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APOSTILA

DE
PRÁTICA DE ENSINO
Professor - Marcelo Saldanha da Gama

UCAM

PROFESSOR

MARCELO SALDANHA DA GAMA

PROGRAMA DE PRÁTICA DE ENSINO


IAVM – Instituto A vez do Mestre – UCAM - 2007

Módulo 1

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• Currículo
• Enfoque tradicional
• Enfoque abrangente  currículo além do ambiente
acadêmico
• A Relação Pedagógica

Módulo 2
• O Planejamento e seus princípios
• Tipos de Planejamento : Planejamento Educacional
Planejamento Curricular
Planejamento de Ensino
• Objetivos
• Como elaborar um : Plano de Curso
Plano de Unidade ou Módulo
Plano de Aula ou Conferência.
 Seleção de conteúdos
 Seleção de recursos
Módulo 3
• Condições para a Prática de Ensino  Objetivos
• Aprendizagem e Competências
• O professor como um comunicador
• As Técnicas de Ensino
• Estratégias para o processo ensino / aprendizagem
• Fases de aprendizagem
• Aprendizagem Criativa
• Auto avaliação - o professor reflexivo

Módulo 4
• Realização da Prática de Ensino
• Elaboração de planos de aula
• A Prática de Ensino individual
• Discussão dos procedimentos didáticos utilizados pelos futuros
docentes.

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Breve comentário sobre o programa

A proposta do curso de Prática de Ensino na Pós


Graduação é aproveitar a experiência variada dos alunos na
discussão da pertinência deste estudo para cada um.
É, antes de mais nada, uma oportunidade para que se
discutam pontos nebulosos dos procedimentos em sala de
aula. Desta forma pretende-se relacionar a teoria e a prática
no sentido de esclarecer que aquela deve servir a esta e não o
contrário.
Para tanto, juntamente com o programa proposto,
utilizaremos a base teórica contida nesta apostila para
despertar uma consciência crítica sobre a Prática de Ensino e
a noção de sua importância na atuação docente de cada um.

Marcelo Saldanha da Gama

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SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS
ALVES, R. A alegria de Ensinar. Ars Política, São Paulo, SP, 1998.

ANDRÉ, Marli Eliza. Alternativas do Ensino de Didática. Papirus, Campinas, SP,


1997.

BOK, Derek. Ensino Superior. Forense Universitária. Rio de Janeiro, RJ, 1999.

CANDAU, Vera Regina. Magistério, construção cotidiana. Editora Paz e Terra, Rio
de Janeiro, RJ, 1976.

. A didática em questão. Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1990.

CANIVEZ, P. Educar o cidadão ?. Papirus Editora, Campinas, SP, 1999

GARCIA, Maria Manuela Alves. A didática no ensino superior. Papirus, Campinas,


SP, 1998.

MARTINS, Pura Lúcia Oliveira. A didática e as contradições da prática. Papirus,


Campinas, SP, 1999.

MORAIS, R. Cultura brasileira e educação. Papirus Editora, Campinas, SP, 1995

MORALES, Pedro. A relação Professor-aluno. O que é ? Como se faz ?. Edições


Loiola, São Paulo, SP, 1999.

MOREIRA, A.Currículos e programas no Brasil. Papirus Editora, Campinas, SP,


1998.

PICONEZ, S. A prática de ensino e o estágio supervisionado. Papirus Editora,


Campinas, SP, 2000.

WERNECK, H. Ensinamos demais aprendemos de menos. Vozes, 5 ed., Petrópolis,


RJ, 1990.

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Professor Marcelo Saldanha da Gama
UCAM - A Vez do Mestre

Prática de Ensino
Prof. Marcelo Saldanha da Gama

Relação Pedagógica

Relação Pedagógica é o vínculo que se estabelece na prática


educativa. Este vínculo pedagógico expressa a INTENÇÃO de
MODIFICAR O OUTRO EM FUNÇÃO DO QUE SE DESEJA
TRANSMITIR.

Seja na educação moderna, seja na educação tradicional há um ponto


obscuro relacionado à relação pedagógica:
 Qual o papel dos conteúdos de ensino - o currículo - para uma
educação libertadora ?

Não há submissão de quem aprende em relação a quem ensina ?


O Professor não é um agente transmissor de ideologia ?
Como a Educação não vai servir aos interesses do dominador ?

A reflexão nos levaria a um conflito.

1. A Educação Libertadora não transmite os padrões da ideologia


dominante. Ensinaria outros padrões. Isso muda pouco o quadro. É
como mudar de catecismo mas não de método de catequese.

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2. Submeter os conteúdos sempre à crítica isenta. É impossível pois não
há isenção no ato de ensinar. Se há orientação por parte do professor
não há isenção.

3. Não ensinar nada para não ser tendencioso. É a negação do papel do


professor e da escola.

A partir daí percebe-se que o que sustenta a relação pedagógica é o


VÍNCULO...
que se faz pelo EXEMPLO
e se mantém pela DEPENDÊNCIA

Rudolph Bohoslawsky diz que


“A dependência é uma das modalidades vinculares entre os homens. Por isso é
necessária em certas ocasiões.”

A educação é uma delas.

É curioso analisarmos a dependência pois ela é a base para a


independência.

O Vínculo Pedagógico prepara o aluno para rompê-lo pois a meta do


ensino é esta.
Entretanto nota-se uma dependência negativa consagrada pelo
sistema que insiste em fazer da escola o que Guillermo Garcia chama de
ANTRO DE DEPENDÊNCIA
Este antro de dependência está expresso na Estrutura Administrativa
Vertical com uma SUCESSÃO HIERÁRQUICA.

Nasce daí uma DEPENDÊNCIA INSTITUCIONALIZADA:

Professor  dependente do sistema  alunos dependentes

O processo de aprendizagem, neste modelo, se fundamenta em 3


aspectos:

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• Ritualismo = expresso em decoreba e comportamentos pré
determinados
• Mediocridade = A conseqüência mais cruel do ritualismo. O produto
final da aprendizagem acaba por se caracterizar pela superficialidade.
• Submissão = Aluno apático, sem iniciativa para a pesquisa e/ou
produção de saber.

Percebe-se então que a reflexão não deveria passar pelo rótulo da


Escola... se é MODERNA ou TRADICIONAL.
Deveríamos pensar na qualidade da relação pedagógica que é, em tese, a
qualidade do CURRÍCULO.

No lugar de se perguntar se a Escola é Moderna ou Tradicional


devemos perguntar se ela é alienante, atrasada, antiquada,
irresponsável ou participativa, atual, libertadora, esclarecedora...

