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CENTRO UNIVERSITÁRIO CENTRAL PAULISTA – UNICEP

PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA

MICHELE VAROTTO MACHADO

A ATUAÇÃO DO PSICOPEDAGOGO NA CLÍNICA:


CAMINHOS E DESAFIOS DE ADAPTAÇÃO PARA O
TRABALHO DURANTE A PANDEMIA

SÃO CARLOS – 2021


MICHELE VAROTTO MACHADO

A ATUAÇÃO DO PSICOPEDAGOGO NA CLÍNICA:


CAMINHOS E DESAFIOS DE ADAPTAÇÃO PARA
O TRABALHO DURANTE A PANDEMIA

Relatório Final de Pesquisa referente à Pós-Graduação em


Psicopedagogia Clínica, do Centro Universitário Central
Paulista – UNICEP/São Carlos, como requisito para obtenção do
título de Psicopedagoga.

Supervisora: Profa. Dra. Juliana Zantut Nutti

SÃO CARLOS - 2021


“(...) E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas

E é tão bonito quando a gente entende


Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho por mais que pense estar

É tão bonito quando a gente pisa firme


Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração”
Caminhos do Coração
GONZAGUINHA
Dedico este Trabalho a todos que tiveram seus sonhos paralisados, suas aprendizagens
estagnadas e seu desenvolvimento empobrecido diante de um cenário tão caótico e
incerto.
AGRADECIMENTOS

Primeiramente agradeço a Deus, pela minha vida, por me guiar em busca dos
meus sonhos.
Agradeço também à minha filha, Maria Clara, minha luz e minha força, que me
mostra diariamente o mundo de outra forma, resgatando seus encantamentos e me
trazendo esperança de dias melhores.
Ao meu marido, Michel, pela paciência, companheirismo, incentivo e por
compartilhar a vida comigo. Às nossas tantas conquistas, sonhos, objetivos,
aprendizagens e crescimentos que juntos estamos vivendo nestes 16 anos de união.
Aos meus pais, Maria e José, por sempre me incentivarem a estudar, me
apoiarem nesse processo, sem muitas vezes entender o que eu estava fazendo, mas
sempre me ensinando valores tão importantes.
Às minhas amigas por tantas trocas, risadas, conhecimentos e desabafos, que
fazem a vida mais leve e mais feliz.
Ao Curso de Psicopedagogia do Centro Universitário Central Paulista –
UNICEP/São Carlos na pessoa da coordenadora Profa. Dra. Juliana Zantut Nutti, e de
todos os docentes tão incríveis e capacitados que fizeram parte desse momento de
formação e que trouxeram tantos conhecimentos essenciais nesta etapa.
À Psicopedagoga A.G. que gentilmente participou desse Trabalho,
compartilhando suas experiências e reflexões sobre a prática psicopedagógica.
Por fim, agradeço a todos os meus alunos pequenos grandes alunos que me
motivam diariamente a lutar por um mundo melhor, por uma educação digna e de
qualidade.
RESUMO:

O presente trabalho tem como objetivo: identificar a atuação da Psicopedagoga na


Clínica, de modo a evidenciar a importância e desafios que envolvem sua atuação,
especialmente em tempos de pandemia. Para isso, foi realizado um estudo bibliográfico
sobre a Psicopedagogia, com ênfase na Psicopedagogia Clínica, assim como a
compreensão dos principais conceitos que envolvem a epistemologia genética proposta
por Jean Piaget. Para então, a partir da indicação de uma Psicopedagoga atuante na
Clínica do Munícipio de São Carlos-SP, desenvolver o processo de investigação que se
desenvolveu a partir de uma entrevista semiestruturada, evidenciando formação, atuação
e desafios que envolvem o trabalho psicopedagógico na Clínica. A metodologia de
pesquisa além da utilização da entrevista por meio da utilização de questionário
semiaberto, também procurou compreender as dificuldades e impactos que tangem o
processo de ensino-aprendizagem nesse período de pandemia. Os resultados obtidos
apontam para a reinvenção e reorganização da atuação do psicopedagogo,
demonstrando o quanto a atuação psicopedagógica é importante, como forma de
apresentar caminhos que contribuam para auxiliar as crianças mediante às suas
dificuldades no processo de ensino-aprendizagem no cenário atual e após,
principalmente.

PALAVRAS-CHAVE: Psicopedagogia; Psicopedagogia Clínica; Dificuldades de


Aprendizagem; Pandemia.
SUMÁRIO

1 - INTRODUÇÃO..........................................................................................................8
1. A PSICOPEDAGOGIA: CONCEITOS, CAMINHOS PERCORRIDOS E
POSSIBILIDADES........................................................................................................12
1.1 – Breve Histórico sobre a Psicopedagogia: alguns rastros e traços de sua origem............15
1.2 – A Psicopedagogia Clínica: conceitos, objetivos e possibilidade de atuação..................20
2. A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA DE JEAN PIAGET: TEORIA,
CONCEITOS E PROPOSTAS....................................................................................26
1. Jean Piaget: Breve Biografia..............................................................................................26
1.2 – Compreendendo a Epistemologia Genética e seus conceitos.........................................30
1.3 – Os Estágios do Desenvolvimento Cognitivo..................................................................33
3. O CONTEXTO DE REALIZAÇÃO DO ESTÁGIO-PESQUISA........................36
3. 1- Metodologia e Procedimentos do Estágio-Pesquisa.......................................................47
4. PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA: CAMINHOS PARA ATUAÇÃO E
DESAFIOS EM TEMPOS DE PANDEMIA..............................................................51
4.1 – A Especialização em Psicopedagogia Clínica e seus caminhos.....................................52
4.2 – A atuação em Psicopedagogia: da avaliação à intervenção............................................53
4.3 – Desafios e impactos para o atendimento psicopedagógico em tempos de pandemia.....56
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................58
6. REFERÊNCIAS........................................................................................................62
1 - INTRODUÇÃO

O presente Trabalho foi realizado como parte do Curso de Pós-Graduação em


Psicopedagogia Clínica do Centro Universitário Central Paulista – UNICEP – São
Carlos/SP.
A proposta inicial do estudo era desenvolver um Estágio-Pesquisa junto a uma
criança com alguma dificuldade de aprendizagem, a fim de avaliar essa e assim,
elaborar um planejamento de intervenção que pudesse contribuir para ajuda-la na
superação dessa.
Porém, devido à situação de pandemia, desencadeada pelo vírus COVID-19 1 em
que nos encontramos, desde março de 2020, a proposta de realização do Estágio-
Pesquisa ganhou uma nova configuração. Não havendo a possibilidade de participar
ativamente e diretamente (presencialmente) desenvolvendo a proposta de avaliação e
intervenção junto à criança, uma vez que as aulas presenciais de todas as instituições
escolares foram canceladas presencialmente e substituídas pelo que chamamos de um
ensino no formato remoto2. Como também pelo fato de estarmos em quarentena, ou
seja, vivenciando o período de distanciamento social, a fim de não ter nenhum tipo de
contato com pessoas externas à que estão em nosso convívio diário em casa, para que se
possa evitar a proliferação do vírus mencionado, não foi possível o desenvolvimento do
Estágio-Pesquisa nesse formato.
Diante do atual contexto, o Estágio-Pesquisa e a fim de compreender a atuação
do Psicopedagogo na Clínica, bem como os desafios atuais dentro desse cenário caótico,

1
“Os coronavírus são uma grande família de vírus comuns em muitas espécies diferentes de animais,
incluindo camelos, gado, gatos e morcegos. Raramente, os coronavírus que infectam animais podem
infectar pessoas, como exemplo do MERS-CoV e SARS-CoV. Recentemente, em dezembro de 2019,
houve a transmissão de um novo coronavírus (SARS-CoV-2), o qual foi identificado em Wuhan na China
e causou a COVID-19, sendo em seguida disseminada e transmitida pessoa a pessoa. A COVID-19 é uma
doença causada pelo coronavírus, denominado SARS-CoV-2, que apresenta um espectro clínico variando
de infecções assintomáticas a quadros graves. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a maioria
(cerca de 80%) dos pacientes com COVID-19 podem ser assintomáticos ou oligossintomáticos (poucos
sintomas), e aproximadamente 20% dos casos detectados requer atendimento hospitalar por apresentarem
dificuldade respiratória, dos quais aproximadamente 5% podem necessitar de suporte ventilatório”. Mais
informações serão contextualizadas na seção 3 deste Trabalho. Informações retiradas de:
https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca
2
“Chamamos de trabalho remoto toda prestação de serviços que é feita à distância. Ou seja, quando o
colaborador não está trabalhando nas dependências do escritório, da escola, da empresa etc. Ele pode
estar na mesma cidade, em outro país, trabalhar de casa, em um coworking ou viajando o mundo. Já no
home office, é preciso necessariamente trabalhar de casa. Pode ser esporadicamente ou de forma
contínua” Disponível em: https://www.napratica.org.br/qual-a-diferenca-entre-trabalho-remoto-e-home-
office/#:~:text=%E2%80%9CChamamos%20de%20trabalho%20remoto%20toda,coworking%20ou
%20viajando%20o%20mundo
a coordenação do Curso de Psicopedagogia Clínica, Profa. Dra. Juliana Zantut Nutti,
indicou a cada trio de alunos/as uma Psicopedagoga Clínica para que pudesse ser feito
uma entrevista, com o intuito de compreender mais sobre a atuação psicopedagógica na
clínica, os processos avaliativos e de intervenção, bem como os desafios atuais
decorridos do atual cenário de pandemia.
A realização do Estágio-Pesquisa, assim, foi pautada em conversas via
Whatsapp com Psicopedagoga indicada, finalizando com uma entrevista, feita a partir
de um Questionário Semiaberto, no qual a participante pôde destacar, refletir e
compartilhar suas impressões, desafios e impactos que o atual contexto tem gerado na
sua atuação, especialmente no caso das crianças que estão/estavam em atendimento e os
novos encaminhamentos.
Assim, as questões que centraram todo o trabalho realizado foram: “ qual os
motivos que levaram a entrevistada a optar pelo Curso de Especialização em
Psicopedagogia Clínica?”; “como são organizados e planejados os processos avaliativos
e de intervenção que envolvem a atuação do psicopedagogo na clínica?”; “ como a
Psicopedagoga entrevistada está se organizando para desenvolver seu trabalho nesse
contexto de pandemia?”, “qual tem sido os principais desafios enfrentados e os
impactos que o processo de aprendizagem no formato remoto tem ocasionado em
relação às dificuldades de aprendizagem por ela acompanhadas?”.
Com isso, apresenta-se como objetivo principal: identificar a atuação da
Psicopedagoga na Clínica, de modo a evidenciar a importância e desafios que envolvem
sua atuação, especialmente em tempos de pandemia.
Os objetivos específicos são: identificar o processo formativo e os motivos que
levaram a escolha pelo Curso de Especialização em Psicopedagogia Clínica;
compreender os principais fatores que envolvem a atuação do psicopedagogo na clínica,
como: encaminhamentos, devolutivas, avaliação e o processo de intervenção; entender
como a Psicopedagoga em questão organizou-se para continuidade de seus
atendimentos dentro do contexto atual de pandemia; compreender quais os principais
desafios e impactos o ensino remoto tem apresentado e como esse tem interferido na
atuação do psicopedagogo; constatar qual o papel da escola e da família no atendimento
psicopedagógico; e entender qual o desafio do psicopedagogo na clínica mediante ao
cenário atual de pandemia.
Para isso, foi realizado um estudo bibliográfico a princípio, com o objetivo de
destacar a Psicopedagogia e sua importância no contexto da clínica, trazendo uma maior
ênfase ao seu papel ao lidar com as dificuldades de aprendizagem, a fim de contribuir
com o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem.
O estudo, portanto, pautou-se nas discussões de literaturas da área de
Psicopedagogia, ressaltando a importância da atuação psicopedagógica na Clínica,
como um profissional que traz grandes contribuições para o melhor desenvolvimento do
processo de ensino-aprendizagem, por meio da avaliação, e do planejamento de
intervenções que auxiliem a criança/adolescente na superação das dificuldades de
aprendizagem apresentadas. Ou seja, uma atuação que pelo diagnóstico e propostas de
intervenções, ajudem na melhoria do desenvolvimento do sujeito, buscando sempre a
qualidade de aprendizagem desses.
Assim, a fim de atingir aos objetivos propostos e responder às questões de
embasam esse Trabalho, o mesmo foi organizado em cinco seções:
Na primeira foi feita uma revisão bibliográfica sobre o conceito de
Psicopedagogia, seu histórico e as características que envolvem a abordagem Clínica,
demonstrando a atuação psicopedagógica e sua importância para o desenvolvimento das
potencialidades do individuo, contribuindo para um novo olhar por meio do diagnóstico
e intervenções.
Em seguida, na seção dois, apresenta-se uma discussão sobre Jean Piaget, o qual
foi responsável pela elaboração da Epistemologia Genética, que trouxe o embasamento
para o Método Clínico que apresentou elementos e conceitos muito importantes para a
área da Psicopedagogia, assim, na seção mencionada foi apresenta-se um pouco sobre a
trajetória de Piaget, para que então, possam-se compreender os conceitos básicos que
envolvem a Epistemologia Genética e as etapas (estágios) do desenvolvimento humano
propostos pelo autor.
Na seção três, destaca-se a metodologia utilizada para a realização da entrevista,
questões e a justificativa pela mudança de foco no desenvolvimento do Trabalho, de
acordo com o novo contexto delineado pelo COVID-19, apresentando alguns dados
importantes que ajudam a compreender o cenário triste e caótico que o Brasil,
principalmente, encontra-se neste momento.
A seção 4 apresenta a análise e discussão das respostas obtidas a partir da
entrevista realizada com a Psicopedagoga indicada, evidenciando sua trajetória e
atuação, bem como, os principais desafios que envolvem a atuação do Psicopedagogo
na Clínica, evidenciando também como o contexto atual tem impactado nesse processo.
Além disso, veremos o quanto esse momento tem sido desgastante, e como o
psicopedagogo tem um papel fundamental na contribuição para a superação das
dificuldades de aprendizagem que as crianças/adolescentes tem enfrentado também com
o ensino remoto.
E por fim, na seção cinco, retomam-se os principais elementos que esse
Trabalho permitiu, evidenciando um pouco sobre a importância da atuação do
Psicopedagogo na Clínica, especialmente em tempos tão incertos como esse.
Ressalta-se ainda, que o contato, o roteiro e a entrevista, feita com a
Psicopedagoga indicada, foram desenvolvidos em conjunto com as colegas: Maíra
Aparecida Pedroso de Moraes Benedito e Maria Luciana A. do Nascimento, ambas do
Curso de Psicopedagogia Clínica do Centro Universitário Central Paulista – UNICEP.
Desenvolvemos essa parte da entrevista juntas por indicação de nossa coordenadora, o
que foi de muito proveito, pois dialogamos sobre nossas dúvidas, dividimos nossas
inquietações, e ampliamos nossos olhares sobre a atuação psicopedagógica na clínica.
No entanto, a análise da entrevista feita foi realizada de forma individual, por
acreditarmos que cada uma tem sua maneira de compreender e interpretar os dados
obtidos.
1. A PSICOPEDAGOGIA: CONCEITOS, CAMINHOS
PERCORRIDOS E POSSIBILIDADES

