Você está na página 1de 145

TEOLOGIA SISTEMÁTICA II

autor
JAIRO DA MOTA BASTOS

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2019
Conselho editorial  roberto paes e gisele lima

Autor do original  jairo da mota bastos

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  andré lage, luís salgueiro e luana barbosa da silva

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  bfs media

Revisão linguística  bfs media

Revisão de conteúdo  vandeia lúcio ramos e antonio sérgio giacomo macedo

Imagem de capa  sstevens3 | shutterstock.com

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2019.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

B327t Bastos, Jairo da Mota


Teologia sistemática II / Jairo da Mota Bastos.
Rio de Janeiro: SESES, 2019.
144 p: il.

isbn: 978-85-5548-691-3.

1. Angeologia. 2. Antropologia. 3. Cosmologia. 4. Cristologia. I. SESES.


II. Estácio.
cdd 230

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário
Prefácio 7

1. Cosmologia:
a origem do universo 9
Teogonia 10

Cosmogonia 11

Cosmologia 14
A origem da Filosofia grega. 19

Tomás de Aquino: conceito filosófico e conceito teológico da criação 22

Explicação metafísica da criação: Deus como causa 25

O Iluminismo e a impossibilidade metafísica 27

Diálogo entre ciência e religião 29

2. Angeologia no primeiro testamento 35


Angeologia no primeiro testamento 36

Os anjos na Torá 37

Angeologia no livro do Êxodo 39

Angeologia na literatura sapiencial 43

Angeologia nos profetas de Israel 45

Angeologia no segundo testamento 47

Angeologia nos evangelhos 48

Angeologia no apocalipse 52

Anjo, querubim, serafim e arcanjo 53

Apropriação do misticismo e das superstições da angeologia 57


3. Antropologia teológica: estudos da origem,
queda e redenção humanas 63
O sentido da vida e o fenômeno humano 64

A criatura como imagem e semelhança do criador 71


Fundamentos bíblicos 72

O homem compreendido pelo mistério da revelação 75


Os fundamentos bíblicos da revelação 75

O desligamento do criador: o pecado 79


O pecado nas escrituras sagradas 80
A Redenção em Jesus Cristo: Re-Ligare 84
A Promessa do Emanuel e o servo de Yahweh 84
A encarnação como kenosis 84
A encarnação nos evangelhos 85
Kerigma: Jesus Cristo une Deus e a humanidade 88

4. Cristologia: estudos sobre a pessoa de


Jesus Cristo 91
A natureza humana e Divina de Jesus: 100% Deus e 100% homem 92
Introdução 92
Jesus de Nazaré verdadeiro homem 95

O testemunho das escrituras sobre a humanidade de Jesus 97


A humanidade de Jesus Cristo no primeiro testamento 97
A humanidade de Jesus em Paulo 98
A humanidade de Jesus Cristo nos evangelhos sinóticos 99

As Heresias Cristológicas 103

A relação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo 107


Fundamentos bíblicos da fé trinitária 108
A revelação da trindade no segundo testamento 108
A trindade na teologia sistemática de Agostinho e Boff 109

A heresia do Arianismo e a resposta dos Concílios de Niceia e


de Constantinopla: Credo Niceno-Constantinopolitano 113
5. Soteriologia: estudos sobre doutrinas
da salvação 119
A soberania de Deus 120

A soberania divina no anúncio de Jesus de Nazaré 122

A conversão e a salvação em Jesus 125

A igreja como canal da graça e da vida eterna 127


Eclesiologia ecumênica 127
O que é ecumenismo? 128

A origem do movimento ecumênico 130

Eclesiologia ecumênica 132


Hermenêutica da koinonia 135

Justificação, regeneração, santificação, glorificação 138


Justificação e regeneração 138
Santificação e glorificação 140
Prefácio

Prezados(as) alunos(as),

Neste componente curricular você estudará temas fundamentais de teologia


sistemática tais como criação e evolução, angeologia, antropologia teológica, cris-
tologia e soteriologia.
Na primeira unidade você verá que a teologia contemporânea faz uma interfa-
ce com os demais saberes, sobretudo com a filosofia e com as ciências na busca das
causas materiais da origem do universo. É uma atitude de diálogo na diversidade
de concepções, cada uma respeitando a autonomia da outra. É uma postura de
complementariedade e não de confronto.
Esta nova postura da teologia segue na linha da interdisciplinaridade, da trans-
disciplinaridade, da pruridisciplinaridade e da metadisciplinaridade, ou seja, o
verdadeiro conhecimento é uma construção coletiva.
Na unidade dois, a reflexão teológica é sobre um tema fascinante, os anjos.
Você conhecerá a perspectiva bíblica sobre esses seres angelicais. Segundo a Sagrada
Escritura eles são muitos e estão a serviço de Deus na defesa da vida humana e
da criação. Verá como os Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael são mensageiros de
grandes notícias e protetores de grandes causas humanitárias. Igualmente estudará
a apropriação negativa desta espiritualidade pelo misticismo e pela superstição.
Na terceira unidade o estudo é sobre a pessoa humana: antropologia teológica.
Você analisará o ser humano como criado a Imagem e Semelhança da Trindade.
É na verdade uma antropologia cristológica, a pessoa humana redimido por Jesus
Cristo agora é um alter Christi, outro Cristo. Não é o Homo hominis lúpus ou o
inferno como afirma a antropologia filosófica de John Lock e de Jean Paul Sartre.
Mas batizada e convertida é Imagem e Semelhança do redentor.
A unidade quatro é sobre o mistério cristológico. A cristologia e a Trindade são
os estudos mais fascinantes da teologia. Você estudará dois paradigmas cristológi-
cos: cristologia para cima ou ascendente e cristologia para baixo ou descendente.
Verá que o kerigma colocou esses dois paradigmas de abordagem, compreensão e
proclamação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Jesus Cristo é verdadeiro
Deus e verdadeiro Homem, o salvador.
Por fim, na unidade cinco será abordado o tema da salvação, soteriologia.
Você voltará na unidade porque a salvação na perspectiva da teologia cristã inicia

7
com a criação e passará por todas as outras unidades verificando o papel dos anjos
na história da salvação, a pessoa humana como protagonista da ação redentora de
Deus em Jesus Cristo, unidades três e quatro. E verá também a missão das igrejas
como habitat da experiência salvíficas na celebração do mistério pascal, na procla-
mação da Boa Nova, na comunhão e partilha do pão. Daí a necessidade de uma
eclesiologia ecumênica.

Bons estudos!
1
Cosmologia:
a origem do
universo
Cosmologia: a origem do universo
No estudo de Teologia sistemática II você aprofundará seus conhecimentos
sobre uma temática fascinante: a origem do universo. Tema este que a historiogra-
fia testemunha, vem ocupando a preocupação intelectual da humanidade de longa
data. Juntamente como questões: quem sou eu? De onde vim? O que vim fazer
aqui e agora? E para onde vou? Estas questões foram respondidas pelas religiões,
pela fé, como veremos a resposta religiosa sempre foi a fé na criação, Deus criou
o universo do ‘nada’. Segundo o livro do Gênesis “no princípio Deus criou o céu
e a terra. Ora a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, um vento de
Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,1-2).
Igualmente a mitologia abordou esta questão também usando sua metodo-
logia própria: a imaginação, daí, embora sejam importantes, mas o seu caráter
fantástica, subjetivo e sem base “empírica” ou verificável na experiência.
Por outro lado, na passagem do século sexto para o século quinto antes de
Cristo, nas colônias orientais da Grécia clássica, uma nova metodologia de abor-
dagem destas questões será “inventada” pelos filósofos pré-socráticos: a aborda-
gem racional ou abordagem filosófica. E esta abordagem pelo seu caráter inovador
receberá o nome de cosmologia. Porém, antes de analisarmos como é esta nova
forma de compreender e explicar o mundo, o universo, o cosmo vamos fazer uma
distinção entre teogonia, cosmogonia e cosmologia.

OBJETIVOS
•  Estudar a origem do universo;
•  Analisar as relações mito, filosofia, religião, teologia e ciências;
•  Compreender o sentido da metafísica.

Teogonia

A teogonia busca a compreensão das origens do universo a partir de uma


concepção politeísta.
Hesíodo que viveu por volta do século VIII antes de Cristo é considerado o
grande representante desta abordagem. Numa obra intitulada Teogonia de forma

capítulo 1 • 10
‘fantástica’, imaginativa, o poeta fala do nascimento dos deuses e da origem do
universo, já que este surgiu das mãos dos deuses. “É uma explicação mítica-poé-
tica-fantástica da origem do universo, dos fenômenos cósmicos, a partir do caos
originário, que foi o primeiro a se gerar”.
A narrativa teogônica é uma abordagem imaginativa que concebe a gênesis
de tudo através de relações sexuais entre os deuses, então surge o cosmo, isto é, a
origem dos deuses, titãs, heróis, homens e o mundo natural. ‘É uma narrativa em
forma de genealogia que mostra o nascimento, o lugar do nascimento, as descen-
dências, reunião de todos os seres criados, ligados por laços de parentescos’.

CONEXÃO
Você poderá aprofundar este tema estudando a Obra de Hesíodo Teogonia. A origem
dos deuses, traduzida por Jaa Torrano. Disponível em: <http://sanderlei.com.br/PDF/Hesio-
do/Hesiodo-Teogonia.pdf>. Acesso em: 03 maio 2018.

Cosmogonia

Homero é um gênio da literatura épica, segundo a historiografia seu período é


o século IX antes de Cristo. Dele temos duas obras magníficas, Illíada e Odisseia.
São clássicos da literatura ocidental. Na primeira ele relata a longa guerra de Tróia,
vencida pelos gregos depois de dez anos de batalha. Segundo Homero, a causa foi
o rapto da princesa Helena esposa de Menelau, feito por Paris, filho do rei Priano
de Tróia. Mas sabemos que o interesse maior dos gregos era o estreito do mediter-
râneo dominado por Tróia onde todos os navios deveriam pagar uma espécie de
pedágio para navegarem, medida com a qual os gregos não concordavam.
A hipótese mais provável é que Tróia fez um acordo com os gregos de nave-
garem gratuitamente por lá, então Priano manda seus dois filhos Heitor e Paris
à Grécia para celebrar o acordo, no retorno a Tróia, Páris leva consigo a princesa
Helena, então esposa de Menelau. Então “pela honra de Menelau” o exército grego
atacou a fortaleza de Troia e somente pela esperteza de Ulisses, com o famoso ca-
valo de troia, os gregos conseguiram a vitória. Veja que Helena é apenas o estopim
da guerra, mas não a causa.

capítulo 1 • 11
CONEXÃO
Para conhecer um pouco melhor esta questão você poderá ler O Elogia a Helena no
texto de Górgias (485-375). Disponível em: <http://www.consciencia.org/gorgiashumberto.
shtml>. Acesso em: 03 maio 2018.

Outra obra monumental de Homero é a Odisseia, na qual o autor narra o


retorno de Odisseu ou Ulisses o herói grego da guerra, que perambulou por mais
dez anos pelo mediterrâneo depois de ter destruído a cidade sagrada de Tróia. No
seu retorno à terra natal, Ítaca, teve que travar outra guerra para recuperar sua casa
e sua família que foram assedias por pretendentes de seu patrimônio e sobretudo
de sua fiel esposa Penépole.
Porém, vamos conhecer um pouco a outra obra prima de Homero, a cosmo-
gonia, ela é uma evolução na compreensão da origem do universo em relação à
teogonia de Hesíodo. ‘Ela narra a geração da ordem do universo pela ação e pelas
relações sexuais entre forças vitais que são entidades concretas e divinas’.
Segundo Giovanni Reali e Dario Antiseri

Homero tem grande senso de harmonia, da proporção, do limite e da medida. Não se


limita a narrar uma série de fatos, mas também pesquisa suas causas e razões (ainda que
em nível mítico-fantástico). Procura apresentar a realidade em sua inteireza, ainda que de
forma mítica (deuses e homens, céu e terra, guerra e paz, bem e mal, alegria e dor, tota-
lidade dos valores que regem a vida do homem) (REALI e ANTISERI, Vol. 1, p. 7, 2003).

CONEXÃO
Veja o estilo literário deste gênio chamado Homero:
“Ninguém, com toda certeza, é capaz de assumir a liderança em todos os campos, pois
para um homem os deuses concederam as proezas da guerra, a outro, a dança, para um
outro, a música e o canto, e, num outro, o todo poderoso Zeus colocou uma boa cabeça.”
Homero. Disponível em: <https://kdfrases.com/autor/homero>. Acesso em: 3 maio 2018.

capítulo 1 • 12
Depois que assim falou, o ilustre Heitor estendeu os braços ao filho. Logo a criança
se voltou aos gritos, para o seio da ama de bela cintura, assustado com o aspecto do
seu amado pai, com medo do bronze e do penacho de crinas de cavalo, que via tremer,
assustador, no alto do capacete. Desatou a rir o pai querido e a mãe venerável. Logo
o ilustre Heitor retirou o capacete da cabeça e pousou no solo, todo resplandecente.
Depois que beijou o caro filho, e o embalou nos braços, dirigiu esta prece a Zeus e
aos outros deuses: “Zeus e demais deuses, concedei me que este meu filho venha a
ser como eu, se distinga entre os Troianos, seja assim forte e governe Ílion com o seu
poder”. E que alguém diga: “É bem mais valente que o pai.
Quando regressar do combate, que traga os despojos sangrentos do inimigo que aba-
teu, para gáudio de sua mãe”. Dito isto, pôs nos braços da esposa o filhinho; ela rece-
beu o no seio perfumado, entre risos e lágrimas; condoeu se o marido ao vê la, acari-
ciou a, e dirigiu lhe estas palavras, chamando a pelo nome: “Louca, não te aflijas assim
no teu coração. Ninguém me lançará no Hades contra as ordens do Destino. Garanto
te que nunca homem algum, bom ou mau, escapou ao seu Destino, desde que nasceu.
Vai para casa tratar dos teus trabalhos, o tear e a roca, e dá ordem às tuas aias de
fazer o seu serviço; a guerra diz respeito aos homens, a quantos nasceram em Ílion, e
a mim mais que a nenhum.” Disponível em: <http://www.scielo.mec.pt/pdf/rphl/n24/
n24a02.pdf>. Acesso em: 03 maio 2018.

Como afirma a historiografia, Homero e Hesíodo estão ligados às camadas


populares de seu tempo, sobretudo à religião pública, representam o patrimônio
cultural da sabedoria de vida do povo grego. Portanto recolhem pensamento po-
pular e com uma imaginação fértil elaboram uma explicação cosmogânica para os
acontecimentos históricos.
Segundo Juan Antonio Estrada, no livro Deus nas tradições filosóficas. Volume1.
Aporias e problemas da teologia natural, estes dois gênios da literatura grega,
Hesíodo e Homero não só representam a sabedoria popular grega, mas são tribu-
tários da literatura oriental:

As diversas influências das mitologias orientais no mundo helenistas se fazem sentir na


cultura grega. Hesíodo, juntamente com Homero, é grande receptor e transmissor dos
mitos, com claros antecedentes e influências das tradições orientais já analisadas. Na
Teogonia de Hesíodo nos encontramos com paralelismos e repetições dos elementos
das mitologias anteriores: a cosmogonia se insere dentro da geração dos deuses e tem
como ponto de partida o caos.

capítulo 1 • 13
O estágio originário de desordem e violência deixa lugar a um de ordem e justiça como
consequência de ascensão e consolidação posterior de Zeus como máxima autoridade
divina, que instaura a ordem cósmica, social e divina. O próprio poema Os trabalhos e
os dias estão também caracterizados por esta preocupação de Hesíodo pela ordem,
estabelecendo sempre a correspondência entre homens e deuses. Os paralelismos
com a mitologia babilônica são indiscutíveis e a pergunta pelas origens mantém sem-
pre sua conexão com a do significado do cosmo (o da ordem e o caos). (ESTRADA,
2003, p. 37-38).

Cosmologia

Dando um salto histórico, passamos agora para o chamado período de ouro


do povo grego, alguns chegaram a chamá-lo de ‘milagre grego’. A verdade é que na
passagem do século sexto para o século quinto antes de Jesus Cristo a Grécia passa
por uma profunda transformação social, econômica, política, ecológica e cultural,
sobretudo nas colônias da Jônia, especialmente Mileto e depois nas colônias oci-
dentais da Itália meridional. O florescimento comercial possibilitou o surgimento
de um novo grupo social, um novo protagonista, os artesãos, que com sua força
econômica se oporão ao poder político da velha nobreza fundiária, transformarão
as velhas formas aristocráticas de governo em novas formas republicanas, desper-
tando o amor pela liberdade, ou melhor, pela autonomia (autarquia). Juntamente
com este fato novo, acontece uma série de inovações: invenção da moeda, da
escrita, do calendário e, sobretudo da democracia.
Sobre este momento de esplendor do povo grego vejamos o que diz um dos
principais lideres deste período, Péricles, na famosa oração fúnebre:

A maioria dos que, até este momento, pronunciaram discursos neste lugar fez o elogio
deste costume antigo de honrar, ante o povo, aqueles soldados que morreram na guer-
ra, mas a mim parece-me que as solenes exéquias que publicamente celebramos hoje
são o maior elogio daqueles que, pelo seu heroísmo, as mereceram...
...Esta região, habitada sem interrupção por gente da mesma raça, passou de mão em
mão até hoje, guardando sempre a sua liberdade, graças ao seu esforço. E se aque-
les antepassados merecem o nosso elogio, muito mais o merecem os nossos pais. À
herança que receberam juntaram, ao preço do seu trabalho e dos seus desvelos, o
poder que possuímos, que nos legaram. Nós o aumentamos. E no vigor da idade ainda
alargamos esse domínio, abastecendo a cidade de todas as coisas necessárias, tanto
na paz como na guerra.

capítulo 1 • 14
Nada direi das proezas e façanhas guerreiras que nos permitiram alcançar a situação
presente, nem da valentia que nós e os nossos antepassados demonstramos defen-
dendo-nos dos ataques dos bárbaros ou dos gregos. Todos as conheceis e por isso
não vos vou falar delas. Mas a prudência e arte que nos possibilitaram chegar a esse
resultado, a natureza das instituições políticas e os costumes que nos trouxeram este
prestígio, é necessário que sejam ressalvados antes de tudo. Depois, continuarei com
o elogio aos nossos mortos...
... A nossa constituição política não segue as leis de outras cidades, antes lhes serve
de exemplo. O nosso governo chama-se democracia, porque a administração serve aos
interesses da maioria e não de uma minoria.

Veja que o ‘discurso fúnebre’ expressa uma auto autoestima, uma auto valori-
zação e sobretudo uma auto confiança na organização política reconhecidamen-
te ainda hoje como um paradigma daquele período. Mas não para por aí, leia
mais um trecho diagnóstico deste esplendor helênico agora sobre a legislação e
a República:

De acordo com as nossas leis, somos todos iguais no que se refere aos negócios
privados. Quanto à participação na sua vida pública, porém, cada qual obtém a conside-
ração de acordo com os seus méritos e mais importante é o valor pessoal que a classe
a que se pertence; isto quer dizer que ninguém sente o obstáculo da sua pobreza ou
da condição social inferior, quando o seu valor o capacite a prestar serviços à cidade.
No que corresponde à República, pois, governamos livremente e, ainda, nas relações
que mantemos diariamente com os nossos aliados e vizinhos, não nos irritamos porque
ajam à sua maneira, nem consideramos como uma humilhação os seus prazeres e
alegrias que, apesar de não nos produzir danos materiais, nos causam pesar e tristeza,
ainda que sempre tratemos de dissimulá-los.
Ao mesmo tempo em que não temos receio nas nossas relações particulares, domina-
-nos o temor de infringir as leis da República; obedecemos aos magistrados e às re-
gras que defendem os oprimidos e mesmo que não estejam editadas, a todas aquelas
que atraem sobre quem as viola o desprezo de todos.
Para amenizar o trabalho, procuramos muitos recreios para a alma; instituímos jogos
e festas que se sucedem a cada ano; e diversões que diariamente nos proporcionam
deleite e diminuem a tristeza. A grandeza e a importância da nossa cidade atraem os
tesouros de outras terras, de modo que não só desfrutamos dos nossos produtos como
daqueles do universo inteiro.
No que se refere à guerra, somos muito diferentes dos nossos inimigos porque per-
mitimos que a nossa cidade esteja aberta a todas as gentes e nações, sem vedar
nem proibir a qualquer pessoa que adquira informes e conhecimentos, ainda que a
sua revelação possa ser proveitosa aos nossos adversários; pois confiamos tanto em
preparativos e estratégias como no nosso ânimo e vigor na ação.

capítulo 1 • 15
A organização militar segundo Péricles é imperial, ou seja, a maior potência
do mediterrâneo que impunha medo a todos os inimigos pelas armas e estratégias:

Outros, no que se refere à educação, acostumam, mediante um treino fatigante desde


criança, a sua potência viril; nós, apesar da nossa forma de viver, não somos menos
ousados e valentes para afrontar o perigo quando a necessidade o exige. Boa prova
disso é que os lacedemónios [espartanos] jamais se atreveram a entrar na nossa terra
sem que estejam acompanhados de todos os aliados; enquanto nós, sem ajuda nenhu-
ma, fizemos incursões no território dos nossos vizinhos e muitas vezes, sem grandes
dificuldades, derrotamos em país estrangeiro adversários que defendiam os seus pró-
prios lares.
Nenhum dos nossos inimigos se atreveu a atacar-nos quando reunimos todas as nos-
sas forças, tanto por causa da nossa experiência nas coisas do mar, como pelos muitos
destacamentos que temos em diversos lugares do nosso território.
Se por acaso os nossos inimigos derrotam alguma vez um destacamento dos nossos,
se jactam de nos haver vencido a todos e se, pelo contrário, os derrota uma parte das
nossas tropas, dizem que foram atacados por todo o nosso exército.
E efetivamente preferimos o repouso e o sossego quando não estamos obrigados, por
necessidade, ao exercício de trabalhos penosos e, também, ao exercício dos bons cos-
tumes, a viver sempre com o temor das leis; de forma que não nos expomos ao perigo
quando podemos viver tranquilos e seguros, preferindo a força da lei ao ardor da valentia.
Temos a vantagem de não nos preocupar com as contrariedades futuras. Quando che-
gam estas, enfrentamo-las com boa têmpera, como os que sempre estiveram acostu-
mados com elas.

Segundo Péricles a cidade Estado Grega articula preocupação e cuidado com a


coisa pública e ao mesmo tempo com as necessidades particulares de cada cidadão:

Por estas razões e muitas mais ainda, a nossa cidade é digna de admiração. Ao mes-
mo tempo em que amamos simplesmente a beleza, temos uma forte predileção pelo
estudo. Usamos a riqueza para a ação, mais que como motivo de orgulho, e não nos
importa confessar a pobreza, somente considerando vergonhoso não tratar de evitá-la.
Por outro lado, todos nos preocupamos de igual modo com os assuntos privados e
públicos da pátria, que se referem ao bem comum ou privado, e gentes de diferentes
ofícios se preocupam também com as coisas públicas.
Nós consideramos o cidadão que se mostra estranho ou indiferente à política como um
inútil à sociedade e à República.
Decidimos por nós mesmos todos os assuntos sobre os quais fazemos, antes, um estu-
do exato: não acreditamos que o discurso entrave a ação; o que nos parece prejudicial
é que as questões não se esclareçam, antecipadamente, pela discussão.

capítulo 1 • 16
Por isto nos distinguimos, porque sabemos empreender as coisas juntando a audácia
à reflexão, mais que qualquer outro povo.
Os demais, algumas vezes por ignorância, são mais ousados do que o que requer a
razão, e alguns, por querer fundamentar tudo em raciocínios, são lentos na execução.
Seria justo ter por valorosos aqueles que, ainda conhecendo exatamente as dificulda-
des e vantagens da vida, não recusam o perigo.

A paideia grega é igualmente exaltada como aquela que é capaz de formar o


ser humano altruísta, além das habilidades para a guerra, para o trabalho, ou seja,
a formação humana integral:

No que se refere à generosidade, também somos diferentes dos demais, porque pro-
curamos fazer amigos, dispensando-lhes benefícios ao invés de recebê-los, pois o que
faz um favor a outro está em melhor condição do que quem o recebe para conservar
a sua amizade e benevolência, enquanto o favorecido sabe que há de devolver o favor,
não como se fizesse um benefício mas como se pagasse uma dívida. Também somos
os únicos em usar a magnificência e liberalidade com os nossos amigos e não tanto
por cálculo da conveniência como pela confiança que a liberdade dá.
Numa palavra, afirmo que a nossa cidade é, em conjunto, a escola da Grécia, e creio
que os cidadãos são capazes de conseguir uma completa personalidade para adminis-
trar e dirigir perfeitamente outras gentes, em qualquer aspecto.
E tudo isto não é um exagero retórico, ditado pelas circunstâncias, mas a verdade mes-
ma; o poderio que conquistamos com estas qualidades o demonstra.
Atenas possui mais fama que as demais. É a única cidade que não dá motivos de ran-
cor aos seus inimigos pelos danos que lhes inflige, nem desprezo aos seus súbditos
pela indignidade dos seus governantes. Esta grandeza é demonstrada por importantes
testemunhos é de uma maneira definitiva para nós e para os nossos descendentes.
Eles terão uma grande admiração por nós sem que tenhamos necessidade dos elogios
de um Homero, nem de qualquer outro, para adornar os nossos feitos com elogios
poéticos, capazes de seduzir, mas cuja ficção contradiz a realidade das coisas.
É sabido que, graças ao nosso esforço e ousadia, conseguimos que a terra e o mar
por inteiro fossem acessíveis à nossa audácia, deixando em toda a parte monumentos
eternos das derrotas infligidas aos nossos inimigos e das nossas vitórias.
Esta é a cidade, pois, que com razão estes homens não quiseram deixar que fosse
manchada e pela qual morreram valorosamente no combate; os nossos descendentes
estão dispostos a sofrer tudo para assegurar a sua defesa.

Este período, chamado de período de ouro, gera um verdadeiro narcisismo


helênico. A juventude preparada fisicamente para as competições (Olimpíadas), o

capítulo 1 • 17
culto ao corpo, para as guerras. Também é formada para o heroísmo: viver, lutar e
morrer por Atenas. Verdadeiros ‘mártires’ da pátria:

Por estas razões me estendi a falar da nossa cidade já que queria demonstrar-lhes que
não lutamos pelo mesmo que os outros, mas por algo tão grande que nada o iguala, e
também para que o elogio dos homens objeto do nosso discurso fosse claro e veraz.
Terminei, já, com a parte principal. A glória da República deve-se ao valor desses solda-
dos e de outros homens semelhantes. Os seus atos estão à altura da sua reputação e
existem poucos gregos dos quais se possa dizer o mesmo.
No meu entender, nada demonstra melhor o valor de um homem que este final, que
entre os jovens é um indício e uma confirmação entre os velhos.
Com efeito, aqueles que não podem prestar outro serviço à República é justo que se
mostrem valorosos na guerra, pois apagaram o mal com o bem e os seus serviços
públicos compensaram de sobra os equívocos da sua vida privada. Nenhum deles se
deixou seduzir pelas riquezas ao ponto de preferir os defeitos ao seu dever, nem tão-
-pouco nenhum deixou de se expor ao perigo com a esperança de escapar da pobreza
e fazer-se rico, convencidos de que era preciso o castigo do inimigo ao gozo destes
bens, e visando este risco como o mais admirável, quiseram afrontá-lo para castigar o
inimigo e fazer-se dignos destas honras.
Tiveram confiança neles mesmos no momento da batalha e ao encontrar-se ante o
perigo, sustentados pela esperança ante a incerteza do êxito. Preferiram buscar a sua
salvação na destruição do inimigo, e antes na morte que no covarde abandono; assim
escaparam à desonra e perderam a vida.
No azar de um instante nos deixaram, alcançando o mais alto cume da glória e não a
baixa recordação do seu medo.
Dessa forma é que se mostraram filhos dignos da cidade. Os sobreviventes devem fa-
zer todo o possível para conseguir uma melhor sorte, mas devem-se mostrar ao mesmo
tempo intrépidos contra os seus inimigos, considerando que não se podem limitar às
palavras de um discurso toda a utilidade e proveito.
Também seria ocioso enumerar diante de gente tão perfeitamente informada, como
o sois vós, todos os esforços dirigidos à defesa do país. Quanto maior lhes pareça o
poder da cidade, mais deveis pensar que existiram homens valorosos, que souberam
praticar a audácia como sentimento de um dever e se conduzir com honra durante
toda a vida.
E se bem que o sucesso nem sempre tenha correspondido aos seus esforços, não
quiseram privar Atenas do seu valor e sacrificaram a sua virtude como o mais nobre
tributo, fazendo o sacrifício da sua vida e adquirindo, cada um por sua parte, uma glória
imortal que lhes deu a sepultura com honra.
E esta terra onde agora descansam não é tanto como a recordação imortal sempre
renovada e enfocada em discursos e comemorações. Os homens eminentes têm por
túmulo a terra inteira.

capítulo 1 • 18
O que atrai a atenção para eles não são somente as inscrições funerárias gravadas na
pedra; quer na sua pátria, quer nos países mais longínquos, a sua memória persiste,
apesar dos epitáfios, conservada no pensamento e não nos monumentos.
Invejai, pois, a sua sorte, dizei que a liberdade se confunde com a felicidade e o valor
com a liberdade e não olheis com desprezo os perigos da guerra. Não penseis que os
maus e os covardes, que não têm esperança de melhor sorte, são mais razoáveis em
guardar a sua vida que aqueles cuja existência está exposta ao perigo e que se aven-
turara? a passar da boa à má fortuna e que, se fracassam, verão a sua sorte completa-
mente transformada. Pois para um homem sábio e prudente é mais doloroso a covardia
que uma morte enfrentada com valor e animada pela esperança comum.
Assim, não me compadeço pela sorte dos pais que estão presentes, limitar-me-ei a
consolá-los. Eles sabem, eles que cresceram entre as vicissitudes da vida, que a ventu-
ra só é para os que obtêm, como seus filhos, o fim, o mais glorioso ou, como eles, o luto,
o mais honroso e para os quais o termo da vida é a medida da felicidade.
Agora, cumpre que cada um se retire, uma vez que chorou na hora dos desapareci-
dos. Disponível em: <http://arqnet.pt/portal/discursos/abril10.html>. Acesso em: 03
maio 2018.

Embora longa, esta citação, ela nos remonta ao contexto de evolução social,
econômica, tecnológica, política, ecológica e cultural que é elaborado a filosofia
grega. Mesmo sendo pronunciada por um político e sendo palavras proferidas
num velório de guerreiros que morreram pela pátria, portanto em forma de ora-
ção, expressa a autoestima, a autovalorização e sobretudo a autoconfiança dos gre-
gos, que realmente estão vivendo um grande desenvolvimento.

A origem da Filosofia grega.

Veja que a palavra philo do grego significa amigo (amor) e sophia significa sa-
bedoria, então filosofia significa amigo da sabedoria ou amor à sabedoria, segundo
Pitágoras criador da palavra.
Essa busca pela sabedoria inicia diferenciando-se do mito e da religião no con-
teúdo, no método e no objetivo. No conteúdo a diferença está na explicação da to-
talidade sem exclusão de partes ou momentos. Quando Tales de Mileto pergunta
qual é o princípio de todas as coisas? mostra que a filosofia quer saber ‘a totalidade
da realidade e do ser’ e ela vai descobrindo a natureza do primeiro “princípio”,
o “porquê” das coisas ou a essência do ser é na investigação, na pesquisa do e no
mundo natural.

capítulo 1 • 19
A metodologia filosófica é uma explicação puramente racional da totalidade.
É o logos investigando, pesquisando, indagando à natureza e dela extraindo as
respostas da causa ou das causas. É este método que lhe confere a cientificidade e
ao mesmo tempo a difere das ciências que buscam causas particulares enquanto a
razão filosófica busca a causa na globalidade.
E o seu objetivo, segundo Aristóteles (384-322 a.C.), é o puro desejo de co-
nhecer e contemplar o ser das coisas. É pelo espanto ou pela admiração diante da
realidade. Ou como afirma a filósofa brasileira Marilena Chaui (1994), é pela
desbanalização que inicia o filosofar, ou seja, diante do banal, do trivial é que o
filósofo inicia a sua reflexão, sua pesquisa.
Diferentemente do mito (mithos) o logos grego, se sente interpelado pelo
mundo natural (physis), sem fantasia a razão penetra o mundo real e dele extrai
suas conclusões da arké, da origem. Os pré-socráticos são, portanto, naturalistas,
razão pela qual Aristóteles os chamou de Físicos.
Tales de Mileto, iniciador desta aventura racional buscará na água o princípio,
a fonte, a origem, o termo, o sustentáculo, a arké. Segundo Reali e Antiseri:

Tales chegou a esta conclusão da constatação de que a nutrição de todas as coisas


é úmida, que as sementes e os germes de todas as coisas “tem natureza úmida”, e de
que, portanto, a secura total é a morte. Assim como a vida está ligada à umidade e esta
pressupõe a água, então a água é a fonte última da vida e de todas as coisas. Tudo vem
da água, tudo sustenta sua vida com a água e tudo termina na água. Tales, portanto,
fundamenta suas asserções sobre o raciocínio puro, sobre o logos; apresenta uma
forma de conhecimento motivado com argumentações racionais precisas. (REALE e
ANTISERI, 2003, P. 19).

Através da História da filosofia, percebemos que o espírito democrático e a in-


tensa investigação geraram diferentes teses sobre a arké. Anaximandro, discípulo
de Tales, no seu tratado sobre a natureza, afirma que a água é derivada e que a arké
é o infinito e indefinido ou ápeiron. Esse princípio abarca e circunda, governa e
sustenta tudo, todas as coisas geram-se a partir dele, nele consistem e nele existem.
Anaxímenes que foi aluno de Anaximandro também pesquisando a natureza
concorda com seu mestre que a arké deva ser infinita, mas que é o ar substância
aérea ilimitada. Como a alma (ou seja, o princípio que dá a vida), que é ar, se sus-
tenta e se governa, assim também o sopro e o ar abarcam o cosmo inteiro.
Já a escola filosófica de Éfeso, com Heráclito (535-475 a. C.), afirmara que a
arke é o fogo, panta rhei, a transformação.

capítulo 1 • 20
“Tudo se move, nada permanece imóvel e fixo, tudo muda e se transmuta sem exce-
ção. Não se pode descer duas vezes no mesmo rio e não se pode tocar duas vezes
uma substância mortal no mesmo estado, pois por causa da impetuosidade e da ve-
locidade da mudança, ele se dispersa e se reúne, vai e vem,(...) Nós descemos e não
descemos pelo mesmo rio, nós próprios somos e não somos.” (Heráclito,apud REALE
e ANTISERI, 2003, p.23).

Parmênides (530-460 a.C.), representando a filosofia eleática e contrário às


teses da escola filosófica de Éfeso, afirmará a estabilidade do ser. Segundo ele

levado à deusa (verdade) puxado por velozes cavalos e em companhia das filhas do
sol chega à verdade absoluta da arké: “o ser é e não pode não ser; o não-ser não é e
não pode ser de modo nenhum. O ser é positivo puro e o não-ser é o negativo puro.
O ser é eterno, incorruptível. O caminho da verdade é o caminho da razão, enquanto o
caminho dos sentidos é o caminho do erro, da ilusão da mudança. Os opostos devem
ser pensados na unidade superior do ser: “ambos os opostos são “ser’. (Parmênedides
apud REALE E ANTISERI, 2003, P.24).

Para Pitágoras, o número um é a arké. Para Demócrito o princípio é o átomo.


E por fim para os físicos pluralistas como Empédocles é princípio são os quatro
elementos primordiais: água, ar, terra e fogo que são governados por duas forças
cósmicas, o amor e o ódio; uma une e outro separa. “Quando prevalece o amor
temos a perfeita harmonia; quando permanece o ódio temos a completa desagre-
gação, o caos, nas fases de relativo predomínio do ódio, gera-se o cosmo.” (REALE
E ANTISERI, P. 25).
Segundo Marilena Chaui, a cosmologia é a explicação da ordem do mundo, do
universo, pela determinação de um princípio originário e racional que é origem e
causa das coisas e de sua ordenação. A ordem – cosmos – deixe de ser o efeito de re-
lações sexuais entre entidades e forças vitais, deixa de ser genealogia para tornar-se o
desdobramento racional e inteligível de um princípio originário. Logia é da mesma
família de logos (certamente uma das palavras mais importantes de toda a história
da filosofia e do pensamento ocidental), que possui múltiplos sentidos e só pode ser
traduzida para o português com o uso de muitas palavras: razão, pensamento, lin-
guagem, explicação, fundamento racional, argumento causal. Palavra e pensamento,
valor e causa, norma e regra, ser e realidade, logos concentra numa única palavra
vários significados simultâneos que os gregos não separavam como nós separamos.
A filosofia, ao nascer como cosmologia, procura ser a palavra racional, a explicação
racional, a fundamentação pelo discurso e pelo pensamento da origem e ordem do
mundo, isto é, do todo da realidade, do ser. (Chaui. 1997, p. 37).

capítulo 1 • 21
Este tema é fantástico, portanto recomendo que você retome-o e aprofunde-o,
pois será importantíssimo para uma compreensão mais profunda do tema da criação
que é uma questão estruturante na reflexão teológica.

Tomás de Aquino: conceito filosófico e conceito teológico da criação

Tomás de Aquino (1225-12740), é um dos gênios do pensamento filosófico e


teológico. Viveu num período de grande evolução das ideias. É o início das univer-
sidades europeias, Padova, na Itália e Paris na França. Ele foi professor e escritor.
Entre seus escritos é importante que você conheça, leia e estude: Questões discutidas
sobre a verdade (Questiones disputatae de Veritatae: 1259); Suma contra os Gentios
(Summa contra Gentiles:1269-1273); e Summa Teológica (Summa theologiae).
Seu pensamento filosófico-teológico é dialógico, faz interface com os diversos
saberes sistemáticos de seu tempo e de outros tempos. É um paradigma de como
os opostos se completam. Se a Igreja católica tivesse ouvido o aquinante não teria
condenado Galileu Galilei, pois ele sempre defendeu a autonomia em diálogo entre
os saberes, tese também defendida por Galileu que tentando alertar a igreja argu-
mentava: “a teologia ensina como vai para o céu, a ciência ensina como vai o céus.”
Veja como Tomás elabora sua argumentação, no livro um da Suma Teológica,
no Artigo primeiro, cujo tema é a providência convém a Deus?
Quanto ao Primeiro Artigo, Assim se procede: parece que a providência não
convém a Deus.

1. Com efeito, segundo Túlio, a providência é parte da prudência. Ora, como a pru-
dência, segundo o filósofo, no livro VI da Ética ajuda a bem deliberar, não pode convir a
Deus, em quem dúvidas não existem, e por isso, nem necessidade de deliberar. Logo,
a providência não convém a Deus.
2. Além disso, tudo que se encontra em Deus é eterno. Ora, a providência, não é algo
eterno, pois seu objeto, diz Damasceno, são os seres existentes que não são eternos.
Logo, não existe providência em Deus.
3. Ademais, em Deus não existe nenhuma composição. Ora, a providência parece ser
algo composto, pois inclui vontade e intelecto. Logo, não existe providência em Deus.

Em sentido contrário, lemos no livro da Sabedoria: “És tu, pai, que tudo go-
vernas por tua providência”.
Respondo. É necessário afirmar a providência em Deus. Tudo o que é bom
nas coisas foi criado por Deus, como se demonstrou anteriormente. Nas coisas

capítulo 1 • 22
encontra-se o bem, não só com respeito à substância delas, mas também com
respeito à ordenação para o fim, e sobretudo ao fim último, que é, como já se es-
tabeleceu, a bondade divina. O bem da ordem, que se encontra nas coisas criadas,
foi criado por Deus. Como Deus é causa das coisas por seu intelecto, a razão de
seus efeitos tem de preexistir nele, como ficou esclarecido; assim é necessário que
a razão segundo a qual as coisas são ordenadas ao fim preexista na mente divina.
Ora, a razão do que tem de ser ordenado a um fim é precisamente a providência...
(AQUINO. Suma Teológica, vol. 1, p.438-439).
Como você percebeu Tomás de Aquino analisa os prós e contras no rigor da
lógica aristotélica, ele dialoga, valoriza o pensamento contrário, mas se posiciona
na defesa da fé criacional. A sua perspicácia teológica penetra a essência de Deus,
os seus atributos essenciais.
Mas no diálogo de Tomás de Aquino com Anselmo d’Aosta na famosa prova
ontológica ou Proslogium é que o aquinante mostra sua sutileza teológica. Afirma
ele que a existência de Deus pode ser afirmada, raciocinando, isto é, ‘através da
reflexão sobre os fenômenos deste mundo e da investigação de sua causa suprema,
última, e não através da intuição da sua essência’.
Segundo Battista Mondin

a prova ontológica tomista é de um feito totalmente diferente da prova ontológica an-


selmiana, e isso por duas razões: 1) porque não se baseia na essência, mas no ser; 2)
porque não procede a priori, mas a posteriori: procede da asseidade contingente dos
entes para concluir pela substância do ser. ..ela pressupõe uma determinada ideia do
ser – entendido como perfeição absoluta – mas depois procede a posteriori, partindo
do exame da relação dos entes com o ser, que é uma relação de finitude, de participa-
ção e de gradualidade. Assim, a finitude, a participação e a gradualidade configuram-se
com três modalidades da prova tomista (MODIN, 1997, p.217-2018).

