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O TRABALHO DA TRINDADE PEDAGÓGICA GESTORA NO


CONTEXTO EDUCACIONAL ESCOLAR DA ATUALIDADE:
ALGUMAS REFLEXÕES
doi: 10.4025/imagenseduc.v2i2.15910

Marcos Pereira dos Santos*


* Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG. mestrepedago@yahoo.com.br

Resumo
Este artigo tem como objetivo principal fazer algumas reflexões acerca do trabalho didático
desenvolvido pela trindade pedagógica gestora (direção escolar, coordenação pedagógica e
supervisão de ensino) no contexto educacional escolar da atualidade. Para tanto, buscamos
inicialmente apresentar as relações existentes entre teoria pedagógica, trabalho docente e
saber pedagógico. Em seguida, aborda-se algumas questões referentes ao papel da trindade
pedagógica na escola do século XXI, bem como sobre as funções específicas e articuladas
desempenhadas por esse trio gestor no espaço educacional escolar dos dias atuais.
Palavras-chave: Trabalho docente. Equipe pedagógica. Gestão escolar. Educação escolar.

Abstract: The work of the Trinity pedagogical management in the context of school
educational today: some reflections. This article has as main objective do some
reflections about the work didactic developed by trinity pedagogical gestionnaire (direction
school, coordenation pedagogical and supervision of education) in the context of today
school education. To this end, we initially display the interrelations between pedagogical
theory, teaching and learning. Then discusses some issues concerning the role of trinity
pedagogical school of the 21st century, as well as on the specific tasks and articulated
performed by this trio manager in school educational space today.
Key-words: Teaching. Teaching staff. School management. School education.

Introdução e supervisor(a) de ensino. E é exatamente sobre


o atual papel desempenhado por esses
Fazer uma escola, seja ela pública ou profissionais no espaço educativo escolar que o
privada, atingir bons resultados na aprendizagem presente artigo busca refletir.
dos estudantes e oferecer uma Educação de
qualidade é uma responsabilidade complexa o Relações entre teoria pedagógica, trabalho
bastante para ficar na mão de apenas uma docente e saber pedagógico
pessoa.
Por muito tempo, somente o professor foi A Pedagogia é uma ciência que tem por
responsabilizado por isso. Porém, a sociedade principal objeto de estudo a educação. Como
foi percebendo que o profissional da sala de fenômeno social, a educação não se esgota no
aula, sem a formação adequada e o apoio estudo de uma ciência; configurando-se,
institucional, não seria capaz de atingir sozinho portanto, num fenômeno múltiplo, síntese de
os objetivos educacionais almejados. inúmeras determinações. Por isso, requer uma
Do início da década de 1970 até os dias de pluralidade de enfoques sobre si, os quais para
hoje, uma série de estudos e pesquisas científicas além dos discursos produzidos sobre o real, a ele
vem sendo desenvolvidas no Brasil, Estados se voltam permanentemente com a indagação a
Unidos, Inglaterra e em outros países da Europa, respeito de seu potencial e seus limites para
apontando que, além do professor, a atuação de compreendê-lo. E, consequentemente, a partir
outros “atores sociais” também influencia na das novas demandas da realidade, rever a si
gestão da escola e no desempenho dos alunos. mesmos.
Entre eles, está a figura dos profissionais da Dessa forma, a discussão e o debate das
educação que compõem a chamada “trindade práticas escolares, das pesquisas científicas e dos
pedagógica gestora” da escola, formada pelo(a) discursos pedagógicos são fontes para
diretor(a) escolar, coordenador(a) pedagógico(a) ressignificar as teorias pedagógicas produzidas