Concebida como uma “(...) aplicação da psicologia experimental à pedagogia”,


como Bossa (2011, p. 25) afirma, a Psicopedagogia, no entanto, não se limita apenas a
essa visão. Seu caráter interdisciplinar reconhece as especificidades dessa enquanto área
de estudos, a qual busca conhecimentos em diversos campos para solucionar os
problemas relativos à aprendizagem.
Isso significa que como destacado por Bossa (2011), a Psicopedagogia recorre à
Psicologia, Psicanálise, Linguística, Fonoaudiologia, Antropologia, Medicina,
Pedagogia, enfim à diversas áreas de conhecimento para delimitar seu objeto de estudo
e atuação, fator este que antecede à sua aplicação. Por isso, é tão difícil chegar a uma
definição pontual do que é a Psicopedagogia.
Falar sobre Psicopedagogia, desta forma, significa destacar a articulação entre a
educação e à psicologia, junto com as demais áreas que envolvem o processo de
desenvolvimento humano e que podem estar atreladas às questões que se relacionam ao
processo de aprendizagem. Ou seja,

A Psicopedagogia, como área de conhecimento, surgiu da necessidade de


atender e orientar crianças que apresentavam dificuldades ligadas à sua
educação, mais especificamente à sua aprendizagem, devido a questões
cognitivas ou relacionadas ao seu comportamento social. Embora o seu
histórico contemple a atuação com distúrbios, dificuldades e transtornos de
aprendizagem, o psicopedagogo atua em diversos contextos e populações, no
segmento clínico ou institucional e, para além de identificar os obstáculos e
promover a aprendizagem, este profissional visa o desenvolvimento das
potencialidades do indivíduo, contribuindo com um novo olhar, através do
diagnóstico e das intervenções psicopedagógicas. (BITTENCOURT et al,
2019, p. 197)

Diante de tais considerações, Bossa (2011, p. 31) chama a atenção para o pilar-
base da Psicopedagogia “a aprendizagem e seus problemas”, ou seja,

É função da Psicopedagogia pensar o que é educar, o que é ensinar e


aprender; como se desenvolvem estas atividades; como incidem
subjetivamente os sistemas e métodos educativos; quais as problemáticas
estruturais que intervêm no surgimento de transtornos de aprendizagem e no
fracasso escolar; que proposta de mudanças surgem. (BOSSA, 2011, p. 32)
Para Vercelli (2012) a Psicopedagogia realiza seus trabalhos por meio de
processos e estratégias que levam em conta a individualidade do aprendente, ou seja, é
uma práxis comprometida com a melhoria das condições de aprendizagem. Por isso,
para a autora, todo o trabalho psicopedagógico envolve os aspectos físicos, emocionais,
psicológicos e sociais.
Segundo “Código de Ética do Psicopedagogo”, publicado pela
Associação Brasileira de Psicopedagogia em seu ARTIGO 1º, destaca que

A Psicopedagogia é um campo de conhecimento e ação interdisciplinar em


Educação e Saúde com diferentes sujeitos e sistemas, quer sejam pessoas,
grupos, instituições e comunidades. Ocupa-se do processo de aprendizagem
considerando os sujeitos e sistemas, a família, a escola, a sociedade e o
contexto social, histórico e cultural. Utiliza instrumentos e procedimentos
próprios, fundamentados em referenciais teóricos distintos, que convergem
para o entendimento dos sujeitos e sistemas que aprendem e sua forma de
aprender.3

Ou seja, segundo Oliveira (2018) a Psicopedagogia pode ser ramificada em dois


tipos: a Psicopedagogia curativa ou terapêutica, também denominada de
Psicopedagogia Clínica: que tem como objetivo reintegrar ao processo de construção
do conhecimento um jovem ou uma criança que tenha problemas de aprendizagem. E
dessa forma, sua atuação tem sido realizada em consultórios, porém suas práticas têm
sido reformuladas para o trabalho em grupo, no contexto institucional como escolas,
hospitais e centros de reabilitação. Sua meta, portanto, está em desenvolver as funções
cognitivas integradas ao afetivo, de modo a desbloquear e canalizar o aluno para a
aprendizagem formal.
Oliveira (2018) destaca que esse tipo de trabalho tem sido muito satisfatório,
uma vez que possibilita uma leitura mais próxima da realidade escolar da criança,
identificando melhor os mecanismos que envolvem o processo de aprendizagem e
desenvolvendo situações mais próximas à dinâmica da sala de aula, além disso, traz
uma maior responsabilização à instituição diante da problemática da aprendizagem
escolar, instrumentalizando a equipe docente.
E a Psicopedagogia Preventiva, ou Psicopedagogia Institucional: tem como
objetivo trabalhar mais as questões pertinentes às relações professor-aluno e redefinir os
procedimentos pedagógicos, com o foco de integrar o afetivo e cognitivo, por meio da
aprendizagem dos conceitos, levando em conta as diferentes áreas do conhecimento. Por
3
Disponível em: https://www.abpp.com.br/documentos_referencias_codigo_etica.html
isso, Oliveira (2018) destaca que seu trabalho está mais calcado a uma assessoria junto a
pedagogos, orientadores e professores. Com base nessa proposta, Oliveira (2018, p. 14)
destaca diferentes formas de intervenção psicopedagógica em nível preventivo, como
por exemplo:
• Releitura e reelaboração no desenvolvimento das programações
curriculares, centrando a atenção na articulação do aspecto afetivo- cognitivo, conforme
o desenvolvimento integrado da criança e adolescente.
• Análise mais detalhada dos conceitos, desenvolvendo atividades que
ampliem as diferentes formas de trabalhar o conteúdo programático. Nesse processo
busca-se uma integração dos interesses, raciocínio e informações de forma que o aluno
atue cooperativamente nos diferentes níveis de escolaridade. Complementa-se a esta
prática o treinamento e desenvolvimento de projetos junto aos professores.
• Criação de materiais, textos e livros para o uso do próprio aluno,
desenvolvendo o seu raciocínio, construindo criativamente o conhecimento, integrando
afeto e cognição no diálogo com as informações.
Assim, o Trabalho Psicopedagógico ocorre não só com o aluno para sensibilizá-
lo na construção de seu conhecimento, mas foca-se também no professor, buscando
trazer a esse uma transformação interna que o torne facilitador do desenvolvimento do
educando, estando aberto para lidar com as diferentes questões que envolvem o respeito
mútuo, o poder e a autoridade.
Pode-se afirmar, portanto, que a Psicopedagogia ocupa-se das características da
aprendizagem humana, mais especificamente dos problemas que dessa aprendizagem
podem advir, evidenciando o processo de aprendizagem, suas variações, alterações, de
modo a reconhecê-las e preveni-las, o que ocorre em dois tipos de trabalho: o clínico
(reconhecimento no outro daquilo que está dificultando sua aprendizagem, de modo a
lançar mão de procedimentos diagnósticos e terapêuticos em seu processo de
intervenção) e o preventivo (institucional, o qual tem como objetivo principal diminuir
os problemas relativos à aprendizagem, de forma a interferir mais diretamente nas
questões didático-pedagógicas)4.

4
A respeito da Psicopedagogia Clínica, destacaremos no item 1.2 deste Trabalho.
1.1 – Breve Histórico sobre a Psicopedagogia: alguns rastros e traços de sua
origem

A preocupação com os problemas de aprendizagem não é algo recente. Na


verdade, pode-se destacar que

A história da Psicopedagogia revela a todos a importância de um


posicionamento claro quanto à prática psicopedagógica. Assim, um primeiro
ponto a ser destacado é que, tendo a Psicopedagogia o alvo de discutir e de
atuar sobre a aprendizagem, todo profissional envolvido com essa área deve
ter muita sensibilidade ao abordá-la e fundamentá-la. (RAMOS, 2007, p. 19)

Bossa (2011) afirma que no século XIX a crença no cientificismo como forma
para explicar as desigualdades sociais, levou a uma busca por laboratórios
experimentais de Psicologia, que objetivavam comprovar a capacidade intelectual.
Dessa nova ordem social, caracterizada especialmente pela ascensão do Capitalismo,
vários Psicólogos, Médicos e Educadores dedicaram-se a fundar centros de educação
que abrangessem crianças com algum “problema” que estivesse comprometendo sua
aprendizagem, ou ainda, criando “classes especiais” dentro das próprias instituições
escolares. Fatores estes que contribuíram para a relação entre médicos e educadores no
campo da reeducação.
Segundo Bossa (2011) ainda, no final do século XIX Esquirol (médico
psiquiatra) e Seguin (educador) formaram uma equipe médico-pedagógica, a fim de
estudar/investigar os problemas neurológicos que afetavam a aprendizagem.
Nesta mesma época, Maria Montessori, psiquiatra italiana, criou um método de
trabalho primeiramente destinado às crianças com algum tipo de retardo mental, o qual
posteriormente foi estendido a todas, tal método caracterizou-se pela educação a partir
da estimulação dos órgãos dos sentidos.
Jean-Ovide Decroly também merece destaque nesse período, o qual utilizando
técnicas de observação e filmagem, procurou estudar as situações de aprendizagem, e
foi responsável pela criação dos “Centros de Interesse”5, os quais ainda são estudados e
servem de base para o trabalho com as crianças, especialmente na Educação Infantil.
No século XX cresceu na Europa e nos Estados Unidos o número de escolas
particulares individualizadas, destinas a crianças consideradas com a aprendizagem

5
Refere-se a um trabalho pedagógico pautado em temáticas e não por disciplinas. Assim, por meio do
tema “animais”, por exemplo, o professor conduziria os alunos por várias áreas do conhecimento. Como
destaca Hai (2015).
lenta. Mais especificamente, em 1930, segundo Bossa (2011) surgiu na França os
primeiros centros de Orientação Educacional Infantil, o qual contava com equipes
formadas por médicos, psicólogos, educadores e assistentes sociais, cujo objetivo
principal estava na readaptação das crianças, a partir do tratamento de comportamentos
considerados inadequados na escola e no lar.
A partir, portanto, de uma cooperação entre a Psicologia-Psicanálise-Pedagogia
buscava-se adquirir um conhecimento total da criança e do seu meio, o que ajudaria a
compreender o caso, e assim propor uma ação reeducadora orientada a partir da
gravidade dos distúrbios encontrados na criança.
Nessa via, as ideias a respeito da Psicopedagogia foram ganhando cada vez mais
força, especialmente com os estudos desenvolvidos no século XX, por Janine Mery,
psicopedagoga francesa, a qual fez essa retomada sobre o desenvolvimento do termo
Psicopedagogia pela Europa, e de acordo com Bossa (2011), demonstrou que o termo
“pedagogia curativa”, por sua vez, estava atrelado a uma ação terapêutica que
considerava tanto os aspectos pedagógicos, quanto psicológicos no tratamento de
crianças que apresentassem algum tipo de fracasso escolar, ou seja, essas crianças
demonstravam lentidão para a aquisição dos saberes escolares quando comparadas aos
demais colegas.
Ainda segundo Bossa (2011) George Mauco também merece destaque nesse
processo histórico de origem e consolidação do termo “Psicopedagogia”, isto porque foi
o fundador do primeiro centro médico-psicopedagógico na França, trazendo as
primeiras tentativas de articulação entre Medicina, Pedagogia, Psicanálise e Psicologia,
visando solucionar os problemas relativos à comportamento e aprendizagem.
Tais iniciativas e estudos desencadearam em 1948, no termo “pedagogia
curativa”, definida, de acordo com Bossa (2011), como uma pedagogia terapêutica
voltada para atender crianças e adolescentes desadaptados, que mesmo sendo
inteligentes, tinham maus resultados escolares, seu objetivo estava em auxiliar o sujeito
a adquirir conhecimentos e a desenvolver sua personalidade.
De acordo com a autora ainda, a Pedagogia Curativa está no interior do que anos
depois foi chamado de Psicopedagogia, a qual pode ser entendida como “(...) área que
estuda e lida com o processo de aprendizagem e suas dificuldades e que, em uma ação
profissional, deve englobar vários campos do conhecimento, integrando-os e
sistematizando-os.”. (BOSSA, 2011, p. 61).
Já na América do Sul, Bossa (2011) afirma que foi na Argentina que a
Psicopedagogia teve maior destaque, surgindo há mais de 40 anos e sendo tão antiga
quanto a carreira de Psicologia. Sua origem nesse país esteve atrelada à necessidade que
profissionais de outras áreas tiveram de ocupar um espaço que não podia ser preenchido
nem pela Pedagogia e nem pela Psicologia, e por isso, iniciaram um processo de
reeducação tendo como objetivo resolver fracassos escolares trabalhando com:
memória, percepção, atenção, motricidades, pensamento, ao mesmo tempo em que
elaboravam planos de tratamento que objetivavam vencer as faltas nesse processo de
aprendizagem.
A repercussão dentro do território argentino foi tão positiva, que segundo Bossa
(2011) a cidade de Buenos Aires acabou por oferecer, pioneiramente, uma Faculdade de
Psicopedagogia já na década de 1950. Curso este que passou por diversos momentos e
reorganizações, porém, sempre estando ligada às áreas da Educação e Saúde, pois
destacam que a função do psicopedagogo está em cooperar para diminuir o fracasso
escolar, seja este da instituição ou do sujeito, como também, em trabalhar em
consultórios particulares, hospitais, de modo a reconhecer e atuar sobre as alterações
relativas à aprendizagem, por meio de diagnósticos que ajudem a compreender o
paciente e sua problemática.
Foram por meio desses cursos difundidos no território argentino, que a
Psicopedagogia foi ganhando espaço no Brasil. De acordo com Bossa (2011), o
professor Julio Bernaldo de Quirós, médico e professor em Buenos Aires, dedicou-se
nas décadas de 1950 e 1960 à realização de estudos e pesquisas nas escolas argentinas
sobre o processo de leitura e escrita, os quais foram publicados ainda nesse período e
difundidos em conferências pelo Brasil na década de 1970.
Além disso, em Porto Alegre profissionais organizavam centros de estudos
baseados no Centro Médico de Pesquisas de Buenos Aires, o qual desencadeou na
fundação do Centro de Estudos Médicos e Psicopedagógicos na capital gaúcha, pelo
professor Nilo Fichtner, voltado para a formação psicopedagógica, já na década de
1950, o qual se tornou parceiro do professor Quirós e juntos desenvolveram cursos,
estágios e pesquisas para a formação de especialistas em Psicopedagogia, na década de
1970.
Outro aspecto que merece destaque a respeito da “entrada” da Psicopedagogia
no Brasil e de sua difusão está atrelada ao 1º Encontro de Psicopedagogos que ocorreu
na capital paulista em novembro de 1984, o qual, segundo Bossa (2011), a partir da
apresentação dos trabalhos e troca de experiências, desencadeou a partir de 1986 na
concretização da Associação Brasileira de Psicopedagogia.
Porém, por muito tempo a crença de que os problemas de aprendizagem eram
causados por fatores orgânicos perdurou e influenciou na forma de tratamento dada ao
fracasso escolar, ou seja, este fora visto como um distúrbio/ disfunção do sistema
nervoso central do sujeito. No Brasil, por exemplo, na década de 1970 foi difundida a
ideia que esse fracasso estava atrelado a disfunções neurológicas que não eram
detectáveis por exames clínicos, o que ficou conhecido como Disfunção Cerebral
Mínima (DCM).
Fator esse que foi fortemente incorporado no Brasil, por apresentar uma
explicação mais ingênua que justificasse a situação do “nosso” sistema de ensino. A
DCM, portanto, foi colocada como um rótulo que retirava a “culpa” de um sistema de
ensino desigual, precário e seletivo, direcionando o fracasso escolar como
responsabilidade de cada sujeito.
Por isso, surgiram ainda na década de 1970, como Bossa (2011) relata, cursos
com enfoque psicopedagógico oferecidos por psicólogos, pedagogos e profissionais de
áreas afins, em busca de soluções para ajudar as crianças que não correspondiam às
demandas escolares.
Tanto que em 1979 foi criado o primeiro curso de Psicopedagogia no Brasil, no
Instituto Sapientiae, em São Paulo, procurando valorizar a ação do educador, e assim

A expectativa dos que procuravam o curso voltava-se para a atuação em nível


clínico. Posteriormente, com os novos conhecimentos das áreas de
Linguística, Psicolinguistica e teorias do desenvolvimento, inclusive as
contribuições de Emilia Ferreiro, os problemas de aprendizagem são
ressignificados, e os próprios cursos passam a ter outro direcionamento.
Assim, inclui-se o atendimento grupal no modelo clínico, e inicia-se uma
linha de trabalho em nível preventivo. (BOSSA, 2011, p. 85).

