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CRIMES: A BARBÁRIE SOCIAL

Direito Penal III – Parte Especial

È na parte especial, bem como em outras leis especiais, que estão definidas as infrações
penais com as suas correspondentes sanções.

Estrutura da Parte Especial

Critérios utilizados pelos legisladores para a sistematização dos crimes na Parte Especial

-Divisão estabelecida pelo Direito Romano-com base no processo, na jurisdição ou na


pena.

-Crimes contra o Estado

-Influência canônica - passaram a figurar nos códigos em primeiro lugar os crimes contra
Deus e a religião.

-Hoje está sistematizada de acordo com a natureza e importância do objeto jurídico


tutelado pelos tipos penais:

VIDA, INTEGRIDADE CORPORAL, HONRA, PATRIMÕNIO, etc.

Inicia-se com as figuras típicas que atentam contra bens ou interesses individuais até
chegar aos crimes contra os interesses do Estado como poder administrativo.

Classificação da Lei Penal

A Parte Especial é dividida em 11 Títulos. Os Títulos estão divididos em Capítulos. E


certos Capítulos estão divididos em Seções.

Título I-Dos crimes contra a pessoa.

Título II-Dos crimes contra o patrimônio.

Título III-Dos crimes contra a propriedade imaterial.

Título IV-Dos crimes contra a organização do trabalho.

Título V-Dos crimes contra o sentimento religioso e contra o respeito aos


mortos.

Título VI-Dos crimes contra os costumes.

Título VII-Dos crimes contra a família.

Título VIII-Dos crimes contra a incolumidade pública.

Título IX-Dos crimes contra a paz pública.

Título X-Dos crimes contra a fé pública.

Título XI-Dos crimes contra a administração pública.

Por exemplo, o Título I está dividido em seis capítulos:

I-dos crimes contra a vida; II-das lesões corporais; III-da periclitação da vida e
da saúde; IV-da rixa; V-dos crimes contra a honra e VI-dos crimes contra a
liberdade individual.
Por fim, o capítulo VII do Título I, que trata dos crimes contra a liberdade individual, está
dividido em quatro seções:

I-dos crimes contra a liberdade pessoal; II-dos crimes contra a inviolabilidade do


domicílio; III-dos crimes contra a inviolabilidade de correspondência e IV-dos crimes
contra a inviolabilidade dos segredos.

CLASSIFICAÇÃO DAS LEIS PENAIS

a)Leis incriminadoras – descrevem crimes e cominam penas, proibindo (crimes


comissivos) ou impondo (crimes omissivos). No Código Penal vigente, figuram a partir do
art. 121.

b)Leis não incriminadoras – não descrevem crimes, nem cominam penas

---Leis não incriminadoras permissivas – tornam lícitas determinadas condutas. São as


que não consideram como ilícitos ou isentam de pena o autor de fatos que, em tese, são
típicos. Arts. 23, 24 e 25 (estado de necessidade, legítima defesa, estrito cumprimento
do dever legal e exercício regular de direito); do art. 142 ( imunidades nos crimes contra
a honra); do art. 348, parág. 2º (imunidades no crime de favorecimento pessoal); dos
arts. 20 e 21 (erro sobre o elemento do tipo e sobre a ilicitude do fato); do art. 26
(inimputabilidade) etc.

---Leis não incriminadoras finais, complementares ou explicativas – esclarecem o


conteúdo de outras normas e delimitam o âmbito de sua aplicação. São preceitos
explicativos os conceitos de “reincidência” (art. 63) de “casa” (art. 150, parág. 4º.) de
“funcionário público” para os efeitos penais (art. 327), bem como as regras sobre a
aplicação da lei penal (art. 1º. e ss), as referentes à aplicação da pena (arts. 59 e 60) etc.

Estrutura do Tipo Penal

-Conceito analítico do crime = Fato típico e ilícito

Fato típico:

a)conduta (dolosa ou culposa) = vontade, finalidade, exteriorização,


consciência;

b)resultado (nos crimes materiais);

c)nexo causal (nos crimes materiais);

d)tipicidade

É na Parte Especial que se individualiza o tipo, que se descreve precisamente o fato a


que o caso concreto deve ajustar-se para constituir crime.

Elementos do tipo penal

-Sendo o tipo a descrição do comportamento ilícito e compreendendo as características


ou elementos objetivos (tipo objetivo) e subjetivo (tipo subjetivo) do fato punível, o
exame destes é o fulcro do estudo dos crimes em espécie. Por essa razão, ao discorrer
sobre a matéria referente à Parte Especial, dividimos os capítulos em itens
correspondentes aos elementos objetivos (conduta, objeto material, etc) e ao
elemento subjetivo, além de destacar a objetividade jurídica e os sujeitos do
delito, a consumação e a tentativa e, eventualmente, as questões de distinção com
outros delitos (concurso aparente de normas), concurso de crimes, ação penal etc.

a)objetivos-referem-se ao aspecto material do fato. São elementos objetivos:


o objeto do crime, o lugar, o tempo, os meios empregados, o núcleo do tipo (verbo) etc;

b)normativos-ao contrário dos descritivos, seu significado não se extrai da mera


observação, sendo imprescindível um juízo de valoração jurídica, social, cultural,
histórica, política, religiosa, bem como de qualquer outro campo do conhecimento
humano. A parecem sob a forma de expressões como ”sem justa causa”,
”indevidamente”, ”documento”, “funcionário público”, “mulher honesta”, “dignidade”,
”decoro”, etc

c)subjetivos-são os que pertencem ao campo psíquico-espiritual e ao mundo da


representação do autor. No elemento subjetivo do tipo, o legislador destaca uma parte
do dolo e a insere expressamente no tipo penal. Essa parte é a finalidade especial, a qual
pode ou não estar presente na intenção do autor. Frise-se que o dolo é elemento da
conduta e não do tipo.

Importante! Um crime só pode ser punido como culposo quando houver expressa
previsão legal (art. 18, parágrafo único, do CP). No silêncio da lei, o crime só é punido
como doloso.

Objeto jurídico do crime = bem jurídico protegido pela norma penal. É a vida, no
homicídio; a integridade corporal, nas lesões corporais; o patrimônio, no furto; a honra,
na injúria.

Objeto material do crime = é a pessoa ou coisa sobre as quais recai a conduta. É o


objeto da ação. Assim, o objeto material do homicídio é a pessoa; no furto é a coisa
alheia móvel (sobre a qual incide a subtração). Há casos em que se confundem na
mesma pessoa o sujeito passivo e o objeto do crime, por exemplo, no crime de lesões
corporais a pessoa que sofre a ofensa à integridade corporal é, ao mesmo tempo, sujeito
passivo e objeto material do crime previsto no art. 129 do CP. Não confundir o objeto
material do crime e o “corpo de delito”, ainda que possam coincidir. Este é o conjunto de
todos os elementos sensíveis do fato criminoso, como prova dele, incluindo-se os
instrumentos, os meios e outros objetos (arma, vestes da vítima, papéis, etc.).

Modelo descritivo do tipo

Tipo normal-só contém elementos objetivos (descritivos)

Tipo anormal-além dos objetivos, contém elementos subjetivos e normativos.

Tipo fundamental ou básico-é o tipo que se localiza no caput de um artigo e contém os


componentes essenciais do crime, sem os quais este desaparece (atipicidade absoluta)
ou se transforma em outro (atipicidade relativa)

Tipo derivado-são os que se formam a partir do tipo fundamental, mediante


circunstâncias que o agravam ou atenuam. Localiza-se nos parágrafos dos tipos
incriminadores fundamentais. O tipo qualificado consiste na agravação em um dos
limites abstratos da pena. Ganha certa autonomia do tipo fundamental, denominando-se,
por isso, tipos derivados autônomos. A causa de aumento consiste em um aumento em
determinado percentual. No caso de atenuação, surge o tipo privilegiado.

DO RESULTADO

Conceito-é a modificação do mundo exterior provocada pela conduta do agente.

Resultado e evento.

São institutos diversos. Evento é qualquer acontecimento. Resultado é a conseqüência


da conduta humana, ou seja aquilo produzido por uma conduta dolosa ou culposa do
homem.
Assim, estão excluídos do conceito de resultado os fenômenos da natureza, a hipóteses
de caso fortuito ou força maior, o comportamento de animais irracionais etc. Estes
constituem eventos.

Classificação dos crimes de acordo com o resultado.

Crime material – só se consuma com a produção do resultado naturalístico, como a


morte para o homicídio; e se o resultado não ocorrer, pune-se a tentativa;

Crime formal – o tipo não exige a produção do resultado para a consumação do crime,
embora seja possível a sua ocorrência. Assim, o resultado naturalístico, embora possível,
é irrelevante para que a infração penal se consume. É o caso da ameaça (art. 147) em
que a consumação dá-se com a prática do fato, não se exigindo que a vítima realmente
fique intimidada ou da extorsão mediante seqüestro. A lei antecipa o resultado no tipo;
por isso são chamados crimes de consumação antecipada.

Crime de mera conduta – o resultado naturalístico não é apenas irrelevante, é


impossível. Ex.: crime de desobediência; crime de violação de domicílio (não existe
nenhum resultado que provoque modificação no mundo concreto);

Crime de dano – exige uma efetiva lesão ao bem jurídico protegido para a sua
consumação; homicídio – lesão à vida; furto – lesão ao patrimônio; injúria – lesão à
honra.

Crime de perigo – para a consumação, basta a possibilidade de dano, ou seja, a


exposição do bem a perigo de dano.

Subdivide-se em:

a - crime de perigo concreto, quando a realização do tipo exige a existência de uma


situação efetiva de perigo (o perigo deve ser efetivamente comprovado), como no caso
de perigo de contágio venéreo – art. 130 – e exposição ou abandono de recém-nascido –
art. 134;

b- crime de perigo abstrato, no qual a situação de perigo é presumida (não necessitando


de comprovação), como no caso de quadrilha ou bando (art. 288),em que se pune o
agente mesmo que não tenha chegado a cometer nenhum crime e omissão de socorro
(art. 135); omissão de notificação de doença;

c - crime de perigo individual – são os que expõem a risco o interesse de uma só pessoa
ou de grupo limitado de pessoas (arts. 130 a 137);

d - crime de perigo comum (ou coletivo) – são os que expõem a risco número
indeterminado de pessoas (ex.: incêndio);

Quanto ao meio de execução:

Crime comissivo - é o praticado por meio de ação;

Crime omissivo – é o praticado por meio de uma omissão;

Crime omissivo próprio;

Crime omissivo impróprio;

Quanto à duração do momento consumativo:

Crime permanente – o momento consumativo se prolonga no tempo por vontade do


agente. No seqüestro ou cárcere privado, por exemplo, a consumação se prolonga todo o
tempo em que a vítima permanecer em poder do seqüestrador.
O CRIME PERMANENTE SE CARACTERIZA PELA CIRCUNSTÂNCIA DE A CONSUMAÇÃO
PODER CESSAR POR VONTADE DO AGENTE.

Crime instantâneo de efeitos permanentes – consuma-se em um dado instante,


mas seus efeitos são irreversíveis. Ex.: homicídio.

Crime à prazo – ocorre quando a caracterização do crime ou de uma qualificadora


depende do decurso de determinado tempo.