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pelas diferentes ciências da educação e atenção para o fato de que as transformações das
possibilitar uma multirreferencialidade do práticas docentes só se efetivam na medida em
fenômeno. que o professor amplia sua consciência sobre as
O estudo da prática social da educação teorias pedagógicas e a própria prática.
requer competências que possibilitem novos Reformas educacionais gestadas nas
modos de compreensão do real e de sua instituições de ensino, sem tomar os professores
complexidade. A Pedagogia e as demais ciências como parceiros/autores, não se concretizam.
da educação estão encarregadas de produzir Daí a importância de se considerar, nos
esses novos modos. Não se pode mais educar, processos de formação e valorização dos
formar ou ensinar apenas com o saber científico docentes os aspectos de produção da vida do
das diferentes áreas de conhecimento, nem professor (desenvolvimento pessoal), do
tampouco com o saber-fazer trabalho docente (desenvolvimento profissional)
técnico/tecnológico. Faz-se necessária a e da própria escola (desenvolvimento
contextualização de todos os atos, seus múltiplos organizacional/institucional). Nesse sentido,
determinantes, a compreensão de que a valorizar o trabalho docente significa dotar os
singularidade das situações precisa de professores de perspectivas de análise que os
perspectivas filosóficas, históricas, sociológicas, ajudem a compreender os contextos histórico,
psicológicas entre outras; as quais constituem o social, cultural e organizacional nos quais se dá
que se pode chamar de “cultura profissional da sua atividade docente.
ação”, ou seja, que permitem aclarar e dar Mas, o que se entende por trabalho docente?
sentido à ação. Em linhas gerais, trabalho docente é o
Nesse contexto, a Pedagogia, como ciência processo de trabalho didático-pedagógico do
prática da e para a dinâmica educacional, tem na professor na escola (AZZI, 2002). Imprimindo
atividade docente um de seus principais campos uma direção própria a seu trabalho, o professor é
de investigação, embora a atividade docente não o responsável direto, juntamente com seus
se esgote numa única ciência. Dizemos isso, alunos, pelo ensino e pela aprendizagem que
porque concordamos com Cunha (1989, p.10) ocorre na sala de aula. Ele apresenta e necessita
ao afirmar que: de uma autonomia didática que se expressa no
cotidiano de seu trabalho, pois só assim é capaz
A atividade do professor é o ensinar. Na de enfrentar os desafios do processo ensino-
sua acepção corrente, é definida como aprendizagem e da educação.
uma atividade prática. O professor em Considerando que o trabalho docente é e
formação está se preparando para efetivar deve ser uma práxis, mais especificamente uma
as tarefas práticas de ser professor. Dado
práxis criadora, a apreensão de seu significado,
que não se trata de formá-lo como
reprodutor de modelos práticos essência e riqueza de possibilidades encontra-se
dominantes, mas como agente capaz de orientada pelo conceito de trabalho humano em
desenvolver a atividade material para geral e suas formas de organização na sociedade
transformar o mundo natural e social capitalista; bem como pela definição de
humano, cumpre investigar qual a cotidiano e as características que lhe são
contribuição que a Pedagogia pode dar próprias. Dizemos isso, porque o trabalho
nessa formação. docente é muitas vezes descrito, mas nem
sempre compreendido como “uma atividade
Nas duas últimas décadas tem ocorrido, em historicamente construída, uma práxis em que a
diferentes países (Brasil, Portugal, Espanha, unidade teoria e prática se caracteriza pela ação-
Itália, França e outros), um maciço investimento reflexão-ação no contexto da organização
na qualificação dos docentes, tanto na formação escolar” (JUNGES, 2006, p. 38, grifo nosso) e,
inicial quanto na formação em serviço, no por conseguinte, no âmbito da organização do
contexto de reformas do ensino que trabalho no modo de produção capitalista.
generalizaram a escolarização. Entendendo que a Construído no bojo da sociedade capitalista,
democratização do ensino passa, no cotidiano da vida social, o trabalho docente
necessariamente, pelos professores, em termos desenvolve-se e transforma-se, expressando, em
de sua formação, valorização profissional e distintos momentos históricos, diferentes
condições de trabalho, Facci (2004) chama a imagens e situações de sua profissionalização.

