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Higiene Ocupacional (ou morte ocupacional?

Autores: Maurício Torloni e Wilson Miguel Salvagnini


(EPUSP- E.E. Mauá)

A Higiene Ocupacional cuida do ambiente de trabalho para prevenir doenças ou lesões nos
trabalhadores, prove-nientes de atividades em ambientes de trabalho com calor, ruí-do, vibração,
manuseio de substâncias químicas, bioaresóis, agrotóxicos etc. É uma especialização de
importância crescen-te pois a conscientização de que o ambiente de trabalho não deve causar
danos à saúde do trabalhador tem se imposto, infelizmente, à custa de muitas vidas. Segundo a
Organização Internacional do Trabalho (OIT) quase 2 em cada 3 trabalha-dores no mundo inteiro
estão expostos à substâncias químicas, estimando-se que 1,5 a 2 bilhões de pessoas são afetadas.

Devido à sua abrangência podem trabalhar nesta especialização profissionais de todas as áreas do
conheci-mento (médicos do trabalho, enfermeiras do trabalho, físicos, biólogos, psicólogos e
engenheiros químicos etc.).

Os trabalhadores podem encontrar no ambiente de trabalho. devido a inalação de ar impróprio,


situações muito perigosas. Por exemplo, respirar ar contaminado acima da cha-mada
concentração Imediatamente Perigosa a Vida ou à Saúde (IPVS) (por exemplo, 1500 ppm de
monóxido de carbono. 50.000 ppm de gás carbônico, 500 ppm de gás sulfídrico. etc) produzem
efeitos agudos irreversíveis à saúde, ou até morte imediata, dependendo das circunstâncias.
Inalar ar com deficiência de Oxigênio produz as mesmas consequências quando a concentração do
02 no ar cai abaixo de 12,5%, ao nível do mar ( significa que a pressão parcial de 02 no ar é
menor que 95 mm de Hg) (1), isto é, o ambiente também é considerado IPVS. Nestes casos a
vítima perde a coordenação motora, tem a sua capacidade de julgamento muito reduzida e
ocorrem lesões irreversíveis no coração e se não for resgatada imediatamente morrerá em alguns
minutos. Mesmo resgatada, apresentará problemas de saúde pelo resto da vida, devidos as lesões
cerebrais e no músculo cardíaco.

Neste artigo vamos estudar dois casos verídicos onde o perigo está na deficiência de 02. No
primeiro exemplo, morreu um trabalhador e, no outro, se não for tomada alguma provi-dência,
poderá morrer mais um.

Outro ponto que pode ser destacado é a possibilidade de muitas situações de risco poderem ser
previstas desde que o profissional tenha um sólido conhecimento de disciplinas básicas, como
química, física etc.

Caso 1 Um trabalhador foi escalado para pintar uma válvula do tipo gaveta, de grandes
dimensões localizada numa rua pública no fundo de um poço de visita com 1,2 m de diâmetro por
3,5 m de profundidade. Uma testemunha do ocorrido contou que viu o trabalhador levantar a
tampa de ferro e descer pela escada de serviço que também era de ferro, fixa na parede do poço.
Imediatamente subiu, como que para tomar ar, e após uma pausa desceu novamente. A
testemunha, por curiosidade, foi olhar o poço que era bem iluminado pela luz natural, viu o
trabalhador caído, imóvel no fundo do poço. A equipe de res-gate chegou logo e, usando mascaras
autônomas como é usual nestes casos, recolheu a vítima que morreu ao dar entrada no hospital.

A autópsia descartou, como causa mortis, o envenena-mento por monóxido de carbono ou por
queda. A perícia efetuada no local do acidente observou uma grande quantidade de ferrugem no
fundo do poço e nas superfícies metálicas que deveriam ser limpas, lixadas e pintadas. Após duas
horas do acidente foi constatado que o teor de O2 no ar ambiente do poço era igual a 17%. Este
teor baixo de O2 levou à suspeita de que no momento do acidente o teor de O2 seria bem mais
baixo, inclusive menor do que 12,5%, pois a operação de resgate provavelmente alterou as
condições iniciais. Também não foi detectada a presença de qualquer outro gás que pudesse
reduzir o teor de O2. Assim, a hipótese mais provável seria o consumo de O2 pela reação de
oxidação com o ferro!