Mais conhecidas são as cinco vias do conhecimento de Deus ou provas cos-


mológicas, que não são criação do aquinante, a primeira e a segunda: movimento
e causalidade subordinada são da filosofia de Aristóteles; a terceira, o possível e
o necessário, foi retirada do pensamento de Avicena; e as duas últimas, gruas de
perfeição deste mundo levam a Deus e a teleologia extraídas da filosofia platônica.
Tomás de Aquino ainda escreveu outras quatro vias na Summa contra gentiles.
No entanto, segundo Battista Mondin, a inovação tomista está na sua perspec-
tiva metafísica. O fundamento último do real que não é mais a de Platão (428\7-
348-7 a. C), nem a de Aristóteles, nem a de Plotino, nem a de Agostinho ou de

capítulo 1 • 23
Avicena, tirando o ser daquele profundo esquecimento em Platão, Aristóteles,
Plotino, Agostinho e Avicena o haviam deixado cair, Tomás de Aquino coloca-o
no centro do seu poderoso edifício metafísico: seu “discurso essencial” é todo ele
um discurso centrado no ser... o ser é lógica e necessariamente “a mais perfeita
de todas as coisas” (esse est inter omnia perfectissimum); é o sol que com sua luz
torna luminoso o ente e tudo o que lhe pertence. O ser concebido como raiz de
tudo, é o que põe em ato tudo aquilo que existe. Consequentemente, o ser não é
uma perfeição mínima nem uma perfeição particular, e sim a perfeição absoluta.
Essa propriedade lhe pertence porque o ser é o ato supremo, a forma de todas as
formas: ”Aquilo que é maximamente formal em relação a todas as coisas é o ser.”
(MONDIN, 1997, p. 220).
Ao finalizarmos este tema é importante você saber que Tomás de Aquino de-
fende a tese clássica judaico-cristã da: “criatio ex nihilo”, ou seja, Deus criou o
universo a parir do nada. Para ele este tema deve ser estudado pela metafísica
(filosofia), sem uma referência à temporalidade e pela teologia que aborda a partir
do kairós, do tempo e tempo de Deus e não do cronos, tempo do mundo, tempo
humano. Mesmo a criação sendo um tema de fé, o aquinante defende a tese que
somente a razão pode levar a pessoa humana ao conhecimento de Deus como
criador. No entanto, para esta questão a sua tese central é que o conhecimento
perfeito de Deus como criador se dá na interface da fé com a razão, na relação
dialética fé-razão.
Nesta perspectiva podemos afirmar que Tomás de Aquino é um paradigma
de uma teologia em diálogo, até mesmo da transversalidade do conhecimento ou
como afirmamos hoje, da práxis epistémica da interdisciplinaridade, multidisci-
plinaridade, transdisciplinaridade e metadisciplaridade. Embora defenda aberta-
mente ser o tema da criação um tema específico da metafísica e da teologia, seu
sistema teológico-filosófico dinâmico hoje estaria dialogando com a biologia, com
a física, com a química e, sobretudo com a astronomia que tem conseguido avan-
ços importantíssimos para o conhecimento do universo, de sua origem, de suas
leis e de sua evolução.
Em síntese, podemos afirmar que a tese de Santo Tomás de Aquino sobre a
origem do universo é a tese bíblica, Deus é criador providente, ou seja, o Deus
criador, é também providente. Como causa de todas as coisas Ele também ‘gover-
na’ tudo conduzindo a criação para um fim, um telos, ou melhor, para a escatolo-
gia, para a consumação final (Ap 21-22).

capítulo 1 • 24
Explicação metafísica da criação: Deus como causa

Para iniciarmos este tema é importante que você domine filosoficamente o


conceito de metafísica. Para tal, vamos retroceder novamente e buscar uma com-
preensão etimológica e histórica.
O dicionário de filosofia dos professores Hilton Japiassú e Danilo Marcondes
(2006, p 185-186) faz quatro conceituações do termo metafísica.

O primeiro fala que Andronico de Rodes ao organizar a obra de Aristóteles, por volta do
ano 50 a.C, deu este nome aos livros que foram colocados depois dos livros da física:
ta metá tá physiká, significando literalmente “após a física”, e passando a significar
depois, devido a sua temática, “aquilo que está além da física, que a transcende.
O segundo afirma que “na tradição clássica e escolástica, a metafísica é a parte mais
central da filosofia, a ontologia geral, o tratado do ser enquanto ser. A metafísica de-
fine-se assim como a filosofia primeira, como ponto de partida do sistema filosófico,
tratando daquilo que é pressuposto por todas as outras partes do sistema, na medida
em que examina os princípios e causas primeiras, e que se constitui como doutrina do
ser em geral, e não de suas determinações particulares; inclui ainda a doutrina do Ser
Divino ou do Ser supremo”.
O terceiro diz que na tradição escolástica há uma distinção entre metafísica geral, a
ontologia propriamente dita, que examina o conceito geral de ser e a realidade em seu
sentido transcendente; e a metafísica especial, que trata de domínios específicos do
real e que se subdivide, por sua vez, em cosmologia, ou filosofia natural – tratado do
mundo e da essência da realidade material...
E por fim, o quarto significado afirma que no pensamento moderno, a metafísica perde,
em grande parte, seu lugar central no sistema filosófico, uma vez que as questões so-
bre o conhecimento passam a ser tratadas como logicamente anteriores à questão do
ser, ao problema ontológico. A problemática da consciência e da subjetividade torna-se
assim mais fundamental. (JAPIASSÚ e MARCONDES, 2006, p. 185-186)

Agora você vai conhecer brevemente a origem (arké) da metafísica. Bom, após
recorrermos ao dicionário de filosofia, exercício este que você deverá fazer sempre
no nível superior, você deve buscar nos dicionários específicos o significado dos
termos técnicos para compreender mais profundamente o sentido do texto. Penso
que você já deverá ter levantado a suspeita que nos pré-socráticos a metafísica é
implícita até o famoso debate entre Parmênides e Heráclito sobre o movimento e
a estabilidade.
Mas ela se tornará explícita no pensamento filosófico de Platão, ele descobrirá
uma realidade superior ao mundo sensível, uma dimensão que transcende a física

capítulo 1 • 25
ou metafísica. Segundo Platão a primeira navegação do logos grego foi empurrada
pelos ventos da natureza, pelos elementos físicos: água, ar, terra, fogo, ou seja, pe-
los elementos primordiais. Mas a segunda navegação do logos foi empurrada pelos
remos do intelecto, da razão ou filosofia. É nesta perspectiva que Platão falará de
mundo sensível e mundo inteligível o primeiro é sendo uma cópia do segundo. O
primeiro é captado pelos sentidos e o segundo é captado pelo intelecto. Veja como
Platão explicita bem esta ideia na famosa alegoria da caverna ou mito da caverna.
Aristóteles que foi aluno de Platão aprofundou esta questão ao criticar o mes-
tre por sua aderência ao orfismo e ao pitagorismo, embora, isto apareça em seus
escritos exotéricos, porém ausente nos escritos esotéricos onde encontramos os
escritos de metafísica.
Aristóteles além de dividir seus escritos em exotéricos, para todos, e esotéricos
para os iniciados no filosofar; dividiu também as ciências em três áreas: ciências
teoréticas, que buscam o saber pelo saber: a metafísica, a física, a psicologia e a
matemática. As ciências práticas, que buscam o saber com uma finalidade da per-
feição moral: a ética e a política. E as ciências poiéticas que buscam a produção de
determinadas coisas.
Para Aristóteles, a metafísica é a principal das ciências teoréticas. Ela busca as
causas, os princípios supremos, então pode ser chamada também de etiologia. Ela
indaga o ser enquanto ser, ontologia. Ela indaga também sobre a substância, ousia.
Por fim, ela indaga sobre Deus e a substância supra-sensível, teologia.
Na cosmologia grega e medieval não haverão muitos problemas para uma
explicação metafísica da criação e da “ideia” de Deus como criador. Lembre-se que
a cosmovisão dos gregos é geocêntrica. Os pré-socráticos por razões estratégicas
epistemológicas tiveram que “fugir” da ideia de Deus para encontrar a arké, o
princípio originário material. A sofística deu ênfase na retórica e na oratória com
objetivos políticos.
Será com Sócrates (469-399 a,C.), que esta questão virá à tona, mas sobre-
tudo com Platão por conta da sua relação com o pitagorismo e com o orfismo,
então aparecerá um Demiurgo articulador do mundo. O arquétipo do mundo das
ideias, o gestor da ordem cósmica e artesão dos viventes mortais e imortais. Sua
cosmovisão dualista articula cosmologia e cosmogonia, subordinando a matéria ao
demiurgo que cria o cosmo contra o caos.
Aristóteles, embora crítico às teses de Platão, elabora uma teologia filosófica
“que articula epistemológico e ontológico na compreensão do ser. O seu Primeiro
Motor imóvel e separado da criação, porém a movimenta com a potência de um

capítulo 1 • 26
motor TSI, “ato puro, pensamento dos pensamentos que pensa a si mesmo, não
está afetado pelo mutável, finito e contingente, se despreocupa do mundo.” Assim
a filosofia grega inicia o deísmo, um deus arquiteto que comanda a ordem do
universo. Epicuro falará de um deus indiferente, impassível e de costas para o uni-
verso e chama o homem e a mulher a se comportar do mesmo modo em relação a
este deus descomprometido com o universo.
Nas patrísticas grega e latina e na escolástica temos a continuidade da cos-
movisão geocêntrica, o apoio político e econômico, então não foi difícil uma ex-
plicação metafísica do Deus Trindade numa cosmovisão pré-copérnicana e pré-
-Galileliana (Copérnico e Galileu Galilei). Merecem destaque e vale apena você
aprofundar, pois apenas mencionamos, os argumentos de Santo Anselmo d´Aosta,
o Proslogium, e as cinco vias do conhecimento racional de Deus de Santo Tomás
de Aquino. São obras primas da metafísica medieval. Porém foram elaborados
numa cosmovisão que não existe mais. Portanto, precisam ser reelaboradas na
perspectiva heliocêntrica, como veremos na última parte deste capítulo, manten-
do o diálogo com a filosofia e ampliando o diálogo com as ciências.

O Iluminismo e a impossibilidade metafísica

A partir da Reforma luterana, o renascimento, e, sobretudo com o Iluminismo,


a questão muda radicalmente. Primeiro porque a Igreja Católica perde a hegemo-
nia, segundo porque a secularização como um tornado começa a varrer o sagrado
do universo. E terceiro porque a modernidade, especialmente no século XIX ques-
tionou radicalmente a questão religiosa com os mestres da suspeita: Sigmundo
Freud, (1856-1939), Friedrich Nietzche (1844-1900), Ludwig Feurbach (1808-
1872) e Charles Darwim (1809-1882).
O Iluminismo foi um amplo movimento cultural que buscou libertar a huma-
nidade ocidental “do sono dogmático”. Foi um movimento como a filosofia grega
de plena confiança na razão humana. “sapere áudio” dizia Kant (1724-1804), ‘ouse
a pensar com a sua própria cabeça’. Movimento de libertação da racionalidade,
‘de saída da zona de conforto espiritual’ criada pelas teses de uma cosmovisão que
bem ou mal explicou um mundo estranho na sua época, no seu tempo.
Porém, os tempos mudaram e mudaram radicalmente, uma nova cosmovisão
se fazia necessária, com a ascensão da burguesia o ‘mundo foi virado do aves-
so’, todas as autoridades foram desautorizadas, inclusive as autoridades filosófi-
cas e teológicas. A revolução científica, especialmente com a nova metodologia

capítulo 1 • 27
experimental, laboratorial, microscópio e sobretudo telescópio, descobriu ‘um
outro mundo possível’.
A filosofia também não ficará fora deste criticismo global, até porque ela deve
ser a crítica da crítica, então ela entrou no debate. Foram muitos os filósofos que
criticaram a pretensão humana do conhecimento racional de Deus. Já o pré-so-
crático Xenófanes (570-475 a.C.), é um crítico do antropomorfismo da religião
pública de Hesíodo e Homero.
Porém, escolhi dois filósofos iluministas, um empirista e outro racionalista
moderado: David Hume (1711-1776) e Immanuel Kant, que nos alertarão para
os limites do conhecimento racional de Deus, para os limites da metafísica.
Hume é completamente cético quanto às possibilidades da metafísica. Ele
abordou a questão religiosa em duas obras: Diálogos sobre a religião natural e
História natural da religião, ‘em ambas ele questiona a validade de todas as de-
monstrações da existência de Deus e critica o próprio valor objetivo da ideia de
Deus.’ Deus e a religião, segundo Hume, são coisas do sentimento e da imagina-
ção, são expressões irracionais e arbitrárias da consciência humana, portanto são
desprovidas de racionalidade.
Ao examinar os argumentos das provas da existência de Deus, nos diálogos
sobre religião natural, começando pela prova ontológica, afirma que ela não é
válida porque ‘tudo aquilo que concebemos como existente igualmente pode ser
concebido também como não-existente, pois a existência de algo só pode ser de-
monstrada mediante a constatação de fato.
A crítica também à prova cosmológica não é menos radical, a pretensão racio-
nal de chegar a Deus partindo dos laços causais da natureza para chegar de causa
em causa até a causa primeira (princípio de causalidade), além de subjetivo leva ao
‘processo ad infinitum.’
Ainda nos diálogos o filósofo escocês ataca a prova teleológica, além de an-
tropomorfismo ela não leva a um artífice supremo infinitamente perfeito porque
a ordem do mundo, de onde se parte, é finita e imperfeita. Segundo Hume, a
relação causa-efeito precisa ser constatada várias vezes. E a ordem do mundo é um
único caso que em nenhuma hipótese pode nos levar ao sumo artífice que jamais
vimos em ação.
Claro, como você pode perceber as teses empiristas são levadas ao limite pelo
pensador escocês, porém desperta a metafísica do sono dogmático, da ilusão, da
fantasia, da quimera e chama a teologia para um outro olhar sobre as ‘condições de

capítulo 1 • 28
possibilidades’ de um discurso religioso-teológico com base experiencial do Deus
verdadeiro criador do cosmo e redentor em Jesus Cristo.
Outro crítico da aventura metafísica é Immanuel Kant, este é cristão pietista.
A sua antropologia é bastante negativa, pois concebe a pessoa humana no estado
de natureza como um ‘estado de incessante hostilidade contra o bom princípio,
contra a moralidade, a natureza humana é desregrada, desequilibrada. E a supera-
ção deste estado precário é obra de Deus e não dos homens. Portanto, a igreja deve
ser um povo moral, uma comunidade ética.
Segundo Battista Mondin

Para Kant todas as provas da existência de Deus (ontológica, cosmológica e teleoló-


gica são erradas, por dois motivos fundamentais: primeiro porque de deus nos faltam
os elementos empíricos que fundamentariam uma argumentação a posteriori: nós não
conhecemos nenhum caso em que a essência de uma coisa inclua a sua existência;
segundo, o princípio de causalidade funciona apenas no mundo dos fenômenos e,
portanto, não podemos fazer nenhum uso transcendente desse princípio. Assim, Kant
desloca o problema de Deus da esfera especulativa para a esfera prática. E na segun-
da crítica demonstra que a existência de Deus deve ser incluída entre os três grandes
postulados da moral (junto com a liberdade e a imortalidade da alma). De fato, na vida
presente é impossível fazer com que coincidam moralidade e felicidade, embora se
trate de uma coincidência exigida pela razão humana: “essa conexão é postulada como
necessária”. Mas ela só pode se realizar por obra de um Deus remunerador, sumamen-
te bom e sumamente justo. “Portanto, postular a possibilidade do sumo bem (isto é, da
felicidade) significa postular também a realidade de um sumo bem originário, ou seja,
Deus (MONDIN, 2005, p. 90).

Assim chegamos ao final deste tópico despertados do ‘sono dogmático’ que


segundo Kant foi despertado ao ler David Hume para a questão gnosológica ou
teoria do conhecimento filosófico, portanto convido você a conhecer melhor o
pensamento filosófico de Kant, assim como David Hume que serão excelentes ins-
trumentos para um teologizar pertinente e relevante no século XXI. Um teologizar
crítico e ao mesmo tempo ortodoxo à fé bíblica.

Diálogo entre ciência e religião

Como você percebeu, neste pequeno percurso a tarefa da teologia é gigante


para que ciência e religião dialoguem no respeito das autonomias como propôs
Tomás de Aquino no diálogo entre fé e razão no século XIII. Hoje, no século XXI,

capítulo 1 • 29
com as especializações dos saberes temos também uma fragmentação do conhe-
cimento, e o labor teológico deve ser no paradigma tomista da síntese dialógica.
Além de dar continuidade no diálogo com as teses iluministas que ainda não
foram assimiladas bem pela teologia cristã, quem profeticamente tem chamado a
atenção para este aspecto é o teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga, especial-
mente nos livros Do terror de Isaac ao Abba de Jesus, repensar a Revelação, Repensar
a Cristologia. Segundo Queiruga as teologias cristãs na sua maioria ainda não
entenderam o projeto iluminista. John Hick, também por volta dos anos 60 e
70 do século XX, no livro a Metáfora do Deus Encarnado, chamou a atenção da
comunidade teológica para os riscos de uma leitura fundamentalista da Sagrada
Escritura, especialmente para a leitura literal do mistério da Encarnação.
Os teólogos da libertação na África, na Ásia e na América Latina desde a
década de sessenta do século passado, século XX, insistiram na importância da
prática interdisciplinar, pluridisciplinar, multidisciplinar, transdisciplinar e me-
tadisciplinar, ou seja, um labor teológico em diálogo com os diversos saberes na
busca do conhecimento da vontade de Deus para um melhor serviço às igrejas e
ao povo de Deus.
O diálogo hoje precisa responder também às interpelações dos mestres da
suspeita como chamou Paul Ricouer, (1913-2005), Karl Marx, (1818-1883),
Nietzsche, Sigmund Freud, Augusto Comte (1798-1857), Feuerbach. Com o
primeiro o diálogo foi iniciado pelo teológico Rubem Alves (1933-2014), que
assimilando aspectos positivos da crítica marxiana à religião como ópio do povo,
mostrou que Marx analisou apenas o aspecto externo da religião. Igualmente, o
grande filósofo da libertação latino americana, argentino radicado no México,
Enrique Dussel, após a autocrítica fez a crítica da crítica marxiana.
Na tese dos estádios da evolução humana, Augusto Comte, defende que tanto
a etapa religiosa quanto a etapa filosófica são coisas do passado, ‘agora’ é o primado
da ciência, embora o tempo se encarregou de mostrar que ainda há uma enorme
procura religiosa pelo sentido da vida, mas a teologia precisa dialogar com esta tese.
Com a psicanálise Sigmund Freud, concluiu que a religiosidade é uma neuro-
se infantil e também apostou na terapêutica com o advento da ciência.
Feurbach, na área da antropologia afirma que a religião faz uma inversão de
valores. O ser humano ávido por onisciência, onipotência, onipresença não conse-
guindo, cria o ser superior e projeto nele estes atributos. Ou seja, a religião inverte
os polos que leva um curto circuito epistemológico.

capítulo 1 • 30
Nietzsche fala da morte de Deus, colocando um louco no velório que grita
desesperado anunciando o mal cheiro do cadáver divino.
Charles Darwin, com a tese da evolução colocou em xeque a tese da criação
perfeita, a espécie humana como todas as espécies evolui de uma célula primeira.
O ser humano não nasce perfeito, mas com possibilidades, aberto, em processo,
ou seja, evolui. Aristóteles já havia percebido isto, como biólogo percebeu que o
homem é um animal racional. O racional é um adjetivo que qualifica o substanti-
vo animal, ou seja, o homem pode se tornar racional por um processo de ‘ilustra-
ção, educação. Dentro da tese aristotélica de ato e potência o ser homem em ato é
animal com potencialidade racional.
Simone de Beavoir (1908-1986), em meados do século passado afirmava que
“ninguém nasce mulher torna-se”, “ninguém nasce homem torna-se”. Ou seja, a
teologia precisa interagir significativamente no diálogo entre conhecimento reli-
gioso e conhecimento científico. Portanto, a questão da evolução não pode im-
pactar negativamente na fé, é fato, e uma leitura atenta do primeiro capítulo do
livro do Gênesis, você perceberá que o autor narra a criação de forma evolutiva, a
última espécie a ser criada é a humana. Sem concordismos, mas a teologia pode e
deve facilitar o diálogo.
Juan Luis, segundo na obra Que homem? Que mundo? Que Deus? Em diálogo
com a química, a física e a biologia, e sobretudo com cientista da grandeza de
Jacques Monod afirma:

O universo parece, então, aos olhos do cientista, uma mescla desses dois elementos,
que também compõem o título da obra do Monod: o Acaso e a Necessidade. O acaso
tem a enorme vantagem positivista de não exigir – e mais ainda, a de rejeitar – a per-
gunta por uma causalidade. O que surge do acaso não tem outra razão, mas suficiente
do que o próprio acaso. Daí que se fosse possível reduzir ao acaso toda a “a neces-
sidade” que cresce com a evolução, esta seria despojada de seu perigo metafísico. O
próprio mundo necessário seria fruto do acaso. E não haveria mais o que perguntar.
Toda a aventura humana não passaria de uma estranha e improbabilíssima mudança
de uma molécula, que começou a se reproduzir e a introduzir a teleonomia e a neces-
sidade de um mundo, que continua jogando com o acaso às portas da não existência,
à qual voltará, mais cedo ou mais tarde (assim, o cientista desprende-se do animismo
e desperta, depois de um sono milenar, para um mundo que o aguarda, surdo à sua
música..) (SEGUNDO, 1995, p. 15-16).

capítulo 1 • 31
Porém, continua Segundo:

Hoje não se pode mais fazer teologia com o que um pensador tão grande como Tomás
de Aquino sabia do universo criado, ou com a simples e grandiosa mitologia do javista.
(SEGUNDO, 1995, p.27).

Neste trecho do teólogo Juan Luis Segundo com o biólogo Jaques Monod dá
para você perceber a missão da teologia na interface religião-ciência. Uma interação
de diplomacia, de conciliação, de articulação, de diálogo, pois ambas têm suas auto-
nomias preservadas, são complementares e as vezes em rota de colisão. A ciência fala
a partir da pesquisa empírica, do laboratório, da perícia dos fenômenos concretos
(célula, átomo, partícula etc.). A religião narra a partir da fé, do amor e da esperança.
É uma fala inspirada, é uma narrativa da revelação, experiencial, porém, subjetiva,
frágil. Daí que a experiência de Deus na fé não a experiência do empirismo inglês
e de David Hume. Daí a necessária interação da teologia sistemática nos molde do
paradigma tomista dá síntese, uma teologia dialética em dialógica.
Por fim, vejamos outro gigante que partindo da física e da astronomia coloca
questões pertinentes e relevantes para o labor teológico no século XXI. O astrofísico
Marcelo Gleiser, físico e astrônomo, carioca de nascimento, radicado nos Estados
Unidos da América do Norte, no livro cujo o título já provoca, Criação Imperfeita.
Cosmo, vida e o código oculto da natureza. Assim ele narra o mito científico da criação:

Ninguém testemunhou o que estava para acontecer.


O “tempo” não existia;
A realidade existia fora do tempo, pura permanência.
O espaço não existia.
A distância entre dois pontos era imensurável.
Os pontos podiam estar aqui ou ali, suspensos, saltitantes.
Entrelaçado em si próprio, o espaço aprisionava o infinito.
De repente, um tremor; uma vibração, uma ordem que nascia.
O espaço pulsava, ondulando sobre o nada. O que era perto se afastou.
O agora virou passado.
O espaço nasceu com o tempo. Ao falarmos em espaço pensamos em conteúdo.
Ao falarmos em tempo, pensamos em transformação.
E assim foi. O espaço borbulhou;
o tempo incerto, iniciou sua marcha.
Da agitação conjunta do espaço e do tempo surgiu a matéria expelida de seus poros.

capítulo 1 • 32
Mas atenção!
Essa não era uma matéria ordinária feito a nossa.
Ela fez o espaço crescer, inflar como um balão. Esse balão é o nosso universo.
Esse é o mito de criação da nossa geração.

GLEISER, 2010.

A santíssima Trindade aqui é o Espaço, o Tempo e a Matéria. Não existe um criador;


nenhuma mão divina guia a transição do Ser ao Devir, a emergência do cosmo a partir
de uma existência atemporal. O Universo surgiu por si mesmo uma bolha de espaço
vinda do vazio: criatio ex nihilo, a criação a partir do nada. Essa possibilidade nos parece
implausível já que tudo o que ocorre à nossa volta resulta de alguma causa. Será que
o universo é diferente? Será que tudo pode mesmo surgir do nada? Sem uma causa?
A causa que deu início a tudo, o primeiro elo da longa corrente causal que leva da
criação do cosmo ao presente, é tradicionalmente conhecida como a Primeira Causa.
Para iniciar o processo de criação nada pode precedê-la: a Primeira Causa não pode
ter uma causa; ela tem que ocorrer por si só. O desafio é como implementar essa mis-
teriosa primeira Causa, como dar sentido a algo que parece violar o bom-senso. Será
que a ciência tem uma resposta? As religiões usam os deuses para resolver o dilema.
A estratégia funciona bem, já que as leis físicas e o bom senso não são aplicáveis aos
deuses. Sendo imortais, são indiferentes aos processos da causa e efeito: os deu-
ses existem, sobrenaturalmente, além do tempo e de suas inconvenientes limitações
(GLEISER, 2010, p.21-22).

Como você pode perceber pela afirmação de Marcelo Gleiser, o diálogo se faz
necessário, pois a pesquisa avança velozmente, seja na biologia, seja na química,
seja na medicina, seja na astronomia. A teologia não pode desconhecer este ‘uni-
verso’ do conhecimento científico. Ela também não pode aceitar tudo passivamen-
te, acriticamente. Mas precisa respeitar as autonomias das ciências que se liberta-
ram do mito, da religião na antiguidade, da teologia no renascimento e da filosofia
na modernidade. Veja que a psicologia, a antropologia, a sociologia e até mesmo a
ciências da religião se libertaram da filosofia a partir do século XIX.
É importante você perceber que não podemos ter preconceito contra nenhu-
ma forma de conhecimento, mas também não podemos afirmar que apenas uma
forma de conhecimento detenha toda a verdade, principalmente de algo tão gran-
de e misterioso como o universo. Estranhamente misterioso até mesmo para as
ciências que avançam a passos largos trombando em mistérios. Para a teologia o
mistério faz parte do seu vocabulário, agora as ciências precisam dar um nome
empírico para estes nós do universo e com toda certeza mais cedo ou mais tarde
descobrirão o que são esses buracos negros do conhecimento científico.

capítulo 1 • 33
ATIVIDADES
01. Assista ao vídeo: como funciona o universo – (HD) – Estrelas. Disponível em: <https://
www.youtube.com/watch?v=agrJHUe9aHA>. Acesso em: 10 maio 2018.

02. Leia o texto Enuma Elish. O mito babilônico da criação. Disponível em: <http://docplayer.
com.br/34209242-O-mito-babilonico-da-criacao.html>. Acesso em: 10 maio 2018.

03. Leia os capítulos 1 e 2 do livro do Gênesis.

Depois elabore um texto reflexivo comparando as diferenças e semelhas das três abor-
dagens sobre a origem do universo. Seu texto deve ter entre duas e cinco laudas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AQUINO, Tomas de. Suma Teológica. Teologia – Deus – Trindade. Vol.1. São Paulo – SP, Ed.
Loyola, 2003.
Chaui, Marilene. Introdução à História da Filosofia. Dos pré-Socráticos a Aristóteles. Vol.1, São
Paulo – SP, Companhia das Letras, 1994.
ESTRADA, Juan Antonio. Deus nas Tradições Filosóficas. Vol.1:Aporias e problemas da teologia
natural. São Paulo, Ed. Paulus,2003.
GLEISER, Marcelo. Criação Imperfeita, Cosmo, vida eo código oculto da Natureza. Rio de
Janeiro, Ed. Record, 2010.
GÓRGIAS. O Elogia a Helena. Disponível em: <http://www.consciencia.org/gorgiashumberto.shtml>.
Acesso em: 03 maio 2018.
HESIODO. Teogonia. A origem dos deuses, traduzida por Jaa Torrano. Disponível em: <http://
sanderlei.com.br/PDF/Hesiodo/Hesiodo-Teogonia.pdf>. Acesso em: 03 maio 2018.
HOMERO. Disponível em: <https://kdfrases.com/autor/homero>. Acesso em: 3 maio 2018.
JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro, Jorge
Zahar, 2006.
MONDIN, Batista. Quem é Deus? Elementos de teologia filosófica. São Paulo, Paulus, 1997.
REALE, Giovanni- Antiseri, Dario. História da filosofia. Filosofia pagã antiga.Vol.1, São Paulo, Paulus,
2003.
SEGUNDO, Juan Luis. Que Mundo¿ Que Homem¿ Que Deus¿ Aproximações entre ciência,
filosofia e teologia, São Paulo, Ed. Paulinas, 1995.

capítulo 1 • 34
2
Angeologia no
primeiro testamento
Angeologia no primeiro testamento
O imaginário da humanidade sempre foi povoado pela figura dos anjos.
Mesmo depois do Iluminismo, do racionalismo moderno e da secularização em
que as religiões tomaram um caminho mais em diálogo com as ciências e a filo-
sofia (racional) e menos contemplativo, é possível verificar este fascínio pelo tema
dos anjos na arte, seja nas esculturas, pinturas, literatura, no cinema e nas redes
sociais. O ícone consagrado: seres luminosos com asas e roupas brancas com a
mais pura força do bem enfrentando as brutais forças do mal na defesa da criação
e, sobretudo da pessoa humana (Tb 5,1-8; 8,1-21; Dn 3,1-33; Ap 12,1-17).
Segundo o dicionário de teologia bíblica Marietti, os anjos são espíritos des-
tinados a servir, enviados em missão para o bem daqueles que trabalham para a
salvação do mundo. Não são percebidos no dia-a-dia, mas em momentos impor-
tantes e misteriosos (MARIETTI, 1968).
Como veremos a seguir, são seres supraterrestres ou transcendentais que es-
tão a serviço de Deus. Mas também segundo santo Agostinho eles podem servir
também ao mal (Jó 1,1-12), haja vista a história de Lúcifer e a entrada do mal
na criação.

OBJETIVOS
•  Conhecer o pensamento bíblico sobre anjos, arcanjos, serafins e querubins;
•  Estudar a angeologia numa perspectiva teológica-bíblica;
•  Compreender a dinâmica da revelação divina na perspectiva dos anjos.

Angeologia no primeiro testamento

No Primeiro Testamento encontramos muitos relatos dos mensageiros de


Deus interagindo com os humanos de diversas formas, em diversos momentos da
História da Salvação do povo de Deus. Por uma questão didática vamos abordar a
questão dos anjos na Bíblia Hebraica a partir de três gêneros literários diferentes.
Na Torá, sobretudo nos livros do Gênesis e Êxodo, destacando a presença angelical
como orientadora da formação do povo de Deus, e no processo de libertação da
escravidão egípcia. Nos profetas de Israel a ênfase será na mensagem, ou seja, os

capítulo 2 • 36
anjos como mensageiros de Deus que fala ao seu povo através dos profetas. Esta
análise será feita tanto diretamente nos escritos dos profetas quanto nas narrativas
sobre os profetas nos livros históricos, assim chamados pelos cristãos católicos.
E por fim, analisaremos a presença destes seres celestiais na terra comunicando
mensagem divina, protegendo as pessoas, iluminando o caminho e guardando
contra todo tipo de perigo, na literatura sapiencial.

Os anjos na Torá

A Torá está povoada destes seres celestiais, são vários acontecimentos envol-
vendo a presença dos mensageiros de Deus, portanto, fica o convite para uma lei-
tura dos cinco primeiros livros da Sagrada Escritura nesta perspectiva. No entanto,
por uma questão didático-pedagógica analisaremos a partir de cinco acontecimen-
tos importantes para a formação do povo de Deus: Abraão e Sara, e a questão do
‘herdeiro’. Aqui precisa ser teologicamente analisada a questão de Agar e Ismael.
A destruição de Sodoma e Gomorra, o sacrifício de Isaac, o sonho de Jacó e a
Sarça Ardente.
Em Gn 16,1-16 encontramos uma situação que vai se repetir em todos os
relatos do livro do Gênesis, a não compreensão humana da vontade de Deus e a
presença angelical para iluminar a massa cinzenta humana. Ao voltarmos em Gn
15,1-6 a crise de Abraão e Sara é o herdeiro e continuador da história da salvação.
E indo para Gn 16,1-3 o entendimento humano é equivocado.
Continuando ainda no capítulo dezesseis agora nos versículos sete a nove te-
mos outro equívoco humano ‘consertado’ pelos anjos de Deus.
Já em Gn17, 1-27 os mensageiros de Deus informam algo impossível segundo
o entendimento humano, a esterilidade se transformando em fecundidade.
No capítulo dezoito no versículo um inicia falando que é o próprio Deus que
se revela à Abraão, mas nos versículos sete a nove já são os anjos que entram em
cena eliminando os ruídos da comunicação entre o humano e o divino, sobretudo
anunciando uma ‘boa nova’.
Na sequência em Gn 19 os mensageiros de Deus aparecem no versículo um
para anunciar a destruição de Sodoma, protegendo os escolhidos de Deus e fazen-
do recomendações que deverão ser seguidas à risca caso contrário a punição será
severa (v.15-26).
Mas o episódio mais emblemático é o de Gn 22,1-19 que se tornou um clássico
da História da Salvação, mal-entendido, por quase dois mil anos até mesmo pelos

capítulo 2 • 37
estudiosos da Sagrada Escritura e pelas autoridades religiosas. O famoso sacrifício de
Isaac como oferta agradável a Deus. Somente com o advento da exegese bíblica é que
fomos esclarecidos que a história é outra. Sobretudo quando comparamos Gn 22,1-
19 com Ex 20,1-17, especialmente com o versículo treze do Êxodo percebemos que
há uma contradição que não combina com a coerência do Deus bíblico que é o
Deus da vida. Como, se Ele é o Deus da vida (Jo 10,10) vai exigir o filicídio, ou seja,
que o pai mate o próprio filho. Então veja nos versículos onze a 19 de Gn 22 que o
mensageiro de Deus aparece iluminando o entendimento humano.
Com Jacó temos dois episódios importantes envolvendo os mensageiros de
Deus. O primeiro é de Gn 28,10-22 onde eles aparecem nos sonhos iluminando o
árduo caminho que Jacó terá de percorrer para encontrar a sua amada. No entanto,
o acontecimento mais conhecido é o da luta de Jacó com o mensageiro de Deus. E o
motivo desta luta é pela benção angelical. O mensageiro divino aparece nos escritos
sagrados hebraicos com poder de benção. E Jacó quer ser abençoado porque terá um
reencontro com seu credor, o irmão Isau, ou seja, um acerto de contas.
E a exegeta Lília Dias Mariano chega afirmar que foi uma luta quase como
UFC, ou melhor, um vale tudo, teve até golpe baixo:

Embora o texto do profeta Oseias se refira à noção de que Jacó lutou com um anjo e
prevaleceu (Os 12.4) a narrativa do Gênesis não nos dá tanta segurança para afirmar
que Jacó lutou verdadeiramente com um anjo, pois o que se diz é que ele lutou com
um homem, um ish (Gn 32.24). Ou seja, um ser humano do sexo masculino. O relato na
primeira pessoa diz: “vi Deus face a face e minha vida foi salva.” Nem fala que ele lutou
com um adam, ou um filho de Adão – be ne-adam. Mas fala de ter visto o próprio Deus.
Isto é bastante significativo quando se considera que toda a tensão da luta que faz
este personagem tocar no nervo da coxa de Jacó, pode ser também uma alusão aos
órgãos sexuais. Em outras palavras, Jacó teria saído da luta depois de um “golpe baixo”
da parte do homem com quem ele lutava. Não é uma possibilidade de todo descartável
(CARNEIRO; GOMES, 2017, P. 30-31).

Até aqui foi suficiente para percebermos que uma angeologia com fundamen-
tos bíblicos desmistifica, desmitologiza uma compreensão ingênua sobre os men-
sageiros de Deus. Uma compreensão acrítica sobre os seres celestiais como apenas
seres ‘bonzinhos’. Além de anunciarem catástrofes, destruição ‘lutam’ contra os
humanos chegando inclusive a dar golpe baixo, sobretudo pela dureza de coração,
ou melhor, de entendimento dos processos éticos. Haja vista a postura de Jacó na
aquisição da primogenitura (Gn 25,29-34), o recebimento da benção (Gn 27,1-
45), e o seu enriquecimento ilícito (Gn 29,1-14).

capítulo 2 • 38
Angeologia no livro do Êxodo

No livro do Êxodo escolhemos cinco momentos fundantes do processo de


libertação do povo de Deus da escravidão egípcia para a abordagem da questão
dos mensageiros de Deus. Porque este é um dos acontecimentos importantes na
história da salvação juntamente com a criação, a formação do povo de Deus e a
conquista da terra prometida. Estes são acontecimentos kairológicos e não ape-
nas cronológicos.
O livro do Êxodo é um paradigma do processo de emancipação, ou melhor, de
libertação de qualquer forma de opressão, de escravidão. Ele narra no capítulo três
no episódio da sarça ardente a presença do anjo do Senhor em diálogo com Moisés
que está trabalhando e buscando interiormente uma ‘estratégia’ para libertar o seu
povo da escravidão (Ex 1,8-22 e 3,1-20).
Veja como o texto sagrado narra o acontecimento:

Moisés pastoreava o rebanho de seu sogro, Jetro, que era sacerdote de Midiã. Um dia
levou o rebanho para o outro lado do deserto e chegou a Horebe, o monte de Deus.
2 Ali o Anjo do Senhor lhe apareceu numa chama de fogo que saía do meio de uma sar-
ça. Moisés viu que, embora a sarça estivesse em chamas, não era consumida pelo fogo.
3 "Que impressionante!", pensou. "Por que a sarça não se queima? Vou ver isso de per-
to."
4 O Senhor viu que ele se aproximava para observar. E então, do meio da sarça Deus o
chamou: "Moisés, Moisés!"
"Eis-me aqui", respondeu ele.
5 Então disse Deus: "Não se aproxime. Tire as sandálias dos pés, pois o lugar em que
você está é terra santa".
6 Disse ainda: "Eu sou o Deus de seu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus
de Jacó". Então Moisés cobriu o rosto, pois teve medo de olhar para Deus.
7 Disse o Senhor: "De fato tenho visto a opressão sobre o meu povo no Egito, tenho
escutado o seu clamor, por causa dos seus feitores, e sei quanto eles estão sofrendo.
8Por isso desci para livrá-los das mãos dos egípcios e tirá-los daqui para uma terra boa
e vasta, onde há leite e mel com fartura: a terra dos cananeus, dos hititas, dos amorreus,
dos ferezeus, dos heveus e dos jebuseus.
9 Pois agora o clamor dos israelitas chegou a mim, e tenho visto como os egípcios
os oprimem.
10 Vá, pois, agora; eu o envio ao faraó para tirar do Egito o meu povo, os israelitas".
Bíblia Sagrada online. Disponível em: <https://www.bibliaon.com/exodo_3/>.
Acesso em: 10 jun. 2018.

capítulo 2 • 39
Aqui pelo contexto o mensageiro de Deus auxilia a compreensão de Moisés
que não entendia o fenômeno, a revelação divina, a sarça ardente, e ao mesmo
tempo comunica o conteúdo da mensagem divina e envia Moisés como líder deste
processo paradigmático.
Temos ainda Ex 11,23 na última praga, a morte dos primogênitos, a figura
angelical nos é revelada como o ‘executor’ desta ação. Igualmente em Ex 14,15-31
no famoso episódio da ‘abertura’ do Mar Vermelho a presença do anjo do Senhor
como protetor dos ex-escravos agora em processo de libertação e como extermina-
dor dos opressores, os egípcios.
Veja no relato bíblico como o anjo aparece protagonizando um processo para-
doxal: vida e liberdade de um lado e morte de outro lado:

15 Disse então o Senhor a Moisés: "Por que você está clamando a mim? Diga aos is-
raelitas que sigam avante.
16 Erga a sua vara e estenda a mão sobre o mar, e as águas se dividirão para que os
israelitas atravessem o mar em terra seca.
17 Eu, porém, endurecerei o coração dos egípcios, e eles os perseguirão. E serei glo-
rificado com a derrota do faraó e de todo o seu exército, com seus carros de guerra e
seus cavaleiros.
18 Os egípcios saberão que eu sou o Senhor quando eu for glorificado com a derrota do
faraó, com seus carros de guerra e seus cavaleiros".
19 A seguir o anjo de Deus que ia à frente dos exércitos de Israel retirou-se, colocando-
-se atrás deles. A coluna de nuvem também saiu da frente deles e se pôs atrás,
20 entre os egípcios e os israelitas. A nuvem trouxe trevas para um e luz para o outro,
de modo que os egípcios não puderam aproximar-se dos israelitas durante toda a noite.
21 Então Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o Senhor afastou o mar e o tornou em
terra seca, com um forte vento oriental que soprou toda aquela noite. As águas se divi-
diram,
22 e os israelitas atravessaram pelo meio do mar em terra seca, tendo uma parede de
água à direita e outra à esquerda.
23 Os egípcios os perseguiram, e todos os cavalos, carros de guerra e cavaleiros do
faraó foram atrás deles até o meio do mar.
24 No fim da madrugada, do alto da coluna de fogo e de nuvem, o Senhor viu o exército
dos egípcios e o pôs em confusão.
25 Fez que as rodas dos seus carros começassem a soltar-se, de forma que tinham
dificuldade em conduzi-los. E os egípcios gritaram: "Vamos fugir dos israelitas! O Senhor
está lutando por eles contra o Egito".
26 Mas o Senhor disse a Moisés: "Estenda a mão sobre o mar para que as águas voltem
sobre os egípcios, sobre os seus carros de guerra e sobre os seus cavaleiros".

capítulo 2 • 40
27 Moisés estendeu a mão sobre o mar, e ao raiar do dia o mar voltou ao seu lugar.
Quando os egípcios estavam fugindo, foram de encontro às águas, e o Senhor os lançou
ao mar.
28 As águas voltaram e encobriram os seus carros de guerra e os seus cavaleiros, todo
o exército do faraó que havia perseguido os israelitas mar adentro. Ninguém sobreviveu.
29 Mas os israelitas atravessaram o mar pisando em terra seca, tendo uma parede de
água à direita e outra à esquerda.
30 Naquele dia o Senhor salvou Israel das mãos dos egípcios, e os israelitas viram os
egípcios mortos na praia.
31 Israel viu o grande poder do Senhor contra os egípcios, temeu o Senhor e pôs nele a
sua confiança, como também em Moisés, seu servo.
Bíblia Sagrada online. Disponível em: <https://www.bibliaon.com/exodo_14/>.
Acesso em: 10 jun. 2018.

