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CASMURROS

NÚMERO 1
Edição Longa

ANDRÉ DE LEONES - A tragédia é o nosso estado natural

GARTH RISK HALLBERG - A volta dos longos?

LIEV TOLSTÓI - Guerra e paz

AURA ESTRADA - Borges, Bolaño e o retorno da épica

D.H. LAWRENCE - O amante de Lady Chatterley

MARK TWAIN - Cartas

e mais.
COLABORADORES DESTA EDIÇÃO

André de Leones nasceu em 1980, em Goiânia. É autor do romance Como desaparecer completamen-
te lançado pela Rocco em 2010, entre outros.

Garth Risk Hallberg nasceu em 1978, nos Estados Unidos. Ele é autor do romance A Field Guide to the
North American Family. Integrante da equipe do site The Millions, seus contos e ensaios já foram pu-
blicados em jornais e revistas como Glimmer Train, Canteen, The Pinch, Slate e The Los Angeles Times.

Liev Tolstói nasceu em 1828, em Iasnaia-Poliana, na Rússia, e faleceu em 1910 na estação ferroviária
de Astapovo. Um dos maiores autores da literatura russa do século XIX, é autor de Anna Kariênina,
Guerra e paz, A morte de Ivan Ilitch, entre outros.

Aura Estrada nasceu em 1977, em Guanajuato, no México, e faleceu em 2007 na Cidade do México.
Estudante Ph.D. na Universidade de Columbia, ela publicou resenhas e crônicas nas revistas
Bookforum, Wordswithoutborders.org e The Boston Review e na revista mexicana DF.
Também publicou ficção em www.letralia.com.

Fábio Justino nasceu em São Paulo, mas vive em Santo André. Formado em Letras, ele é autor de
blogs de rock e literatura, além de trabalhar como revisor. Ele escreveu o texto de apresentação
sobre D. H. Lawrence.

D. H. Lawrence nasceu em 1885, em Nottingham, na Inglaterra, e faleceu em 1930. Ao longo de sua


vida publicou romances, poemas, peças de teatro e crítica literária. É autor de Mulheres apaixonadas,
O arco-íris e O amante de Lady Chatterley.

Rodrigo Bottura nasceu em 1980, em São Paulo. Formado em Letras, fez a tradução da carta
de Mark Twain, escreveu o texto de apresentação do autor e revisou a tradução
do ensaio de Aura Estrada e Garth Risk Hallberg.

Giulia Paolillo nasceu em 1988, em São Paulo. Ela é ilustradora e designer


e fez todas as ilustrações desta edição.

Nathalia Lippo nasceu em 1988, em São Paulo. É designer e também ilustradora


e fez a diagramação e a arte dessa edição

Solange Reis fez a revisão.

Rafael Ramos nasceu em 1980, em São Paulo. Formado em Letras e edita o Casmurros. Também
fez a tradução dos ensaios de Aura Estrada e Garth Risk Hallberg.

Agradecimentos: Companhia das Letras, Cosac Naify, Susan Harris,


Francisco Goldman e Garth Risk Hallberg.

“A tragédia é o nosso estado natural”, de André de Leones, reproduzido sobre permissão do próprio autor. Copyright © André de Leones; “Is Big Back?”,
de Garth Risk Hallberg, reproduzido e traduzido sobre permissão do próprio autor. Copyright © Garth Risk Hallberg, 2010. Tradução de Rafael Ramos,
2011; “Guerra e paz”, de Liev Tosltói, Tomo 3, Segunda Parte, cap. 26, tradução de Rubens Figueiredo, reproduzido sobre permissão da editora Cosac
Naify. Copyright © Cosac Naify. Todos os direitos reservados; “Borges, Bolaño, and the Return of the Epic”, de Aura Estrada, reproduzido e traduzido
sobre permissão de Francisco Goldman. Copyright © Aura Estrada, 2006. Tradução de Rafael Ramos, 2010 - Publicado pela primeira vez como “Borges,
Bolaño, and the Return of the Epic” em Words without Borders (www.wordswithoutborders.org), Outubro de 2006; “O amante de Lady Chatterley”, de D.
H. Lawrence, tradução de Sérgio Flaskman, reproduzido sobre permissão da editora Penguin Companhia das Letras. Copyright © Penguin Classics Com-
panhia das Letras. Todos os direitos reservados; “Mark Twain’s Letters 1867-1875”, de Mark Twain. Domínio público. Tradução de Rodrigo Bottura, 2010.

Casmurros é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.

2
Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido
que eles lhe dão...
MACHADO DE ASSIS.

Nos últimos anos a internet impulsionou um enorme interesse das pessoas


por ler ou escrever ficção. Com a redução de espaço nos jornais e revistas,
a internet foi aos poucos se tornando o meio natural para proliferação e
divulgação de novos escritores. Foi também a internet que proporcionou uma
enorme onda de comentários de editores, críticos, membros da academia
e leitores comuns. No entanto, as redes sociais e os blogs, apesar de todas
essas mudanças, são tidos como espaços superficiais, de crítica ligeira e im-
pressionista.

Mas esse mar imenso de vozes esconde em águas profundas pequenas péro-
las que precisam ser compartilhadas e lidas com atenção, com calma.

O Casmurros é um fanzine simples, sem muitas pretensões. É um espaço vol-


tado para a ficção interessante, seja ela nova, antiga, nacional ou estrangeira.
Também é um lugar para ideias e ensaios sobre ficção, publicando textos
originais ou de grande importância histórica que não poderiam aparecer em
outro lugar. Evidentemente, não será possível esgotar nenhum assunto e nem
dar conta de abarcar tudo o que acontece por aí. O principal objetivo é des-
pertar paixão, criar debate e colocar em circulação vários assuntos ligados ao
universo da ficção.

O fanzine será publicado três vezes no ano - abril, agosto e dezembro. Será
distribuído gratuitamente em formato PDF e se você tiver interesse poderá
imprimi-lo no papel que quiser para ler no metrô, no ponto do ônibus ou na
fila do cinema. Quem não quiser imprimir pode ler diretamente no compu-
tador. Os adeptos dos leitores digitais, também podem converter o formato
PDF para outro formato acessível ao seu aparelho.

O designer do fanzine foi pensado para tornar a leitura agradável. Exatamen-


te como aqueles bons livros que todo mundo gosta de ler. Não tem som, nem
hiperlink, nem animações em flash. Apenas ilustrações em preto e branco de
gente com muito talento.

Venha junto lendo, comentando, contribuindo e também compartilhando seu


jeito de ler as coisas. Deixe a sua voz soar e faça-se ouvir!

3
Ficção

A tragédia é o nosso estado natural Mudei as sacolas da mão es-


querda para a mão direita. Três garra-
fas de vinho Canção (o Mioranza tinha
acabado), um pacote de espaguete,
André de Leones duas latas de sardinha, meio quilo de
salsicha, duas cebolas grandes e oito
Gracias, Bruno. latinhas de Antarctica.
“O tio foi buscar a mãe no