Para testar a hipótese do oxigênio do ar que existia no poço ter sido consumido devido à formação
de ferrugem, foi colocado um pedaço de degrau de ferro, polido, num tubo de ensaio contendo ar
ambiente, bem fechado e ligado a um manômetro diferencial, conforme a figura 1. Após um longo
tempo a pressão dentro do tubo de ensaio caiu de 760 mm Hg para 660 mm de Hg. Portanto a
pressão dentro do tubo caiu 100 mm de Hg. Como é somente o Oxigênio que reage com o ferro,
pode-se dizer que a pressão parcial do Oxigênio se reduziu de 100 mm Hg ou, lembrando que o ar
tem 21% de Oxigênio, caiu para:
760x0,21-100 = 59,6 mm de Hg

O teor de Oxigênio será então:

59,6/660x100 = 9%

Observe que esse valor é menor do que o IPVS de 12,5%, explicando a queda instantânea do
trabalhador no poço.

Fig. 1 Esquema do sistema para verificar a ação do ferro.

Se a empresa tivesse normas de procedimentos para a execução de tais serviços, como verificar a
presença de risco de explosão devido à presença de gases ou vapores inflamá-veis, medir o teor
de Oxigênio, insuflar ar limpo no fundo do poço antes da entrada de alguém, não teria ocorrido o
acidente. Se os responsáveis pela elaboração dessas normas conheces-sem química, levariam em
conta a avidez do ferro pelo oxigênio. Basta fazer a experiência de colocar fogo em um pe-daço de
palha de aço; observa-se um bonito espetáculo piro-técnico.

Caso 2 Numa fábrica de refrigerantes o controle de qualidade das tampinhas é feita em uma
pequena sala (2X1,5X2,5 m) com uma única porta, sem janelas, nem ventilação forçada. As
garrafas ensaiadas com as tampinhas são cheias com Nitrogê-nio proveniente de um conjunto de
dois cilindros interconec-tados, que ficam dentro da sala, com volume de 8 litros cada um e
pressão de 200 bar. Particularmente nesta indústria não aconteceu nenhum acidente, mas o risco
potencial existe. A pergunta que um agente de segurança fez durante um curso de Proteção
Respiratória ao tomar conhecimento sobre situações IPVS decorrente da deficiência de Oxigênio
foi: seria atingido o nível IPVS se o cilindro vazasse na pequena sala? Para poder responder esta
pergunta é preciso saber qual a quantidade em massa de N2 contida no recipiente de nitrogênio. Aí
entra a velha e não tão querida Termodinâmica.

Vamos admitir que o ambiente da sala esteja a 25o C e 1 atm. A quantidade de Nitrogênio no
cilindro a 25oC e 200 bar pode ser calculada pela equação de estado generalizada:

PV = znRT

O valor de z pode ser encontrado em tabelas de fator de compressibilidade (1), a 25o C e 200 bar
z = 1,02. Assim o número de mols de nitrogênio contido no cilindro será:

n = 194 atm.16 l/(1,02.0,082(atm.l/K.mol).298K)

n = 124,6 mols

(1 atm = 1,033 bar)


Nas condições da pequena sala, o nitrogênio que deixa os recipientes pode ocupar o volume do ar
de dois modos diferentes: a) se o vazamento fosse muito lento daria tempo para o nitrogênio se
misturar com o ar como indicado na Fig. 2, provocando uma “mistura perfeita”. O teor de
Nitrogênio na sala é variável e crescente com o tempo.