-Ex.: art. 129, parágrafo 1º., I, do CP- lesão corporal, depende de exame complementar;

-Apropriação de coisa achada (art. 169, parágrafo único, II – somente ocorre se o agente
não devolve o bem à vítima depois de quinze dias do achado; o crime de extorsão
mediante seqüestro é qualificado se a privação da liberdade dura mais de 24 horas (art.
159, parágrafo 1º

Crime plurissubjetivo ou de concurso necessário – é o que exige pluralidade de


sujeitos ativos (rixa, quadrilha ou bando).

Crime monossubjetivo, unissubjetivo ou de concurso eventual – pode ser


cometido por um ou mais agentes.

Crime de ação única – o tipo contém apenas uma forma de conduta.

Crimes de ação múltipla são aqueles em relação aos quais a lei descreve várias
condutas (possui vários verbos) separadas pela conjunção alternativa “ou”. Nesses
casos, a prática de mais de uma conduta, em relação à mesma vítima, constitui crime
único. Ex.: o crime de participação em suicídio (art. 122) ocorre quando alguém induz,
instiga ou auxilia outrem a cometer suicídio.

Crime simples – é aquele em cuja redação o legislador enumera as elementares do


crime em sua figura fundamental. Ex.: matar alguém é a descrição do crime de homicídio
simples (art. 121, caput).

Crime qualificado – é aquele em que a lei acrescenta circunstâncias que alteram a


própria pena em abstrato para patamar mais elevado.

Ex.: a pena de homicídio simples é de reclusão, de 6 a 20 anos. Se o crime for praticado


por motivo fútil (art. 121, parágrafo 2º., II) a qualificadora fará com que a pena passe a
ser de reclusão, de 12 a 30 anos.

Crime privilegiado – ocorre quando o legislador, após a descrição do delito,


estabelecer circunstâncias com o condão de reduzir a pena. Ex.: se o homicídio for
praticado por motivo de relevante valor moral ou social, a pena será reduzida de 1/6 a
1/3 (art. 121, parágrafo 1º.);

Crime habitual – é o composto pela reiteração de atos, que revelam um estilo de vida
do agente, por exemplo, exercício ilegal da medicina, curandeirismo. Só se consuma
com a habitualidade na conduta. Cada ato isolado constitui fato atípico, uma vez que a
tipicidade depende da reiteração de número de atos.

Crime complexo – contém em si duas ou mais figuras penais (ex.: o crime de roubo é
composto pelo furto mais ameaça ou violência à pessoa.

Crime doloso – é aquele em que o agente tem a intenção de produzir o resultado


criminoso ou assume o risco de produzi-lo.

Crime vago – é aquele em que o sujeito passivo é uma coletividade sem personalidade
jurídica, como a família, o público ou a sociedade (ex.: ato obsceno);
Crime culposo – é praticado pelo agente por negligência, imprudência ou imperícia. O
agente não tinha a intenção de produzir o resultado, mas este é previsível.

Crime preterdoloso – é aquele em que há dolo no antecedente e culpa no conseqüente


(ex.: “A” dá um soco em “B” com a intenção de causar-lhe lesões corporais; “B”, no
entanto, cai e bate a cabeça, vindo a falecer. O agente será punido pela conduta dolosa –
lesão – e pelo resultado a título de culpa – morte; lesão corporal seguida de morte).

Crime plurilocal – é aquele em que a conduta se dá em um local e o resultado em


outro, mas dentro do mesmo país. Aplica-se a teoria do resultado, e foro competente é o
do local da consumação.

Crime internacional ou mundial – é aquele que, por tratado ou convenção, o Brasil


obrigou-se a reprimir (ex.: tráfico de mulheres – art. 231).

DOLO

É a vontade e a consciência de realizar os elementos constantes do tipo legal. Mais


amplamente, é a vontade manifestada pela pessoa de realizar a conduta.

Espécies:

a)Dolo direto ou determinado: aquele em que o agente quer o resultado;

b)Dolo indireto ou indeterminado: aquele em que a vontade do agente não é exatamente


definida. Pode ser:

-----alternativo: aquele em que o objeto da ação se divide entre dois ou mais resultados
(ex.: matar ou ferir – para o agente, tanto faz a produção de um ou outro resultado);

-----eventual: quando o agente não deseja diretamente o resultado, mas assume o risco
de produzi-lo (ex.: a pessoa que, sabendo-se portadora de doença sexualmente
transmissível, mantém relações sexuais com outra).

CULPA

Consiste na prática não intencional do delito, faltando o agente a um dever de atenção e


cuidado. Na culpa há a não-observância do dever de cuidado pelo sujeito, causando o
resultado e tornando punível seu comportamento. Em regra, as condutas são punidas a
título de dolo. Isso porque a finalidade da legislação penal é, em primeiro lugar, coibir a
própria intenção criminosa. Só existirá crime culposo quando for expressamente previsto
na legislação. Não há compensação de culpas no Direito Penal.

Modalidades:

a-Negligência: é a falta de atenção devida, a displicência (ex.: não observar a rua ao


dirigir o caro).

b-Imprudência: é a conduta precipitada, a criação desnecessária de um perigo (ex.:


dirigir carro em excesso de velocidade).

c-Imperícia: é a falta de habilidade técnica para certas atividades (ex.: não saber dirigir).

TIPICIDADE

É a adequação entre o fato concreto e a norma jurídica. Só será responsabilizado


criminalmente aquele que praticar fato descrito em lei penal incriminadora.

Meios e modos de execução


Meio de execução é o objeto de que se serve o agente para a prática delitiva (arma,
fogo, explosivo, veneno, etc);

Modo de execução é a forma pelo qual o delito é praticado (grave ameaça, violência,
fraude, etc);

Muitas vezes, ausente ou não demonstrado o meio ou modo de execução, poderá haver
a desclassificação de um delito para outro menos grave.

Violência

Segundo Fragoso, em Lições de Direito Penal, “entende-se por violência, em sentido


próprio, o desenvolvimento da força física para vencer resistência, real ou
suposta”.

Ameaça

A ameaça, como ocorre com a violência, é integrante de vários tipos penais, funcionando
ora como elementar, ora como circunstância, que agravará a pena.

A ameaça poderá configurar um crime em si mesmo (art. 147, do CP), mas em regra é
modo de execução de um delito.

Fragoso: “A ameaça é a violência moral, que se destina a perturbar a liberdade


psíquica e a tranquilidade da vítima, pela intimidação”.

Consiste na revelação à vítima do propósito de causar-lhe um mal atual ou futuro e


grave, que somente o agente terá como evitar.

Não se exige que a ameaça possa ser cumprida ou que haja a intenção do agente em
cumprir o mal prometido. Basta, apenas, que ela seja séria e apta a intimidar.

Fraude

Com a fraude a vítima é induzida ao erro, sendo que age ou deixa de agir iludida, tendo
uma falsa percepção da realidade. Ela pode ser praticada através de atos, palavras e
inclusive pelo silêncio, quando a pessoa deixa de mencionar algo que poderia mudar a
vontade da vítima. Em regra, com a fraude o agente pretende alcançar um resultado que
o beneficiará (exemplo: arts. 171, 215, 219, etc).

Arma

A arma será causa de agravação da pena em diversos delitos nos quais ela é
empregada.

NORMA PENAL EM BRANCO

São as de conteúdo incompleto, vago, exigindo complementação por outra norma


jurídica (lei, decreto, regulamento, portaria etc.) para que possam se aplicadas ao fato
concreto. Esse complemento pode já existir quando da vigência da lei penal em branco
ou ser posterior a ela.

Exemplos: crimes de transgressão de tabela de preços, os arts. 12 e 16 da Lei No. 6.368,


de 21-10-76, que se referem ao tráfico ou porte de tóxicos, completados por decreto; o
art. 269, que se refere à omissão de notificação de doença relacionada em regulamento
etc.
Em sentido lato – o complemento é determinado pela mesma fonte formal da norma
incriminadora.

Ex. Art. 237 do CP e Art. 1.521 do CC

Em sentido estrito – o complemento é feito por norma de outra instância legislativa

Ex. Art. 269 CP (Port. 1.100 de 24/05/1996) Art. 130 CP

INTERPRETAÇÃO DA LEI PENAL

É o processo lógico que procura estabelecer a vontade contida na norma jurídica. A


ciência ou método que se preocupa com a interpretação da lei é denominado
Hermenêutica.

CONFLITO APARENTE DE NORMAS

Quando a um mesmo fato supostamente podem ser aplicadas normas diferentes, da


mesma ou de diversas leis penais.

ELEMENTOS:

unidade do fato (há somente uma infração penal)

pluralidade de normas (duas ou mais normas pretendendo regulá-lo)

aparente aplicação de todas as normas à espécie (a incidência de todas é apenas


aparente)

efetiva aplicação de apenas uma delas (somente uma é aplicável, razão pela qual o
conflito é aparente)

VIGÊNCIA E REVOGAÇÃO DA LEI PENAL

Ao período decorrente entre a publicação e a data em que começa sua vigência,


destinado a dar tempo ao conhecimento dela aos cidadãos, é dado o nome de vacatio
legis. Esse período é de 45 dias quando a própria lei não dispõe de modo contrário e de
três meses para a sua aplicação nos Estados estrangeiros, quando esta é admitida.

TEMPO DO CRIME (ART. 4º.)

O nosso cód. Penal adotou a teoria da atividade, segundo a qual “considera-se


praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o momento do
resultado.

A importância do tempo do crime tem a ver, por exemplo, com a definição da norma
penal a ser aplicada, no reconhecimento ou não da menoridade do réu etc.

Crime no dia do 18º. Aniversário (não importa o horário do nascimento). Responde pelo
CP.

Fuso horário ou horário de verão. Vale para fins penais o horário oficial do local da
infração.

Crime permanente e tempo do crime: quem inicia um seqüestro (que é crime


permanente) quando tem 17 anos e só libera a vítima um ano e meio depois, responde
pelo CP (normalmente), não pelo ECA. Por que? Porque quando fez 18 anos continuou
praticando o delito, isto é, manteve a situação de antijuridicidade já no tempo em que
conquistou a maioridade penal.
Crime continuado. Se o sujeito comete várias infrações (algumas delas quando menor,
outras quando maior), de forma continuada, só responde pelo CP em relação às infrações
cometidas a partir dos 18 anos. Em relação às outras, responde pelo ECA.

CONTAGEM DE PRAZO (art. 10)

O dia do começo inclui-se no cômputo do prazo.

FRAÇÕES NÃO COMUTÁVEIS DA PENA (art. 11)

Deverá o juiz desprezar as frações de dia nas penas e, na pena de multa, as frações em
real, após a atualização feita pelo contador judicial (art. 11)

TEORIA JURÍDICA DO CRIME

Conceito de crime – é a violação a um bem protegido pela norma penal (aspecto


material); fato típico, antijurídico (aspecto formal).

CULPABILIDADE

É a reprovação social a uma pessoa que pratica um fato típico e antijurídico. Condição de
imposição de pena.

Requisitos elementares e circunstâncias do crime

a-Elementares – elementos definidores do tipo penal (Art. 157; Art. 121)

b-Circunstâncias – é tudo aquilo que está ao redor do delito (art. 121, parág. 1º.)

ESTUDO DA CONDUTA

Conduta é a materialização da vontade humana, que pode ser executada por um único
ou por vários atos. O ato, portanto, é apenas uma parte da conduta. Ex.: É possível
matar a vítima (conduta) através de um único ato (um disparo mortal) ou de vários atos
(vários golpes no corpo da vítima).

Se a conduta se realiza num único ato, é chamada de unissubsistente, e se composta de


mais de um ato, de plurissubsistente.

Não há conduta quando não existe voluntariedade por parte do provocador do resultado.