É fundamental que seja vista a articulação da Escola com o mundo


que a rodeia  Articulação ESCOLA X SOCIEDADE.

Qual Escola liberta e qual aliena ?

LIBERTA  Não dissimula a realidade e adapta o aluno à ela. Lida com


regras, hierarquia, autoridade e ideologia e faz destes elementos base
para seu crescimento e ascensão social
ALIENA  É subordinada ideologicamente ao meio mas, ao mesmo
tempo, nega a realidade que a sustenta. Sem conhecer a realidade a que
pertence, como ser livre para atuar nela ?

Um claro exemplo de escola alienante está na escola que nega a


autoridade em nome da liberdade e, por isso mesmo, não prepara o aluno
para a vida em sociedade (cheia de regras que precisam ser cumpridas
sob pena de não se adaptar ao meio).

A relação da Escola com a Sociedade tem uma

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DIMENSÃO DIALÉTICA
ou seja
DEVE ESTAR EM RUPTURA E EM CONTINUIDADE
COM A SOCIEDADE.

Não é ser uma duplicata nem um meio autônomo. É assumir seu


papel de INSTITUIÇÃO ESPECIALIZADA.
A Escola:
• Depende da Sociedade
• Desempenha papel ideológico
• Concebe sua relação com a Sociedade
• A sociedade lhe confere valor de parceira
• Trabalha para reforçar o modelo social
Sua dinâmica institucional tem fôlego próprio. Não lhe cabe ir contra o
modelo a que serve mas é seu papel desenvolver visão crítica em seus
alunos.

José Carlos Libâneo cunhou, nos anos 80 o termo


PEDAGOGIA CRÍTICO-SOCIAL DOS CONTEÚDOS
Disse que não deveríamos perguntar qual Escola nós queremos mas qual
Sociedade.
A escola, para ele, é um espaço para a Sociedade repensar suas posições.
 Todo processo educativo é ideológico
 A escola – instituição educacional – é ideológica. Transmite e
sustenta a cultura.

Se é assim a Escola não tem um modelo... tem uma atitude!


Não se trata de Tradicional ou Moderna. Trata-se de uma instituição que
se adapta às mudanças sociais para não perder de vista seu papel social.

O compromisso com a boa Educação, com o bom ensino é a tônica


das escolas consideradas tradicionais (São Bento, Zaccaria, Santo Inácio
– católicos –, Cruzeiro – modelo alemão – etc).
É curioso notar que estes colégios são bem mais atualizados,
melhor equipados e com profissionais com formação adequada ao passo

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que os colégios menores – pseudo modernos – são os falsos
democráticos, irresponsáveis, pagam mal seus professores e têm um
controle de qualidade trabalho abaixo do esperado.

Notem que o diferencial das Escolas está em coisas que damos


pouco valor no quadro geral. Podemos perceber isso em algumas
atividades extra curriculares que procuram estimular a criatividade do
aluno como esportes e artes (orientados por profissional gabaritado).

Vamos direcionar o foco da discussão agora para os aspectos


educativos envolvidos nas atividades alternativas.

A PRÁTICA DE ENSINO ESTÁ BASEADA NO


PLANEJAMENTO

Planejamento é uma “organização prévia da ação


visando resultados desejáveis por meio de
atividades racionais”.

TODO PLANEJAMENTO DEVE SER FLEXÍVEL

O planejamento está em constante avaliação podendo sofrer


modificações durante sua execução.

O PLANEJAMENTO É MOVIDO PELAS TOMADAS DE DECISÃO

A decisão envolve um processo de seleção entre duas


ou mais alternativas em resposta a uma situação que requeira

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ação modificadora. É necessário que haja um critério para
que a decisão seja racional e tenha base científica.
A Educação se define a partir de 3 tipos de planejamento:

Educacional - Curricular - De Ensino

Educacional > Preocupa-se com processos de expansão e


melhoria da rede escolar e preparação de recursos humanos
associados ao processo global do país. É um processo
contínuo que traça prioridades para o melhor
desenvolvimento educacional do país.

É fundamental que não se deixe de investigar a


realidade educativa, cultural, social e econômica do país.

Curricular > A escola é o centro da educação sistemática


integrada na comunidade em que se insere. O Planejamento
Curricular é a previsão global de toda ação educativa a ser
desempenhada pela escola tendo o aluno como centro.

Tarefa multidisciplinar que pretende uma organização


de um sistema de relações lógicas e psicológicas de modo a
favorecer o processo ensino X aprendizagem.

De Ensino > O foco de nosso interesse inicial.


A partir do Planejamento Curricular, num nível mais
específico, surge o Planejamento de Ensino.
É uma atividade direcional, metódica e sistematizada
empreendida pelo professor junto aos alunos visando fins
desejados. Envolve a previsão de resultados desejáveis e os
meios para atingi-los

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Previsão inteligente e calculada de todas as etapas do
trabalho escolar (atividades docentes e discentes) visando a
segurança, a eficiência e economia na aprendizagem.

Neste Planejamento existem três dimensões:

- FILOSÓFICA – Objetivos da escola


- PSICOLÓGICA – Fase do desenvolvimento do aluno
- SOCIAL – Contexto sócio-econômico da clientela

Para se ter sucesso nos PLANEJAMENTOS é importante


conhecer os três tipos de plano.

• PLANO DE CURSO
delineação global de toda ação a ser desempenhada.

• PLANO DE UNIDADE ou MÓDULO


delineação por partes da ação desejada no Plano de Curso.

• PLANO DE AULA ou CONFERÊNCIA


delineação por dia para concretização dos planos anteriores.

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OBJETIVOS
• Um resultado que se pretende alcançar.
• Descrição de um desempenho desejado.

Sem objetivos bem formulados não há base sólida para a


seleção ou planejamento dos métodos.

A formulação precisa indica mais facilmente se eles foram


atingidos e auxiliam professores e alunos para se
organizarem para atingi-los.

Os objetivos dão base para a seleção do conteúdo,


procedimento, avaliação e organização das ações.

Formular um objetivo de forma inequívoca exclui a


possibilidade de que seu propósito se confunda com outro.
Para tanto é interessante observarmos que a utilização dos
verbos deve ser criteriosamente escolhida.