F
hospital. Ela teve alta. Vou fazer um
oi um pouco antes da última reais da carteira e também me entregou. macarrão, comprei uns vinhos, cerve-
Copa do Mundo, logo depois “Umas latinhas de cerveja, ja.”
que a minha irmã foi solta. A também. Antarctica.” “Com que dinheiro?”
mãe recebeu alta naquele dia e eu Ele ia saindo quando pareceu “Dinheiro do tio. De
achava que tudo ia se endireitar. Não se lembrar de uma coisa. Disse sem quem mais?”
ia, é claro. olhar para trás, a mão direita no um- “Ele é um sujeito bacana.”
A escola tinha entrado em bral da porta: Sabia que ela estava de saca-
greve e eu ganhava uns trocados “Fala com a sua irmã. Diz que nagem, mas concordei mesmo assim:
trabalhando com o meu tio na ofici- a sua mãe ia ficar muito feliz se topas- “Ele é”.
na dele. A ideia era aprender alguma se com ela por aqui.” “Então”, ela disse, encolhen-
coisa, mas o máximo que acontecia Concordei com a cabeça e, do os ombros, a voz tremendo um
era eu perder dias inteiros em filas de depois que ele saiu, troquei de roupa, pouco. “Ele é um sujeito bacana.”
banco ou buscando peças de que eles calcei meu tênis e tratei de ir ao mer- Troquei as sacolas de mão
precisavam para arrumar os carros. cado comprar o que ele tinha pedido. outra vez.
No dia em que a minha mãe No caminho, dei com a minha irmã “Você vem?”
ia sair do hospital, meu tio ligou logo parada em uma esquina. Conversava “Vou o quê?”
cedo e disse para eu ficar em casa. com um motoboy e eles riam de algu- “Comer com a gente.”
“Daqui a pouco eu passo aí.” ma coisa. Ela usava uma camiseta dos “Não sei. Talvez.”
Ele só apareceu no começo Doors que tinha sido minha, estava “O que você vai fazer?”
da tarde, de banho tomado e camisa de bermuda jeans e tênis, os cabelos “Nada. Não sei. Eu não tenho
social, os cabelos penteados para trás amarrados. Parecia alguém que ia nada pra fazer. Tinha pensado em
e aquele jeito esbaforido de quem sair correndo a qualquer momento. pegar um cinema, mas, sei lá. Ele não
está sempre atrasado. Foi entrando e Alguém em fuga constante. Assim que quis me levar.”
gritando o meu nome. me viu, despachou o cara e veio na “Onde é que ele mora?”
“Onde é que você se meteu, minha direção. “Setor O. É motoboy.”
porra?” “O que você quer?” “Deu pra perceber.”
Eu estava no quarto, folhean- “Nada. Vou no mercado.” Ela ficou me olhando e depois
do uma Quatro Rodas. Ele parou do “Ah.” sorriu como se dissesse: “É”. Mas não
lado da minha cama, tirou a carteira do A gente ficou um tempo disse nada. Troquei as sacolas de mão
bolso e, dela, umas notas amassadas. parado no meio da calçada, lado a pela terceira vez.
“O que é isso?” lado, como se eu estivesse esperando “Acho que você podia... sei lá.
“Dinheiro. Nunca viu?” que ela dissesse alguma coisa e vice- Acho que eles não vão te encher o saco.”
Estendeu duas notas de vinte versa. Como se a gente posasse para “Sei lá.”
e uma de dez reais na minha direção. uma fotografia e se recusasse a olhar “Você que sabe.”
“Vou lá no Hospital de Base para a lente, encarando o chão ou o Coloquei as sacolas sobre a
buscar a sua mãe. Você pega esse di- nada, o oco de todo o resto. Então, mesa da cozinha, puxei uma cadeira e
nheiro e compra duas ou três garrafas eu a deixei ali parada e segui meu me sentei para descansar um pouco.
de vinho, melhor logo três, daquele caminho. Pensei que, depois de um Fiquei olhando para as marcas que as
vinho bom que a gente bebeu quando tempo, ela fosse acabar vindo atrás sacolas tinham deixado nas minhas
sua irmã voltou, sabe qual é?” de mim, mas isso não aconteceu. mãos. A base do polegar da mão
“Mioranza?” Quando voltei, estava me esperando direita estava meio roxa. Corri até
“Mioranza, esse mesmo. na mesmíssima esquina. o banheiro , abri a torneira da pia e
Compra três garrafas de Mioranza e “Desculpa”, disse, as mãos deixei a água cair em cima das minhas
o que você precisar pra agilizar uma para trás, o olhar perdido em um mãos por um bom tempo. A sensação
macarronada.” ponto qualquer do outro lado da rua. era boa. Todo o resto desapareceu e
“Só isso?” “Achei que você tinha vindo aqui im- eu tive vontade de mergulhar a cabeça
Coçou a cabeça e pensou um plicar comigo ou, sei lá, trazer algum em um balde cheio d’água. Lembrei
pouco. Em seguida, pegou mais vinte recado do tio.” de quando era pequeno e o pai levava

4
Ficção
todo mundo, eu, a mãe, minha irmã, cebolas e colocou dentro de um prato. estavam no escorredor sobre a pia
o tio, para a Água Mineral. A gente Depois, começou a cortar as salsichas e estendeu um deles um na minha
também fez duas ou três viagens para em rodelas bem finas. Esperei a água direção. Peguei e tomei um gole. Ela
Caldas, no inverno. Eu me lembrava ferver e então coloquei o macarrão. se sentou numa cadeira, os cotovelos
dessas coisas. Minha irmã talvez tives- “Você devia ter comprado sobre a mesa. O cheiro de fritura to-
se esquecido. E a mãe, claro. A mãe fez bacon”, disse a minha irmã. “Esse seu mava toda a cozinha. Desliguei o fogo
questão de esquecer tudo. macarrão fica melhor com bacon.” da panela menor. O macarrão ainda
Voltei para a cozinha e peguei Era verdade. cozinhava. Abri a janela que ficava
a panela maior, esmaltada, enchi de “Esqueci. Foi mal.” sobre a pia e fiquei olhando a parede
água e, quando ela estava bem cheia, Peguei uma panela menor, do prédio vizinho. Como se enxergas-
fechei a torneira e fiquei olhando para coloquei um pouco de óleo e fritei as se um desenho naquelas rachaduras
o meu reflexo ali dentro. A panela den- cebolas. Depois, coloquei as salsichas todas. Alguma lógica. Qualquer coisa.
tro da pia, a água dentro da panela, a e a sardinha e misturei tudo. Pedi à Fiquei ali parado por um tempo.
minha cara refletida na água. Pensei minha irmã que pegasse uma lata de Depois, abri o congelador e peguei
que era até melhor que a minha irmã creme de leite que estava no armário. uma forma de gelo. Dois cubos no
não aparecesse, e depois pensei que Ela pegou, abriu e me entregou. meu copo, dois no copo da minha
não, que ela tinha que aparecer, que a “Você realmente sabe fazer irmã. Guardei a forma no congelador
mãe ia gostar de ver nós dois ali, jun- essa merda”, ela disse enquanto sorria e fiquei olhando o macarrão cozinhar.
tos, inteiros, reunidos. Como se isso (acho que estava sorrindo) às minhas Estava quase no ponto.
significasse alguma coisa. Bem, talvez costas. “Eu jurava que a mãe ia mor-
significasse para ela. Para a mãe. “Acho que é a única coisa que rer”, disse depois de um tempo, sem
Eu mal tinha colocado a pa- eu sei fazer.” desviar os olhos da panela.
nela no fogo quando a minha irmã en- Agora ela estava rindo: Minha irmã bebeu todo o
trou na cozinha. Sem dizer nada, tirou “Não é?” vinho que estava no copo de um só
as coisas das sacolas, colocou as garra- Em seguida, abriu o con- gole. Mastigava um cubo de gelo
fas de vinho e as latinhas de cerveja gelador e pegou uma das garrafas quando disse:
no congelador e descascou e cortou as de vinho. Encheu dois copos que “Não é?”

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Três Livros

Longos
Edição e textos: Rafael R.

Pornopopéia, O tambor, As correções,


de Reinaldo Moraes. de Günter Grass. de Jonathan Franzen.
Editora Objetiva Nova Fronteira Companhia das Letras

Depois de um tempo sem publicar No ano passado esse longo romance Antes de se tornar o escritor mais co-
romances adultos, Reinaldo Moraes escrito por Günter Grass comemorou mentado do momento Jonathan Fran-
voltou com um livro que tem entre cinquenta anos desde a sua primeira zen escreveu um romance que é uma
seus admiradores os críticos Roberto publicação na então Alemanha Ociden- pequena obra-prima. Alfred Lambert é
Schwarz e Leyla Perrone-Moisés. Zeca tal. Internado em um manicômio, Oskar um aposentado que está sofrendo as
é um ex-diretor de cinema marginal Matzerath relembra sua vida desde consequência do mal de Parkinson e
que tem nas mãos a difícil tarefa de fa- os três anos de idade, quando decide sua mulher, Enid, quer reunir seus três
zer um vídeo institucional de uma nova parar de crescer por ódio aos pais e ao filhos para um último Natal em sua casa
linha de embutidos de frango. A falta mundo adulto. A partir de então, de- na cidade americana de Saint Jude. No
de inspiração e os dilemas pessoais o dica sua vida a um tambor de lata que entanto, Gary, Chip e Denise na ânsia
conduzem numa série de trapalhadas toca obsessivamente e que serve como de conquistarem uma vida diferente
sem fim em busca de sexo, bebidas e uma maneira de se comunicar com o e promissora se afundaram em suas
drogas (muitas drogas). O livro com- mundo. Apesar do corpo de criança, próprias tragédias pessoais. Aos pou-
bina a linguagem chula das ruas com Oskar tem um raciocínio maduro, capaz cos a reunião familiar vai dando lugar
um texto fluído e inventivo capaz de de compreender com clareza fatos im- ao fracasso, à tristeza e à frustração.
prender a atenção de qualquer leitor. portantes para a história da sociedade Com esses elementos Franzen criou
Moraes, através de Zeca, faz um retra- alemã. Por meio de uma narração ágil um poderoso romance de fôlego, cuja
to hilário do mundo contemporâneo e com ares fantásticos, Günter Grass grandeza está concentrada na constru-
em que imperam valores como indi- escreve um romance de crítica social e ção de suas personagens e no olhar do
vidualismo, a busca desenfreada pelo política em que surgem vários níveis de narrador que oscila entre os momentos
prazer a qualquer custo e os excessos leitura sobre a história da Alemanha. O de ironia ácida e grande impacto emo-
por todas as partes. Porém, a decepção livro faz parte de uma trilogia seguida cional. Não é à toa que muitos críticos
e a tristeza andam sempre a espreita por Gato e rato e Anos de cão (ambos enxergam em Franzen um pouco de
do protagonista até que um dia ele fora de catálogo). Tolstói já que cada família é trágica a
possa perceber que a vida não é uma sua própria maneira.
verdadeira festa.