Apenas na década de 1980, de acordo com Bossa (2011) começou a se


configurar no Brasil a ideia de que o fracasso escolar estaria atrelado não a um
problema de aprendizagem apenas, mas também de “ensinagem”. Tais fatores foram
responsáveis por evidenciar que o “fazer” e o “viver” pedagógico cotidianamente nas
escolas poderiam ajudar a compreender as razões dos fracassos escolares. A partir disso,
desencadearam uma série de estudos e pesquisas, os quais destacavam que o fracasso
escolar estaria muito mais atrelado a um problema social e politico, do que a distúrbios
neuropsicológicos dos sujeitos.
Além disso, esses trabalhos evidenciaram e destacaram o descaso político e dos
governantes com o sistema de ensino, fator esse que mesmo agora, no século XXI,
regride a cada dia.
Vale ressaltar que na década de 1990, os cursos de Psicopedagogia espalharam-
se por todo Brasil, em lato sensu, com uma forma específica de atuação e com o “(...)
compromisso de contribuir para a compreensão do processo de aprendizagem e
identificação dos fatores facilitadores e comprometedores desse processo, com vistas a
uma intervenção.”. (BOSSA, 2011, p. 87).
Ou seja, a Psicopedagogia no Brasil é a

(...) área que estuda e lida com o processo de aprendizagem e suas


dificuldades e, em uma ação profissional, deve englobar vários campos do
conhecimento, integrando-os e sintetizando-os. Em relação à questão da
formação, da maneira como se dá no nosso país, ela pressupõe vantagens e
desvantagens. De um lado, o fato de a nossa formação em Psicopedagogia
envolver diversificados profissionais acentua, diferentemente do que ocorre
na Argentina, o caráter interdisciplinar dessa área de estudo. De outro, em
razão exatamente da presença de profissionais diversos, o psicopedagogo
enfrenta dificuldades em construir uma identidade própria. (BOSSA, 2011, p.
88).

No entanto, do ponto de vista legal a Psicopedagogia ainda não representa uma


nova profissão, como na Argentina, mas está voltada para alguém que já atua em
alguma função e deseja complementá-la com os estudos de Especialização em
Psicopedagogia, a qual busca fornecer os subsídios necessários para compreensão sobre
a situação de aprendizagem do sujeito, seja individual ou em grupo, de modo a
contribuir tanto com o desenvolvimento e aprendizagem individual quanto com os
espaços destinados ao processo de aprendizagem, como por exemplo, o meio escolar.

1.2 – A Psicopedagogia Clínica: conceitos, objetivos e possibilidade de


atuação

A Psicopedagogia Clínica, segundo Bossa (2011) busca compreender não só o


porquê o sujeito não aprende, mas também o que ele pode aprender e como, podendo
ser realizada em hospitais ou consultórios. Isto significa que o caráter clínico, segundo a
autora, está na atitude de investigação, e consequentemente de intervenção, diante da
situação em particular ou exposta, de modo a compreender o significado, a causa e a
modalidade de aprendizagem do sujeito, com o intuito de sanar suas dificuldades,
sendo, portanto, o foco de seu trabalho a aprendizagem do sujeito e o que envolve esta.
Em outras palavras,
A Psicopedagogia Clínica procura compreender de forma global e integrada os
processos cognitivos, emocionais, sociais, culturais, orgânicos e pedagógicos que
interferem na aprendizagem, a fim de possibilitar situações que resgatem o prazer de
aprender em sua totalidade, incluindo a promoção da integração entre pais, professores,
orientadores educacionais e demais especialistas que transitam no universo educacional
do aluno. (BOSSA, 2011, p. 104).
Para Bossa (2011) ainda, a Psicopedagogia mesmo na clínica tem um caráter de
prevenção, uma vez que ao intervir em uma dificuldade instalada é possível prevenir o
aparecimento de outros problemas.
Além disso, a autora ressalta que o trabalho Psicopedagógico seja na instituição
ou na clínica deve sempre considerar o contexto de vida do sujeito na família, escola e
comunidade. Tais fatores são fundamentais, uma vez que “(...) as características da
família, da escola ou até mesmo do professor podem ser a causa desencadeante do
problema de aprendizagem”. (BOSSA, 2011, p. 137).
Para Marioto (2018)

(...) enfoque clínico tem um objetivo terapêutico e precisa levar em


consideração o sujeito e sua história, ou seja, a relação que aquele sujeito
estabelece com o aprender, em outros termos, a relação que aquele sujeito
estabelece com seu sintoma.

O objetivo terapêutico está em facilitar uma vinculação mais adequada para a


aprendizagem, de modo a traçar estratégias por meio de uma investigação cuidadosa,
que permita ao aluno/sujeito torne-se o agente de seu processo e se aproprie do saber,
para alcançar, como Bossa (2011) destaca, autonomia e independência na construção de
seu conhecimento.
Dessa forma, podemos compreender que a atuação do Psicopedagogo na Clínica
está voltada ao estudo da gênese da aprendizagem, como o sujeito aprende e assim,
poder auxiliar nos problemas relacionados a essa. Por isso, “(...) paciência, tolerância à
frustração; capacidade para ouvir; capacidade de não julgar; se isentar de preconceitos,
respeito pelo sujeito que sofre; sensibilidade; vasto conhecimento teórico”.
(MARIOTO, 2018, p. 77).
São alguns dos atributos fundamentais, para a autora na atuação
psicopedagógica. Aos quais é acrescido um tripé fundamental: estudo teórico,
autoavaliação e supervisão. Isto porque ao profissional que atua na clínica é
recomendada a terapia como forma de auxílio para não se “misturar” ao caso, e ao
entender a si, o profissional ganha mais propriedade para entender o outro.
Vale ressaltar que na clínica existe um protocolo a ser seguido no atendimento o
qual engloba:
• Entrevistas
• Anamnese
• Aplicação de técnicas para diagnóstico
• Contato com a escola
• Devolutiva
• Encaminhamentos
• Procedimentos de intervenção psicopedagógicas. (MARIOTO, 2018, p. 77).

Para Bossa (2011), no entanto, a busca por conhecer mais sobre esse processo de
aprendizagem do sujeito, suas dificuldades e potencialidades, inicia-se no processo de
diagnóstico, momento em que se busca fazer uma leitura da realidade do sujeito, a partir
da qual então, é possível proceder com a intervenção, tratamento e encaminhamento.
Todo esse processo diagnóstico que compete ao psicopedagogo clínico está
atrelado a uma análise cuidadosa da etiologia e particularidade em relação às alterações
no aprender, fracasso escolar e as diferentes formas sob as quais os problemas de
aprendizagem se apresentam. De acordo com Bossa (2011) o diagnóstico faz parte de
todo trabalho psicopedagógico, sendo um processo contínuo, sempre revisitável,
composto por uma atitude investigadora, prosseguindo durante todo o trabalho, até
mesmo na intervenção, sendo seu objetivo a observação e acompanhamento da evolução
do sujeito.
Vale ressaltar que o trabalho do psicopedagogo na clínica além do diagnóstico e
tratamento, requer procedimentos específicos que constituem o que Bossa (2011)
denomina de metodologia ou trabalho clínico. No entanto, cabe ao profissional escolher
qual a melhor forma de operar em sua clínica, o que irá depender se sua postura teórica,
como também a consideração das nuances que envolvem cada caso, afinal não existe
uma única e nem melhor forma de realizar o trabalho psicopedagógico.
Segundo o Código de Ética do Psicopedagogo, publicado pela Associação
Brasileira de Psicopedagogia em 1995/1996, o trabalho psicopedagógico na clínica é
considerado remediativo, tendo como objetivos:

(i) promover a aprendizagem, garantindo o bem-estar das pessoas em


atendimento profissional, devendo valer-se dos recursos disponíveis,
incluindo a relação interprofissional; (ii) realizar pesquisas científicas no
campo da Psicopedagogia. (BOSSA, 2011, p. 152).

Assim, podemos afirmar que o trabalho clínico que envolve a Psicopedagogia


acontece em dois momentos especiais: a fase diagnóstica (com testes que ajudem a
trazer pistas para o saber) e a fase de intervenção. Ou seja, investiga-se, inicialmente, o
sentido da problemática do sujeito que é encaminhado, para então intervir a fim de
remediar a situação. Porém, isso não significa que o processo de investigação é
rompido, pelo contrário, para Bossa (2011) ele continua durante todos os atendimentos,
e a cada intervenção, a fim de encontrar mais elementos que ajudem a compreender a
problemática o mais detalhado possível.
Para Weiss (2020, p. 30) “toda a aprendizagem da criança na escola tem uma
pré-história”, que precisa ser investigada e considerada em todo processo de
investigação, a qual se refere a uma pesquisa do que está dificultando a conduta do
sujeito diante de uma situação, procurando esclarecer a queixa apresentada, seja esta da
família, do sujeito e, na maioria dos casos, da escola. O que está diretamente ligado,
como a autora afirma, ao não aprender, aprender com dificuldade, não revelar o que foi
aprendido ou fugir de situações de aprendizagem.
A investigação, desta forma, permite a “(...) compreensão global da sua forma de
aprender e dos desvios que estão ocorrendo neste processo” (WEISS, 2020, p. 31). Com
o objetivo de organizar os dados obtidos em relação à vida biológica, intrapsíquica,
social e pessoal, a partir da qual se busca uma unidade de compreensão do sujeito.
Segundo Weiss (2020,p.39) há uma sequência diagnóstica que pode ajudar no
contato com os casos, a fim de melhor compreendê-los, as quais são:

a. Entrevista Familiar Exploratória Situacional;


b. Entrevista de Anamnese;
c. Sessões lúdicas centradas na aprendizagem (para crianças);
d. Complementação de provas e testes (quando for necessário);
e. Síntese Diagnóstica-Prognóstico;
f. Entrevista de Devolução e Encaminhamento.
Por isso, o diagnóstico é fundamental nesse processo. Além disso, a autora
chama a atenção para o método clínico desenvolvido por Jean Piaget6, o qual tem como
objetivo compreender como a criança pensa e como ocorre a aquisição do
conhecimento. Consiste em um interrogatório, em que as questões feitas ao sujeito têm
por objetivo acompanhar o passo a passo do desenrolar de seu pensamento.
De acordo com Marioto (2018), as perguntas visam acompanhar as ações,
reações e respostas dadas pelo sujeito, de modo a investiga-las, não importando se estão
certas ou erradas, e nem se configurando como um mero questionário a ser respondido.
Assim ao ouvir a resposta dada pelo sujeito, cabe ao profissional investigar
como ele chegou a esta resposta, desvendando o processo de raciocínio envolvido e
como o pensamento está encadeado.
Ao fazer a explicação de como chegou a resposta, a criança, desta forma, revela
como organizou seu raciocínio, o que permite à ela demonstrar como funciona seu
pensamento.
Quando parte disso, o profissional consegue mapear as teorias da criança, suas
hipóteses e histórias, desvendando o que ela apreendeu do mundo e de que forma isso
foi introjetado por ela. Marioto (2018) ainda destaca que cada questionamento feito à
criança abre a possibilidade à novas indagações que ampliam a compreensão acerca do
raciocínio elaborado por ela.
Nesta via, interessam-se mais pelas explicações do que pelo certo ou errado, de
modo a evidenciar sua capacidade de compreensão e reflexão. Isto significa que a forma
com que a criança explica seu raciocínio e as perguntas que ela faz indicam o nível de
desenvolvimento em que ela se encontra. Ou seja, como destaca Marioto (2018, p. 79).
O método clínico é, então, um procedimento de entrevistas com crianças, com
coleta de dados, onde se acompanha o pensamento da criança, com intervenção
sistemática, elaborando sempre novas perguntas a partir das respostas da criança e,
avaliando a qualidade e abrangência destas respostas. (MARIOTO, 2018).
Além disso, durante o interrogatório é fundamental estar atento a qualidade das
respostas, verificando como a criança as sustenta e como age diante dos contra
argumentos. O que indica a solidificação de seus pensamentos, ou seja, o que importa é
a qualidade dos argumentos utilizados pela criança.

6
Sobre o qual destacaremos com mais propriedade no item 2 deste Trabalho.
Piaget, como Marioto (2018) afirma notou que as crianças não pensam como os
adultos, mas formulam suas próprias teorias aos problemas, de acordo com a fase de seu
desenvolvimento cognitivo.
Assim, ao pensarmos no campo da Psicopedagogia, o Método Clínico proposto
por Piaget, traz possibilidade de questionarmos e aprofundarmos nos conhecimentos da
criança, compreendendo o processo que ela faz para construir seu pensamento, através
dos seus argumentos, o que contribui para que a atuação psicopedagógica incida nos
pontos de maior dificuldade e ajudem a criança a supera-los.
O diagnóstico que o método clínico permite a partir do laço criado entre criança
e profissional contribui para uma maior e melhor investigação sobre suas compreensões
a quais dão pistas para que possamos investigar as respostas da criança e assim, é
possível o estabelecimento de hipóteses que ajudem a nortear as possíveis
interpretações.
Assim, afirmamos que o psicopedagogo clínico tem como objetivo entender a
dificuldade da criança, de modo a levantar suas causas e pensar em um caminho para
intervenção, a fim de identificar saídas possíveis e oferecer caminhos. Nessa via o
método clínico consiste em um instrumento importante que, por meio de
questionamentos, acompanha passo a passo o desenrolar de seu pensamento, por meio
das ações, reações e respostas do sujeito. Ao fazer uso desse método, o psicopedagogo é
capaz de avaliar, traçar um diagnóstico e elaborar o processo de intervenção.
Ou como Weiss (2020, p. 17-18) afirma:

O atendimento psicopedagógico clínico possibilitará a intervenção e o apoio


permanente para possíveis mudanças de conduta do aluno-paciente, dentro do
respeito a suas características pessoais (...) [e] criará a possibilidade de
mudança significativa que permitirá o crescimento constante das
características individuais, de mudança na singularidade de cada um,
respeitando o que é próprio do sujeito, o que pertence à família, o que
pertence à escola e o que pertence à sociedade nesse momento histórico.

Portanto, avaliar, diagnosticar e intervir são práticas que envolvem o trabalho


psicopedagógico e devem caminhar juntas. E são a base para uma atuação clínica de
qualidade que avalie o processo de andamento do trabalho, verificando os frutos
produzidos e a própria atuação, e buscando elementos que potencializem e impulsionem
o processo de aprendizagem do sujeito em questão, eliminando os efeitos nocivos que
tal dificuldade de aprendizagem tem apresentado ao sujeito e seu desenvolvimento.
Tendo em vista essas questões, especialmente no que se refere ao papel da
Psicopedagogia Clínica, não é possível compreender sua atuação sem que antes,
compreenda-se com mais profundidade o Método Clínico, e os fatores que envolvem
uma das metodologias que podem embasar a atuação psicopedagógica, no caso
adentraremos na Epistemologia Genética de Jean Piaget, bem como os estágios de
desenvolvimento explicitados por este, o que contribuirá para melhor compreensão
sobre o papel e possibilidades de investigação, intervenção e avaliação psicopedagógica
na clínica.
2. A EPISTEMOLOGIA GENÉTICA DE JEAN PIAGET: TEORIA,
CONCEITOS E PROPOSTAS

Como destacado na Seção 1 deste Trabalho, Jean Piaget foi responsável pela
elaboração da Epistemologia Genética, a qual trouxe o embasamento para o Método
Clínico que apresentou elementos e conceitos muito importantes para a área da
Psicopedagogia, por isso, nesta seção procura-se destacar um pouco sobre a trajetória de
Piaget, para que então, possamos compreender os conceitos básicos que envolvem a
Epistemologia Genética e as etapas (estágios) do desenvolvimento humano propostos
pelo autor.