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Ele decorre de uma adjetivação de trabalho A prática docente é, simultaneamente,


(enquanto categoria geral), atribuindo-lhe uma expressão do saber pedagógico construído e
delimitação (docente), ao mesmo tempo que fonte de seu desenvolvimento. Isto significa
aponta para uma especificidade. Nesse sentido, a dizer que esse saber é adquirido, em parte, nos
docência passa a ser vista como trabalho a partir cursos de formação inicial e continuada de
de sua profissionalização, que ainda apresenta professores, acumulando-se e consolidando-se
uma série de limitações sociais, econômicas, na prática em torno do ensino que forma a base
políticas e culturais. real de funcionamento das escolas e que abre o
Síntese histórica da evolução da docência, a espaço possível para o apoio à transformação da
construção do conceito de trabalho docente experiência escolar.
demanda uma análise da atividade do professor, Ao usar a expressão “saber pedagógico”
que se transforma junto com o desenvolvimento para designar o saber construído pelo professor
da sociedade. Embora o trabalho docente se no cotidiano de seu trabalho, faz-se necessário
desenvolva em instituições burocráticas e diferenciá-lo do conhecimento pedagógico,
hierarquizadas onde o professor depara-se, elaborado por pesquisadores e teóricos da
muitas vezes, com diversas formas de controle e educação. Não estamos, no entanto, reforçando
divisão de tarefas, seu trabalho deve ser ou mesmo estabelecendo a separação entre os
entendido como uma função laboral “completa”, que pensam e aqueles que executam o ensino
pois o ato de ensinar, mesmo sendo composto e/ou a educação. Ao contrário, o que
por atividades diversas e podendo ser pretendemos é justamente mostrar que o
decomposto metodologicamente, somente professor, muitas vezes considerado um simples
poderá ser desenvolvido em sua totalidade; até executor de tarefas, é alguém que também pensa
porque e faz o processo de ensino. Contudo, esse pensar-
fazer reflete o professor enquanto ser histórico-
[...] na docência, mais que em outros social, uma vez que o mesmo é condicionado
trabalhos, utilizam-se e integram-se os pelas possibilidades e limitações pessoais,
diversos conhecimentos sociais e culturais profissionais e do contexto em que atua.
que o mestre possui como pessoa, além de Da diferenciação entre saber e
sua formação profissional. Esse fato é
conhecimento – saber como fase do
iniludível, dada a complexidade da situação
docente; complexidade que se dá tanto na desenvolvimento do conhecimento, onde o
relação com o conhecimento escolar homem apenas sabe que sabe, mas não sabe
quanto na relação social com os alunos. ainda como chegou a saber – emerge a
Não existe um desenho técnico do importância do saber pedagógico, enquanto
processo de trabalho docente capaz de saber construído pelo professor no exercício da
conformar e prever – e finalmente docência, como elemento que contribui para
controlar – passo a passo o fazer cotidiano uma nova leitura da (des)qualificação docente,
do mestre. Este, como sujeito, se encontra pois mostra a atividade do professor como algo
em uma situação objetiva que o obriga a que demanda uma capacidade que vai além da
lançar mão de todos os recursos possíveis,
execução e de grande relevância na condução do
técnicos e pessoais, intelectuais e afetivos
para poder seguir perante o grupo. processo educacional que vise a um ensino de
(ZARAGOZA, 1999, p.69) qualidade.

Nessa perspectiva, o trabalho desenvolvido O papel da trindade pedagógica gestora na


pelo professor em sala de aula expressa a sinopse escola do século XXI
de um saber pedagógico possuído pelo docente;
saber esse entendido por Tardif (2002, p.34) Três. Em muitas ocasiões, a força desse
enquanto “campo teórico do ensino e da número parece apontar para a ‘perfeição’; pois é
educação, saber que o professor constrói no com três peças que se constrói uma engrenagem
cotidiano de seu trabalho e que fundamenta sua essencial para o bom funcionamento da escola e
ação docente, ou seja, é o saber que possibilita de sua gestão nos dias atuais.
ao professor interagir com seus alunos, na sala A chamada “trindade pedagógica gestora”
de aula e na escola onde atua”. ou “trio pedagógico gestor”, denominação que
começa a aparecer cada vez com maior

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frequência no mundo da Educação e da superados a partir da conscientização por parte