Fig. 2 Modelo de mistura perfeita

b) Por outro lado, se o vazamento fosse rápido, não daria para o nitrogênio se misturar e
empurraria o ar para fora permanecendo totalmente dentro da sala, é o modelo “pistonado”, como
pode ser observado na Fig. 3.

Fig. 3 Modelo de mistura pistonado

Para saber qual a concentração de Nitrogênio na peque-na sala quando todo o cilindro vazou no
caso do modelo de mistura perfeita, faz-se um balanço molar de Nitrogênio no volume de controle
indicado na Fig. 4:

Fig. 4 Volume de controle para o balanço de Nitrogênio.

Entra - Sai + Produção = Variação


supondo que a corrente de vazamento dos cilindros seja constante, então a corrente de entrada é

composta de nitrogênio puro , a corrente de saída tem uma concentração de nitrogênio igual à

concentração de dentro da sala pois a mistura é perfeita . Não há produção de nitrogênio


dentro da sala por reação química. Pode-se escrever:

onde x é a fração molar de Nitrogênio dentro da sala, n o número total de mols de gás dentro da
sala e é o tempo.

Supondo que a vazão molar de entrada de nitrogênio na sala seja igual à vazão molar de saída de
ar da sala e que o número total de mols da sala não se altere, tem-se:

rearranjando:

integrando:

lembrar que no início do vazamento, instante 0, o ar da sala tem a concentração normal de


Nitrogênio, 79 %. Resolvendo a integral:

o número total n de mols contidos na sala pode ser calculado por Clapeyron:

O produto é constante e igual à quantidade de mols dentro dos cilindros, 124,6 mols.
Substituindo, tem-se:
A concentração é de 14%, muito perto da concentração de IPVS! Nesse ambiente ocorre fadiga
anormal, perturbação emocional. Perda de coordenação motora e a pessoa tem pequena
capacidade de julgamento. Analisando a hipótese do modelo pistonado o volume de nitrogênio que
escapou dos cilindros nas condições da sala é:

V = n.R.T/P

V = 124,6.0,082.298/1

V = 3044 l

sendo o volume da sala 7,5 m3 o volume de ar na sala depois do vazamento de nitrogênio é:

7,5 -3,04 = 4,46 m3;

Imaginando que o nitrogênio vazado expulse o ar da sala ocupando o seu lugar, o volume total de
nitrogênio na sala nitrogênio remanescente do ar (79% em volume) que ficou mais nitrogênio do
vazamento será:

4,46.0,79 + 3,04 = 6,56 m3

e o teor de nitrogênio na sala:

6,56/7,5x100 = 87,5%

Portanto, o teor de oxigênio na sala: 100-87,5 = 12,5%

O IPVS seria atingido e sem perceber o trabalhador esta- ria em risco de vida. O segundo caso
seria a situação mais perigosa, provavelmente ocorre algo intermediário entre os dois casos.

Com alguns cálculos simples foi possível prever um ambiente de alto risco. Esse conhecimento
mínimo pode fazer a diferença entre a vida e a morte de alguém!

Para mostrar que a história se repete, os jornais anuncia-ram há alguns meses o acidente em que
morreram, um enge-nheiro e um operário da Comgás que examinava uma tubu-lação que estava
sendo testada quanto à vazamentos. O teste consistia em pressurizar a tubulação com Nitrogênio.
A tubu-lação se encontrava dentro de uma vala de muitos quilômetros de comprimento e como
havia vazamentos pelas soldas, o Ni-trogênio saiu e se concentrou nesta vala onde atingiu redu-
zindo o teor de Oxigênio abaixo de 12,5%!

Bibliografia

(1) Torloni, M. Programa de Proteção Respiratória: recomendações; seleção e uso de respiradores.


São Paulo . Fundacentro, 1995.

(2) Hougen, O. A., Watson, K. M., Ragatz, R. A. Princípios dos Processos Químicos, Livraria Lopes
da Silva 1973.

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