1. Jean Piaget: Breve Biografia

Jean Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, no dia 9 de agosto de 1896. De acordo


com Taille (1990) muito pouco se sabe sobre sua trajetória particular de vida de Piaget,
no entanto, em seus 60 anos de estudos sobre a criança e o desenvolvimento humano,
torna-se possível descobrir alguns pontos importantes que embasaram sua filosofia.
Ainda quando criança, por meio de seu padrinho, Piaget entrou em contato com
a Filosofia, e dentre os estudos desta, elegeu a Epistemologia 7 como um campo
preferido para aprofundar e estudar. “O que é conhecimento e como este é produzido?”
foram as perguntas, que segundo Taille (1990) moveram Piaget e o interessaram desde o
princípio, fazendo com que ele buscasse estudar a noção e “estabelecimento” de todo o
conhecimento. Foi assim, que Piaget, começou a “devorar” livros de Filosofia e a
escrever suas ideias a respeito de Epistemologia ainda na juventude, decidindo buscar
uma “explicação biológica do conhecimento”.
Para Coll e Martí (2004), Piaget vê o conhecimento como um processo, o qual
deve ser estudado em seu devir de maneira histórica, por isso dedica-se em estudar
como o conhecimento muda e evolui.

7
Segundo Taille (1990, p. 05) “A epistemologia é um ramo da filosofia que estuda problemas relativos ao
método científico e às garantias que este oferece de promover um conhecimento verdadeiro. Como
existem várias ciências, cada uma apresentando objetos e métodos diferentes, pode haver uma
epistemologia da Física, outra da Psicanálise, outra ainda da Sociologia, e assim por diante. Todavia,
apesar da diversidade das áreas e de suas singularidades respectivas, alguns problemas de fundo
permanecem: o que é conhecimento? como ele é possível? como é produzido? etc. Verifica-se que são
questões que dizem respeito ao Homem, e não mais a um ou outro especialista”.
Aos 18 anos Piaget optou pela formação universitária em Biologia,
desenvolvendo pesquisas e estudos na área de Malacologia, na qual obteve os títulos de
mestre e doutor. Tal formação fez com que Piaget, segundo Taille (1990), apreciasse o
trabalho experimental, porém, ainda estava em conflito com as questões
epistemológicas, fator esse que o levou a se interessar pela área da Psicologia.
Em 1918, então, Piaget foi para Zurique, onde teve contato com a Psicanálise,
em seguida passou dois anos em Paris, onde seguiu cursos de psicologia patológica,
momento em que foi convidado para trabalhar no laboratório de Binet, um eminente
psicólogo da época, e foi neste local que ele pôde desenvolver mais seus estudos sobre a
criança.
Segundo Taille (1990) o convite para o trabalho no laboratório de Binet na
época, foi para que Piaget construísse um teste de inteligência para as crianças
francesas, e em meio à disponibilidade de estar em um laboratório, o que proporcionou
que ele pudesse investigar as razões dos fracassos infantis e não só “medir o êxito e
fracasso das crianças”. Para isso, Piaget passou a entrevistar cada criança dando
condições para que essa pudesse externalizar seus raciocínios.
Os resultados desse trabalho, para Taille (1990) foram surpreendentes. A partir
dessas entrevistas e contato com as crianças Piaget pôde descobrir que a lógica
(necessária à produção de conhecimento) não é inata, e com isso passou a buscar
compreender o que leva o pensamento humano de forma lógica.
Em 1921, Piaget retornou para Suíça, onde traçou seu Plano de Trabalho
“compreender as estruturas elementares da inteligência”, o que levou 50 anos e 50 livros
todo esse estudo.
De acordo com Taille (1990) de 1921 a 1932 Piaget escreveu cinco livros sobre
o pensamento infantil, intitulados: A Linguagem e o Pensamento na Criança (1923); O
Juízo e o Raciocínio na Criança (1924); A Representação do Mundo na Criança (1926);
A Causalidade Física na Criança (1927); e O Juízo Moral na Criança (1932). Todas
essas obras procuraram verificar se o desenvolvimento da inteligência seguia as mesmas
etapas em todas as faixas etárias, e em que medida ia se diferenciando da vida adulta.
Mesmo com tantas obras em busca dessa compreensão, Piaget afirma, segundo
Taille (1990), que essas obras foram apenas um esboço de uma teoria mais ampla.
Além disso, por meio dessas obras, Piaget passou a ocupar a comunidade
universitária e a ocupar cargos importantes, o que permitiu que Piaget conseguisse ajuda
de vários colaboradores no desenvolvimento de suas ideias, na realização das entrevistas
com crianças, pois, de acordo com Taille (1990), Piaget sabia que ainda tinha muito
trabalho pela frente, a fim de desenvolver mais suas ideias, explorando a manipulação
de objetos e a construção do raciocínio.
Tais estudos permitiram que Piaget pudesse estabelecer o caminho percorrido
pela inteligência desde o nascimento até a fase adulta, o que permitiu que ele
desenvolvesse uma conceituação psicológica, estabelecendo estágios do
desenvolvimento cognitivo, sobre os quais estudaremos com mais afinco no item 1.3
deste Trabalho.
Vale ressaltar, que toda essa conceituação levou aproximadamente 20 anos para
ser elaborada, para que Piaget pudesse coletar todos os dados necessários que lhe
permitissem uma interpretação teórica clara. Além disso, Taille (1990) afirma que o
nascimento de seus filhos, ajudou Piaget nesse processo de investigação, sendo eles:
Jacqueline – nascida em 1925; Lucienne – nascida em 1927; e Laurent – nascido em
1931. Foram bebês que entraram para a história da Psicologia e que pela observação
minuciosa de seus comportamentos, Piaget escreveu uma trilogia comporta pelas
seguintes obras: O Nascimento da Inteligência (publicado em 1936); A Construção do
Real na Criança (publicado em 1937); A Formação do Símbolo na Criança (publicado
apenas em 1946). Obras pelas quais ele interpretou e descreveu o estágio que
denominou de Sensório Motor.
Porém, não foi apenas com essa trilogia que o psicólogo elaborou suas
interpretações a respeito do desenvolvimento humano. Com a ajuda de colaboradores,
ele foi capaz de se debruçar em vários temas e trazer mais publicações: A gênese do
número na criança (1941); O desenvolvimento das quantidades físicas na criança
(1941); A representação do espaço na criança (1948).
Em seguida, mesmo passando tanto tempo debruçado à Psicologia Infantil,
Piaget em 1949/1950 publicou sua obra sobre “Introdução à Epistemologia Genética”,
em três volumes, com os quais procurou, segundo Taille (1990), fundamentar a
aquisição do conhecimento sob o ponto de vista do crescimento e desenvolvimento.
Epistemologia Genética foi o nome escolhido por Piaget para sua teoria, pois seu
principal objetivo estava em explicar os processos e formação de conhecimento,
identificando as etapas pelos quais ele passa, o que levou mais de 30 anos para que ele
pudesse fazer toda essa construção.
A partir dessa publicação e desenvolvimento desse estudo, Piaget fundou em
1956 o Centro de Epistemologia Genética em Genebra. Assim,
Com 54 anos de idade, 30 anos de trabalho e a publicação de livros essenciais
ao pensamento filosófico e psicológico, muitos homens dar-se-iam por
satisfeitos e passariam o resto da vida administrando a fama adquirida. Não
seria, aliás, uma atitude criticável. Mas, para Piaget, tal aposentadoria
intelectual era impensável. (TAILLE, 1990, p. 14).

Piaget afirmava que havia muito que ser pesquisado em sua teoria, em relação
aos processos de desenvolvimento. Com isso, Piaget reuniu uma grande equipe, que
trabalhou e muito com ele de 1959 a 1980, ou seja, até o ano de seu falecimento,
publicando 37 volumes, muitos dos quais se tornaram clássicos no campo da Filosofia e
Psicologia.
Dentre as obras publicadas, podemos destacar: Psicologia da Inteligência (1947);
Seis estudos de Psicologia (1964); Psicologia da Criança (1966); Epistemologia
Genética (1970); Sabedoria e Ilusões da Filosofia (1965); Estudos Sociológicos (1965);
Psicologia e pedagogia (1969); Para onde vai a educação (1971); Biologia e
Conhecimento (1967); Adaptação Vital e Psicologia da Inteligência (1974); O
Comportamento, Motor da Evolução (1976); A gênese da ideia de acaso na criança
(1951); Da lógica da criança à lógica do adolescente (1955); A gênese das estruturas
lógicas elementares: a classificação e a seriação (1956); Os mecanismos perceptivos
(1961); A imagem mental na criança (1966); Memória e inteligência (1968); Tomada de
Consciência (1974); Fazer e Compreender (1974); Pesquisas sobre a Contradição (dois
tomos – 1974); Pesquisas sobre a Abstração Reflexiva (dois tomos – 1977); O possível
e o necessário (1988); Para uma lógica das significações (1987).
Estas são apenas algumas das obras de Piaget que fizeram história. Podemos
afirmar que Jean Piaget deixou um legado fundamental para a compreensão sobre o
desenvolvimento humano, segundo Taille (1990, p. 25): “(...) Piaget foi até o fim da
vida um homem simples e reservado, feliz com o reconhecimento mundial de suas
idéias e com a discreta admiração de seus vizinhos que o chamavam carinhosamente de
o homem do cachimbo”. O mais admirável em Piaget, para o autor, não foi o fato de ter
escrito seu primeiro artigo científico com 15 anos de idade, mas a partir daí nunca ter
cessado seus estudos e escrever incessantemente sobre temas renovados.
A partir desta breve consideração acerca da trajetória de Piaget, nos centraremos
nos itens a seguir, a compreender mais sobre os conceitos estudados e explicitados em
suas obras.
1.2 – Compreendendo a Epistemologia Genética e seus conceitos

De acordo com Coll e Martí (2004), Piaget buscou estudar como o conhecimento
é possível, porém, mais ainda como este evolui e muda, por isso, elabora uma teoria
psicológica para fundamentar sua proposta, a qual foi denominada pelo psicólogo de
“Epistemologia Genética”, que pode ser compreendida como uma disciplina que estuda
os mecanismos e os processos mediante aos quais se passa “dos estados de menor
conhecimento aos estados de conhecimento mais avançado”. (COLL e MARTÍ, 2004, p.
49).
As propostas de Piaget (1978), neste sentido, partem do pressuposto de que as
estruturas mentais, denominadas por ele de esquemas, são responsáveis pela
sobrevivência e adaptação do organismo no mundo que o envolve, em vista que são
esses esquemas que proporcionam o conhecimento sobre os objetos e como fazê-los.
Dessa forma, como Molinari (2019) afirma, para Piaget, o ser humano não nasce
inteligente, as estruturas mentais que constituem a inteligência são construídas pelo
sujeito em seu processo de relacionamento, ação e compreensão do meio. Por isso,
podemos afirmar que as estruturas são construídas progressivamente por meio das ações
do sujeito com o conhecimento, numa relação dinâmica, dialética e sempre crescente.
Segundo Salvador (1999) a inteligência humana representa uma determinada
forma de adaptação biológica, pela qual, o organismo humano alcança o equilíbrio em
suas relações com o meio, assim “o mesmo tipo de intercâmbio adaptativo entre
organismo e meio produzido no terreno biológico produz-se também no terreno
psicológico no processo de conhecimento dos objetos.” (SALVADOR, 1999, p. 87).
Antes, porém, de adentrarmos nos conceitos de equilibração, acomodação,
assimilação, é importante destacar quais as concepções de Piaget a respeito de estrutura
e esquema.
Como afirma Salvador (1999) esquema está relacionado à ação, isto é, define-se
como um conjunto de características que permitem repetir a mesma ação ou aplica-la a
novos objetos, sua coordenação está relacionada com a evolução dos atos reflexos. Já as
estruturas podem ser entendidas como forma de organização da vida mental, como
Molinari (2019, p. 11) afirma:

(...) são sistemas que apresentam leis de totalidade, de tal forma que os seus
elementos não podem ser caracterizados ou definidos independentemente das
relações que os ligam. Geralmente uma estrutura comporta diversos
esquemas coordenados entre si, de tal forma que uma modificação em um
esquema pode provocar modificações em todos os demais e na estrutura total.

Salvador (1999) ainda destaca que, a sucessão de estruturas que vão se


construindo representam formas de relação e de compreensão da realidade de maneira
cada vez mais potentes.
Na Epistemologia Genética o desenvolvimento humano/maturação, dessa forma,
é explicado pela equilibração, a qual consiste na busca por um por um estado de
equilíbrio cada vez maior mediante as perturbações que as relações entre o sujeito e os
objetos que o cercam causam. Ou seja, toda vez que um esquema mental já existente
não for o suficiente para responder a uma situação ou resolver a um problema, ocorre
uma “perturbação” (desiquilíbrio) e, desta forma, surge a necessidade, como Molinari
(2019) afirma, de modificação/adaptação desse esquema à nova situação, o que é feito
pelo processo de equilibração, que nada mais é do que a solução “ao que levou ao
desiquilíbrio”.
É nesse processo de equilibração, por sua vez, que as estruturas mentais da
inteligência vão se construindo, à medida que o sujeito se adapta às novas situações.
Deste modo, pode-se afirmar que a criança (sujeito) é vista nessa via como um ser ativo,
que aprende fazendo. Isto porque, a equilibração, como afirma Salvador (1999),
constitui-se como uma forma de funcionamento intelectual que se mantém constante
durante todo o desenvolvimento cognitivo e procura garantir o equilíbrio dos
intercâmbios entre sujeito e meio.
Tais constatações permitiram que Piaget concluísse que as maneiras de pensar
das crianças são totalmente diferentes dos adultos, fator esse que possibilitou o
desenvolvimento de sua teoria sobre os sucessivos estágios do desenvolvimento humano
(o qual estudaremos no tópico a seguir deste Trabalho), e a capacidade de abstração, ou
seja, a inteligência pode ser compreendida, segundo os estudos piagetianos, como uma
atividade mental que permite a adaptação do indivíduo ao ambiente.
No entanto, esse processo de equilibração envolve dois componentes
indissociáveis: a assimilação e a acomodação. A assimilação, como destaca Molinari
(2019), pode ser compreendida como a incorporação por integração de novos dados às
estruturas já existentes no sujeito, isto é, a interpretação dos eventos de acordo com as
estruturas cognitivas já existentes. Já a acomodação refere-se à criação de um novo
esquema para encaixar o novo estímulo recebido, o que causa um desiquilíbrio, ou
como Molinari (2019) afirma trata-se da modificação que os esquemas sofrem por terem
que incorporar os novos dados da realidade.
Por isso, pode-se afirmar que nesse processo de equilibração, entre a assimilação
e acomodação, as estruturas anteriores não se perdem, mas são integradas às novas
estruturas. A partir disso, Salvador (1999) destaca que, para Piaget, o conhecimento
nunca é uma simples cópia da realidade pelo sujeito, mas está diretamente ligado ao
intercâmbio entre sujeito e objeto, o que implica em atuar sobre o meio de maneira
ativa, transformadora, física ou mentalmente.
Assim, como Salvador (1999) afirma, assimilação e acomodação trabalham de
maneira coordenada, pois

(...) não se pode atribuir significação a um objeto (conhece-lo) se não for por
meio de sua assimilação a algum ou alguns esquemas dos quais o indivíduo
dispõe. e essa tentativa de assimilação sempre representa, em maior ou
menos grau, uma modificação ou adequação desses esquemas às
características concretas do objeto em questão. (SALVADOR, 1999, p. 91).