A voluntariedade não existe nas seguintes hipóteses:

a-Na coação física irresistível, em que o sujeito pratica um movimento em decorrência de


força corporal exercida sobre ele. Ex.: forçar alguém a assinar um documento, a efetuar
um disparo etc. Nesse caso, só responde pelo crime o coator. No caso de coação moral
irresistível, entretanto, existe conduta, mas se exclui a culpabilidade (v. comentários ao
art. 22 do CP).

b-no reflexo, decorrente de reação automática de um nervo sensitivo.

c-quando o sujeito está dormindo (sonambulismo), ou sob estado de hipnose.

Formas de conduta:

a-Ação – comportamento positivo: fazer, realizar algo. A lei determina um não-fazer e o


agente comete o delito justamente por fazer o que a lei proíbe.

b-Omissão – comportamento negativo: abstenção, um não fazer.

A omissão pode dar origem a duas espécies de crimes:


b.l-Omissivos próprios ou puros – não existe o dever jurídico de agir, e o omitente não
responde pelo resultado, mas apenas por sua conduta omissiva. Ex.: omissão de socorro.

b.II-Omissivo impróprio ou comissivo por omissão – o omitente tinha o dever jurídico de


evitar o resultado e, portanto, por este responderá (a omissão é equivalente à ação). Ex.:
A mãe que deixa propositadamente de alimentar o filho menor, produzindo-lhe a morte.

Crime de mera conduta – o resultado naturalístico não é apenas irrelevante, é


impossível. Ex.: crime de desobediência; crime de violação de domicílio (não existe
nenhum resultado que provoque modificação no mundo concreto);

Crime de dano – exige uma efetiva lesão ao bem jurídico protegido para a sua
consumação; homicídio – lesão à vida; furto – lesão ao patrimônio; injúria – lesão à
honra.

Crime de perigo – para a consumação, basta a possibilidade de dano, ou seja, a


exposição do bem a perigo de dano.

Subdivide-se em:

a - crime de perigo concreto, quando a realização do tipo exige a existência de uma


situação efetiva de perigo (o perigo deve ser efetivamente comprovado), como no caso
de perigo de contágio venéreo – art. 130 – e exposição ou abandono de recém-nascido –
art. 134;

b- crime de perigo abstrato, no qual a situação de perigo é presumida (não necessitando


de comprovação), como no caso de quadrilha ou bando (art. 288),em que se pune o
agente mesmo que não tenha chegado a cometer nenhum crime e omissão de socorro
(art. 135); omissão de notificação de doença;

c - crime de perigo individual – são os que expõem a risco o interesse de uma só pessoa
ou de grupo limitado de pessoas (arts. 130 a 137);

d - crime de perigo comum (ou coletivo) – são os que expõem a risco número
indeterminado de pessoas (ex.: incêndio);

Quanto ao meio de execução:

Crime comissivo - é o praticado por meio de ação;

Crime omissivo – é o praticado por meio de uma omissão;

Crime omissivo próprio;

Crime omissivo impróprio;

Quanto à duração do momento consumativo:

Crime permanente – o momento consumativo se prolonga no tempo por vontade do


agente. No seqüestro ou cárcere privado, por exemplo, a consumação se prolonga todo o
tempo em que a vítima permanecer em poder do seqüestrador.

O CRIME PERMANENTE SE CARACTERIZA PELA CIRCUNSTÂNCIA DE A CONSUMAÇÃO


PODER CESSAR POR VONTADE DO AGENTE.

Crime instantâneo de efeitos permanentes – consuma-se em um dado instante,


mas seus efeitos são irreversíveis. Ex.: homicídio.

Crime à prazo – ocorre quando a caracterização do crime ou de uma qualificadora


depende do decurso de determinado tempo.
-Ex.: art. 129, parágrafo 1º., I, do CP- lesão corporal, depende de exame complementar;

-Apropriação de coisa achada (art. 169, parágrafo único, II – somente ocorre se o agente
não devolve o bem à vítima depois de quinze dias do achado; o crime de extorsão
mediante seqüestro é qualificado se a privação da liberdade dura mais de 24 horas (art.
159, parágrafo 1º

Crime plurissubjetivo ou de concurso necessário – é o que exige pluralidade de


sujeitos ativos (rixa, quadrilha ou bando).

Crime monossubjetivo, unissubjetivo ou de concurso eventual – pode ser


cometido por um ou mais agentes.

Crime de ação única – o tipo contém apenas uma forma de conduta.

Crimes de ação múltipla são aqueles em relação aos quais a lei descreve várias
condutas (possui vários verbos) separadas pela conjunção alternativa “ou”. Nesses
casos, a prática de mais de uma conduta, em relação à mesma vítima, constitui crime
único. Ex.: o crime de participação em suicídio (art. 122) ocorre quando alguém induz,
instiga ou auxilia outrem a cometer suicídio.

Crime simples – é aquele em cuja redação o legislador enumera as elementares do


crime em sua figura fundamental. Ex.: matar alguém é a descrição do crime de homicídio
simples (art. 121, caput).

Crime qualificado – é aquele em que a lei acrescenta circunstâncias que alteram a


própria pena em abstrato para patamar mais elevado.

Ex.: a pena de homicídio simples é de reclusão, de 6 a 20 anos. Se o crime for praticado


por motivo fútil (art. 121, parágrafo 2º., II) a qualificadora fará com que a pena passe a
ser de reclusão, de 12 a 30 anos.

Crime privilegiado – ocorre quando o legislador, após a descrição do delito,


estabelecer circunstâncias com o condão de reduzir a pena. Ex.: se o homicídio for
praticado por motivo de relevante valor moral ou social, a pena será reduzida de 1/6 a
1/3 (art. 121, parágrafo 1º.);

Crime habitual – é o composto pela reiteração de atos, que revelam um estilo de vida
do agente, por exemplo, exercício ilegal da medicina, curandeirismo. Só se consuma
com a habitualidade na conduta. Cada ato isolado constitui fato atípico, uma vez que a
tipicidade depende da reiteração de número de atos.

Crime complexo – contém em si duas ou mais figuras penais (ex.: o crime de roubo é
composto pelo furto mais ameaça ou violência à pessoa.

Crime doloso – é aquele em que o agente tem a intenção de produzir o resultado


criminoso ou assume o risco de produzi-lo.

Crime vago – é aquele em que o sujeito passivo é uma coletividade sem personalidade
jurídica, como a família, o público ou a sociedade (ex.: ato obsceno);

Crime culposo – é praticado pelo agente por negligência, imprudência ou imperícia. O


agente não tinha a intenção de produzir o resultado, mas este é previsível.

Crime preterdoloso – é aquele em que há dolo no antecedente e culpa no conseqüente


(ex.: “A” dá um soco em “B” com a intenção de causar-lhe lesões corporais; “B”, no
entanto, cai e bate a cabeça, vindo a falecer. O agente será punido pela conduta dolosa –
lesão – e pelo resultado a título de culpa – morte; lesão corporal seguida de morte).
Crime plurilocal – é aquele em que a conduta se dá em um local e o resultado em
outro, mas dentro do mesmo país. Aplica-se a teoria do resultado, e foro competente é o
do local da consumação.

Crime internacional ou mundial – é aquele que, por tratado ou convenção, o Brasil


obrigou-se a reprimir (ex.: tráfico de mulheres – art. 231).

DOLO

É a vontade e a consciência de realizar os elementos constantes do tipo legal. Mais


amplamente, é a vontade manifestada pela pessoa de realizar a conduta.

Espécies:

a)Dolo direto ou determinado: aquele em que o agente quer o resultado;

b)Dolo indireto ou indeterminado: aquele em que a vontade do agente não é exatamente


definida. Pode ser:

-----alternativo: aquele em que o objeto da ação se divide entre dois ou mais resultados
(ex.: matar ou ferir – para o agente, tanto faz a produção de um ou outro resultado);

-----eventual: quando o agente não deseja diretamente o resultado, mas assume o risco
de produzi-lo (ex.: a pessoa que, sabendo-se portadora de doença sexualmente
transmissível, mantém relações sexuais com outra).

CULPA

Consiste na prática não intencional do delito, faltando o agente a um dever de atenção e


cuidado. Na culpa há a não-observância do dever de cuidado pelo sujeito, causando o
resultado e tornando punível seu comportamento. Em regra, as condutas são punidas a
título de dolo. Isso porque a finalidade da legislação penal é, em primeiro lugar, coibir a
própria intenção criminosa. Só existirá crime culposo quando for expressamente previsto
na legislação. Não há compensação de culpas no Direito Penal.

Modalidades:

a-Negligência: é a falta de atenção devida, a displicência (ex.: não observar a rua ao


dirigir o caro).

b-Imprudência: é a conduta precipitada, a criação desnecessária de um perigo (ex.:


dirigir carro em excesso de velocidade).

c-Imperícia: é a falta de habilidade técnica para certas atividades (ex.: não saber dirigir).

TIPICIDADE

É a adequação entre o fato concreto e a norma jurídica. Só será responsabilizado


criminalmente aquele que praticar fato descrito em lei penal incriminadora.

CONSUMAÇÃO E TENTATIVA

Trajetória do crime (inter criminis = etapas do crime)

Identificam-se as seguintes fases:

a-cogitação do crime – não se pune;

b-atos preparatórios – não se pune;

c-execução – interrompida nessa fase, pune-se a tentativa;


d-consumação do crime

A execução se inicia com o primeiro movimento que concretize a realização da ação


descrita no tipo. A punição ocorre somente nas fases de execução e consumação. Na
execução, o bem jurídico começa a ser atacado. O agente inicia a realização do núcleo
do tipo e o crime já se torna punível. Na consumação, todos os elementos que se
encontram descritos no tipo penal foram realizados.

CONSUMAÇÃO

Crime consumado é aquele em que se reúnem todos os elementos de sua definição


legal (art. 14, I). Nos crimes materiais, a consumação se dá com a ocorrência do
resultado descrito no tipo; admite-se a tentativa. Nos crimes formais e de mera conduta,
a consumação se dá com a prática da ação proibida. Nos crimes permanentes, a
consumação se prolonga no tempo, até que o agente resolva interrompê-la; o agente
encontra-se em permanente estado de flagrância.

TENTATIVA

Diz-se crime tentado quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias
alheias à vontade do agente. Salvo disposição em contrário, pune-se a tentativa com a
pena correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terços (art. 14, II e
parágrafo único).

Não há tentativa nos crimes culposos, nos de mera conduta, nos omissivos próprios e
nos preterdolosos. Não é punível a tentativa de contravenção (art. 4º., LCP).

Espécies

Tentativa perfeita ou acabada (ou crime falho ou frustrado): o agente consegue praticar
todos os atos necessários à consumação, embora esta acabe não ocorrendo.

Tentativa imperfeita ou inacabada: a ação do agente é interrompida no meio do


caminho. O agente não chega a esgotar sua capacidade ofensiva contra o bem jurídico
visado.

DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA E ARREPENDIMENTO EFICAZ

São espécies de tentativa abandonada.

Desistência voluntária – o agente voluntariamente interrompe a execução do crime,


impedindo sua consumação do crime, impedindo sua consumação (art. 15). A lei quer,
com tal medida, estimular o agente a retroceder. Não é possível nos crimes de mera
conduta, em que a execução é a própria consumação.

Arrependimento eficaz – o agente termina todo o processo de execução, porém evita a


consumação.

Nos dois casos o agente só responde pelos atos até então praticados.