O versículo dezenove mostra o anjo se posicionando estrategicamente na de-


fesa do povo de Deus. E os versículos trinta e trinta e um mostram a ruína dos
opressores. Como na perspectiva dos relatos do livro do Gênesis estas narrativas
do livro do Êxodo são demitizadora.
Outro relato significativo sobre a presença do anjo do Senhor junto ao povo
de Deus a caminho da liberdade é Ex 23,20-33, veja literalmente:

20 ”Eis que envio um anjo à frente de vocês para protegê-los por todo o caminho e
fazê-los chegar ao lugar que preparei”.
21 Prestem atenção e ouçam o que ele diz. Não se rebelem contra ele, pois não perdoa-
rá as suas transgressões, pois nele está o meu nome.
22 Se vocês ouvirem atentamente o que ele disser e fizerem tudo o que lhes ordeno,
serei inimigo dos seus inimigos, e adversário dos seus adversários.
23 O meu anjo irá à frente de vocês e os fará chegar à terra dos amorreus, dos hititas,
dos ferezeus, dos cananeus, dos heveus e dos jebuseus, e eu os exterminarei.
24 Não se curvem diante dos deuses deles, nem lhes prestem culto, nem sigam as suas
práticas. Destruam-nos totalmente e quebrem as suas colunas sagradas.
25 Prestem culto ao Senhor, o Deus de vocês, e ele os abençoará, dando a vocês ali-
mento e água. Tirarei a doença do meio de vocês.
26 Em sua terra nenhuma grávida perderá o filho nem haverá mulher estéril. Farei com-
pletar-se o tempo de duração da vida de vocês.
27 "Mandarei adiante de vocês o meu terror, que porá em confusão todas as nações que
vocês encontrarem. Farei que todos os seus inimigos virem as costas e fujam.
28 Causarei pânico entre os heveus, os cananeus e os hititas para expulsá-los de diante
de vocês.
29 Não os expulsarei num só ano, pois a terra se tornaria desolada e os animais selva-
gens se multiplicariam, ameaçando vocês.

capítulo 2 • 41
30 Eu os expulsarei aos poucos, até que vocês sejam numerosos o suficiente para to-
marem posse da terra.
31 "Estabelecerei as suas fronteiras desde o mar Vermelho até o mar dos filisteus, e
desde o deserto até o Eufrates. Entregarei em suas mãos os povos que vivem na terra,
os quais vocês expulsarão de diante de vocês.
Bíblia Sagrada online. Disponível em: <https://www.bibliaon.com/exodo_23/>. Acesso
em: 10 jun. 2018.

Nos versículos vinte a vinte e três o anjo de Deus nos é revelado com poderes
diferentes: protetor durante a caminhada (v 20). Se o povo prestar atenção e ouvir
a sua voz não lhe sendo rebelde (v 21) o Senhor ficará contra os inimigos de seu
povo (v 22), e o anjo será a locomotiva que puxa o trem da libertação, ou seja,
irá à frente do povo abrindo o caminho da liberdade para a Terra prometida, que
deverá ser um novo Jardim do Éden.
É importante que você saiba que este texto está dentro dos relatos bíblicos
que narram a aliança de Deus com o povo hebreu, ou seja, a presença do anjo
é também uma presença testemunhal deste grande acontecimento da História
da Salvação.
Em Ex. 33,1-4 o anjo do divino é revelado como aquele que faz uma ‘ação de
despejo’. Vem com um ‘mandado de reintegração de posse’. Veja o que diz literal-
mente o texto:

1 Depois ordenou o Senhor a Moisés: "Saia deste lugar, com o povo que você tirou do
Egito, e vá para a terra que prometi com juramento a Abraão, a Isaque e a Jacó, dizendo:
'Eu a darei a seus descendentes'.
2 Mandarei à sua frente um anjo e expulsarei os cananeus, os amorreus, os hititas, os
ferezeus, os heveus e os jebuseus.
3 Vão para a terra onde há leite e mel com fartura. Mas eu não irei com vocês, pois vocês
são um povo obstinado, e eu poderia destruí-los no caminho".
4 Quando o povo ouviu essas palavras terríveis, começou a chorar, e ninguém usou
enfeite algum.
5 Isso porque o Senhor ordenara que Moisés dissesse aos israelitas: "Vocês são um
povo obstinado. Se eu fosse com vocês, ainda que por um só momento, eu os destruiria.
Agora tirem os seus enfeites, e eu decidirei o que fazer com vocês".
6 Por isso, do monte Horebe em diante os israelitas não usaram mais nenhum enfeite.
Bíblia Sagrada online. Disponível em: <https://www.bibliaon.com/exodo_33/>.
Acesso em: 10 jun. 2018.

capítulo 2 • 42
Angeologia na literatura sapiencial

Estranhamente na literatura sapiencial não há muitos relatos da presença dos


seres celestiais como se pressupõe.
Em Jó 4,18-19 eles são revelados como seres passíveis de erro:

18 Se Deus não confia em seus servos, se vê erro em seus anjos e os acusa,19 quanto
mais nos que moram em casas de barro, cujos alicerces estão no pó! São mais facilmen-
te esmagados que uma traça!
Bíblia Sagrada online. Disponível em: <https://www.bibliaon.com/jo_4/>.
Acesso em: 10 jun. 2018.

No salmo 8,5 em algumas traduções é afirmado que eles são superiores aos
humanos e inferiores a Deus:

1 Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra! Tu, cuja glória
é cantada nos céus.
2 Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos firmaste o teu nome como fortaleza, por
causa dos teus adversários, para silenciar o inimigo que busca vingança.
3 Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali fir-
maste,
4 pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para
que com ele te preocupes?
5 Tu o fizeste um pouco menor do que os seres celestiais e o coroaste de glória e
de honra.
6 Tu o fizeste dominar as obras das tuas mãos;
sob os seus pés tudo puseste:
7 todos os rebanhos e manadas, e até os animais selvagens,
8 as aves do céu, os peixes do mar e tudo o que percorre as veredas dos mares.
9 Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra!

No salmo 35,5-6 temos uma retomada da concepção angelical da Torá, isto é,


o anjo de Deus é um perseguidor:

5 Que eles sejam como a palha ao vento, quando o anjo do Senhor os expulsar; 6 seja a
vereda deles sombria e escorregadia, quando o anjo do Senhor os perseguir.
Bíblia Sagrada online. Disponível em: <https://www.bibliaon.com/salmos_35/>.
Acesso em: 10 jun. 2018.

capítulo 2 • 43
O salmo 91,11 Mostra a figura angelical como protetor:

11Porque a seus anjos ele dará ordens a seu respeito,


para que o protejam em todos os seus caminhos;
Bíblia Sagrada online. Disponível em: <https://www.bibliaon.com/salmos_91/>.
Acesso em: 10 de junho 2018.

E por fim nos salmos 103,20 e 148,2 os anjos são convidados a louvarem e
bendizerem ao Deus da criação.
No livro histórico de Tobias temos o protagonismo do arcanjo Rafael.
Infelizmente para algumas denominações cristãs este livro não é considerado re-
velado, daí a mudança de fonte de pesquisa, até então usamos a versão online
da bíblia Sagrada, como ela não tem este livro, usaremos a versão católica para o
estudo da ação deste mensageiro divino.
O livro de Tobias nos proporciona uma leitura teológica fascinante, nos mol-
des do livro de Jó ele narra a história de uma família fiel a Deus e vítima do mal, é
o típico caso do justo inocente que sofre. Ou seja, é uma belíssima teologia, sofre
o sentido e o significado do sofrimento inocente. Portanto, independente de sua
denominação cristã ou qualquer outra religião e até mesmo se você não profes-
sa nenhuma fé religiosa, leia-o buscando uma compreensão mais profunda deste
mal-estar: o sofrimento injusto.
São quatorze capítulos, no máximo em uma hora você fará uma leitura signi-
ficativa deste clássico.
Nos capítulos um e dois o autor coloque a situação de fidelidade da família de
Tobit, pai de Tobias. No capítulo dois um acidente com excremento de pombos
o pai Tobit fica cego. No capítulo três, Sara, parente de Tobias, que fora dada em
casamento sete vezes e os sete esposos morreram nas noites de núpcias. Então o pai
envia Tobias para resgatar um dinheiro.
No capítulo três, o arcanjo Rafael entra em cena para curar a visão de Tobit e
dar um casamento digno para Sara (Tb 3,16-17).
Nos capítulos quatro a seis, o arcanjo aparece como fiel companheiro de
Tabias na grande aventura. Nos capítulos sete a doze a celebração das bodas (ca-
samento de Tabias com Sara. E dos capítulos doze a quatorze o retorno e a cura
do pai Tobit.
Aqui Rafael, além de companheiro de viagem, ele luta contra Asmodeu o
assassino de maridos (Tb 3,8; 8,1-3).

capítulo 2 • 44
E em Tb 12,6-15 o anjo nos é revelado como aquele que leva as orações das
pessoas até Deus:

"1. Então Tobit chamou seu filho e disse-lhe: Que havemos nós de dar a esse santo
homem que te acompanhou? 2. Meu pai, respondeu ele, que gratificação lhe havemos
de dar? Que presente poderá igualar os seus benefícios? 3. Ele levou-me e trouxe-me
em boa saúde; foi receber o dinheiro de Gabael; fez-me ter uma mulher e afugentou
dela o demônio; encheu de alegria os seus pais; livrou-me de ser devorado pelo peixe,
e fez-te rever a luz do céu; enfim, ele cumulou-nos de toda a sorte de benefícios. Que
presente poderia igualar a tudo isso? 4. Rogo-te, meu pai, que lhe peças se digne aceitar
a metade de tudo o que trouxemos. 5. Chamaram-no, pois, o pai e o filho, e, tomando-o
à parte, rogaram-lhe que aceitasse a metade de tudo o que tinham trazido. 6. Então
ele falou-lhes discretamente: Bendizei o Deus do céu, e dai-lhe glória diante de todo
o ser vivente, porque ele usou de misericórdia para convosco. 7. Se é bom conservar
escondido o segredo do rei, é coisa louvável revelar e publicar as obras de Deus. 8. Boa
coisa é a oração acompanhada de jejum, e a esmola é preferível aos tesouros de ouro
escondidos, 9. Porque a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a
misericórdia e a vida eterna; 10. Aqueles, porém, que praticam a injustiça e o pecado
são os seus próprios inimigos. 11. Vou descobrir-vos a verdade, sem nada vos ocultar.
12. Quando tu oravas com lágrimas e enterravas os mortos, quando deixavas a tua re-
feição e ias ocultar os mortos em tua casa durante o dia, para sepultá-los quando viesse
a noite, eu apresentava as tuas orações ao Senhor. 13. Mas porque eras agradável ao
Senhor, foi preciso que a tentação te provasse. 14. Agora o Senhor enviou-me para
curar-te e livrar do demônio Sara, mulher de teu filho. 15. Eu sou o anjo Rafael, um dos
sete que assistimos na presença do Senhor."
Tobias, 12 - Bíblia Católica online. Disponível em: <https://www.bibliacatolica.com.
br/biblia-ave-maria/tobias/12/>. Acesso em: 10 jun. 2018.

Como Rafael é chamado pelo autor do livro de Tobias de Azarias


(Tb 7,7.14;9,1-2) há grande probabilidade de ser o mesmo Arcanjo que protege
Sidrac, Misac e Abdênego da fúria do Rei Nabucodonosor que mandou jogá-los
na fornalha acesa (Dn 3,13-25).

Angeologia nos profetas de Israel

Os profetas estão entre as maiores personalidades da história humana.


Profetizaram num período paradoxal, a passagem da vida nômade para a vida
‘assentada’, da vida tribal, para a vida urbana, período da teocracia. Homens e
mulheres que souberam fazer uma sábia leitura da realidade, do presente, e re-
cuperando o passado, a aliança do Sinai, souberam ‘ler o futuro’. Movidos por
uma profunda indignação ética lutaram contra a injustiça, pelo direito e a paz

capítulo 2 • 45
(Is 58,1-12; Os 4,1-10. 4,1-3; 5,14-15.21-27; 6,1-7). Em nome do Deus único
combateram a idolatria (1Rs 18,20-40).
No stricto sensu da palavra, são mensageiros de Deus, porém diferente dos
anjos, a sua árvore genealógica é bem conhecida. Além dos dons sobrenaturais
(profecia) tiveram, a exemplo dos patriarcas, a presença dos seres celestiais.
Seria interessante uma ampla análise teológica deste tema em todos os profetas
de Israel, porém por questão didática faremos um corte epistemológico e aborda-
remos apenas em Isaías, Ezequiel, Daniel e Zacarias. No entanto, fica o convite a
você estudante de teologia, faça um estudo sobre a angeologia em todos os profe-
tas de Israel, pois como verá é uma temática fascinante.
Em Isaías escolhemos o capítulo seis versículos de um a dez, aqui temos uma
belíssima cena do anjo do Senhor interagindo com o profeta de Deus. E esta inte-
ração é uma preparação do profeta para a missão de mensageiro divino. Purificar
os lábios (boca, a ‘língua’ Is 6,6-10).
Nos versículos dois a quatro do capítulo seis temos uma informação sobre a
função (missão) dos Serafins: proclamarem a santidade de Deus.
Ezequiel 1,4-27 apresenta uma ‘descrição’ dos seres celestiais com ‘função’ na corte
celeste (missão). Em Ez 2,1-10 o anjo dialoga com o profeta e lhe concede o espírito,
qualificando-o para revivificar ossos humanos ressequidos (Ez 37,1-14). Mando o pro-
feta comer a palavra de Deus para depois anunciá-la ao seu povo (Ez 3,1-15).
Zacarias pode ser chamado de um homem ‘visionário’, são oito visões. Todas
as visões são interpretadas pelo anjo (Zc 1,7-17; 2,1-4; 2,5-9; 3,1-7;4,1-14; 5,1-4;
5,5-11 e 6,1-8). Veja que a ‘função’ angelical é pedagógica, ou melhor, exegética.
Ele tem um olhar de ressonância magnética, de ultrassonografia, não fotográfico,
de self nem de raio x, é um olhar transcendental.
Daniel profetizou no reinado de Nabucodonosor, interpretou de forma ma-
gistral um sonho real enigmático (Dn 2) e combateu uma das mais perversas ido-
latrias (Dn 3,1-7) auxiliado pelo anjo do Senhor (Dn 3,49-50). Pela sua fidelidade
a Deus e por inveja foi atirado na cova dos leões (Dn 6,2-25).
Como Zacarias é um ‘sonhador e visionário’ (Dn 7,1-16; 8,1-14); 10,1-21 e
o anjo do senhor lhe explica o significado dos sonhos e visões. Em Dn 8,15-27;
9,20-27 o nome do anjo é explicitado: Gabriel.
No capítulo dez o anjo aparece com semelhança humana coloca o profeta de
pé (v 10) concede coragem e força ao profeta e abre a sua boca para a profecia (v
15-19). Em Dn 13 temos o famoso julgamento de Daniel em defesa da bela e fiel
Susana, nos moldes do julgamento de Salomão (1Rs 3,-28). Um protegido pelo
anjo até na cova dos leões (Dn 14,3-42).

capítulo 2 • 46
Com este pequeno voo panorâmico sobre os profetas de Israel fizemos uma
breve análise da angeologia na perspectiva profética, concluindo assim a aborda-
gem dessa temática no Primeiro Testamento. Claro, foi apenas um antepasto, um
aperitivo, o prato principal será a sua leitura de todos os profetas com um olhar
sobre a presença dos anjos na atividade destes gênios da espiritualidade judeu-cris-
tã. Nosso próximo tópico será uma análise da angeologia no Segundo Testamento.

Angeologia no segundo testamento

Iniciaremos esta breve abordagem sobre presença angelical no Segundo


Testamento analisando o pensamento de São Paulo como o chamam os católicos
ou Apóstolo Paulo como é chamado pelos cristãos reformados. Sobre a genialida-
de espiritual de Paulo não precisamos falar, a literatura, sobretudo teológica atesta
isto. Igualmente não precisamos delongar na sua vida pregressa, aprovação dos
homicídios contra os cristãos (At 8,1-3).
Nos escritos paulino a palavra anjo aparece apenas quatorze vezes Rm 8,38;
1Cor 4,9; 6,3; 11,10; 13,1; 2Cor 11,14; 12,7; Gl 1,8; 3,19; 4,14; Cl 2,18; 2Ts
1,7; 1Tm 3,16; 5,21.
Em 1 Ts 4,16 aparece a expressão arcanjo, e em 2 Cor 11,14 satanás é deno-
minado anjo de luz, o espinho na carne do apóstolo (2 Cor 12,7).
Estas poucas passagens nos escritos de Paulo atribuem aos anjos uma missão
escatológica como coadjuvantes de Cristo e da Igreja. Por exemplo, Tessalonicenses
1 e 2. Revelam os anjos no combate final de Cristo contra as forças do mal.
Segundo Valtair Afonso Miranda

os poderes celestiais, anjos, arcanjos, principados, potestades, senhorios stoicheia, são


apresentados nas epístolas paulinas como parte da criação de Deus, e como toda
criação, existem para a glória de Deus, e de seu ungido, Jesus Cristo. Se a caminhada
durante a história se revela conflitiva em alguns momentos, a resposta paulina para
isso é a provisoriedade do cosmos. Na volta do Cristo exaltado todo sofrimento dos
caminhantes cessará.
As epístolas paulinas são marcadas, então, por uma grande sobriedade no campo da
angeologia. Desde as primeiras cartas do apóstolo, até as últimas obras da tradição
paulina, os poderes não são descritos para exaltar as criaturas, mas para acentuar o
criador. Paulo fala realmente de forças celestiais, mas o que edifica concretamente é
uma descrição do poder e da soberania de Deus. Desta forma, a natureza e a função
dos anjos nas epístolas paulinas ganha sentido e colorido para iluminar a cristologia e
a eclesiologia. (CARNEIRO; GOMES, 2017, P. 395-396).

capítulo 2 • 47
Angeologia nos evangelhos

Como analisamos brevemente, no epistolário paulino não encontramos uma


forte ‘teologia angelical’, razão pela qual merece um estudo mais aprofundado des-
ta escassez nesta grande teologia do Segundo Testamento. Fato é que no Segundo
Testamento há uma imensa presença desses seres celestiais. Nos sinóticos eles são
citados 51 vezes, no Evangelho de João apenas 4 vezes, mas 67 vezes no Apocalipse
e 21 vezes nos Atos dos Apóstolos. Portanto, estão presentes nos evangelhos como
apoio, como iluminação, como mensageiros, não são os protagonistas, pois o pro-
tagonista nesta obra é Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus.
Isto leva o teólogo Marcelo Carneiro afirmar:

Da etimologia do termo ángelos vem também a palavra evangélion (evangelho), que


significa a “boa mensagem” ou “boa notícia”. Por isso, não é de se estranhar a presença
anfélica nos Evangelhos e nos Atos, livros cujo tema central é justamente o Evangelho
de Jesus Cristo. Nomeados ou anônimos, a presença dos anjos nos evangelhos e
Atos é intensa e forma um quadro que nos faz pensar sobre a mentalidade de Jesus e
das comunidades cristãs iniciais. Isso porque, ao falar da atividade angélica eles estão
falando de suas crenças e compreensão de mundo (CARNEIRO; GOMES, 2017, p.
217-218).

Como são muitas citações da presença angelical nos evangelhos escolhemos


algumas passagens para analisarmos a missão dos auxiliares de Deus na revelação
neotestamentária: nos relatos da infância, as tentações, nos relatos da paixão e na
ressurreição do nazareno. Até porque estes acontecimentos são fundamentais na
revelação de Jesus Cristo.
Nos relatos do nascimento de Jesus de Nazaré o anjo aparece com missão im-
portantíssima. Mesmo com toda clareza da mensagem, embora de uma compreen-
são racional dificílima até hoje, pois anuncia no nascimento de João Batista algo
impossível para a capacidade humana, a concepção de uma anciã estéril (Lc 1,5-
25.57-58). Causando dúvidas, suspeitas, incompreensões e temor (Lc 1, 59-80).
Se no caso do precursor a questão da compreensão foi complexa, imagina no
caso do Nazareno que até foi chamado de carpinteiro, filhos de José ( Mc 6,1-5;
Mt 13,53-58; Lc 4, 16-20). E segundo a historiografia romana, do período, afirma
ser o Nazareno filho de Maria com um soldado romano. Você poderá aprofundar
esse tema lendo o texto digital a seguir. E sobretudo o livro de Orígenes contra
Celso, na versão impressa.

capítulo 2 • 48
CONEXÃO
Quem escreveu torto por linhas direitas. Disponível em: <http://quem-escreveu-torto.
blogspot.com/2012/01/yeshu-ben-pandera-jesus-filho-de.html>. Acesso em: 03 set. 2018.

Orígenes contra Celso. Patrística.Ed. Paulus, 2018.


Mateus coloca a anunciação (mensagem) a José que andava com pensamentos e
projetos estranhos diante de uma situação misteriosa, a gravidez de sua ‘noiva’ e a cer-
teza que ele não era ‘o pai da criança’ (Mt 1,18-25). Em seus projetos na contramão do
projeto de Deus, dormindo e sonhando recebe a visita do mensageiro divino para ilu-
minar a sua massa cinzenta. Após despertar do sono a metanoia aconteceu (Mt 1,24).
Após uma visita ‘suspeita’, os magos do oriente, José volta a sonhar e receber a
visita do mensageiro divino com uma missão nada fácil. Se o ‘filho’ nascera longe
de casa, segundo Lucas em condições precárias (Lc 2,1-7), agora eles deverão dei-
xar a sua terra natal, seus familiares, emprego e partirem para a terra da escravidão
(Mt 2,13-19). O movimento negro estudando este episódio levanta a questão das
condições de possibilidades de uma vida oculta de uma família ‘branca’ se esconder
no meio dos negros no Egito. Não só os transtornos da viagem num trajeto po-
voado por bandoleiros, cheia de violência, furtos, roubos, guerrilhas e sequestros.

CONEXÃO
Assista o vídeo de 4 pessoas negras que a história representou como branca. Disponível em:
<https://www.bing.com/videos/search?q=jesus+no+egito+e+o+movimento+negro&qpvt=
jesus+no+egito+e+o+movimento+negro&view=detail&mid=0F74ECA13C3B54CE9B5F
0F74ECA13C3B54CE9B5F&&FORM=VRDGAR>. Acesso em: 03 set. 2018.

Porém, segundo Mateus eles conseguiram e retornaram avisados pelo mensa-


geiro de Deus novamente (Mt 2,19-23).
Ainda em Mateus precisamos chamar a sua atenção para a presença dos anjos na
missão de Jesus de Nazaré. Na parábola do joio e do trigo (Mt 13, 14-30.36-43 os an-
jos aparecem como aqueles que farão a colheita na hora certa (Mt 24,29-31). Reunirão
todas as nações diante do trono do julgamento final (Mt 25,31-46. Embora nem eles
saibam quando tudo isto acontecerá, portanto, não são oniscientes (Mt 24, 35-36).

capítulo 2 • 49
Se em Mateus o anjo não é nominado em Lucas é Gabriel quem anuncia a
mensagem mais misteriosa, a concepção virginal do filho de Deus por uma mu-
lher judia das camadas populares. A tradição católica afirma que ela fora escolhida
por Deus antes da criação do mundo para ser a mãe do seu Filho primogênito
(Cl 1,15-20; Fl 2,6-11) Paulo pontua o acontecimento de forma genial, o divino
misteriosamente nascido da humana (Gl 4,4). E João na teologia mais profunda
do Segundo testamento fala que o Espírito se fez matéria, Deus se fez carne e carne
humana no Seio de Maria (Jo1,14; Gl 4,4).
Veja que a missão do mensageiro não é nada fácil, no caso de João Batista o
pai fica ‘perturbado’ e depois mudo (Lc 1,12.18-20) e a mãe cheia do Espírito
Santo (Lc 1,39-45). Há, inclusive, uma punição por não compreender e crer na
mensagem, a mudez de Zacarias. E no caso de Maria a suspeita-desconfiança de
sua idoneidade por parte de José (Mt 1,18-20). Porém, nas palavras de Maria o
‘Senhor neste acontecimento maravilhoso e misterioso tirou seu povo de uma
situação de humilhação’ (Lc 1,46-55).
Nos relatos das tentações no deserto, o tentador, o diabo. Após pegar Jesus
enfraquecido pela ausência de alimento, mas fortalecido pelo jejum, espiritual-
mente, cita os anjos como protetor contra as ciladas do projeto do antireino
(Mt 4,1-11; Lc 4,1-13.).
Na tradição da paixão na narrativa de Mt 26-52-54 a figura angelical é citada
por Jesus num momento de violência do Império Romano e dos judeus contra
o Filho de Deus, como aquele que poderia protegê-los desta situação horrorosa,
que despertou nos apóstolos o desejo da violência (Mc 14,43-52;Mt 26,47-56;
Lc 22,39-44. 47-51; Jo 18,10-11). É interessante teologicamente falando em
Lc 22, 39-44 que o anjo conforta Jesus cheio de angústia na oração de discerni-
mento pela realização do projeto de redenção, a sua doação total contra a vontade
de Deus pela salvação da humanidade. É muito importante a presença angelical
neste momento, pois não é a vontade de Deus a morte violenta de Jesus, mas o
carpinteiro de Nazaré tem autonomia para conduzir o processo e não encontrou
outro jeito senão o sacrifício, a autodoação por nós e para nós ‘contra Deus’.
Depois de dois mil anos a pergunta ainda fez sentido: haveria outro jeito?
Como você percebeu na dinâmica da revelação nos evangelhos há uma hie-
rarquia nos acontecimentos, fazendo com que o teólogo saiba discernir para saber
que é Jesus de Nazaré (Mc 8,27-30). E outro acontecimento revelador e o mais
importante de todos é a ressurreição do carpinteiro e neste fato as narrativas dos
quatro evangelhos são unânimes da presença angelical.

capítulo 2 • 50
Mc 16,1-8, sobretudo no versículo cinco fala de um jovem sentado à direita e
vestido com uma túnica branca, e elas ficaram cheias de espanto. Aristóteles afirma
que foi o espanto que deu origem a filosofia grega. Ou seja, quando os gregos se
espantaram com acontecimentos que a mitologia narrava envolvendo os deuses,
mas que na verdade eram acontecimentos humanos. É o processo de desbanaliza-
ção do banal, desnaturalização do natural.
Aqui o espanto das mulheres é o nascimento da fé na ressurreição, diz o anjo:
“não vos espanteis! Estais procurando Jesus de Nazaré, o crucificado. Ressuscitou,
não está aqui. Vede o lugar onde o puseram. Mas ide dizer aos discípulos e a Pedro
que ele vos precede na Galileia.”
Mt 28,1-8 fala que as ‘Marias’ foram ao túmulo e que houve um terremoto
com a descida do anjo, colocando medo nos guardas e acalmando as mulheres,
convida-as a verificarem e ir anunciar, serem as primeiras mensageiras do maior
acontecimento da fé cristã. A ‘prova’ é que ele será ‘visto’ no lugar marcado,
a Galileia.
Lc 24,1-8 afirma que a pedra fora removida, seriam os anjos? Pois agora são
dois na forma humana, ou seja, dois homens que perguntam: ‘por que procurais
entre os mortos aquele que está vivo’? E também apontam para a Galileia a possi-
bilidade de confirmação.
Em Jo 20,11-18, Maria chorando vê dois anjos que dialogam rapidamente com
ela: “mulher por que choras¿” Ela responde: “levaram o meu Senhor e não sei onde
o colocaram!” Imediatamente Jesus, o carpinteiro se revela na aparência de um jar-
dineiro. E na sequência João narra mais três revelações (‘aparições’), uma aos discí-
pulos amedrontas (Jo 20,19-23). A clássica à Tomé. E em Jo 21,1-23 a terceira que
mais parece história de pescador, pois foi exatamente numa pescaria. Parece que os
antigos pescadores haviam desistido do carpinteiro de Nazaré, pois voltaram para a
profissão de origem, então ele se revela neste momento retomando o chamado para
os apóstolos serem mensageiros desta Boa Nova, serem os anjos da ressurreição.
Antes de pararmos na última estação da angeologia neotestamentária é im-
portante que você saiba rapidamente que na teologia de Lucas os mensageiros
de Deus ocupam um espaço privilegiado. Na sua segunda obra, os Atos dos
Apóstolos, Lucas mostra as figuras angelicais interagindo na formação das primei-
ras comunidades.
Eles libertam os Apóstolos da prisão (At 5,17-23), salva Pedro da perseguição
de Herodes, embora Tiago não tenha tido a mesma ‘sorte’ (At 12,6-11).

capítulo 2 • 51
Na missão inicial o anjo envia Felipe até Gaza para o encontro com o eunuco
(At 8,26-40). Em At 10, 1-7 o anjo é enviado a Cornélio que lhe comunica a acei-
tação de suas orações por Deus. Manda Cornélio chamar Simão Pedro e toda sua
família recebe o Espírito Santo, um verdadeiro Pentecostes, igualmente o batismo
(At 10,44-48).
No episódio de Estêvão também aparece a figura angelical (At 6.15), especial-
mente no seu discurso de defesa (At 7,30.35.38.53.55).
Segundo Lucas os anjos interagem na missão de Paulo. No conflito no Sinédrio
(At 23,1-11). No barco a deriva na viagem a Roma assegurando a todos a vida
(At 27,9-26).

Angeologia no apocalipse

O Apocalipse de São João com suas 67 citações angelicais é riquíssimo nos de-
talhes do ser angelical e de sua missão no final da História da Salvação. Portanto,
uma vez mais fica o convite para você organizar sua agenda acadêmica e dedicar
uma hora de leitura atenta a este livro sagrado na perspectiva da angeologia.
João abre o Apocalipse, nome que significa revelação, afirmando que toda esta
revelação a recebeu do anjo do Senhor (Ap 1,1-3): “Revelação de Jesus Cristo:
Deus lhe concedeu para que mostrasse aos seus servos as coisas que devem acon-
tecer muito em breve. Ele a manifestou com sinais pro meio de seu anjo, enviado
ao seu servo João...”
Depois nos capítulos dois e três às igrejas e Éfeso, Esmirna, Pérgamo, tiatira,
Sardes, Filadélfia e Laodiceia as mensagens são sempre dirigidas aos anjos que não
aparecem como exemplos de fidelidade a Cristo. A mais famosa destas posturas é
a do anjo da igreja de Laodiceia: “conheço tua conduta: não és frio nem quente.
Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, nem frio nem quente, estou
para te vomitar de minha boca. (Ap 3,14-16). Do capítulo quatro até o capítulo
onze os seres celestiais aparecem servindo a morada do Deus altíssimo, sobretudo
proclamando a santidade de Deus dia e noite (Ap 4,8-11).
Passando para o capítulo doze encontramos Miguel e seus anjos lutando con-
tra o Dragão na defesa da mulher e do recém nascido (Ap 12,1-17). Há alguma
relação com Mt 2, 13-23).
Merece destaque na ação angelical Ap 20,1-6 a bravura angelical ao prender
e acorrentar o Dragão, atirando-o no abismo, fechando-o e lacrando-o para não
seduzir as nações por um período.

capítulo 2 • 52
Por fim, na esplêndida imagem da nova Jerusalém como uma esposa arruma-
da para seu esposo, João é arrebatado pelo anjo para contemplá-la. (Ap 21,1-26),
sobretudo nos versículos 15-26 há detalhes da arquitetura da cidade santa com
pedras preciosas em abundância na sua decoração. Não há templo, pois Deus, o
todo poderoso, e o Cordeiro são o seu Templo. Não precisa da luz do sol ou da lua
para sua iluminação porque a glória Deus a ilumina, e sua lâmpada é o Cordeiro.
E em Ap 22,1-21 o anjo continua mostrando os detalhes da Jerusalém celeste,
chama atenção o rio de águas da vida, brilhante como cristal, saindo do trono de
Deus e do Cordeiro. A árvore da vida que frutifica doze vezes ao ano, com folhas
medicinais. Há alguma relação com Gn 2,4-17 e Gn 3,1-5. Não haverá mais a
maldade, a injustiça, o sofrimento, a dor, as enfermidades, a morte ou a maldição.
E o anjo fala para o Apóstolo ser mensageiro desta informação: ‘não retenhas em
segredo as palavras da profecia deste livro. Feliz aquele que observa as palavras
deste livro...e se alguém acrescentar ou tirar alguma palavra receberá as pragas
descritas neste livro, e Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida e da Cidade
Santa. (versículos 9. 10.18-19).
Como você pode ver no Apocalipse, há um protagonismo esplêndido dos
mensageiros de Deus nos acontecimentos finais da história da salvação e no início
da plenitude de Deus com seus eleitos na nova Jerusalém.

Anjo, querubim, serafim e arcanjo

Como conclusão deste segundo capítulo de Teologia Sistemático dois, va-


mos explicitar a diferença teológica entre os seres celestes como aparece na
Sagra Escritura.

Segundo Paulo Sérgio de Proença no Dicionário Brasileiro de Teologia o termo anjo,


maleak ou malekim é um termo complexo e polêmico. Tem sentido de “mensageiro”. A
função principal de um anjo é servir de emissário aos homens. Os anjos são serviçais
do céu, para, entre outras atividades: anunciar nascimentos especiais, proteger e orien-
tar, servir como instrumento da divina justiça contra os pecadores. Os anjos bíblicos
não diferem dos seres intermediários de religiões antigas: a nuvem no mar vermelho,
a crença de que anjos são bons ou maus, a ideia de uma guarda pessoal, a passagem
do espaço terreno para o celestial por meio de escadas, a necessidade de um viajante
ter de lutar com um anjo para seguir viagem, todas essas ocorrências tem paralelos em
relatos antigos. (PROENÇA, 2008, p. 39).

capítulo 2 • 53
O maleak do hebraico é ángelos do grego ambos com o significado de mensa-
geiro, de comunicador que conhece os mistérios de Deus que os humanos querem
saber, conhecer, experimentar. O que leva Proença afirmar:
A linguagem deles é tão elevada quanto a atmosfera divina em que vivem. “O
hino de amor” de 1Cor 13 submete a linguagem dos anjos à superioridade do
amor; assim, o amor substitui o poder dos anjos, pois anula as diferenças de sexo
e pavimenta o acesso ao mundo divino (PROENÇA, 2008).
Segundo Jó 4,18 são imperfeitos: dos próprios servos ele desconfia, até mesmo
a seus anjos verbera o erro. E Mt 24,36 fala que os anjos não são oniscientes, pois
desconhecem uma informação que a maioria dos humanos gostaria de saber, o dia
do juízo final: “Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem
o Filho, mas só o Pai.”
Querubim, do hebraico cheruv pode significar misericórdia, também aquele
que louva e adora o todo poderoso. Em Gn 3,24 depois da desobediência do pri-
meiro casal, o texto afirma que “Deus baniu o homem e colocou, diante do jardim
de Éden, os querubins e a chama da espada fulgurante para guardar o caminho da
árvore da vida”.
Em Ez 10,1-22 temos uma boa descrição da função dos querubins no templo e
de sua identidade. Estão no templo servindo a Iaweh em sua revelação aos humanos.
Segundo Ex 25, 18-22 eles devem ser para adornar o Templo:

Farás também dois querubins de ouro; de ouro batido os farás, nas duas extremidades
do propiciatório.
Farás um querubim na extremidade de uma parte, e o outro querubim na extremidade
da outra parte; de uma só peça com o propiciatório, fareis os querubins nas duas extre-
midades dele.
Os querubins estenderão as suas asas por cima, cobrindo com elas o propiciatório; as
faces deles uma defronte da outra; as faces dos querubins estarão voltadas para o pro-
piciatório.
E porás o propiciatório em cima da arca, depois que houveres posto na arca o testemu-
nho que eu te darei.
E ali virei a ti, e falarei contigo de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins (que
estão sobre a arca do testemunho), tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel.
Bíblia online. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/acf/ex/25>.
Acesso em: 11 jun. 2018.

Em Ez 41,18-20.25 os querubins são esculpidos nos templos com aparência


humana e de animal. E Ez 28,14 o querubim é um protetor. Em 1Cr 28,18 são

capítulo 2 • 54
bons para a cavalgada. 2Sm 22,11 é uma cavalgada que voa velozmente nas asas
do vento. Parece que na velocidade da luz.
Os serafins aparecem explicitamente apenas em Is 6,1-7:

No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e
sublime trono; e a cauda do seu manto enchia o templo.
Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas; com duas cobriam os seus
rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam.
E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda
a terra está cheia da sua glória.
E os umbrais das portas se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça.
Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros,
e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor
dos Exércitos.
Porém um dos serafins voou para mim, trazendo na sua mão uma brasa viva, que tirara
do altar com uma tenaz;
E com a brasa tocou a minha boca, e disse: Eis que isto tocou os teus lábios; e a tua
iniquidade foi tirada, e expiado o teu pecado.
Bíblia online. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/acf/is/6>.
Acesso em: 11 jun. 2018.

A Bíblia de Jerusalém no capítulo seis de Isaías traz uma explicação significa-


tiva sobre esses seres celestiais:

Etimologicamente: os “abrasadores”. Estes seres alados não têm em comum senão o


nome com as serpentes abrasadoras de Nm 21,6 ( cf. 8; Dt 8,15), ou volantes de Is
14,29; 30,6. São figuras humanas, munidas, porém, de seis asas, que lembram os seres
misteriosos que conduzem o carro de Iahweh em Ez 1, e que Ez 10 chama “querubim”,
como as figuras análogas fixadas na arca ( Ex 25.18). A tradição posterior deu o nome
de serafins e de querubins a duas categorias de anjos (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 1973,
p. 990).