O conhecimento, portanto, é possível graças ao estabelecimento do equilíbrio


entre o processo de assimilação e acomodação, o qual possibilita que a pessoa interprete
o objeto e atue sobre ele, de modo a conservar sua organização interna, ao mesmo
tempo em que se adapta às mudanças e modificações que o meio proporciona.
Ademais, pode-se afirmar que, para Piaget (1978), o processo de
desenvolvimento cognitivo perpassa por uma sucessão de estágios qualitativamente, que
se vinculam na aparição de diferentes estruturas, como veremos a seguir.

1.3 – Os Estágios do Desenvolvimento Cognitivo

Piaget (1978) destacou que o desenvolvimento cognitivo caracteriza-se por uma


série de estágios, os quais apresentam estruturas próprias que organizam a atividade
mental, e conhece-los torna-se fundamental para que se possa proporcionar um
conhecimento de acordo com a maturação em que a criança se encontra, pois só assim é
possível proporcionar uma aprendizagem eficaz.
Desta forma, Molinari (2019) afirma que do nascimento até a adolescência
distinguem-se quatro estágios, cujas idades são variáveis e dependem das influências
sociais, as quais são responsáveis por acelerar ou retardar o seu surgimento.
Desse modo, esses períodos diferentes do desenvolvimento humano promovem
maneiras distintas de interação com o meio proporcionando, assim, um tipo de
compreensão para cada etapa, e como o próprio Piaget afirma: “Cada estágio é
caracterizado pela aparição de estruturas originais, cuja construção o distingue dos
estágios anteriores.” (PIAGET, 1987, p. 13).
Assim, os estágios representam formas evolutivas de elaboração do pensamento
no sujeito, o que para Molinari (2019) significa que eles se caracterizam por um
conjunto de estruturas que integram as anteriores e preparam as posteriores.
O primeiro destes estágios é o sensório-motor (compreende o período anterior
aos 2 anos), caracteriza-se pela construção do mundo do bebê, o qual forma uma
imagem permanente desse mundo, pela sensação e o movimento. Anterior à aquisição
da linguagem, as condutas da criança são guiadas pela ação, não havendo representação
mental. A inteligência da criança é prática, ou seja, resolve os problemas por meio da
ação, havendo um predomínio da assimilação sobre a acomodação. (LUNT E SYLVA,
1994)
Já o estágio pré-operatório (que vai dos dois aos sete anos) apresenta a
aquisição da linguagem que permite a transformação dos esquemas mentais em
simbólicos pela possibilidade de reconstrução de suas ações passadas e antecipação de
suas ações futuras pela representação verbal, ou seja, segundo Lunt e Sylva (1994), a
criança pode pensar sobre o mundo sem necessariamente precisar agir sobre ele o que
ajuda no seu processo de socialização. É também composto por um egocentrismo no
qual a criança não consegue considerar o ponto de vista de outrem, também atribui vida
a objetos inanimados, mas não pára por aí, a criança ainda direciona sua percepção ao
aspecto do estrago, ou seja, na realidade que produz o estrago, denominado de realismo
moral.
Assim, é pela construção da imagem mental, da imitação, do jogo, do desenho e
da linguagem que a inteligência torna-se representativa.
Para Molinari (2019) nesse estágio inicia-se o processo de interiorização, no
qual os esquemas de ação construídos no estágio anterior tomam forma de intuições
articuladas, as quais constituem o que se denomina de inteligência pré-operatória.
Como terceiro estágio, o qual é alcançado pela criança quando esta consegue
perceber uma situação por diversos pontos de vista e não só o seu como no estágio
anterior, se tem o operatório o qual se ramifica em dois: o estágio de operações
concretas (que vai dos sete aos onze anos) caracterizado pela noção de conservação
(comprimento, quantidade, peso e volume), devido à capacidade da criança em prestar
atenção a diversas informações ao mesmo tempo permite a saída desta do egocentrismo,
devido também, à capacidade de levar em conta diversos aspectos de uma mesma
situação. (LUNT E SYLVA, 1994)
Assim, a criança é mais lógica, mais matemática em vista que se torna capaz de
fazer ações mentais de conservação. Dessa maneira, como afirma Salvador (1999), a
criança tem a possibilidade de utilizar uma série de operações absolutamente essenciais
do ponto de vista do pensamento racional, como classificação, seriação, conservação,
reversibilidade, ao mesmo tempo em que avança na compreensão dos fenômenos do
mundo e sua causalidade. Ainda durante esse estágio é que o pensamento da criança vai
de descentrando e as ações cognitivas começam a se coordenar, o que faz com que a
criança passe a operar mentalmente, fazendo classificações lógicas, conservar
quantidades contínuas e descontínuas e realizar seriações. Na socialização, vale destacar
que a criança vai sendo capaz de compreender o outro, realizar trocas e cooperar.
E o estágio operatório formal (dos doze anos até a idade adulta) o qual marca a
adolescência um período que o sujeito tem a necessidade de se auto afirmar devido ao
processo de elaboração final de sua personalidade, capacidade de se pôr ciente de seus
próprios pensamentos e estratégias, o adolescente coloca-se graças à sua personalidade,
em igualdade com os mais velhos, mas sentindo-se outro, diferente deles, querendo
ultrapassá-los para mudar o mundo, e a sociabilidade se faz em contato com outros
adolescentes.
Caracteriza-se, segundo Molinari (2019), pelo pensamento hipotético dedutivo,
ou seja, pela possibilidade de desprendimento do mundo real e de modelos concretos,
para realidades hipotéticas e possíveis. Neste período, ainda, as operações caracterizam-
se por elementos puramente verbais, não tendo a necessidade de ação imediata com os
objetos, sendo capaz de formular hipóteses sobre as teorias. Além disso, a autora afirma
que o adolescente torna-se capaz de levantar todas as possibilidades de uma situação,
para depois verificar quais realmente existem. Para Salvador (1999) a aquisição dessas
operações formais permite ao adolescente ainda, raciocinar, sobre o que é real,
hipotético, possível a partir das estruturas lógicas e matemáticas, na elaboração do
conhecimento científico.
Após verificar o papel dos estágios de maturação teorizados por Piaget e a sua
relevância no processo de aprendizagem, nota-se que a criança aprende de acordo com o
nível de maturação em que se encontra, ou seja, a criança aprende quando está pronta
para tal, por meio de uma descoberta ativa na aprendizagem.
Assim, o insucesso escolar da criança está intimamente relacionado com o fato
de o que é ensinado não corresponder ao estágio em que a criança se encontra, por isso é
que é de extrema importância que o professor conheça esses, e ao trabalhar com a
criança forneça meios para que esta se desequilibre e reformule suas hipóteses, ou seja,
permita uma a aprendizagem por meio da proporção de um ambiente adequado.
Vale ressaltar que o fato desta teoria se centrar na criança e a sua curiosidade ser
a grande motivadora do processo de aprendizagem, e pelo fato de considerar o grau da
maturação infantil proporciona um conhecimento mais eficaz já que a criança está
pronta para receber e, pode-se assim dizer, ela precisa ter aquele conhecimento em
determinado momento, em vista que este será o responsável por ajudá-la a se adaptar
melhor ao mundo, ou seja, como afirma Salvador (1999), esta aprendizagem ajudará a
criança a sobreviver e se adaptar ao complicado mundo que a envolve.
3. O CONTEXTO DE REALIZAÇÃO DO ESTÁGIO-PESQUISA

Como um dos requisitos para a conclusão da Pós-Graduação em Psicopedagogia,


no caso Clínica, o Estágio-Pesquisa consiste em uma proposta de Trabalho voltada ao
acompanhamento, avaliação/diagnóstico, intervenção ao longo de um período com uma
criança que apresente dificuldades de aprendizagem, de modo a compreender essas
questões e planejar ações que colaborem para sua superação.
O Estágio-Pesquisa, desta forma, constitui-se como um momento prático e
formativo no âmbito do Curso, o qual está baseado em uma avaliação e intervenção in
loco, visando contribuir com o desenvolvimento e formação da criança em questão.
No entanto, no início do ano de 2020 a rotina e práticas foram impedidas,
perdurando até agora no primeiro semestre de 2021. A Pandemia causada pelo novo
Coronavírus (COVID-19) instaurou uma nova realidade no Brasil e no mundo todo, a
qual também foi refletida nas relações e interações.
De acordo com o Ministério da Saúde 8, a COVID-19 consiste em uma infecção
respiratória aguda causada pelo coranavírua SARS-Cov-2

(...) potencialmente grave, de elevada transmissibilidade e distribuição


global. O SARS-CoV-2 é um betacoronavírus descoberto em amostras de
lavado broncoalveolar obtidas de pacientes com pneumonia de causa
desconhecida na cidade de Wuhan, província de Hubei, China, em dezembro
de 2019. Pertence ao subgênero Sarbecovírus da família Coronaviridae e é o
sétimo coronavírus conhecido a infectar seres humanos. (BRASIL, 2021,
s/p).

Ainda de acordo com o Ministério da Saúde, os coronavírus são uma família de


vírus comuns em diferentes espécies de animais como: homem, camelos, gados, gatos e
morcegos. No entanto, os coronavírus de animais raramente infectam pessoas.
A infecção pode acontecer desde casos assintomáticos ou quadros leves, até
quadros moderados, graves e críticos que exigem uma atenção especial aos sinais e
sintomas, podendo exigir a hospitalização do paciente e na necessidade de
procedimentos mais invasivos como intubação e ventilação mecânica.

8
Maiores informações a respeito do COVID-19 podem ser encontradas em:
https://coronavirus.saude.gov.br/
Pelo fato da contaminação ser intensa, especialmente pelos casos
assintomáticos, a necessidade de distanciamento social e com isso, a proibição de
aglomerações torna-se um fator indispensável. Uma vez, que como destaca Brasil
(2021) o “Vírus pode ser transmitido durante um aperto de mão (seguido do toque nos
olhos, nariz ou boca), por meio da tosse, espirro e gotículas respiratórias contendo o
vírus”. (s/p).
Diante de toda essa situação, cientistas do mundo todo começaram pesquisas e
estudos a fim de descobrir tratamentos que pudessem imunizar a população em relação
ao contágio e desenvolvimento mais grave da doença, uma vez que esta, mesmo a
princípio, sendo vista como mais ofensiva à idosos, pelas mutações do vírus, notou-se a
alta mortalidade também às pessoas entre 30 e 50 anos de idade.
Desde o final do ano de 2020, alguns países como: China, Estados Unidos,
Reino Unido, Argentina, Índia, Turquia, Rússia e também aqui no Brasil. Vários
estudos foram avançados e testados para poder iniciar o processo de imunização da
população.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 8 de dezembro de 2020, o
Reino Unido tornou-se o primeiro país do Ocidente a vacinar a população, pouco tempo
depois, a aprovação também aconteceu nos Estados Unidos e Canadá. Tanto que em 16
de janeiro de 2021, 57 países do Ocidente já haviam começado a imunização de sua
população.
No Brasil, a população enfrentou um período de muito descaso pelas autoridades
governamentais da presidência, que não aceitou nenhum tipo de acordo ou compra já
iniciado em 2020. Apenas, em março, mas precisamente no dia 26 do ano de 2021, é
que houve a primeira vacinação no país. A vacina utilizada foi a “Coronavac”,
desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan.
Desde então, as doses começaram a ser fabricadas e novas vacinas foram
importadas, a fim de imunizar toda a população, a partir da aprovação pela Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A organização foi feita a partir de um
calendário de imunização, seguindo o critério de início pelos mais idosos. Atualmente
(maio de 2021), estamos iniciando o processo de vacinação dos idosos entre 63 e 62
anos. Vale ressaltar, que os trabalhadores da área de saúde foram os primeiros a serem
vacinados, e atualmente junto com a vacinação dos idosos, está ocorrendo, no Estado de
São Paulo, a vacinação de policiais e professores acima dos 47 anos de idades, atuantes
na Educação Básica apenas.
É importante ressaltar que mesmo sendo uma Pandemia que teve início no ano
de 2020, e atualmente (maio/2021) mesmo com a vacinação iniciada, os índices de
contágio, internação e óbito têm crescido diariamente, como se pode observar abaixo.
Na Figura 1, podemos notar até a data de 01 de maio de 2021, o total de
infectados, recuperados e em acompanhamento no país todo:

Figura 1: Dados sobre o contágio COVID-19 no Brasil


Fonte: https://susanalitico.saude.gov.br/extensions/covid-19_html/covid-19_html.html

Os casos novos também é um dado importante e que tem apresentado um


crescimento constante no país, como demonstram os gráficos abaixo:

Figura 2: Gráfico sobre os casos novos de Coranavírus no Brasil


Fonte: https://susanalitico.saude.gov.br/extensions/covid-19_html/covid-19_html.html
O número de óbitos também é algo alarmante, chegando a atingir uma média de
mais de 2 mil por dia neste ano de 2021, como podemos ver a seguir:

Figura 3: Gráfico sobre os óbitos do Coranavírus no Brasil


Fonte: https://susanalitico.saude.gov.br/extensions/covid-19_html/covid-19_html.html

Diante de todo esse quadro, medidas de “Quarentena”, ou seja, o “isolamento


social físico”, em que grande parte das atividades a princípio, passaram a ser feitas de
maneira remota (online), a fim de não haver grandes aglomerações e assim, não ter tanta
disseminação do vírus, as quais foram iniciadas desde março de 2020 e continuam,
funcionando apenas os serviços essenciais, havendo continuamente a (re)classificação
de cada Estado e Município realizada pelos governadores junto com a equipe da
Secretaria Estadual de Saúde, feita de acordo com a situação de cada região em seu
respectivo Estado.
Em São Paulo, o atual governador João Dória, apresentou desde junho de 2020 o
Plano São Paulo, o qual divide o Estado em 17 Departamentos Regionais de Saúde, que
estão categorizados segundo uma escala de cinco níveis de abertura econômica, sendo
estes:

Figura 4: Fases do Plano São Paulo – COVID-19


Fonte: https://www.saopaulo.sp.gov.br/wp-content/uploads/2020/08/PlanoSP-apresentacao-v2.pdf

Sendo o cálculo para determinar em que Fase cada região encontra-se feito
seguindo os critérios abaixo:
E

Figura 5: Critérios de Cálculo de cada Fase do Plano São Paulo – COVID-19


Fonte: https://www.saopaulo.sp.gov.br/wp-content/uploads/2020/08/PlanoSP-apresentacao-v2.pdf

Diante de toda essa situação está ocorrendo a promulgação de uma variedade de


Portarias para referendar a organização do país em meio a este cenário, sejam estas para
contratação de novos profissionais da saúde, investimentos na compra de equipamentos
e ainda na organização da situação dos Sistemas de Educação e Saúde de todo o país9.
Em meio a toda essa situação, no entanto, as instituições, em sua maioria,
reorganizaram a forma de realização de suas atividades, e a instituição escolar foi uma
delas. As aulas presenciais foram substituídas por atividades remotas, realizadas online,
com “aulas ao vivo” ou não, utilizando aplicativos e formas virtuais de continuar suas
atividades, visando não causar tanto prejuízo aos alunos.
A primeira Lei sancionada a respeito da nova situação foi a Lei nº 13.979, de 6
de fevereiro de 2020, a qual “(...) dispõe sobre as medidas que poderão ser adotadas
para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional
decorrente do coronavírus responsável pelo surto de 2019” 10. Dentre os parágrafos estão
os cuidados que os Estados devem tomar em relação às condições causadas pelo vírus
como:

Art. 3º Para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância


internacional de que trata esta Lei, as autoridades poderão adotar, no âmbito
de suas competências, entre outras, as seguintes medidas.
I - isolamento;
II - quarentena;
9
Maiores informações sobre as Portarias publicadas podem ser encontradas em:
https://www.gov.br/saude/pt-br/media/pdf/2020/dezembro/23/23-12-2020_-portarias-publicadas-sobre-
covid-19.pdf
10
Maiores informações podem ser encontradas em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-
2022/2020/Lei/L13979.htm
III - determinação de realização compulsória de:
a) exames médicos;
b) testes laboratoriais;
c) coleta de amostras clínicas;
d) vacinação e outras medidas profiláticas; ou
e) tratamentos médicos específicos;
III-A – uso obrigatório de máscaras de proteção individual;
IV - estudo ou investigação epidemiológica;
V - exumação, necropsia, cremação e manejo de cadáver;
VI - restrição excepcional e temporária de entrada e saída do País, conforme
recomendação técnica e fundamentada da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), por rodovias, portos ou aeroportos;
VI - restrição excepcional e temporária, conforme recomendação técnica e
fundamentada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, por rodovias,
portos ou aeroportos.
VII - requisição de bens e serviços de pessoas naturais e jurídicas, hipótese
em que será garantido o pagamento posterior de indenização justa; e
VIII - autorização excepcional e temporária para a importação de produtos
sujeitos à vigilância sanitária sem registro na Anvisa.
VIII – autorização excepcional e temporária para a importação e distribuição
de quaisquer materiais, medicamentos, equipamentos e insumos da área de
saúde sujeitos à vigilância sanitária sem registro na Anvisa considerados
essenciais para auxiliar no combate à pandemia do coronavírus.