6
ensaio

A volta do longo?
Garth Risk Hallberg

O
Google está nos tornando es-
túpidos? A busca pela leitura
nos Estados Unidos está mor-
rendo? O romance vai sbrvvr a era do
twtr? Combine o suficiente dessas
proposições-chave, e você começa a
perceber um padrão. Ostensivamente
abertas, a sua existência pressupõe
uma resposta afirmativa: sim, o Goo-
gle está nos tornando estúpidos...
pelo menos, estúpidos demais para
admitir a possibilidade de que não se
tratam de perguntas cujas respostas
sejam sim ou não.
Se a presunção é correta,
nós podemos razoavelmente esperar
vê-la refletida na forma evolutiva do
romance literário. Em agosto do ano (675 páginas), e The lonely polygamist, Anthony Trollope iria conceituar seus
passado, numa reportagem de capa de Brady Udall (599 páginas), e The romances com assuntos de dois ou
sobre Jonathan Franzen, Lev Gross- four fingers of death, de Ricky Moody três volumes. Minha edição de As
man postulou na revista Time que “a (725 páginas), e Matterhorn, de Karl torres de Barchester publicada pela
tendência na ficção na última década Marlantes (529 páginas), e Three days Oxford Classics retém sua publicação
tem sido no sentido da especializa- before the shooting (1136 páginas), e em dois volumes. Ela vai de 1-271 e de
ção: o closeup, a miniatura, o micro- Wolf Hall de Hilary Mantel (560 pági- 1-280. Ao final do segundo volume,
cosmo”. E, na prática, um jovem escri- nas), e a trilogia Seu rosto amanhã, o autor começa dar sinais de ter de
tor, apresentando o seu manuscrito de Javier Marías (1384 páginas) e The atingir um certo número de páginas.
para os editores, rapidamente supõe instructions, de Adam Levin (1030 pá- Na era da impressão offset,
que a definição corrente de romance ginas)? Examinando aquelas pratelei- o romance longo é mais heterodoxo.
não é mais a de Randall Jarrell “uma ras, qualquer um começa a suspeitar Não existe muita coisa que une Ricky
narrativa em prosa de um determi- da propagação de micro-designações Moody e Javier Marías e Hilary Man-
nado comprimento que possui algo como “megafauna literária” (ou me- tel, além do fato de que eles estão li-
errado”, mas “uma prosa narrativa de nos caridosamente, “mega-romances dos pela metade na minha cabeceira.
235 a 325 páginas que podemos publi- fálicos”), ao invés da plenitude ou (Não há nada como o nascimento de
car como um livro original”. Joshua escassez da espécie em questão, é o uma criança para que o comprimento
Cohen, autor de vários livros aos 29 verdadeiro marco histórico da nossa total de um livro venha para o primei-
anos, recentemente disse ao The New evolução cultural. ro plano de sua mente). Julgar esses
York Observer que, das oito edito- Não faz muito tempo, a frase escritores em conjunto é, portanto
ras por que seu romance Witz (800 “romance longo” não era menos arriscar vários tipos de reducionismo.
páginas) passou, “uma disse que iria redundante do que romance curto. Mais importante (e falando de An-
publicá-lo se tivesse 200 páginas... As práticas de publicação em série de thony Trollope): não queira confundir
uma outra disse que teria publicado periódicos do século XIX empurraram grandeza geométrica com tipo esté-
há 10 anos quando as pessoas liam os escritores vitorianos à amplitude. tico. Alguns dos melhores romances
romances”. Multiplique 16 (o número de páginas que li recentemente são mais curtos
Mas, se como Grossman suge- em uma assinatura) por dois (o nú- do que as editoras americanas ten-
re, a “megafauna literária da década mero de assinaturas em uma parcela) dem a publicar. (Em países falantes de
de 1990” já não vaga pela terra, como por 20 (o número de parcelas favo- espanhol, particularmente, romances
explicar o interesse da Time por Free- recido por Dickens e seus editores), curtos prosperaram de uma maneira
dom (576 páginas)? Além disso, como e você terá 640 páginas da série – o que não ocorreu nos EUA. Um ensaio
explicar o emaranhado de romances comprimento, mais ou menos, de paralelo talvez se veja justificado).
longos que rodeiam as prateleiras das Dombey and son, Little Dorrit, e Bleak Ainda assim, a atual profusão de ro-
livrarias americanas – não só Witz, house. Sem mencionar Vanity fair e mances longos parecem complicar o
mas The children’s book, de A.S. Byatt Middlemarch e Daniel Deronda... Logo, quadro do Inacreditável Encolhimen-

7
ensaio
to do Alcance da Atenção. Potter ficaram cada vez mais longos... sim como o público forma os hábitos
A vontade dos editores de Por outro lado, ao impedir a garantia do escritor, o escritor, pelas exigên-
dar uma chance ao livro longo em de venda de livros como Harry Potter, cias que escolhe fazer de seus leitores
2010 pode estar ligada diretamente os editores odeiam livros longos, imaginários, cria a sua própria audi-
as chances dadas no passado. A luta como Cohen aprendeu de maneira ência. Uma das coisas desvalorizadas
feroz, em 2007, por As benevolentes, dura. Eles são caros para publicar, dis- em Franzen é que ele escreve como
de Jonathan Littell (912 páginas), um tribuir e armazenar. E, para agravar se o romance ainda (como coloca
trabalho exigente na tradução, certa- o problema, revisores odeiam ro- Benjamin Kunkel) “dominasse a paisa-
mente deve algo a recepção absorta mances longos. É tão mais fácil dizer gem como uma montanha”. E eis que,
de Roberto Bolaño, Os detetives sel- “é tão bom que eu tive de ler duas lá está ele na capa da Time!
vagens (624 páginas) e a subsequente vezes” ao falar de The imperfectio- Não queremos cobrir com um
expectativa generalizada por 2666 nists, de Tom Rachman (288 páginas) véu todas as várias maquinações cor-
(856 páginas). A editora McSweeney do que, digamos, Women and men, de porativas que tornaram isso possível.
espera que The instructions repita o Joseph McElroy (1191 páginas). Porém, no fim das contas, um grande
sucesso de The children’s hospital, de Para uma explicação mais número de leitores está, como seus
Chris Adrian (615 páginas). E Infinite profunda da saúde duradoura do antepassados do século XIX, lendo e
Jest, de David Foster Wallace (1104 romance longo, temos que olhar para pensando e falando sobre uma obra
páginas) continua a ter uma segunda uma coisa mais difícil de quantificar: a de ficção cujas dimensões físicas
vida notável nas listas, e continua formação do leitor. Quanto mais nos sinalizam uma grandeza correspon-
sendo o pão e a manteiga da editora dizem que estamos nos tornando lei- dente do intelecto e do espírito.
a que pertence. Livros biográficos tores de blogs, de textos, de tweets, Certamente, podemos concordar
e artigos de David Lipsk e D.T. Max, de arquivos mais o comprometimento que isso é uma coisa boa. No meio de
bem como a copiosa discussão online, com o livro longo parece um ato de tudo que é questionável e duvidoso
mantém o interesse no livro. Um resistência. Pegar um romance com sobre a nossa consciência em evolu-
funcionário de uma livraria local me mais de 600 páginas é dizer a si mes- ção, a relação entre o romance e uma
disse que, nos últimos meses, ele mo: “eu vou gastar de vinte e quatro certa qualidade de atenção parece
está voando fora das prateleiras. Na a quarenta e oito horas da minha vida ser inevitável. Seja em livros longos
verdade, depois de Infinite Jest, os com um livro, ao invés do jornal, da ou de alguma forma exigentes, ou em
duvidosos devem sentir um cheiro de internet ou do smartphone. Eu vou frases longas e exigentes, ou prodi-
decadência ou pelo menos de auto- sentir isso na pele”. (Alguns vão argu- giosas sutilezas de perspectiva, os
consciência, em torno dos esforços mentar que arrastar Infinite Jest no escritores do século XXI continuam
de Cohen, Levin, e outros candidatos metrô é mais uma maneira de dizer, a buscar um público possuidor dessa
à prodigalidade. “olhe para mim!” Mas certamente atenção. E, contrariando (até agora)
Para ser ainda mais grosseira- questões de estilo, e de gênero estão as previsões, os leitores continuam a
mente econômico, no trabalho árduo em jogo aqui; ninguém faria as mes- fazer jus a essas expectativas.
da Grande Recessão, o romance mas acusações aos leitores de Mar-
longo oferece aos leitores uma pro- guerite Young). O desejo de escapar
posta de valor. Pode-se insultar todas da colméia-mental do ciberespaço – e
as obras de William T. Vollmann, e ser, mais uma vez, um leitor solitário
admirar o escritor mexicano Mario – pode também estar em jogo no sur-
Bellatin, mas até mesmo a 55 dóla- gimento do “livro de prova Kindle”: o
res, Imperial (1344 páginas) oferece livro é tão adaptado para a sua forma
um benefício muito maior na relação de códex que ainda não pode ser
hora-dólar (é cerca de um-para-um) reproduzido eletronicamente. Pense
do que Salão de beleza (80 páginas). em Os originais de Laura, ou em The
(Bem, Imperial não é realmente um selected works of T.S. Spivet, de Reif
romance, mas é estranho discutir Larsen, ou na edição da editora New
livros longos e excluir os monólitos Directions para The unfortunates, de
de Vollmann). Dito de outra maneira: B.S. Johnson, ou Nox, de Anne Carson
Walks with men, de Ann Beattie (102 (quase um rolo), ou Microscripts, de
páginas) vai te custar tanto quanto Robert Walser.
uma ida ao multiplex local, e durar No mínimo, o boom atual, ou
aproximadamente o mesmo tempo. E miniboom, sobre romances longos
não vamos esquecer que os editores deveria nos dizer que os escritores
podem cobrar mais por um livro lon- ainda acreditam nesse tipo de leitor.
go do que por um curto. Isso ajuda a No final, isso pode ser o suficiente
explicar porque os romances de Harry para garantir a sua sobrevivência; as-