ARREPENDIMENTO POSTERIOR

Ocorre nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, em que o
agente, voluntariamente, repara o dano ou restitui a coisa até o recebimento da
denúncia ou queixa. A pena será reduzida de um a dois terços (art. 16). Tratando-se de
causa objetiva de diminuição de pena, o arrependimento posterior não se restringe à
esfera pessoal de quem o realiza, estendendo-se aos co-autores e partícipes condenados
pelo mesmo fato.

CRIME IMPOSSÍVEL
Pode ocorrer por:

a)Ineficácia absoluta do meio: o meio empregado ou instrumento utilizado para a


execução do crime jamais levará à consumação (ex.: usar um palito de dentes para
matar um adulto);

b)Impropriedade absoluta do objeto: a pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta é


absolutamente inidônea à produção de algum resultado lesivo (ex.: matar cadáver,
ingerir substância abortiva imaginando-se grávida).

EXCLUDENTES DE ILICITUDE

Além de típico, para ser considerado crime, o fato deve também ser antijurídico.

O art. 23 do CP dispõe que não há crime quando o agente pratica o fato nos seguintes
casos:

a)Estado de necessidade: o agente pratica o fato para salvar de perigo atual, que
não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou
alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se.

b)Legítima defesa: quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele


injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Contra pessoa ou
coisas, caracteriza estado de necessidade.

c)Estrito cumprimento do dever legal: consiste a excludente na existência de dever,


proveniente de lei, a obrigar o agente a determinada conduta típica. Enquadra-se a
atividade do policial, ao executar mandado de prisão.

d)Exercício regular de direito: ocorre quando o agent3e age dentro dos limites
autorizadores pelo ordenamento jurídico (ex.: lesão corporal decorrente de violências
desportivas).

CULPABILIDADE

É a possibilidade de declarar culpado o autor de um fato típico e ilícito; é um pressuposto


para imposição da pena.

IMPUTABILIDADE PENAL

É a capacidade de entender o caráter ilícito do fato e determinar-se de acordo com esse


entendimento. Em regra, todo agente é imputável, a não ser que ocorra causa
excludente de imputabilidade.

ANTIJUDICIDADE

Tendo o agente realizado um fato típico, deve-se analisar se esse fato foi antijurídico (ou
ilícito). Quando presente uma das causas abaixo (excludentes de ilicitude), não haverá
crime, embora tenha o sujeito cometido um fato penalmente típico.

Causas excludentes de imputabilidade

-Doença mental-é a perturbação mental de qualquer ordem, como psicose,


esquizofrenia, loucura, paranóia, psicopatia, epilepsia. Dependência patológica de
substância psicotrópica configura doença mental (Lei 6.368/76, art. 19, caput e
parágrafo único; art. 29) e pode levar à interdição civil (Decreto-Lei 891/38).

-Desenvolvimento mental incompleto-É o desenvolvimento que ainda não se


concluiu (ex.: menores de 18 anos e silvícolas inadaptados à sociedade).
-Desenvolvimento mental retardado-É o caso de oligofrênicos, classificados em:
débeis mentais; imbecis e idiotas, dotados de reduzidíssima capacidade mental; surdos-
mudos que não têm qualquer capacidade de entendimento e autodeterminação.

-Embriaguez – É a intoxicação aguda e transitória causada pelo álcool ou substância de


efeitos análogos, cujas conseqüências variam de ligeira excitação até o estado de
paralisia e coma.

a)embriaguez acidental: é a decorrente de caso fortuito ou força maior. Quando


completa, exclui a imputabilidade; se incompleta, não a exclui, mas permite a diminuição
da pena de um terço a dois terços.

b)embriaguez patológica: é causa excludente de imputabilidade porque se equipara à


doença mental.

CONCURSO DE PESSOAS

Há concurso de pessoas quando dois ou mais indivíduos concorrem para a prática de um


mesmo crime (art. 29).

AUTORIA

Autor – é aquele que realiza a conduta descrita no tipo. De acordo com esse
entendimento, o mandante de um crime não pode ser considerado seu autor, uma vez
que não lhe competiram os atos de execução.

Co-autoria – todos os agentes, em colaboração recíproca e visando ao mesmo fim,


realizam a conduta principal.

Participação – quem concorre para a conduta do autor, auxiliando-o material ou


moralmente (mediante induzimento ou instigação).

DOS CRIMES CONTRA A PESSOA: CRIMES CONTRA A VIDA

Consentimento do ofendido

Praticar homicídio com o consentimento do ofendido. O fato constitui crime de homicídio,


embora possa ocorrer causa de diminuição da pena (CP, art. 121, parágrafo I). É preciso
que a vontade seja expressa por quem atingiu a capacidade penal, aos 18 anos de idade,
desde que não lhe retire o caráter de validade: inimputabilidade por doença mental,
erro, dolo ou violência.

Crimes contra a pessoa:

Sob esse título temos, no Código Penal:

os crimes contra a vida;

as lesões corporais;

a periclitação da vida e da saúde;

a rixa; os crimes contra a honra;

e os crimes contra a liberdade individual.

Crimes contra a vida:

homicídio (art. 121),

induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio (art. 122),


infanticídio (art. 123) e

aborto (arts. 124 a 128).

Crimes dolosos contra a vida

homicídio simples (121, caput);

homicídio privilegiado (parágrafo 1º.);

homicídio qualificado (parágrafo 2º.);

o induzimento, instigação ou auxílio a suicídio (art. 122);

o infanticídio (art. 123);

auto-aborto (art. 124);

aborto provocado sem consentimento da gestante (CP, art. 126)

Só há um crime culposo contra a vida: o homicídio culposo simples ou


qualificado (CP, art. 121, parágrafos 3º. E 4º.)

2. HOMICÍDIO – ART. 121 DO CP

2.1. Conceito: O homicídio consiste na eliminação da vida extra-uterina de um ser


humano provocada por outro. Tal conceito evita a confusão com o delito de aborto e com
o suicídio.

ESPÉCIES:

a)Simples (doloso): matar alguém. Pena: reclusão de seis a 20 anos.

b)Privilegiado (art. 121, parágrafo 1º.):

c)Qualificado (art. 121, parágrafo 2º.)

d)Culposo (art. 121, parágrafo 3º.)

e)Homicídio culposo na direção de veículo automotor-crime previsto no Código de


Trânsito (Lei 9.503/97, art. 302);

Penas: dois a quatro anos de detenção e suspensão ou proibição de se obter a permissão


ou a habilitação para dirigir veículo automotor.

A pena é aumentada de um terço à metade se o agente:

Não possuir permissão para dirigir ou carteira de habilitação;

Praticá-lo em faixa de pedestres ou calçada;

Deixar de prestar socorro, quando possível, sem risco pessoal, à vítima do acidente;

No exercício de sua profissão ou atividade estiver conduzindo veículo de transporte de


passageiros.

2.10. Tipo básico fundamental

O art. 121, caput, do CP, sob a denominação de homicídio simples, prevê um tipo
meramente descritivo, uma vez que não traz nenhum elemento normativo ou subjetivo,
não contém componentes de ilicitude, nem de culpabilidade. A pena varia de 6 a 20
anos de reclusão.

2.10.1. Sujeito ativo e passivo: qualquer pessoa

Cometido contra o Presidente (República, Senado, Câmara, Supremo), o delito é contra a


Segurança Nacional (Lei n. 7.170, de 14.12.83, art. 29); Contra vítima menor de 14:
aumento de pena, art. 121, parágrafo 4º.; O homicídio simples, cometido em ação de
grupo de extermínio, e o tipo qualificado, são hediondos (art. 1º., inciso I, da Lei 8.072-
90, com redação da Lei 8.930, de 6.09.1994;

O homicídio é crime comum, material, simples, de dano, instantâneo e de forma livre.

a) Homicídio Simples – matar alguém

2.11. Meios de execução – Por se tratar de crime de ação livre, o agente pode lançar
mão de todos os meios, que não só materiais, para realizar o núcleo da figura típica:

Materiais – aqueles que atingem a integridade física do ofendido, de forma mecânica


(instrumentos contundentes, perfurantes, cortantes), química (substâncias corrosivas,
como, p. ex., o ácido sulfúrico) ou patológica (vírus letais, como o vírus da Aids).

Morais ou psíquicos – o agente se serve do medo ou da emoção súbita para alcançar


seu objetivo.

Diretos – age-se contra o corpo da vítima, como, por exemplo, desferindo-lhes facadas.

Indiretos – os dependentes de outra causa para que o resultado seja atingido (ex.
sujeito que atiça um cão contra a vítima, ou vem a induzi-la a dirigir-se a local onde
existe um abismo).

Por ação ou omissão - o homicídio pode ser cometido por intermédio de conduta
comissiva, como desfechar tiros na vítima ou feri-la a facadas, ou omissiva, como no
caso de deixar de alimentar uma pessoa para matá-la. Nesses casos, é indispensável que
exista o dever jurídico do agente de impedir o resultado morte (art. 13, §2o, do CP)

2.12. Tipo privilegiado (art. 121, §1o.) – Trata-se de uma causa de diminuição da
pena (natureza jurídica), que incide na 3a. fase de sua aplicação (art. 68, caput, do CP) e
dá direito a uma redução de pena variável entre 1/6 e 1/3. A redução da pena, no
homicídio privilegiado, é obrigatória, até porque o privilégio é votado pelos
jurados. É direito subjetivo do acusado. O quantum é que ficará a critério do
juiz. Hipóteses de homicídio privilegiado:

motivo de relevante valor social ou moral – relevante valor é um valor importante para a
vida em sociedade, tais como o patriotismo, lealdade, fidelidade, inviolabilidade de
intimidade e de domicílio, entre outros. Quando se tratar de relevante valor social,
levam-se em consideração interesses não exclusivamente individuais, mas de ordem
geral, coletiva . No caso de relevante valor moral, o valor em questão leva em
conta interesse de ordem pessoal (Ex. eutanásia em que o agente, por compaixão
ante o irremediável sofrimento da vítima antecipa a sua morte. Como a vida é um bem
indisponível pouco importa se a vítima consentiu ou não).

domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima –


Configura o homicídio privilegiado, quando o sujeito está dominado pela excitação dos
seus sentimentos (ódio, desejo de vingança, amor exacerbado, ciúme intenso) e foi
injustamente provocado pela vítima, momentos antes de tirar-lhe a vida.

2.12.1. Privilégio e o art. 30, do CP – Todas as formas de privilégio são de caráter


subjetivo, porque ligadas à motivação do crime e, assim, nos termos do art. 30, do CP,
não se comunicam aos co-autores e partícipes que tenham agido por outro motivo. Ex.
pai encontra o estuprador de sua filha e começa a desferir golpes para matá-lo. Nesse
momento, um amigo chega ao local e, sem saber que se trata do estuprador, ajuda-o a
matar o malfeitor. O pai responde por homicídio privilegiado e o amigo não.

2.13. Homicídio qualificado (§2o) – É o homicídio praticado com circunstâncias legais


que integram o tipo penal incriminador, alterando para mais a faixa de fixação da pena
(de 12 a 30 anos de reclusão). Tentado ou consumado, o homicídio qualificado é crime
hediondo (art. 1o, I, da Lei n º 8.072/90, com redação dada pela Lei n º 8.930/94).

2.13.1. Hipóteses - Qualificadoras do homicídio: de motivos (fútil, torpe, paga ou


promessa de recompensa – qualificadoras subjetivas); de meios (veneno, fogo, explosivo,
asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo
comum); modos de execução (traição, emboscada, dissimulação ou outro que torne
impossível ou dificulte a defesa da vítima); fins (para assegurar a execução, ocultação,
impunidade ou vantagem de outro crime).