Diante de tais condições e com a situação tendo cada vez mais seu agravamento,
a Educação em Março de 2020 também entrou em quarentena em todo país. Desta
forma, o Parecer CNE/CP nº 5/2020 11, homologado em 28 de abril deste mesmo ano,
destaca a necessidade de reposição e reorganização do calendário escolar, a fim de
evitar prejuízos na formação das crianças e jovens brasileiros, ou seja,

No Brasil, as aulas presenciais estão suspensas em todo o território nacional e


essa situação, além de imprevisível, deverá seguir ritmos diferenciados nos
diferentes Estados e Municípios, a depender da extensão e intensidade da
contaminação pela COVID-19. (BRASIL, 2020, s/p)

Com isso, a proposta expressa neste Parecer indica:

O desenvolvimento do efetivo trabalho escolar por meio de atividades não


presenciais é uma das alternativas para reduzir a reposição de carga horária
presencial ao final da situação de emergência e permitir que os estudantes
mantenham uma rotina básica de atividades escolares mesmo afastados do
ambiente físico da escola. (...)
Neste período de afastamento presencial, recomenda-se que as escolas
orientem alunos e famílias a fazer um planejamento de estudos, com o
acompanhamento do cumprimento das atividades pedagógicas não
presenciais por mediadores familiares. O planejamento de estudos é também
11
Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?
option=com_docman&view=download&alias=145011-pcp005-20&category_slug=marco-2020-
pdf&Itemid=30192
importante como registro e instrumento de constituição da memória de
estudos, como um portfólio de atividades realizadas que podem contribuir na
reconstituição de um fluxo sequenciado de trabalhos realizados pelos
estudantes. (BRASIL, 2020, s/p)

Além desse Parecer, o Ministério da Educação publicou outros a fim de


complementar e “achar saídas” para a questão da Educação no país, mediante a situação
pandêmica. Vale destacar quais foram os demais Pareceres e Resoluções e o que os
mesmos advertem em relação à Educação12:

Parecer CNE/CP nº 6/2020, aprovado em 19 de maio de 2020 - Guarda


religiosa do sábado na pandemia da COVID-19.
Parecer CNE/CP nº 9/2020, aprovado em 8 de junho de 2020 - Reexame do
Parecer CNE/CP nº 5/2020, que tratou da reorganização do Calendário
Escolar e da possibilidade de cômputo de atividades não presenciais para fins
de cumprimento da carga horária mínima anual, em razão da Pandemia da
COVID-19.
Parecer CNE/CP nº 10/2020, aprovado em 16 de junho de 2020 -
Prorrogação do prazo a que se refere o artigo 60 do Decreto nº 9.235, de 15
de dezembro de 2017, para implantação de instituições credenciadas e de
cursos autorizados, em razão das circunstâncias restritivas decorrentes da
pandemia da COVID-19.
Parecer CNE/CP nº 11/2020, aprovado em 7 de julho de 2020 - Orientações
Educacionais para a Realização de Aulas e Atividades Pedagógicas
Presenciais e Não Presenciais no contexto da Pandemia.
Parecer CNE/CES nº 498/2020, aprovado em 6 de agosto de 2020 –
Prorrogação do prazo de implantação das novas Diretrizes Curriculares
Nacionais (DCNs).
Parecer CNE/CP nº 15/2020, aprovado em 6 de outubro de 2020 -
Diretrizes Nacionais para a implementação dos dispositivos da Lei nº 14.040,
de 18 de agosto de 2020, que estabelece normas educacionais excepcionais a
serem adotadas durante o estado de calamidade pública reconhecido pelo
Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020.
Parecer CNE/CP nº 16/2020, aprovado em 9 de outubro de 2020 - Reexame
do item 8 (orientações para o atendimento ao público da educação especial)
do Parecer CNE/CP nº 11, de 7 de julho de 2020, que trata de Orientações
Educacionais para a Realização de Aulas e Atividades Pedagógicas
Presenciais e Não Presenciais no contexto da pandemia.
Parecer CNE/CP nº 19/2020, aprovado em 8 de dezembro de 2020 -
Reexame do Parecer CNE/CP nº 15, de 6 de outubro de 2020, que tratou das
Diretrizes Nacionais para a implementação dos dispositivos da Lei nº 14.040,
de 18 de agosto de 2020, que estabelece normas educacionais excepcionais a
serem adotadas durante o estado de calamidade pública reconhecido pelo
Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020.
Resolução CNE/CP nº 2, de 10 de dezembro de 2020 - Institui Diretrizes
Nacionais orientadoras para a implementação dos dispositivos da Lei nº
14.040, de 18 de agosto de 2020, que estabelece normas educacionais
excepcionais a serem adotadas pelos sistemas de ensino, instituições e redes
escolares, públicas, privadas, comunitárias e confessionais, durante o estado
de calamidade reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de
2020.

12
Toda essa documentação pode ser encontrada na íntegra no site do Ministério da Educação:
http://portal.mec.gov.br/pec-g/33371-cne-conselho-nacional-de-educacao/90771-covid-19
Resolução CNE/CES nº 1, de 29 de dezembro de 2020 - Dispõe sobre prazo
de implantação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) durante
a calamidade pública provocada pela pandemia da COVID-19.

Novas Diretrizes, novas formas de organização a Educação nacional, sem que


seja presencial, de maneira remota e tentando minimizar os prejuízos que toda essa
situação acarreta e acarretará na formação de nossas crianças e jovens. No entanto,
mesmo com discussões na letra da Lei, muito pouco se fez em relação à investimentos
ou condições para que realmente esses danos fossem baixos. Mais uma vez, quem teve
“que se virar” mediante a todo esse “bombardeio” de informações foram os professores.
Sim, os professores tiveram que se reinventar, a fim de abranger ao máximo seus
alunos.
No entanto, desde o final de 2020 algumas instituições de Educação Básica,
sendo a maioria particulares estão retomando suas atividades de forma presencial,
seguindo protocolos de escalonamento dos alunos, higiene, distanciamento e
respeitando as decisões das famílias em relação à ida ou não das crianças e jovens
presencialmente. Os familiares, portanto, que optaram pela não retomada presencial,
continuarão com as atividades de maneira remota.
Em janeiro de 2021, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo publicou
a Resolução SEDUC 11, de 26-01-202113, a qual prevê o retorno de todas as atividades
escolares (tanto públicas quanto privadas) de Educação Básica de maneira presencial,
respeitando os protocolos de higienização e distanciamento, e além disso, destacando a
Educação como uma atividade essencial, e portanto, as escolas continuarão abertas com
atividades presenciais, porém, sempre respeitando a (re)classificação das Fases de cada
Município, como vemos no
Artigo 1º – As unidades escolares de educação básica da rede estadual de
ensino, das redes municipais e das instituições privadas oferecerão atividades
presenciais aos alunos, observados os parâmetros de classificação
epidemiológica constantemente atualizados no âmbito do Plano São Paulo.
§ 1º – As aulas e demais atividades presenciais deverão ser retomadas nas
unidades escolares de educação infantil, ensino fundamental e ensino médio,
observado o limite máximo de estudantes estabelecido nos protocolos
sanitários específicos para a área da educação, bem como os definidos para as
áreas e fases indicadas no Plano São Paulo, nos termos do Artigo 3º do
Decreto 65.384, de 17-12-2020, atendidas as seguintes proporções:
I – nas fases vermelha ou laranja, com a presença limitada a até 35% do
número de alunos matriculados;

13
O qual pode ser visualizado na íntegra no seguinte site:
https://deadamantina.educacao.sp.gov.br/aqui-voce-tem-todas-as-legislacao-sobre-o-
coronavirus/#:~:text=Resolu%C3%A7%C3%A3o%20Seduc%2071%2C%20de%206,de%2013%2F07%2F20.
II – na fase amarela, com a presença limitada a até 70% do número de alunos
matriculados;
III – na fase verde, admitida a presença de até 100% do número de alunos
matriculados.
§ 2º – A presença dos estudantes nas atividades escolares será obrigatória nas
fases amarela, verde e azul do Plano São Paulo e facultativa nas fases
vermelha e laranja.
§ 3º – Os estudantes pertencentes ao grupo de risco para a COVID-19 que
apresentem atestado médico poderão participar das atividades escolares
exclusivamente por meios remotos, enquanto perdurar a medida de
quarentena instituída pelo Decreto nº 64.881, de 22-03-2020.
Artigo 2º – Todas as unidades escolares deverão ofertar atividades
presenciais e atividades não presenciais para os estudantes.
Artigo 3º – Todas as instituições de ensino que funcionam no território
estadual deverão adotar as diretrizes sanitárias do Protocolo Intersetorial do
Plano São Paulo, aplicável a todos os setores, empresas e estabelecimentos,
complementadas pelas medidas constantes nos Protocolos Específicos para o
Setor da Educação. (SÃO PAULO, 2021, s/p).

Nota-se, portanto, que está ocorrendo a retomada presencial das atividades


escolares, que assim como as atividades de comércio e indústria ficam continuamente
em uma situação de “abre e fecha, férias, recesso”, mediante à piora dos casos e óbitos
de cada região. A verdade é que tudo está incerto e a situação, nesse momento (maio de
2021), ainda muito sofrida, triste, inconstante e apavorante.
Assim, o Estágio-Pesquisa que seria realizado presencialmente (in loco), ao
invés de ser feito a partir da avaliação e intervenção dentro da instituição junto à uma
criança com dificuldades de aprendizagem, passou a ser feito por meio de entrevista via
ferramentas de comunicação (como e-mail e whatsapp) com uma Psicopedagoga
indicada pela orientadora de Estágio, com o tema “formação e atuação psicopedagógica
clínica e adaptação para o trabalho durante a pandemia”.
Com isso, buscou-se fazer uma discussão com a Psicopedagoga indicada a
respeito dos maiores desafios encontrados nesse período e de como ela tem organizado
sua rotina de trabalho e atendimentos. Além disso, aproveitou-se para conversar um
pouco com ela também sobre a atuação psicopedagógica clínica de uma maneira geral e
de como essa é vista atualmente no mercado de trabalho. Assim, fez-se um
levantamento sobre as formas com que a Psicopedagoa está se “reinventando” diante da
atual situação e de como a pandemia tem impactado em seus atendimentos e
intervenções.
No entanto, é importante destacar que o Estágio-Pesquisa realizado por meio da
entrevista com a Psicopedagoga não se centrou apenas em compreender os desafios
mais relacionados ao período de pandemia, a estrutura do questionário (entrevista) foi
feita a fim de compreender sua atuação como um todo, de modo a destacar 14: as
principais queixas que lhe são encaminhadas; relação com os familiares; processos de
intervenção realizados; seleção de jogos e atividades; devolutiva às famílias; relação
com a escola; cursos complementares; entre outras.
A partir dessa entrevista, então, é que desenvolvemos e buscamos compreender
todo esse processo de “reinvenção” também na área de atuação do Psicopedagogo
Clínico. A atual situação tem gerado impactos na atuação dos diversos setores de nossa
sociedade, seja a educação a qual tem apresentado grandes mudanças na forma de
conceber o processo de ensino-aprendizagem; o comércio que teve que se adaptar ao
atendimento online e via drive thru; as empresas que se reorganizaram com o serviço
via home office. Ou seja, mesmo em meio a toda essa situação delicada e triste, nossa
sociedade vem se reorganizando para poder continuar de alguma forma com seus
serviços, e por isso, a atuação psicopedagógica também, afinal, arrisco-me a afirmar que
devido a toda essa situação de ensino remoto, falta de estrutura de muitas instituições e
a escassez de estruturas e investimentos, há que se considerar que as dificuldades de
aprendizagem serão uma crescente, e a atuação do psicopedagogo cada vez mais
necessária e essencial. Quem sabe ainda a atuação do psicopedagogo não seja uma
realidade em todas as instituições escolares, atendendo, intervindo diretamente com
cada aluno.
Portanto, a partir dessas considerações e situações, buscou-se desenvolver um
estudo que pudesse agregar e investigar sobre as formas com que o processo de atuação
psicopedagógica tem se organizado nesse período tão tumultuado, novo, degradante e
incerto.

3. 1- Metodologia e Procedimentos do Estágio-Pesquisa

Para responder os objetivos planejados neste estudo, utiliza-se a abordagem


qualitativa, a qual segundo Biasoli-Alves (1998), caracteriza-se por apreender os
significados nas falas ou em outros comportamentos, observando os sujeitos
interligados ao contexto em que se inserem e delimitados pela abordagem conceitual do
pesquisador.
De acordo com Marconi (2018) a abordagem qualitativa leva em consideração a
existência dinâmica entre o mundo real e os sujeitos da pesquisa, ou seja, o foco está na
14
As questões utilizadas para a entrevista serão apresentadas no item 3.1 deste Trabalho.
interpretação e na análise dos dados obtidos. Ou seja, como destaca Biassoli-Alves
(1998), a abordagem qualitativa é aquela que traz mais exigência ao pesquisador em
relação aos cuidados e elaboração de seu estudo, ainda para a autora, sua principal
característica está em:

(...) buscar a apreensão de significados nas falas ou em outros


comportamentos observados dos sujeitos, interligados ao contexto em que se
inserem e delimitados pela abordagem conceitual do pesquisador, trazendo à
tona na redação, uma sistematização baseada na qualidade, sem a pretensão
de atingir o limiar da representatividade. (BISOLI-ALVES, 1998, p. 149).