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VERBOS NÃO RECOMENDADOS:

SABER – COMPREENDER – APRECIAR – TER FÉ –


ENTENDER – CONSEGUIR ENTENDER – CAPTAR –
IMAGINAR – INTUIR

VERBOS RECOMENDADOS:

ESCREVER – ENUMERAR – IDENTIFICAR – CLASSIFICAR –


COMPARAR – SOLUCIONAR – CONSTRUIR – ELABORAR

REGRAS PARA UMA BOA FORMULAÇÃO


DOS OBJETIVOS

• Dizer o que o aluno deve realizar (desempenho)


• Em que condições (como) *este ponto é facultativo
• Qual será o desempenho satisfatório (critério)

OS OBJETIVOS DIVIDEM-SE EM 3 DOMÍNIOS:


1. COGNITIVO (pensar)
Vinculados à memória e ao desenvolvimento de capacidades
e habilidades intelectuais.
2. AFETIVO (sentir)
Descrevem interesses, atitudes, valores e ajustamento.
3. PSICOMOTOR (agir)
Vinculados às áreas manipulativas e motoras.

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É MUITO COMUM NOTARMOS NAS FORMULAÇÕES
DOS OBJETIVOS EDUCACIONAIS UMA ÊNFASE MAIOR
NO DOMÍNIO DO COGNITIVO. ENTRETANTO É
INTERESSANTE NOTAR QUE ELES NÃO SE SEPARAM.

ESQUEMA DE PLANOS DE CURSO


DE UNIDADE OU MÓDULO
DE AULA OU CONFERÊNCIA

PLANO DE CURSO

1- CABEÇALHO
- Nome da escola
- Localidade
- Curso
- Série
- Turma
- Disciplina
- Nome do professor
- Ano letivo ou período letivo

2- DADOS SOBRE A POPULAÇÃO ALVO (CLIENTELA)


- Número de alunos
- Procedência
- Faixa etária
- Nível sócio-econômico

3- DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO
- Número de aulas por ano ou período letivo (semestre)
- Número de aulas por semestre, bimestre, mês, semana e dia

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*obs. – É imprescindível que haja uma margem de segurança para que o programa não
fique incompleto. Esta margem de segurança deve prever provas, feriados, faltas e outros
acontecimentos que possam influenciar o desenvolvimento do programa.

4- CONTEÚDO
- Seleção dos pontos fundamentais dispostos em seqüência de aprendizagem
- Devem ser apresentados em forma de UNIDADES ou MÓDULOS

Ex. Unidade I (Título da Unidade – sem suas subdivisões)


Unidade II ( “ “ “ “ “ )
Módulo I (Título do Módulo – sem suas subdivisões)
Módulo II( “ “ “ “ “ )

5- OBJETIVOS
- Formulados em termos gerais (objetivos do currículo)
Ex. Ao final DO CURSO o aluno deverá ser capaz de...
6- PROCEDIMENTOS – (técnicas de ensino)
- Seminários
- Painéis
- Grupos
- Passeios
- Aulas expositivas

7- RECURSOS
- Retroprojetor
- Flip Chart / Álbum Seriado
- Vídeo
- Slides
- Data Show
- Quadro Negro (lousa)
- Textos
- Giz

8- AVALIAÇÃO
- Quais os instrumentos que indicarão se os objetivos foram alcançados
(provas, testes, freqüência, participação).

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Os planos de UNIDADE ou MÓDULO e os planos de AULA
ou CONFERÊNCIA são derivados do PLANO DE CURSO.

Os passos são os mesmos e devem ser repetidos em cada


plano.
As diferenças básicas serão percebidas em alguns pontos como
veremos a seguir:

1- Cabeçalho (igual)
2- Dados sobre a população (igual)
3- Distribuição do tempo
Muda de acordo com a duração da unidade/módulo ou de acordo
com a duração da aula/conferência.
4- Conteúdo
O conteúdo deve ser especificado no plano de unidade/módulo.
Por exemplo: Unidade I – Planejamento
O que é um planejamento
Tipos de Planejamento
- Planejamento Educacional
- Planejamento Curricular
- Planejamento de Ensino
Obs. – O mesmo se aplica na aula ou conferência. O conteúdo deve
ser especificado detalhadamente.
5- Objetivos.
Formulados em função da Unidade ou Módulo:

Ao final da(o) Unidade/Módulo o aluno deverá ser


capaz de...

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Formulados em função da Aula ou Conferência:
Ao final da Aula/Conferência o aluno deverá ser
capaz de...
6- Procedimentos
Devem ser definidos em função da natureza da atividade que se
pratica.

7- Recursos
A mesma observação do item anterior

8- Avaliação
Cada momento do curso necessita de uma avaliação. Desta forma
cada unidade ou módulo e cada aula ou conferência devem ter
uma forma de avaliação. Cabe ao professor defini-la de forma
clara nos seus planos.

ATIVIDADES DE ENSINO
É necessário que o professor leve em conta os objetivos, o tipo de
alunos e o tempo disponível. Para tanto ele deve:

- ter critérios que o orientem na escolha das atividades


- conhecer as suas possibilidades e limitações
- saber aplicar as técnicas didáticas que utiliza
- evitar utilizar as técnicas de forma incompleta
- buscar a participação do aluno sempre que possível.

TODA ATIVIDADE DE ENSINO VISA FACILITAR A APRENDIZAGEM


E TORNAR O ENSINO MAIS ECONÔMICO.

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A elaboração dos objetivos, invariavelmente, se confunde com o
desenvolvimento das competências e vice-versa. Por este motivo
vamos ler o texto a seguir em pequenos grupos - máximo de três
componentes - para realizarmos uma atividade prática sobre
COMPETÊNCIAS.
APRENDIZAGEM E COMPETÊNCIAS
Philippe Perrenoud
Construindo Competências
O OBJETIVO DA ESCOLA NÃO DEVE SER PASSAR
CONTEÚDOS, MAS PREPARAR TODOS PARA A VIDA
NUMA SOCIEDADE MODERNA
Competência é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos
(saberes, capacidades, informações etc) para solucionar com pertinência e
eficácia uma série de situações. Eis alguns exemplos de Competências:
• Saber orientar-se em uma cidade desconhecida. Uma vez que mobiliza
as capacidades de ler um mapa, localizar-se, pedir informações ou
conselhos e os saberes ligados à noção de escala, elementos da
topografia ou referências geográficas.
• Saber curar uma criança doente. Posto que são postas em prática
capacidades de observar sinais fisiológicos, medir a temperatura,
administrar um medicamento e os saberes ligados à identificação de
patologias e sintomas, primeiros socorros, terapias, os riscos, os
remédios, os serviços médicos e farmacêuticos.
• Saber votar de acordo com seus interesses. Nesse caso, mobilizamos as
capacidades de nos informar, de preencher a cédula e os saberes ligados
ao conhecimento de instituições políticas, processo de eleição,
candidatos, partidos, programas políticos, políticas democráticas etc.