MOTIVOS:

Mediante paga ou promessa de recompensa: São formas específicas de torpeza. É


o homicídio mercenário. O agente recebe pagamento para praticar o homicídio ou
porque obteve promessa de ser recompensado pelo ato (pode ser pagamento em
dinheiro ou qualquer outra vantagem econômica. Mesmo que o mandante não
cumpra a promessa e não entregue a recompensa prometida, haverá a
qualificadora. Trata-se de hipótese de concurso necessário (envolvimento de no
mínimo duas pessoas, o mandante e o executor).

Motivo torpe[1] – é o motivo vil, repugnante, desprezível, imoral (matar para conseguir
herança, por rivalidade profissional; por inveja; porque a vítima não quis ter relação
sexual; matar o viciado por dívida que não pagou). A vingança nem sempre nem sempre
causará repugnância a ponto de ser considerado motivo torpe (p. ex. a conduta do filho
que ceifa a vida do assassino de seu pai).

Motivo fútil – é aquele sem importância, leviano, insignificante, totalmente


desproporcional à motivação do crime (p. ex. o autor suprime a vida da vítima porque
esta, dona de um bar, não lhe vendeu fiado). Motivo fútil é diferente de motivo injusto,
porque este, embora desconforme com o direito e a ética, pode ser proporcional ao
crime.
[1] O legislador cuidou de se utilizar da interpretação analógica, pois há no texto legal
uma enumeração casuística (paga, promessa de recompensa), a qual segue uma
formulação genérica (ou qualquer outro motivo torpe).

MEIOS

Veneno – é a substância que introduzida no organismo, altera momentaneamente ou


suprime definitivamente as manifestações vitais de toda matéria organizada”. Para
configurar a qualificadora, o veneno tem de ser inoculado sem que a vítima perceba, de
forma sub-reptícia. Se for inoculado com violência, considera-se ter havido a
qualificadora do meio cruel.

Fogo ou explosivo – Conforme as circunstâncias, o fogo poderá caracterizar o meio


cruel ou que resulte perigo comum. É muito comum, nessas hipóteses, que o agente, ao
cometer o homicídio, também danifique objeto alheio. O crime de dano qualificado,
porém, fica absorvido (art. 163, parágrafo único, II, do CP - hipótese de subsidiariedade
expressa).

Asfixia – É o impedimento da função respiratória. A asfixia pode ser mecânica ou


tóxica. A asfixia mecânica pode dar-se por: esganadura (constrição do pescoço da
vítima efetuada pelo próprio corpo do agente - mãos ou pés); enforcamento (causado
pelo próprio peso da vítima, que tem seu pescoço envolto em corda ou similar),
estrangulamento (constrição do pescoço da vítima com fios, arames ou cordas que são
apertados pelo agente), afogamento (submersão em meio líquido); sufocação (uso de
objetos que impedem a entrada do ar pelo nariz ou pela boca); soterramento (submersão
em meio sólido). De outro lado, a asfixia tóxica pode ocorrer por: uso de gás asfixiante;
confinamento. Por exemplo, se a vítima é trancada dentro de um caixão e enterrada,
existe a asfixia tóxica por confinamento e não asfixia mecânica por soterramento.

Tortura – é a que causa o suplício da vítima, com desnecessário padecimento. Pode ser
física ou moral. É qualificadora no homicídio, mas poderá constituir crime autônomo. A
tortura só qualifica o homicídio quando é aplicada como forma de causar a morte da
vítima. O resultado morte é doloso. Entretanto, se o intuito é torturar o ofendido, para
dele obter, por exemplo, a confissão (art. 1o., I, “a”, da Lei n º 9.455/97), responderá por
delito autônomo. Há, ainda, a possibilidade de ocorrer a morte da vítima, em
decorrência da tortura, sendo esta última a finalidade do autor, configurando-se então, o
denominado crime qualificado pelo resultado. Será punido por tortura seguida de morte
(art. 1º, § 3º da Lei 9.455/97). Nesse caso a morte é culposa (crime preterdoloso).

Meios insidiosos – são aqueles utilizados com fraude, clandestinidade, sem


conhecimento da vítima, como o veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio
insidioso ou cruel ou que possa resultar perigo comum.

Meio cruel – que sujeita a vítima a sofrimentos físicos ou morais desnecessários, meio
bárbaro, brutal, que aumenta inutilmente o sofrimento da vítima (reiteração de golpes
de arma branca).

Meio que possa causar perigo comum – provoca dano à vítima, mas também faz
outras pessoas correrem risco, p. ex., desabamento, inundação, sabotagem. A
qualificadora se aperfeiçoa com a mera possibilidade de o meio empregado causar risco
a outras pessoas, não sendo necessário que se prove ter havido um risco efetivo no caso
concreto. Por outro lado, quando existir prova de que o meio, além de matar a vítima,
provocou risco efetivo a número indeterminado de pessoas, o agente responderá pelo
homicídio qualificado e também por crime de perigo comum (art. 250 e s.) em concurso
formal. Há, entretanto, entendimento contrário, no sentido de que haveria bis in idem
no reconhecimento concomitante da qualificadora e do crime de perigo comum.

MODOS DE EXECUÇÃO:

Traição – quebra da confiança depositada pela vítima no agente (amizade, parentesco,


casamento, etc), que dela se aproveita para matá-la. Ex: matar a esposa que está
dormindo. Há deslealdade. A desavença anterior afasta a qualificadora.

Emboscada (tocaia) – a espera do agente da passagem da vítima descuidada para


atacá-la (o agente fica à espreita do ofendido para agredi-lo). Ex. Sabotagem de freio de
veículo.

Dissimulação – emprego de modo ou recurso que engane a vítima, visando possibilitar


uma aproximação para executar o ato homicida. Pode ser: a) material - como o uso de
disfarce ou método análogo para se aproximar da vítima; b) moral – dar falsas provas de
amizade ou demonstrar admiração ou interesse por alguém para possibilitar uma
aproximação com o intuito de matá-la ou para levá-la a algum local onde pretende
executar o delito.

Outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa da vítima – o objetivo


desta qualificadora é punir mais severamente o agente que, covardemente, mata o
ofendido. Exemplo disso seria atacar quem está dormindo ou embriagado.
FINS:

Para assegurar a execução, ocultação, impunidade ou vantagem de outro


crime – Constituem qualificadoras subjetivas, na medida em que dizem respeito aos
motivos determinantes do crime (dolo específico). Trata-se de motivações torpes.
Conexão é o liame objetivo ou subjetivo que liga dois ou mais crimes. Pode ser:

a)teleológica - o homicídio é cometido a fim de “assegurar a execução” de outro crime


(ex. matar o marido para estuprar a mulher). Não é necessária a concretização do fim
visado pelo agente;

b)conseqüencial – quando o homicídio visa assegurar a ocultação, impunidade ou


vantagem de outro crime. Nesses casos, primeiro o agente comete o outro crime e
depois o homicídio. Não é necessário que o próprio homicida tenha sido o autor do crime
anterior.

Observações:

A premeditação não qualifica o crime. Ela, porém, pode ser considerada quando da
análise das circunstâncias do art. 59 do CP.

Matar o próprio pai (parricídio) ou a própria mãe (matricídio) – não qualifica. Trata-se de
mera agravante genérica (art. 61, III, “e”, do CP).

As circunstâncias qualificadoras, quando tiverem caráter subjetivo não se comunicam


jamais ao partícipe. No entanto, se tiverem caráter objetivo, haverá comunicação se for
do conhecimento do partícipe a presença da circunstância material.

2.14. Homicídio culposo (§3o) – É um tipo aberto. A culpa (art. 18, II, do CP) é
constituída de imprudência (prática de um fato perigoso, p ex., limpar arma carregada;
dirigir em excesso de velocidade); negligência (ausência de preocupação, p ex., deixar
arma ao alcance de uma criança e não vigiá-la; não dar manutenção em seu veículo); ou
imperícia (falta de aptidão para o exercício da profissão). O resultado não é previsível
para o agente, embora seja previsível objetivamente. Admite-se a co-autoria, nunca a
participação. A tentativa é inadmissível. A Lei 9.503/97 em seu art. 302 tipificou o crime
de homicídio culposo na direção de veículo automotor. Nesse caso o crime de homicídio
absorve os de embriaguez ao volante; direção sem habilitação; racha; excesso de
velocidade.

2.15. Causa especial de aumento de pena (§4o) – Aumento de 1/3 da pena.

Crime culposo: a) Inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício - a


majorante (art. 121 § 4º, 1ª parte) não se confunde com a imperícia, já que esta é a
inaptidão, incapacidade técnica, enquanto na “inobservância de regra técnica de
profissão, arte ou ofício” o agente conhece a técnica , mas não a observa (ex. médico
que não esteriliza instrumento cirúrgico, dando causa a uma infecção da qual decorre a
morte da vítima )b) deixa de prestar imediato socorro à vítima – somente se aplica
àqueles que tenham agido com culpa e não tenham prestado imediato socorro. Se o
sujeito, no caso concreto, não agiu de forma culposa e deixa de prestar socorro,
responde pelo crime de omissão de socorro qualificada pela morte (art. 135, parágrafo
único, do CP). Sendo a vítima socorrida imediatamente por terceiro, não incide o
aumento da pena. Se a vítima estiver evidentemente morta, não se aplica o aumento,
pois o socorro não poderia surtir qualquer efeito. Também caso o agente corra risco
pessoal, não deve ser exigida a prestação de socorro; c) se o agente não procura
diminuir as conseqüências de seu ato - trata-se de uma seqüência da causa de aumento
anterior. Portanto, caso o agente não possa prestar socorro à vítima, seja porque está
ameaçado de linchamento, seja porque não tem recursos, poderá atenuar as
conseqüências de seu ato buscando auxílio de terceiros ou chamado a polícia ou o
médico; d) o agente foge para evitar o flagrante – trata-se de uma causa de aumento de
duvidosa constitucionalidade, pois obriga que a pessoa, autora de um crime culposo (não
se exige tal postura do agente de crime doloso), apresente-se voluntariamente à polícia
para ser presa. Ora, ninguém é obrigado a se auto-incriminar.

Crime doloso: crítica - localização deslocada, uma vez que tanto nos §§3o. e 4o, quanto
no §5o. está se tratando de crime culposo. a) prática de crime contra menor de 14 anos –
aplica-se a todas as formas de homicídio doloso: simples, privilegiado e qualificado. O
legislador elegeu a idade de 14 anos (posição intermediária no curso da adolescência),
entretanto, se o objetivo era conferir maior punição somente àqueles que matassem
crianças, o melhor seria eleger os menores de 12 anos. É preciso que o conhecimento
do agente envolva esta causa de aumento, que não pode ter aplicação automática e
cega. A pessoa completa 14 anos no primeiro minuto do dia do seu aniversário. A idade
da vítima deve ser levada em consideração no momento da ação ou omissão e não da
efetiva produção do resultado (art. 4o, do CP); b) praticado contra pessoa maior de 60
anos (acréscimo dado pelo estatuto do Idoso – Lei n º 10.741, de 1o/10/2003). Antes da
vigência da referida lei, a circunstância de o crime ser praticado contra pessoa idosa
funcionava apenas como agravante (art. 61, II, “h”, do CP)

2.16. Perdão judicial (§5o) – Somente na sentença pode ser aplicado o perdão judicial
que somente pode ser concedida ao autor de homicídio culposo (ex. o pai que provoca a
morte do próprio filho, em um acidente fruto de sua imprudência, já teve punição mais
que severa, porquanto a dor por ele experimentada é mais forte do que qualquer pena
que se lhe pudesse aplicar). Todas as pessoas próximas e intimamente ligadas ao autor,
que sofram conseqüências graves em face da imprudência, podem servir de causa para
a aplicação do perdão judicial.