Dessa forma, pode-se afirmar que a análise proposta pela abordagem qualitativa
pode ser considerada um processo indutivo, pois seu foco está em analisar os dados
descritivos da realidade, de modo a captar o universo cotidiano dos sujeitos
entrevistados, além dos diferentes significados da experiência vivida, o que possibilita a
compreensão do indivíduo em seu contexto. Por isso, que a coleta de dados mais
comumente utilizada por essa abordagem é a observação e/ou a entrevista, os quais
trazem informações que permitem interpretar “o que acontece” e fazer uma descrição a
partir do ponto de vista de quem atua e interage na situação estudada.
Para o desenvolvimento do Estágio-Pesquisa proposto, por sua vez, adotou-se
como procedimento metodológico para a coleta de dados, a entrevista semiestruturada.
De acordo com Ludke e André (1986), a entrevista representa um instrumento
básico e importante para o processo de coleta de dados, a qual pressupõe a interação
entre entrevistador e entrevista, o que pressupõe uma influência recíproca entre quem
pergunta e quem responde, ou seja,

A grande vantagem da entrevista sobre outras técnicas é que ela permite a


captação imediata e corrente da informação desejada, praticamente com
qualquer tipo de informante e sobre os mais variados tópicos. Uma entrevista
bem-feita pode permitir o tratamento de assuntos de natureza estritamente
pessoal e íntima, assim como temas de natureza complexa e de escolhas
nitidamente individuais. Pode permitir o aprofundamento de pontos
levantados por outras técnicas de coleta de alcance mais superficial, como o
questionário. E pode também, o que a torna particularmente útil, atingir
informantes que não poderiam ser atingidos por outros meios de
investigação, como é o caso de pessoas com pouca instrução formal, para as
quais a aplicação de um questionário escrito seria inviável. (LUDKE E
ANDRÉ, 1986, p. 34).
Ainda segundo os autores, a entrevista semiestruturada, caracteriza-se pelo
desenvolvimento a partir de um esquema básico, porém não aplicado rigidamente, mas
permitindo que o entrevistador faça as necessárias adaptações, assim como o
entrevistado, tenha mais liberdade e flexibilidade em suas respostas. Para Ludke e
André (1986), esse tipo de entrevista apresenta-se por esquemas mais livres, mais
flexíveis, sendo determinada pelas preocupações que os entrevistados apresentam.
Assim, com o objetivo de identificar os aspectos principais que demarcaram o
processo de formação, trajetória, atuação e atuação no período atual de pandemia no
campo da Psicopedagogia Clínica, o presente Estágio-Pesquisa, estruturou-se por meio
de uma entrevista semiestruturada com uma Psicopedagoga, indicada pela coordenadora
do Curso de Especialização em Psicopedagogia Clínica, do Centro Universitário Central
Paulista – UNICEP/ São Carlos.
Para a entrevista junto à profissional supracitada foram elaborados alguns
questionamentos, em união com mais duas estudantes do Curso de Especialização:
Maíra Aparecida Pedroso de Moraes Benedito e Maria Luciana A. do Nascimento, que
contemplaram:

1. IDENTIFICAÇÃO: (Nome e cidade de atuação)


2. Qual sua formação inicial?
3. Local e ano de conclusão do curso de especialização:
4. Como foi a sua formação em Psicopedagogia Clínica?
5. Por que optou pela Psicopedagogia Clínica?
6. Como foi o início de suas atividades como psicopedagoga clínica?
7. Como divulgou seu trabalho e conseguiu os primeiros clientes?
8. Como realiza a avaliação psicopedagógica?
9. Quais procedimentos utiliza com os pais, criança e escola?
10. Quais os principais motivos de encaminhamento dos clientes para o
consultório?
11. Como é a relação com os pais? São colaborativos?
12. Como é a relação com os professores, em geral?
13. A maioria dos encaminhamentos é feito por pais ou professores? Quais
as principais “queixas”?
14. Como realiza a intervenção?
15. Utiliza jogos? Quais os que mais utiliza?
16. Como faz a seleção dos jogos e outros procedimentos de intervenção?
17. Como faz a entrevista devolutiva com os pais sobre a avaliação
diagnóstica?
18. Qual é a reação dos pais, em geral?
19. Como faz a devolutiva e/o acompanhamento com a escola?
20. Os professores acatam as suas orientações sobre os sujeitos que se
mantém em atendimento?
21. Segue a tabela de valores de consulta dos psicopedagogos da cidade?
22. Faz algum tipo de pacote e/ou atendimento gratuito?
23. Realizou ou pretende realizar outros cursos de formação para
complementar a formação inicial? Por quê?
24. Qual orientação você pode dar para os psicopedagogos clínicos
iniciantes?
25. Quais principais desafios que enfrentou ou ainda enfrenta nos
atendimentos?
26. Quais são os cuidados que foram implementados para o atendimento
durante a quarentena?
27. Houve aumento ou diminuição de encaminhamentos? Por quê?
28. Como analisa o impacto do ensino remoto nas dificuldades de
aprendizagem dos alunos em dificuldades de aprendizagem?
29. Como você acredita que a psicopedagogia pode também ajudar nesse
momento de pandemia?
30. Tem algo a mais que gostaria de ressaltar sobre a atuação
psicopedagógica?

Após a elaboração das referidas questões semiestruturadas, foi feita uma


conversa com a Psicopedagoga indicada, via whatsapp, no qual me apresentei, expliquei
sobre o Trabalho. A Psicopedagoga aceitou participar, disse que poderia fazer conosco
uma conversa via google meet, mas pela impossibilidade de horários que pudéssemos
nos encontrar, devido à sua disponibilidade, acabamos enviando o questionário à ela por
e-mail.
Na sequência agendamos uma conversa online, via Google Meet, em um sábado
no período da manhã, mas 15 minutos antes de começar nossa reunião, a Psicopedagoga
me escreveu dizendo que teve um imprevisto e teria que cancelar, que assim que
pudesse me escreveria novamente para agendarmos, isso foi em 20 de fevereiro de
2021. Depois disso, tentei mais uma vez, mas ela apenas respondeu para “irmos
conversando” e, nunca mais entrou em contato conosco, ficamos com receio de
incomodá-la, pois sabemos das dificuldades e da sobrecarga dela e nossa nesse período
de pandemia. Por isso, todo nosso estudo realizado no Estágio-Pesquisa, estruturou-se a
partir das respostas fornecidas por ela, muito gentilmente, a nos por e-mail.
Na próxima seção apresentam-se a análise dos dados coletados, por meio dessa
entrevista.

4. PSICOPEDAGOGIA CLÍNICA: CAMINHOS PARA ATUAÇÃO


E DESAFIOS EM TEMPOS DE PANDEMIA

Para o desenvolvimento e melhor compreensão sobre os caminhos de atuação no


campo da Psicopedagogia Clínica, e diante dos desafios que a situação atual nos impõe
de pandemia, o presente Estágio-Pesquisa contou também com uma entrevista
semiestruturada realizada com uma Psicopedagoga Clínica, a qual exerce suas
atividades desde 2018 na área, com o objetivo de compreender melhor essas questões e
ampliar as possibilidades de compreensão sobre a importância e atuação
psicopedagógica.
A Psicopedagoga indicada pela coordenadora do Curso de Especialização em
Psicopedagogia Clínica do UNICEP/São Carlos, gentilmente cedeu seu tempo para
responder as questões solicitadas, trazendo informações importantes sobre a atividade
psicopedagógica e os desafios que vem enfrentando.
Assim, foi feito o contato inicial com a Psicopedagoga via whatsapp, a qual
gentilmente aceitou participar dessa pesquisa, disponibilizando até um horário em sua
agenda para que pudéssemos marcar uma reunião ao vivo, via Google Meet. Porém,
devido a um imprevisto, a mesma acabou tendo que desmarcar, e depois disso não
conseguimos mais uma data em que pudéssemos fazer esse encontro, o que foi uma
pena. No entanto, mesmo não conseguindo, a Psicopedagoga em questão, solicitou que
enviássemos as questões para que ela pudesse responder em um tempo oportuno e nos
retornar e assim, fizemos. Em menos de uma semana (7 dias), ela nos retornou via e-
mail todas as respostas, as quais trouxeram muitas pistas e compreensões importantes.
Lamentamos, mais uma vez, não poder ter feito uma conversa “ao vivo” com ela, o que
com certeza teria também sido um momento muito enriquecedor.
Com as respostas em mãos, noteis que nosso questionário abrangeu três aspectos
importantes e cruciais para compreender a formação da Psicopedagoga, sua atuação e os
desafios que tem enfrentado. Por isso, dividi a presente análise em categorias,
procurando contemplar os três pontos principais de nossa Pesquisa: A Especialização
em Psicopedagogia Clínica e seus caminhos; A atuação em Psicopedagogia: da
avaliação à intervenção; e por último, Desafios e impactos para o atendimento em
tempos de pandemia.

4.1 – A Especialização em Psicopedagogia Clínica e seus caminhos

Neste item, busca-se destacar a partir dos relatos feitos pela profissional
entrevistada, os caminhos de sua formação, o “encontro” com a Psicopedagogia Clínica,
e o que essa possibilitou em relação à sua atuação. Ressalta-se que para manter a
identidade da entrevistada em sigilo, optou-se pela utilização de um codinome feito a
partir da abreviação de seu nome e sobrenome, e portanto, a Psicopedagoga entrevista e
sobre a qual se destaca nesta seção será chamada de A.G.
A.G. tem formação inicial em Pedagogia, tendo concluído o Curso de
Especialização em Psicopedagogia no UNICEP/São Carlos no ano de 2018, relatando
ter sido esse um momento tranquilo, sem dificuldades e de felicidade com as
descobertas possibilitadas pelo curso.
Atua em São Carlos/SP, e quando indagada sobre os motivos que a levaram à
escolha, afirma que: “Sempre trabalhei em escola de educação infantil e via que
algumas crianças apresentavam mais dificuldades do que outras e queria ajudá-las”.
Nota-se que exercendo sua formação inicial em Pedagogia, atuando em instituições de
Educação Infantil, A.G. sentiu a necessidade de compreender e ajudar as crianças que
apresentavam mais dificuldades, fator esse que a ajudou a optar pela Psicopedagogia
Clínica.
Tendo concluído em 2018 o Curso de Especialização, A.G, iniciou então, suas
atividades como psicopedagoga clínica, relatando que “O início foi um desafio, pois
havia muita coisa que não conhecia, precisava divulgar meu trabalho e ao mesmo
tempo os atendimentos era algo novo e cheio de novos aprendizados”. Nota-se que um
dos desafios apresentados por A.G. foi a divulgação de seu trabalho, adotando como
meio para superar esse desafio a utilização dos meios de comunicação, assim, segundo
ela: “O meio que possibilitou foram as redes sociais (Instagram e Facebook), fiz cartões
de visita e entregava para conhecidos, fiz parcerias com outros profissionais e
escolas”.
A partir dessa caracterização sobre A.G., dois pontos saltam aos olhos, o
primeiro é que a opção pela Psicopedagogia como área de especialização está atrelada a
atuação inicial, ou seja, ao desafios que a profissão exigiam dela e a importância de
busca por cursos e meios que ajudem a compreender e melhorar a atuação, o que não só
a ajudou em sua prática enquanto pedagoga, mas que também possibilitou a ampliação
de sua atuação, abrindo novas “portas” em sua profissão. E o segundo ponto, são os
desafios iniciais que a atuação em Psicopedagogia trazem, dentre eles, está em encontrar
meios para a divulgação do trabalho, “encontrar” os primeiros clientes, o que pelas falas
de A.G. nota-se o quanto as redes sociais por meio da tecnologia podem ser grandes
ferramentas aliadas nesse processo, como também a busca por parcerias.
Porém, a partir dessa breve compreensão dos caminhos percorridos e fatores que
envolveram a formação e início de atuação de A.G., busca-se no próximo item entender
como é sua atuação, os elementos que utiliza para avaliação e intervenção e quais as
principais queixas que tem atendido.

4.2 – A atuação em Psicopedagogia: da avaliação à intervenção

Após compreender sobre a formação e início da carreira em Psicopedagogia de


nossa entrevistada, vamos a seguir entender um pouco mais sobre como é o atendimento
e os processos que ela utiliza em relação à avaliação e intervenção, destacando as
principais queixas e relações com as famílias e escola.
A.G. ao ser indagada sobre como realiza a avaliação psicopedagógica, destaca
que essa é feita por meio de “(...) entrevista com os pais, anamnese com o paciente,
E.O.C.A, provas piagetianas, provas projetivas e aplico alguns testes com conteúdos
acadêmicos, além de entregar um questionário para a escola”. Os procedimentos, desta
forma, com os pais, criança e escola são os mesmos, ou seja, ela utiliza dos recursos
mencionados para que possa realizar a avaliação e compreender as dificuldades
apresentadas pela criança, procurando fazer uma compreensão mais ampla de todos os
fatores que possam estar intervindo nas dificuldades apresentadas, além de entender
quais são essas.
Pode-se afirmar que a avaliação feita por A.G. está organizada na compreensão
ampla tanto no diagnóstico da/s dificuldade/s apresentada pela criança/jovem, quanto
em entender quais fatores externos, ou seja, como é dada essa relação com a família e
com a escola, para entender amplamente como os diferentes locais e relações podem
estar interferindo nesse processo.
Tanto que A.G. afirma que a maioria dos encaminhamentos que recebe vem da
APAAE, “(...) pois a criança foi diagnosticada com algum transtorno, desmotivação
na escola ou dificuldade na aprendizagem”. E assim, a procura pelo atendimento
psicopedagógico é visto como uma forma de contribuir e ajudar na superação dessas
dificuldades.
Esse atendimento, por sua vez, como já indicado por A.G. acontece por meio de
uma investigação ampla, envolvendo família e escola, para a compreensão de todos os
fatores que envolvem a vida da criança. Por isso, a relação com os pais e professores no
atendimento psicopedagógico faz parte de todo o processo de atendimento.
Com relação aos pais, a psicopedagoga destaca que esses são, “(...) na maioria
das vezes, precisam de alguma orientação de como agir com os filhos. Alguns deles
participam demonstrando interesse no que foi feito durante as sessões”. O que permite
notar que o atendimento psicopedagógico não se reduz apenas a criança e às queixas
apresentadas, mas engloba o “todo” que faz parte de sua vida, e orientar à família faz
parte também desse atendimento e da atuação do psicopedagogo.
Porém, a relação com os professores, A.G. não deu muitos detalhes, apenas
destacou que esses “(...) são receptivos respondendo o questionário que envio”. Não
apresentando mais detalhes sobre quais questões e qual questionário costuma enviar, se
há algum contato com os professores antes desse envio. Aparentemente é apenas o
envio desse para os professores responderem, não tendo mais nenhum tipo de conversa
ou contato.
A.G. ainda afirma que quem procura ajuda são os pais, porém os casos que ela
recebe são de crianças já diagnosticadas com algum tipo de transtorno, como TDAH e
autismo, e a partir desse diagnóstico ela planeja suas intervenções de acordo tanto com
esse diagnostico que recebe quanto com base nos “(...) resultados obtidos durante a
avaliação e vejo qual o tipo de estímulo a criança precisa”.
Então, a partir da junção dos dados obtidos pelo diagnóstico já recebido com os
relativos à avaliação feita por ela que, A.G., elabora sua intervenção, visando ajudar a
criança na superação de suas dificuldades. Sua intervenção, no entanto, baseia-se na
utilização de jogos e folhas com atividades, porém não nos forneceu mais detalhes de
como são essas folhas. Já em relação à seleção dos jogos, ela relata que faz a partir dos
estímulos que este oferece dentro do que a criança necessita. E então, planeja suas
intervenções utilizando a variedade de jogos que considera interessantes para esse
processo, junto com as atividades em folha.
No entanto, além de todo o processo avaliativo e de intervenção é importante
que haja uma devolutiva por parte da psicopedagoga às famílias e aos professores que
acompanham a criança em atendimento. E sobre essa questão, A.G. afirma que para os
pais, ela entrega “(...)um relatório contendo os resultados da avaliação e quais
ferramentas utilizei. Explico o que realizei de forma verbal e oriento os próximos
passos”. O que parece ser algo feito muito particular a cada criança, não tendo, portanto,
um protocolo padrão a ser seguido nesse processo. Afirma ainda, que essa devolutiva às
famílias faz com que os pais geralmente fiquem mais tranquilos, não dando muitos
detalhes de como esses reagem, os questionamentos e as formas com que são abordados
nesse processo.
Para a escola também há a devolutiva, e para essa A.G. afirma que “(...) Como
meus atendimentos foram feitos durante a pandemia. Não tive contato com a escola e
nem com os professores. Foram os próprios pais que conversaram e mostraram o
relatório feito na devolutiva”. E destaca que os professores acatam suas orientações.
Porém, não nos fornece mais detalhes de como essas orientações são feitas e se fora do
período de pandemia ela chegou a fazer alguma devolutiva.
Quando indagada sobre os valores e pacotes que faz, ela afirma apenas que
segue a tabela de valores de consulta dos psicopedagogos da cidade de São Carlos-SP,
afirmando que “(...) o primeiro encontro é gratuito e fecho pacote mensais”. Não
trazendo mais detalhes de como são os pacotes e nem quais valores ou parcelamentos
costuma fazer.
Em relação à pretensão em realizar outros cursos que complementem sua
formação inicial, A.G. destaca que pretende, “(...) pois o trabalho na clínica é cheio de
novas descobertas e aprendizados e nem sempre estamos preparados para o que a
criança está apresentando quando chega até o consultório”. Por isso, ela destaca o
quanto é importante aos psicopedagogos clínicos o estudo, a pesquisa e a leitura, para
que possam lidar com os desafios constantes que aparecem na atuação, aos quais ela
destaca que tem enfrentado como maior desafio “(...) a criança dar continuidade no
tratamento, pois há aquelas que param sem ser dado alta ou falta bastante e isso
interfere no desenvolvimento”.
A partir dos relatos feitos por A.G sobre sua atuação enquanto psicopedagoga
clínica, nota-se os desafios de acompanhamento e continuidade do tratamento, fator esse
que interfere no processo de intervenção e desenvolvimento da criança. Além disso, é
nítida a importância de uma avaliação não só da criança e a partir das queixas
apresentadas, mas a compreensão dessa em seus diferentes meios de convívio como a
família e a escola, o que contribui para que se entendam todos os fatores que possam
estar interferindo em sue desenvolvimento e, assim, gerando ou potencializando suas
dificuldades. O que traz pistas importantes para que a psicopedagoga possa planejar,
pesquisar e desenvolver seu processo de intervenção.
Com isso, notamos alguns pontos importantes sobre a atuação psicopedagógica,
seus desafios principais e processos de intervenção, como também a necessidade de
uma parceria com a família e a escola, para que esse processo seja realmente
significativo e atue diretamente nas dificuldades apresentadas. No entanto, novas
dúvidas surgiram sobre os desafios e reinvenção necessária nesse período de pandemia,
sobre o qual se destaca no item a seguir.