Competências estão ligadas a contextos culturais, profissionais e condições


sociais. Vivemos situações diferentes. Nossas competências se adaptam a
nosso mundo pessoal. Algumas competências se desenvolvem em grande
parte na escola enquanto que outras fora dela.
Quando a escola se preocupa em formar competências, em geral dá
prioridade a recursos. A competência na educação deve ser entendida dentro
de um contexto que ultrapasse a utilização dos recursos. Percebemos na escola
uma preocupação maior com elementos de certas competências sem que haja

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de fato a intenção de colocá-las em sinergia nas situações complexas. Nos
primeiros anos escolares, aprendemos a ler, a escrever, a contar, mas também
a raciocinar, explicar, resumir, observar, comparar, desenhar e muitas outras
capacidades gerais. Assimilam-se conhecimentos disciplinares, como
matemática, história, ciências, geografia etc. Ocorre que a escola não tem a
preocupação de ligar esses recursos a certas situações da vida. Quando se
pergunta porque se ensina isso ou aquilo, a justificativa baseia-se nas
exigências da seqüência do curso : ensina-se a contar para resolver problemas,
aprende-se gramática para redigir um texto. Quando se faz referência à vida,
apresenta-se um lado muito global : aprende-se para se tornar um cidadão,
para se virar na vida, ter um bom trabalho, cuidar da sua saúde.
Toda a tendência atual de competências está ancorada em duas
constatações :
1. A transferência e a mobilização das capacidades e dos conhecimentos são
conquistadas. Isto requer treino e esforço. É um trabalho que exige tempo,
etapas didáticas e situações apropriadas.
2. A escola não trabalha suficientemente este dois aspectos. Não se dá tanta
importância a essa prática. O treinamento, então, é insuficiente. Os alunos
acumulam saberes, passam nos exames, mas não conseguem mobilizar o que
aprenderam em situações reais, no trabalho e fora dele (família, cidade, lazer
etc).
Isso não é dramático para quem faz estudos longos. É mais grave para
quem freqüenta a escola somente por alguns anos. Formulando-se mais
explicitamente os objetivos da formação em termos de competência, luta-se
abertamente contra a tentação da escola :
• de ensinar por ensinar, de marginalizar as referências às situações da
vida ;
• de não investir tempo treinando a mobilização dos saberes para
situações complexas.
A abordagem por competências é uma maneira de levar a sério, em outras
palavras, uma problemática antiga, qual seja, a de transferir conhecimentos.
Podemos, então, pensar em quais competências o aluno deveria ter
adquirido ao termo de sua escolarização. A resposta é simples pois esta é uma
escolha da sociedade, que deve ser baseada em um conhecimento amplo e
atualizado das práticas sociais. Elaborar um conjunto de competências não é
uma questão de se ter uma redação bem feita. No lugar de "ensinar o teorema
de Pitágoras", devemos esperar que o aluno "sirva-se do teorema de Pitágoras
para resolver problemas de geometria". A descrição de competências parte da

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análise de situações, da ação, e daí derivam-se conhecimentos. Há uma
tendência em ir rápido demais na elaboração de programas sem dedicar tempo
em observar as práticas sociais, identificando situações nas quais as pessoas
viverão de fato.
O que sabemos verdadeiramente das competências de que precisam, no
dia-a-dia, um desempregado, um portador de deficiência, uma mãe solteira,
um filho de pais hostis, um jovem da periferia ? Se o sistema educativo não
dedicar tempo à reconstrução da transposição didática, ele não questionará as
finalidades da escola e se contentará em verter antigos conteúdos dentro de um
novo recipiente. Na formação profissional, se estabelece uma análise de
situações de trabalho para, depois, haver uma elaboração ou um referencial de
competências, que fixa os objetivos da formação. Nada disso acontece na
formação geral. Por isso, sob a capa de competências, dá-se ênfase a
capacidades sem contexto. Resultado : conserva-se o essencial dos saberes
necessários aos estudos burocráticos que só reforçam um modelo submisso de
pouca produção, pouca aspiração e pouca criatividade.

Com base no texto que acabamos de ler e usando como referência a


realidade que você encontra em seu ambiente escolar, escolha uma
entre as opções abaixo e elabore para seus alunos situações de
aprendizagem que possibilitem o desenvolvimento das competências
abaixo descritas para apresentação em sala.

 Agir de forma autônoma e pró - ativamente (discutir e trabalhar


em grupo com bases positivas de relacionamento pessoal.)

 Localizar-se no tempo e no espaço

 Localizar, entender e interpretar informações escritas

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CLASSIFICAÇÃO DOS PRODUTOS DA
APRENDIZAGEM

Padrões adquiridos Consolidação Produto final

Conhecimentos Sistema de Valores Personalidade


IDEATIVO Significados Padrões de Caráter
(informações) Conceitos Referência Consciência
Preceitos moral

Destreza manual Capacidades Postura social


PSICOMOTOR Hábitos motores gerais
(hábitos) Expressões fisionômicas Atitudes Papel social
Habilidades verbais Ideais

Gostos Tendências de Auto imagem


AFETIVO e vida Auto conceito
(emoções) Aversões Preconceitos O “EU” (self)

A aprendizagem é um bloco único.


As atividades cognitivas, motoras e afetivas não existem
separadamente.

Cada atividade possui um NEXO IDEATIVO junto à


CAPACIDADE MOTORA e o INTERESSE envolvido nela.

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Características do Processo de Aprendizagem

 É inteligente, seletivo, lúcido, consciente, não-mecânico.

 É dinâmico e tem o aluno como principal agente.

 Exige intensa atividade física e mental.

 Exige prontidão, memória, atenção e inteligência.

 Apresenta diferenças individuais.

 Dependente do interesse.

FATORES DA APRENDIZAGEM

* A aprendizagem varia de acordo com alguns fatores.


Vamos comentar alguns deles para que tenhamos noção de sua
importância no processo de aprendizagem :

1o- Diferenças individuais.

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Cada aluno é peculiar. No entanto sugerimos dividi-los em 3
categorias:
*Bons alunos – Aprendem bem, estudam mas são dependentes dos
professores.
*Maus alunos – Não estudam, aprendem mal e são rebeldes.
*Alunos independentes – São autônomos, seguros, aprendem bem
mas tendem a ser rebeldes.

2o- Inteligência.
Não é sinônimo de boa escolaridade. A inteligência se expressa na
capacidade de aprender coisas novas (formal ou informalmente) e de
se adaptar a novas situações.

3o- Memória.
Capacidade de fixar o que se aprende. Aprender implica a
possibilidade de recordar.
Quando há o esquecimento quer dizer que a aprendizagem foi mal
feita.
É recomendável para uma boa retenção:
• Motivar o conteúdo.
• Associá-lo à realidade do aprendiz.
• Realçar os pontos importantes.
• Exercitar o conteúdo.
• Aproveitar o aluno descansado.