Seriam os quatro seres vivos semelhantes a águia, leão, touro e face humana
vistos por João no Ap 4, 6-11. Depois destas coisas, olhei, e eis que estava uma
porta aberta no céu; e a primeira voz, que como de trombeta ouvira falar comigo,
disse: Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer.
E logo fui arrebatado em espírito, e eis que um trono estava posto no céu, e
um assentado sobre o trono.
E o que estava assentado era, na aparência, semelhante à pedra jaspe e sardô-
nica; e o arco celeste estava ao redor do trono, e parecia semelhante à esmeralda.

capítulo 2 • 55
E ao redor do trono havia vinte e quatro tronos; e vi assentados sobre os tro-
nos vinte e quatro anciãos vestidos de vestes brancas; e tinham sobre suas cabeças
coroas de ouro.
E do trono saíam relâmpagos, e trovões, e vozes; e diante do trono ardiam sete
lâmpadas de fogo, as quais são os sete espíritos de Deus.
E havia diante do trono um como mar de vidro, semelhante ao cristal. E no
meio do trono, e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos, por diante e
por detrás.
E o primeiro animal era semelhante a um leão, e o segundo animal semelhante
a um bezerro, e tinha o terceiro animal o rosto como de homem, e o quarto animal
era semelhante a uma águia voando.
E os quatro animais tinham, cada um de per si, seis asas, e ao redor, e por den-
tro, estavam cheios de olhos; e não descansam nem de dia nem de noite, dizendo:
Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era e que é, e que
há de vir.
E, quando os animais davam glória, e honra, e ações de graças ao que estava
assentado sobre o trono, ao que vive para todo o sempre,
Os vinte e quatro anciãos prostravam-se diante do que estava assentado sobre
o trono, e adoravam o que vive para todo o sempre; e lançavam as suas coroas
diante do trono, dizendo:
Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas
as coisas, e por tua vontade são e foram criadas.
Pois além da semelhança “física” a função explicitada em Is 6.1-4 é a mesma:
proclamar a santidade de Deus.
A palavra arcanjo do grego arké com significado de princípio, e ángelos com
significado de anjo. Aparece no Segundo Testamento em 1Ts 4,16 que é um texto
sobre a ressurreição dos mortos e vivos por ocasião da segunda vinda de Jesus
Cristo, cuja função é explicitada: “ quando o Senhor, ao sinal dado à voz do arcan-
jo e ao som da trombeta divina, descer do céu, então os mortos em Cristo ressus-
citarão primeiro; em seguida nós , os vivos que estivermos lá seremos arrebatados
com eles nas nuvens para o encontro com o Senhor, nos ares. E assim, estaremos
para sempre com o senhor. Consolai-vos, pois uns aos outros com estas palavras”.
Aqui ele tem uma função específica no juízo final, sinalizar os acontecimentos
finais e com toda certeza conduzir a humanidade para um encontro nos ares com
príncipe da ressurreição.

capítulo 2 • 56
Aparece também em Judas nove com o nome Miguel num ‘debate’ com o
diabo sobre o corpo de Moisés, e segundo o texto não se atreveu a pronunciar uma
sentença injuriosa, mas apenas se limitou a dizer “O senhor te repreenda”.
Sabendo do seu nome fica fácil encontrá-lo nos escritos sagrados agindo em
batalhas colossais como a descrita em Ap 12. E em Dn 10,21 ele aparece como
príncipe, levando alguns exegetas como Josué Pires e Marcelo da silva Carneiro
a levantar a hipótese teológica de o arcanjo Miguel ser uma cristofonia ou uma
revelação de Cristo. Isto com fundamento na etimologia da palavra grega arké+
ángelos, e no prólogo do evangelho de João que afirma ser no princípio a Palavra e
a palavra se fez carne (Jo 1,1-14). Assim, os arcanjos são três nos escritos sagrados
judeu-cristãs Rafael com um protagonismo no livro de Tobais, Gabriel no evan-
gelho de Lucas, sobretudo na anunciação à Maria do nascimento do Salvador, e
Miguel nos profetas, especialmente Daniel e, sobretudo no apocalipse de João.

Apropriação do misticismo e das superstições da angeologia

Como afirmamos na introdução o ser humano na sua busca pelo sagrado


sempre o imaginou de diversas formas, inclusive sobre a existência de seres ce-
lestiais que o protegem e “media” sua relação com o absoluto, com Deus. E esta
imaginação deu diversas formas para os seres celestiais. Ora parecidos com animais
(Ap 4,6-11;), ora parecido com o ser humano (Ap 7,1-8), ora parecido com os
fenômenos da natureza (Ap 10,1-7).
A concepção dos seres celestiais a imagem e semelhança humana é conhecida
como antropomorfismo. Segundo o dicionário online de português (Dicio):

Forma de pensamento ou conceito que atribui a Deus, a deuses ou a seres sobrenaturais,


maneiras de agir, sentimentos e pensamentos característicos dos seres humanos. Con-
ceito, ponto de vista, doutrina filosófica que busca compreender a realidade através da
atribuição de qualidades e comportamentos humanos aos seres inanimados ou irracionais.
DICIO. Disponível em: <https://www.dicio.com.br/antropomorfismo/>
Acesso em: 20 ago. 2018.

Esta concepção já foi duramente criticada pela filosofia grega. O filósofo


Xenófones de Cólofon (Séc. IV a.C.) é o maior representante desta crítica filosó-
fica a esta concepção religiosa. Em seus fragmentos afirma:

capítulo 2 • 57
Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo quanto entre os homens é vergonhoso e
censurável, roubos, adultérios e mentiras recíprocas.
Mas os mortais imaginam que os deuses foram gerados e que têm e vestuário e fala e
corpos iguais aos seus.
Os Etíopes dizem que os seus deuses são de nariz achatado e negros, os Trácios, que os
seus têm olhos claros e cabelos ruivos.
Mas se os bois e os cavalos ou leões tivessem mãos ou fossem capazes de com elas,
desenhar e produzir obras, como os homens, os cavalos desenhariam as formas dos
deuses semelhantes às dos cavalos, e os bois à dos bois, e fariam os seus corpos tal
como um deles o tem.
Um só deus é o maior entre os deuses e os homens, dissemelhante dos homens em
figura e em modo de perceber. Permanece sempre no mesmo lugar, sem se mover; nem
é próprio dele ir a diferentes lugares em diferentes ocasiões, mas antes, sem esforço
tudo abala com pensamento do seu espírito.
DUARTE. Disponível em: <http://pansophia-filosofia.blogspot.com/2012/03/
antropomorfismo-xenofanes-de-colofon.html>. Acesso em: 20 ago. 2018.

Esta observação é importante para o estudante da graduação, sobretudo para


ligar a suspeita teológica para o que é real e o que imaginação, crendice, misticis-
mo e superstições ligadas aos seres celestiais na atualidade.
Segundo o dicionário online de português misticismo é:

Tendência para crer em entidades ou forças sobrenaturais. Crença de que uma pessoa
se consegue comunicar com uma entidade espiritual e/ou receber mensagens desta.
Inclinação para viver de modo contemplativo (absorvido em pensamentos); ascetismo.
DICIO. Disponível em: <https://www.dicio.com.br/misticismo/>.
Acesso em: 20 ago. 2018.

E superstição é: (Significado de superstição)

Crendice; crença sem fundamento racional e lógico que, normalmente, se baseia si-
tuações recorrentes ou coincidências eventuais. Crença que faz com que alguém crie
certas regras ilógicas, tenha medo de coisas inofensivas ou acredite em coisas sem
fundamento. [Por Extensão] Ação de atribuir sorte ou azar a ações ou coisas.
DICIO. Disponível em: <https://www.dicio.com.br/supersticoes/>.
Acesso em: 20 sgo. 2018.

Com o fim do otimismo exagerado da capacidade da razão humana de conhe-


cer tudo promovido pelo Iluminismo. Embora, Immanuel Kant (1724-1804), na
Crítica da Razão Pura já houvesse alertado para os limites da racionalidade. E com

capítulo 2 • 58
o advento da Pós-Modernidade temos o renascimento do misticismo, no século XX
a New Age, a renovação carismática e o pentecostalismo e o neopentecostalismo.
Sobre a New Age afirma Bruno Glaab:

As ideias e os objetivos da Nova Era recolhem elementos das religiões orientais, o es-
piritismo, as terapias alternativas, a psicologia transpessoal, a ecologia profunda, a as-
trologia, o gnosticismo e outras correntes. Os mistura e os comercializa de mil formas,
proclamando o início de uma nova época para a humanidade. Mas, no fundo, não parece
ser mais que outra tentativa vã do homem de se salvar por si mesmo fazendo promessas
que não pode cumprir e atribuindo-se poderes que não possui.
O típico da Nova Era é o espírito de individualismo que permite a cada um formular sua
própria verdade religiosa, filosófica e ética. Mas há algumas crenças comuns que quase
todos os participantes da Nova Era compartilham: a) o mundo está para entrar em um
período de paz e de harmonia mundial assinalado pela astrologia como a "era de Aquá-
rio". b) A "era de Aquário" será fruto de uma nova consciência nos homens. Todas as
terapias e técnicas da Nova Era pretendem criar esta consciência e acelerar a vinda da
era de aquário. c) Por esta nova consciência o homem vai se dar conta de seus poderes
sobrenaturais e saberá que não há nenhum Deus fora de si mesmo. d) Cada homem,
portanto, cria a sua própria verdade. Não há bem e mal, toda experiência é um passo
para a consciência plena de sua divindade. e) O universo é um ser único e vivo em evolu-
ção ao pleno conhecimento de si e o homem é a manifestação de sua autoconsciência.
f) A natureza também é parte do único ser cósmico e, portanto, também participa de sua
divindade. Tudo é "deus" e "deus" está em tudo. g) Todas as religiões são iguais e, no
fundo, dizem o mesmo. h) Há "mestres" invisíveis que se comunicam com pessoas que
já alcançaram a nova consciência e os instruem sobre os segredos do cosmos. i) Todos
os homens vivem muitas vidas, vão se reencarnando uma e outra vez até alcançar a nova
consciência e dissolver-se na força divina do cosmos.
GLAAB. Disponível em: <http://www.estef.edu.br/brunoglaab/wp-content/
uploads/2011/11/Nova-Era.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2018.

Na letra h, Bruno Glaab fala de “mestres invisíveis que se comunicam com


pessoas que já alcançaram a nova consciência e os instruem sobre os segredos do
cosmos”. Aqui podemos compreender como a angeologia é apropriada pelo misti-
cimo contemporâneo e “inculturada” no seu projeto espiritual.
Fernanda Massi no artigo misticismo e religiosidade na sociedade contempo-
rânea conceitua o miscismo assim:

Misticismo – Psico. ≠ 1. Estado psíquico no qual o sujeito tem o sentimento de entrar em


relação direta com Deus: “Se existe um misticismo falso e perigoso, existe um misticismo
verdadeiro e salutar, o qual parte do princípio de que não podemos desenvolver fora de
Deus o ser que recebemos de Deus” (Wherlé). – Hist. ∆ 2. Doutrina baseada mais no

capítulo 2 • 59
sentimento e na imaginação do que na razão e na experiência sensível (às vezes pej. e
com a ideia de que assenta em noções confusas): “O misticismo consiste em pretender
conhecer de outro modo que não pela inteligência” (Goblot).
MASSI. Disponível em: <http://books.scielo.org/id/rmgfg/pdf/
massi-9788568334560-05.pdf>. Acesso em: 02 set. 2018.

Portanto, é importante teologicamente ter uma compreensão holística do fe-


nômeno para evitar preconceito, discriminação e inferiorização da espiritualidade
do outro, ou seja, evitar o complexo de superioridade espiritual.
Sobre a angeologia e o misticismo é importante que você conheça também a
posição de Edison Boaventura Junior, em sua monografia de conclusão do curso
de teologia:

Na Pós-modernidade: Com a falência do comunismo e a queda do muro de Berlim, em 1989,


teve início o mundo pós-moderno. Neste contexto surge o pensamento que as pessoas
podem ter as suas próprias ideias com respeito a qualquer coisa, pois os valores do pós-mo-
dernismo não são pessoais, mas sociais, e incorporam-se a Cultura.
Resumindo, a linguagem humana não contém qualquer verdade absoluta, e nisto os pós
modernistas estão tirando alguma vantagem, pois os indivíduos podem ter as mais diferentes
interpretações do mesmo texto ou assunto, sem que isso constitua uma contradição.
O pluralismo religioso vigente na sociedade teve um enorme crescimento nestas últimas
décadas, quando os “cristãos” têm recebido profundas influências das religiões e filosofias
orientais. Nesta nova abordagem, todas as religiões têm de abandonar a sua arrogância
teológica. Nenhum grupo religioso pode vangloriar-se de ser superior ao outro em termos de
verdade, porque a religião está associada à Cultura. Assim, aparentemente todas elas são
igualmente boas. Neste cenário, a angelologia, ganha uma abordagem distorcida e exage-
rada, fugindo das verdades bíblicas, pois não existem muitos questionamentos do que está
certo e do que está equivocado nesta doutrina. Assim, infelizmente, proliferam as ideias mira-
bolantes que são demonstradas, por vezes, em livros que alienam seus leitores, distanciando
os indivíduos cada vez mais da realidade contida nas Escrituras Sagradas sobre os anjos.
JUNIOR. Disponível em: <http://www.diariodasalvacao.com.br/wp-content/
uploads/2012/04/MonografiaEdisonAngelologia.pdf>. Acesso em: 03 set. 2018).

MULTIMÍDIA
Por fim, convido você a fazer uma visita virtual aos seguintes endereços eletrônicos e
analisar teologicamente estas propostas de espiritualidade angeológica.
Lindo mantra para trazer proteção de anjos. Disponível em: <https://www.bing.com/
videos/search?q=lindo+mantra+para+trazer+protecao+de+anjos&view=detail&mid=7000C
68C4530137997A07000C68C4530137997A0&FORM=VIRE>. Acesso em: 03 set. 2018.

capítulo 2 • 60
6 anjos mais fortes que auxiliam Deus – E se for verdade. Disponível em:
<https://www.bing.com/videos/search?PC=SK216&q=6+anjos+mais+fortes+
que+auxiliam+Deus+-+e+se+for+verdade&ru=%2fsearch%3fFORM%3dSK
216DF%26PC%3dSK216%26q%3d6%2banjos%2bmais%2bfortes%2bque%2bau
xiliam%2bDeus%2b-%2be%2bse%2bfor%2bverdade&view=detail&mmscn=vwrc&mid=
C711D7C4EFCC0C98C368C711D7C4EFCC0C98C368&FORM=WRVORC>.
Acesso em: 03 set. 2018.
Asas de luz – Best New Age. Disponível em: <https://www.bing.com/videos/search?P
C=SK216&q=asas+de+luz+-+best+new+age&ru=%2fsearch%3fFORM%3dSK
216DF%26PC%3dSK216%26q%3dasas%2bde%2bluz%2b-%2bbest%2bnew%2ba
ge&view=detail&mmscn=vwrc&mid=9E8499062AE20504520B9E8499062AE
20504520B&FORM=WRVORC Acesso em: 03 de setembro 2018.
Radio anjo de luz. New age meditação alternativa. Disponível em: <http://www.
internetdeluz.com.br/2012/oracao_cocriacao.mp3>. Acesso em: 03 set. 2018.
Sobre a apropriação da angeologia na Renovação Carismática católica ouça o
sucesso do Pe. Marcelo Rossi. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=O6d
vHtW8Urw>. Acesso em: 03 set. 2018.
Veja a metáfora asas de águias na música do Pe. Fabio de Melo e Celina Bor-
ges: “nas asas do senhor: Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=YZs0xQneR
Ms>. Acesso em: 03 set. 2018.

CONEXÃO
Links da internet.
Disponível em: <https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/tobias/12/>.
Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/>.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=qF9wmJP1wZ4>.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=g62EMdqXfQs>.
Disponível em: <http://www.portalangels.com/anjos/>.
4 pessoas negras que a história representou como branca. Disponível em: <https://www.
bing.com/videos/search?q=jesus+no+egito+e+o+movimento+negro&qpvt=jesus+no+
egito+e+o+movimento+negro&view=detail&mid=0F74ECA13C3B54CE9B5F0F74ECA-
13C3B54CE9B5F&&FORM=VRDGAR >.
Quem escreveu torto por linhas direitas. Disponível em: <http://quem-escreveu-tor-
to.blogspot.com/2012/01/yeshu-ben-pandera-jesus-filho-de.html>.

capítulo 2 • 61
ATIVIDADES
01. Acesse o portal dos anjos e navegue nele buscando informações relevantes sobre os
seres celestiais. Atenção à esquerda do site há artigos debatendo sobre o tema, leia-os.
Disponível em: <http://www.portalangels.com/anjos/>. Acesso em: 12 jun. 2018.

02. Vídeo 1. Assista ao vídeo Enigmas da bíblia – os anjos. Disponível em: <https://www.
youtube.com/watch?v=g62EMdqXfQs>. Acesso em: 12 jun. 2018.

03. Vídeo 2. Assista ao vídeo: Estudo bíblico completo sobre anjos de Deus pas-
tor Gelson Magalhões. Pregação teologia. Disponível em: <https://www.youtube.com/
watch?v=qF9wmJP1wZ4>. Acesso em: 12 jun. 2018.

Depois elabore um texto acadêmico de até quatro laudas destacando os principais as-
pectos da angeologia apresentada nos dois vídeos e compare com a análise do texto de
apoio sobre os anjos no Primeiro e no Segundo Testamentos. Escolhe um texto bíblico sobre
os anjos para fundamentar sua argumentação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARCHER JR. Gleason; WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de teologia do Antigo
Testamento. São Paulo: vida Nova, 1998.
Bíblia de Jerusalém. Paulinas 1973.
Bíblia Online. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/>.
CARNEIRO, Marcelo; GOMES, Silvio (Orgs.) Manual de Angeologia. Porta Editorial, 2017.
ARENS, Eduardo; MATEOS, Manuel Díaz, Apocalipse – a força da esperança. São Paulo, SP:
Loyola, 2004.
BORTOLLETO FILHO, Fernando (Org.). Dicionário brasileiro de Teologia. São Paulo: ASTE, 2008.
COLLINS, Lothar J. A imaginação apocalíptica. São Paulo, SP: paulus, 2010.
TERRA, Kenner. Os anjos que caíram do céu. Livro de Enoque e o demoníaco no mundo judaico-
cristão. São Paulo: fonte Editorial, 2012.
WESTERMANN, Claus. O anjo de Deus não precisa de asas: O que a Bíblia diz sobre os anjos. São
Paulo: Loyola, 2000.

capítulo 2 • 62
3
Antropologia
teológica: estudos
da origem, queda e
redenção humanas
Antropologia teológica: estudos da origem,
queda e redenção humanas

Neste capítulo você estudará cinco temas: o sentido da vida e o fenômeno


humano; a criatura como Imagem e Semelhança do criador; o homem compreen-
dido pelo mistério da revelação; o desligamento do criador: o pecado; e a redenção
em Jesus Cristo: Re-ligare..

OBJETIVOS
•  Conhecer o pensamento teológico sobre a pessoa humana;
•  Estudar a pessoa humana à luz da revelação cristã
•  Compreender a dialética criação-queda-redenção da pessoa humana.

O sentido da vida e o fenômeno humano

A pessoa humana desde muito cedo buscou uma autocompreensão. Desde


sua saída da Savana para as Cavernas já se mostrou não se contentar com apenas
uma dimensão meramente animal. Há uma suspeita que esta saída da zona de
conforto, pois na savana ele vivia uma vida ecologicamente correta, “sustentável”,
vida herbívora. E na caverna passou para uma vida carnívora. Porém é das caver-
nas que temos rastros de humanização, pinturas rupestres, Arte, “escrita”. Merece
uma atenção especial esta passagem, da savana para as cavernas. Nos seus estudos,
sugiro a retomada deste tema para um aprofundamento teológico.
Esta busca pela auto compreensão está muito bem documentada. Na Sagrada
Escritura temos o Salmo oito no qual o autor pergunta a Deus quem é o homem?

capítulo 3 • 64
1 Senhor, Senhor nosso,
como é majestoso o teu nome em toda a terra!
Tu, cuja glória é cantada nos céus.
2 Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos
firmaste o teu nome como fortaleza,
por causa dos teus adversários,
para silenciar o inimigo que busca vingança.
3 Quando contemplo os teus céus,
obra dos teus dedos,
a lua e as estrelas que ali firmaste,
4 pergunto: Que é o homem,
para que com ele te importes?
E o filho do homem,
para que com ele te preocupes?
5 Tu o fizeste um pouco menor
do que os seres celestiais
e o coroaste de glória e de honra.
6 Tu o fizeste dominar
as obras das tuas mãos;
sob os seus pés tudo puseste:
7 todos os rebanhos e manadas,
e até os animais selvagens,
8 as aves do céu, os peixes do mar
e tudo o que percorre as veredas dos mares.
9 Senhor, Senhor nosso,
como é majestoso o teu nome em toda a terra!
Bíblia online. Disponível em: <https://www.bibliaon.com/salmos_8/>.
Acesso em: 10 ago. 2018.

No Dentel do famoso Templo de Delfos a mais de 2500 anos também havia


a máxima: “conhece-te a ti mesmo”, injunção esta adotada pelo mestre Sócrates
(469 a.C. a 399 a.C.), o patrono da filosofia grega, como meta do seu filosofar.
Segundo a mitologia grega Delfos era o centro do conhecimento.

capítulo 3 • 65
©© WIKIMEDIA.ORG

Ruinas de Delfos.

Recebeu ilustres visitantes em busca do autoconhecimento, entre eles Sócrates,


um dos sete sábios da Grécia Antiga, que provocado pelos seus conhecidos foi a Delfos
saber se realmente era sábio. E segundo a História da filosofia a sacerdotisa Pítia per-
guntou o que ele sabia, ele respondeu que “sei que nada sei”, então ela respondeu
“realmente você é o mais sábio, pois o não saber é o princípio do conhecimento”.
O também grego, poeta Píndaro que nasceu em Tebas e morreu em Argos,
(522ª.C. 443 a. C.) usava uma injunção semelhante:“ Homem, torna-te no que és”.
Pedro Gergen no texto, Ética e Educação. O que pode a escola? Interpretando
esta injunção do poeta afirma:

Do ponto de vista lógico, poderíamos dizer que se trata de uma contradição, porque
ninguém pode vir a ser o que já é. Se já sou um ser humano, não posso vir a sê-lo.
Mas, na verdade, a percepção refinada do poeta traduz algo mais profundo, algo que
ultrapassa o mero esquematismo lógico. Mesmo que sejamos seres humanos desde
o nascimento, podemos admitir, sem contradição, que ao nascermos ainda não somos
seres humanos em plenitude, pois, não temos uma identidade. Somos apenas seres
abertos ao vir-a-ser humano. (GOERGEN, 2005, P. 61).

Próximo de Píndaro, mas ainda distante de nós, um dos maiores gênios do


conhecimento racional, filho de médico e biólogo, portanto, estudioso da vida, o
mestre Aristóteles (384 a. C.- 322 a. C.) concebeu o ser humano como um “animal
racional”, ou seja, segundo Aristóteles “o homem é um animal racional.” Na cons-
trução da frase homem é substantivo e animal racional adjetivos que qualificam

capítulo 3 • 66
o substantivo. Dentro do sistema aristotélico, na tese de ato e potência, em ato o
homem é animal com potencialidades de vir-a-ser racional, isto é, a racionalidade
não é uma condição natural e espontânea, mas um processo, evolução “forçada”, ou
seja, o meio, a convivência com a espécie, sobretudo pela educação da racionalidade.
A Sofística, escola filosófica grega que revolucionou a pesquisa filosófica levan-
do-a da cosmologia à antropologia também contribuiu muito para o autoconheci-
mento, com o mestre Protágoras (490 a.C. – 415 a.C), o ser humano passou a ser
o centro da investigação filosófica: afirmava ele: “O homem é a medida de todas as
coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são."
No Renascimento com o tema da Dignitates Homini e depois com a moderni-
dade com o antropocentrismo definitivamente ser humano passa a ser protagonista
na busca da auto compreensão. Todo o humanismo renascentista merece um estudo
aprofundado da condição humana, pois é riquíssimo na compreensão do sentido da
vida do fenômeno humano. Igualmente a modernidade, o antropocentrismo fez o
ser humano mergulhar dentro de si sem narcisismo na construção de um autoco-
nhecimento libertador. Como por questões didáticas não podemos percorrer todo
este itinerário, deixamos a sugestão para suas posteriores pesquisas antropológicas.
Agora estudaremos brevemente cinco teses modernas que são pertinentes
para a antropologia teológica: Blasie pascal (1623-1692), Thomas Hobbes (1588-
1679), Friedrich Nietszche (1844-1900), Jean Paul-Sartre (1905-1980), Simone
de Bouveiar (1908-1986).
Blaise pascal na tese do “caniço pensante” analisa a dialética grandeza peque-
nez antropológica. Pela condição natural e de pecador o ser humano é um caniço,
é nada, é barro, é pó, é insuficiência, incompletude. Porém pela graça de Deus,
sobretudo a graça cristológica:

No entanto, pela graça, isto é, pela revelação e misericórdia divina manifestadas ao ho-
mem, torna-se possível a reconciliação do mesmo com o divino e, consequentemente,
consigo mesmo. Esse contato é possível quando o homem, recolhendo-se em seu inte-
rior, percebe a sua insuficiência e contempla a grandeza do ser divino.
SANTOS, Disponível em: <http://revistapandorabrasil.com/
revista_pandora/filosofia_34/jandir.pdf>.

Pascal, na perspectiva de Delfos convida o ser humano a mergulhar dentro de


si e se descobrir, a se conhecer e, sobretudo conhecer o seu criador. Como carne,
como corpo, como matéria é um caniço agitado pelos ventos das inquietações:
quem sou eu? De onde vim? O que vim fazer aqui e agora? E para onde vou?

capítulo 3 • 67
Para aprofundar este tema leia o texto de Jandir Silva Santos. O Homem para-
doxal: sobre a antropologia de Blaise pascal. Disponível em: <http://revistapando-
rabrasil.com/revista_pandora/filosofia_34/jandir.pdf>. Acesso em: 10 ago. 2018.
Thomas Hobbes retomando a tese de Plauto (254-184 a, C.) Lupus est homo homi-
ni lupus (O homem é o lobo do própio homem), constata a condição de guerra de todos
contra todos, nos moldes de Charles Darwin da seleção natural no mundo animal
onde o maior destrói o menor. Sem o Leviatã a espécie se autodestrói. Há um ‘espírito’,
Thanatos interior que leva o ser humano à autodestruição, à destruição do próximo.
Leia mais sobre este tema em: O lobo do homem. Disponível em: <http://fa-
bilobocapital.blogspot.com/2011/05/o-estado-leviata-de-hobbess.html>. Acesso
em: 12 ago. 2018.
A Psicanálise com Freud também diagnosticou estas forças autodestrutivas:
eros e thanatos. Igualmente detectadas na física: entropia e negentropia que toda
partícula material carrega dentro de si.
Friedrich Nietzsche contra Sócrates e comentando a máxima de Píndaro também
convida o ser humano a evoluir, a tornar a aquilo que deve ser: “ouse a tornar-te o que
tu és”. O grande filósofo alemão convoca o ser humano a sair do ressentimento, da
baixa autoestima, da pequenez de modéstia, da falsa imagem de si, do complexo de
culpabilidade. Segundo ele o ser humano pode ser protagonista de sua história.
Para aprofundar este tema leia o texto Nietzsche. – Torna-te quem tu és. Disponível
em: <https://razaoinadequada.com/2016/01/20/nietzsche-torna-te-quem-tu-es/>.
Acesso em: 10 ago. 2018. E Luciano Gomes Brasil. “Do conhece-te a ti mesmo” ao
“Torna-te o que tu és”. Nietzsche contra Sócrates. Em esse Homo. Disponível em:
<http://tragica.org/artigos/v5n2/brazil.pdf>. Acesso em: 11 ago. 2018.
Jean Paul-Sartre na linha do pensamento antropocêntrico, que buscou radical-
mente libertar o ser humano de todas as amarras, de todas as opressões e na pers-
pectiva dos mestres da suspeita (Marx, Nietzsche, Freud e Darwin) confrontou
a liberdade individual com o outro. E concebendo a liberdade como uma deusa
afirmou que o outro se torna um obstáculo para a minha liberdade, um verdadeiro
inferno. Preciso fazer escolhas o tempo todo, isto me angustia, então posso agir de
má-fé comigo mesmo mentido que não sou livre:

Segundo o filósofo, antes de tomar qualquer decisão, não somos nada. Vamos nos
moldando a partir das nossas escolhas. Toda essa liberdade resulta em muita angústia.
Essa angústia é ainda maior quando percebemos que nossas ações são um espelho
para a sociedade. Estamos constantemente pintando um quadro de como deveria ser

capítulo 3 • 68
a sociedade a partir das nossas ações — o curioso é que o próprio Sartre era viciado
em anfetaminas, ou seja, não foi exatamente um exemplo de conduta. Defendia que
temos inteira liberdade para decidir o que queremos nos tornar ou fazer com nossa
vida. A má-fé seria mentir para si mesmo, tentando nos convencer de que não somos
livres. O problema é que nossos projetos pessoais entram em conflito com o projeto
de vida dos outros. Eles, os outros, tiram parte de nossa autonomia. Por isso, temos de
refletir sobre nossas escolhas para não sair por aí agindo sem rumo, deixando de rea-
lizar as coisas que vão definir a existência de cada um. Ao mesmo tempo, é pelo olhar
do outro que reconhecemos a nós mesmos, com erros e acertos. Já que a convivência
expõe nossas fraquezas, os outros são o “inferno” — daí a origem da célebre frase do
pensador francês.
Revista Super Interessante. Disponível em: <https://super.abril.com.br/ideias/
o-inferno-sao-os-outros-sartre/>. Acesso em: 12 ago. 2018.

Veja que Sartre faz uma descoberta interessante nas relações interpessoais,
até então acima de qualquer suspeita, o outro pode se tornar um obstáculo in-
transponível na construção da minha liberdade. Como estudaremos nas próximas
unidades a Antropologia Teológica vai divergir deste diagnóstico existencialista.
Mas uma teologia que queira realmente buscar a libertação humana precisa levar
a sério esta tese de Sartre. Pois se na conquista da liberdade, da autonomia, do
protagonismo, da cidadania o cristão precisa antes de atacar as causas externas da
sua opressão, precisa diagnosticar e tratar as causas internas. Portanto, Sartre mer-
gulhando dentro de si não como Narciso, mas como Alter busca uma autocom-
preensão do processo de humanização do animal racional que a pessoa humana.
Simone de Bouvair é outra pensadora que iluminou a auto compreensão hu-
mana com sua reflexão filosófica sobre o ser humano. Companheira de Sartre,
pesquisou e refletiu sobre o ser humano. E num mergulho profundo sobre a ques-
tão de gênero fez descobertas maravilhosas sobre o processo de se tornar homem e
mulher, pessoa humana. No ensaio por uma moral da ambiguidade lança sua crí-
tica filosófica nas éticas laicas e religiosas que buscam a consolação do ser humano.
E na obra O segundo sexo, a filósofa francesa lança sua crítica filosófica ao homem
que tomou para si a definição de humano e relega à mulher um papel secundário
na formação da sociedade. Questiona também a condição de submissão da mulher
que corrobora o machismo. Critica os movimentos feministas radicais.
Veja como ela inicia este clássico da questão de gênero:

HESITEI muito tempo em escrever um livro sobre a mulher. O tema é irritante, princi-
palmente para as mulheres. E não é novo. A querela do feminismo deu muito que falar:

capítulo 3 • 69
agora está mais ou menos encerrada. Não toquemos mais nisso... No entanto, ainda se
fala dela. E não parece que as volumosas tolices que se disseram neste último século
tenham realmente esclarecido a questão. Demais, haverá realmente um problema? Em
que consiste? Em verdade, haverá mulher? Sem dúvida, a teoria do eterno feminino ainda
tem adeptos; cochicham: "Até na Rússia elas permanecem mulheres". Mas outras pes-
soas igualmente bem informadas — e por vezes as mesmas — suspiram: "A mulher se
está perdendo, a mulher está perdida". “Não sabemos mais exatamente se ainda existem
mulheres, se existirão sempre, se devemos ou não desejar que existam que lugar ocu-
pam no mundo ou deveriam ocupar”. "Onde estão as mulheres?", indagava há pouco uma
revista intermitente (1). Mas antes de mais nada: que é uma mulher? "Tota mulier in utero:
é uma matriz", diz alguém. Entretanto, falando de certas mulheres, os conhecedores de-
claram: "Não são mulheres", embora tenham um útero como as outras. Todo mundo
concorda em que há fêmeas na espécie humana; constituem, hoje, como outrora, mais
ou menos a metade da humanidade; e, contudo, dizem-nos que a feminilidade "corre
perigo"; e exortam-nos: "Sejam mulheres, permaneçam mulheres, tornem-se mulheres".
Todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-
-lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada que é a feminilidade. Será esta
secretada pelos ovários? Ou estará congelada no fundo de um céu platônico? E bastará
uma saia ruge-ruge para fazê-la descer à terra? Embora certas mulheres se esforcem
por encarná-lo, o modelo nunca foi registrado. Descreveram-no de bom grado em termos
vagos e mirabolantes que parecem tirados de empréstimo do vocabulário das videntes.
BEAUVOIR. O segundo sexo. Disponível em: <https://materialfeminista.milharal.org/
files/2012/08/O-Segundo-Sexo-vol1-Fatos-e-Mitos-Simone-de-Beauvoir1.pdf >.
Acesso em: 10 ago. 2018.)

Mas é no volume dois da obra O segundo sexo, experiência vivida, que Beauvoir
explicita algo interessante para a auto compreensão humana:

NINGUÉM nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econô-
mico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto
da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que
qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo
como um Outro. Enquanto existe para si, a criança não pode apreender-se como se-
xualmente diferençada. Entre meninas e meninos, o corpo é, primeiramente, a irra-
diação de uma subjetividade, o instrumento que efetua a compreensão do mundo: é
através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que apreendem o universo. .
O drama do nascimento, o da desmama desenvolvem-se da mesma maneira para as
crianças dos dois sexos; têm elas os mesmos interesses, os mesmos prazeres; a suc-
ção é, inicialmente, a fonte de suas sensações mais agradáveis; passam depois por
uma fase anal em que tiram, das funções excretórias que lhe são comuns, as maiores
satisfações; seu desenvolvimento genital é análogo; exploram o corpo com a mesma
curiosidade e a mesma indiferença; do clitóris e do pênis tiram o mesmo prazer incerto;

capítulo 3 • 70
na medida em que já se objetiva sua sensibilidade, voltam-se para a mãe: é a carne
feminina, suave, lisa, elástica que suscita desejos sexuais e esses desejos são apreen-
sivos; é de uma maneira agressiva que a menina, como o menino, beija a mãe, acari-
cia-a, apalpa-a; têm o mesmo ciúme se nasce outra criança; manifestam-no da mesma
maneira: cólera, emburramento, distúrbios urinários; recorrem aos mesmos ardis para
captar o amor dos adultos. Até os doze anos a menina é tão robusta quanto os irmãos e
manifesta as mesmas capacidades intelectuais; não há terreno em que lhe seja proibi-
do rivalizar com eles. Se, bem antes da puberdade e, às vezes, mesmo desde a primeira
infância, ela já se apresenta como sexualmente especificada, não é porque misteriosos
instintos a destinem imediatamente à passividade, ao coquetismo, à maternidade: é
porque a intervenção de outrem na vida da criança é quase original e desde seus pri-
meiros anos sua vocação lhe é imperiosamente insuflada.
BEAUVOIR. Segundo sexo. Vol. 2. Disponível em: <http://www.ebah.com.br/content/
ABAAAAhrQAD/segundo-sexo-ii-a-experiencia-vivida>. Acesso em: 10 ago. 2018

Esse “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Igualmente com Simone po-
demos afirmar ninguém nasce homem: torna-se homem. Ou seja, diferente do
senso comum que concebe o ser humano como uma essência pronta e acabada, a
filósofa francesa nos revela o processo de se constituir pessoa humana. A humani-
zação é um processo. O animal racional está a caminho de si mesmo. Como bem
mostrou Charles Robert Darwim (1809-1882), o ser humano evolui continua-
mente, ou seja, da concepção passando pelo nascimento até a morte. E Sartre no
seu existencialismo humanista afirmará que a existência precede a essência. Santo
Agostinho no livro Dez das Confissões afirma: “tornei-me uma questão para mim
mesmo”. Converti-me para mim mesmo em campo de fadiga. O próprio pensa-
dor se torna objeto de seu pensamento, de sua reflexão, de sua pesquisa. E para
a antropologia teológica, como estudaremos nas próximas unidades, a evolução
continua da morte para a ressurreição.
Assim concluímos este primeiro item sobre o sentido da vida e o fenômeno
humano compartilhando com a filosofia e as ciências a tese do processo de se tor-
nar humano, o ser humano como construtor da sua essência, da sua subjetividade,
do seu self, da sua personalidade, do seu caráter, de sua identidade. Este é o sentido
horizontal da sua existência, da sua vida.

A criatura como imagem e semelhança do criador

A teologia, como afirmamos no início, precisa dialogar com os diversos sabe-


res para saber mais, “aprender-aprender”. Hoje está claro que o verdadeiro conhe-
cimento é fruto da interface dos vários saberes. Mas neste diálogo dos saberes é

capítulo 3 • 71
preciso respeitar as autonomias de cada saber. Após compreender com a filosofia
e as ciências a dimensão horizontal da pessoa humana a teologia tem por obje-
to de investigação sua dimensão vertical. Sua relação com o transcendente, com
o absoluto, com Deus. Sem negar a valiosíssima contribuição do conhecimento
científico e filosófico sobre o ser humano a pesquisa e a reflexão teológicas buscam
também a dimensão de criatura, a filiação divina.

Fundamentos bíblicos

Antes de abordarmos o tema dos fundamentos bíblicos da criatura como


Imagem e Semelhança da Trindade, é importante que você saiba de um fato im-
portante. Para os estudiosos da condição humana, além da saída da savana para as
cavernas, outro aspecto sobre o animal racional tem chamado a atenção, o fato do
ser humano ser o único animal a enterrar seus entes queridos. Embora o mestre
de Nazaré ‘desrespeite’ este princípio (Mt 8,18-22) diante das exigências de seu
seguimento: “Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus mortos”. Claro
que é uma metáfora do gênero literário de Mateus. Como morto enterra morto?
Mas enterrar seus mortos é outra característica do animal humano. Enterrar tem
haver com a ressurreição (Jo 12,24) e cremar tem haver com a reencarnação, ou
seja, além de um último gesto humanitário (amor) é um ato de fé e de esperança
na vida eterna, na vida no Reino de Deus. Na vida pós sepultura, pós crematório.
A Sagrada escritura cristã no primeiro capítulo afirma que o ser humano foi
criado a Imagem e Semelhança de Deus (Gn 1,26-27) e em Gn 2,4-8 ela sustenta
que Deus modelou do barro o primeiro ser vivente. O profeta Jeremias usa a me-
táfora do oleiro que trabalha o barro para fazer um vaso para comparar a criação
do ser humano a Imagem e Semelhança da Trindade (Jr 18,1-12). E o salmo oito
fala que o ser humano foi criado um pouco menor que um deus coroado de glória
e beleza (Sl 8,1-6). E são Paulo fala da condição humana como um tesouro em va-
sos de argila (2Cor 4,7). Em colossenses, falando de Jesus Cristo Verdadeiro Deus
e verdadeiro Homem fala que Ele é a Imagem do Deus invisível, o primogênito
de toda criatura, porque nele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as
visíveis e as invisíveis: tronos, soberania, Principados, autoridades, tudo foi criado
por ele e para ele (Cl 1,15-20). Em Efésios, afirma Paulo, que antes da fundação
do mundo o ser humano foi escolhido para ser santo e irrepreensível diante de
Deus no amor. Foi predestinado a ser filho adotivo por Jesus Cristo, conforme o

capítulo 3 • 72
beneplácito da vontade de Deus para louvo e graça de sua glória. (Ef 1,1-7). Ainda
em Ef 4,17-5,1-20 o Apóstolo convoca o cristão à vida nova em Cristo. Uma vida
redimida pela Encarnação, nascimento, vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus
de Nazaré. Recuperar a Imagem e Semelhança perdidas no pecado.
Isto leva o teólogo Helcion Ribeiro a seguinte afirmação:

Os cristãos creem encontrar a resposta a partir de Jesus Cristo. O Jesus de Nazaré é tão
verdadeiramente Deus quanto é homem histórico. Filho da promessa a Abraão descenden-
te de Davi, nascido de mulher, nasceu na “plenitude do tempo” (cf. Gl 4,4). O Filho de Deus,
isto é, Deus mesmo feito homem, nasceu como um dos nossos. Nele, a comunidade crente
reconheceu Deus entre nós, Deus-conosco, feito nossa carne. Porque na carne humana
havia a possibilidade de Deus tornar-se um de nós, o Verbo eterno fez-se um de nós a
fim de nos elevar até Deus. Isto porque Ele queria realizar, de modo definitivo, a condição
querida por Deus desde toda a eternidade, para todos. Os seres humanos deverão atingir
sua realização máxima, sendo a glória do próprio Deus. Poderão viver diante da sua face.
Viver definitivamente em Deus não será privilégio humano. A natureza também haverá
de participar – a seu modo (cf. Rm 8, 18-22) – de nova vida, quando Deus criar tudo,
de novo, quer dizer, quando Ele fizer novos os céus e nova a terra. As criaturas invisí-
veis (anjos, por exemplo), professadas na fé cristã, já veem a Deus face a face. Foram
criadas, numa história própria, dentro da economia de Deus. ( RIBEIRO, 2007, P. 115).