Pedagogia, é a soma de forças do trabalho dos componentes do trio gestor da necessidade
desenvolvido pela direção escolar, coordenação de realização de um trabalho em conjunto e
pedagógica e supervisão de ensino nas cooperativo para o alcance de resultados
instituições escolares públicas e privadas de eficientes e satisfatórios; embora diretores
Educação Básica. escolares, coordenadores pedagógicos e
Num trabalho conjunto e cooperativo, “esse supervisores de ensino exerçam funções
trio busca implementar as políticas públicas de específicas no contexto educacional escolar. É
educação da rede municipal ou estadual de nesse sentido que o conhecimento da ciência
ensino e luta para que a equipe docente trabalhe pedagógica torna-se imprescindível, não porque
cada vez mais unida” (ROSA, 2009, p.27), contenha diretrizes concretas válidas para ‘hoje e
inclusive no momento de elaboração coletiva do amanhã’, mas porque permite a trindade
projeto político-pedagógico da escola. Todavia, pedagógica gestora realizar uma autêntica análise
essa é uma experiência de gestão pedagógica crítica e reflexiva da cultura pedagógica escolar;
ainda um tanto quanto nova em algumas escolas bem como debruçar-se sobre as reais
brasileiras, uma vez que necessita atender à dificuldades que encontra em seu trabalho a fim
realidade e às necessidades específicas das de superá-las de maneira criativa e responsável.
mesmas em cada região do país.
Além disso, é importante ressaltar que Funções específicas e articuladas do trio
algumas redes públicas e privadas de ensino pedagógico gestor no espaço educacional
ainda não têm uma estrutura tal que permita a escolar dos dias atuais
perfeita integração do trio pedagógico gestor.
Noutras, porém, mesmo com a existência das Da direção escolar
funções de diretor escolar, coordenador
pedagógico e supervisor de ensino não há a De modo geral, pode-se dizer que o diretor
predominância de uma cultura de colaboração é um gestor escolar por excelência; pois a ele
entre esses profissionais da educação, cabe liderar, gerenciar e articular o trabalho de
ocasionando um verdadeiro embate entre os todos os professores e demais funcionários da
mesmos e fazendo com que o trabalho não se escola em função de uma meta a ser alcançada,
realize a contento na escola, ou seja: às vezes o ou seja, a aprendizagem dos alunos. É ele quem
diretor considera que o supervisor não sabe responde legal e judicialmente pela instituição-
integralmente o que ocorre dentro da escola e, escola e pedagogicamente por seus trabalhos.
por isso, tende a rejeitar suas orientações; mas, Vale ressaltar, entretanto, que essa última
ao mesmo tempo, demanda providências da atribuição, talvez a mais importante de todas, é
secretaria municipal ou estadual de educação às vezes esquecida ou relegada a segundo plano.
para tentar executar uma boa gestão. É quando, Nesse sentido, o diretor escolar configura-
pois, o “jogo de encaixe” fica com as peças se, segundo Gomes (2003), como uma espécie
embaralhadas e desconectadas. de líder que busca garantir, através de uma
De fato, não é raro ouvir gestores escolares gestão ativa e participativa, o bom
se queixando de que os supervisores de ensino funcionamento da escola em todos os sentidos.
estão nas escolas somente para fiscalizar e dar Ele é o responsável pelos resultados pedagógicos
ordens. Estes, por sua vez, reclamam que da escola, devendo informar às secretarias
aqueles não sabem administrar e os municipais ou estaduais de educação sobre as
coordenadores pedagógicos não ‘formam’ a principais demandas da escola no intuito de
contento os professores, de modo que alguns garantir a aprendizagem dos educandos.
assumem essa função diretamente deixando os No entanto, para que isso seja possível faz-
coordenadores à margem do processo. Sentindo- se necessário adotar um estilo de gestão e
se excluídos, esses últimos alegam que os liderança que influencie positivamente as
supervisores de ensino não têm os atitudes da equipe escolar. Dizemos isto, porque
conhecimentos didáticos necessários para é consensual a ideia de que gerir uma escola, seja
orientar a equipe docente. ela de pequeno, médio ou grande porte, não é
Em resumo, esses são ranços que não levam tarefa simples. E existem várias formas de ser
a lugar nenhum e podem ser perfeitamente gestor e líder, construir a autoridade moral e