4o- Atenção
Condição básica de toda aprendizagem. Sem atenção não se
aprende. Despertar a atenção é motivar o aluno.

5o- Atitude mental.


A atitude psicológica está intimamente ligada à disposição afetiva.
Uma boa relação com o professor auxilia na atitude mental positiva
para uma aprendizagem satisfatória.

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TÉCNICAS DE ENSINO

O trabalho do professor baseia-se em técnicas de ensino. Para tanto é


importante que ele observe algumas regras didáticas.
São apenas alguns lembretes. Em Educação não devemos trabalhar
com a idéia de uma receita pronta sob o risco de mecanizar uma
relação tão rica como a pedagógica. O professor deve:
• Saber o que ensina
• Saber a quem ensina
• Adaptar o ensino
• Motivar o aluno
• Estimular o aluno a trabalhar

Quando estes pontos descritos acima são levados em consideração o


professor e o aluno constróem uma atmosfera propícia para uma boa aula

A AULA
Aula: Conjunto orgânico de determinado assunto que forma uma
unidade de trabalho.
Organização das atividades pedagógicas articuladas entre
professores e alunos.

DEVEMOS NOS LEMBRAR QUE A AULA É UM


GRANDE ENCONTRO E QUE, ALÉM DA
APRENDIZAGEM, ESTÁ EM JOGO A MÚTUA

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CONFIANÇA ENTRE AS PESSOAS. COM CLARA
DEFINIÇÃO DE PAPÉIS MAS SEM CONFLITOS
DESNECESSÁRIOS

AS AULAS DEVEM SER:

- Ativas (com participação dos alunos)


- Vivas (com exemplos claros e de acordo com a realidade dos alunos)
- Metódicas (o método costuma facilitar a aprendizagem)
- Progressiva (as dificuldades devem vir em ordem crescente)
- Ritmada (nem muito lenta [monótona] nem muito rápida [superficial]
- Variada (com utilização de recursos de ensino - sempre que possível-)
- Econômica (as etapas de aprendizagem devem ser respeitadas)

VERIFICAÇÃO DO ENSINO
A avaliação deve ser baseada em : Freqüência
Participação
Testes e/ou Provas

Quanto à freqüência e à participação recomenda-se ao


professor não utilizar critérios subjetivos para avaliar o aluno. É
difícil definir regras uma vez que o contato com a turma é algo que
só o professor possui. Sendo assim é bom lembrar que preferências
pessoais não auxiliam o professor para uma avaliação imparcial.
Quanto aos testes e às provas é bom estarmos atentos para
algumas qualidades de um bom instrumento de avaliação. São elas:

• Devem ser INTERESSANTES (prender a atenção do indivíduo)

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• Devem ser OBJETIVOS (com respostas objetivas)
• Devem ter INSTRUÇÕES INEQUÍVOCAS (evitar duplas
interpretações)
• Devem EXCLUIR O ACASO (sucesso e fracasso não podem ser
casuais)
• Devem SER GRADUADOS (começando com questões simples e
aos poucos ficando mais complexo)
• Devem SER AFERIDOS SOBRE UM GRANDE NÚMERO DE
SUJEITOS (o teste não deve contemplar só um tipo de aluno)
• Devem SER RÁPIDOS (não devem cansar o aluno)
• Devem SER INÉDITOS (evitar que os alunos conheçam as
questões antecipadamente)

CRÍTICAS AOS TESTES

Mais importante do que o resultado nos testes ou provas é a


observação do aluno no processo de aprendizagem.

A entrevista com o próprio aluno, pais, amigos, responsáveis


etc é muito útil para conhecê-lo além do teste em si.

O teste ou a prova é um bom acessório, instrumento de análise


e comparação mas não como fator determinante.

MOTIVAÇÃO DA APRENDIZAGEM
A motivação é melhor entendida se pensarmos que está
relacionada ao nosso comportamento. Existem 2 tipos de motivação:
 Primária (real) - Partem de impulsos que operam no
organismo (fome, sede, sono, frio etc)
 Secundária (fundamental) - Acusam um esforço para se
chegar ao objetivo.

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Estes dois tipos de Motivação se desenvolvem a partir de:
• Necessidades Psicológicas
• Necessidades Normativas

William Thomaz listou 4 grandes desejos que possuímos e que


sintetizam os motivos secundários (fundamentais ou normatios). São
eles:

 Desejo de Segurança - Motivação pela busca do sossego, da paz.


O objetivo é não temer nada. A segurança está no equilíbrio as
ações. Poderíamos resumir o desejo de segurança na nossa busca
pela satisfação de nossas necessidades físicas e biológicas.

 Desejo de Correspondência e Resposta - Motivação para o bom


relacionamento com os que nos cercam. É um movimento de busca
de ideais afins.

 Desejo de Reconhecimento - Motivação que leva a práticas de


ações que sejam aprovadas pela sociedade. Se o Homem sente esta
aprovação se ajusta melhor e evita cometer atos que serão
repudiados pelos seus pares.

 Desejo de Novas Experiências - Motivação que leva à procura de


novidades que dinamizem a rotina do dia a dia. Vontade de ir contra
a monotonia sem agredir, contudo, as normas instituídas.

No âmbito da escola a boa motivação começa quando


despertamos a curiosidade, a criatividade e a capacidade analítica do
aluno.

NÃO DEVEMOS SUPERESTIMAR OU IDEALIZAR O ALUNO !

Possibilitar ao aluno a integração de suas idéias é um passo


importantíssimo para motivá-lo.

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As técnicas de ensino estão associadas à motivação da aprendizagem
e trabalham 3 capacidades do educando:

 Visão Global (Síncrese)


Capacidade de organizar as informações recebidas e
dispô-las de forma pessoal.
 Análise
Capacidade de interpretar, associar idéias e questionar o
que aprende.
 Conclusão
Definir pessoalmente o que aprendeu

As técnicas de ensino têm a preocupação com os processos de


MOTIVAÇÃO da aprendizagem e estão baseadas na interação
professor-aluno.
Podemos entender a Motivação a partir de 2 enfoques que nos
ajudam a ter uma noção mais clara de seu universo:

 Atitude favorável para a realização de tarefas


 Atitude mental interna e individual que visa a facilitação do
comportamento.

Para se estabelecer uma boa tática de motivação é interessante


observar alguns aspectos como os seguintes:
/ Desenvolvimento da criança.
/ Planejar o conteúdo em função do tópico anterior.
/ Avaliar a metodologia utilizada em função da resposta dos alunos.
/ Avaliar a aprendizagem com meio de instrumentos fiéis ao
conteúdo trabalhado em sala.