Aqui vale a pena lembrar um gênio da teologia cristã moderna, Pierre Teilhard
de Chardin, que trabalhou intensamente até a primeira metade do século XX para
conciliar ciência e teologia sobre a criação e evolução. Sobre sua tese afirma Fábio
de Barros Silva:

As propostas evolucionistas de Chardin são bastante singulares porque convergem para


uma síntese entre a ideia de criação e evolução. Entre os religiosos, a proposta de Chardin
é especial porque se ateve mais ao aprofundamento das ideias evolucionistas. Por isso, o
estudo de seu pensamento revela um sentido posto em curso no processo de evolução.
Vejamos suas principais proposições. A ideia de evolução assume para Teilhard, uma am-
plitude universal que a tudo se aplica. Por isso, a evolução constitui uma condição geral a
qual devem obedecer e satisfazer doravante, para serem concebíveis e verdadeiras todas
as teorias, todas as hipóteses, todos os sistemas. Uma luz que ilumina todos os fatos, uma
curvatura que todos os traços devem acompanhar... (Chardin, 1965. p. 234-235).
SILVA. Teilhard de Chardin: ideia de evolução e vida pessoal. Disponível em: <https://
ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/lable/revistametanoia_material_revisto/revista01/
texto03_evolucao_teihard_de_chardin.pdf>. Acesso em: 10 ago. 2018.

capítulo 3 • 73
Continua Silva comentando a tese evolucionista de Chardin:

A linha da evolução sugere um progresso ascensional ininterrupto. O capítulo em que


Teilhard de Chardin trata do fenômeno humano como o espaço da convergência do
processo evolutivo, além de revelar o sentido da evolução posto no momento da homi-
nização, aponta para a ideia de que a lei da complexidade-consciência surge de modo
mais definitivo. Dito isso, se conclui que o homem representa o ápice da evolução que
não terminou aí, ela prossegue seu itinerário até o ponto que Chardin chama conven-
cionalmente de ‘Ômega’. Nele se revela todo o sentido da evolução. Ele representa o
momento em que toda obra de Deus converge para ele mesmo. O responsável por
essa marcha ao ponto ‘Ômega’ é o homem. Mas qual a concepção de homem em
Teilhard de Chardin? Como esse autor espera que o homem leve a cabo a evolução?
O que representa o ponto ‘Ômega’?
A ideia de homem em Chardin se reveste de dois caracteres distintos e complementa-
res. O primeiro é o da transcendência do homem em relação ao universo e, ao mesmo
tempo, sua ligação com o mundo; já a estrutura psíquica decorrente do lampejo da
consciência reflexiva constitui o segundo aspecto. A transcendência do homem no
universo se manifesta de modos diversos. O homem transcende a matéria e a animali-
dade ao se apresentar como detentor dos meios de ação no contato com o mundo. A
disposição de gestos e obras distancia o homem do animal incapaz de atos racionais e
previdentes, e da matéria que determina o campo de ação: o homem ao agir vence as
determinações naturais. Teilhard, explicou que o surgimento do homem provocou um
grande acontecimento no planeta. O lampejo da consciência retrata bem isso. A apa-
rição do homem apresenta ao mundo... o Ponto “Ômega” representa o cume de todo o
processo evolutivo. Esse momento constitui o reflexo do universo que, de modo único e
inimitável, se espelha na unidade. Os diversos centros de consciência que se formam e
se manifestam por meio das atividades espirituais reflexivas, abstrativas e operacionais
encontram no cimo da evolução a sua manifestação e o seu aprimoramento que se
expõe na formação da unidade. O Ponto “Ômega” não se forma a partir da fusão ou da
eliminação desses centros particulares. Ele não pode ser senão ‘um Centro distinto a
irradiar o âmago de um sistema de centros’. Um agrupamento em que a personalização
do Todo e as personalizações elementares atingem o máximo, sem mescla e simulta-
neamente, sob a influência de um foco de união supremamente autônomo (idem. p.
288). (Chardin, 1965. p. 234-235).

SILVA. Teilhard de Chardin: ideia de evolução e vida pessoal. Disponível em:


<https://ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/lable/revistametanoia_material_revisto/
revista01/texto03_evolucao_teihard_de_chardin.pdf>. Acesso em: 10 ago. 2018.

Por fim, Teilhard defende a tese da evolução espiritual do ser humano até se
tornar Imagem e Semelhança de Deus, como afirma a Sagrada Escritura, é a cris-
togênese, o cristão evolui do velho homem para o homem novo que fala Paulo em
Ef 4,17-5,1-20. Em 1Cor 15,1-58 falando da ressurreição Paulo afirma que então o
ser humano assumirá um corpo espiritual, Imagem do homem celeste (v.49). “Num

capítulo 3 • 74
instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final, pois a trombeta
tocará, e os mortos ressurgirão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Com
efeito, é necessário que este ser corruptível revista a imortalidade.” (v. 52-53). “E,
quando todas as coisas lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho se sub-
meterá àquele que tudo lhe submeteu, para que Deus seja tudo em todos.” (v. 28).
Como você pode analisar, sobretudo pelos textos bíblicos Imagem e Semelhança
é um processo longo de avanços e recuo, pois a própria evolução biológica e psi-
cológica corrobora e cria obstáculos. Porque estas, por natureza, se realizam nos
obstáculos da matéria e da cultura. Mas a pessoa humana desde a concepção é
vocacionada a tornar-se Imagem e Semelhança do criador. Este processo continua
na gestação, no nascimento, na iniciação cristã, no desenvolvimento (evolução)
espiritual, na conversão (metanoia), na morte em Cristo (Rm 6,1-11) e, sobretudo
na ressurreição e glorificação no reino de Deus (1Cor 15,35-58; Ap 21-22).
Para saber mais sobre esta tese convido você a acessar a Revista on-line do
Instituto humanista Unisinos. O futuro que advém. A evolução e a fé cristã segun-
do Teilhard de Chardin. Disponível em: <https://teilhardianos.files.wordpress.
com/2012/05/ihuonlineedicao304.pdf>. Acesso em: 11 ago. 2018.
Vieoaula. Teilhard de Chardin. El fenómeno Humano. Disponível em: <ht-
tps://www.bing.com/videos/search?q=video+sobre+teilhard+de+chardin&view=
detail&mid=7F9B597A3BCE84AAD82E7F9B597A3BCE84AAD82E&
FORM=VIRE>. Acesso em: 11 de agosto 2018.

O homem compreendido pelo mistério da revelação

Como estudamos na unidade anterior, para a antropologia teológica a pessoa


humana é criada a Imagem e Semelhança de Deus (Gn 1,26-27). Portanto, no
mundo, o cristão sabe que não pertence a este mundo (Jo 17,1-26). Este mundo,
não só o planeta terra, mas todo o universo é apenas sua morada provisória. Neste
mundo o cristão deve viver como cidadão terrestre, com dignidade, realizar-se
como pessoa humana, mas o seu habitat definitivo é no Reino de Deus vivido e
anunciado por Jesus de Nazaré (Mc 1,14-16). Esta é a grande revelação feita pelo
Carpinteiro de Nazaré (Mc 5,1-6).

Os fundamentos bíblicos da revelação

A salvação é um duplo movimento: descendente e ascendente, ou seja, é o encon-


tro de duas liberdades que se encontram em harmonia. Descendente ou para baixo é

capítulo 3 • 75
o movimento de Deus que toma a iniciativa de salvar quem Ele quiser (Mt 20,1-16).
Então na sua misericórdia (Lc 15,1-32) Deus se revela ao ser humano como salvador.
Ascendente porque o ser humano precisa tomar a iniciativa também e ir ao
encontro do Deus salvador (Lc 15,11-32). Realizar sua vontade (Mt 21,28-32; Lc
18,9-14). Isto é, a pessoa humana precisa aceitar os termos da Aliança do Sinai
(Ex 19-20;Dt 5,1-22), e renovada com Jesus Cristo (Mt 5-7; Lc 22,19-20).
A revelação do Deus Abraão, Isaac, Jacó, dos profetas e de Jesus Cristo é
um Dom, é gratuidade. Deus inicia o processo de aproximação do ser humano
(Ex 3,1-22;19-20) usa mediações com a criação (fenômenos da natureza), mas se
revela à sua criatura ‘predileta’, à pessoa humana. Segundo as Escrituras o Deus
bíblico se revelou como criador (Gn1-2), como libertador (Ex 3) e como salvador
(Mt12,22-28). É revelação à pessoa humana, porém como salvador universal, ou
seja, de toda a criação (Is 11,1-9; Ap 22). O deserto é o grande habitat da revelação
do Deus bíblico (Dt 32,1-14), que se mostra como cuidador do seu povo.
Ele se revela também nos sonhos (Mt 1,18-25;2,13-23), ajudando no discerni-
mento das situações difíceis da pessoa humana. Iluminando na tomada das melhores
decisões ou como afirma Sartre, na angústia de encontrar a liberdade (Lc 15,11-31).
Segundo a Dei Verbum a revelação foi da vontade de Deus:

Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer


o mistério da sua vontade (cfr. Ef. 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo,
Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da
natureza divina (cfr. Ef. 2,18; 2 Ped. 1,4). Em virtude desta revelação, Deus invisível
(cfr. Col. 1,15; 1 Tim. 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cfr.
Ex. 33, 11; Jo. 15,1415) e convive com eles (cfr. Bar. 3,38), para os convidar e admitir
à comunhão com Ele. Esta «economia» da revelação realiza-se por meio de ações e
palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas
por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades
significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem
o mistério nelas contido. Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a
respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que
é, simultaneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação.
DEI VERBUM. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/
ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html>.
Acesso em: 13 ago. 2018.

Na Dei Verbum continua o Concílio Vaticano Segundo procurando a cami-


nho de reconciliação católica com a modernidade e ao mesmo tempo explicitar as
formas da revelação no mundo ilustrado e tecnológico:

capítulo 3 • 76
Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos profetas, falou-nos Deus nes-
tes nossos dias, que são os últimos, através de Seu Filho (Heb. 1, 1-2). Com efeito, enviou
o Seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os
homens e manifestar-lhes a vida íntima de Deus (cfr. Jo. 1, 1-18). Jesus Cristo, Verbo feito
carne, enviado «como homem para os homens» (3), «fala, portanto, as palavras de Deus»
(Jo. 3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai lhe mandou realizar (cfr. Jo. 5,36; 17,4).
Por isso, Ele, vê-lo a Ele é ver o Pai (cfr. Jo. 14,9), com toda a sua presença e manifestação
da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e
gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e
confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está conosco para nos
libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna.
Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se
há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de
nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. 1 Tim. 6,14; Tit. 2,13).
DEI VERBUM. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/
ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html>.
Acesso em: 13 ago. 2018.

Jesus de Nazaré segundo ao Dei Verbum é o ápice da revelação do Deus bíbli-


co. E na linha da primeira revelação continua com o paradigma da Aliança, uma
Nova Aliança, agora não só com o povo hebreu, mas com toda a humanidade. É
a Aliança fundada no amor (Jo 13,34; 15,12; 1Cor 13,1-13; 1Jo 3,11-24:4,7-21).
É revelação para a fé que se realiza no amor e na esperança. E em Jesus de Nazaré
o Deus bíblico se revela como Pai (Mt 6,7-15; Jo 14,1-2.8-22.28-31; Jo 17,1-26).
Ainda na Dei Verbum encontramos outra afirmação importante sobre a reve-
lação nas Sagradas Escrituras:

As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram


escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa mãe Igreja, segundo a fé
apostólica, considera como santos e canônicos os livros inteiros do Antigo e do Novo
Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito San-
to (cfr. Jo. 20,31; 2 Tim. 3,16; 2 Ped. 1, 19-21; 3, 15-16), têm Deus por autor, e como
tais foram confiados à própria Igreja (1). Todavia, para escrever os livros sagrados,
Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades
(2), para que, agindo Ele neles e por eles (3), pusessem por escrito, como verdadeiros
autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria (4).
E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido
como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da
Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa
salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras (5). Por isso, «toda a Escritura

capítulo 3 • 77
é divinamente inspirada e útil para ensinar, para corrigir, para instruir na justiça: para
que o homem de Deus seja perfeito, experimentado em todas as obras boas» (Tim.
3, 7-17 gr.). (DEI VERBUM. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/hist_cou-
ncils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html>.
Acesso em: 13 ago. 2018).

Na Sagrada Escritura o teólogo deve buscar seu principal objeto de pesquisa,


de investigação sobre a revelação do Deus de Jesus de Nazaré. Claro que ele se re-
velação na criação inteira, sobretudo nas pessoas, especialmente os pobres, simples
e humildades (Mt 11,25-27).
Sobre a relação dialética divino-humano na revelação afirma o teólogo
Hélcio Ribeiro:

Os tempos contemporâneos no mundo ocidental oportunizam para os habitantes do


Atlântico Norte condições naturalmente privilegiadas: fruto da modernidade, cuja pro-
gressividade propicia à natureza humana possibilidades jamais conhecidas anterior-
mente nas ciências, artes, filosofia, tecnologia, industrialização, política, benesses etc.
A modernidade emancipou o ser humano; mas, em alguns de seus aspectos, diminuiu-
-o, dando lhe novas algemas. Nem tudo que ele quer ou imagina o torna mais feliz. Há
um limite ético em seu processo. Este limite se impõe porque "pessoa humana alguma
é uma ilha", como já disse Thomas Merton. Há uma necessária inter-relação entre as
pessoas e grupos, entre os povos e nações. O ser humano somente se realiza como
tal enquanto vive duas dimensões básicas de seu ser: indivíduo e comunidade. Além
da socialidade dos indivíduos (um comportamento de indivíduos), existe a própria rea-
lidade social como um fator constitutivo do gênero humano. A pessoa (tal como a con-
cebem delimitadamente as correntes personalistas) soma-se à comunidade. Uma não
elimina a outra, mas são os dois aspectos fundantes do gênero humano. A comunidade
antes de massificar é quem personaliza os indivíduos, como acreditam tantos povos.
A preocupação fundamental aqui não é evidenciar o Deus criador do ser humano,
construindo uma "teologia de cima" ou descendente mas quer afirmar "desde baixo"
uma "teologia ascendente" a autonomia da criatura humana na sua relação com
Deus e, sobretudo, com os outros no mundo.
RIBEIRO. O homem diante de Deus. Disponível em: <http://docplayer.com.br/
52102154-O-homem-diante-de-deus-helcion-ribeiro.html>.
Acesso em: 13 ago. 2018.

Para concluir citamos mais um trecho da reflexão teológica de Hélcion Ribeiro


que explicita como se dá a relação Deus e pessoa humana na revelação:

capítulo 3 • 78
O diálogo entre Criador e criatura não mantém a humanidade dependente. Ela filial-
mente, não é uma "infante" (uma criança). Ser filho de Deus implica em ser livre e
adulto. O diálogo supõe a maioridade. Quer dizer: maturidade e independência. Ao
escrever que Deus entrega fiducialmente ao ser humano a custódia e o cultivo do "jar-
dim do paraíso" (inclusive levando-lhe os animais, as aves do céu e as feras selvagens
para que lhes dê nome e assim tome posse da criação (Gn 2,8.19) a fonte javista está
a caracterizar o ser humano independente de Deus. O adulto capaz de governar no
lugar de Deus. É o filho responsável. Dialoga com seu Criador. Assume o comando
do mundo. Se a irresponsabilidade do ser humano o leva à escravidão e ao jugo do
pecado, o Filho Primogênito encarnado/ressuscitado é capaz de libertar seus irmãos e
restituir-lhes a estatura de filhos. Não mais infante e dominado pelo pecado, mas livre
e maduro, constituído herdeiro de Deus (G14,17).
RIBEIRO. O homem diante de Deus. Disponível em: <http://docplayer.com.br/
52102154-O-homem-diante-de-deus-helcion-ribeiro.html>.
Acesso em: 13 ago. 2018.

Como afirma Ribeiro, neste texto, diferente dos mestres da suspeita: Marx,
Feuerbach, Freud e Nietzsche, a revelação não tira a liberdade humana, alienan-
do a pessoa, infantilizando-a, tornando a pessoa neurótica, mas respeita a sua
liberdade e a qualifica para o senhorio na criação em construção da sua Imagem e
Semelhança com o criador. É a revelação que leva a pessoa humana ao protagonis-
mo na história palco da manifestação do Deus bíblico.

O desligamento do criador: o pecado

Este tema que foi a grande moda teológica durante toda a Idade Média, caiu e
perdeu sua relevância a partir do Renascimento e quase desapareceu durante a mo-
dernidade. As duas ondas de liberalismos, o relativismo, o materialismo e por fim o
consumismo, levaram a um relaxamento da consciência moral, ética e espiritual a
ponto de os estudiosos da bioética afirmarem que o nativo digital não faz exame de
consciência. Mas justifica uma situação indigesta contra si, contra o próximo, contra
o meio ambiente e contra Deus. Igualmente os imigrantes digitais. Passamos assim,
do tudo é pecado da Idade Média para o nada é pecado na cultura digital.
Neste tópico vamos analisar esta situação a luz da Sagrada Escritura. Mas fica
o convite para você retomar o tema do pecado na teologia Patrística, pois os pais
da igreja teologizaram em profundidade sobre esta questão.

capítulo 3 • 79
O pecado nas escrituras sagradas

A Sagrada Escritura afirma que o pecado original está ligado com a desobediên-
cia do primeiro casal no Jardim do Éden (Gn 3,1-7). E também ao conhecimento
(Gn 11,1-9). Por muitos séculos a luz teológica foi jogada sobre aspectos secundários
da questão: fruta, sexualidade etc. No entanto, o relato evidencia estes dois aspectos:
obediência e conhecimento, causas da ruptura do humano com o divino.
Sobre a desobediência fica claro porque esta palavra sumiu do vocabulário huma-
no no final do século XX e no início do século XXI. E em Rm 5,12.19 Paulo afirma:

“Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pe-
cado, a morte, assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. De
modo que, como pela desobediência de um só, todos se tornaram pecadores, assim,
pela obediência de um só, todos se tornarão justos.”

Igualmente a suspeita teológica deve recair sobre a busca desenfreada pelo co-
nhecimento na era digital. Se por um lado o conhecimento liberta, por outro lado
ele oprime e até mata milhões, como na Segundo guerra mundial e nas formas
avançadas de extermínio de populações inteiras, como limpeza étnica, terrorismo,
crime organizado melhor preparado que o Estado para a matança desenfreada.
E mesmo o “conhecimento puro”, ou seja, com o objetivo de melhorar a
qualidade de vida não é socializado, compartilhado com todos. O acesso a ele é
privilégio de poucos que tem muito dinheiro.
Rubem Alves, no livro Filosofia da ciência. Introdução ao jogo e suas regras faz
duras críticas ao conhecimento científico moderno:

O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque ele induz o comportamento
e inibe o pensamento. Este é um dos resultados engraçados (e trágicos) da ciência.
Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os
outros indivíduos são liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o
que os cientistas mandam. Quando o médico lhe dá uma receita você faz perguntas?
Sabe como os medicamentos funcionam? Será que você se pergunta se o médico sabe
como os medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. Não pensamos.
Obedecemos. Não precisamos pensar, porque acreditamos que há indivíduos especiali-
zados e competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por nós. E depois ainda
dizem por aí que vivemos em uma civilização científica... O que eu disse dos médicos você
pode aplicar a tudo. Os economistas tomam decisões e temos de obedecer.

capítulo 3 • 80
Os engenheiros e urbanistas dizem como devem ser as nossas cidades, e assim aconte-
ce. Dizem que o álcool será a solução para que nossos automóveis continuem a trafegar,
e a agricultura se altera para que a palavra dos técnicos se cumpra. Afinal de contas, para
que serve a nossa cabeça? Ainda podemos pensar? Adianta pensar?
ALVES. Filosofia da ciência. Disponível em: <http://www.moretti.agrarias.ufpr.br/pda/
filosofia_da_ciencia_rubem_alves.pdf>. Acesso em: 13 ago. 2018.

E continua Alves na sua crítica ao nosso saber sistematizado:

Kant, Comte, Freud, Marx, todos eles acreditam no advento de uma ciência livre de
emoções. Kant denunciava as paixões como “cancros da razão pura”. Comte falava
sobre os três estágios do pensamento, o mais primitivo, habitado por mágicos e sacer-
dotes e representado pela imaginação, enquanto o último era constituído de cientistas,
sábios o bastante para amordaçar a imaginação. Freud caminha na mesma procissão
e saúda o pensamento científico como aquele que definitivamente abandonou as fan-
tasias e se ajustou à realidade. Enquanto, no marxismo, a ciência devora antropofa-
gicamente sua própria mãe, a ideologia. De fato, não se pode negar a arrogância do
cientista e a sua pretensão de saber mais que os homens comuns.
ALVES. Filosofia da ciência. Disponível em: <http://www.moretti.agrarias.ufpr.br/pda/
filosofia_da_ciencia_rubem_alves.pdf>. Acesso em: 13 ago. 2018.

CONEXÃO
Para saber mais sobre a tentação do conhecimento (Gn 3,2-6) leia o livro de Rubem Al-
ves. Filosofia da ciência. Introdução ao jogo e suas regras. Disponível em: <http://www.moretti
.agrarias.ufpr.br/pda/filosofia_da_ciencia_rubem_alves.pdf>. Acesso em: 13 ago. 2018.

O conhecimento emancipa quando colocando a serviço do bem comum, mas


quando vira privilégio de poucos se torna um problema e uma ameaça à espécie e
ao planeta. Haja visto a forma como o conhecimento teológico foi usado na Idade
Média: teologia das indulgências, teologia das cruzadas, teologia da caça às bruxas
etc. Veja o estrago espiritual que faz a teologia da prosperidade hoje. Não é sem
razão que as igrejas cristãs sempre tiveram uma suspeita da gnose, e é esta a causa
das heresias cristológicas. É interessante também estudar a relação do cristianismo
com o helenismo, foram batalhas homéricas, uma helenização do cristianismo e
uma cristianização do helenismo, uma judaização do cristianismo, uma cristiani-
zação do judaísmo. Em Cl 2,8 Paulo já suspeita da filosofia grega:

capítulo 3 • 81
Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs
sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não
segundo Cristo;
Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; (Colossenses 2: 8, 9)

Não podemos demorar muito aqui, quero somente provocar sua curiosidade
para fazer a busca teológica deste tema tão espinhoso noutra direção da tradicio-
nalmente colocada. Calibrar seu GPS teológico no norte certo.
Veja que Gn 3,1-7 aparece a questão da obediência ao combinado com Deus.
E não é sem razão que a literatura deuteronômica e nos profetas de Israel aprece o
tema do Shemá: “ouve o Israel” (Dt 4,1;6,4; Is 51,1). Jeremias lutou pela obediên-
cia à Aliança, em suas Lamentações fala da infidelidade do povo (Lm 5,6). Baruc
convoca o povo rebelde para a escuta (Br 3,9). E na carta que Jeremias manda aos
exilados ele denuncia a falta de ouvidoria popular (Br 6,1).
Ezequial fala da lógica do pecado (Ez 18,1-32). Questão semelhante aparece
no Segundo Testamento (Jo 9,1-3). Como ele passa de geração em geração? Porém
Paulo é categórico “Todos pecaram” (Rm 3,23).
Uma leitura equivocada de Ez18 e Jo 9 pode levar ao pelagianismo. Pelágio
aceita o pecado das origens (Adão e Eva), mas nega que ele passe de geração em
geração. A questão teológica é como mesmo depois de todo sacrifício de Jesus
Cristo o pecado continua?
Jesus de Nazaré no seu ministério combateu o pecado (Mc 2,1-12;Mt 9,1-3).
Denunciou, inclusive, um tipo de pecado sem remissão (Mc 3,22-30).
Mas o teólogo Antônio Moser no livro O pecado. Do descrédito ao aprofun-
damento afirma:

Não chega a causar surpresa o escândalo dos grupos religiosos que detinham em suas
mãos as chaves da religião e da teologia: o proceder e as palavras de Jesus em relação
aos pecadores são simplesmente uma inversão de tudo aquilo que eles acreditam e pre-
gam. Ele senta-se à mesa com os publicanos e pecadores (Lc 5,27;19,1-9; Mc 2,14) ele
ressalta nos pecadores uma virtude fundante para a acolhida da salvação, a humildade
(Lc 18,13; 15,7-10), e com isto os transforma em verdadeiros destinatários do Reino; na
parábola do publicano ele acaba declarando-os justificados (Lc 18, 9-14); nas parábolas
da misericórdia ele chega a compará-los com uma “preciosa moeda”, dignos de serem
recebidos com festa, mesmo no céu (Lc 15, 1s); acolhe as prostitutas, permitindo que
o toquem e o beijem (Mc 2,16; Lc 7,36 e37); toma a defesa delas (Jo 8); através delas
estabelece um novo critério de perdão ilimitado, “porque muito amou” (Lc 7,47); proclama
em alto e bom tom que “elas precederão a todos no Reino” (Mt 21,31).

capítulo 3 • 82
E mesmo depois de morto tem a ousadia de, ressuscitado, aparecer em primeiro lugar
a uma delas e de enviá-la como mensageira sua aos próprios discípulos (Jo 20,11s).
(MOSER, 1996, P. 151).

Seguindo esta linha de raciocínio é paradigmático o episódio de Jo 8,1-11


Jesus e a mulher adúltera, ninguém pode atirar a primeira pedra. E a correção
fraterna é a melhor terapia para o pecador (Mt 18,15-18).
Os evangelhos insistem muito na necessidade de perdoar (Mt 6,14-15; 16,13-
20; Mc 11,25; Lc 6,36-38; 7,36-49;Jo 20,22-23). E os primeiros cristãos pratica-
ram muito o perdão “terapêutico (Ef 4,32; cl 3,13;Tg 5,13-15).
A teologia latino americana da libertação a partir da década de sessenta, do
século XX, abordou em profundidade o tema do pecado social. Com fundamento
no paradigma do êxodo , dos profetas de Israel e de Mt 25.31-46 explicitou esta
dimensão perversa do pecado individual que atinge as instituições e as estruturas
mais sólidas da sociedade passando da esfera pessoal para a esfera social e se reve-
lando na injustiça social, na corrupção, na opressão e na exclusão. Portanto, fica o
convite para suas futuras pesquisas.
Neste sentido, convido você a aprofundar este tema no estudo da teologia
paulina e da Patrística. Paulo e os pais da igreja abordaram em profundidade esta
questão. Nas confissões de Santo Agostinho você encontrará uma teologia profun-
da do pecado para iniciar sua busca.

CONEXÃO
Leia- a tese de Joseph Murray Hill, SJ A doutrina do pecado original à luz da teoria
da evolução em Pierre Teilhard de Chardin e Karl Rahner. Disponível em: <http://www.facul-
dadejesuita.edu.br/documentos/070115-ztpI89bqtloq.pdf>. Acesso em: 13 ago. de 2018.
Sobre Santo Agostinho e sua consciência do pecado leia a ficção de Justin Gaarden. A
vida é breve. Carta de Flora Emília, esposa de Agostinho. Disponível em: <https://agen-
dadasbugigangas.files.wordpress.com/2011/05/jostein-gaarder-vita-brevis-ou-a-vida-c3a-
9-breve.pdf >.Acesso em: 13 ago de 2018.
Leia ainda o próprio Agostinho. Confissões. Disponível em: <https://books.google.
com.br/books?id=r8uYDgAAQBAJ&printsec=frontcover&dq=santo+agostinho.+confis-
soes&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiwzKrU1YvdAhXGWpAKHaVyAC4Q6AEIKDAA#-
v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 13 ago. 2018.

capítulo 3 • 83
A Redenção em Jesus Cristo: Re-Ligare

Jesus de Nazaré colocou no centro de seu ministério Deus e o seu reino (Mc
1,14-16), mas o Kerigma o colocou no centro de sua pregação como caminho, ver-
dade e vida (Jo 14,1-7) e como salvador universal (Jo 4,42; At 4,11-12; 5,31; 1Tm
2,4-6; Hb 5,9-10; 1Jo 4,14). Como estudaremos na próxima unidade dois são os es-
forços da cristologia: explicitar que Jesus de Nazaré existiu e que é a Segunda Pessoa
da Trindade, e que Ele é salvador universal, sobretudo no diálogo inter-religioso.
Agora nosso estudo é mais simples: explicitar que Jesus Cristo nos reconciliou
com Deus. Para tal vamos buscar na Sagrada Escritura os fundamentos desta tese.

A Promessa do Emanuel e o servo de Yahweh

No Primeiro Testamento é no profeta Isaías nos capítulos 7,10-17; 8,5-10;


9,1-6; 11,1-9, no livro do Emanuel que a teologia cristã se fundamenta para afir-
mar a realização da Promessa do Salvador. Em Is 7,10-17 o profeta fala de uma
jovem que concebeu e o nome será Emanuel: Deus conosco. Em Is 8,8 há uma
invocação ao Emanuel. Is 9,1-6 o profeta fala da libertação da opressão através
do nascimento de um menino: “Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno,
Príncipe-da-paz.” E Is 11,1-9 O profeta anuncia a reconciliação da criação condu-
zida por um menino.
Depois o Deutero-Isaías em Is 42,1-9; 49,1-7; 50,4-11 e 52,13-53,1-12 nos
quatro cantos do Servo sofredor teologiza sobre o sofrimento do justo e inocente
que sofre pela libertação dos exilados na Babilônia como se estivesse presente na
traição, na prisão, no julgamento injusto, na condenação e na morte no calvário
de Jesus de Nazaré. É uma narrativa com seis séculos de diferença cronológica,
mas próxima kairologicamente ou teologicamente. Mas este tema será analisado
melhor na unidade quatro: cristologia.

A encarnação como kenosis

São Paulo foi o primeiro autor cristão, ele inspirado pelo Espírito do ressuscitado
passa do kerigma oral para o kerigma escrito, entre outros fatores está a sua prisão.
De dentro da prisão, no Espírito Santo, ele continua a evangelização através de suas
Cartas. Portanto, a primeira cristologia é também uma jesulogia, pois Paulo volta ao
mistério da Encarnação para anunciar o Cristo. Explicitamente em Gl 4,4-7 ele fala
da realização da Promessa de Deus que enviou seu ‘Filho nascido de uma mulher’.

capítulo 3 • 84
Em 1Cor 1, 17-30 falando da kenosis da cruz, Paulo implicitamente está afirman-
do a kenosis da Encarnação. E a exemplo de Lucas nos Atos dos Apóstolos que o cru-
cificado é o ressuscitado todo o epistolário paulino deixa claro esta Mensagem ou Boa
Nova. Porém além destes dois textos sugerimos que você leia nesta perspectiva os hinos
cristológicos paulinos: Ef 1,3-14, veja no versículo cinco a filiação por adoção em Jesus
Cristo, Cristo aparece como adjetivo que qualifica o substantivo Jesus. E no versículo
sete Paulo fala do sangue redentor, é sangue do Homem Jesus, o Verbo Encarnado.
Em Fl 2,6-11, sobretudo nos versículos sete e oito Paulo aborda explicitamen-
te a kenosis, o esvaziamento total da Segunda pessoa da Trindade para assumir a
nossa condição humana. E por fim Cl 1,15-20, após afirmar em Jesus a ‘Imagem
do Deus invisível’, sua primogenitura, sua onipresença na criação, a plenitude de
Deus Nele, no versículo vinte Paulo fala da reconciliação de todos os seres da terra
e dos céus por meio da paz que o seu Sangue na Cruz, trouxe. Veja novamente ou-
tro elemento fundamental da humanidade, o sangue: ‘Verdadeiramente Homem’.
E como isto foi possível, perguntou a Mãe em Lc 1,30-34, e no versículo 35 o anjo
responde: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com
sua sombra; por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus”.

A encarnação nos evangelhos

É teologicamente interessante que o primeiro Evangelho a ser escrito, Marcos,


não narre explicitamente nem a encarnação nem a ressurreição. No segundo texto
de Marcos, porque o original, sabemos, perdeu-se, temos o acréscimo do capítu-
lo dezesseis falando brevemente sobre a ressurreição, mas sobre a Encarnação o
primeiro evangelista não aborda nenhum episódio. Será por que na comunidade
de Marcos estes dois mistérios: encarnação e ressurreição não incomodavam a fé,
o amor e a esperança dos cristãos? Ou será que a questão não estava ainda teo-
logicamente fundamentada? Marcos inicia o seu Evangelho com uma cristologia
descendente: ‘Princípio do Evangelho de Jesus Cristo Filho de Deus’. E cita o
profeta Isaías como fundamento de sua tese. (Mc1,1-3). Portanto, o início do seu
Evangelho é com uma cristologia para baixo, movimento da Trindade na direção
da humanidade em Jesus. Faça uma leitura comparada com Jo 1,1-14 e Mt 1,1
que afirma no início do seu Evangelho: ‘Livro da origem de Jesus Cristo filho de
Davi, filho de Abraão.’ E Lc 3,23: Ao iniciar o ministério, Jesus tinha mais ou
menos trinta anos, e era, conforme se supunha, filho de José...’ Mateus e Lucas
iniciam com uma cristologia ascendente ou para cima.

capítulo 3 • 85
Porém, o importante da narrativa de Marcos e sua comunidade é a vida pú-
blica de Jesus de Nazaré, o carpinteiro (Mc 6,1-3), que é objetivo do nosso es-
tudo nesta unidade e tem uma farta, uma suculenta (Is 55,1-11) informação e
formação. Se considerarmos que um versículo da Sagrada Escritura tem um valor
teológico imensurável tanto para o conhecimento, para a experiência afetiva, para
a oração e para a ação evangelizadora, só em Mateus temos quarenta e oito versí-
culos. E em Lucas temos cento e trinta e dois versículos sobre a infância de Jesus.
Mateus inicia a narrativa da infância de Jesus remontando a Abraão. Com o
interesse teológico de responder quem é Jesus? E de onde Ele é? Divide no seu
prólogo em três blocos de forma literária diferente: uma genealogia (Mt 1,1-17);
uma narrativa de anunciação a José (Mt 1,18-25); e uma narrativa aggádica da
perseguição de Herodes com a visita dos ‘magos’ ou estudiosos, pesquisadores,
cosmólogos, isto é, estudiosos da cosmologia (Mt 2,1-12). E três narrativas curtas
com citações dos profetas, fuga para o Egito (Mt 2,13-15), o infanticídio (Mt
2,16-18) e o retorno à Nazaré (Mt 2,19-23). É importante explicitar também
as cinco cenas dos sonhos de José (Mt 1,1-18;2,13-15; 2,19-23) e as ações de
Herodes (Mt 2,1-12; 2,16-18).
Os capítulos um e dois de Mateus oferecem uma riquíssima informação e for-
mação jesulógica, ou seja, uma ‘história’ de Jesus de Nazaré, embora pascalizadas ou
teologizada é uma fonte histórica de como Jesus veio ao mundo, isto que nos impor-
ta aqui. Existiu verdadeiramente um Homem cujo nome é Jesus de Nazaré, o car-
pinteiro. Mateus narra a infância de Jesus com detalhes muito importantes: as várias
gerações de Abraão até Jesus, as mulheres de ‘moral duvidosa’: Tamar (incestuosa),
Raab, (prostituta), Rute, Bertsabeia (adúltera) cujo nome nem é citado diretamente.
Charles Perrot afirma que a citação destas mulheres no lugar de outras como Sara,
Rebeca e Lia tão veneradas como santas, exemplos na Tradição de Israel, é pelo fato
que estas eram celebradas como símbolo da justiça, sobretudo pela universalidade da
salvação em Jesus, tema muito caro no Evangelho de Mateus.
Mas na narrativa da infância de Mateus aparecem outras informações impor-
tantes sobre Jesus de Nazaré, como o anúncio também a José, o sonhador (1,18-22.
2,13.19-23), a relação conflitiva com Herodes desde a infância (2,7.13), a visita dos
magos (2,1), a estrela, (2,2) a pequena cidade de Belém, (2,5), a fuga para o Egito,
(2,13), o infanticídio (2,16-18) e o retorno para Nazaré (2,19-23). Ou seja, Mateus
tem informações sobre uma infância difícil como toda criança das camadas populares
condenadas a um lugar social periférico onde as balas cruzam os céus diariamente.

capítulo 3 • 86
No quarto Evangelho temos a cristologia para baixo ou a cristologia descen-
dente. O movimento que parte do Seio da Trindade e chega até nós:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João.
Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele.
Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz.
Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.
Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu.
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus,
aos que creem no seu nome.
Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do
homem, mas de Deus.
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do
unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. (João 1:1-14)

Segundo João, ‘Aquele que estava na ordem do Ser passa para a ordem do
vir-a-Ser. E neste movimento teológico todo o ser humano é atingido pela Graça
libertadora-redentora’ (Is 40,5-7). O Quarto Evangelho é uma revelação do co-
meço ao fim que a morada de Deus é Jesus de Nazaré, única e verdadeira presença
divina entre as pessoas.
Segundo Konnings:

João insiste na “vinda em carne” de Jesus (cf 1Jo 4,2; 2Jo 7). Podemos ver nas pri-
meiras palavras do v.14 uma afirmação provocadora contra os que se acham bem à
vontade com a supostamente intocável posse da luz trazida por Jesus. A esses fiéis
que vivem com a cabeça nas nuvens, embora com os pés na lama, e que só querem
saber da glória (no sentido de brilho), João apresenta o paradoxo da encarnação (do
nascimento até as cruz), sem o qual a existência cristã não é autêntica e completa: ‘A
Palavra veio a ser carne... e nós vimos sua glória’.
A carne e a glória estão mútua e inseparavelmente embrigadas. Tipo de Glória que
João vai descrever só pode manifestar-se em carne. A carne não serve para esconder
a glória, mas para manifestá-la (KONNINGS, 2000, P. 89).

capítulo 3 • 87
Com a cristologia descendente joanina temos a conclusão do círculo herme-
nêutico: a cristologia ascendente é completada e o Segundo Testamento nos revela
a plenitude de Jesus de Nazaré como Aquele que saiu da Trindade encarnou no
seio de Maria e morreu na cruz e ressuscitou dos mortos para a nossa reconciliou
definitivamente com Deus.
Como na unidade quatro estudaremos com mais detalhes este tema na cris-
tologia, limito apontar a Encarnação com princípio da compreensão teológica da
redenção na encarnação e apontarei algumas afirmações do kerigma anunciando
Jesus de Nazaré como o redentor.

Kerigma: Jesus Cristo une Deus e a humanidade

É teologicamente interessante como o kerigma percorre todo o mistério


cristológico para explicitar a redenção em Jesus de Nazaré. Paulo em Gl 4,4 fala
da encarnação:

Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido
sob a lei, (Gálatas 4:4)

Lucas nos Atos dos Apóstolos insiste na crucificação, At 2,22-25:

Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por
Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós,
como vós mesmos bem sabeis;
A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, pren-
destes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos;
Ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse
retido por ela;
Porque dele disse Davi: Sempre via diante de mim o Senhor. (Atos 2:22-25)

Veja que neste texto Lucas revela a vida pública de Jesus, a paixão e a ressurrei-
ção. Paulo também percorre um itinerário semelhante (Rm 5,12-19;1Cor 1,-31)
e revela a loucura da cruz de Jesus de Nazaré como reconciliação da humanidade
com Deus. Em 1Cor 15,17-20 a ênfase é colocada na ressurreição.
E nos hinos cristológicos (Ef 1,1-14;Fl2,1-11 e Cl 1,15-20). O apóstolo dos
gentios explicita melhor a redenção em Jesus Cristo: ‘Nele Deus nos escolheu
antes da fundação do mundo...”pois nele aprouve a Deus fazer habitar toda a ple-
nitude e reconciliar por ele e para ele todos os seres.

capítulo 3 • 88
Assim concluímos este capítulo afirmando que o re-ligamento da humani-
dade com Deus em Jesus Cristo precisa percorrer todo o círculo cristológico:
pré-existência, encarnação, gestação, nascimento, vida pública, paixão-morte, res-
surreição-glorificação, ascensão e segunda vinda gloriosa: “maranatha, vem Senhor
Jesus” (1Cor.16,22; Ap 22.20).

MULTIMÍDIA
Videoaula. Teilhard de Chardin. El fenómeno Humano. Disponível em: <https://
www.bing.com/videos/search?q=video+sobre+teilhard+de+chardin&view=detail&
mid=7F9B597A3BCE84AAD82E7F9B597A3BCE84AAD82E&FORM=VIRE>.