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conquistar a adesão da equipe escolar ao projeto Grosso modo, o coordenador pedagógico é


político-pedagógico da escola; uma vez que, o “profissional da educação que dirige sua
segundo a concepção de Valerien e Dias (1993, atenção à formação em serviço de todos os
p.82), há basicamente três estilos diferentes de professores da escola, tendo em suas mãos o
liderança que podem ser exercidas pelo diretor- desafio de mobilizar e articular a equipe escolar
gestor: para tecer o projeto político-pedagógico da
instituição de ensino”. (FREITAS, 2010, p.78).
Autocrático ou centralizador: aplica-se ao Em outros termos, isto significa dizer que o
gestor que, na maioria das vezes, exige coordenador pedagógico deve ser o
obediência, recusa qualquer tipo de “especialista” nas diversas didáticas (técnicas e
discussão, determina o caminho a ser métodos) de ensino e o parceiro mais experiente
seguido e toma isoladamente as decisões;
que o corpo docente da escola poderá contar. É
tornando-se uma espécie de “sabe tudo” e
“melhor que os outros”. É ele quem dirige ele quem responde por esse trabalho junto ao
sozinho, sem dar espaço para possíveis diretor, formando assim uma relação de parceria
contestações. e cumplicidade, a fim de transformar a escola
Democrático: processo de liderança que vive num espaço de ricas e significativas
da ação coletiva. O gestor integra e utiliza aprendizagens.
em seu trabalho as ideias e contribuições Todavia, o que se observa em alguns casos é
dos professores. Essa forma de direção que, mesmo sem possuir formação profissional
implica acordo, discussão e participação de adequada e suficiente para o exercício de
toda a equipe escolar na seleção da política atividades burocráticas, o coordenador
a seguir e nas decisões a tomar. O diretor-
pedagógico acaba assumindo inúmeras funções
gestor democrático se coloca numa
situação de moderador, que deve zelar técnico-administrativas na escola; fazendo com
para que as decisões sejam posteriormente que a formação continuada dos professores
implementadas. fique em segundo plano ou praticamente seja
“Laissez-faire”: é o estilo de gestão de quem deixada de lado, acarretando assim sérios
se preocupa em exercer um controle problemas ao processo ensino-aprendizagem.
mínimo, dando à equipe escolar total
liberdade (“deixar fazer”). Se aplica a Da supervisão de ensino
quem dá “carta branca” à execução de
tarefas. Esse gestor tenta se limitar a O supervisor de ensino, terceiro
fornecer as informações necessárias para
componente do trio pedagógico gestor, é o
que os funcionários implementem as
decisões tomadas e a cuidar de questões profissional designado pela secretaria municipal
administrativas, além de atuar como ou estadual de educação para ser seu
“árbitro” em dificuldades inesperadas. representante junto às escolas e fazer a interface
do Executivo com elas. Esse profissional,
Contudo, entendemos que nenhum diretor- geralmente um educador, tem a incumbência de
gestor se enquadra em apenas um desses estilos dar apoio técnico, administrativo e pedagógico
de liderança. Normalmente, os três modelos de às instituições de ensino; bem como garantir a
gestão supracitados se mesclam no dia a dia da formação de gestores escolares, professores e
escola. Em algumas situações, o diretor tende a coordenadores pedagógicos, e dinamizar a
ser mais democrático, chamando a participação de implantação de políticas públicas de educação.
toda a comunidade escolar para a discussão de É interessante destacar que as redes
determinada questão. Em outras ocasiões, toma escolares de ensino, públicas e privadas, mais
as decisões sozinho, caracterizando assim uma bem estruturadas em termos de recursos físicos
atitude mais autocrática; e em raros casos ocupa-se e humanos dispõem de uma equipe de
somente em delegar tarefas e decisões aos supervisores que divide responsabilidades e se
professores e coordenadores pedagógicos da articula para fazer a orientação do trabalho dos
escola onde exerce sua gestão. diretores e apoiá-los nas questões do dia a dia da
escola, formar os professores e coordenadores
Da coordenação pedagógica pedagógicos e assim garantir a implementação de
políticas públicas educacionais de modo eficaz e

