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Basta um dia, um acidente de

trabalho, e a vida muda para sempre


Marcas não são apenas físicas, mas também psicológicas
Catarine Sturza e Marta Ferreira

Jane sofreu acidente a caminho do trabalho e um esporte entrou em sua vida (Foto:
Marithê Lopes)

Se a vida da gente fosse um filme, boa parte dele teria como locação o nosso ambiente
de trabalho. É dele que extraímos o básico para viver, o retorno financeiro, e também é
dele que vem o reconhecimento do ofício estudado ou aprendido na vida. Trabalho é lugar,
ainda, de estabelecer relações de amizade, de amor, algumas para toda a vida. Às vezes,
porém, esse filme fica triste, e o que era para ser um local seguro, um nascedouro de
coisas boas, transforma-se em risco à vida, em medo da morte, em desesperança, na
forma de acidentes de trabalho.
Em Mato Grosso do Sul, a cada dia a vida de 31 trabalhadores muda, temporariamente ou
de forma definitiva, depois de incidentes relacionados ao desempenho profissional. O dado
considera o levantamento mais atualizado disponível, de 2013, quando foram registrados
11.402 acidentes de trabalho no Estado, 6,5% a mais do que em 2011, de acordo com as
informações do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

Na frieza dos números, é um quadro preocupante e merecedor de envolvimento do Poder


Público, da iniciativa privada e da sociedade em ações de combate ao problema. No calor
dos sentimentos, cada número na estatística se transforma em uma mudança nas vidas do
trabalhador e de quem o cerca. Jane da Silva Leite, de 40 anos, ilustra de forma exemplar
essa nova vida após um acidente de trabalho. Em 2013, poucos
dias após conseguir emprego numa lavanderia de Campo Grande, o roteiro que se iniciava
teve uma interrupção drástica, quando ela ia para a empresa. Jane gravou na memória
aquele momento. “Era o meu 3° dia de serviço. Um rapaz em uma camionete entrou na
minha frente. Eu estava na preferencial, não deu tempo de parar, eu bati no para-lama do
carro. Na hora do acidente, eu já perdi os movimentos, perdi minha perna ali”, lembra.
Como estava no trajeto para a lavanderia, a situação configura acidente de trabalho.

Uma nova descoberta


Podia ser só mais um episódio para praguejar contra o destino. Mas não. Para Jane, o
acidente abriu novas oportunidades. Ela encontrou no tiro adaptado a superação para a
trauma. “Desde o ano passado, eu comecei o esporte e não me vejo sem. Hoje, eu vejo
que sou muito mais feliz que antes. Eu consegui me desenvolver com o tiro adaptado”,
destaca. Ela e mais de 20 atletas disputam o esporte pela ARPP (Associação de
Reabilitação e Paradesporto Pantanal). Ela já conheceu várias cidades do país pelo
esporte. No último campeonato, a equipe ficou em 1° lugar no ranking nacional.

Jane é segurada do INSS, e passa por readaptação para voltar ao mercado de trabalho.
Ela mal vê a hora de retornar ao serviço. “Eu quero muito voltar a trabalhar, ganhar o meu
dinheiro, como antigamente. Sempre trabalhei, desde nova, não vai ser agora que vou
parar de vez”. Jane quer, principalmente, manter o esporte que, ironicamente, descobriu
após um evento tão trágico em sua vida. “Eu não consigo mais viver sem o tiro adaptado.
Quero cada vez mais me aperfeiçoar neste esporte. Hoje estou em 3° lugar no ranking
nacional e quero melhorar ainda mais”, afirma.
Em Campo Grande, em média 550 segurados procuram o programa anualmente. Neste
ano, 330 segurados já receberam atendimento. Entre essas pessoas, é possível ver que,
quando o inesperado chega no lugar onde a gente ganha o sustento, tanto quanto as
marcas físicas, algumas eternas, as marcas psicológicas ficam lá, martelando, mudando
as pessoas de uma forma impossível de esquecer.

À procura de um novo ofício


Valdemir da Costa Almeida, de 45 anos, sofreu um acidente em 7 de janeiro deste ano em
um condomínio quando prestava serviço de armador de ferragem para uma construtora.
Ele caiu de uma altura de três metros e quebrou três ossos do pé esquerdo. Dez meses
depois do acidente, Valdemir já passou por duas cirurgias, e está em fase avançada de
recuperação, mas entende que não tem condições de voltar ao mesmo serviço. “Para
minha área, eu tenho certeza que não vou voltar. É tudo muito complicado, depende de
serviço braçal”, resigna-se.