ATIVIDADE
01. Leia o capítulo 4 das confissões de Santo Agostinho, depois elabore um texto de duas
a cinco laudas destacando:
As consequências do ensino soberbo;
A demência de não amar;
A “perversão” da carne humana;
A redenção em Jesus Cristo;
O poder de Deus e suas maravilhas na vida humana.
Critérios de avaliação
Na avaliação desta tarefa, serão utilizados os seguintes critérios:
Utilização da norma padrão da Língua Portuguesa e das normas da ABNT.
Compreensão dos textos estudados.
Capacidade de análise do conteúdo e síntese de ideias.
Identificação dos conceitos-chave dos conteúdos estudados.
Após a formatação do seu texto poste-o na ferramenta indicada no ambiente Virtual
de aprendizagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GOERGE, Pedro; LOMBARDI, José Caudino. Ética e Educação. Reflexões filosóficas e históricas. Ed.
Autores Associados\; Histedbr, 2005.

capítulo 3 • 89
KONINGS, Johan. Evangelho segundo João. Amor e fidelidade. Comentário bíblico. Ed, Vozes-sinodal,
2000.
MOSER, Frei Antônio. O pecado. Do descrédito ao aprofundamento. Ed. Vozes, 1996.
RIBEIRO, Hélcio. Quem somos? De onde viemos? para onde vamos? Antropologia Teológica.
Ed. Vozes, 2007.
Agostinho. Confissões. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=r8uYDgAAQBAJ&pr
intsec=frontcover&dq=santo+agostinho.+confissoes&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiwzKrU1YvdA
hXGWpAKHaVyAC4Q6AEIKDAA#v=onepage&q&f=false>>
ALVES, Rubem. Filosofia da ciência. Introdução ao jogo e suas regras. Disponível em: <http://www.
moretti.agrarias.ufpr.br/pda/filosofia_da_ciencia_rubem_alves.pdf>.
BEAVOIR, Simone. O segundo sexo. Disponível em: <https://materialfeminista.milharal.org/
files/2012/08/O-Segundo-Sexo-vol1-Fatos-e-Mitos-Simone-de-Beauvoir1.pdf>>
Bíblia online: Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/>.
Bíblia Sagrada online: Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/>.
Razão inadequada. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2016/01/20/nietzsche-torna-te-
quem-tu-es/>.
DEI VERBUM. In: http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-
ii_const_19651118_dei-verbum_po.html
GARDEN, Justin. A vida é breve. Carta de Flora Emília. Disponível em: <https://agendadasbugigangas.
files.wordpress.com/2011/05/jostein-gaarder-vita-brevis-ou-a-vida-c3a9-breve.pdf>.
HILL, Joseph Murray SJ A doutrina do pecado original à luz da teoria da evolução em
Pierre Teilhard de Chardin e Karl Rahner. Disponível em: <http://www.faculdadejesuita.edu.br/
documentos/070115-ztpI89bqtloq.pdf>.
O Lobo do homem. Disponível em: <http://fabilobocapital.blogspot.com/2011/05/o-estado-leviata-
de-hobbess.html>.
Revista Pandora Brasil. Disponível em: <http://revistapandorabrasil.com/revista_pandora/
filosofia_34/jandir.pdf >.
Revista Super Interessante: https://super.abril.com.br/ideias/o-inferno-sao-os-outros-sartre/
Revista Online do Instituo Huamanitas Unisinos. O futuro que advém. A evolução e a fé cristã
segundo Teilhard de Chardin. Disponível em: <https://teilhardianos.files.wordpress.com/2012/05/
ihuonlineedicao304.pdf>.
RIBEIRO. O homem diante de Deus. Disponível em: <http://docplayer.com.br/52102154-O-
homem-diante-de-deus-helcion-ribeiro.html>.
SILVA, Fábio de Barros. Ideia de evolução e vida pessoal. Disponível em: <https://ufsj.edu.br/
portal-repositorio/File/lable/revistametanoia_material_revisto/revis>.

capítulo 3 • 90
4
Cristologia: estudos
sobre a pessoa de
Jesus Cristo
Cristologia: estudos sobre a pessoa de Jesus
Cristo

Você vai navegar com Jesus de Nazaré nas águas do oceano cristológico. Na
barca de Pedro após lançar o conhecimento nas “redes digitais” do saber teológico,
da ciberteologia (Lc 5,1-11. Jo 21,1-23), você atravessará para a outra margem
do conhecimento-experiencial do Carpinteiro de Nazaré (Mt 8,23-27; Lc 8,22-
25). Travessia esta que se dará no meio de tempestades de informações sobre o
Salvador. Um verdadeiro dilúvio de informações (Gn 6,13-7,1-24) o que vai exigir
separar o trigo do joio (Mt 13,24-30.36-43, um verdadeiro discernimento teoló-
gico. Porém, um dos objetivos deste curso é este: prepará-lo para caminhar com
Jesus e Pedro sobre estas águas do conhecimento digital sem riscos (Mt 14,22-33).
E após chegar a outra margem anunciá-lo sem temor e equívocos.
Neste capítulo você estudará as duas naturezas de Jesus Cristo: divina e hu-
mana; a revelação da Sagrada Escritura da natureza humana de Jesus; as heresias
cristológicas, a comunhão trinitária ou a relação entre o Pai, o Filho e o Espírito
Santo; a heresia ariana e a resposta dos Concílios de Nicéia e de Constantinopla:
Credo Niceno-Constantinopolitano.

OBJETIVOS
•  Estudar a pessoa e a obra de Jesus Cristo;
•  Analisar, na perspectiva teológica, os dogmas cristológicos;
•  Compreender os riscos que as heresias sempre apresentaram para uma fé ortodoxa em
Jesus Cristo.

A natureza humana e Divina de Jesus: 100% Deus e 100% homem

Introdução

O estudo da pessoa de Jesus Cristo é fascinante e ao mesmo tempo perigoso.


Fascinante porque estudamos uma pessoa humana-divina. Igual a nós em tudo

capítulo 4 • 92
exceto no pecado (Hb 4,15) e igual a Deus em tudo exceto durante a encar-
nação (Mt 24,36) que limitou a sua onisciência. E lhe deu atributos cem por
cento humanos, como a “fraqueza da carne (Mt 26,41), o sono nas horas mais
perigosas para a humanidade (Mc 4,37-38), fome (Mc 11,12); ruído na comuni-
cação familiar (2,41-50); lentidão para perceber as necessidades da humanidade
(Mt 15,21-28; Jo 2,1-5; 11,1-6.17-24) e sobretudo morre o que é estranho
para a religiosidade popular, para a filosofia e para as ciências, um Deus mortal
(Mc15,33-39;Mt 27,45-54; Lc 23,44-47 e Jo 19,28-30).
É perigoso porque como Homem-Deus sempre escapa da racionalidade fi-
losófica, científica, teológica e até mesmo da compreensão da fé popular. Ou
seja, como “objeto” de investigação do conhecimento sistemático apresenta uma
dimensão metafísica, sobrenatural, transcendental, espiritual. E isto pode levar
a gnose da racionalidade construir um Jesus Cristo à sua imagem e semelhan-
ça, mas nunca chegar ao verdadeiro conhecimento teológico da Segunda pessoa
da Trindade.
Portanto, além de tirar as sandálias (Ex. 3,1-5) da pretensão (arrogância) gnós-
tica, precisamos, claro, após todo esforço racional, fazer a genuflexão, a oração, a
adoração e a contemplação, como afirma Clodovis Boff no livro teoria do méto-
do teológico.
Talvez a melhor postura depois da pesquisa teológica, da reflexão teológica
(gnose) sobre Jesus Cristo, seja o teólogo ou a teóloga se colocar de joelhos na
contemplação. No entanto, como afirma Leonardo Boff no livro a Trindade é a
melhor comunidade, pesquisar e depois adorar, ou seja, calar de joelhos somente
no final e deixar que o silêncio da contemplação penetre o mistério.
Ou ainda como afirma Leonardo Boff no livro Jesus Cristo libertador:

A doutrina acerca de Cristo começa no silêncio. “Cale-se, recolha-se, pois é o absoluto”


(Kierkegaard). Isso não tem nada a ver com o silêncio mistagógico que no seu emudeci-
mento não passa de palavrório da alma consigo mesma. O silêncio da Igreja é o silêncio
diante da palavra. Ao anunciar a Palavra a igreja na verdade cai de joelhos, silenciosa,
diante do inefável e do inexprimível. A Palavra falada é o inefável. Esse inefável é a pa-
lavra. Contudo a Palavra tem que ser falada. É o grande grito em campo de batalha
(Lutero). Embora seja gritada da Igreja para o mundo, ela permanece, contudo, o inefável.
Falar de Cristo significa calar. Calar de Cristo significa falar. A palavra fecunda da igreja
nascida do silêncio fecundo, eis a pregação acerca de Cristo. (BOFF, 1972, P 11).

capítulo 4 • 93
É nesta perspectiva que devemos ler o prólogo do quarto evangelho:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João.
Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele.
Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz.
Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.
Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu.
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus,
aos que creem no seu nome;
Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do
homem, mas de Deus.
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do
unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. (João 1:1-14)

A palavra Verbo também traduzido por logos, e o logos grego significa razão
e linguagem ou palavra. O Novo Testamento Interlinear grego português em Jo
1,1 fala que no princípio (arké) era o logos, a Palavra inteligível. Mas Palavra, do
hebraico, dabar, palavra e ação (Gn 1,1-31) a palavra criadora, a palavra engajada,
a palavra práxis, contemplação e transformação.
Isso leva John Dominic Crossan à seguinte afirmação:

No princípio havia a realização; não apenas a palavra, nem apenas o ato, mas ambos,
cada um marcado pelo outro para sempre. Ele chega, ainda desconhecido, numa aldeola
da Baixa galileia. Encontra o olhar frio e duro de camponeses que vivem há muito tempo
num nível de mera subsistência e sabem, portanto, onde fica a fronteira entre a pobreza
e a miséria. Parece um mendigo, mas seus olhos não têm o aspecto servil que seria de
esperar, sua voz soa como lamentos de costume e seu andar não é arrastado. Ele fala
do domínio de Deus e os camponeses escutam mais por curiosidade do que outra coisa.
Eles sabem o que é domínio e poder, o que é reino e império, mas sabem disso em ter-
mos de impostos e dívidas, subnutrição e doença, opressão agrária e possessão demo-
níaca. Querem saber o que esse reino de Deus pode fazer por uma criança aleijada, um
pai cego, uma alma atormentada que grita o seu isolamento angustiado entre os túmulos

capítulo 4 • 94
que marcam os limites da aldeia. Jesus vai com eles até os túmulos e, no silêncio que
se segue ao exorcismo, aldeões o escutam novamente, mas dessa vez a curiosidade dá
lugar à ganância, ao medo e ao constrangimento (CROSSAN, 1994, P. 11).

É neste silêncio balbuciador que abordaremos sobre as duas naturezas de Jesus


Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Balbuciar é um verbo transitivo di-
reto que significa articular imperfeitamente e com hesitação, mas como transitivo,
transita a ideia sobre Jesus Cristo. Portanto, vamos iniciar pela sua humanidade.

Jesus de Nazaré verdadeiro homem

Como afirmamos na introdução a cristologia é fascinante e perigosa. E nesta


perspectiva, sobre a humanidade de Jesus afirma André Torres Queiruga:

A humanidade de Jesus. Jesus, um homem como nós. Eis um tema subjetivamente


apaixonante e objetivamente epocal. Apaixonante, porque nos aproxima diretamente e
pelo lado mais sensível do próprio núcleo de nossa fé. Epocal, porque por aqui passa,
sem dúvida alguma, uma dessas mudanças de sensibilidade, de perspectiva e de para-
digma que mudam o rumo secular da análise de um problema; neste caso, o problema
que é para nossa compreensão o mistério de Cristo.
Por qualquer lado que se trate dele, contanto que o faça com um mínimo de seriedade,
o tema mostra-se complexo pela imensidão de dados e abundantes pela profundidade
das perspectivas. O que vamos tentar é, antes de mais nada, introduzir certa ordem no
emaranhado de dados: procurar clareza nas linhas de fundo e colocar a descoberto a
dinâmica fundamental do processo em que se encontra empenhada esta entranhável
e decisiva frente de nosso intellectus fidei. Se algo dessa intenção for conseguido, o
caráter um tanto formal de grande parte de nossa reflexão ficará compensado e justi-
ficado: o rigor do abstrato deixará transparecer a paixão que o anima a serviço de uma
fé viva e concreta (QUEIRUGA, 1998, P.173).

Como afirma Queiruga, o homem Jesus de Nazaré tem sido, ao longo destes
mais de dois milênios, assunto de todas as áreas do conhecimento ocidental crian-
do um verdadeiro dilúvio (Gn 6,13-7,1-24) de informação sobre esta pessoa hu-
mana, ou melhor, uma verdadeira Torre de Babel (Gn 1,1-9). Portanto, compete
à teologia peneirar, discernir o que de verdadeiro é falado sobre o Carpinteiro de
Nazaré (Mt 13,55; Mc 6,1-6), separando o trigo do joio (Mt 13,24-30. 36-43),
separando palavras de Palavras cristológicas, Palavras que levam ao conhecimento
de Jesus Cristo e palavras que distanciam do conhecimento do Logos bíblico.

capítulo 4 • 95
É interessante observar que o kerigma para anunciar o Cristo volte ao “Jesus
histórico”, ou seja, à Jesus de Nazaré:

Homens israelitas escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por
Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós,
como vós mesmos bem sabeis;
A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, pren-
destes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos;
Ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse
retido por ela; (Atos 2:22-24)

Igualmente como estudaremos nos próximos tópicos, Paulo e João seguirão o


mesmo itinerário, o mesmo método para anunciar o Cristo glorioso. Agora é im-
portante que você saiba que por trás da cristologia do kerigma há uma sólida jesu-
logia, ou seja, para o Segundo Testamento não há Cristo sem Jesus nem Jesus sem
o Cristo. Paulo teologiza muito sobre esta impostação do nome do Carpinteiro.
Rm 6,3; 8,34; 1Cor 1,23; 2Cor 4,5 Cristo é o substantivo e Jesus é o adjeti-
vo que qualifica o substantivo, ou seja, Paulo fala de Cristo Jesus. Em Fl 2,11;
1Jo 2,1; 2,22; 4,2; 5,1 Jesus é o substantivo e Cristo é o adjetivo que qualifica o
Jesus histórico, ou melhor, Jesus de Nazaré. Não é um mero jogo de palavras, mas
kerigma, evangelização. E este anúncio não é de um mito, de algo abstrato, mas
concreto, um Deus que se fez carne humana (Mt 1,18-25; Lc 1,26-38 e Jo 1,1-
14). Portanto, no kerigma há uma pericorese entre Jesus de Nazaré, o crucificado
e o Cristo glorioso e exaltado pela ressurreição.
Leonardo Boff, retomando as intuições da cristologia patrística afirmará no
seu livro Jesus Cristo libertador que “humano assim só pode ser Deus mesmo” e
continua o teólogo da libertação:

Não é da análise abstrata do que seja Deus e do que seja o homem que entendemos
quem é Jesus Home-Deus. Mas foi convivendo, vendo, imitando e decifrando Jesus,
que seus discípulos chegaram a conhecer a Deus e ao homem. O Deus que em e
por Jesus se revela é humano. E o homem que em e por Jesus emerge é divino. Foi
no homem que a Igreja primitiva descobriu a Deus. Os dogmas não visam prender ou
substituir o mistério, mas estabelece sempre uma regra doutrinária e comunitária de
falar a partir do mistério. (BOOF, 1972, P. 193).

capítulo 4 • 96
Mas foi o Concílio de Calcedônia em 451, portanto, 1567 anos atrás que “de-
finiu” sistematicamente esta verdade: Jesus Cristo é Verdadeiro Deus e Verdadeiro
Homem. Sobre esta fórmula afirma Jacques Dupuis:

A primeira parte da definição toma como ponto inicial a união da divindade com a hu-
manidade em Jesus Cristo. No bojo dessa unidade, estabelece-se a distinção das duas
naturezas: “ele mesmo” é consubstancial com o Pai, pela divindade, e conosco pela
humanidade. Diante do reducionismo monofisita, impunha-se acentuar a consubstan-
cialidade de Jesus conosco, na humanidade. Assim se respondia à questão levantada
por Êutiques: a natureza humana de Jesus mantém-se íntegra e autêntica nessa união,
não obstante a exceção ao pecado (Hb 4,15). Contudo, pode-se perceber que, apli-
cado às duas naturezas, o termo “consubstancial” não carrega, exatamente, o mesmo
significado. Se, quanto à divindade, afirma-se a consubstancialidade numérica do Pai
com o Filho, coisa que o concílio de Nicéia não fizera, no caso da humanidade proíbe-
-se, como é natural, a consubstancialidade específica de Jesus conosco. Analisados os
dois componentes do próprio Cristo à luz da escola antioquena, o final da primeira par-
te da definição volta-se para a dupla origem dele, gerado pelo Pai desde toda eternida-
de, como Deus, e gerado em Maria Santíssima, no tempo, em sua humanidade. Dessa
forma, a definição se aproxima do esquema de Éfeso, referindo-se então à história e à
razão soteriológica que levou o Filho de Deus a se fazer homem: ”nos últimos dias” “por
nós e pela nossa salvação” (DUPUIS, 1994, P.128-129).

Com esta pequena análise finalizamos este tema tão importante para a cristolo-
gia que é a jesulogia. O homem Jesus de Nazaré é condição para o Cristo, ou seja,
não há um Cristo abstrato distante do ser humano, na encarnação ele se fez um
como nós exceto no pecado (Hb4,15), portanto, com exceção do pecado ele tinha
todos os atributos humanos. E como afirma Calcedônia, na ressurreição-glorificação
consubstancial ao pai em tudo, segundo o quarto evangelho (Jo 14,9-11; 17,21).

O testemunho das escrituras sobre a humanidade de Jesus

A humanidade de Jesus Cristo no primeiro testamento

A sagrada Escritura cristã é rica em afirmações da humanidade de Jesus Cristo.


Começando pela leitura cristã do Primeiro Testamento (“Antigo ou Velho testa-
mento”). Is 6-12 chamado Livro do Emanuel, fala do nascimento de um Menino-
Deus, Is 7,14-17; 9,1-6; 11,1-9).
E o Deutero-Isaías Is 42,1-9; 49,1-7; 50,4-11 e 52,13-53,1-12 nos quatro
cantos do Servo sofredor ou Servo de javé são fundamentos da teologia cristã na

capítulo 4 • 97
leitura da paixão de Jesus Cristo, sua doação por nós, para a nossa salvação. Tanto
o Menino-Deus do primeiro Isaías como o Servo sofredor do Deutero-Isaías são
teologicamente compreendidos na linha da promessa da salvação do povo de
Deus. E esta salvação é entendida com a vinda de um da Trindade que se tornou
igual a nós em tudo exceto no pecado. Nasceu como todo ser humano e serviu ao
projeto do reino de Deus como um Servo sofredor (Jo 13, 1-20).

A humanidade de Jesus em Paulo

Paulo que é o primeiro autor do Segundo Testamento fala em todos os seus


escritos do Homem Jesus de Nazaré. Inspirado pelo Espírito do ressuscitado passa
do kerigma oral para o kerigma escrito, entre outros fatores está a sua prisão. De
dentro da prisão, no Espírito Santo ele continua a evangelização através de suas
Cartas. Portanto, a primeira cristologia é também uma jesulogia, pois Paulo volta
ao mistério da Encarnação para anunciar o Cristo. Explicitamente em Gl 4,4-
7 ele fala da realização da Promessa de Deus que enviou seu ‘Filho nascido de
uma mulher’.
Em 1Cor 1, 17-30 falando da kenosis da cruz, Paulo implicitamente está
afirmando a kenosis da Encarnação. E a exemplo de Lucas nos Atos dos Apóstolos
que o crucificado é o ressuscitado todo o epistolário paulino deixa claro esta
Mensagem ou Boa Nova. Porém além destes dois textos sugerimos que você leia
nesta perspectiva os hinos cristológicos paulinos: Ef 1,3-14, veja no versículo cin-
co a filiação por adoção em Jesus Cristo, Cristo aparece como adjetivo que qualifi-
ca o substantivo Jesus. E no versículo sete Paulo fala do sangue redentor, é sangue
do Homem Jesus, o Verbo Encarnado.
Em Fl 2,6-11, sobretudo nos versículos sete e oito Paulo aborda explicitamen-
te a kenosis, o esvaziamento total da Segunda pessoa da Trindade para assumir a
nossa condição humana. E por fim Cl 1,15-20, após afirmar em Jesus a ‘Imagem
do Deus invisível’, sua primogenitura, sua onipresença na criação, a plenitude de
Deus Nele, no versículo vinte Paulo fala da reconciliação de todos os seres da terra
e dos céus por meio da paz que o seu Sangue na Cruz, trouxe. Veja novamente ou-
tro elemento fundamental da humanidade, o sangue: ‘Verdadeiramente Homem’.
E como isto foi possível, perguntou a Mãe em Lc 1,30-34, e no versículo 35 o anjo
responde: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com
sua sombra; por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus”.

capítulo 4 • 98
A humanidade de Jesus Cristo nos evangelhos sinóticos

Mas são os evangelhos que nos dão muitas informações teológicas sobre a
humanidade de Jesus Cristo.
É interessante que o primeiro Evangelho a ser escrito, Marcos, não narre ex-
plicitamente nem a encarnação nem a ressurreição. No segundo texto de Marcos,
porque o original, sabemos, perdeu-se, temos o acréscimo do capítulo dezesseis
falando brevemente sobre a ressurreição, mas sobre a Encarnação o primeiro evan-
gelista não aborda nenhum episódio. Será por que na comunidade de Marcos
estes dois mistérios: encarnação e ressurreição não incomodavam a fé, o amor e
a esperança dos cristãos? Ou será que a questão não estava ainda teologicamente
fundamentada? Marcos inicia o seu Evangelho com uma cristologia descendente:
‘Princípio do Evangelho de Jesus Cristo Filho de Deus’. E cita o profeta Isaías
como fundamento de sua tese. (Mc1,1-3). Portanto, o início do seu Evangelho é
com uma cristologia para baixo, movimento da Trindade na direção da humani-
dade em Jesus. Faça uma leitura comparada com Jo 1,1-14 e Mt 1,1 que afirma
no início do seu Evangelho: ‘Livro da origem de Jesus Cristo filho de Davi, filho
de Abraão.’ E Lc 3,23: Ao iniciar o ministério, Jesus tinha mais ou menos trinta
anos, e era, conforme se supunha, filho de José...’ Mateus e Lucas iniciam com
uma cristologia ascendente ou para cima.
Porém, o importante da narrativa de Marcos e sua comunidade é a vida pú-
blica de Jesus de Nazaré, o carpinteiro (Mc 6,1-3), que é objetivo do nosso es-
tudo neste capítulo e tem uma farta, uma suculenta (Is 55,1-11) informação e
formação. Se considerarmos que um versículo da Sagrada Escritura tem um valor
teológico imensurável tanto para o conhecimento, para a experiência afetiva, para
a oração e para a ação evangelizadora, só em Mateus temos quarenta e oito versí-
culos. E em Lucas temos cento e trinta e dois versículos sobre a infância de Jesus.
Mateus inicia a narrativa da infância de Jesus remontando a Abraão. Com o in-
teresse teológico de responder quem é Jesus? E de onde Ele é? Divide no seu prólogo
em três blocos de forma literária diferente: uma genealogia (Mt 1,1-17); uma nar-
rativa de anunciação a José (Mt 1,18-25); e uma narrativa aggádica da perseguição
de Herodes com a visita dos ‘magos’ ou estudiosos, pesquisadores, cosmólogos, isto
é, estudiosos da cosmologia (Mt 2,1-12). E três narrativas curtas com citações dos
profetas, fuga para o Egito (Mt 2,13-15), o infanticídio (Mt 2,16-18) e o retorno
à Nazaré (Mt 2,19-23). É importante explicitar também as cinco cenas dos sonhos
de José (Mt 1,1-18;2,13-15; 2,19-23) e as ações de Herodes (Mt 2,1-12; 2,16-18).

capítulo 4 • 99
Os capítulos um e dois de Mateus oferecem uma riquíssima informação e for-
mação jesulógica, ou seja, uma ‘história’ de Jesus de Nazaré, embora pascalizadas
ou teologizada é uma fonte histórica de como Jesus veio ao mundo, isto que nos
importa aqui. Existiu verdadeiramente um Homem cujo nome é Jesus de Nazaré,
o carpinteiro. Mateus narra a infância de Jesus com detalhes muito importantes:
as várias gerações de Abraão até Jesus, as mulheres de ‘moral duvidosa’: Tamar (in-
cestuosa), Raab, (prostituta), Rute, Bertsabeia (adúltera), cujo nome nem é citado
diretamente. Chrarles Perrot afirma que a citação destas mulheres no lugar de outras
como Sara, Rebeca e Lia tão veneradas como santas, exemplos na Tradição de Israel,
é pelo fato que estas eram celebradas como símbolo da justiça e, sobretudo, pela
universalidade da salvação em Jesus, tema muito caro no Evangelho de Mateus.
Mas na narrativa da infância de Mateus aparecem outras informações importantes
sobre Jesus de Nazaré, como o anúncio também a José, o sonhador (1,18-22. 2,13.19-
23), a relação conflitiva com Herodes desde a infância (2,7.13), a visita dos magos
(2,1), a estrela,(2,2) a pequena cidade de Belém,(2,5), a fuga para o Egito,(2,13), o in-
fanticídio (2,16-18) e o retorno para Nazaré (2,19-23). Ou seja, Mateus tem informa-
ções sobre uma infância difícil como toda criança das camadas populares condenadas
a um lugar social periférico onde as balas cruzam os céus diuturnamente.
Lucas é o evangelista que apresenta mais informações sobre a ‘origem’ huma-
na de Jesus de Nazaré, são 132 suculentos versículos (Is 55,1-11). No prólogo
(Lc1,1-4) o autor mostra que seu texto, além da Inspiração do Espírito Santo, ele
consultou mais duas fontes: o kerigma oral e ‘uma acurada investigação de tudo
desde o princípio’. A partir do versículo cinco, indo até o versículo vinte e cinco,
fala de outro acontecimento histórico: o anúncio do nascimento de um profeta,
João Batista. E então, a partir do versículo vinte e seis inicia o anúncio principal,
com data, geografia e Pessoa:

E, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chama-
da Nazaré,
A uma virgem desposada com um homem, cujo nome era José, da casa de Davi; e o
nome da virgem era Maria.
E, entrando o anjo onde ela estava, disse: Salve agraciada; o Senhor é contigo; bendita
és tu entre as mulheres.
E, vendo-o ela, turbou-se muito com aquelas palavras, e considerava que saudação
seria esta.
Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus..

capítulo 4 • 100
E, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chama-
da Nazaré,
A uma virgem desposada com um homem, cujo nome era José, da casa de Davi; e o
nome da virgem era Maria.
E, entrando o anjo onde ela estava, disse: Salve agraciada; o Senhor é contigo; bendita
és tu entre as mulheres.
E, vendo-o ela, turbou-se muito com aquelas palavras, e considerava que saudação
seria esta.
Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus.
E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus.
Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono
de Davi, seu pai;
E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.
E disse Maria ao anjo: Como se fará isto, visto que não conheço homem algum?
E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Al-
tíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer,
será chamado Filho de Deus.
Lucas 1:26-35. Bíblia online. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/
acf/lc/1>. Acesso em: 10 jul. 2018.

E nos versículos 34-35 temos o diálogo mais profundo sobre este aconteci-
mento misterioso. Diante da incompreensão humana: ‘como é que vai ser isso,
se eu não conheço homem algum?’ O mensageiro de Deus revela o mistério: “O
Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do altíssimo vai te cobrir com a sua sombra;
por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus.” E dá um sinal concreto
das condições de possibilidades da realização do mistério da Encarnação, com a
gravidez da anciã estéril (Versículo 26).
Portanto Lc 1,26-38 é um detalhamento de Jo1,14 e até mesmo Gl 4,4, e deve
ser o ponto de partida da cristologia ascendente ou cristologia para cima, ou seja,
da jesulogia, da pesquisa, da investigação, da busca pelo Jesus Histórico. A partir
destas informações de Lucas e Mateus a cristologia como componente curricular
da teologia deve, a exemplo de Lucas, fazer uma acurada investigação sobre estes
acontecimentos de salvação, sempre lembrando que é um mistério e como tal
permanecerá, pois depende também da revelação de Deus para a fé, para o amor e
para a esperança. Mas a investigação teológica pode ajudar na compreensão racio-
nal do mistério, para que o mesmo não ganhe uma dimensão de irracionalidade e
completa incompreensão, o que contradiz a revelação de Deus na busca humana.

capítulo 4 • 101
Mas Lucas oferece outras informações importantes sobre um menino divino,
como a visita de Maria, a prima Isabel, o nascimento e a circuncisão de João batis-
ta, o nascimento de Jesus com local, data e testemunhas, apresentação de Jesus no
Templo e o reconhecimento dos profetas e dos sacerdotes. Nos versículos 39-40
do capítulo dois fala da vida oculta até os doze anos; a constrangedora perda do
menino no Templo (Lc 2,41-50); a vida oculta de novo dos 12 anos (Lc 2,51-52)
até os trinta anos (Lc 3,23), pois para Lucas Jesus iniciou o seu ministério com
“mais ou menos trinta anos”. E por fim, a genealogia de José, estranhamente como
Mateus, não a genealogia de Maria, que vai até Adão, diferente de Mateus que para
em Abraão. Mateus inicia o seu Evangelho falando da origem de Jesus, partindo
de Abraão até José. Lucas termina os relatos da infância de Jesus com a genealogia
que inicia com Jesus como filho de José chegando até Adão. Este arranjo da pater-
nidade biológica de Jesus precisa ser melhor investigado pela cristologia, mas por
ora é uma prova histórica. Embora o historiador do Império Romano Celso, fale
de um oficial romano como pai de Jesus, o que não é uma prova, mas uma calúnia
e difamação ou no mínimo uma especulação, mas não é uma hipótese teológica.
Pois para Jesus de Nazaré ser Deus o Pai tem que ser Deus como afirma Lucas
(Mt 1,20 e Lc 1,35) e para ser humano a Mãe precisa ser humana, segundo os
mesmos textos sagrados, qualquer outra coisa é especulação, nem hipótese teoló-
gica chega.
E por fim nos Atos dos apóstolos Lucas mostra o kerigma anunciando Jesus
Cristo, ressuscitado, retroagindo ao Nazareno crucificado (At 2,22-24; 3,11-18;
4,1-10). O ressuscitado é o crucificado afirma o kerigma lucano, e o crucificado
foi um homem que entrou em rota de colisão com as autoridades religiosas, polí-
ticas e econômicas de seu tempo.
Na teologia de João temos muita informação sobre a humanidade de Jesus
Cristo. Começando pelo prólogo no qual João narra a Encarnação com uma cris-
tologia para baixo ou descendente, Jo 1,1-5.14 “E o Verbo se fez carne e ha-
bitou entre nós”. Se fez carne no útero de Maria (Lc 1,26-38). Nas Cartas de
João encontramos uma insistência teológica na humanidade de Jesus Cristo.
Em 1Jo 2,18-23 o anticristo, o mentiroso é o que nega que Jesus é o Cristo (v.22).
Em 1Jo 4,1-2 o anticristo não confessa Jesus Cristo na carne humana. Em 2Jo 7
os sedutores(anticristo) não confessam Jesus Cristo encarnado.
É importante destacar ainda na teologia de João que o quarto evangelho
é o mais humano dos evangelhos, veja o Jesus do capítulo onze no relato da

capítulo 4 • 102
“ressurreição” de Lazaro como aparece em Jesus de Nazaré a nossa humanidade:
demora em ir ao encontro dos amigos necessitados (v 1-6), a comoção (v 33) o
choro (v 35).
Seja Paulo e os sinóticos partindo de uma cristologia para cima ou ascendente
afirmam a humanidade de Jesus Cristo. Seja João com um enfoque cristológico
para baixo ou descendente afirma a humanidade da Segunda pessoa da Trindade.
Portanto, é imprescindível uma leitura teológica dos textos sagrados para com-
preender as duas naturezas: divina e humana no redentor de Nazaré. A teologia
deve conjugar cristologia ascendente-descendente, cristologia para cima e cristolo-
gia para baixo para “compreender” o mistério. Dois paradigmas se firmaram nesta
perspectiva, o antioqueno que parte de baixo e o alexandrino que parte de cima.
Juntamente com os paradigmas do kerigma devem ser os pilares da cristologia
contemporânea e de todos os tempos na abordagem do menino-Deus, do Servo
de Javé, de Jesus de Nazaré, do Cristo.

As Heresias Cristológicas

Por conta desta especificidade de Jesus Cristo, e do encontro do kerigma com


o helenismo, não demorou aparecer os problemas de compreensão de Jesus Cristo
no contexto da helenização da cultura. É neste contexto que surgiram as chamadas
heresias. A heresia não é uma compreensão cem por cento errada, ela sempre afir-
ma uma parte da verdade sobre Jesus Cristo. Por isso é uma heresia aceitar apenas
aquilo que me interessa do Nazareno. Por isso é heresia “fazer” um Jesus Cristo a
minha imagem e semelhança. É heresia pensar um Cristo Jesus fragmentado, ao
gosto do freguês ou ao gosto do “fiel”. Jesus Cristo deve ser pensado teologica-
mente na sua totalidade: verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, senão anátema sit
(1Cor 12,3; Gl 1,8). E, sobretudo deve ser proclamado na sua totalidade.

CONEXÃO
Sobre esta abordagem leia o texto do teólogo Jacques Dupuis. Introdução à cristolo-
gia. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=4qNJVvxT84wC&pg=PA51&
dq=heresias+cristol%C3%B3gias&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjfvJjF9ZrdAhWBIJA
KHdG5AAkQ6AEIKDAA#v=onepage&q=heresias%20cristol%C3%B3gicas&f=false>.
Acesso em: 15 de agosto 2018.

capítulo 4 • 103
O docetismo é a primeira corrente que ameaça a integridade do mistério de
Cristo, já combatida pelo kerigma (1Jo 1,1-2). É uma redução da humanidade de
Jesus à mera aparência “ou uma teofania sob forma humana”. Característico do
pensamento helenístico. Para os filósofos gregos era impossível o envolvimento
pessoal e real de Deus com o ser humano. Portanto a existência humana de Jesus
só poderia ser mera aparência.
Veja Paulo duelando teologicamente com estas tendências At 17, 16-34, os
filósofos epicureus e estoicos.
Jacques Dupuis afirma sobre esta heresia:

Os padres da Igreja reagiram contra a heresia doceta que esvaziava a mensagem cristã
ao realçarem a entrada pessoal do Filho de Deus na história humana e a autenticidade
de sua união com a carne humana. Em Jesus Cristo, eles insistiam, a carne humana
tornou-se eixo de salvação: coro cardo salutis (Tertuliano). Assim a primeira batalha a
enfrentar contra o reducionismo cristológico, suscitado pela especulação helenista,
foi entorno da real existência humana de Jesus. Foi a partir de baixo que as heresias
começaram. (DUPUIS, 1994, P. 108).

Outra heresia que aparece bem cedo é o nicolaismo (Ap 2,6.14.20). Segundo
Roque Frangiotti, por volta dos anos 93-94, as comunidades da Ásia: Éfeso,
Pérgamo e Tiatira já receberam esta presença. Afirma ele:

“Os nicolaístas têm por mestre Nicolau, um dos sete primeiros diáconos que foram cons-
tituídos pelos apóstolos. Vivem sem moderação. O apocalipse de João manifesta plena-
mente quem são: ensinam que a fornicação e o comer das carnes oferecidas aos ídolos
são coisas indiferentes”. Também Tertuliano atribui a paternidade da seita ao diácono
helenista “Nicolau de Antioquia, um pagão que seguia a religião dos judeus”, mencionado
em At 6,5. Este diácono para se justificar, teria apresentado sua mulher à assembleia dos
crentes dizendo: “Quem a quiser pode esposá-la, pois é necessário ter em pouca estima
a carne (ou, é preciso ter desprezo pela carne)” (FRANGIOTTI, 1995, P.12-13).

Outras heresias perigosíssimas aparecerem nos primeiros séculos do cristia-


nismo e a cristologia patrística as enfrentou com uma abordagem integral de
Jesus Cristo. São elas: Cerinto gnóstico, nega a criação do mundo por Deus.
Elcasaíta afirmava a existência de um único Deus e Jesus apenas um ser huma-
no. Adocionismo de Hermas que identifica Jesus Cristo com o Espírito Santo.
Adocionismo ebionita, judaizante não admitia os ensinamentos de Paulo e nega
a divindade de Jesus Cristo. Docetismo que nega a dimensão corporal de Jesus
Cristo, a encarnação e a paixão e morte de Jesus é loucura. Gnosticismo segundo

capítulo 4 • 104
os Padres da Igreja é a heresia mais ameaçadora da fé cristã, via a salvação como
algo milagroso. Marcião é o grande nome desta tendência desjudaizante do cristia-
nismo. Impôs aos seus seguidores uma austera disciplina. Monarquianismo nega a
Trindade em nome do monoteísmo.
Outra heresia perigosa para a fé cristã é o patripassionismo de Práxes que
defende a encarnação do pai e não do Filho. O sabelionismo de Sabélio, heresia
do século terceiro defende a monarquia em tríplice operação, ou seja, Deus como
mônada que se dilata em três operações distintas: “Pai no Primeiro Testamento; o
Filho na encarnação e o Espírito em Pentecostes”.
Paulo de Samósata defende o monarquismo adocionista, nega as três pessoas
em Deus. O motanismo milenarista ou quiasmo defende o reino de Cristo na
terra com seus eleitos por mil anos.
Da Ásia o pensamento herético desloca-se para a África. O donatismo concebe
a Igreja como sociedade de puros e justos, habitat do Espírito Santo. A verdadeira
igreja é a donatista composta imaculada cujos membros são santos.
As heresias subordinacistas mostraram sua força a partir do século quarto. Só
o Pai é Deus. O Verbo-logos é um deus subordinado ao Pai, um “segundo Deus”
(Deutero Theós). Orígenes, Filon de Alexandria e Noviciano são os grandes repre-
sentantes desta tese.
Ainda no século IV, surge em Antioquia o apolinarismo. Os teólogos desta es-
cola cheios de boa fé e num esforço gigantesco para combater o arianismo que nega
a divindade e a consubstancialidade de Cristo com o Pai, portanto, uma heresia
trinitária sobre a qual voltaremos no próximo tópico. O apolinarismo é uma heresia
cristológica que nasce da distinção das duas naturezas de Jesus Cristo. Apolinário
afirma que o Verbo ao encarnar-se ocupa o lugar da alma humana de Jesus.
Também no século IV surgem as teses de Prisciliano, que será o primeiro he-
rege condenado à morte pelo Concílio de Braga. São heresias de várias naturezas.
Frangiotti, apresenta uma síntese segundo a condenação:

Nega a preexistência e a humanidade de Cristo. Afirma que anjos e as almas humanas


são emanações da substância divina. “As almas humanas pecaram num lugar celestial
onde habitavam e, por isso, são precipitadas dentro dos corpos na terra.” O demônio
não foi criado por Deus e nem foi primeiramente um anjo de luz. Ele saiu do caos e
das trevas. As almas e os corpos humanos são influenciados pelos astros. A carne não
ressuscitará, pois não foi criada por Deus, mas pelos anjos maus. O matrimônio é mau
e os filhos uma abominação, pois é o demônio quem forma o corpo no seio da mãe.
(FRANGIOTTI, 1995).

capítulo 4 • 105
O pelagianismo também é do século IV o seu autor foi combatido por Santo
Agostinho e condenado pelos sínodos de Cartago e Diáspole, este em 415. E con-
denado a excomunhão pelo papa Inocêncio I em 417. A questão pelagiana foi o
pecado original que era negado no nascimento da humanidade e, portanto, nega
a redenção pelo batismo das crianças.
O nestorianismo nega a união real entre as duas naturezas, a divina e huma-
na. Em Cristo, há duas naturezas e duas pessoas, ‘portanto há duas filiações: uma
natural nascida de Maria e outra sobrenatural, gerada por Deus, sem a comunhão
hipostática, apenas a união moral. Assim Jesus Cristo não é Deus, mas um homem
no qual habita o logos. Assim Maria não é mãe de Deus ou theotókos, mas mãe do
homem Jesus de Nazaré, do Cristo, portanto Maria é christotókos.
No embate com Cirilo, que afirmava a união hipostática das duas naturezas
de Cristo vão aparecer os doze anátemas às teses de Nestório. Mas o principal de
Éfeso foi a proclamação de theotókos.
O monofisismo de Êutiques, segundo Dupuis nega a consubstancialidade
(homousios) conosco, segundo a humanidade:

Êutiques, monge de Constantinopla, admitia que Cristo provém de (ek) duas nature-
zas, mas sem permanecer em (em) duas naturezas após o processo de união. Para
ele, essa união foi como uma “mistura” (krasis), em que o humano foi absorvido pelo
divino e, consequentemente, Cristo não é “consubstancial” conosco, na humanidade
(DUPUIS, 1999, p. 127).

Essa questão será resolvida pelo concílio de Calcedônia que afirmará a dupla
solidariedade de Cristo com a divindade e com a humanidade, assegurando a
questão soteriológica, se Cristo não é humano, então não pode nos salvar.
A última heresia do período patrístico foi o monotelismo. Dupuis afirma que
após o Segundo Concílio de Constantinopla o pêndulo da fé se deslocará do polo
da unidade para o da distinção:

A questão se liga à existência humana de Jesus e marca uma volta à sua existên-
cia histórica, relatada nos Evangelhos. Jesus distinguiu sua vontade da vontade do
Pai, que ele veio cumprir (Jo 6,38 cf Mc 15,36). Como entender isso? As luzes do 2º
Concílio de Constantinopla não foram suficientes para evitar a possibilidade de uma
interpretação monofisista da vontade e da ação humana de Jesus. Tanto que Sérgio,
patriarca de Constantinopla, baseando-se em Cirilo de Alexandria, falava de “uma única
operação teândrica” em Jesus Cristo. Tal fórmula dava margem a um entendimento
monofisista, como se há um só sujeito agente correspondesse uma só modalidade de

capítulo 4 • 106
ação, de tal modo que a ação humana viesse a ser absorvida pelo princípio divino de
atividade. Esse “mono-energismo” (mia energia) estendeu-o o monofisismo do plano da
natureza para o da atividade.
Igual problema apareceu com relação à vontade ou às vontades. Cumpria afirmar duas
vontades em Jesus Cristo, a divina e a humana, correspondentes, respectivamente, às
duas naturezas e derivar delas dois modos de agir diferentes, mas não separados. E,
nesse caso, não haveria oposição ou conflito entre vontade divina e a vontade huma-
na? Para velar esse embate, Sérgio de Constantinopla não falou de dupla vontade, nas
de “uma só vontade” em Jesus, é o que doravante se chamará “monotelismo” (DUPUIS,
1999, P 134-135).

LEITURA
Com esta última heresia cristológica do período patrístico, encerramos este tópico convi-
dando você para um aprofundamento desta questão nas seguintes leituras:
Jacques Dupuis. Introdução à cristologia. São Paulo: Loyola, 1999. Capítulo IV desenvol-
vimento histórico e atualidade do dogma cristológico, páginas 105-148.
Roque Frangiotti. História das heresias (séculos 1-VII). Conflitos ideológicos dentro do
cristianismo. Paulus, 1995.
Dom Estevão Bittencourt. As heresias cristológicas e trinitárias. Disponível em: <https://
pt.scribd.com/document/86198622/As-Heresias-Cristologicas-e-Trinitarias>. Acesso em:
20 ago. 2018.
Francisco Ailson Silva Aquino. Um breve panorama das heresias cristológicas sobre as
naturezas de Cristo. Disponível em: <https://bereianos.blogspot.com/2014/10/um-breve-
-panorama-das-heresias.html>. Acesso em: 25 ago. 2018.