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É muito difícil relacionar as necessidades e promover sempre
uma motivação eficiente. Não parece que existem meios totalmente
eficazes para relacionar e trabalhar nossos impulsos motivadores.
Na escola isso é particularmente delicado pois constantemente
os professores apelam para a motivação de cima pra baixo e ignoram
as vontades e iniciativas do aluno.
Por outro lado, em nome da modernidade e sem fundamentos
teóricos para tanto, permitem aos alunos uma conduta de excessiva
liberdade que nada mais é do que a ausência de uma metodologia
adequada ao ensino de qualidade.
Como elemento provocador da motivação podemos citar a arte
de estimular o aluno a ir em direção a um caminho que o estimule.
Neste caso podemos falar da boa formulação de perguntas. Estas,
quando bem feitas, são imprescindíveis para que a aprendizagem
chegue a um bom termo.

PERGUNTAS

Uma boa pergunta –


Promove o pensamento reflexivo
Desenvolve um processo mental.

Existem vários tipos de pergunta:

 Perguntas de baixa categoria


 Pouco poder estimulador
 Estimula respostas repetitivas
 Pressupõe uma resposta de antemão

 Perguntas de alta categoria


 Pede organização de idéias

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 Relaciona idéias, fatos, conceitos...
 Supõe elaboração mental
 Abrange o conhecido e encoraja ir além dele
As perguntas visam o desenvolvimento de vários processos mentais
que estão ligados à definição dos objetivos da aprendizagem.

São eles :

MEMÓRIA, CONHECIMENTO, APLICAÇÃO, ANÁLISE,


SÍNTESE E AVALIAÇÃO.

A pergunta também funciona como um instrumento facilitador da


aprendizagem.
 Perguntas estimuladoras
 Desenvolvidas a partir das respostas dos alunos
Método Socrático –
 O professor pergunta
 O aluno responde parcialmente
 O professor retoma com uma nova pergunta
 O aluno responde mais aproximado ...
 Perguntas reforçadoras
 Integra o que já foi aprendido. É de grande valia após um
episódio de aprendizagem.
 Estimula a demonstração/explicação do que acabou de
ser ensinado.
 Perguntas desencadeadoras
 Provocam decisões
 Envolvem situações problemáticas
 Perguntas divergentes
 Permitem e favorecem abordagens variadas sobre o tema
 Estimulam elaboração mental superior
Para que as perguntas sejam úteis o bastante para o professor é
fundamental que ela seja clara, inequívoca e com vocabulário

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adequado ao aluno Devemos observar se as perguntas possuem
relevância, adequação e abertura

♦ A relevância da pergunta  É pertinente ao assunto


 Integra o aluno à atividade
 Permite ampliar conteúdo

♦ A adequação da pergunta  Sabe quem é o aluno


 É feita de acordo com os
momentos da aprendizagem

♦ A abertura da pergunta  Permite a pergunta do aluno


 Reforça esse comportamento

PROPOSTAS DE MÉTODOS
DE APRENDIZAGEM

O que veremos a seguir não é uma fórmula para a boa


aprendizagem mas uma explanação de métodos que podem ser úteis
nos momentos de aprendizagem e de estudo.

Alguns métodos são bem parecidos, outros são conflitantes,


outros suscitam discussões. O mais importante, entretanto, é a
preocupação de se lançar vistas às estratégias de ensino.
Nérici, I, nos aponta alguns métodos e seus opostos:

1) PRÁTICA MACIÇA x PRÁTICA DISTRIBUÍDA

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Tem a preocupação em ‘dosar’ as informações pois isso facilita
o registro permanente de informações.
Aparentemente nosso cérebro precisa de um tempo após cada
evento significativo de aprendizagem. Receber informações de forma
rápida não permite uma boa consolidação de informações.
Por isso é bom descansar entre momentos muito intensos de
aprendizagem.

2) GLOBAL x POR PARTES

Por vezes a aprendizagem por partes é um bom recurso para a


pois permite um encadeamento de idéias que facilita a assimilação do
conteúdo.
Caso haja um evento de aprendizagem mais rápido não é
necessária a segmentação do conteúdo. Neste caso é melhor a
estratégia da aprendizagem global.

3) MECÂNICA x POR REGRAS

A aprendizagem mecânica requer a repetição do conteúdo até


sua completa assimilação.
A regra ressalta, antes, a descoberta de algum padrão,
significado ou lógica. Uma não exclui a outra.
A memorização combina-se com as regras e facilita a sua
aprendizagem.
Um bom exemplo de integração entre as 2 formas de
aprendizagem é a aprendizagem mnemônica que apela para a
memória ou lembrança utilizando um ato pessoal de codificação de
informações.
Sistema de aprendizagem por categorização.

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4) LEITURA SILENCIOSA x LEITURA EM VOZ ALTA

Intimamente ligada ás preferências pessoais, o importante neste


ponto é a possibilidade de fixação do conteúdo por parte do sujeito.
Importante lembrar que não é bom impor ao estudante a forma
ideal do bom estudo. Ele sabe a sua forma.

5) APRENDIZAGEM POR FEEDBACK

Muito usada com instrução programada. Está ligada à avaliação


permanente da aprendizagem. Desta forma podemos perceber os
problemas surgidos durante o processo. Torna a aprendizagem mais
interessante e dificulta o avanço do conteúdo sem que a etapa
anterior esteja bem dominada.

FORMAS DE APRENDIZAGEM
Podemos dividir em 3 as formas de aprendizagem:

1- Condicionamento.
Divide-se em Clássico e Operante.

Clássico  Associação entre 1 estímulo e 1 resposta.


Exemplo: campainha antes da comida.
Operante  Há uma recompensa quando a resposta é desejada ou um
castigo que faça a resposta sumir.

2- Ensaio e erro.
Ocorre por meio de tentativas até que seja atingido o objetivo
desejado. A tendência é que os erros diminuam com o tempo e a
prática.