2.17. Ação penal - A ação penal é pública incondicionada (art. 100, CP). Rito especial
do crime doloso: competência do Tribunal do júri

2.18. Concurso de crimes no homicídio doloso – O disparo de arma de fogo (art. 15


da Lei n º 10.826, de 22/12/2003) fica absorvido, por força da subsidiariedade explícita
constante do tipo definidor desse crime. Ocultação de cadáver – concurso material.
Homicídio doloso e aborto – se o agente, sabendo da gravidez da gestante, elimina a sua
vida, responde pelo concurso formal; contudo, se o agente deseja também que o feto
seja abortado, responderá pelo concurso formal impróprio (desígnios autônomos: o
agente queria os dois resultados). De se notar, porém, que mesmo que não se prove
que ele queria causar a morte do feto, age com dolo eventual, pois naturalmente o
agente assume o risco de provocar a morte do feto. Se o agente não sabe da gravidez,
mas acaba provocando também o aborto, responde apenas pelo homicídio doloso.

3. INDUZIMENTO, INSTIGAÇÃO OU AUXÍLIO AO SUICÍDIO – ART. 122 DO CP

3.1. Conceito de suicídio – é a deliberada destruição da própria vida, de forma


voluntária e consciente. A lei penal não pune o autor da tentativa de suicídio, por
motivos humanitários, mas o comportamento de quem induz, instiga ou auxilia outrem a
suicidar-se. Ainda que esteja presente o consentimento do ofendido, por se tratar a vida
de um bem indisponível, o ordenamento jurídico veda qualquer forma de auxílio à
eliminação da vida humana. De outra parte, fica nítido que o suicídio é ato ilícito –
embora não seja penalmente punido, até mesmo porque, quando se consuma, não teria
sentido algum aplicar a sanção à família.

3.2. Objeto jurídico e material – a vida e a pessoa contra a qual se volta a conduta do
agente, respectivamente.

3.3. Sujeitos ativo e passivo – qualquer pessoa. A vítima tem que ser pessoa
determinada. No caso do sujeito passivo, é preciso ter um mínimo de discernimento ou
resistência, pois, do contrário, trata-se de homicídio. O agente que, valendo-se da
insanidade da vítima, convence-a a se matar, incide no art. 121, do CPC e não nesta
figura.

3.3.1. Concurso de pessoas – Possível. Ex. A e B prestam auxílio a C (co-autores). A


induz B a induzir C ao suicídio (partícipe e autor, respectivamente).

3.4. Núcleo do tipo – é composto de 3 verbos: induzir, instigar, auxiliar. Trata-se de


um tipo misto alternativo (crime de ação múltipla ou de conteúdo variado). O agente,
ainda que realize todas as condutas, responde por um só crime.

3.4.1. Induzir – significa suscitar a idéia, sugerir o suicídio a alguém que ainda não tinha
esse pensamento. O agente faz surgir a intenção do suicídio. Por exemplo, o indivíduo
que perde o emprego e é sugestionado pelo seu colega a suicidar-se por ser a única
forma de solucionar seus problemas.

3.4.2. Instigar - significa reforçar a intenção suicida já existente. Aqui a idéia já havia
surgido na vítima e o sujeito a estimula. O induzimento e a instigação são chamados de
participação moral. É o caso daqueles que vislumbram uma pessoa no alto de um
prédio, prestes a se atirar de lá, e, ainda assim, passam a estimular, mediante gritos,
que o suicida efetivamente salte.

3.4.3. Auxílio – significa colaborar materialmente com a prática do suicídio, quer dando
instruções, quer emprestando objetos (arma, veneno) para que a vítima se suicide. O
auxílio é chamado de participação material. Essa participação, todavia, deve ser
secundária, acessória, pois se a ajuda for a causa direta e imediata da morte da vítima, o
crime será de homicídio, como no caso de quem, a pedido da vítima, puxa o gatilho e
provoca a sua morte, já que, ainda que exista o consentimento, ele não é válido (vida =
bem indisponível). Se a vítima é forçada, mediante violência ou grave ameaça, a ingerir
veneno ou a desferir um tiro no próprio peito não há suicídio porque a vítima não queria
se matar. Há no caso, homicídio. Da mesma forma acontece no caso de fraude. O caso
do médico que cede um dispositivo a pacientes terminais para que eles próprios venham
a dar início à inoculação de veneno para a provocação da morte configuraria este tipo
penal.

3.7. Classificação – Trata-se de delito comum, material, instantâneo, comissivo, de


dano, unissubjetivo, de forma livre e plurissubsistente. Além disso, é crime
condicionado, que não admite tentativa. Para a perfeita configuração do tipo,
provocando a punição do agente, exige-se a ocorrência de uma condição, que é a morte
da vítima ou a existência de lesões corporais de natureza grave.

3.8. Causas de aumento de pena (parágrafo único) – A pena será duplicada nos
seguintes casos:

a) motivo egoístico – é aquele que diz respeito a interesse próprio, à obtenção de


vantagem pessoal. Ex. recebimento de herança ou para receber valor de seguro;

b) vítima menor - a lei não indica qual a menoridade que ela se refere. Deve-se
entender a pessoa menor de 18 e maior de 14 anos, uma vez que se tem mais de 18
anos, aplica-se o caput e se não for maior de 14 anos, como o seu consentimento é
irrelevante, o crime cometido será o de homicídio (interpretação sistemática – arts. 224,
“a” e 27, ambos do CP). Tal critério, no entanto, não é absoluto;

c) capacidade de resistência diminuída por qualquer causa - .por exemplo, embriaguez,


idade avançada, enfermidade física ou mental etc. Se qualquer desses fatores anular
completamente a capacidade de resistência, pratica-se o delito de homicídio (hipótese
de vítima portadora de insanidade mental completa e criança menor de 14 anos).
3.9. Suicídio a dois ou pacto de morte – Ocorre quando duas pessoas resolvem
suicidar-se juntas. Hipóteses:

se duas pessoas fazem um pacto de morte e uma delas se mata e a outra desiste, a
sobrevivente responderá pelo crime do art. 122, do CP;

Se, entretanto, duas pessoas decidem morrer juntamente, se trancam em um


compartimento fechado, temos os seguintes casos:

b.1) sobrevivendo a pessoa que executou a conduta de abrir a torneira do botijão de gás,
haverá homicídio;

b.2) sobrevivendo quem não abriu a torneira, responde pelo crime do art. 122, do CP;

b.3) se os dois sobrevivem, havendo lesão de natureza grave: quem abriu o gás
responde por homicídio tentado (art. 121 caput, c/c art. 14, II, do CP); quem não abriu
responde pelo crime do art. 122, do CP

b.4) se os dois sobrevivem e não há lesão corporal grave: quem abriu o gás responde
por tentativa de homicídio; quem não abriu não responde por nada.

b.5) se os dois sobrevivem e ambos abriram a torneira: respondem por homicídio


tentado.

se um terceiro abre a torneira de gás e os dois se salvam, sem lesão de natureza grave,
os dois ficam impunes e o terceiro responde por tentativa de duplo homicídio, uma vez
que praticou aro executório de matar.

3.10. Roleta russa – Na roleta russa há uma arma com um só projétil, que deverá ser
disparada sucessivamente pelos participantes, rolando o tambor cada um em sua vez.
Neste caso, os sobreviventes respondem por participação em suicídio, embora mais
correto seja a caracterização de homicídio com dolo eventual, como já se decidiu (RT
409/395). O mesmo ocorre com o duelo americano (duas armas, estando uma só
carregada, os sujeitos devem escolher uma delas).

3.11. “Aberratio ictus” (erro na execução) – Se o agente ao disparar contra si


próprio, errar o alvo e atingir terceira pessoa, responderá pelo crime de homicídio
culposo.

3.12. Ação penal – A ação penal é pública incondicionada. Por se tratar de crime
doloso contra a vida, a competência se insere na competência do júri.

Infanticídio – art. 123 CP

Conceito: o infanticídio consiste na conduta de matar, sob influência do estado


puerperal, o próprio filho, durante o parto, ou logo após. É uma espécie de homicídio
privilegiado em que, por circunstâncias particulares e especiais, houve por bem o
legislador conferir tratamento mais brando à autora do delito.

Objetos jurídico e material-o objeto do crime de infanticídio é o direito à vida. A vida é


tanto do neonato (o que acabou de nascer) como do nascente (o que é morto durante o
parto).
Sujeito ativo e passivo-autora do delito só pode ser a mãe (crime próprio), enquanto a
vítima é o ser nascente ou recém nascido. É crime impossível se a criança já estava
morta. Se a mãe, mesmo estando sob a influência do estado puerperal e logo após o
parto, mata algum outro filho que não o nascente ou recém-nascido, incide no crime de
homicídio.

Concurso de agentes - se a mãe mata o recém-nascido tendo sido estimulada por


terceiro, este será partícipe no infanticídio. Se ambos matam a vítima, são co-autores do
infanticídio. Há entendimento também que o estado puerperal é personalíssimo, e,
assim, quem colaborasse com morte do recém-nascido responderia sempre por
homicídio. Para esta corrente não existe co-autoria ou participação no infanticídio. De se
notar, porém, que o CP adotou a teoria do art. 29 do CP.

Distinção entre infanticídio e aborto- o infanticídio pode ter lugar durante o parto ou logo
após. Nesta última hipótese, não há dúvida: inexiste aborto. Quanto ao início do parto, é
necessário precisar o momento em que tem início o parto: dá-se com a ruptura da bolsa,
pois a partir daí o feto se torna acessível às ações violentas (por instrumentos ou pela
própria mão do agente). Assim, iniciado o parto, torna-se o ser vivo sujeito ao crime de
infanticídio. Antes, é hipótese de aborto.

Aborto-é a cessação da gravidez, antes do tempo normal, causando a morte do feto.


Embriões fora do útero-não se trata de vida intra-uterina (fato atípico).

Formas de aborto: A-Natural-doenças, má formação... B-Acidental-queda etc. C-


Provocado-criminoso ou legal.

Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento

Art. 124. Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque:

Pena – detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos.

Auto-aborto: ocorre quando a gestante provoca aborto em si mesma.

Aborto consentido: ocorre quando a gestante consente que terceiro lhe provoque o
aborto. Nesse caso, o terceiro responderá pelo crime do art. 126 do CP.

Expulsão do produto da concepção: para Mirabete, o aborto não implica


necessariamente expulsão do produto da concepção, que “pode ser dissolvido,
reabsorvido pelo organismo da mulher ou até mumificado, ou pode a gestante morrer
antes da sua expulsão”.

Jurisprudência: “A ação de provocar aborto tem por objeto interromper a gravidez e


eliminar o produto da concepção. Ela exerce-se sobre a gestante ou também sobre o
próprio feto ou embrião.

Isto significa que a mulher engravidada e o fruto da concepção constituem objeto


material da ação de provocar o aborto. Consuma-se o crime com a morte do feto ou
embrião. Pouco importa que a morte ocorra no ventre materno ou fora dele. Irrelevante
é, ainda, que o evento se dê com a expulsão do feto ou sem que este seja expelido das
entranhas maternas” (TJSP, RITJSP, 67/322).