8
Ficção
não havia saído do seu dormitório Não quis privá-los da satisfação de
O centenário de e estava terminando de se arrumar.
Bufando e arquejando, voltava ora
lhe fazer uma surpresa. Fingiu que
não tinha visto o senhor Beausset e
morte de Tolstói as costas largas, ora o peito gordo e
peludo, para a escova que o camarei-
chamou Fabvier à sua presença. De
rosto franzido, severo e em silêncio,
ro esfregava no seu corpo. Outro ca- escutou o que Fabvier lhe dizia a

A
editora Cosac Naify está pre- mareiro, com um frasco seguro entre respeito da bravura e da dedicação
parando o lançamento de uma os dedos, borrifava água de colônia das suas tropas, que combateram
nova edição de Guerra e paz, sobre o bem tratado corpo do impera- em Salamanca, na outra extremida-
de Liev Tolstói. O livro será publicado dor, com uma expressão que dizia que de da Europa, e que só tinham um
em comemoração ao centenário de só ele e mais ninguém podia saber pensamento, serem dignas do seu
morte do escritor russo. Considera- quanta água de colônia era preciso imperador, e um só medo, deixá-lo
do o maior romance da história da borrifar, e onde. Os cabelos curtos de insatisfeito. O resultado da batalha
literatura, Guerra e paz foi publicado Napoleão estavam molhados e cola- foi lamentável. Napoleão fez um co-
originalmente em capítulos no jornal dos na testa. Mas seu rosto, embora mentário irônico durante a exposição
russo Russkiy Vestnik, entre 1865 e balofo e amarelo, exprimia um prazer de Fabvier, como se um combate não
1867. A história trata nos menores físico: “Allez ferme, allez toujours...”,i pudesse transcorrer de outro modo
detalhes de questões que atormenta- dizia ele para o camareiro que o borri- sem a sua presença.
vam a sociedade russa no século XIX. fava, ofegante e tenso. Um ajudante- − Tenho de compensar isso
A tradução dessa obra monumental deordens entrou no dormitório a fim em Moscou − disse Napoleão. −
será feita diretamente do russo por de comunicar ao imperador quantos Atantôtv − acrescentou e chamou
Rubens Figueiredo. A editora adian- prisioneiros tinham sido feitos no de Beausset que, naquela altura, já
tou um capítulo do romance que será combate do dia anterior e, cumprida tivera tempo de preparar a surpresa,
publicado ainda em 2011. sua missão, continuou junto à porta, colocando algo sobre duas cadeiras e
aguardando a permissão para sair. cobrindo com um pano.
Guerra e paz Napoleão, de sobrancelhas franzidas, De Beausset curvou-se com
Liev Tolstoi lançou um olhar de esguelha para o a reverência profunda dos cortesãos
ajudante-de-ordens. franceses, que só os antigos servidores
No dia 25 de agosto, − Point de prisonniers − repe- dos Bourbons sabiam fazer, e aproxi-
véspera da batalha de tiu as palavras do ajudante-de-ordens. mou-se, entregando
Borodinó, o prefeito − Il se font démolir. Tant pis um envelope.
do palácio do impe- pour l’armée russe − disse. − Allez Napoleão voltou-se para ele
rador dos franceses, toujours,allez ferme ii − exclamou, com ar alegre e lhe de um puxão na
monsieur de Beausset, recurvando as costas e apresentando orelha.
e o coronel Fabvier che- os ombros gordos ao camareiro. − O senhor não perdeu tem-
garam ao acampamento − C’est bien! Faites entrer mon- po. Muito bem. Mas o que Paris tem a
de Napoleão sieur de Beausset, ainsi que Fabvier iii − dizer? − perguntou, passando subita-
em Valúievo. disse para o ajudante-de-ordens, com mente da expressão severa de antes
Depois de um aceno de cabeça. para a fisionomia mais afetuosa.
vestir o unifor- − Oui, Sire iv − e o ajudante- − Sire, tout Paris regrette
me palaciano, de-ordens sumiu pela porta da tenda. votre absence vi − respondeu Beaus-
monsieur de Dois camareiros rapidamente vesti- set, da forma devida. Mas embora
Beausset man- ram Sua Alteza e ele, numuniforme Napoleão soubesse que Beausset
dou que fossem azul da Guarda, seguiu para a sala de tinha de falar aquilo ou algo seme-
pegar o embru- recepção a passos firmes e ligeiros. lhante, embora soubesse, em seus
lho que ele havia Beausset, naquele momento, estava momentos de lucidez, que aquilo não
trazido para o com as mãos ocupadas colocando o era verdade, gostou de ouvir o que
imperador e entrou presente que trouxera da imperatriz Beausset disse.
no primeiro cômodo da bem na frente do caminho do impe- E dignou-se a lhe dar outro
tenda de Napoleão, onde, enquanto rador, sobre duas cadeiras. Mas o im- puxão de orelha.
conversava com os ajudantes-de- perador terminou de vestir-se e saiu − Je suis fâché de vous avoir
ordens de Napoleão que o rodearam, com uma rapidez tão inesperada que fait faire tant de chemin − disse.
começou a desembrulhar a caixa. Beausset não teve tempo de preparar − Sire! Je ne m’attendais pas à
Fabvier, sem entrar na tenda, ficou inteiramente a sua surpresa. moins qu’à vous trouver aux portes de
junto à porta, conversando com ge- Napoleão percebeu sem de- Moscou vii − disse Beausset.
nerais seus conhecidos. mora o que estavam fazendo e adivi- Napoleão sorriu e, erguen-
O imperador Napoleão ainda nhou que ainda não estavam prontos. do a cabeça com ar distraído, olhou

9
Ficção
para a direita. O ajudante-de-ordens, que quer que ele dissesse ou fizesse posteridade mais remota se recorde
em passos deslizantes, aproximou- naquele momento entraria para a com orgulho das façanhas de vocês
se com uma tabaqueira de ouro e a história. Pareceu-lhe que o melhor no dia de hoje. E que digam de cada
ofereceu. Napoleão pegou-a. que podia fazer naquele momento um de vocês: ele esteve na grande
− Sim, foi até bom para o era, com toda a sua majestade − por batalha de Moscou!”
senhor − disse ele, aproximando conta da qual seu filho podia brincar − De la Moskowa! − repetiu
do nariz da tabaqueira aberta. − O com o globo terrestre num bilbo- Napoleão, convidou o senhor Beaus-
senhor gosta de viajar e daqui a três quê −, dar mostras da mais simples set, grande apreciador de viagens, a
dias o senhor verá Moscou. Sem dúvi- ternura paternal, em contraste com acompanhá-lo em seu passeio e saiu
da, o senhor não esperava conhecer aquela majestade. Seus olhos ficaram da tenda rumo aos cavalos selados.
a capital asiática. O senhor vai fazer nublados, ele se abaixou, virou-se à − Votre Majesté a trop de bon-
uma viagem agradável. procura de uma cadeira (uma cadeira té xi − disse Beausset em resposta ao
Beausset curvou-se agradeci- surgiu de um salto sob ele) e sentou- convite para acompanhar o impera-
do por aquela atenção ao seu se diante do retrato. Um gesto seu e dor: estava com vontade de dormir,
gosto pelas viagens (que ele até todos saíram na ponta dos pés, dei- não sabia andar a cavalo e tinha medo
então ignorava). xando o grande homem sozinho com de montar.
− Ah! Mas o que é isso? − dis- seus sentimentos. Mas Napoleão acenou com
se Napoleão, ao notar que todos os Depois de ficar ali por um a cabeça para o viajante e Beausset
cortesãos olhavam para algo cober- tempo e depois de, sem saber para teve de ir. Quando Napoleão saiu
to por um pano. Beausset, com sua que, tocar com a mão na aspereza do da tenda, os gritos dos membros da
habilidade de cortesão, sem voltar ponto mais importante do retrato, Guarda diante do retrato do seu filho
as costas para o imperador, deu um Napoleão levantou-se e mandou cha- soaram ainda mais fortes. Napoleão
quarto de volta e recuou dois passos, mar de novo Beausset e o ordenança. fez cara feia.
ao mesmo tempo retirava o pano que Mandou levar o retrato para a frente − Tirem-no daí − disse, apon-
cobria o embrulho e dizia: da tenda a fim de não privar a Velha tando para o retrato com um gesto
− Um presente da imperatriz Guarda, que se mantinha em redor da elegante e majestoso. − Ainda
para Vossa Alteza. sua tenda, da felicidade de ver o Rei é cedo para ele ver um campo
Era um retrato em cores de Roma, o filho e herdeiro do seu de batalha.
claras, pintado por Gérard, de uma adorado soberano. Beausset, de olhos fechados
criança, o filho de Napoleão com a Como já esperava, enquan- e de cabeça baixa, deu um suspiro
filha do imperador austríaco, um me- to estava almoçando com o senhor profundo, indicando com esse gesto
nino a quem por algum motivo todos Beausset, a quem concedera essa como sabia apreciar e compreender
chamavam de Rei de Roma. honra, ressoaram na frente da as palavras do imperador.
O menino lindo, de cabelos tenda gritos entusiasmados de
cacheados, com um olhar semelhante oficiais e soldados da Velha Guarda
ao de Cristo na Madona Sistina,viii es- dirigidos ao retrato.
tava representado jogando bilboquê. − Vive l’Empereur! Vive le Roi NOTAS:
A bola do brinquedo representava o de Rome! Vive l’Empereur! ix − soaram i Francês: “Vamos lá, com firmeza, não pare”.
globo terrestre e a vareta na outra vozes entusiasmadas. ii Francês: “Nada de prisioneiros”; “Eles é que es-
mão do menino representava um Depois do almoço, Napoleão, tão se destruindo”; “Pior para o exército russo.”
cetro. Embora não estivesse de todo na presença de Beausset, ditou sua iii Francês: “Muito bem, mande entrar o senhor
claro o que o pintor queria exprimir ordem do dia para o exército. Beausset, e também Fabvier”.
exatamente ao representar o cha- − Courte et énergique! x − ex- iv Francês: “Sim, senhor”.
mado Rei de Roma enfiando o globo clamou Napoleão, quando terminou v Francês: “Até já”.
terrestre numa vareta, a alegoria pelo de ler a proclamação que ele mesmo vi Francês: “Senhor, Paris inteira lamenta a vossa
visto pareceu clara a Napoleão e lhe acabara de escrever de um só fôlego ausência”.
agradou bastante, como ocorrera e sem nenhuma emenda. A ordem vii Francês: “Lamento ter obrigado você a fazer
com todos aqueles que tinham visto o do dia era: uma viagem tão longa”.
quadro em Paris. “Soldados! Eis a batalha que “Senhor! Eu não esperava outra coisa que não
− Roi de Rome − disse ele, vocês tanto desejavam. A vitória encontrá-lo às portas de Moscou.”
apontando para o quadro com um depende de vocês. Ela é indispensável viii Refere-se a um quadro do pintor italiano
gesto gracioso da mão. − Admirable! para nós; nos dará tudo aquilo de que Rafael, do século XVI.
− Com a capacidade peculiar aos italia- precisamos: acomodações confor- ix Francês: “Viva o Imperador! Viva o rei de
nos de mudar à vontade a expressão táveis e um breve regresso à pátria. Roma!”.
do rosto, Napoleão aproximou-se do Comportem-se como se comporta- x Francês: “Curto e enérgico!”.
retrato e assumiu um ar de ternura ram em Austerlitz, em Friedland, em xi Francês: “É muita bondade de Vossa
pensativa. Teve a sensação de que o Vitebsk e em Smolensk. Para que a Majestade”.