Valdemir atuava como autônomo quando sofreu a queda, mas como pagava a
Previdência, está sendo assistido e procurando uma nova ocupação, sem desânimo. “Eu
tento não pensar no futuro, penso no agora. Eu sei que vou sarar e me recuperar o mais
rápido possível. Estou em fase avançada de recuperação e espero voltar a trabalhar logo”,
diz.

O olhar da psicologia
O professor Serginaldo José dos Santos é fisioterapeuta e psicólogo e trabalha com
reabilitação há de 30 anos. Na Clínica-Escola da UCDB (Universidade Católica Dom
Bosco), ele atende pacientes e familiares de quem sofreu acidente de trabalho por meio do
Projeto Cogni-Ação. A experiência do dia a dia mostra que o trauma psicológico é uma das
consequências desse tipo de intercorrência na vida do trabalhador.

“Os pacientes podem ter um estresse pós-traumático e, por isso, ter alguns problemas
cognitivos, como na memória, cognição, percepção, entre outros. Há áreas que são
afetadas depois de lesões, principalmente, quando o trauma foi naquela parte do corpo”,
define.

“É preciso acompanhamento psicológico em alguns casos, uma vez que 60% de todos os
pacientes de acidentes de trabalho sofre com depressão. A cada três pacientes, dois se
deprimem, e um pode ter ideação (pensamento) suicida”, alerta.

Marcas eternas
Em alguns casos, a marca mais dolorida de um acidente de trabalho é o luto. Essa dor
invisível é vivida desde o último dia de janeiro de 2012 pela família de Edimar Felisbino da
Silva, um dos quatro trabalhadores que morreram vítima de vazamento de gás tóxico em
um curtume de Bataguassu.
A viúva, Lucimara de Lima Santos, de 37 anos, fala com emoção sobre a perda do pai de
seus filhos. “Não foi nada fácil para minha família receber a notícia da morte do meu
marido, a gente não consegue esquecer até hoje. Eu perdi o emprego, na época, porque
não tinha condições de ir trabalhar. É uma rotina, ele vinha me buscar, nós pegávamos
meu filho, voltávamos para casa. Ele me contava como foi o serviço. Eu fiquei mais de dois
anos sem sair direito de dentro de casa e até hoje ainda não consegui superar”, conta.

Da relação de 14 anos, ficaram dois filhos, Gabriel, de 12 anos, e Luana, de 16 anos.


Lucimara hoje é dona de casa e vive com o aluguel de duas casas, que os filhos
receberem de indenização da empresa.

“Minha filha é quem mais sofre com a morte do Edimar. Ela era muito apegada a ele. Eles
conversavam todos os dias. Ele dava muitos conselhos a ela. Ele morreu um dia depois do
aniversário dela. Ela sente muita falta dele e de vez em quando eu pego ela chorando até
hoje”, disse Lucimara.

Luana mantém as roupas do pai em casa. “As roupas e bonés são a lembrança mais viva
que eu tenho dele. Não moramos mais na casa que morávamos naquela época, então
hoje guardo o que ele deixou”, explica.

Roteiro dramático
O operador de tratamento de água Wellington Brito Lima, de 23 anos, é um sobrevivente.
Ele viu dois colegas morrerem em um acidente também num curtume, em Campo
Grande, no dia 30 de agosto deste ano. A vida dele também correu risco: passou 13
dias em coma na Santa Casa. A situação ganha contornos de filme quando ele revela que
no dia em que os equipamentos seriam desligados, acordou do coma. De volta à vida,
carrega no celular uma foto dos dias no CTI (Centro de Terapia Intensiva).
“A médica disse para a minha esposa que iam desligar os equipamentos naquele dia
porque eu não tinha mais salvação. Falaram para minha mãe não ter esperança porque eu
não viveria mais. E se sobrevivesse, teria problemas, ficaria cego ou até paralítico”, relata.
“Duas horas antes de pedir permissão para minha esposa para desligarem, eu acordei. A
médica que me atendeu disse que não acreditava que eu não teria sequelas. Ela disse que
eu jamais eu teria essa vida normal que eu tenho hoje”.