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eficiente, que são as orientações oficiais gerais democráticas, aprendentes e voltadas à conquista
que dão unidade às redes escolares. de um processo ensino-aprendizagem eficaz,
Quanto melhor e mais efetiva for a atuação eficiente e de qualidade face às exigências do
do supervisor de ensino nas unidades escolares, mundo contemporâneo, não é tarefa simples,
maiores serão as chances desse profissional da nem para poucos. Requer esforço do coletivo de
educação lograr êxito em seu trabalho. Dizemos profissionais da educação, de alunos, de pais e de
isso, porque concordamos com Nunes (2008) ao governantes.
afirmar que além de fazer a formação de No que diz respeito, em específico, ao
diretores escolares e coordenadores pedagógicos; trabalho desenvolvido pelo trio pedagógico
monitorar a implantação e a continuidade de gestor – direção escolar, coordenação
políticas públicas, evitando que as redes pedagógica e supervisão de ensino – no contexto
escolares percam o foco – a aprendizagem dos educacional da atualidade, essa tarefa torna-se
alunos; e acompanhar e apoiar o processo de ainda mais complexa e extremamente
desenvolvimento do projeto político-pedagógico desafiadora. Dizemos isso, porque entendemos
das escolas; deve também o supervisor de ensino que a trindade gestora somente alcançará êxito
ter consciência de que seu papel junto às escolas em suas atividades na escola se realizar um
é muito importante, necessitando assim da trabalho coeso e bem articulado entre si e com
realização de um trabalho coeso e bem os professores que atuam diretamente em sala de
articulado com diretores escolares, aula, uma vez que os mesmos podem e devem
coordenadores pedagógicos e professores para contribuir com suas concepções pedagógicas,
que se possa conquistar uma educação de seus valores, suas competências e seus saberes
qualidade. docentes nesse contexto.
Em suma, isso significa dizer que: Em outras palavras, isso implica afirmar que
o trabalho da trindade pedagógica é de
[...] toda prática social é determinada, fundamental importância para o
direta ou indiretamente, por uma espécie desenvolvimento geral da escola, pois a esse trio
de “jogo de forças” (interesses, motivações gestor cabe a responsabilidade de estabelecer
e intencionalidades); pelo nível de conexões entre teorias e práticas pedagógicas,
consciência de seus atores; pela visão de
tomar decisões corretas e acertadas acerca da
mundo que os orienta; pelo contexto onde
essa prática se dá; e pelas necessidades e implantação de políticas educacionais para a
possibilidades próprias a seus atores e à escola, aproximar cada vez mais a comunidade
realidade em que se situam. externa da instituição escolar, criar estratégias
(CARVALHO; NETTO, 1994, p.59). didático-metodológicas que promovam um
ensino de qualidade e uma aprendizagem
É fato que um trabalho em conjunto e bem significativa para os alunos, tornar o projeto
realizado leva a escola ao alcance de resultados político-pedagógico da escola um instrumento
satisfatórios. Analogamente às diversas partes de eficiente de construção e ação coletiva; bem
um jogo de encaixe, as funções desenvolvidas como assessorar pedagogicamente os docentes
por diretores escolares, coordenadores em suas atividades laborais, investindo
pedagógicos e supervisores de ensino se maciçamente na formação continuada dos
articulam perfeitamente formando um bloco mesmos para a conquista de resultados
coeso capaz de tornar a instituição-escola satisfatórios. Nesse sentido, valorizar o trabalho
eficiente e garantir o sucesso da aprendizagem docente significa dotar os professores de
por parte dos alunos. perspectivas de análise que os ajudem a melhor
compreender os contextos histórico, social,
Considerações finais cultural e organizacional nos quais se dá sua
atividade de docência, sua identidade
À medida que este artigo ia tomando forma profissional e sua profissionalidade docente.
e sentido, fortalecia-se cada vez mais o Uma vez que a democratização do ensino
entendimento de que transformar as escolas com passa, necessariamente, pela valorização
suas práticas pedagógicas tradicionais e profissional e pelas condições de trabalho dos
burocráticas, que muitas vezes acentuam a professores, acreditamos que a formação inicial e
exclusão social, em escolas verdadeiramente continuada dos mesmos não deve estar pautada