10
Ensaio
Esta rejeição pode ser lida como uma
ruptura inteligente com a própria
Borges, Bolaño tradição imediata a Borges, a litera-
tura argentina e latino-americana da
e o retorno da épica. primeira metade do século vinte, e
todos os “ismos” dos anos 20, 30 e
40. Para ele, o escritor – seja poeta
Aura Estrada ou romancista – era um fabricante,
um rapsodo, um contador de histó-

D
urante suas vidas, Jorge Luis deria de la personalidad”, e “El escritor rias, e a épica foi a maior forma de
Borges e Roberto Bolaño argentino y la tradición”, em que fala arte.
lutaram contra a vaidade e da criação artística como um “sonho
todas as coisas pretensiosas, ambi- voluntário” a que se deve abandonar III.
ciosas, comuns e prestativas. Ambos a si mesmo. Quando Bolaño se estabeleceu como
são casos particulares na literatura, No entanto, além de parti- escritor, não desperdiçou nenhuma
que a máquina literária em si parece lhar uma devoção quase religiosa à oportunidade de se declarar um
rejeitar. Não foram bestsellers. Du- literatura, é difícil conciliar o trabalho discípulo de Borges, “Como todos os
rante uma parte importante de suas de Borges com o de Bolaño. Quando homens, como todas as coisas vivas”,
vidas, eles viveram sob a sombra da o crítico espanhol Ignácio Echevarría ele escreveu no Diari de Girona. Em
rejeição pública, ou na clandestinida- escreveu que os romances de Bolaño “Borges y los cuervos” ele escreveu
de da violação estética. A relação que eram “o tipo de romance que Bor- sobre sua visita fúnebre ao cemitério
estabeleceram com “o tempo deles” ges teria concordado em escrever”, em Genebra onde Borges foi enterra-
e com os escritores de sua época ele concedeu um elogio ao escritor do. Em “El bibliotecário valiente”, ele
era complexa e salpicada de farpas. chileno, mas o que os jogos eruditos elogia os méritos de seu precursor:
Certamente, o que eles entendiam dos contos de Borges tem em co- “escrita clara, uma leitura de Whit-
como literatura pouco tinha a ver mum com as sagas de fortuna e azar man (...) um dialogo e um monólogo
com o desejo de satisfazer qualquer que são os romances volumosos de antes da história, uma abordagem
estética (social, moral, política, filosó- Bolaño? Borges simplesmente não é sincera do verso Inglês. E ele nos dá
fica) que não fosse a deles. A relação o precursor que naturalmente vem à aulas de literatura que ninguém ouve.
de ambos com a literatura era quase mente quando lemos Bolaño. E lições de humor que todo mundo
sagrada. Eles acreditavam em pouco, pensa que compreendeu ainda que
além disso, e se dedicavam somente a II. ninguém entenda”.
ela, como se a literatura fosse (talvez Borges é um caso curioso na vastidão “Borges y Paracelso”, “Bor-
porque ela seja mesmo) uma questão da literatura latino-americana do ges y los cuervos”, e “El bibliotecário
de vida ou morte. século XX. Entre as obras de escrito- valiente” são os três únicos artigos
Como em Flaubert ou Kafka, res como Carpentier, Lezama Lima, que Bolaño dedica explicitamente à
a literatura para eles não era um Astúrias, Rulfo, Cortazar, Fuentes, figura emblemática de Borges, mas a
caminho para o respeito, o reconhe- García Márquez, Vargas Llosa e ou- menção do seu nome é um denomi-
cimento ou a realização pessoal; nem tros, a obra de Borges está sozinha: nador comum em suas colaborações
um meio difícil e perverso de subir na ele nunca escreveu um romance. Sua com várias publicações por toda a
escala social ou econômica; mas sim história mais longa, “O congresso”, Espanha e América Latina – compi-
um martírio ou uma peregrinação, totaliza catorze páginas. Sua obra lados recentemente com o título de
ou uma peregrinação martirizada apaga o biográfico, o psicológico, e o Entre paréntesis – em que se revela
para a completa anulação: o nirvana local. Como consequência, suas his- a imensa dívida sentida por Bolaño,
literário. “O homem não é nada, o tórias adquirem um nuance filosófico e por muitos outros escritores latino
trabalho é tudo!” Flaubert postulava que os transformam em meditações americanos de sua geração, para com
em uma carta exaltada ao seu amigo, místicas, ensaios, ou alegorias que Borges.
o escritor George Sand. Da mesma questionam a natureza da realida- Em El libro que sobrevive,
maneira, em um discurso conferido de. (O número de autores que tem “um exercício de memória que não
em Barcelona um ano antes de sua se mostrado dispostos a usar seus é”, Bolaño nostalgicamente recorda
morte, Bolaño declarou, “A literatu- talentos para destruir ou corrigir as a tarde de 1977 em Madri quando ele
ra é uma máquina blindada. Não se estruturas da história mundial como adquiriu as Poesias completas de Jorge
preocupa com os escritores. Às vezes a conhecemos é pequena; Kafka e Luis Borges, que devorou em uma
nem sequer percebe que eles estão Joyce poderiam começar uma peque- noite. Lá ele descobriu “a inteligência
vivos”. Borges manteve essa noção na lista.) Além disso, Borges rejeitou bem como a coragem e o desespero,
em numerosos ensaios, de “Todo y o romance realista e psicológico e isto é, as únicas coisas que incitam a
nada” até “De alguien a nadie”, “La na- defendeu as histórias de aventura. reflexão e mantêm a poesia viva”.A