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Esta aprendizagem envolve 6 elementos básicos:
- necessidade ou motivo  determinados por motivos primários
que tenham uma certa relação instintiva: fome, sede, fome, recuo
ante ‘S’ dolorosos, frio etc; ou determina- dos por motivos
secundários que têm caráter social: desejo de prestígio, afeição, auto
valorização etc.
- problema  elemento básico em todas as formas de aprendizagem
sistemática. Supõe uma barreira que precisa ser vencida. A partir daí
o sujeito precisa desenvolver novas habilidades, técnicas e assimilar
novas informações.
- ataque aleatório ou variado  perante uma situação nova é
comum não haver padrão anterior para enfrentá-la. Sendo assim
costumamos apelar para tentativas experimentais sem uma base
sólida para a solução. Existe discernimento e reflexão de
experiências anteriores mas nem sempre isso é possível.
- sucesso acidental  o alcance do objetivo pode ser casual. O
ponto anterior é um indicador de que isso é possível. A aprendizagem
só será considerada atingida se o objetivo for atingido com método e
pode ser repetido.
- seleção e eliminação  selecionam-se ou eliminam-se as
respostas de acordo com a necessidade da situação.
- integração e coordenação  não está presente em todas as
aprendizagens deste tipo. São necessários quando aprendem-se
movimentos rápidos e precisos (instrumento musical, digitação...)
que, por sua natureza, solicitam integração e coordenação entre eles.

3- Insight (por discernimento)  aprendizagem que ocorre


repentinamente. Não há uma estratégia para que ela venha a ocorrer.
Varia de pessoa para pessoa. Pode-se dizer que é uma compreensão
súbita de uma determina- da situação. Insight pode ser entendida
como visão interior.

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Entretanto a aprendizagem pode ser reparada em vários outros
aspectos tais como a aprendizagem incidental ou a aprendizagem por
imitação. Não são sistemáticas mas apresentam elementos que
merecem ser investigados.

4- Aprendizagem incidental : Ocorre sem que haja um esforço


consciente para tal. Aprendemos o valor do afeto materno de maneira
incidental no momento da amamentação.
Outras formas podem ser vistas na utilização de pontos de
referência para indicar um caminho etc.

5- Aprendizagem por imitação : Não é apenas a repetição do que os


outros fazem. É um meio facilitador da aprendizagem. Não é cega,
mas seletiva. Imita-se o outro com a intenção de que algum objetivo
seja alcançado (falar igual ao ídolo, querer ter a mesma profissão do
pai...).

Existe também a transferência da aprendizagem : Fenômeno que


ocorre quando, ao aprender alguma coisa nova, o sujeito solicita
elementos de aprendizados anteriores de um modo novo. Nem
sempre a transferência é positiva. Se o aprendizado anterior dificulta
o posterior ela será negativa.

FASES DA APRENDIZAGEM

A aprendizagem é um fenômeno de reconstrução do sujeito.


Aprender é reorganizar estruturas mentais. Este dinamismo
característico do ser humano nos leva a pensar sobre a disposição
para o aprender.
Podemos pensar sobre as 4 fases da aprendizagem segundo
BARRON:

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 Ignorância  O sujeito aceita que não sabe e que existe algo que
ele não conhece.
 Estar a par do novo  O sujeito toma contato com o novo. É o

elemento de ligação com a próxima fase.


 Conhecimento  É o momento em que o sujeito sai da zona de

conforto e avança no desconhecido. Nesta fase ocorre a confusão. A


confusão é o sinal de que um novo conhecimento começa a se
estruturar. Algumas pessoas, por medo da confusão interrompem o
processo de aprendizagem. Isto acontece porque não têm noção de
que ela é fundamental para se chegar à última fase.
 Sabedoria  É a fase do domínio do conteúdo. O conhecimento

está bem assimilado pelo sujeito.


Para a aprendizagem acontecer sem muita dificuldade sugere-se ao
professor observar 3 pontos para sua facilitação :
 Criar impacto – fazer com que a atenção se volte para o evento.

 Facilitar a prática, o exercício – domina-se o conteúdo com a

repetição (racional, dirigida e gradual) do conteúdo.


 Demonstrar utilização – relacionar a aprendizagem com algo que

faça parte do seu cotidiano.

APRENDIZAGEM CRIATIVA

Para falarmos sobre a aprendizagem criativa é bom que haja uma


rápida noção sobre o que vem a ser CRIATIVIDADE.
A característica principal da Criatividade é a NOVIDADE.
Uma idéia, um objeto, um comportamento ou qualquer coisa é
criativa na medida em que há novidade.
Podemos dizer que o ATO CRIADOR é um remanejamento de um
conhecimento já existente.

ATO CRIADOR  Exploratório


Arriscado

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Incerto

O ato convencional Não criador


Cauteloso
Metódico

A criatividade, didaticamente, pode ser explicada em 4 fases:

1- 1a apreensão ( surgimento da idéia ou problema).


2- Preparação (trabalho consciente). Coletar informações e organizar
as informações.
3- Incubação (trabalho inconsciente). Impressão de que esquecemos
o ato de criar. O inconsciente faz associações, organiza idéias. Não
há garantia de que a criação vai acontecer. A demora pode gerar
desânimo.
4- Iluminação (momento culminante do processo criativo). Quando
surge a solução do problema. Costuma aparecer subitamente. Não há
momento certo para acontecer.
5- Verificação (momento final). Tentativa de se dar forma final à
idéia criativa.
A criatividade é prejudicada se existe excesso de disciplina e pouca
tolerância aos comportamentos diferentes.

A criatividade não é garantia de bom desempenho acadêmico. Quem


é mais criativo tende a ser menos estudioso
menos ordeiro
mais interessado em suas próprias idéias
mais isolado
mais crítico
mais desobediente.

A escola pode ser um local onde as pessoas se sintam estimuladas a


ser mais criativas. Para tanto, deve valorizar certos aspectos que são
caminhos para a criatividade como, por exemplo:

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Originalidade  Estimular o sujeito a ter e a manifestar idéias
originais. Por exemplo, torneio de idéias.
Inventividade  Um passo além da originalidade, a inventividade se
refere à fluência e à quantidade de idéias. A noção da própria
capacidade inventora desenvolve a auto confiança.
Curiosidade e Pesquisa  A curiosidade é a base da pesquisa. Todo
aquele que argumenta e defende um ponto de vista desenvolve sua
capacidade de investigação. Isso estimula a criatividade.
Auto Direção  Caracterizada pela livre escolha e iniciativa. É bem
interessante notar que um mesmo assunto tem abordagens variadas
de pessoa para pessoa. Aprender é um mecanismo pessoal.
Percepção Sensorial  Capacidade de sentir e perceber. Quanto mais
somos estimulados (leitura, interpretação...) mais chance temos de
desenvolver a criatividade.

A criatividade é um elemento fundamental da construção de nossa


inteligência. Pode, inclusive, ser um sinal de superdotação.

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PAULO FREIRE

EDUCAÇÃO  Situação gnoseológica em que os sujeitos incidem


seu ato cognoscente sobre o objeto cognoscível que os mediatiza.

Educador e educando devem estar no mesmo nível de


igualdade.