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na racionalidade técnica, que os concebe como e atividade docente. 3.ed. São Paulo: Cortez,
mero executores de decisões alheias, mas numa p.35-60, 2002. (Coleção saberes da docência)
perspectiva que considera sua capacidade de
decidir e de, confrontando suas ações cotidianas CARVALHO, M. C. B.; NETTO, J. P.
com as produções teóricas, rever suas práticas Cotidiano: conhecimento e crítica. 3.ed. São
docentes e as teorias pedagógicas que as Paulo: Cortez, 1994.
embasam. Assim sendo, as transformações das
práticas pedagógicas somente podem se efetivar CUNHA, M. I. O bom professor e sua
na medida em que os professores ampliarem sua prática. 13.ed. Campinas: Papirus, 1989.
consciência sobre a própria prática, a de sala de (Coleção magistério: formação e trabalho
aula e a da escola como um todo. pedagógico)
Sabendo-se que os professores colaboram
positivamente para transformar as escolas, tanto FACCI, M. G. D. Valorização ou
em termos de gestão, currículos, organização e esvaziamento do trabalho do professor?: um
projetos educacionais quanto em relação às estudo crítico-comparativo da teoria do
formas de trabalho pedagógico; não há como professor reflexivo, do construtivismo e da
conceber que reformas educacionais gestadas psicologia vigotskiana. Campinas: Autores
nas instituições escolares possam ser Associados, 2004. (Coleção formação de
concretizadas sem considerar os professores professores)
como parceiros/autores diretos nesse processo.
Daí a importância da mobilização articulada da FREITAS, C. G. O trabalho da coordenação
tríade pedagógica gestora na escola, pois é nela pedagógica. Petrópolis: Vozes, 2010.
que os professores encontram o referencial para
desenvolverem a capacidade de investigar a GOMES, D. M. Competências e habilidades
própria atividade docente e, a partir dela, do diretor. Campo Grande: Editora da UCDB,
constituírem e transformarem os seus saberes- 2003.
fazeres docentes num processo contínuo de
construção de suas identidades como JUNGES, K. S. Trajetórias de vida,
educadores. constituição profissional e autonomia de
Diante do exposto, esperamos que as professores. União da Vitória: Editora da
reflexões trazidas no presente artigo possam, FACE, 2006. (Coleção José Júlio Cleto da Silva –
direta ou indiretamente, auxiliar as equipes v.13)
pedagógicas escolares no desenvolvimento de
suas funções, tendo em vista o alcance de êxito NUNES, M. F. Supervisão escolar: novos
no processo ensino-aprendizagem a partir das olhares. Campinas: Papirus, 2008.
relações umbilicais que se estabelecem entre
teorias pedagógicas, trabalho docente e saberes ROSA, C. Gestão estratégica escolar. 3.ed.
pedagógicos; bem como da conscientização de Petrópolis: Vozes, 2009.
que a gestão escolar democrática exige
planejamento participativo e estabelecimento de TARDIF, M. Saberes docentes e formação
metas de caráter coletivo, manutenção de profissional. 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
recursos, avaliação constante e, principalmente,
compromisso com a Educação, a escola e a VALERIEN, J.; DIAS, J. A. Gestão da escola
sociedade. fundamental: subsídios para análise e sugestões
É, pois, hora de colocar a “mão na massa” e de aperfeiçoamento. São Paulo: Cortez; Paris:
partir para a ação concreta. O momento é agora! UNESCO; Brasília: MEC, 1993.

Referências ZARAGOZA, J. M. E. O mal-estar docente: a


sala de aula e a saúde dos professores. Bauru:
AZZI, S. Trabalho docente: autonomia didática EDUSC, 1999.
e construção do saber pedagógico. In:
PIMENTA, S. G. (Org.). Saberes pedagógicos Recebido em: 01 de fevereiro de 2012.
Aceito em: 19 de março de 2012.

SANTOS, M. P. dos Imagens da Educação, v. 2, n. 2, p. 49-55, 2012.

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