4.3 – Desafios e impactos para o atendimento psicopedagógico em tempos de


pandemia

O período de pandemia trouxe protocolos e reinvenções que antes não faziam, ou


ainda, podemos afirmar que nunca fizeram parte do nosso convívio e dos diferentes
serviços prestados em nossa sociedade. Na área da Psicopedagogia Clínica não foi
diferente. O atendimento às crianças, bem como o contato com a escola e família,
também passou por alterações, a fim de trazer a maior proteção possível em tempos tão
complicados em que todo “cuidado ainda é pouco”.
Assim, A.G. afirma que os cuidados que ela implementou para o atendimento
nesse momento de pandemia foram: “(...) Uso de máscara, álcool em gel quando entra
e sai da sala e a higienização da sala e objetos a cada troca de paciente”. No entanto,
ela destaca que esse período houve uma diminuição da procura e a desistência de várias
crianças que já estavam em atendimento, isto porque os familiares, segundo A.G.
acreditam que por não estar havendo aulas presenciais, a criança não precisava mais
desse acompanhamento psicopedagógico. Fator esse que chama muito a atenção, pois
demonstra que o processo educativo na esfera remota não está atingindo todas as
famílias, o que provavelmente irá potencializar as dificuldades das crianças no retorno
presencial, sem contar que a criança está sendo privada das possibilidades para seu
desenvolvimento.
Esse fator é tão preocupante que A.G. afirma quer o impacto do ensino remoto nas
dificuldades de aprendizagem às crianças que já apresentam esse quadro podem ser
muito preocupantes, como ela destaca:
Acredito ser preocupante, pois muitos pais não conseguem lidar da maneira
correta não tendo a informação necessária para estimular o filho, muitos
deles ainda relatam que não tem tempo para fazer as atividades com seus
filhos e esse aluno que já apresentava dificuldades, fica ainda mais atrasado
com relação a sua turma.

A ausência de participação das famílias nas aulas remotas é uma realidade muito
triste e complicada em nossa atualidade. As demandas diárias fazem com que os pais
não ajudem e interaja com as crianças nesse processo, o que “atrasa” as crianças em
aspectos que são fundamentais ao seu desenvolvimento, como relata A.G. e assim, os
desafios atuais perdurarão e interferirão muito no processo de ensino-aprendizagem em
nossa sociedade, o que demandará mais uma vez, a reinvenção desse processo quando
as aulas presenciais verdadeiramente retomarem.
Segundo A.G., nesse período de pandemia a Psicopedagogia também pode ser
uma aliada importante na contribuição com as famílias diante do ensino remoto, e nesse
momento de pandemia, para ela a “(...) A Psicopedagoga pode orientar os pais nas
atividades remotas e qual a melhor maneira de estimular a criança em casa, além dos
estímulos na clínica”. Fator esse que demonstra o quão a Psicopedagogia também se faz
essencial nesse momento, em que o processo de ensino-aprendizagem vem
apresentando novas nuances, que já indicam um novo caminho que provavelmente será
adotado.
Por fim, A.G. apenas destaca que o questionário está completo e que não tem mais
o que acrescentar. Infelizmente, pelas suas respostas muitas questões ficaram para
compreensão mais aprofundada de sua atuação, mas que pelo desencontro de dias e
horários não foi possível sanar em um encontro online ao vivo. De toda forma, A.G.
muito gentilmente pontuou seu percurso, seus desafios, sua atuação e a realidade que o
cenário de pandemia que vem nos acompanhando desde 2020 tem apresentado para as
atividades do psicopedagogo clínico.
O relato da entrevistada mostrou, embora o momento seja de cautela, readaptação,
reinvenção, que é fundamental ter o apoio dos familiares no processo, uma vez que as
crianças sozinhas não conseguem realizar determinadas tarefas, como acessar à internet,
bem como não conseguem sozinhas procurarem um atendimento especializado que as
ajudem a superar suas dificuldades nesse processo de ensino-aprendizagem tão
diferenciado. Além disso, a ausência de práticas presenciais nas escolas não permite que
as dificuldades possam ser evidenciadas, retardando, muitas vezes, o desenvolvimento
das crianças.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Psicopedagogia ao longo da História foi ganhando seu espaço, principalmente


pelo o desejo de conhecer mais sobre o outro para ajuda-lo a superar suas dificuldades,
vencer seus problemas relativos à aprendizagem e compreender os elementos que
interferem nesse processo. No Brasil, por exemplo, essa se consolidou como um Curso
de Pós-Graduação, a fim de fornecer mais elementos formativos que permitam atuar
sobre a aprendizagem, a fim de potencializa-la, seja diretamente com o sujeito ou nos
espaços que esses estão.
A partir dessa compreensão o presente estudo estruturou-se como um Trabalho
de Estágio-Pesquisa, tendo como objetivo principal: identificar a atuação da
Psicopedagoga na Clínica, de modo a evidenciar a importância e desafios que envolvem
sua atuação, especialmente em tempos de pandemia. Tendo como específicos:
identificar o processo formativo e os motivos que levaram a escolha pelo Curso de
Especialização em Psicopedagogia Clínica; compreender os principais fatores que
envolvem a atuação do psicopedagogo na clínica, como: encaminhamentos, devolutivas,
avaliação e o processo de intervenção; entender como a Psicopedagoga em questão
organizou-se para continuidade de seus atendimentos dentro do contexto atual de
pandemia; compreender quais os principais desafios e impactos o ensino remoto tem
apresentado e como esse tem interferido na atuação do psicopedagogo; constatar qual o
papel da escola e da família no atendimento psicopedagógico; e entender qual o desafio
do psicopedagogo na clínica mediante ao cenário atual de pandemia.
Com o intuito de contemplar os objetivos supracitados, portanto, foi organizado
um estudo bibliográfico, como forma de destacar os conceitos, atuações e características
da Psicopedagogia e Psicopedagogia Clínica. A partir dos quais foi possível notar, que
essa área de conhecimento abrange questões amplas, porém com um norte bem
definido, que direcionam para o estudo, diagnóstico, conhecimento, reconhecimento,
identificação, de maneira sensível a todas as dimensões que envolvem o outro,
ajudando-o a encontrar caminhos que lhe permitam superar suas dificuldades
individuais, especialmente às ligadas ao processo de aprendizagem.
Neste sentido, a atuação na clínica procura compreender de forma global e
integrada os processos cognitivos, emocionais, sociais, culturais, orgânicos e
pedagógicos que interferem na aprendizagem, tendo como meta trazer possibilidades
que ajudem os sujeitos a resgatarem o prazer em aprender, assim como superem suas
dificuldades, e para isso, pressupõe a integração entre pais, professores, orientadores
educacionais e demais especialistas que transitam no universo educacional do aluno,
tendo como objetivo principal sanar essas dificuldades.
A partir dessas considerações é que foi feito um breve estudo sobre o conceito
de Epistemologia Genética exposto por Jean Piaget, compreendendo, a princípio quem
foi o autor e como estruturou seus estudos e conhecimentos nessa área. Assim, notou-se
que para Piaget a Epistemologia Genética refere-se ao estudo o dos mecanismos e os
processos mediante aos quais se passa dos estados de menor conhecimento aos estados
de conhecimento mais avançado. E para que pudéssemos compreender os principais
conceitos que envolvem todo o estudo e compreensão desse termo, apresentou-se
algumas discussões importantes desenvolvidas pelo autor como os conceitos de:
equilibração, assimilação, acomodação, e também, os estágios de desenvolvimento por
ele elaborados, os quais nos trazem pistas fundamentais para a compreensão do
desenvolvimento humano, e assim, contribuem para uma maior e melhor atuação no
atendimento psicopedagógico clínico.
A partir dessas considerações teóricas, é que foi indicada para este Estágio-
Pesquisa, uma Psicopedagoga atuante na Clínica, a qual atende desde 2018, na cidade
de São Carlos-SP. Com base no estudo e conversas informais com a mesma via
aplicativo do whatsapp, foi possível evidenciar suas principais características
conceituais que envolvem seu trabalho e assim, desenvolver via e-mail uma entrevista
semiestruturada para aprofundar na compreensão de sua trajetória, atuação e desafios
atuais.
Vale ressaltar que todo o desenvolvimento do Estágio-Pesquisa ocorreu de
maneira online, via ferramentas de comunicação virtual, pois nos encontramos em um
período tenso e de distanciamento social, consequência da pandemia que se instaurou
em nossa sociedade devido ao novo Coronavírus (COVID-19) desde março de 2020, e
que no cenário atual apresenta, infelizmente, um avanço cada vez mais caótico em nossa
sociedade.
Assim, pelos dados obtidos e análises realizadas a partir da entrevista feita com a
Psicopedagoga foi possível notar como as aprendizagens do Curso de Especialização
em Psicopedagogia Clínica são essenciais para a atuação, ajudando não só na atuação
como psicopedagogo, mas para a ampliação das compreensões sobre os diversos fatores
que interferem no processo de ensino-aprendizagem, indicando a necessidade sempre de
um olhar mais sensível a cada criança/adolescente, entendendo-o como um sujeito
singular, e quebrando de “uma vez por todas” com essa ideia que ainda permeia nossa
sociedade de padronização das metodologias e dos alunos.
Além disso, outro dado de grande relevância é a consideração do sujeito em
todas as esferas sociais a que se encontra, ou seja, família e escola devem ser levadas
em conta no processo de atendimento psicopedagógico seja para compreender mais e
melhor o desenvolvimento e trajetória desse sujeito, como também, para trazer
orientações, a fim de desenvolver um trabalho integrado, trabalho este que tenha o
sujeito e seu máximo desenvolvimento como centrais.
Outro fator que merece destaque é que os encaminhamentos recebidos pela
entrevistada são, em sua maioria, de crianças já laudadas com algum tipo de Transtorno,
como ela mesma afirmou, dado este que merece um olhar atento, pois demonstra que a
busca por ajuda psicopedagógica, ainda é feita em sua maioria nesses casos,
desconsiderando que as dificuldades de aprendizagem nem sempre precisam estar
relacionadas a Transtornos, ou seja, muitas crianças deixam de aprender pela falta de
informação e pela procura de profissionais especializados que possam ajudar nesse
processo.
Vale ressaltar que a intervenção é um processo planejado cuidadosamente a
partir do diagnóstico obtido pelas investigações realizadas pela Psicopedagoga, com
jogos, atividades que ajudem o paciente a expor seus conhecimentos e assim, possa
aprender de uma maneira mais significativa, reencontrando o prazer nesse processo de
ensino-aprendizagem. Por isso, pode-se afirmar que na prática Psicopedagógica na
Clínica não há atuação sem avaliação e intervenção.
Assim, pelos dados obtidos e análises realizadas pudemos notar os desafios e
impactos que esse período de pandemia trouxe também à atuação do psicopedagogo,
sua reorganização e reinvenção refletem na atuação de todos os profissionais, com a
perda de atendimentos, desconsideração da importância de seu trabalho frente ao ensino
remoto, quando na verdade, a Psicopedagogia pode ajudar ainda mais os familiares
nesse momento de atividades remotas, trazendo maneiras e propostas que ajudem a
estimular a criança em cada na realização das atividades, bem como dar continuidade a
esse processo na clínica, seguindo todos os protocolos de segurança necessários, tendo
sempre em vista o cuidado e o desenvolvimento das crianças.
Porém, um fator que ficou muito evidente em todo esse estudo, é o quanto o
Psicopedagogo é fundamental, especialmente no trabalho desenvolvido na Clínica, isto
porque sua atuação não se restringe apenas ao sujeito com dificuldades de
aprendizagem, mas a compreensão de todo processo que esteja intervindo nessa
situação, e na orientação de todos os envolvidos no contato e formação desse. Além de
trazer um olhar mais sensível e individualizado diante dessas dificuldades, podendo
atuar com mais enfoque nessa situação, ajudando-a a ser superada.
A Psicopedagogia, como vimos, surge com uma possibilidade abrangente e
qualificada para contribuir com o trabalho no campo educacional, além de permitir
identificar e intervir para que sejam possíveis melhores condições de desenvolvimento e
potencialização no processo de aprendizagem dos sujeitos. E nesse contexto de
pandemia, a atuação do Psicopedagogo junto às crianças e às famílias, bem como na
instituição escolar permitiria um acompanhamento mais próximo sobre os problemas
enfrentados em relação às devolutivas e dificuldades de relacionamento com os alunos
diante do distanciamento social.
Em meio a toda essa discussão, destaco a importância, qualidade e
fundamentação que o Curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia Clínica que o Centro
Universitário Central Paulista-UNICEP, proporcionou-me neste um ano, ampliando
minhas reflexões sobre a sensibilidade, possibilidades, caminhos e conhecimentos que
permitam olhar os sujeitos como únicos, suas dificuldades como passageiras, pensando
em caminhos, aprendendo a “ouvir” e “pensar com o outro”, compreender todo o
contexto que está em volta desse sujeito, e assim, refletir, avaliar, intervir para que
esses possam sanar suas dificuldades, superar seus problemas, vencer seus desafios.
6. REFERÊNCIAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOPEDAGOGIA. Código de ética do


Psicopedagogo. Disponível em <
https://www.abpp.com.br/documentos_referencias_codigo_etica.html

BIITENCOURT, Ana Cristina; LOBO, Patricia de Almeida G.; CRIVELLARO, Cátia


Lemos; CARON, Lilian. A atuação do Psicopedagogo em relação à inovação do
ambiente escolar: uma revisão sistemática integrativa. In: Revista de Psicopedagogia,
2019, 36 (110), p. 196-211. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
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