Wellington ainda não conseguiu voltar ao serviço e sente dificuldades para respirar. Além
do aspecto físico, há ainda o outro, talvez até mais complexo. Ele sofre com a morte dos
amigos. “Eu ainda não consegui voltar a trabalhar direito. Eu não tenho condições. Eu
tento ir trabalhar, mas meche com meu psicológico e físico. Minhas pernas tremiam, dava
falta do ar. Eu chegava perto do tanque, lembrava do acidente, lembrava dos meus
colegas, chorava”, conta.

Readaptação profissional

Nem sempre o retorno é possível. “Depois do acidente, nós olhamos as limitações e


as capacidades. O objetivo é readaptar a pessoa para algo que ela tenha potencial. Mas,
não podemos esquecer que o segurado é o protagonista. Temos que aceitar o interesse
dele e a motivação dele”, afirma a analista do seguro social e terapeuta ocupacional Lilian
Varandas, que atua no núcleo do INSS dedicado à readaptação de trabalhadores.
O programa da Previdência Social tem orçamento próprio para concessão de cursos e
aquisição de materiais, próteses e instrumentos de trabalho. “Temos exemplos de
sucesso, como um segurado que recebeu uma máquina de assar frango e hoje está
trabalhando e ganhando seu dinheiro ali. Nós pagamos aos segurados cursos e
qualificações que o mercado de trabalho está absorvendo. Para o próximo ano, nós
pedimos 32 cursos, como de almoxarifado, tornearia mecânica, entre outros”, destaca.

Reparação
Para o trabalhador assalariado, contratado por uma empresa, acidentar-se no trabalho
também abre a possibilidade de, por meio de indenização, reparar os danos físicos e
mentais. Para o juiz Ademar de Souza Freitas do TRT (Tribunal Regional do Trabalho) da
24ª Região, empregados e empregadores precisam ter consciência do serviço e da
relação de trabalho. “A culpa nos acidentes de trabalho acontece por três motivos:
negligência, imprudência ou imperícia. A negligência é quando a empresa deixa de
fornecer equipamentos, como no caso do EPIs (Equipamento de Proteção Individual).
Imprudência, quando por exemplo, falam para um empregado subir em determinado local.
A imperícia é a falta de habilidade específica para aquele determinado serviço”, explica.

O juiz assinala que toda empresa tem que ter uma CIPA (Comissão Interna de Proteção
de Acidentes), e respeitar a Portaria n 3.214 do MTB (Ministério do Trabalho), de 8 de
junho de 1978, e principalmente a NR 12 (Norma Regulamentadora), que regulamenta
normas de segurança para as instalações e áreas do trabalho, como para a manutenção e
operação de máquinas e equipamentos.

Quando o empregador descumpre sua parte e, comprovadamente, é responsável por um


acidente, a indenização é um caminho possível. Em 2014, foram 3.268 ações abertas no
TRT/MS, e de janeiro a setembro deste ano o registro foi de 2.730 ações. Campo Grande,
Dourados e Três Lagoas são as cidades com maior número de processos relacionados a
acidentes de trabalho no Estado.

Um dos casos mais conhecidos é o acidente no curtume de Bataguassu em 2012. O juiz


Antônio Arraes Branco Avelino, da Vara do Trabalho de Bataguassu, que julgou a ação
dos familiares que entraram com processo, afirmou que a empresa ainda está pagando o
que foi determinado ao município. No total, o valor chegou a R$ 5 milhões, divididos em
R$ 1 milhão ao ano. “Esse valor está sendo repassado a comunidade de Bataguassu para
construção de quadra de tênis, reforma da Santa Casa, compra de equipamentos a Polícia
Ambiental, barcos e lanchas para os bombeiros, entre outros”.

As famílias das quatro vítimas, entre elas a de Lucimara e dois filhos, também receberam
indenização. É um alento, mas como diz a adolescente que ficou sem o pai tão jovem, a
dor e a saudade não se pagam. “Dinheiro nenhum vai recompensar a perda dele”.

Não é à toa que dois curtumes são citados nesta reportagem. As indústrias que
representam uma das principais forças motores da economia de Mato Grosso do Sul são
as que mais têm episódios em que a insegurança na rotina profissional afeta, de forma
incontestável, a vida dos trabalhadores, como você poderá conferir no quadro que encerra
esse texto.

http://www.midiamax.com.br/cotidiano/basta-dia-acidente-trabalho-vida-muda-sempre-
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