11
Ensaio
obra poética foi o primeiro livro o território do borgianismo. É preciso
comprado por Bolaño na Europa (du- investigar cada margem, cada caminho
rante sua estada no México, ele não que Borges deixou para trás.
comprava livros, ele os roubava). Em Para Bolaño, a obra de seus
“Derivas de la pesada” Bolaño colocou predecessores foi um tanto profa-
as Poesias completas de Jorge Luis na, sua expressão mais evidente é
Borges no eixo do cânone literário da o sucesso comercial sem preceden-
Argentina (uma posição que ele com- tes. Como Kafka, Bolaño entendia a
partilha com Macedônio Fernández, literatura como um modo intenso de
Bioy Casares, Julio Cortazar, Roberto oração. Às vezes, até mesmo uma ca-
Arlt). Para Bolaño, a literatura ar- dência hipnotizadora pode ser ouvida
gentina perdeu seu equilíbrio após a em sua prosa, como se fosse uma
morte do poeta cego. Se soltaram as ladainha cantada quando exposto aos
águas serenas de um sonho agradável elementos.
no caos turbulento dos pesadelos. Seu valor estético não inclui
Posicionar Borges no centro ções mastodônticas de seu romance “escrever bem”. O que ele queria
do cânone da literatura argentina é, póstumo, 2666, que totaliza mais de revelar com sua narrativa superou
para Bolaño, uma maneira modesta mil páginas. Sua prosa acontece no os limites da elegância e do bom
de colocá-lo no centro de um cânone Aqui e Agora. É embebida em imedia- gosto. Ele procurou desmascarar as
pessoal. tismo, o presente totalizante. Nela atrocidades cometidas em nome da
são encontrados inúmeras persona- “elegância” e do “bom gosto”. Em
IV. gens que são bibliotecários e poetas, seu universo, esses termos eram
O escritor e crítico espanhol Eduardo mas também os assassinos e gigolôs, pseudônimos de Civilização e Poder.
Lago apontou em um ensaio reve- loucos, desesperados, ressentidos. Suas personagens eram marginaliza-
lador sobre as obras completas de Seu modo desajeitado de narrar dá das, os seres desesperados que, ao
Bolaño que “a sua dívida com Borges a impressão de ser impulsivo, como final, perdiam seu estilo. A elegância,
é incalculável, mas é difícil imaginar seus personagens, mas no fim revela- a perfeição, e a exatidão pouco lhe
algo que esteja tão longe da fragmen- se que um único motor está movendo importavam; o que ele achava trans-
tada ficção intelectual dos argenti- partes aparentemente distintas. Des- cendente era o enredo, o destino
nos” quanto os enredos itinerantes de seu primeiro romance, escrito em de suas personagens. Essa “falta de
de Bolaño. parceria com Antonio Porta e publica- estilo” é uma outra forma de ruptura
Borges cultivou uma prosa re- do em 1984, Consejos de um discípulo que o afasta de seus precursores ime-
sumida que era expressão do pensa- de Morrison a un fanático de Joyce, diatos – a prosa cristalina, correta de
mento preciso, sucinto: uma equação uma inclinação pueril se manifesta: Garcia Márquez ou o hiperrealismo de
quase matemática. A erradicação do sua natureza rebelde, inconformista, Vargas Llosa – e dos mais distantes,
“eu” psicológico está em um espaço sem vontade “de se acalmar”, como como Flaubert, para quem a acústica
atemporal e que se postularia como ele mesmo disse. Bolaño escreveu da prosa era consubstancial à sua
eterno, se não fosse por algumas com seus instintos, Borges com a eficiência, sua beleza.
variações. Essas variações, Borges cabeça. Nesta nota, em “La supersti-
murmura em “Hombre de la esquina Por que, então, escolher Bor- ciosa ética Del lector”, Borges atacou
rosada”, também são formas de eter- ges como O Precursor? Por que não a “vaidade do estilo” e a aspiração à
nidade. Uma delas é a personalidade. Onetti, Cortazar, Puig, Vargas Llosa, “perfeição”, tomando como sua ban-
Todo homem é Shakespeare e Shakes- García Márquez, ou qualquer um dos deira a prosa descuidada de Cervan-
peare é qualquer homem comum. escritores forçados a se unir sob a tes:
A personalidade é um mito ou uma categoria elástica do Boom? Os escri- Mudanças na linguagem ex-
miragem mental atacada por Borges. tores que Bolaño leu com admiração, cluem os significados laterais e as nu-
A erradicação do ego é, claro, um tru- carinho, curiosidade, e às vezes com ances de sentido; a página “perfeita”
que literário que no fim se torna uma ódio? Ele nos deu a resposta em uma é aquela composta por esses valores
das características da obra borgiana. entrevista: delicados que podem ser desgastados
Seus “contos-ensaios” possuem uma O território que marca minha com mais facilidade. Por outro lado,
brevidade devastadora. Sua escrita geração é aquele da ruptura. É uma uma página que tenha uma vocação
suprime, ou espera suprimir, qualquer geração altamente infratora, uma imortal pode suportar o fogo das
impressão biográfica, para o bem do geração que quer deixar para trás não erratas, das versões aproximadas, das
nirvana literário. só o boom mas também o que o boom leituras distraídas, da incompreensão,
Os romances de Bolaño avan- gerou, que é uma geração de escrito- sem que sua alma fique deixada para
çam da brevidade de suas primeiras res muito comerciais. É o território do trás nas provas.
incursões narrativas para as propor- parricídio por um lado. E por outro, é O que permanece, Borges

12
Ensaio
maior dignidade e lucidez... como os tenho esperança; e como o futuro nos
astronautas perdidos em planetas dos reserva muitas coisas – como o futuro,
quais não é possível escapar; ou em um talvez, reserve todas as coisas – eu
exílio sem leitores ou editores, somen- acredito que a épica voltará para nós.
te construções verbais ou canções Creio que o poeta será novamente um
idiotas cantadas não por homens, criador. Quero dizer, ele vai contar
mas por fantasmas. Na associação dos uma história e também vai cantá-la.
escritores eles são as jóias mais valori- E não pensaremos nessas duas coisas
zadas e menos cobiçadas. Quando um como diferentes, assim como nós não
jovem enlouquecido decide se tornar pensamos que elas são diferentes em
um poeta com dezesseis ou dezessete Homero ou em Virgílio.
anos, é um desastre familiar infalível. Borges sentiu anacrônico de
Neste parágrafo está co- sua maneira mais otimista naquele
dificado a trama de Detetives, um outono de 67, e assim Bolaño se sen-
argumenta, não pode ser encontrado
romance no qual um grupo de jovens tiria durante a década de 90, escre-
no estilo, na forma, mas sim em um
poetas partem em busca de Cesárea vendo épicos enquanto muitos de
espaço mais profundo: o espaço do
Tinajero, uma misteriosa poeta da seus contemporâneos alçavam a vela
mistério, o inexplicável, tudo aquilo
vanguarda mexicana que desapare- do navio da pós-modernidade com
que a linguagem não consegue dizer.
ceu da cena literária no início do sé- seus jogos eruditos e vanguardistas.
A experiência humana, o tempo.
culo vinte. Durante a jornada, alguns Bolaño não se ligou integralmente a
enlouquecem, outras se prostituem, nenhuma dessas duas filiações, mas
V.
outras morrem; mas todos lêem ou fez uso de seus recursos a fim de vol-
Como Borges – cuja estatura como
escrevem com fervor, ou admiram ou tar a temas tão antigos como o exílio,
poeta dentro da tradição literária
detestam poesia. a guerra, e a luta entre o bem e o mal.
latino-americana, Roberto Bolaño,
Na mitologia Bolañesca, os Em seus romances mais ambiciosos
em várias ocasiões, tentou reivindicar
poetas são seres que não tem nada (Os detetives selvagens, 2666) cantou
– Bolaño começa sua carreira como
a perder. Só a partir desse distancia- as aventuras da América Latina, não
um poeta, mas, para ser mais preciso,
mento a verdadeira literatura pode porque considerava a tragédia um
um poeta maldito. Fundou uma esco-
nascer. Atenção: quando fala dos recurso exclusivo daquele continen-
la efêmera chamada “infrarealismo”
poetas, Bolaño não está pensando te, mas como um meio de explorar o
que era ao mesmo tempo efêmera
no respeitado Pablo Neruda ou no te- mundo, a fortuna humana e a desgra-
e dispersa. O recomeço de Bolaño
mido Octavio Paz, ele está pensando ça.
como narrador não o fez perder sua
em Borges, Roque Dalton, Gabriela Ao lado de Borges, a prosa de
paixão pela poesia, que ele conhecia
Mistral, Enrique Lihn, Rodrigo Lira, e Bolaño nos lembra que a literatura,
bem e acompanhava de perto. Em
acima de tudo, Nicanor Parra, que era quando não é uma mera aspiração,
uma ocasião declarou que a melhor
segundo ele poeta por antonomásia. quando não é servil, desencadeia
poesia do século vinte teria sido escri-
No entanto, apesar de todo seu amor uma outra literatura, em que os valo-
ta em prosa, citando Joyce como um
por poesia, Bolaño nunca se esque- res do profano, uma realidade literá-
exemplo.
ceu de contar uma história em seus ria, não funcionam (ou seja, naqueles
A figura do poeta é central,
romances. Nesse sentido, ele divide casos excepcionais quando não é
quase mítica em seus romances.
com Borges a visão clássica do escri- feita para servir a um sistema social,
Nelas a lucidez e bravura são codifica-
tor como criador, como um contador econômico, político, ideológico ou
das. Em seu artigo “La mejor banda”,
de histórias. pessoal ((público ou secreto)) ). O
escreveu estas linhas para justificar
Em uma das seis famosas pa- que devemos pensar de quem despre-
o enredo de um de seus principais
lestras que Borges deu na Universida- za o sucesso mundial por uma parcela
romances, Los detectives salvajes (Os
de de Harvard em 1967, Borges falou de nirvana literário que não vende?
detetives selvagens):
sobre o futuro do romance e disse: É uma missão suicida a que poucos
Se eu tivesse de roubar o ban-
Há algo sobre um conto, uma escritores, poetas, ou romancistas
co mais seguro da Europa e pudesse
história, que vai estar sempre acon- estão dispostos a se juntar. Contudo,
escolher livremente meus parceiros no
tecendo. Não acredito que os homens estes são os casos que renovam a
crime, definitivamente eu escolheria
jamais se cansarão de contar ou ouvir literatura, abrindo novos paradigmas.
um grupo de cinco poetas. Cinco poe-
histórias. E se junto com o prazer de Seus exemplos não são para serem
tas de verdade, apolíneos ou dionisía-
contar uma história tivermos o prazer seguidos, mas sim para serem lidos.
cos, não importa, mas os verdadeiros
adicional da dignidade do verso, então
no sentido de ter um destino e vida de
algo grandioso terá acontecido. Talvez
poeta. Não há ninguém no mundo mais
eu seja um homem antiquado do
valente. Não há ninguém no mundo
século dezenove, mas tenho otimismo,
que possa enfrentar os desastres com
13
Ficção