A relação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo

O mistério da Santíssima Trindade é o ápice da fé cristã. Em continuidade


com o judaísmo no monoteísmo o cristianismo apresenta uma descontinuidade
na fé trinitária. Assim podemos dizer que o cristianismo é monoteísta no lato
sensu, mas não no stricto sensu, pois anuncia, crê e vive uma fé na pericorese do
Deus único em três Pessoas.
Esse tópico será abordado em dois momentos. O primeiro são os fundamentos
bíblicos da fé cristã na Trindade. O segundo serão duas abordagens sobre a Trindade:
Santo agostinho, na patrística e Leonardo Boff, na teologia contemporânea.

capítulo 4 • 107
Fundamentos bíblicos da fé trinitária

Já logo no primeiro capítulo do Gênesis encontramos uma revelação da


Trindade, após o autor sagrado narrar quase toda a criação na primeira pessoa do
singular: “No princípio, Deus criou o céu e a terra.” (Gn 1,1-25). Em Gn 1,26 na
criação do ser humano o verbo passa da primeira pessoa do singular para a primei-
ra pessoa do plural: “façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança,
e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos,
todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”.
Nos profetas de Israel encontramos uma abundante informação sobre a
Terceira Pessoa da Trindade, mas por questão didática (tempo e espaço) vou me
limitar a Ez 37, sobretudo nos versículos cinco a dez, temos aí um verdadeiro
Pentecostes do revivamento de ossos humanos ressequidos.

A revelação da trindade no segundo testamento

No Segundo Testamento em Lc 1,26-38 na anunciação temos a presença efe-


tiva da Terceira Pessoa na encarnação de Jesus Cristo: “O espírito santo virá sobre
ti, e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra; por isso o Santo que
nascer será chamado Filho de Deus.” (v.35), confirmado por Mt 1,20: “enquanto
assim decidia, eis que o anjo do Senhor manifestou-se a ele em sonho, dizendo:
“José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi
gerado vem do Espírito Santo.”
Nos relatos do batismo de Jesus temos a plenitude da revelação trinitária:

9 Naquela ocasião, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no Jordão.
10 Assim que saiu da água, Jesus viu o céu se abrindo e o Espírito descendo como
pomba sobre ele.
11 Então veio dos céus uma voz: "Tu és o meu Filho amado; de ti me agrado".
12 Logo após o Espírito o impeliu para o deserto. (Mc 1,9-12).

Episódio confirmado por Mt 3,13-17 e Lc 3,21-22. Igualmente em Mt 4,1


e Lc 4,1 afirmam a presença do Espírito Santo em Jesus durante as tentações no
deserto. Lc 4,16-19 fala que na sinagoga de Nazaré Jesus lê o profeta Isaías nos
afirma que o Espírito do Senhor está sobre Ele. Em Mt 12,22-32 Jesus diz que
realiza obras extraordinárias pelo Espírito de Deus. E afirma igualmente que o
pecado contra o Espírito Santo não tem perdão (31).

capítulo 4 • 108
O quarto Evangelho nos capítulos quatorze a dezessete revelam a pericorese
das três pessoas. Jesus afirma que quem o viu, viu o Pai (Jo 14,8-10). “Jesus é a
verdadeira vide e meu Pai é o agricultor”. Em Jo 16,7-8 o Espírito Paráclito virá.
Em Jo 17,1-26 é afirmado que Jesus e Deus são unidade perfeita (v21).
Nos Atos dos apóstolos no capítulo dois temos o Pentecostes (At 2,1-13),
mas como é natural na teologia de Lucas o livro dos Atos é repleto de Pentecostes
(At 1,2.5;2,4.12.22;4,8.31;5,3.32;6,3;7,51;8,15.29.39;9,31;10,19.38.44;11,15-
16.34;13,2.52;16,6-7;19,2 e 20,28).
Em São Paulo temos uma riquíssima pneumatologia em Romanos, Coríntios,
Gálatas, Efésios, filipenses, Tessalonicenses, Timótio e Tito. Mas vamos destacar
a missão do Espírito em Paulo em 1Cor 12 que é distribuir os dons e assegurar a
unidade entre os seguidores de Jesus Cristo, a exemplo da Trindade em comunhão
sem confusão e em distinção. É unidade na diversidade.
Por fim, João em 1Jo 4,1-2 afirma que a missão do Espírito é ajudar o cristão
confessar Jesus encarnado. E em Ap 22,17.20 o Espírito chama com a Igreja o
maranathá, Vem, Senhor Jesus.

A trindade na teologia sistemática de Agostinho e Boff

Agostinho de Hipona (354-430), africano de origem e romano por formação


é considerado pela Igreja católica um Santo e o fundador da vida religiosa con-
sagrada. Sub sua constituição se inspiram todas as constituições da vida religiosa
consagrada na Igreja católica.
No capítulo nove da obra A Trindade, Agostinho já avisa que o tema é de di-
fícil abordagem para a teologia:
Procuramos, evidentemente, a Trindade, não uma qualquer, mas a Trindade que
é Deus, o Deus verdadeiro, supremo e único. Aguarda, pois, quem quer que sejas que
isto escutas; ainda procuramos, e ninguém repreende justamente quem procura tais
coisas se, firmemente alicerçado na fé, procurar aquilo que é dificílimo de conhecer ou
de dizer. Mas àquele que afirma, rápida e justamente o censura aquele que ou melhor
vê ou melhor ensina. Buscai o Senhor e a vossa alma viverá39, está escrito. E para
que ninguém inconsideradamente se alegre como se tivesse alcançado, diz o salmista:
Procurai sempre o seu rosto40. Também o Apóstolo diz: Se alguém considera que sabe
alguma coisa, ainda não sabe do modo que convém saber. Mas aquele que ama a Deus,
esse é conhecido por ele41. E nem sequer diz que o conhece, porque essa é uma perigosa
presunção, mas diz que é conhecido por ele. Do mesmo modo, tendo dito ainda nou-
tro passo: Agora, porém, conhecendo a Deus, logo corrige, dizendo: ou melhor, sendo

capítulo 4 • 109
conhecidos por Deus42. E acima de tudo afirma neste passo: Irmãos, não considero que
o tenha atingido, somente, esquecendo o que está para trás e lançando-me para o que
está à frente, corro em direção à meta, para o prémio do celeste chamamento de Deus,
em Cristo Jesus. Todos, porém, quantos somos perfeitos, tenhamos consciência disso43.
Nesta vida, não considera perfeição outra coisa senão esquecer-se do que está para trás e
lançar-se com intenção para o que está à frente44. Bem firme é a intenção daquele que
procura, até ser alcançado o objeto para que tendemos e para o qual nos dirigimos. Mas
essa reta intenção é a que procede da fé. De facto, uma fé sólida é o início do conheci-
mento; mas um conhecimento seguro só será alcançado depois desta vida, quando vir-
mos face a face45. Por isso, tenhamos isto em conta, a fim de sabermos que é mais seguro
o desejo de procurar a verdade do que o tomar antecipadamente por conhecido o que se
desconhece. Assim, pois, procuremos como quem há-de encontrar e encontremos como
quem há-de procurar. De fato, quando o homem tiver acabado, então está no começo46

AGOSTINHO. Disponível em: <http://www.lusosofia.net/textos/


agostinho_de_hipona_de_trinitate_livros_ix_xiii.pdf>.
Acesso em: 20 ago. 2018.

Veja que Agostinho orienta a teologia a desejar o “conhecimento” do mistério,


mas a pesquisa deve transcorrer na humildade, pois depende da revelação, porém,
por conta da dificuldade o teólogo não deve deixar-se vencer pela zona de conforto
da preguiça mental nem pela arrogância de um pseudo conhecimento prévio.
Continua o mestre de Hipona sobre a distinção do crer, a fé cristã na Trindade
e o compreender, a racionalidade teológica:

Daquilo em que devemos crer, não duvidemos por nenhuma falta de fé; daquilo que
devemos compreender, nada afirmemos temerariamente: no primeiro caso, havemos
de nos manter fiéis à autoridade; no segundo, havemos de procurar a verdade. Quanto
à questão presente, acreditemos que o Pai e o Filho e o Espírito Santo são um só Deus,
que criou e governa todas as coisas; que o Pai não é o Filho, e que o Espírito Santo não
é o Pai nem o Filho, mas são Trindade de Pessoas em relação mútua, e são unidade na
igualdade da essência. Procuremos compreender isto, pedindo a ajuda daquele mes-
mo a quem queremos compreender, e, na medida em que nos é concedido, explicar
com toda a atenção e piedosa solicitude aquilo que compreendemos, a fim de que, se
também afirmamos uma coisa por outra, nada afirmemos de indigno.

capítulo 4 • 110
Como se, por exemplo, do Pai afirmamos alguma coisa que ao Pai não convenha apro-
priadamente ou convenha ao Filho ou ao Espírito Santo ou à própria Trindade; e se do
Filho afirmamos alguma coisa que ao Filho se não adeque apropriadamente, se adeque
pelo menos ao Pai ou ao Espírito Santo ou à Trindade; do mesmo modo, se alguma
coisa afirmamos do Espírito Santo que não indique uma propriedade do Espírito Santo,
não seja, contudo, estranha ao Pai ou ao Filho ou ao Deus uno, a própria Trindade,
como, por exemplo agora, que desejamos saber se o Espírito Santo é, apropriadamen-
te, o amor por excelência. Pois, se o não é, ou o Pai é o amor, ou o Filho, ou a própria
Trindade, já que não podemos levantar-nos contra a absoluta certeza da fé e a infalível
autoridade da Escritura, que diz: Deus é amor47. Mas não devemos desviar-nos do ca-
minho cometendo o erro sacrílego de afirmar da Trindade alguma coisa que convenha,
não ao Criador, mas antes à criatura48, ou seja, construída por uma vã imaginação.
AGOSTINHO. Disponível em: <http://www.lusosofia.net/textos/agostinho_
de_hipona_de_trinitate_livros_ix_xiii.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2018.

No capítulo dez, Agostinho trabalha as trilogias do conhecimento teológico


da Trindade: mente, amor e conhecimento; memória, inteligência e vontade, e
afirma que a mente humana é imagem imperfeita da Trindade: “a mente é a ima-
gem da Trindade na memória de si própria, na inteligência e na vontade” diz ele:

Devemos porventura elevar-nos desde já com as forças da nossa atenção, quaisquer


que elas sejam, para aquela suprema e sublime essência de que a mente humana é
imagem imperfeita, mas, contudo, imagem, ou porventura devemos mais uma vez, por
meio das coisas que percepcionamos exteriormente com os sentidos do corpo, onde
transitoriamente se imprime o conhecimento das coisas corpóreas, tornar mais clara-
mente conhecidas essas três faculdades na alma? Na memória e na inteligência e na
vontade de si mesma, encontrávamos uma mente tal que, porque compreendíamos que
ela se conhece sempre e se quer sempre, compreendêssemos simultaneamente que
ela também se recorda sempre de si, se compreende sempre a si mesma e se ama,
embora não compreendêssemos que ela se pensa sempre distinta das coisas que não
são o que ela própria é. Em razão disso, dificilmente se distingue nela a memória de si
mesma e a inteligência de si mesma. Que estas não são como que duas, mas uma só
coisa que se designa com dois vocábulos, deixa-se ver nesta situação em que estão
absolutamente unidas e uma não precede a outra nem um instante; e sente-se que
o próprio amor não é assim, quando a falta dele não o mostra, visto que está sempre
presente o que é amado. Por isso, podem estas coisas ser claras mesmo para os mais
ineptos, tratando-se de coisas que sobrevêm à alma no decurso do tempo e que no
tempo lhe acontecem quando recorda aquilo de que antes se não recordava, e quando
vê o que antes não via, e quando ama o que antes não amava. Mas, por causa do tama-
nho deste livrinho, este tratado pede já um outro exórdio.
AGOSTINHO. Disponível em: <http://www.lusosofia.net/textos/agostinho_
de_hipona_de_trinitate_livros_ix_xiii.pdf >. Acesso em: 20 ago. 2018.

capítulo 4 • 111
Na mesma linha de reflexão o teólogo contemporâneo Leonardo Boff afirma
no seu livro A Trindade, a sociedade e a libertação, que a abordagem teológica
deste mistério passa pelo silêncio no final do percurso:

Já no prefácio queremos expressar o que melhor caberia na conclusão. Diante do au-


gusto mistério da comunhão trinitária devemos calar. Mas calamos somente no fim do
esforço de falarmos o mais adequadamente possível daquela realidade para a qual não
há nenhuma palavra adequada. Calamos no fim e não no começo. Só no fim o silêncio
é digno e santo. No começo seria preguiçoso e irreverente. As palavras morrem nos
lábios. Os pensamentos se obscurecem na mente. Mas o louvor incendeia o coração e
a adoração faz dobrar os joelhos (BOFF. 1996, P. 19).

E logo no início do capítulo em cujo título é “no princípio está a comunhão”,


Boff nos ilumina no término deste tópico explicitando como é a relação das Três
Pessoas em Um só Deus:

No nível ontológico (que diz respeito à realidade em si mesma), a Trindade, Pai, Filho e
Espírito Santo não são outra realidade, diferente daquela buscada e encontrada pelos
corações sinceros de todos os tempos. Sempre que as pessoas tiveram um encontro
com o Mistério e com o sentido absoluto, com o decisivamente Importante em suas
vidas, entraram em contato com o Deus verdadeiro. Este Deus verdadeiro existe como
comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Os nomes podem variar, mas todos eles
apontam para esta realidade. Pode ser que os homens não tivessem consciência de
Deus enquanto Deus e, certamente, não da Trindade de pessoas, enquanto união dos
divinos Três. Mas nem por isso o que elas experimentaram deixou de ser o Deus trino e
verdadeiro. Apenas esta realidade trinitária não havia assomado às suas consciências.
(BOFF, 1986, p. 21).

Concluímos com o óbvio, que nem sempre é claro, evidente para o ser huma-
no, sobretudo nestes tempos de individualismo neoliberal, de narcisismo ciberes-
pacial (redes sociais), egoísmo que concentra riqueza nas mãos de poucos as custas
da miséria da maioria. Contra a alteridade, a solidariedade, a fraternidade e a
partilha. Há muito “compartilhamento” virtual, Facebook-WhatsApp, mas maior
ainda é a negação do outro, o próximo e do compartilhamento no face-a-face
(Mt 25,31-46 e Lc 10,29-37; 16,19-31) das riquezas materiais, e sobretudo das
relações interpessoais significativas. Portanto, o mistério da comunhão trinitária
nos interpela a construir um mundo, uma sociedade de justiça, perdão e unidade
na diversidade. E pessoas menos consumistas, menos materialistas, menos indivi-
dualistas, menos egoístas e mais altruístas, que vivam mais o Ser do que o poder,
o prazer, o ter e o aparecer.

capítulo 4 • 112
A heresia do Arianismo e a resposta dos Concílios de Niceia e de
Constantinopla: Credo Niceno-Constantinopolitano

A heresia ariana é o exemplo claro da parcialidade deste tipo de conhecimento


teológico. Toma radicalmente um aspecto autêntico da revelação e na sua evolução
unilateral deforma comprometendo o equilíbrio da reflexão teológica e sobretudo
da fé. Portanto, é uma ameaça à ortodoxia cristológica. Ário foi discípulo do ado-
cionista e subordinacionista Luciano de Antioquia. Com sua tese do Logos e uma
lógica dialética dará uma fundamentação “teológica” para esta heresia.
Segundo Frangiotti, a tese ariana pode ser resumida assim:

Deus é único, o Pai eterno, absoluto, imutável, incorruptível. Este Ser Supremo e Abso-
luto, não pode comunicar, segundo sua concepção, seu Ser, nem mesmo parcelas dele,
nem por criação, nem por geração. Se Deus não é corpo, não pode ser composto, divi-
sível. Assim, é impossível a Deus gerar um filho. Tudo o que está fora dele, portanto, foi
criado do nada. Tudo o que existe fora do Absoluto, eterno, incriado, incomunicável, são
meras criaturas. Para criar o mundo, o Deus supremo criou antes um ser intermediário
para servir de instrumento da criação. Este ser intermediário é o Logos. O Logos é
superior e anterior a todas as criaturas, mas não é eterno. É o primogênito de todas as
criaturas, as mais excelentes de todas, acima de todo o criado, mas não é igual a Deus.
Se Jesus foi gerado quer dizer que houve um tempo, um instante ao menos, em que
não era, razão pela qual não pode ser coeterno nem consubstancial, Para ele, embora
representando o sumo da humanidade, Jesus era somente uma criatura, receptáculo
do Logos. (FRANGIOTTI. 1995, P, 86-87).

Como afirmamos anteriormente, a heresia não é uma falsa tese ou uma hipó-
tese falsificável. Ela se apropria de uma parte da verdade e unilateralmente a defen-
de como se fosse a totalidade. Além deste aspecto é importante lembrar que é um
tipo de raciocínio popular que se alia à interesses políticos, econômicos e culturais.
Tanto que por ocasião do sínodo de Cesareia, na Palestina, a chegada de Ário agi-
tou esta cidade com “molineiros, marinheiros, viajantes, mercadores, camponeses”
saudarem o teólogo herético com manifestações populares. Politicamente a tese de
Ário ameaçava a unidade política e religiosa do Império, tanto que o imperador
Constantino sem sucesso buscou um consenso.
Neste contexto, realizou-se o Concílio de Niceia chamado de “santo”, “gran-
de”, “coluna contra toda heresia”. Segundo Frangiotti, contra Ário pode ser resu-
mido o símbolo ou credo niceno assim:

capítulo 4 • 113
“... um só Senhor Jesus Cristo, o filho de Deus, nascido (gerado) do Pai como o Filho
único, isto é, da substância do Pai, Deus (saído) de Deus, Luz (saído da Luz, Deus
verdadeiro (saído) do Deus verdadeiro, gerado, não feito, da mesma substância que
o Pai, por (intermédio de) quem todas as coisas foram feitas... e por nossa salvação
desceu (dos céus), se encarnou e se fez homem, sofreu e ressuscitou... (FRANGIOTTI.
1995, p.93).

Jacques Dupuis, no livro Introdução à cristologia afirma que o Concílio de


Nicéia assim respondeu à questão ariana:
Em resposta à crise ariana. O Concílio de Nicéia (325) sentencia que a filiação
divina, atribuída pelo Novo Testamento a Jesus Cristo, há de ser entendida no sen-
tido estrito. Interpretando a confissão de fé neotestamentária, no contexto da crise
ariana, o Concílio gera ulteriores explicitações, recorrendo a categorias helenistas.
Apesar da estrutura trinitária da profissão de fé nicena, o seu artigo segundo,
referente à pessoa de Jesus Cristo, adota, como fizera Ario, uma perspectiva de
baixo. Fala-se, diretamente, de Jesus Cristo, afirmando-se sua filiação divina. À
categoria bíblica do “unigênito” (monogenès) do Pai acrescenta-se, como explicita-
ção (toutestin), que ele é “da substância (ousia) do Pai, gerado (gennétos), não feito
(poiètheis) e – aqui vem o termo decisivo – “da mesma substância” (homoousis) do
Pai. Mas é preciso interpretar a palavra homoousios no contexto da época, ou seja,
respondendo à posição ariana que negava ser a divindade do filho igual à do Pai.
O Concílio sustenta, diretamente, a identidade genérica da natureza e não, como
acontecerá mais trade, a identidade numérica da natureza. O que se define é que
o Filho de Deus é tão divino quanto o Pai e igual a ele na divindade. (DUPUIS,
1999, P. 115-116).
Do ano 325 em que foi celebrado o primeiro Concílio cristológico até
o Terceiro concílio de Constantinopla no ano 681, foram dois séculos e meio
(256 anos) de enfrentamento da ortodoxia contra as múltiplas heresias que amea-
çavam o equilíbrio da fé. Ou seja, de Niceia (325), passando por Éfeso (431),
Calcedônia (451), Primeiro Constantinopla (381), Segundo Constantinopla
(553) e Terceiro Constantinopla (681). Houve pesquisa, debate, conflitos, he-
resias, anátemas, aparelhamento político e econômico da fé e consolidação da
ortodoxia cristológica. O credo niceno-constantinopolitano é o símbolo desta
evolução na direção do consenso teológico, da comunhão eclesial a imagem e
semelhança da comunhão trinitária.

capítulo 4 • 114
O Credo Niceno-Constantinopolitano

Creio em um só Deus,
Pai todo-poderoso,
Criador do céu e da terra,
de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,
Filho Unigênito de Deus,
nascido do Pai
antes de todos os séculos:
Luz da Luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro,
gerado não criado,
consubstancial ao Pai.
Por Ele todas as coisas foram feitas.
E, por nós, homens,
e para a nossa salvação,
desceu dos céus:
e encarnou pelo Espírito Santo,
no seio da Virgem Maria,
e se fez homem.
Também por nós foi crucificado
sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou ao terceiro dia,
conforme as escrituras;
E subiu aos céus,
onde está sentado à direita do Pai.
E de novo há de vir, em sua glória,
para julgar os vivos e os mortos;
e o seu reino não terá fim.
Creio no Espírito † Santo,
Senhor que dá a vida,
e procede do Pai;
e com o Pai e o Filho

capítulo 4 • 115
é adorado e glorificado:
Ele que falou pelos profetas.
Creio na Igreja
Una †, Santa, Católica e Apostólica.
Professo um só batismo
para remissão dos pecados.
Espero a ressurreição dos mortos;
E a vida do mundo que há de vir. Amém.

CONEXÃO
Acesse neste endereço eletrônico a oração do credo niceno constantinopolitano canta-
do pelos Padres conciliares em resposta ao arianismo, aos políticos, comerciantes e camadas
populares que receberam Ário com manifestações e cantos populares.
Oração do credo niceno constantinopolitano. Disponível em: <https://www.
catequesedoleigo.com.br/2017/05/o-credo-niceno-constantinopolitano.html>.
Acesso em: 20 ago. 2018.

Chegamos ao final deste quarto capítulo com a sensação de incompletude e


não do dever cumprido, pois a questão é extensa e intensa razão pela qual convido
você a dar continuidade lendo e estudando os textos indicados ao longo desta aula,
pois este tema é fundante para um teologizar fecundo na busca da verdade e na
práxis evangelizadora. Na bibliografia há outras indicações de fontes de pesquisa
teológica e ao final de cada livro na bibliografia você encontrará um referencial
teórico imenso.
A cristologia depois do descobrimento da importância de Jesus de Nazaré,
o chamado Jesus Histórico na pesquisa teológica, precisa de uma jesulogia para
abordar integralmente Jesus Cristo. Precisa igualmente articular cristologia para
cima ou ascendente com a cristologia para baixo ou descendente. Evitando as
heresias e contextualizando o seu discurso. Jesus de Nazaré é a Pena Revelação
de Deus e até a segunda vinda, maranathá, ele tem muito a nos revelar através da
pesquisa teológica e esta tem muito a oferecer às igrejas cristãs e ao povo de Deus
muita luz para a interpretação-compreensão do mundo e sobretudo para a trans-
formação deste para a realização do reino de Deus vivido e anunciado por Jesus de
Nazaré, o Cristo da fé.

capítulo 4 • 116
MULTIMÍDIA
As duas naturezas do redentor – Heber Carlos de Campos. Disponível em: <https://
www.youtube.com/watch?v=EI_bnDJtt4c>.
Aula de teologia cristologia e Trindade. Disponível em: <https://www.bing.com/
videos/search?q=video+sobre+cristologia&view=detail&mid=91F22C12131B63EF1F-
5691F22C12131B63EF1F56&FORM=VIRE >.
Debate sobre a pessoa de Cristo – heber Campos, Solano Portela,Marcos Grancona-
to e Ageu. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=Y2cRFLjKD9o&t=335s>.
Oração do credo niceno constantinopolitano. Disponível em: < https://www.cate-
quesedoleigo.com.br/2017/05/o-credo-niceno-constantinopolitano.html>.

ATIVIDADE
01. Ler o De Trinitate de Santo Agostinho e destacar os principais aspectos sobre a Trin-
dade neste clássico da teologia. Igualmente explicite o que é mente, amor, conhecimento,
memória, inteligência, vontade, Trindade Interior e Trindade exterior, homem interior e homem
exterior. Como Santo Agostinho explicita a relação das três pessoas no Deus Único? Qual a
diferença entre ciência e sabedoria (sapientiae)?
Santo Agostinho. De Trinitate. Livros IX-XIII. Disponível em: <http://www.lusosofia.net/
textos/agostinho_de_hipona_de_trinitate_livros_ix_xiii.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2018.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOFF, Leonardo. A trindade, a sociedade e a libertação. Petrópolis: vozes, 1986.
_____________.Jesus Cristo Libertador. Petrópolis: vozes, 1972.
DUPUIS, Jacques, Introdução à cristologia. São Paulo: Loyola,1999.
FRANGIOTTI. História das heresias. (séculos I-VII). Conflitos ideológicos dentro do cristianismo. São
Paulo: Paulus, 1995.
BOFF, clodovis. Teoria do método teológico. Petrópolis: Vozes,1998.
CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico. A vida de um camponês judeu do mediterrâneo. A
primeira definição abrangente de quem ea Jesus, o que ele fez e o que ele disse. Rio de Janeiro:
Imago,1994
HICK, John. A metáfora do Deus encarnado. Petrópolis: vozes, 2000.

capítulo 4 • 117
MEIER, John P. Um judeu marginal. Repensando o Jesus histórico. Rio de Janeiro: Imago, 1993. Vol.
1.e volume dois. Livro dois.
QUEIRUGA, Andrés Torres. Repensar a cristologia. São Paulo: paulinas, 1999.
SOBRINO, Jon. A fé em Jesus Cristo. Ensaio a partir das vítimas. Série II O Deus que liberta seu povo.
Coleção Teologia da Libertação. Petrópolis: Vozes, 1999.
Bíblia sagrada online. Disponível em: <https://www.bibliaon.com/>.
Dom Estevão Bittencourt. As heresias cristológicas e trinitárias. Disponível em: <https://pt.scribd.
com/document/86198622/As-Heresias-Cristologicas-e-Trinitarias>.
Francisco Ailson Silva Aquino. Um breve panorama das heresias cristológicas sobre as
naturezas de Cristo. Disponível em: <https://bereianos.blogspot.com/2014/10/um-breve-
panorama-das-heresias.html>.
Jacques Dupuis. Introdução à cristologia. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=4
qNJVvxT84wC&pg=PA51&dq=heresias+cristol%C3%B3gs&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjfvJjF9
ZrdAhWBIJAKHdG5AAkQ6AEIKDAA#v=onepage&q=heresias%20cristol%C3%B3gicas&f=false>
Santo Agostinho. De Trinitate. Livros IX-XIII. Disponível em: <http://www.lusosofia.net/textos/
agostinho_de_hipona_de_trinitate_livros_ix_xiii.pdf>.

capítulo 4 • 118
5
Soteriologia:
estudos sobre
doutrinas da
salvação
Soteriologia: estudos sobre doutrinas da
salvação

No capítulo quatro você estudou a cristologia que explicitou o local e o papel de


Jesus Cristo no plano salvífico de Deus. Para o kerigma, Jesus Cristo é o caminho, a
verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim. (Jo 14, 6). Ele é a pedra
que vós, os construtores, rejeitastes, e que se tornou a pedra angular. Pois não há
sob o céu outro nome dado aos homens pelo qual devemos ser salvos (At 4,11-12).
Agora, na unidade cinco, você estudará a questão da salvação humana a partir
dos temas: a soberania de Deus, a conversão e a salvação em Jesus Cristo, a Igreja
como canal da graça e da salvação e a vida eterna, a justificação, regeneração, san-
tificação e glorificação.
Do grego soteria, significa salvação e logia quer dizer estudo, portanto, soterio-
logia significa estudo teológico da salvação humana.

OBJETIVOS
•  Estudar a salvação humana na perspectiva cristã;.
•  Analisar a Igreja como canal da graça salvadora;
•  Compreender a pessoa humana como protagonista de sua salvação em Jesus Cristo.

A soberania de Deus

O tema da soberania de Deus remonta ao Primeiro Testamento. Na criação


segundo o texto sagrado, Deus se revela como parceiro do ser humano, mas como
soberano do processo (Gn 1-3). Ele cria tudo, dá poderes ao homem e à mulher
dá domínio e cuidado (Gn 1,26-31). E cria um Paraíso para o homem e a mulher,
com ordens claras que devem ser obedecidas para a realização plena da condição
humana (Gn 2,4-17).
Após o dilúvio o livro do Gênesis afirma que Deus fez uma aliança com Noé e
sua família, de cuidar junto com eles de toda a criação (Gn 8,20-22. 9,8-17). Em
Gn 12,1-9 Deus se revela como benção de prosperidade familiar. Mas o paradig-
ma da soberania do Deus bíblico aparece na Aliança do Sinai (Ex 19-20). Após a

capítulo 5 • 120
maravilhosa libertação da escravidão dos hebreus por mais de quatrocentos anos
no Egito. E de seu povo eleito ter percorrido um bom percurso de regeneração da
mentalidade escravista. Na grande montanha é firmada uma Aliança com “cláusu-
las” claras de soberania divina e fidelidade humana:

1 Então falou Deus todas estas palavras, dizendo:


2 Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
3 Não terás outros deuses diante de mim.
4 Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima
nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
5 Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus
zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração da-
queles que me odeiam.
6 E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus man-
damentos.
7 Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por
inocente o que tomar o seu nome em vão.
8 Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
9 Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra.
10 Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu,
nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem
o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas.
11 Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e
ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou.
12 Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o
Senhor teu Deus te dá.
13 Não matarás.
14 Não adulterarás.
15 Não furtarás.
16 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
17 Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem
o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do
teu próximo. (Êx 20,1-17).

E foi pela fidelidade a esta aliança que os profetas de Israel trabalharam por
longos anos, ou seja, pela soberania de Deus na vida do povo eleito na Aliança
do Sinai. (Is 44,9-28; Lm 1,,1-22; Br 6,1; Os 2,4-25; Am 3,1-12). E será esta a
perspectiva de Jesus, o profeta de Nazaré (Mc 6,1-5; Lc 24,19-21).

capítulo 5 • 121
A soberania divina no anúncio de Jesus de Nazaré

No centro da pregação de Jesus está o reino de Deus ou a realeza de Deus:


basileian theou. Mc 1,14-15:

Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, proclamando as boas-novas
de Deus.
"O tempo é chegado", dizia ele. "O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e
creiam nas boas-novas!"

Marcos, no início do Evangelho, revela Jesus iniciando o seu ministério público


com a soberania do Pai, o tempo, da graça, o tempo da salvação kairós cumpriu-se.
E é tempo também de conversão, metanoia de mudança pessoal e conjuntural.
Mt 6,5-16 na oração de Jesus o sujeito do diálogo é o Pai e a sua vontade deve
ser realizada aqui na terra como é no Céu:

E, quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando
em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu asseguro
que eles já receberam sua plena recompensa.
Mas, quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em
secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.
E, quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pa-
gãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos.
Não sejam iguais a eles, porque o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo
de o pedirem.
Vocês orem assim: "Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. Venha
o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.
Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia. Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoa-
mos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, porque teu é o Reino, o poder
e a glória para sempre. Amém.
Pois, se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também perdoará vocês.
Mas, se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não perdoará as ofensas de
vocês.

E a vontade de Deus é a conversão de cada um e de todos. É o perdão mútuo


para a reconciliação na comunidade dos seguidores de Jesus Cristo, para que não
falte o pão e a qualidade de vida (Jo 10,10). E condição sine qua non para que
sejamos libertos do mal.

capítulo 5 • 122
Mateus revela também que no ministério de cura de Jesus aparece a soberania
divina ou a realeza de Deus:

Depois disso, levaram-lhe um endemoninhado que era cego e mudo, e Jesus o curou,
de modo que ele pôde falar e ver.
Todo o povo ficou atônito e disse: "Não será este o Filho de Davi?"
Mas, quando os fariseus ouviram isso, disseram: "É somente por Belzebu, o príncipe
dos demônios, que ele expulsa demônios".
Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: “Todo reino dividido contra si
mesmo será arruinado, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá”.
Se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, então, subsistirá
seu reino?
E, se eu expulso demônios por Belzebu, por quem os expulsam os filhos de vocês? Por
isso, eles mesmos serão juízes sobre vocês.
Mas, se é pelo Espírito de Deus que eu expulso demônios, então chegou a vocês o
Reino de Deus.
“Ou, como alguém pode entrar na casa do homem forte e levar dali seus bens, sem
antes amarrá-lo”? Só então poderá roubar a casa dele.
“Aquele que não está comigo está contra mim; e aquele que comigo não ajunta espalha”.
Por esse motivo eu digo a vocês: Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos ho-
mens, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada.
Todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem será perdoado, mas
quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem nesta era nem na que há
de vir. (Mt 12,22-32).

Ainda Mateus, no capítulo treze, nas parábolas do semeador, do trigo e do


joio, do grão de mostarda, do fermento, da pérola e da rede revela a soberania
divina ou a realeza de Deus no ministério de Jesus (Mt 13,1-52).
E nos capítulos vinte e quatro e vinte e cinco nas “parábolas escatológicas”,
Mateus revela mais detalhes da realeza do Deus de Jesus Cristo. Sobretudo,
Mt 25, 31-46 com os pobres sentados no banco dos jurados e os cristãos no banco
dos réus e o julgamento final sendo realizado.
No capítulo vinte e seis, na oração de Jesus no Getsémani, Mateus afirma que
Jesus “com a alma triste até a morte” orou assim: “Meu Pai, se é possível, que passe
de mim este cálice: contudo não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt
26,38-39). Sobre este episódio afirma que Jesus chegou suar sangue (Lc 22,39-44)
para que a realeza de Deus se revelasse na sua doação total por nós.

capítulo 5 • 123
Se Mateus e Marcos afirmam que as últimas palavras de Jesus na cruz são de
um abandonado (Mc 15,33-34; Mt 27,45-46). Lucas e João afirmam: são de al-
guém que realizou o projeto do reino ou da realeza divina:

Já era quase meio-dia, e trevas cobriram toda a terra até as três horas da tarde;
o sol deixara de brilhar. E o véu do santuário rasgou-se ao meio.
Jesus bradou em alta voz: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". Tendo dito isso,
expirou (Lc 23,44-46).

Segundo a narrativa de João assim falou Jesus:

Mais tarde, sabendo então que tudo estava concluído, para que a Escritura se cumpris-
se, Jesus disse: "Tenho sede".
Estava ali uma vasilha cheia de vinagre. Então embeberam uma esponja nela, coloca-
ram a esponja na ponta de um caniço de hissopo e a ergueram até os lábios de Jesus.
Tendo-o provado, Jesus disse: "Está consumado!" Com isso, curvou a cabeça e entre-
gou o espírito. (Jo 19,28-30).

Jo 4,34 coloca na boca de Jesus durante seu ministério esta belíssima expressão:
“o meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra”.
Sobre a soberania ou realeza de Deus na vida de Jesus afirma o exegeta John
P. Meier, no livro um judeu marginal. Repensando o Jesus histórico, volume dois,
livro dois:

A conclusão de tudo o que vimos neste capítulo é clara. Várias falas e ações de Jesus são
fortes argumentos a favor do fato de ele, por vezes, ter falado do reino como já presente,
de alguma forma ou num certo grau, em seu ministério. Algumas das falas se referem
apenas de uma forma vaga e genérica ao ministério de Jesus como o sinal ou veículo da
presença de reino: “O reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17,21). “Felizes os olhos
que veem o que vós vedes” (Lc 10, 23). Outras falas focalizam mais especificamente
determinadas ações de Jesus como manifestações ou instrumentos da presença do
reino. O testemunho mais importante e, por conseguinte, aquela ao qual dedicamos mais
tempo, se encontra em Lc 11, 20: “Se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios,
então o reino de Deus já chegou a vós”. Com efeito, Jesus declara que seus exorcismos
são manifestações e também, no mínimo, concretizações parciais da chegada de Deus
com poder para governar seu povo no fim dos tempos. A mesma mensagem básica é
sugerida pela parábola sobre amarrar o homem forte (Mc 3, 27 parr.).

capítulo 5 • 124
Em harmonia com tudo isso, temos a resposta de Jesus aos discípulos do Batista,
apontando para os milagres de Jesus e para sua proclamação do reino aos pobres
como indicadores de que o tempo da salvação profetizado já está presente (Mt 11, 2-6
par.). Sua rejeição ao jejum voluntário para si e para seus discípulos (Mc 2,18-20 parr.)
sugere a mesma posição.
Enquanto analisamos esse material, um ponto deve merecer logo nossa atenção. As
falas mais importantes de Jesus sobre a presença do reino contêm referências às suas
ações que comunicam ou simbolizam essa presença. Como vimos repetidas vezes,
não se pode separar as palavras e os feitos de Jesus em dois conjuntos distintos de
informações, pois estão inextricavelmente entrelaçados nas tradições do evangelho.
Nesse sentido, estudiosos como Morton Smith E. P. Sanders estão certos em rejeitar
uma abordagem de Jesus que focalize mais suas falas, em detrimento de seus fei-
tos. No entanto, contra a apresentação de Smith de “Jesus the Magician”, observamos
neste capítulo como os extraordinários feitos de Jesus estão ligados com e baseados
em sua proclamação do reino vindouro, porém, de certa maneira, presente. Ademais,
como veremos na continuação desta obra, a mensagem central de Jesus sobre o reino
possuía também sua dimensão moral e ética, influenciando sua interpretação da lei
mosaica. Um mágico amoral ou antinomiano, desligado do destino escatológico e das
considerações éticas de Israel, não é o Jesus histórico que emerge das mais confiáveis
tradições de suas palavras e ações (MEIER. 1997, P. 283-284).

A conversão e a salvação em Jesus

Como o tema da conversão será exaustivamente abordado nos próximos dois


tópicos, não vamos demorar aqui. Por ora será suficiente explicitarmos o que é
conversão e o faremos com três exemplos do Segundo Testamento: Zaqueu, “o
bom ladrão” e Paulo.
É interessante que Marcos coloque no início do mistério de Jesus o chamado
do mestre de Nazaré para a conversão. Do grego temos duas palavras para mudan-
ça: metamorfose e metanoia. Marcos usa a expressão metavoeîte ou metanoia. A
metamorfose ocorre no reino animal. Veja o caso da lagarta que se transforma em
borboleta. A metanoia acontece no reino antropológico. Na metamorfose a mu-
dança acontece também por dentro, transformando o animal em outro, no caso
da lagarta se transformar em borboleta, passa de animal que “anda” para animal
que anda e voa.
Na metanoia o animal racional de Aristóteles passa para o animal espiritual
de Jesus Cristo, como a borboleta conserva algumas características da origem e
ganha novas habilidades e competências (dons): amor, perdão, paz, solidariedade,
fraternidade, altruísmo, paciência, discernimento, fé, esperança etc.

capítulo 5 • 125
A mudança provocada pela metamorfose é no corpo e na alma do animal.
A transformação provocada pela metanoia é no corpo, na alma e no espírito
(1Ts 5,23-38; Hb 4,12-13). É uma mudança de qualidade, veja como viviam os pri-
meiros convertidos nas comunidades cristãs, segundo Lucas nos Ato dos apóstolos:

De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele
dia agregaram-se quase três mil almas,
E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e
nas orações.
E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos.
E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum.
E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia
de mister.
E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam
juntos com alegria e singeleza de coração,
Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o
Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar (Atos 2:41-47).

Você ainda pode verificar com mais detalhes em At 4, 32-35; 1Cor 12,1-30;
Gl 5,13-26; Ef 5,15-33).
Temos o testemunho da famosa Carta a Diogneto sobre a vida dos primeiros
cristãos. Destacamos a capítulo cinco:

Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no
mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em
todas as partes do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os
cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível está contida num
corpo visível; os cristãos são vistos no mundo, mas sua religião é invisível. A carne
odeia e combate a alma, embora não tenha recebido nenhuma ofensa dela, porque
esta a impede de gozar dos prazeres; embora não tenha recebido injustiça dos cris-
tãos, o mundo os odeia, porque estes se opõem aos prazeres. A alma ama a carne e
os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam. A alma
está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no
mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo. A alma imortal habita
em uma tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas
que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus. Maltratada em comidas e
bebidas, a alma torna-se melhor; também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se
multiplicam. Tal é o posto que Deus lhes determinou, e não lhes é lícito dele desertar.
CARTA A DIOGNETO. Dsiponível em: <http://www.corpuschristi.org.br/newsite/
wp-content/uploads/2013/02/Carta-a-Diogneto.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2018.

capítulo 5 • 126
Convido você a lê-la na íntegra no endereço eletrônico no final da citação,
pois é um clássico que explicita bem como Lucas nos Atos dos Apóstolos a meta-
noia cristológica.
Ainda é Lucas que nos presenteia com duas metanoias. Jesus está subindo para
Jerusalém pela última vez e no caminho alguém de moral duvidosa quer vê-lo, mas
não se acha digno, então sobe na árvore pensando não ser visto, “indiscretamente”
Jesus o revela para todos e se convida para sentar-se à mesa da comensalidade. Veja
que transformação (Lc 19,1-10). Por fim, o famoso “bom ladrão” coloco entre as-
pas, porque ladrão bom não é ladrão de galinha, mas que rouba muito. Veja como
em meio a zambaria, escárnio (Mc 15,29-32; Mt 27,39-44) alguém é tocado pelo
Carpinteiro de Nazaré.
Por fim a paradigmática conversão de Saulo de Tarso em Paulo apóstolos dos
gentios (At 9,1-25). De perseguidor da causa do reino de Deus à Apóstolo da causa.
Como na metamorfose a metanoia é processo, em alguns pode ser mais rápido
em outros é lento, mas é um processo de mudança que inicia pela mentalidade,
pela consciência, atinge a alma, o espírito, a vontade, os desejos, o coração e por
fim o espírito, então aparecerá no corpo, na expressão, e sobretudo na ação, nas
atitudes, no ethos.

