer, percebeu-se que o órgão se apresenta


como uma ramificação da Secretaria de Educação, denominada “departamento de Esporte”.
Em contrapartida, no ano de 2011 foi aprovada e sancionada a Lei Municipal nº 802 de 20
de dezembro, a qual dispõe sobre a Estrutura Organizacional da Prefeitura de Jaguaquara-
Bahia. Nesta nova lei, a pasta ligada ao esporte toma uma nova conformação: “é órgão
colegiado da cultura do Município de Jaguaquara: I - Conselho Municipal do Patrimônio
Histórico, Natural e Cultural. A Secretária de Cultura, Esporte e Lazer, terá sua estrutura,
atribuições, finalidade e organização, definidas em lei específica”.
Apoderando-se do estudo de Mezzadri (2011), pode-se afirmar que com esse novo
ordenamento na dimensão da polity (diretoria de esporte e lazer), cria-se a possibilidade de
representatividade e autonomia. No item III, configura-se como avanço na temática, uma
vez que, supostamente, serão empregados gestores, no intuito de planejar prioritariamente
ações ligadas as suas áreas de atuação.
Entretanto, o ordenamento fruto da Lei Municipal nº. 802, de 20 de dezembro de 2011,
apresentam discordância com o Plano Diretor Participativo de 2008. Logo, no item XII, do
art. 2º, do capítulo I – Dos Objetivos e Princípios Gerais da Política Territorial, é listada a
necessidade de desvinculação da Secretaria de Esporte e Lazer em relação à Secretaria de
Cultura, mostrando assim, um retrocesso no interior do campo politics (instituições).
Logo, esta nova conformação da Diretoria de Esporte e Lazer não atende aos preceitos
formulados e elaborados em conjunto, descritos no Plano Diretor Participativo. Portanto,
essa forma de gestão por parte do executivo, encontra-se em consonância com os estudos
de Azevedo e Suassuna (2007), que afirmam que ainda prevalece no país a prática de
políticas públicas autoritárias, verticalizadas que são elaboradas de forma setoriais, ou seja,
são políticas pensadas e executadas pelo órgão gestor, sem a devida observância consulta à
sociedade civil.
Ao se abordar Políticas Públicas devem-se necessariamente procurar evidências, em qual
momento do processo de elaboração dessas, encontra-se a figura dos maiores
interessados: a sociedade. Nos documentos analisados, não foram encontradas garantias,
quanto à efetiva participação popular na elaboração das ações voltadas ao esporte. O que
se configura como uma grande lacuna, que deve ser corrigida. Neste sentido, a formação
do conselho municipal de esporte seria o ideal, para trazer os anseios e desejos dos
munícipes para dentro das futuras ações executadas na área do esporte no município de
Jaguaquara-Bahia.
Assim, ao observar a Lei Nº. 724 de 23 de dezembro de 2008, que delibera sobre a criação
da Diretoria de Esporte e Lazer, vinculada a Secretaria de educação, comprovam-se mais um
retrocesso, no campo da polity que trata da ordem política normatizada pela esfera jurídica.
Evidenciam-se, mais um capítulo de anacronismo na história das políticas públicas de
esporte do município de Jaguaquara-Bahia, retirando do esporte o status de secretaria com
maior autonomia e recursos, passando a ser diretoria.
Outro dado importante é encontrado no capitulo II da Lei Municipal nº. 802, de 20 de
dezembro de 2011, que apresenta os conselhos existentes no município. Logo, observa-se

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que não existe o conselho de esporte no município, o que seria um espaço importante para
o dialogo entre gestor e população. Esta questão poderia ser diferente se a gestão da
política fosse voltada para melhoria da sociedade.
Amaral (2009, p.51), assinala que um modelo de gestão em que se preconize mais
participação da população, “a relação entre Estado e sociedade civil está aberta a um
constante aperfeiçoamento, partindo de bases que podem desenvolver processos de
autonomia, de enfrentamento da realidade em voga e que acrescentem indicadores à
construção da cidadania”. A autora, ainda defende, um modelo participativo de gestão cujos
eixos seriam: “a articulação, a ampliação de abrangência, a diversificação e a
descentralização, sendo que a participação da população é central para a sua definição”
(Amaral, 2009, p.51).
Logo, percebe-se que não há uma intenção por parte dos grandes agendes (dominantes)
de abrir um espaço de discussão com os pequenos agentes (dominados) na tentativa de
uma mudança de sociedade ou de uma melhoria na condição de vida dos “dominados”.
Ao contrário, eles pretendem sempre estar no comando da situação e das decisões políticas,
como afirma Mezzadri (2011): “Isso faz com que o campo político se apresente enquanto
um dos espaços sociais mais restritivos e inacessíveis à entrada de novos agentes. As
posições são conservadas e a produção concentrada, fazendo com que o interesse da
sociedade seja reduzido e interpretado a partir dos interesses dos agentes políticos” (p. 96).
Assim, acredita-se que, para uma melhor elaboração das políticas públicas é preciso abrir
espaços para nos agentes participarem das discussões e decisões políticas visando o
desenvolvimento de toda a população.

Considerações finais
Ao finalizar esta investigação, pode-se considerar que, o município investigado precisa
adequar à estrutura administrativa as prerrogativas da Política Nacional de Esporte
buscando soluções para suprir as deficiências relacionadas à temática em questão. Ao
mesmo tempo, se faz necessário planejar adequadamente as ações a serem realizadas,
aliando-as as reais necessidades do poder público bem como garantindo a gestão
participativa no referido processo.
Por fim, constatou-se que a análise da Política Pública de Esporte nos municípios brasileiros
se apresenta como uma excelente ferramenta para o controle da materialização das
diretrizes relacionadas ao fenômeno esportivo. Entretanto, torna-se salutar, a
implementação de novos estudos que possam aprofundar o olhar sobre a temática
abordada.

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Recebido em: 30 abr 2015


Aceito em: 26 jun 2015

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Ageu Bispo dos Santos Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative
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Rev. Intercon. Gest. Desport., Rio de Janeiro, 5 (1): 79-88, junho/2015 88

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