Os 50 anos do
ilustríssimo amante
Fábio Justino

Numa época em que a literatura ainda causava algum reboliço social, em que um livro poderia
mudar pensamentos, hábitos, poderia estimular uma revolução, num tempo em que palavras
numa folha de papel eram mais do que palavras, eram ideias, uma obra foi banida. Levada a júri,
sentenciada à morte.
O Amante de Lady Chatterley, escrito pelo inglês D.H. Lawrence, teve sua primeira versão
lançada em 1928, e a publicação impedida logo depois. “Os esgotos da pornografia francesa não
tinham produzido nada de comparável”, afirmou-se à época. Trata-se da história de Constance
Reid, casada com Clifford Chatterley, que, na ausência e com a permissão do marido, arranja um
amante. O texto então é permeado de termos descabidos para uma sociedade ainda desacostu-
mada com a exposição artística dos segredos de alcova.
Passados os anos, com o surgimento de novos costumes, novos autores, novas ideias, e,
sobretudo, com a sociedade um pouco mais desavergonhada, a obra finalmente conseguiu uma
publicação oficial, após enfrentamento aos valores na Justiça pela editora Penguin, lá pelos idos
1960. O livro deixou de ser um reles relato de um pornógrafo ocioso para se tornar literatura, e
tudo o que chocou os incautos de outrora hoje é visto como ferramentas de expressão de um
artista legítimo e consagrado.
Sr. Lawrence estaria orgulhoso agora ao ver sua obra chegar à comemoração dos seus
50 anos. Uma edição que inclui A propósito de O Amante de Lady Chatterley, trabalho do autor a
respeito do imbróglio todo e de suas reais intenções literárias, isto com introdução de Doris Les-
sing, Nobel de Literatura em 2007. Ainda há um apêndice e notas explicativas que situam o leitor
na geografia das Midlands e no vasto contexto social e político no qual a trama está inserida. No
Brasil, com tradução de Sérgio Flaskman, a edição sai pela Penguin Companhia das Letras.
Se talvez um livro não possa mais causar tanto frisson, e o erotismo não mais nos choque,
desfrutemos desta obra revolucionária para atentarmos ao menos às transformações que nós
mesmos, como sociedade, vivenciamos ao longo desses tempos. É provável identificarmos algo
novo em nós por meio de cada leitura, e releitura. Esdrúxula realidade esta para os nossos dias,
mas possível. Grandes amantes, ou melhor, autores, nunca deixam de nos proporcionar grandes
descobertas.

O amante de Lady Chatterley percebera que todos precisamos viver paralisada para sempre.
D. H. Lawrence e aprender. Isso aconteceu em 1920. Voltaram,
Casou­se com Clifford Chatterley em Clifford e Constance, para a casa dele,
Nossa época é essencialmente trágica, 1917, quando ele veio passar um mês de chamada Wragby Hall, a “sede” da
por isso nos recusamos a vê­la tragica- folga do exército em casa. Tiveram um família. O pai dele morrera, Clifford
mente. O cataclismo já aconteceu e nos mês de lua de mel. Em seguida ele vol- era agora baronete, 3 sir Clifford, e
encontramos em meio às ruínas, co- tou para Flandres, 1 mas foi embarcado Constance era lady Chatterley. Vieram
meçando a construir novos pequenos de volta para a Inglaterra seis meses assumir os cuidados da casa e começar
habitats, a adquirir novas pequenas es- depois, mais ou menos em frangalhos. a vida de casados na residência um
peranças. É trabalho difícil: não temos Constance, sua esposa, tinha vinte e tanto abandonada da família, com uma
mais pela frente um caminho aberto três anos; ele, vinte e nove.2 renda consideravelmente inadequada.
para o futuro, mas contornamos ou Seu apego à vida foi extraordinário. Clifford tinha uma irmã, mas ela partira
passamos por cima dos obstáculos. Não morreu, e seus fragmentos pare- de casa, e não havia nenhum outro
Precisamos viver, não importa quantos cem ter readquirido a coesão. Perma- parente próximo. O irmão mais velho
tenham sido os céus que desabaram. neceu dois anos nas mãos dos médicos. morrera na guerra. Aleijado para sem-
Era esta mais ou menos a posição de Depois disso, pronunciaram sua cura e pre, sabendo que jamais poderia ter
Constance Chatterley. A guerra der- ele pôde voltar à vida, com a metade in- filhos, Clifford voltou para casa nas en-
rubara o teto sobre sua cabeça. E ela ferior do corpo, da cintura para baixo, fumaçadas Midlands para manter vivo

14
Ficção
o nome Chatterley enquanto pudesse.
Mas na realidade não estava abatido.
Deslocava­se por conta própria numa
cadeira de rodas, e mandara adap-
tar um motor a uma dessas cadeiras
móveis de jardim para poder trafegar
lentamente em meio aos canteiros e
pelo belo parque melancólico que na
verdade lhe trazia um imenso orgulho,
embora ele afetasse votar­lhe uma
certa indiferença.
Tendo sofrido tanto, sua capacidade
de sofrer se esgotara até certo ponto.
Continuava estranho, alegre e anima-
do, e quase, pode­se dizer, radiante,
com seu rosto sanguíneo e saudável e
os olhos brilhantes e desafiadores, de
um azul muito claro. Tinha ombros lar-
gos e fortes, e mãos poderosas. Vestia­
se com alfaiates caros de Londres e
usava belas gravatas de Bond Street. 4
Ainda assim, em seu rosto, podia­se ver
a expressão alerta, e também a ligeira
vaguidão, dos inválidos.
Esteve tão perto de perder a vida que
atribuía extremo valor a quanto dela
lhe restara. Ficava óbvio, no brilho an-
sioso dos seus olhos, como se orgulha-
va de ainda estar vivo depois do grande
choque. Mas seus ferimentos foram
de tal ordem que alguma coisa dentro
dele se extinguira. Alguns dos seus sen-
timentos se perderam, deixando uma
lacuna inanimada.
Constance, sua mulher, era uma jovem
corada com ar de camponesa, macios
cabelos castanhos, um corpo cheio e
movimentos lentos, repletos de uma
energia incomum. Tinha olhos azuis,
grandes e inquietos, e uma voz mansa
e suave; parecia ter acabado de chegar
de sua aldeia natal.
O que estava muito longe da verdade.
Seu pai era o velho sir Malcolm Reid,
pintor da Academia Real 5 bastante ções socialistas, onde oradores discur- entre outras coisas. E divertiam­se
conhecido em sua época. Sua mãe savam em todas as línguas civilizadas e muito por lá. Viviam soltas em meio aos
fora uma das participantes mais cultas ninguém se mostrava constrangido. estudantes, discutiam com os homens
da Sociedade Fabiana 6 nos seus As duas moças, portanto, desde muito questões filosóficas, sociológicas e
tempos mais gloriosos, praticamente novas não se intimidavam nem um artísticas, e eram equivalentes aos
pré­rafaelitas. Cercadas de artistas e pouco diante da arte ou dos ideais polí- homens em tudo: só que ainda me-
socialistas cultos, Constance e sua irmã ticos, uma atmosfera natural para elas. lhores, pois eram mulheres. E faziam
Hilda tiveram o que se poderia definir Eram ao mesmo tempo cosmopolitas excursões pelas florestas com rapazes
como uma formação esteticamente e provincianas, com o provincianismo vigorosos munidos de violões, tlang­
nada convencional. Viajaram por Paris, cosmopolita da arte que sempre acom- tlang! —, entoavam as canções dos
Florença e Roma para respirar o mundo panha os ideais sociais mais puros. Wandervogel 7 e eram livres. Livres!
da arte, e noutra direção foram levadas Foram mandadas para Dresden aos Era a grande palavra. À solta no vasto
a Haia e Berlim para as grandes conven- quinze anos de idade, pela música, mundo, à solta nas florestas matutinas,