Objetividade jurídica: é a proteção do direito à vida humana em formação, a chamada


vida intra-uterina.

Vida: foi comprovado cientificamente que, desde a concepção (fecundação do óvulo),


existe um ser em criação, que cresce, se aperfeiçoa, assimila substâncias, tem
metabolismo orgânico exclusivo e, nos últimos meses de gravidez, se movimenta e
revela uma atividade cardíaca, executando funções típicas de vida.
Jurisprudência:

Sujeito ativo: é a gestante, nos casos de auto-aborto e aborto consentido. Pode ser
qualquer pessoa nos demais casos previstos em lei.

Sujeito passivo: é o feto, entendido como o ser em qualquer em qualquer fase de


formação.

Conduta: consiste na destruição do produto da concepção, expressa pelo verbo provocar,


que significa dar causa, produzir, originar, promover.

Meios de execução: qualquer meio comissivo ou omissivo, material ou psíquico, integra a


conduta típica.

Crime impossível: sendo o meio empregado inteiramente ineficaz, como ocorre na


aplicação

de injeção sem efeito abortivo, haverá crime impossível. O mesmo ocorre no caso de
manobras abortivas praticadas em mulher que não se encontra grávida ou dirigidas a
feto já morto.

Jurisprudência:

Prova de vida do feto: exige-se também a prova de vida do feto, assim como exame de
corpo de delito na mãe para comprovar a ocorrência do abortamento. Se não for possível
o exame pericial direto, por terem desaparecido os vestígios, a prova testemunhal ou
documental poderá suprir-lhe a falta.

Dolo direto ou eventual: o dolo pode ser direto, quando há vontade firme de interromper
a gravidez e de produzir a morte do feto, ou eventual, quando o sujeito assume o risco
de produzir o resultado.

Aborto culposo: não existe. A mulher grávida que causa a interrupção da gravidez por
imprudência ou negligência não responde por crime algum.

Terceiro que causa aborto culposamente: responde pelo crime de lesão corporal culposa
(de natureza gravíssima, art. 129, p. 6º., c/c p. 2º., V, do CP).

Tentativa: em sendo crime material, admite-se quando, provocada interrupção da


gravidez, o produto da concepção não morre por circunstâncias alheias à vontade do
agente.

Tentativa de aborto e infanticídio: poderá, eventualmente, existir concurso material


entre tentativa de aborto e infanticídio, quando o feto, embora interrompida a gravidez,
nasce com vida e é morto em seguida pela mãe.

Aborto provocado por terceiro

Art. 125. Provocar aborto, sem o consentimento da gestante:

Pena – reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos.

Objetividade jurídica: é a proteção do direito à vida humana em formação, a chamada


vida intra-uterina.

Sujeito ativo: qualquer pessoa.


Sujeito passivo: é o feto, entendido como o ser em qualquer fase de formação. A
gestante também é vítima quando o aborto é praticado sem o seu consentimento.

Jurisprudência:

“Quem desfere violento pontapé no ventre de mulher visivelmente grávida, acarretando-


lhe a expulsão e a morte do feto, comete o delito de aborto provocado e não o de lesão
corporal de natureza gravíssima, previsto no art. 129 do CP.(TJSP, RT, 578/305).

Elemento subjetivo: é o dolo. Não é admitida a modalidade culposa.

Art. 126. Provocar aborto com o consentimento da gestante:

Pena – reclusão, de 1 (um) a 4 anos.

Sujeito ativo: qualquer pessoa. Nesse caso, a gestante que consentiu no aborto responde
pelo crime do art. 124 do CP.

Parágrafo único. Aplica-se a pena do artigo anterior, se a gestante não é maior de 14


(quatorze) anos, ou é alienada ou débil mental, ou se o consentimento é obtido mediante
fraude, grave ameaça ou violência.

Gestante menor de 14 ou alienada ou débil mental: nesses casos a pena a ser aplicada
ao agente é a mesma do aborto provocado sem o consentimento da gestante, à vista da
ausência de capacidade da vítima em consentir no aborto.

Consentimento viciado: se o consentimento da gestante for obtido mediante fraude,


grave ameaça ou violência, a pena a ser aplicada ao agente será a mesma do aborto
provocado sem o seu consentimento.

Forma qualificada

Art. 127. As penas cominadas nos dois artigos anteriores são aumentadas de um terço,
se, em consequência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante
sofre lesão corporal de natureza grave; e são duplicadas, se, por qualquer dessas
causas, lhe sobrevém a morte.

Lesão corporal de natureza leve: é absorvida pelo ato do abortamento, integrando


implicitamente o tipo penal.

Jurisprudência:

Art. 128. Não se pune o aborto provocado por médico:

Médico: as modalidade de aborto legal, para gozarem da tolerância da lei, devem ser
praticadas por médico.

Enfermeira: no caso de enfermeira ou outro profissional que auxilie o médico nesses


procedimentos legais, tem prevalecido o entendimento de que a causa de exclusão de
culpabilidade a eles também se estende.

Jurisprudência

Aborto necessário

I – se não há outro meio de salvar a vida da gestante;


Aborto necessário ou terapêutico: é o praticado quando não há outro meio de salvar a
vida da gestante.

Agente não médico: poderá apenas praticar o aborto se presente o perigo atual para a
vida da gestante, evidenciando-se assim o estado de necessidade de terceiro, como
causa excludente da antijuridicidade.

Aborto eugenésico ou eugênico: visa impedir a continuação da gravidez quando há


possibilidade de que a criança nasça com anomalias graves. Não se confunde com o
aborto necessário. Não é hipótese de aborto legal e, se provocado, será considerado
aborto criminoso.

Aborto social: se fundaria no fato de a gestante não possuir condições financeira de criar
o filho. Considera-se criminoso.

Aborto honoris causa: teria por fundamento a preservação da honra da gestante e de sua
família em face de uma gravidez fora do casamento ou união estável. Considera-se
criminoso.

Habeas corpus em favor do feto: é admissível.

Jurisprudência: “O habeas copus foi impetrado em favor do nascituro, ora no oitavo mês
de gestação, contra decisão do Tribunal a quo que autorizava intervenção cirúrgica na
mãe para interromper a gravidez. Essa cirurgia foi permitida ao fundamento de que o
feto

padece de anencefalia, doença que levaria à inviabilidade de sua vida pós-natal. A


Turma, porém, concedeu a ordem, pois a hipótese em questão não se enquadra em
nenhuma daquelas descritas de forma restrita no art. 128 do CP. Assim, não há como se
dar interpretação extensiva ou analogia in malam partem; há que prestigiar o princípio
da reserva legal” (STJ, 5ª. T., HC 32.159-RJ, Rel. Min. Laurita Vaz, j. 12-2-2004).

Aborto no caso de gravidez resultante de estupro

II – se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da


gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.

Também chamado de aborto humanitário, aborto sentimental, aborto piedoso ou aborto


ético, é aquele em que a gravidez é resultante de estupro.

Autorização judicial: não há necessidade de prévia autorização judicial.

Consentimento da gestante: é imprescindível, ou, quando incapaz, de seu representante


legal.

Gravidez resultante de atentado violento ao pudor: a doutrina e jurisprudência tem


entendido que goza de isenção de punibilidade, haja vista a semelhança de situações e a
aplicação da analogia.

LESÕES CORPORAIS

Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem:

Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano.


Conceito de Lesão Corporal: é o dano ocasionado á normalidade funcional do corpo
humano, do ponto de vista anatômico, fisiológico ou mental. O delito de lesão corporal
nada mais é do que a ofensa á integridade corporal ou à saúde de outrem.

“Lesão corporal é apenas ofensa á integridade corpórea, mas também á saúde.


Portanto, tanto é lesão a desordem das funções fisiológicas como as das funções
psíquicas, como é o caso da vitima que desmaia em virtude de forte tensão emocional,
produzida por agressão do réu” (TAMG,RT,616/358).

Lesão corporal de natureza leve: o art.129 apenas menciona as hipóteses de lesão


grave lesão gravíssima e lesão seguida de morte. Portanto, o conceito de lesão leve se
dá por exclusão, ou seja, toda lesão que não for grave, gravíssima ou seguida de morte,
será leve.

Vias de fato: não se confunde o crime de lesão corporal com a contravenção penal de
vias de fato (art.21 da LCP – Dec. Lei n. 3.688/41). Nas vias de fato, não há dano á
incolumidade física da vitima. Ex.: empurrão, tapa etc.

Exame de corpo de delito: toda lesão corporal, em regra, deve ser comprovada
através de exame de corpo de delito, direto ou indireto (art.158 do CPP), feito por dois
peritos oficiais. Excepcionalmente, se os vestígios da lesão corporal houverem
desaparecido, o exame de corpo de delito poderá ser suprido pela prova testemunhal
(art. do CPP).

Tentativa: em tese, admite-se quando o sujeito, embora empregando meio executivo


capaz de causar o dano á incolumidade corporal da vitima, por circunstância alheias á
sua vontade não consegue a consecução de seu fim.

“Se o agente, mediante atuação agressiva, inequivocamente mostra seus animus


vulnerandi e só por motivo independente de sua vontade não logra ferir o antagonista,
caracteriza-se plenamente tentativa de lesões. E na ignorância sobre se o interessado
desejava ferir leve ou gravemente o desafeto, a imputação deve inclinar-se, na dúvida,
pela solução mais favorável ao réu” (TACrim,/JTACrim,8/199)

Ação penal: é pública incondicionada.

Juizado Especial Criminal: de acordo com o disposto no art. 88 da Lei n. 9.099, de 26


de setembro de 1995 (Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais), a ação penal
relativa aos crimes de lesões corporais leves e lesões culposas será pública condicionada
a representação da vitima.

São seis as espécies de ofensa à integridade corporal ou à saúde de outrem:

LESÂO CORPORAL SIMPLES (DOLOSA) - Ofende a integridade ou saúde corporal de


outrem.

LESÂO CORPORAL DE NATUREZA GRAVE (art.129, § 1º), quando resultar em:

Incapacidade para as ocupações habituais, por mais de 30 dias, sendo necessário o


exame de corpo de delito e mais um complementar após o 30º dia;

Perigo de vida;

Aceleração do parto, sendo necessário que o agente tenha conhecimento da gravidez


(ex: criança nasce de 7 meses).

LESÃO CORPORAL DE NATUREZA GRAVÍSSIMA (art.129, §), quando resultar em:

Incapacidade permanente para o trabalho;


Enfermidade incurável;

Perda ou inutilização de membro, sentido ou função;

Aborto.

LESÃO CORPORAL SEGUIDA DE MORTE – O agente não queria o resultado nem assumiu o
risco de produzi-lo (crime preterdoloso). Denominado homicídio preterintencional.

“A intitulação do delito como lesão corporal seguida de morte está condicionada a que o
contexto das circunstâncias do fato acontecido evidencie que o querer do agente não
inclui, nem mesmo eventualmente, o resultado “morte” produzido por ato daquele”
(TJSP, RT, 592/325).

LESÃO CORPORAL CULPOSA-O agente não queria o resultado, mas este poderia ser
previsível (pena: detenção de dois meses a um ano).

LESÃO CORPORAL CULPOSA PRATICADA NA DIREÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR-criada


pela lei 9.503/97, art. 303 do CTB. A pena é de seis meses a dois anos de detenção, mas
aumenta de um terço a metade: se o agente não possuir permissão para dirigir ou
carteira de habilitação; se praticada em faixa de pedestres ou calçada; se deixar de
prestar socorro, quando possível, sem risco pessoal; se no exercício de sua profissão ou
atividade estiver conduzindo veículo de transporte de passageiros.