A igreja como canal da graça e da vida eterna

Este tema é muito importante num contexto histórico de crise das instituições
e, sobretudo pela grandeza de Jesus Cristo e do Reino de Deus. Portanto qualquer
instituição por maior e mais antiga que seja não consegue se apropriar da totalida-
de da História da Salvação de Deus em Jesus Cristo. Razão pela qual optamos por
uma abordagem ecumênica deste tema. Assim, vamos conceituar o ecumenismo
e explicitar uma eclesiologia e uma hermenêutica ecumênicas como habitat da
salvação do Deus bíblico em Jesus de Nazaré, o Cristo da fé. Pois uma teologia
ortodoxa, apologética que defenda a fé cristã precisa ser dialógica, aberta, crítica e
contextual. Mas não pode ser “doutrinação”, lavagem cerebral.

Eclesiologia ecumênica

Jacques Dupuis, teólogo católico, trabalhou muitos anos na Índia e de sua


experiência de diálogo inter-religioso com o hinduísmo chegou a algumas conclu-
sões que precisam ser lembradas aqui. Segundo ele:

capítulo 5 • 127
Trata-se, pois, de “descentralizar” eclesiologicamente a teologia das religiões, recentra-
lizando-a cristologicamente. Vale dizer que a perspectiva correta é procurar não direta-
mente a relação horizontal das outras tradições religiosas com a Igreja, mas sim a re-
lação vertical delas com o mistério de Cristo, presente e atuante no mundo. Tentemos,
então, trazer à luz as implicações imediatas dessa mudança de enfoque.
Sabe-se que determinada tradição eclesial estudou esse problema em termos de rela-
ção horizontal das religiões com o cristianismo e com o mistério da Igreja. A sentença
“fora da Igreja não há salvação” difundiu-se nessa visão restrita. Ora cumpre observar
que essa sentença “Extra ecclesiam nulla salus” tem uma origem diferente na história
da tradição. Ela foi alterada por Fulgêncio de Ruspe, que em sua obra De Fiber ad
Petrum (38,39 e 39,80: pl 65,704 AB), aplica-a não só aos pagãos, mas também aos
judeus e até aos cristãos separados da Igreja pela cisma ou pela heresia. Separar-se
da Igreja pela culpa equivale para seus membros a separar-se de Cristo, fonte da sal-
vação. Quando a máxima é citada, entre outros textos oficiais do magistério, no século
XIII, pelo Símbolo do 4} Concílio de Latrão (1215) e, no século XIV, pela bula Unam
Santctam (1302) de Bonífácio VIII, parece que se pretende aplica-la aos que se en-
contram fora da Igreja por vontade própria ou pela culpa. O primeiro texto do magistério
da Igreja que estende o uso daquela sentença dos hereges e cismáticos aos “pagãos”
e aos judeus é o Decreto para os Jacobitas (1442), do Concílio de Florença. No con-
texto histórico, o objetivo primeiro do Concílio continua sendo destiná-la aos que se
afastaram da Igreja voluntariamente e “não se reintegrarão a ela” antes de morrer.
Essas circunstâncias permitem diminuir o alcance da máxima que serviu de base para uma
visão eclesiocêntrica da salvação, indevidamente restrita. (DUPUIS. 1999, P. 210-211).

A partir desta provocação de Dupuis em diálogo com o hinduísmo, precisa-


mos dar um passo a mais sobre qual eclesiologia cristã é digna de vangloriar-se
de depósito da salvação cristã? Diante do pluralismo cristão, hoje no Brasil e no
mundo, a teologia precisa se relacionar com as diversas igrejas de forma vertical
como afirma Dupuis, ou seja, discernindo o trigo do joio (Mt 13,24-30.36-43).
Todas as igrejas que usam o cristão como identificação de servas de Jesus Cristo
e mesmo nas suas limitações, vive a fidelidade ao projeto do reino de Deus, são
habitat da salvação cristã. Daí porque o termo igreja precisa ir para o plural, igrejas
como canais da graça e da salvação cristãs.

O que é ecumenismo?

Claro que você terá este componente curricular na sua formação teológica,
portanto, não vamos abordar aqui exaustivamente a questão, mas vamos explicitar
um pouco da história do movimento ecumênico, apontar uma tese que teologica-
mente possa ser defendida como as igrejas cristãs são canais da graça e da salvação
em Jesus Cristo, e uma hermenêutica que interprete esta soteriologia.

capítulo 5 • 128
A palavra ecumenismo vem do grego, oikoumene. A raiz é do substantivo oikós
(casa, habitada terra habitada). Mais tarde, na cultura helênica, oikoumene passou
a significar a humanidade unificada por um elemento cultural e jurídico, a cultura
grega com a organização jurídica do Império Romano.
No Segundo Testamento (Novo Testamento), oikoumene significa tanto a
terra habitada Mt 24,14, quanto a unidade política do Império romano (Lc 2,1).
Portanto, no cristianismo primitivo o termo oikoumene segue a perspectiva bíbli-
ca: mundo, Império romano, mundo civilizado.

A patrística dará um novo significado ao termo oikoumene, significando tanto a exten-


são geográfica do mundo inteiro, por onde é anunciada a Boa Nova de Jesus Cristo,
quanto a universalização da Igreja. (NAVARRO, 1999, p. 9 - 12).
A palavra ecumenismo é introduzida na linguagem eclesiástica oficial através do Concílio
de Constantinopla em 381 quando este afirma que o Concílio de Niceia, celebrado no
ano de 325 foi um acontecimento ecumênico. A partir de então o termo é usado com o
significado de ortodoxia com validade universal em toda a Igreja Católica. Com a queda
do Império Romano o termo deixa de ter conotação política e passa a ter um sentido
exclusivamente eclesiástico: a oikoumene é a igreja universal. (NAVARRO, 1995).

Nesta perspectiva, o teólogo jesuíta Jesús Hortal afirma:


No sentido etimológico e histórico, ecumenismo é sinônimo de católico. Há sem dú-
vida, uma grande aproximação entre os dois conceitos. Mas, enquanto ecumênico diz
relação mais direta ao conceito de universalidade geográfica, católico significa mais a
ideia de totalidade, por oposição às partes. Católico é aquilo que pretende acolher em
seu seio a diversidade de povos e culturas; é a variedade na unidade. Ecumênico é
aquilo que, de fato, se estende ao mundo inteiro; é a unidade na extensão geográfica.
Por isso, dentre as tradicionais notas da Igreja, recolhidas no credo niceno-constan-
tinopolitano, o ecumênico se relaciona com a unidade, enquanto o católico se refere
à catolicidade (HORTAL, p. 12).

No entanto, afirma o teólogo Navarro:

Para a igreja Católica, um concílio é ecumênico apenas quando representa toda a


Igreja e quando suas decisões são confirmadas pelo bispo de Roma: em contrapartida,
para a Ortodoxia, ele só será ecumênico quando toda a Igreja espalhada pelo mundo
tiver aceitado suas decisões. Daí decorre que essas Igrejas falem de apenas sete con-
cílios ecumênicos, porque neles é exposta a “doutrina ortodoxa” aceita por todas as
Igrejas do Oriente e do Ocidente (NAVARRO, P. 10-11).

capítulo 5 • 129
Posteriormente a palavra ecumenismo será aplicada também às grandes pro-
fissões de fé da Igreja Antiga, recebendo o nome de “credos ecumênicos”: dos
Apóstolos, de Nicéia e o de Santo Atanásio.
Na patrística três teólogos são considerados “doutores ecumênicos”: Basílio, o
Grande, Gregório de Nazianzo e João Crisóstomo. O primeiro viveu entre 329 -
379, foi arcebispo de Cesaréia da Capadócia. De família cristã recebeu sólida forma-
ção, confirmada nas escolas de Cesareia e Atenas. Lutou contra o arianismo que era
muito forte nos governos de Constantino e Valente. Nessa batalha contra os arianos
ele deu continuidade na obra de Atanásio na defesa da Ortodoxia. Ameaçado pelo
imperador Valente com o sequestro dos bens, o exílio e a morte, respondeu serena-
mente: “não tenho medo do exílio, pois toda terra pertence a Deus; é impossível
sequestrar os bens daquele que nada possui; a morte seria um grande favor para mim
pois ela me unirá ao Cristo por Quem eu vivo e trabalho aqui na terra.”
Gregório (330-389), grande teólogo da ortodoxia antiga. Natural de Arianzo, ca-
padócia, estudou na Escola de Retórica de Cesária da Capadócia e na Escola Cristã de
Cesárea na Palestina. Elaborou uma nova teologia não só em terminologia e formas
dogmáticas, mas como ciência e um conhecimento mais profundo dos problemas
da fé. “Ser teólogo é ser um arauto de Deus”, afirmava Gregório. Seu labor teológico
versou sobre vários temas como Trindade, Pneumatologia, cristologia, mariologia e eu-
caristia. Graças a ele o termo Theotokos transformou-se em fundamento da ortodoxia, e
sua cristologia foi aprovada nos concílios de Éfeso (431) e Calcedônia (451).
João Crisóstomo (347-407), foi arcebispo de Constantinopla e um dos mais
importantes patronos do cristianismo primitivo. Seu legado teológico está nas
homilias, nos tratados, na liturgia e na literatura.
Porém, Orígenes é o primeiro teólogo a afirmar que a Igreja é oikoumene, “não
por princípios culturais ou jurídicos, mas pela fé e pela presença de Jesus Cristo.”

A origem do movimento ecumênico

O movimento ecumênico teve o seu início em meados do século XIX por


iniciativa dos cristãos protestantes e posteriormente reuniu ortodoxos, católicos e
pentecostais em torno de três eixos essenciais: missão, ação e doutrina.
Foi do missionário inglês William Cary, de confissão batista, o projeto de
uma reunião de todos os cristãos no Cabo da Boa Esperança para o ano de 1810,
que seria seguida de reuniões semelhantes a cada dez anos para enfrentar os desa-
fios lançados por contextos culturais, sociais e religiosos diferentes.

capítulo 5 • 130
Em 1910 uma Conferência missionária realizada em Nova York com o
tema conferência Ecumênica deu origem à Conferência Missionária Mundial de
Edimburgo em 1910 na qual foram abordados os seguintes temas: como levar
o Evangelho ao mundo; a Igreja nos campos missionários; país de origem e país
missão; mensagem missionária e religiões não cristãs; formação de missionários;
missões e governos; cooperação e promoção da unidade.
O Congresso Missionário do Panamá, em 1916, cujo tema foi a missão na
América Latina. A conferência de Jerusalém, em 1928, abordou a questão da rela-
ção entre Igrejas-mães e a Igrejas jovens; questões étnico-raciais, rurais e industriais.
Igualmente importante para a origem do movimento ecumênico foram as
Conferências de Tambaram na Índia, em 1938, com o tema das relações entre
Igreja e Estado, e a evangelização. A conferência de Witby, no Canadá, em 1947,
que abordou a questão da segunda guerra mundial e a responsabilidade das igrejas.
As conferências de Willigen, na Alemanha, em 1952, e Achinota, no Gana, que
amadureceu o discernimento do Conselho Missionário Internacional de integrar
ao conselho Mundial de Igrejas, confirmado em 1963 em Nova Délhi, na Índia.
É importante destacar também que neste grande movimento de busca da
unidade cristã a Igreja Anglicana se mostrava preocupada e interessada em reu-
nir todas as igrejas cristãs em torno de quatro eixos: 1) Sagrada Escritura: 2) Os
Símbolos de Nícéia-constantinopla; 3) Os dois Sacramentos do Batismo e da
Eucaristia; 4) O episcopado histórico.
E no início do século XX as Igrejas ortodoxas deram origem à Koinonia ton
Ekklesion (“Liga das Igrejas”), convocando todas as igrejas cristãs em todo o
mundo para a unidade.
Por fim, dois acontecimentos foram fundamentais para o nascimento do
Movimento Ecumênico. O primeiro é a criação do CMI (Conselho Mundial das
Igrejas), unificando todos os movimentos eclesiais e 344 Igrejas dos cinco conti-
nentes e da maioria das denominações protestantes, dos patriarcados ortodoxos,
muitas Igrejas pentecostais, velhos católicos e Igrejas africanas independentes.
O Conselho mundial das Igrejas (CMI), que surgiu em 23 de agosto de 1948,
em Amsterdam, na Holanda, tem como fundamento a fraternidade das Igrejas
que aceitam Nosso Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador. E os seguintes
objetivos: a) dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelos dois movimentos
mundiais de “Fé e Ordem” e “Vida e Trabalho”; b) criar facilidades para a ação
comum das Igrejas; c) promover o estudo comum; d) desenvolver a consciência
ecumênica dos fiéis de todas as Igrejas; e) estabelecer relações com as alianças
confessionais de caráter mundial e com os demais movimentos ecumênicos; f )

capítulo 5 • 131
convocar, quando as circunstâncias o exigirem, conferências mundiais que esta-
rão autorizadas a publicar suas próprias conclusões; g) sustentar as Igrejas em seus
esforços de evangelização. Esses objetivos e funções do CMI sofreram ajustes na
reunião do Comitê Central do CMI, em 1950, em Toronto no Canadá.
O segundo acontecimento importante para a criação do Movimento
Ecumênico foi a adesão da Igreja Católica Romana. Em 1959, o Papa João XXIII
convocou o Concílio Vaticano. Segundo para um ‘aggiornamento’, ou uma renova-
ção católica que foi confirmada em 1964 com a promulgação do Decreto Unitatis
Reintegratio, no qual o Concílio explicitou os princípios católicos do ecumenismo,
ou seja, a Igreja Católica Romana reconhece o Movimento Ecumênico como ade-
são das Igrejas cristãs a partir de suas próprias identidades e posições doutrinárias.

Eclesiologia ecumênica

Antes de prosseguirmos é imprescindível que você saiba que o ecumenismo


é um dom do Espírito Santo. O mestre Paulo na primeira Carta aos Coríntios
fala que há muitos Dons concedidos pelo Espírito Santo e um desses é o Dom da
unidade no seguimento de Jesus Cristo (1Cor 12,1-30).
Na Epístola aos Gálatas, Paulo formula o princípio da unidade: “não há judeu
nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós
sois um só em Cristo Jesus (Gl 3,28). Em Efésios 2,14-18 o Apóstolo afirma que
Jesus Cristo uniu a humanidade reconciliada com Deus e matou a inimizade. E
em Colossenses 1,18-20 Jesus Cristo é o reconciliador. Em Efésios 4, 1-6 temos a
convocação para a unidade. Em Gálatas 5,16-26 Paulo explicita as obras da carne,
entre as quais estão rixas, ciúmes, discussões, discórdias, divisões, invejas, e entre
as obras do Espírito estão o amor e a paz.
Na teologia de Lucas, obra essencialmente pneumatológica, sobretudo nos
Atos dos apóstolos o Espírito Santo unifica e concede o Dom do entendimento.
Em Atos 2,1-13 as diferenças não são empecilhos para o entendimento cognitivo
e da vida fraterna.
O quarto Evangelho nos apresenta o Espírito como Paráclito que faz a
annaminese, a recordação da unidade perdida (Jo 14,26) e conduz à verdade plena,
que na questão ecumênica é a unidade dos cristãos.
E na Primeira Carta, João, a partir do capítulo três, coloca os fundamentos da
vida cristã: o amor (ágape) que não deixa o irmão passar necessidade (v.17), não
odeia o irmão (v,20). E conclui São João 4,11-13:

capítulo 5 • 132
“Caríssimos, se Deus assim nos amou devemos, nós também, amarmos uns aos ou-
tros... Nisto reconhecemos que permanecemos nele e ele em nós: ele nos deu o seu
Espírito”.

Da leitura de Atos 2,42-47 podemos perceber que a comunhão dos primeiros


cristãos era ‘unidade na fé, no culto e, sobretudo no serviço’. Ou seja, a unidade
cristã tem nome, tem método e tem um telos, um fim, até porque está voltada
para a escatologia. Não é um clube do bolinha, um clube da Luluzinha, não é uma
panela. É uma comunidade unida no amor (ágape) para se edificar, louvar Jesus e
a Trindade e servir todos a partir dos mais necessitados.

Segundo o teólogo jesuíta Jesús Hortal essa tríplice unidade cristã aparece no Movi-
mento Ecumênico. Na elaboração de um credo ecumênico pela Comissão do Conselho
Mundial das Igrejas. Embora, segundo Hortal, “este seja um processo, pois a fé engloba
mistérios, que sempre são inesgotáveis, na sua formulação e nas suas consequências,
a fé nunca será anunciada e aceita em plenitude. Os diversos sistemas teológicos –
ponhamos como exemplo as teologias ocidental e oriental, dentro da própria Igreja
Católica – mostram que é possível uma certa variedade dentro da mesma fé comum.
Tarefa básica, dentro do movimento ecumênico, é tentar compreender até onde pode
chegar essa variedade, sem ferir a unidade” (HORTAL, 1989, P.149).

Ainda Segundo Hortal,

a fé tende naturalmente a expressar-se no culto, pois este não é outra coisa se-
não a celebração da fé. A fé nos coloca em contato com Deus e com seu Cristo e
esse contato provoca em nós uma atitude de reconhecimento e comunhão não
apenas interna, mas também externa, dado que o ser humano é simultaneamen-
te espiritual e corporal. Ainda mais, a vida humana tem também uma dimensão so-
cial intrínseca...A primitiva comunidade cristã de Jerusalém permanecia, como
comunidade, na fé apostólica, mas também “na fração do pão e nas orações...
A velha fórmula “lex orandi legem statuat credendi, ou simplesmente, lex orandi,
legem statuat credendi”, indica que não pode haver verdadeira unidade de fé que não
se manifeste na unidade do culto; nem unidade plena na celebração litúrgica que não
manifeste uma unidade de fé”(HORTAL,1989,P.150).

A unidade no serviço não é uma mera reunião de planejamento estratégico de


executivos ou de militantes políticos ou humanista ou ambientalistas. Não é ape-
nas uma assistência social. Não é também uma política pública de transferência de
renda nos moldes do comunismo russo, cubano ou petista no Brasil, mas o serviço

capítulo 5 • 133
da caridade (Jo 13,1-11), um Lava Pés. Um serviço de respeito (At 6,1-7). Um
serviço que eleva a dignidade humana, na defesa dos direitos fundamentais dos fi-
lhos e filhas de Deus. Um serviço na desconstrução do status quo, dos privilégios,
dos preconceitos, da discriminação, do machismo, da homofobia, da heterofobia,
do racismo, do feminismo, da injustiça, da violência, do terrorismo, da guerra.
Serviço que é a construção das condições de possibilidades da chegada do Reino
de Deus vivido e anunciado por Jesus de Nazaré.
Hortal afirma que:

toda ação da primitiva comunidade cristã brotava do fato de os cristãos eram “um só
coração e uma só alma”. Respondiam assim ao apelo de Cristo: “Este é o meu manda-
mento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15,12)” (HORTAL, 1989, P.151).

O kerigma denunciou todo pseudo serviço em nome de Jesus e, sobretudo


o não serviço em nome de Jesus. Veja Lucas 16,19-30 como a não partilha é cri-
minosa e pecaminosa. Tiago 2,1-26 fala do respeito mútuo, da partilha cristã, do
serviço caritativo como obras da fé. E 1João 3,17 pergunta: “Se alguém, possuindo
os bens deste mundo, vê o seu irmão na necessidade e lhe fecha o coração, como
permanecerá nele o amor de Deus?”
Em Mateus 25,31-46 temos a cena do julgamento final onde como cristãos
seremos os réus Jesus o Juiz e os pobres os jurados. E Mateus mostra como aqueles
que deveriam ter sido servidos por nós, os cristãos.
O serviço na caridade tem “regras”, metodologia (Mt 6,1-4). É um serviço
ágape de promoção da dupla cidadania: a terrestre e a celeste.
Assim a Unitatis Redintegratio fala de conversão do coração para este serviço
que gera a união dos cristãos:
Não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. É que os anseios de
unidade nascem e amadurecem a partir da renovação da mente (24), da abnega-
ção de si mesmo e da libérrima efusão da caridade. Por isso, devemos implorar do
Espírito divino a graça da sincera abnegação, humildade e mansidão em servir, e da
fraterna generosidade para com os outros. Portanto - diz o Apóstolo das gentes - eu,
prisioneiro no Senhor, vos rogo que vivais de modo digno da vocação a que fostes
chamados, com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns
aos outros em caridade, e esforçando-vos solicitamente por conservar a unidade do
Espírito no vínculo da paz (Ef. 4, 1-3). Esta exortação visa, sobretudo, aqueles que

capítulo 5 • 134
foram elevados à sagrada Ordem na intenção de que seja continuada a missão de
Cristo, que entre nós «não esteve para ser servido, mas para servir (Mt. 20,28).
Também das culpas contra a unidade, vale o testemunho de S. João: Se dis-
sermos que não temos pecado, fazemo-lo mentiroso e a sua palavra não está em
nós» (1 Jo. 1,10). Por isso, pedimos humildemente perdão a Deus e aos irmãos
separados, assim como também nós perdoamos àqueles que nos ofenderam.

Lembrem-se todos os cristãos de que tanto melhor promoverão e até realizarão a


união dos cristãos quanto mais se esforçarem por levar uma vida mais pura, de acordo
com o Evangelho. Porque, quanto mais unidos estiverem em comunhão estreita com
o Pai, o Verbo e o Espírito, tanto mais íntima e facilmente conseguirão aumentar a
fraternidade mútua. (UR7).

É isto que compreendemos teologicamente por eclesiologia ecumênica. Igrejas


irmãs em diálogo cristológico contra todo sectarismo (Mc 9,38-40) na defesa da
vida humana e de toda a criação, sobretudo na defesa dos empobrecidos e excluí-
dos do mercado neoliberal.

Hermenêutica da koinonia

A hermenêutica é a "arte da interpretação e da comunicação das verdades


Reveladas nas Sagradas Escrituras, nos documentos das Igrejas e sobretudo da
realidade do povo de Deus. O mestre Paulo Freire afirma que a primeira leitura
é a leitura de mundo. E a primeira interpretação também é a interpretação do
mundo que nos rodeia. No "mito da caverna", ou melhor, na metáfora da caverna
Platão mostra como é o olhar hermenêutico do filósofo liberto das correntes do
senso comum. Liberto das correntes e saindo da caverna o ex-prisioneiro ao ser
iluminado pela luz do conhecimento interpreta a luz, ou seja, sai da aparência, da
sombra para a essência, para o real.
Ao contemplar esta realidade verdadeira, segundo Platão ele deverá voltar à
caverna e libertar seus colegas. Karl Marx, falando da mesma questão vai falar de
ideologia, e alienação, fetichização, que na religião surte o efeito do ópio ou do
crack no dependente químico. Um verdadeiro feitiço (fetiche) na massa cinzenta
do intérprete. A hermenêutica e a exegese devem “exorcizar o demônio” da desu-
nião na busca da koinonia.
Razão pela qual pensamos ser relevante e pertinente este tema para a ecumenici-
dade contemporânea, pois as divergências nas hermenêuticas cristãs podem semear

capítulo 5 • 135
o Joio e não o trigo (Mt13,24-30.36-43), podem apagar o fogo com balde de gaso-
lina. A diversidade é salutar, a divergência, a falta de consenso teológico é diabólico.
Para este tema é bom que você leia Paul Ricouer, o conflito das interpretações,
é o mesmo filósofo que afirma ser 'cada ponto de vista uma vista de um ponto'.
A função do teólogo não é colocar seu ponto de vista que está sendo visto de um
ponto, mas explicitar o ponto de vista da sua Tradição cristã à luz da Revelação e
dos anseios do povo de Deus.
Segundo Wolff, esta hermenêutica exige dos teólogos uma metanoia para o
teologizar na koinonia:

a doutrina romana afirma o princípio eclesiologico da comunhão com base nos se-
guintes critérios: 1) a subsidiaridade e a participação de todos nas relações internas
à Igreja; 2) o reconhecimento de uma maior comunhão com as igrejas separadas; 3)
a equilibrada articulação entre as dimensões institucional/visível é mistérica/invisível
da Igreja. Da parte das outras Igrejas, a diferença da doutrina católica, está sobretudo
no pouco acento dado ao aspecto da visibilidade institucional da comunhão: "nossas
Igrejas não estão prioritariamente preocupadas com questões de 'ordem' eclesiástica,
mas com 'fé, vida e testemunho'. Isso significa que a missão é mais importante do que
a vida interna das Igrejas". contudo constata-se no movimento ecumênico latino-ame-
ricano a tentativa de equilibrar na Igreja-comunhão o visível e o invisível pela unidade
na fé, na vida e no testemunho.
O desafio na reflexão ecumênica é fazer com que as diferentes compreensões da
comunhão na Igreja se encontrem no diálogo doutrinal capaz de influenciar as estru-
turas da koinonia no interior das tradições eclesiais. Para isso, deve-se explorar as
possibilidades de uma hermenêutica da comunhão possível para as diferentes Igrejas
e o próprio movimento ecumênico. A base é a Tradição cristã, na qual o mistério divino
identifica-se com a Pessoa de Jesus Cristo, que nos mostra o Pai e dá o seu Espírito
como herança, numa comunhão de pessoas, vivendo a unidade na diversidade e con-
vocando a humanidade à participação da koinonia divina, ao mesmo tempo em que se
apresenta também como modelo para a formação da Igreja.
Assim, a melhor da realidade divina é, naturalmente, a hermenêutica da comunhão.
Essa hermenêutica favorece a sintonia teológico-pastoral das igrejas que buscam su-
perar as divergências na fé buscando os fundamentos comuns, sobretudo no horizonte
bíblico cristológico e trinitário. As tradições particulares assumem um sentido universal
quando integradas nesses horizontes maiores.
Essa hermenêutica é privilegiada pela teologia ecumênica, pelo seu escopo do conce-
ber o mistério da unidade da Igreja tendo como modelo e princípio a Trindade (WOLFF,
2002, P 179-181).

capítulo 5 • 136
Ainda segundo Wolff (2002, p181-184), “esta hermenêutica apresenta quatro
princípios para o teologizar e para a koinonia. O primeiro é o princípio bíbli-
co. “No movimento ecumênico a palavra hermenêutica tem sido aplicada, quase
exclusivamente, à compreensão dos vários modos vários modos como a bíblia é
interpretada nas diferentes tradições eclesiais, e à tentativa de clarear a relação
entre hermenêutica e unidade cristã. A convicção é que a bíblia fornece as bases
indispensáveis da unidade, como a revelação de Deus a um povo e a resposta deste
à proposta que Deus faz de reuni-lo em comunidade.”
O segundo princípio é o eclesiológico, nas palavras de Wollf “a comunhão
interna é imagem da Trindade e externa em relação ao mundo. Essa perspectiva
eclesiológica foi assumida pelo movimento ecumênico compreendendo a unidade
da igreja como koinonia. Assim, as igrejas e os cristãos empenhados na busca da
unidade procuram manifestar uma compreensão da igreja como comunhão valo-
rizando a sua ressonância bíblica e teológica.”
O terceiro princípio é a unidade na diversidade, segundo Woff: “a unidade
desejada não anula as diferenças, enquanto não contraditórias, mas se realiza nelas
e a partir delas, de modo que a unidade na diversidade é o horizonte da comunhão
eclesial aspirada. Unidade não é uniformidade, não anula as partes e nem as eli-
mina. Trata-se antes da unidade no único espírito, o de Jesus Cristo descobrindo
o significado profundo da particularidade das diferenças.”
O quarto princípio é a hierarquia das verdades que segundo Wolff “a ideia da
existência de uma “hierarquia” nas verdades da fé implica na hermenêutica de uma
teologia ecumênica por considerar a doutrina como um complexo estruturado do
cujo centro alguns artigos estão mais próximos do que outros... Esse fundamen-
tum é compreendido como sendo o mistério da morte de Jesus, como centro do
mistério de Cristo e manifestação da Trindade.”
Como vimos, esta unidade não é fruto somente dos projetos das igrejas cristãs,
claro que precisa deles, pois quem não tem um projeto não chega a lugar algum.
Mas a comunhão eclesial tem uma dimensão sobrenatural, e o teólogo ou a teólo-
ga devem ser os primeiros a explicitarem esta dimensão, pois as igrejas organizadas
administrativas e pastoralmente não são organizações empresariais, mas comuni-
dades de fé, amor e esperança.
Veja novamente Atos 2,1-13 é o Espírito de Deus que dá o dom do entendi-
mento e é ele que move para o koinonia At 2,42-47, pois provocou a metanoia da
partilha At 4,32. A unidade, portanto, é fruto da vontade e da organização insti-
tucional, mas, sobretudo da interação do Espírito de Deus nesta organização da

capítulo 5 • 137
ecumenicidade, então o labor teológico encontra aí sua tarefa principal, explicitar
racionalmente os pressupostos da fé do movimento ecumênico, não como política
da ONU para a paz no mundo, não como política pública de transferência de
renda, não como pactos de paz, não como política de boa vizinhança, mas como
uma comunhão de espírito, pois seu fundamento é o Espírito do ressuscitado e
sua meta é a Trindade.

Justificação, regeneração, santificação, glorificação

Caro aluno, esta é a última estação desta viagem acadêmica rumo a uma com-
preensão teológica (racional) da salvação de Deus em Jesus Cristo de toda a cria-
ção. Como você estudou até aqui “há uma dialética ou interação mútua entre cris-
tologia e soteriologia”. Jesus Cristo é o salvador universal porque Deus o colocou
no centro da salvação, como caminho, verdade e vida (Jo 10,10). Mas esta tese não
pode ser vista na perspectiva do cristocentrismo tradicional que exclui as religiões
de matriz africana, asiática e indígena. Daí a necessidade de uma cristologia cós-
mica na linha dos profetas de Israel (Is 9,1-6.11,1-9).

Justificação e regeneração

Penso que esses temas abordados na ótica de Paulo aos Romanos e Tiago dão
uma compreensão holística da situação. Primeiro porque o Apóstolo dos gentios
analisou profundamente esta questão a partir da experiência de pecado da co-
munidade cristã de Roma que estava profundamente “inculturada” na vida do
Império, numa zona de conforto perigosa (Rm 1-2) e Paulo convida esta comuni-
dade a sair desta zona de conforto, convida ao êxodo. E Tiago porque vai analisar
a importância das obras, das ações concretas, das práxis cristã.
Partindo da tese que todos, tanto judeus como os gregos, estão debaixo do pe-
cado (Rm 3,9.; 5,12), A Carta aos Romanos 4,1-12 usando a metáfora abraâmica
centraliza a justificação e a regeneração pela fé, independente da circuncisão e da
lei. “Tendo sido, pois justificados pela fé, estamos em paz com Deus por nosso
Senhor Jesus Cristo, por quem tivemos acesso pela fé, a esta graça, na qual estamos
firmes e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Rm 5,1-2). Ainda no
capítulo cinco é afirmado que o cristão pode se gloriar até mesmo nas tribulações

capítulo 5 • 138
a partir do princípio da esperança, pois o dom da graça de Deus em Jesus Cristo
“foi derramado sobre todos” destruindo até a morte (Rm 5,12-19).
E em Rm 6,1-11 Paulo afirma a força do batismo no processo de justificação e
regeneração em Cristo Jesus. Batizar é morrer com Jesus para o pecado e ressusci-
tar com Cristo para a fé, o amor e a esperança. Para a vida nova (Ef 4,17-5,1-20).
A nova pessoa em Jesus Cristo travará uma batalha interior para a sua salvação
(Rm 7,14-20). Ou seja, participa do processo de regeneração, não é passivo espe-
rando somente a graça divina, mas vai ao encontro dela. Mas é Deus quem justifica
(Rm 8,33) e regenera através da metanoia. Portanto, esse processo é o encontro de
duas liberdades de Deus que quer salvar quem Ele quiser (Mt 20,1-16) indepen-
dente do tempo (Kronos), mas no tempo da graça (Kairós).
Vale a pena fazer uma interface com a Carta aos Hebreus que defende a tese
de Jesus como mediador da nova aliança (Hb 9,15), mas por questão de tempo e
espaço deixo o convite para você fazer uma leitura teológica dessa Carta na linha
da justificação pela fé (Hb 11,1-40).
Na direção do serviço Tiago preocupado com o escândalo da pobreza no meio
dos cristãos (Tg 2,1-13), com a desigualdade, pergunta: não escolheu Deus os
pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que pro-
meteu aos que o amam? (Tg 2,5). E em seguida desafia uma fé gnóstica, abstrata,
desencarnada, descomprometida com o próximo, especialmente os pobres a se
sustentar fiel ao sacrifício de Jesus Cristo por nós. O que pode uma fé sem obras,
pergunta Tiago à sua comunidade (Tg 2,14-26) E conclui que o Cristão é justifi-
cado também pelas obras e não simplesmente pela fé. Obras de amor ao próximo,
de serviço de libertação, de inclusão, de cidadania.
A teologia de João concorda com Tiago na importância da alteridade, da soli-
dariedade e do serviço pela irradiação da pobreza:

Qualquer que odeia a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida tem a
vida eterna permanecendo nele.
Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida
pelos irmãos.
Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas
entranhas, como estará nele o amor de Deus? (1 João 3:15-17)

capítulo 5 • 139
E continua João sobre a importância da fidelidade ao amor (ágape) para a
plenitude da justificação:

E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está
em amor está em Deus, e Deus nele.
Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança;
porque, qual ele é, somos nós também neste mundo.
No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem
consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor.
Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro.
Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a
seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?
E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão.
(1 João 4:16-21)

Paulo em 1Cor 13,13 alargará a justificação em Jesus Cristo colocando os três pila-
res Fé, esperança e o amor (caridade), amor serviço, com o primado do amor. “Agora,
portanto, permanecem fé, esperança, caridade. A maior delas, porém, é a caridade”.

Santificação e glorificação

No primeiro Testamento Deus já chama seu povo à santidade Lv 19,2: “sede


santos porque eu, Yahweh vosso Deus, sou Santo.” Agora em Jesus ressuscitado mais
ainda. Até porque na Constituição do cristão (Mt 5-7) Jesus nos chama à santidade:
“Portanto, deveis ser perfeitos como o vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 5,48).
Santidade é a vida vivida em permanente metanoia. Não em permanente me-
tamorfose, mudanças de aparência, mudança para manter o status quo, manter a
desigualdade, manter a injustiça, manter a concentração de riqueza e o aumento da
pobreza, o aumento da exclusão, da violência e da negação da vida para a maioria.
A santificação é processual, cada dia e todo dia como adesão ao ethos cristão,
como seguimento de Jesus Cristo na fé no amor e na esperança.
Na “luta do homem interior” (Rm 8,14-20) que vive uma vida nova a cada dia
em Jesus ressuscitado (Ef 4,17-5,1-20).
A glorificação é na ressurreição de Jesus como afirma Paulo em 1Cor 15,1-
58. Nos versículos 14-19 Paulo fala do buraco negro da existência se Cristo não
tivesse ressuscitado. E volta afirmar a justificação e regeneração na ressurreição do
Nazareno nos versículos 20-22.

capítulo 5 • 140
Depois nos versículos 35-58 explicita o modo da ressurreição e da glorificação do
cristão, da cristã. Pela profundidade do texto vale a pena finalizarmos com sua leitura.

Mas alguém dirá: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão?
Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer.
E, quando semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas o simples grão, como
de trigo, ou de outra qualquer semente.
Mas Deus dá-lhe o corpo como quer, e a cada semente o seu próprio corpo.
Nem toda a carne é uma mesma carne, mas uma é a carne dos homens, e outra a
carne dos animais, e outra a dos peixes e outra a das aves.
E há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a
dos terrestres.
Uma é a glória do sol, e outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas; porque uma
estrela difere em glória de outra estrela.
Assim também a ressurreição dentre os mortos. Semeia-se o corpo em corrupção;
ressuscitará em incorrupção.
Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará
com vigor.
Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também
corpo espiritual.
Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o últi-
mo Adão em espírito vivificante.
Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual.
O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu.
Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os ce-
lestiais.
E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem
do celestial.
E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus,
nem a corrupção herdar a incorrupção.
Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos sere-
mos transformados;
Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta
soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.
Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que
é mortal se revista da imortalidade.
E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se
revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a
morte na vitória.
Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?
Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.

capítulo 5 • 141
Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.
Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra
do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor. (1 Coríntios 15:35-58)

Concluímos esta viagem pela História da salvação que inicia na criação, passa
pela libertação da escravidão do Egito e do pecado e continua até a parusia: maran
atha, Vem, Senhor Jesus (Ap 22,17.20). O A coloca Apocalipse coloca o maran
atha em termos de esperança. Mas Paulo o usa como advertência: Se alguém não
ama o Senhor, seja anátema! Maran atha (1Cor 16,22). O que combina com Mt
25,31-46. Segundo Mateus o final pode não ser feliz para todos, sobretudo para
aqueles que não serviram os mais necessitados. Por isso regeneração, justificação,
santificação e glorificação em Cristo por tudo que Jesus de Nazaré viveu e fez por
nós, da encarnação até a ascensão. Mas ainda não pelo que não fazemos Nele, por
Ele e para Ele, no próximo. Maran atha.

ATIVIDADES
01. Após ler o texto do professor Mario de França Miranda. A salvação de Jesus
Cristo. A doutrina da graça. Páginas 13-45. Disponível em: <https://books.google.
com.br/books?id=zYH1ORNH2wcC&printsec=frontcover&dq=salva%C3%A7%
C 3 % A 3 o & h l = p t - B R & s a = X & v e d = 0 a h U K Ew j D o - 2 X u 6 z d A h U EC 5 A K H f o R DY
IQ6AEIKDAA#v=onepage&q&f=false>.
Após a leitura analítica destaque os seguintes pontos:
Como o texto destaca a irrupção do Reino de Deus no centro da história?
Como é analisado o papel de Jesus Cristo na criação-redenção?
Por que segundo o texto o ser humano é chamado a entrar no reino?
Por que a humanidade foi eleita em Jesus Cristo?

02. Depois leia a Carta a Diogneto. Disponível em: <http://www.corpuschristi.org.br/


newsite/wp-content/uploads/2013/02/Carta-a-Diogneto.pdf>.
E faça uma correlação com Mt 25,31-46; Jo 17,1-26; At 2,42-47; 4,32-34; Tg 2,1-26;
1Jo 3,17-23.4,20-21.
Objetivos da atividade
•  Elaborar um texto acadêmico
•  Usar a linguagem padrão
•  Seguir as normas da ABNT

capítulo 5 • 142
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bíblia Online. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/>.
Carta a Diogneto. Disponível em: http://www.corpuschristi.org.br/newsite/wp-content/
uploads/2013/02/Carta-a-Diogneto.pdf>.
DUPUIS, Jacques. Introdução à cristologia. São Paulo: Ed. Loyola, 1999.
WOLLFF, Elias. Caminhos do ecumenismo no Brasil. História – Teologia -Pastoral. Paulus, São
Paulo, 2002.
HORTAL, Jesus, S J. E haverá um só rebanho. História, doutrina e prática católica do ecumenismo.
Loyola, São Paulo,1989.
MEIER. John P. Um judeu marginal. Repensando o Jesus Histórico. Volume dois. Livro dois. Rio de
Janeiro: Ed. Imago, 1997.
NAVARRO, Juan Bosch. Loyola, São Paulo, 1989.
Unitatis Redentegratio. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_
council/documents/vat-ii_decree_19641121_unitatis-redintegratio_po.html>.

GABARITO
Capítulo 1

O texto deve ser dissertativo (inédito), ter de duas a cinco laudas, explicitar o rigor e a
precisão da abordagem científica a partir da fala dos cientistas no vídeo como funciona o
universo – estrelas.
Mostrar a dimensão fantástica, antropomórfica, ‘criativa’ e sobretudo o uso da imaginação
na abordagem mítica que aparece o mito da criação da babilônia.

Capítulo 2

Nesta atividade acadêmica o aluno deverá demonstrar que leu o texto de apoio, leu os
textos bíblicos citados no corpo do texto de apoio e assistiu pelo menos um vídeo sobre an-
geologia.
Apresentar uma compreensão teológica do tema, demonstrando uma evolução em rela-
ção à religiosidade popular ou senso comum.

capítulo 5 • 143
Capítulo 3

Na avaliação desta tarefa, serão utilizados os seguintes critérios:


Utilização da norma padrão da Língua Portuguesa e das normas da ABNT.
Compreensão dos textos estudados.
Capacidade de análise do conteúdo e síntese de ideias.
Identificação dos conceitos-chave dos conteúdos estudados.
Após a formatação do seu texto poste-o na ferramenta indicada no ambiente Virtual
de aprendizagem.

capítulo 5 • 144

Você também pode gostar