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Ficção
com jovens rapazes transbordantes que as mulheres. E faziam questão da
de desejo e dotados de esplêndidas coisa do sexo, como cães.
vozes, livres para fazer o que quises- E a mulher tinha de ceder. O homem
sem e, acima de tudo, dizer o que bem era como uma criança, com seus apeti-
entendessem. O que contava mais que tes. A mulher tinha de conceder o que
tudo eram as conversas, o intercâmbio o homem queria ou o mais provável era
apaixonado da fala. O amor era apenas que ele, igual a uma criança, perdesse o
um acompanhamento ocasional. controle, debatendo­se pelo chão e ar-
Tanto Hilda quanto Constance tiveram ruinando o que sempre tinha sido uma
suas primeiras experiências amorosas ligação muito agradável. Mas a mulher
em torno dos dezoito anos. Os rapazes podia ceder sem entregar ao homem
com quem conversavam com tanta o que ela possuía de mais interior e
paixão, cantavam com tanta ânsia e de mais livre. Que os poetas e os que
acampavam com tamanha liberdade falavam tanto sobre sexo não pareciam
sob as árvores sempre queriam, claro, levar na devida conta. A mulher podia
a conexão amorosa. As jovens tinham aceitar um homem sem na verdade
muitas dúvidas, mas afinal falava­se entregar­se a ele. E certamente podia
tanto dessa coisa, supostamente tão aceitá­lo sem se entregar ao seu poder.
importante. E os rapazes se mostravam Em vez disso, podia usar essa coisa do
tão humildes e suplicantes. Por que sexo para adquirir poder sobre ele. Pois
então uma jovem não podia portar­se bastava ela se conter na relação sexual,
como uma rainha e conceder a ele a deixá­lo acabar e esgotar­se sem chegar
dádiva de si mesma? ela própria à crise, para em seguida
De maneira que tinham concedido as prolongar a conexão e chegar a seu
dádivas de si mesmas, cada uma ao orgasmo e sua crise tendo­o como um
rapaz com quem tinha as discussões simples instrumento.
mais íntimas e sutis. As conversas, as
discussões, eram o que importava: o
amor físico, a conexão, era apenas uma
espécie de reversão primitiva, e em
boa parte um anticlímax. Depois dela,
sentiam­se bem menos apaixonadas
pelo rapaz e até um pouco inclinadas NOTAS:
a odiá­lo, como se ele tivesse violado
a privacidade e a liberdade interior de 1 Área do norte da França e província da convencional para um baronete é o do título
cada uma. Pois obviamente, no caso Bélgica; sede de inúmeras batalhas na Primeira antecedendo seu prenome (“sir Clifford”), e o de
das moças, toda a dignidade, todo o Guerra Mundial. sua mulher, “lady” seguido do sobrenome (“lady
sentido da vida, consistia na conquista 2 O nome “Chatterley” era comum na cidade Chatterley”). [No caso da presente tradução, o
de uma liberdade absoluta, perfeita, natal de DHL, Eastwood: destacavam­se George tratamento de segunda pessoa “your Lordship”
pura e majestática. O que mais po- Chatterley (1861­1940), gerente da Barber Walker ou “your Ladyship”, de uso corrente em subs-
dia significar a vida de uma jovem? Co., e seu secretário entre 1918 e 1931, e suas tituição a “you” nos dois casos, foi substituído
Desembaraçar­se das antigas e sórdidas filhas Constance (1883­?) e Winifred (1886­?). A pelo tratamento convencional descrito acima.
conexões e submissões. ação principal do romance transcorre de 1922 (N. T.)]
E, por mais que se pudesse a 1924. Quando é ferido em 1918, Clifford tinha 4 Rua de lojas caras em Londres.
sentimentalizá­la, toda essa história de “vinte e nove” anos: mas tinha “vinte e dois” em 5 A Academia Real de Artes, fundada em 1768.
sexo era uma das conexões e sub- 1914, quando começa a guerra. Constance tinha 6 A Sociedade Fabiana foi fundada em 1883 com
missões mais sórdidas e antigas que “dezoito” em 1913 e “vinte e três” em 1918: mas o fito de promover um socialismo moderado.
existiam. Os poetas que a glorificaram tem “vinte e sete” no início de 1924. Mellors, Os pré­r afaelitas, um grupo de artistas plásticos
eram quase todos homens. As mulhe- nascido como DHL em 1885, tem “trinta e nove” reformistas criado em 1848, procuravam emular
res sempre souberam que existia uma ano sem agosto de 1924; no início do mesmo a pintura italiana do período “anterior a Rafael”,
coisa melhor e mais elevada. E agora ano, Connie calculara que ele teria “trinta e sete especialmente seus detalhes muito nítidos e seu
sabiam disso mais definitivamente ou trinta e oito anos”. contato imediato com a natureza.
que nunca. A linda e pura liberdade da 3 Título hereditário superior ao de cavaleiro e 7 Os Wandervogel (literalmente, “pássaros
mulher era infinitamente mais magní- inferior ao de barão. No caso de Clifford, se ele migradores”) eram membros de uma organiza-
fica que qualquer amor sexual. A única não tivesse um filho, o baronete seguinte seria ção de jovens alemães que promovia a vida ao ar
dificuldade é que nessa matéria os o descendente mais próximo do sexo masculino livre, especialmente as excursões a pé.
homens estavam muito mais atrasados de um detentor anterior do título. O tratamento

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memória

Mark Twain
Rodrigo Bottura

M
ark Twain foi o escritor responsável por dar à literatura norte-ameri-
cana um fôlego novo, não só por escrever romances como Huckleber-
ry Finn e Tow Sawyer, mas por seus contos, sátiras políticas e acima
de tudo pelo ato pioneiro de relatar suas viagens por seu país e pelo mundo.
O conjunto de sua obra parece ter dado ao jornalismo americano da época uma
certa cor local desprendida dos excessos que o antecederam.
Tão interessante quanto seus romances são as cartas escritas ao longo de
sua vida reunidas em diversos volumes. A correspondência entre ele e seus amigos
revela desde acontecimentos banais no cotidiano do escritor até os basti-
dores de seu processo de criação.
A carta selecionada data de 1875 e foi enviada por Mark
Twain a William D. Howells, na época editor da revista The Atlantic.
Mark Twain estava finalizando seu romance As aventuras de Tom
Sawyer que foi publicado em 1876. É interessante observar a dúvi-
da do autor quanto a ver sua personagem principal chegar à vida
adulta ou encerrar a história com ela ainda rapaz. Outro ponto
curioso é sua incerteza em relação ao sucesso do romance. Twain
chegou a considerar que o livro seria lido apenas por adultos.

Para W. D. Howells, em Boston:

HARTFORD, 5 de julho, 1875.

Meu querido Howells, - - Eu tamanho que o meu) para a Scribner’s ses, e ver se você não acha que eu estou
terminei a história e não levei o rapaz Monthly por $6.500,00 (a publicação certo em finalizá-lo como um menino – e
além de sua infância. Acredito que seria começará em setembro, eu acho) e apontar os defeitos mais evidentes. É
fatal fazê-lo de qualquer maneira que ele ganha 7 ½ por cento pelos direito um favor enorme a se pedir, e espero
não autobiograficamente – como Gil da Bliss em forma de livro mais tarde. que o recuse e ficaria envergonhado
Blas. Talvez tenha cometido o erro de Ele ganha dez por cento pelos direitos se esperasse o contrario. Mas estive
não escrever em primeira pessoa. Se autorais na Inglaterra (por tiragem) e o pensando tanto tempo nisso que é um
eu prosseguisse, agora, e o levasse até mesmo percentual em direitos sobre o alivio dizer isso. Não conheço outra
a idade adulta, ele seria insignificante livro publicado, e receberá o pagamento pessoa cujo julgamento eu me aventura-
como qualquer outro homem da litera- adiantado de quinhentas libras no dia ria aceitar completo e totalmente. Não
tura e o leitor desenvolveria um forte em que a primeira tiragem do número hesite em dizer não , pois eu sei como
desprezo por ele. Não é um livro para aparecer. Se eu me der bem assim, aqui, o seu tempo é valioso, e eu teria uma
garotos, de nenhuma maneira. Ele será e lá, com o meu livro, poderia ser o franca necessidade de me envergonhar
lido apenas por adultos. Foi escrito para suficiente para me pagar, mas eu duvido caso você aceite.
adultos. seriamente que isso aconteça embora Osgood e eu vamos tentar a arrogante
Além disso, o livro já é longo o eu possa me dar melhor na Inglaterra G---- por violação de marca. Ganhar
suficiente do jeito que está. Tem cerca do que Bret, que não é muito conhecido um ou dois processos desse tipo daria
de 900 páginas de manuscritos, e pode por lá. mais segurança aos literatos. Gostaria
chegar a 1000 quando eu tiver termi- Veja eu tenho uma visão vil, mercenária que Osgood processasse pelo roubo do
nado de “trabalhar” os trechos vagos; das coisas – mas minhas despesas são poema de Holmes. Não seria maravilho-
então seriam entre 130 ou 150 páginas algo completamente assustador. so processar R---- por pequenos furtos?
da The Atlantic – mais ou menos o que No futuro eu vou escolher um garoto Eu prometo ir à corte e jurar que eu o
foi Foregone Conclusion, não? de doze anos e acompanhá-lo por sua penso capaz de roubar amendoins de
Eu gostaria muito de vê-lo na Atlantic, vida (na primeira pessoa) mas não Tom um ambulante cego.
mas duvido que o livro cobriria os gas- Sawyer – ele não seria uma boa persona-
tos dos editores pelos direitos, ou os gem para isso. Sempre seu,
meus por vendê-lo. Bret Harte vendeu Eu gostaria que você prometesse ler CLEMENS.
seu romance (devo dizer do mesmo o manuscrito de Tom Sawyer um dia des-

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