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O modelo Paulo Freire supera a posição tradicional do sujeito
sobre o objeto. Esta postura implica numa concepção diferente dos
seres humanos e do mundo. Parte do princípio de que todo ser
humano é inacabado e que ninguém é plenamente educado. Apenas
estamos em diferentes fases de maturação.
O ato de educar deve ser entendido em conjunto pois estamos
situados num espaço físico determinado, numa sociedade concreta e
num tempo preciso.
Sofremos os condicionamentos da situação a ponto de nos
modificarmos se a situação se modifica.
É preciso que o povo tome distância da realidade em que vive,
objetive-a e coloque-a a sua reflexão para perceber os
condicionamentos que ela criou e que a envolvem.

ISSO É UMA POSSIBILIDADE ONTOLÓGICA DO HOMEM.

Sem esta possibilidade o Homem permanece manipulado pelos


condicionamentos da situação. Não capta a verdadeira causalidade
dos fatos e, sem desenvolver o espírito crítico, sua ação poderá ser
fanática.
Para Paulo Freire a educação deve ajudar o Homem a perceber
a realidade como algo que está sendo. Como fruto da ação dos
Homens e a realidade só pode ser modificada por meio desta ação.
Todo Homem deve se perceber como ser histórico e que
modifica a realidade. Por isso ele afirma que CONHECER É
APLICAR A CONSCIÊNCIA. É ENTRAR EM RELAÇÃO COM
O MUNDO.
O Homem vai conhecer ao se confrontar com o mundo.

Inicialmente Paulo Freire acreditava que conscientizar era


desvelar a realidade pois assim o povo poderia relacionar a opressão
com a estrutura do poder. Posteriormente passou a encarar a
educação como conscientização para entrar em confronto com a

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realidade, procurar a causalidade profunda dos fatos e, finalmente,
transformar.

"TODA EDUCAÇÃO É POLÍTICA POIS ATUA NAS


ESTRUTURAS SOCIAIS. SE ALGUMA EDUCAÇÃO SE DIZ
NEUTRA É PORQUE PERPETUA UM ESTADO DE COISAS"

Paulo Freire afirmava que a educação como conscientização é


práxis social de libertação de todos os Homens da opressão.
O Homem atua no mundo e graças a essa atuação se
transforma junto com ele porque desenvolve suas potencialidades. A
educação é um processo que não termina.
É um exercício permanente de libertação.

Paulo Freire diz que existem duas condições básicas para o


desenvolvimento:
 O ponto de decisão deve estar no próprio país gerando o
movimento de busca que visa o progresso da sociedade em questão e
 Este movimento deve ser feito no tempo da sociedade que
se desenvolve.

Estes pontos servem como reflexão de que desenvolvimento é


diferente de modernização.
Desenvolvimento é interno e Modernização vem de fora.
Desenvolvimento é esclarecedor e Modernização tem a voz do
opressor.

Paulo Freire sustenta que educação é um processo humano


organizada politicamente para perpetuar os valores da sociedade.
Se a estrutura de sociedade dependente se mantiver é difícil
que a educação mude.
Para que haja, de fato, uma mudança é preciso:
1. Desvelar a sociedade dependente
2. Livrar-se dos mitos culturais da matriz
3. Compreender as verdadeiras causas da dependência

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4. Buscar brechas que a realidade apresenta para a sua
transformação
5. Procurar soluções no modo de ser nacional

Só é possível transformação no sentido do desenvolvimento se


houver engajamento do oprimido. Só ele pode se libertar pois
ninguém melhor do que ele entende o significado terrível da
opressão e da necessidade de ser livre.

O MÉTODO PAULO FREIRE


O método Paulo Freire é dialógico e eclético.

O diálogo, para ele, é um encontro horizontal onde todos se


disponham a se comunicar sem que um se sinta superior ao
outro.
O diálogo só existe a partir de uma linguagem comum.

Não há ninguém com um saber absoluto nem ninguém


absolutamente ignorante. O diálogo é um encontro humilde.

Existem diferentes graus de conhecimento da realidade. O


importante é que todos contribuam para o esclarecimento da
situação. Para tanto é fundamental que a visão de mundo do povo
seja respeitada para que se encontrem, explícita ou implicitamente,
anseios, temores, dúvidas, esperanças, percepção do poder, crenças,
rebeldia e apatia.
O diálogo é síntese. É integração entre os pensares: ingênuos e
críticos. A visão do mundo deve ser problematizada para que todos
possam refletir sobre ela e chegar à sua autêntica causalidade.
O diálogo é a possibilidade de se atingir a práxis verdadeira
tanto do educador quanto do educando. Não é um movimento
simples. É preciso paciência para o amadurecimento em conjunto.
Seria ótimo se elite e povo comungassem e sintetizassem
pensamento ação na construção de uma história brasileira autêntica.

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É preciso coragem nos que se propõem a fazer do diálogo o
método de educação popular pois que ser povo emerso é correr
riscos tanto por parte da classe dominante - interessada na
continuação do "estar sendo" quanto da classe popular que,
hospedando o opressor percebe a realidade tal como o
dominador a vê.
Esse pensamento é a base da mudança uma vez que para o
oprimido ser Homem é ser como o opressor.

O diálogo cumpre sua finalidade se surgir do pensar crítico.


Não é identificação de funções pois cada um tem a sua atribuição.
O diálogo como método educativo não é centrado no aluno
mas uma síntese entre educador e educando. Isto é inserção na
realidade.
Ler, escrever e contar são instrumentos que permitem uma
inserção crítica e uma conscientização por parte de quem as domina.
Como se prepara o material para se educar o povo ?
 Primeiro é preciso captar a linguagem do povo. O diálogo só é
possível com essa linguagem comum.

 Depois é preciso captar o nível de percepção da realidade, a visão


de mundo e o universo vocabular do grupo.

 A partir daí deve se construir a codificação, ou seja, a


representação da situação existencial que facilita a objetivação da
realidade e permite que o diálogo seja uma tomada de consciência
que facilita a emersão.

Paulo Freire nos diz que isso se dá pela observação, contato


com povo, conversas, anotações de seus falares típicos.
Agora parte-se para a discussão em grupo.
A alfabetização como símbolo da libertação é acompanhada da
conscientização com as palavras que pertencem ao mundo daquelas
pessoas. Não se trabalha com palavras impostas.

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Assim os educadores-educandos se realizam como seres da
práxis, estando de tal modo o método disposto com a finalidade que
é impossível que haja conscientização sem o método dialógico. Isto
é, sem busca de síntese da reflexão e da ação dos sujeitos que
dialogam.

Marcelo Saldanha da Gama


Prática de Ensino – UCAM – 2007
IAVM – Instituto A Vez do Mestre

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