Violência doméstica

§ 9º Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente, irmão, conjugue


ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido, ou, ainda,
prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de coabitação ou de
hospitalidade: (Incluindo pela Lei n. 10.886, de 17-6-2004.)

Pena – detenção, de 3 (três) meses a 3 (três) anos. (Pena alterada pela Lei n.
11.340, de 7-8-2006.)

Violência doméstica: criando um tipo penal especial denominado violência doméstica,


a Lei n. 10.886, de junho de 2004, acrescentou o § 9º ao art. 129 do Código Penal, ora
modificado pela Lei n. 11.340, de 7 de agosto de 2006, que estabelece pena de três
meses a três anos de detenção “ se a lesão for praticada contra ascendente,
descendente, irmão, conjugue ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha
convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de coabitação
ou de hospitalidade”.

Figura típica qualificada: Trata-se, em verdade, de figura típica qualificada do crime


de lesão corporal dolosa, em que as relações de parentesco, maritais, de convivência e
domésticas, de coabitação ou de hospitalidade são fatores determinantes do
agravamento da sanção.

Juizado Especial Criminal: por determinação expressa do art. 41 da Lei n.


11.340/2006, aos crimes praticados com violência doméstica e familiar contra mulher,
independentemente da pena prevista, não se aplica a Lei n. 9.099, de 26 de setembro de
1995. Portanto, nesses casos, descabem os institutos da transação (art.72 da Lei n.
9.099/95), conforme assinalado no item acima, é perfeitamente possível a prisão em
flagrante do agressor, nos termos dos arts. 301 e s. do Código de Processo Penal.

Medidas protetivas de urgência: são previstas nos arts. 18 e s. da Lei n.


11.340/2006, e aplicáveis á mulher que vier a ser vitima de violência doméstica e
também ao agressor.
Cestas básicas e multa: é verdade a aplicação, nos casos de violência doméstica e
familiar contra a mulher, segundo dispõe o art. 17 da Lei n. 11.340/2006, de penas de
cesta básica ou outras de prestação pecuniária, bem como a substituição de pena que
implique o pagamento isolado de multa.

Assistência judiciária: em todos os atos processuais, cíveis e criminais, a mulher em


situação de violência doméstica e familiar deverá, segundo o disposto no art. 27 da Lei n.
11.340/2006, estar acompanhada de advogado, ressalvado o previsto no art. 19 desta
Lei, sendo-lhe garantido o acesso aos serviços de Defensoria Pública e Assistência
Judiciária Gratuita, nos termos da lei, em sede policial e judicial, mediante atendimento
específico e humanizado.

Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a mulher: foram instituídos


pela Lei n. 11.340/2006 ( Violência contra mulher)

§ 10. Nos casos previstos nos §§ 1º a 3º deste artigo, se as circunstâncias são


as indicadas no § 9º deste artigo, aumenta-se a pena em 1/3 (um terço).
(Incluído pela Lei n. 10.886, de 17-6-20040.)

Causa de aumento de pena: segundo esse dispositivo, a pena das lesões corporais
previstas nos §§ 1º a 3º são aumentadas de um terço se praticadas nas circunstâncias
indicadas no § 9º, ou seja, contra ascendente, descendente, irmão, conjugue ou
companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o
agente das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade.

§ 11. Na hipótese do § 9º deste artigo, a pena será aumentada de 1/3 (um


terço) se o crime for cometido contra pessoa portadora de deficiência.

Causa de aumento de pena: segundo esse dispositivo, acrescentado pela Lei n.


11.340/2006 (Violência doméstica tendo como vitima pessoa portadora de deficiência
(Física ou mental), a pena das lesões corporais é aumentada de um terço.

LESÃO PRIVILEGIADA

Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou


moral ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da
vítima, o juiz poderá reduzir a pena de um sexto a um terço. Se as lesões forem leves,
nesses casos, poderá também o juiz substituir a pena de detenção pela pena de multa,
nos termos do § 5º.

PERICLITAÇÃO DA VIDA E DA SÚDE

Perigo de contágio venéreo (art. 130) – Dispõe sobre doença venérea, e o contágio se
dá só por meio de relações sexuais ou atos libidinosos: “Expor alguém, por meio de
relações sexuais ou qualquer ato libidinoso, a contágio de doença venérea, que sabe ou
deve saber que está contaminado”.

Perigo de contágio de moléstia grave (art. 131)- “Praticar, com o fim de transmitir a
outrem moléstia grave de que está contaminado, ato capaz de produzir o contágio.”
Abrange qualquer ato, não só relações sexuais, e engloba qualquer doença, não só
venérea.

Haverá crime impossível se o ofendido sofrer da mesma doença. Costuma-se com o ato
capaz de contagiar, sendo indiferente que a transmissão se efetive.

Perigo para a vida ou saúde de outrem (art.132) – “Expor a vida ou a saúde de


outrem a perigo direto ou iminente.” É necessária a inserção de uma vítima certa numa
situação de risco real e não presumido.
Abandono de incapazes (art.133 ) - “Abandonar pessoa que está sob seu cuidado,
guarda, vigilância ou autoridade, pessoa esta incapaz de defender-se dos riscos
resultantes deste abandono.” Pena: detenção de seis meses a três anos. Resulta-se em
lesão corporal de natureza grave, reclusão de um a cinco anos. Resulta-se em morte,
reclusão de 4 a 12 anos. As penas aumentam de um terço:

A) Se o abandono ocorrer em lugar ermo;

B) Se o agente é ascendente ou descendente, conjugue, irmão, tutor ou


curador da vítima;

C) Se a vítima for maior de 60 anos.

Exposição ou abandono de recém-nascido (art. 134) - constitui uma forma


privilegiada do delito de abandono de incapaz, em face do especial motivo que impele o
agente a praticar o crime: ocultar a desonra própria. Refere-se a lei ao abandono físico;
se for moral, poderá constituir crime contra assistência familiar (arts.244 a 247). É crime
próprio, em que o sujeito ativo é a mãe–solteira, adúltera ou viúva – que concebeu fora
do matrimônio.

Omissão de socorro (art.135)- “Deixar de prestar assistência a pessoa que estiver


precisando ou não pedir socorro da autoridade policial, quando possível faze-lo sem risco
pessoal.” Pena: detenção de um a seis meses. A pena será aumentada se da omissão
resultar lesão corporal de natureza grave ou a morte. Não se aplica o aumento de pena
se a morte era inevitável e não resultante da omissão.

O art.304 da lei 9.503/97 (código de trânsito) criou um novo tipo de penal de omissão de
socorro: o condutor do veículo que, na ocasião do acidente, deixa de prestar socorro
imediato á vítima ou, não podendo faze-lo diretamente, por justa causa , deixa de
solicitar auxilio da autoridade pública. Pena: detenção de seis meses a um ano. Só é
penalizado o condutor do veículo envolvido no acidente.

Maus tratos ( art.136)- Se, para o fim de educação, ensino, tratamento ou custódia,
alguém expõe a perigo a vida ou saúde de pessoa sob sua guarda, vigilância ou
autoridade, privando-a de cuidados indispensáveis ou de alimentação, sujeitando-a a
disciplina, trabalho excessivo ou inadequado, a pena será a detenção de dois meses a
um ano. Se do fato resultar lesão grave, a pena será a reclusão de um a quatro anos .Se
resultar morte, reclusão a 12 anos. A pena aumenta de um terço se o crime for praticado
contra menor de 14 anos.

RIXA

É um crime coletivo bilateral ou recíproco (art.137). O número de participantes deve ser


no mínimo três, ainda que algum deles possa ser identificado. Não responde pelo delito
os que visam a separar os contendores. As pessoas que se agridem mutuamente são
sujeitos passivos e ativos, ao mesmo tempo. A briga deve ter violência material, mas é
desnecessário contato entre os participantes (por exemplo, arremesso de objetos). A
pena é aumentada se resultar em morte ou lesão corporal de natureza grave.

CRIMES CONTRA A HONRA

A honra, conforme definição do prof.Magalhães de Noronha, “ pode ser considerada


como o complexo ou conjunto de predicados ou condição das pessoas que lhe conferem
consideração social e estima própria”. Esse conjunto de atributos morais, intelectuais e
físicos de uma pessoa faz com que ela seja respeitada e estimada pela sociedade.

Diferencia-se honra subjetiva de honra objetiva.


Honra objetiva é a reputação da pessoa, é o conceito que a sociedade tem a respeito
dela. Já a honra subjetiva é o sentimento que cada pessoa tem a respeito de si própria.
Cabe ressaltar que honra é sempre uma apreciação positiva. Em regra, os crimes contra
a honra são de natureza privada, iniciando-se a ação por queixa-crime.

Calúnia – Imputar, falsamente, fato definido como crime (art.138). Consuma-se quando
chega ao conhecimento de terceiros. Se fato for verdadeiro, o sujeito poderá provar por
meio da exceção da verdade. Se for imputado fato definido como contravenção penal,
responderá por difamação. É punível a calúnia contra os mortos.

Difamação – Imputar a alguém fato que atinja sua reputação (art.139). Costuma-se
quando chega ao conhecimento de terceiros. Atinge a objetiva, ou seja, o que todos
pensarão dessa pessoa. Caberá exceção da verdade se a ofensa for contra funcionário
público no exercício da função.

Injúria - Atinge o decoro, dignidade de alguém; pode ser por gestos ou palavras
(art.140). Consuma-se quando chega ao conhecimento do ofendido. Atinge a honra
subjetiva, ou seja, a honra de cada um.Admite-se na forma omissiva. Pode ser:

Real: oriunda de uma agressão que não chega a causar uma lesão;

Qualificada: oriunda de preconceito de raça, cor, etnia, religião, origem ou condição de


pessoa idosa ou portadora de deficiência.

Casos de perdão judicial - O juiz pode deixar de aplicar a pena quando o ofendido, de
forma reprovável, provocou diretamente a injúria ou no caso de retorsão imediata, que
consiste em outra injúria.

Aumento de pena (art.141)

Contra presidente da República ou chefe de governo estrangeiro (neste caso, a ação será
de natureza pública condicionada a requisição do ministro da Justiça);

Contra funcionário público (neste caso, a ação será de natureza pública condicionada
representação do ofendido);

Na presença de várias pessoas ou por meio que facilite a divulgação;

Paga ou promessa de recompensa;

Contra pessoa maior de 60 anos ou portadora de deficiência, exceto no caso de injúria.

Retratação-É a oportunidade do querelado de desdizer o que disse (art.143). Só cabe


na calúnia e na difamação. Não cabe na injúria, pois atingiu a honra subjetiva. O
ofendido não precisa aceitar. Com a retratação, o querelado fica isento de pena. Deve
ser feita antes da sentença definitiva. Por tratar-se de insenção de caráter pessoal, não
se comunica aos co-autores. Se o crime for praticado por meio da impresa, caberá
retratação nos três crimes.

Exclusão do crime (art.142) - ”Não constituem injúria ou difamação punível:

I-Se a ofensa for irrogada em juízo, na discussão da causa, pela parte ou seu
procurador (imunidade judiciária),

II-a opinião desfavorável da crítica, artística ou científica, salvo quando


inequívoca a intenção de injuriar ou difamar;

III-o conceito desfavorável emitido por funcionário público, em apreciação ou


informação que preste no cumprimento de dever do ofício.”