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Distritão:

novo modelo
democrático?
Distritão:
novo modelo
democrático?
Paper para discussão – Junho de 2021
Centro de Estudos e Pesquisas da QCP –
Quanta Consultoria, Projetos e Editora Ltda.

Coordenação-Geral
Sinoel Batista

Coordenação Executiva
Tamara Ilinsky Crantschaninov

Equipe de Pesquisa e Redação


Arthur Thury Vieira Fisch
Brauner Geraldo Cruz Junior
Caio Momesso
Luiz Henrique Apollo da Silva
Marília Migliorini
Tamara Ilinsky Crantschaninov
Sinoel Batista

Capa e Diagramação
João Inacio dos Santos Neto

www.qcp.com.br
qcp@qcp.com.br
Sumário executivo
Este documento apresenta uma discussão teórica, histórica e analítica
sobre o tema do distritão, que tem estado em pauta com as
discussões mais recentes sobre reforma política.

O distritão é um modelo que busca alterar a maneira como são


eleitos os cargos proporcionais no Brasil, ou seja, para o Legislativo,
em todas as esferas – federal, estadual e municipal. No modelo atual,
o quociente eleitoral é o que determina a quantidade de vagas que
cada partido obtém em uma eleição, sendo representado pelo total
de votos dividido pelo número de vagas disponíveis.

Se o total de votos recebidos pelas candidaturas do Partido A for


50.000, por exemplo, e o quociente eleitoral daquela eleição for de
10.000, isso significa que o Partido A terá direito a ocupar 5 vagas
no parlamento em disputa (Câmara Municipal, Assembleia Legislativa
ou Câmara dos Deputados). Ocuparão as vagas, pela ordem, as cinco
candidaturas mais votadas dentre as que disputaram a eleição pela
legenda.

Há situações em que uma candidatura ultrapassa o número do


quociente eleitoral para uma eleição em particular. Essas candidaturas
caracterizam-se como os/as famosos(as) “puxadores(as) de votos",
pois a sua votação consegue “eleger” mais de uma candidatura.

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O modelo do distritão propõe que o voto que exceda ao quociente
eleitoral não possa ser utilizado para auxiliar a eleger candidaturas do
mesmo partido, como acontece no modelo atual. As pessoas mais
votadas seriam as eleitas, sem o cálculo e a utilização do quociente
eleitoral e sem consideração à filiação partidária. As “sobras
eleitorais” não mais seriam contabilizadas para a eleição de outras
candidaturas e passariam a ser desprezadas no cômputo geral.

Se, por um lado, esse modelo parece mais simples e vantajoso, ele
acaba por focar em programas eleitorais individuais, e não mais num
programa partidário e numa linha ideológica em comum com os/as
colegas de sigla. Isso faz com que sejam eleitas as pessoas mais
conhecidas pelo público em geral, as que têm mais recursos para
investir na campanha e não, necessariamente, as mais preparadas para
desempenhar essa importante tarefa de representação.

O modelo de distritão, em inglês conhecido como Single


Non-Transferable Vote (SNTV), ou seja, Sistema Eleitoral de Votos
Únicos Não Transferíveis (VUNT), só é utilizado, atualmente, em 2%
dos países que integram o Sistema ONU e em países de baixa
relevância na economia e na política internacionais, tais como Taiwan
e Vanuatu. Dois exemplos de países que adotaram o modelo: Japão,
como forma de manter o poder concentrado em candidaturas que
não iriam prejudicar a monarquia, mas que acabou sofrendo com a
insatisfação popular pelo enorme “desperdício de votos”, e
Afeganistão, que adotou o sistema por ser de mais simples
compreensão à população, mas que criou grande dificuldades de
formação de coalizões e alianças entre os partidos e candidaturas.

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No Brasil, a proposta do distritão aparece de tempos em tempos,
desde o Império. Mais recentemente, surgiu com força nas
manifestações de insatisfação política de 2013, que se desdobram
em debates no Congresso sobre a reforma política. Atualmente, um
dos principais articuladores da matéria é o deputado Giovani Cherini
(PL-RS), que alega que a dificuldade de compreensão do voto pelo(a)
eleitor(a) é o que causa o absenteísmo político. Michel Temer,
ex-Presidente da República, também é um defensor: alega que os(as)
puxadores(as) de votos são um transtorno à democracia e que o alto
custo de campanhas poderia ser barateado com a menor dispersão
de recursos entre as diversas candidaturas de um partido.

Diversos(as) especialistas em eleições e sistema eleitoral já escreveram


sobre o tema. Entre os pontos contrários ao distritão, o primeiro é a
quantidade de votos desperdiçada, já que são vencedores(as)
aqueles(as) que contabilizam as primeiras vagas, sendo que os demais
votos não são “considerados”.

Em relação ao custo de campanha, Nicolau (2017) afirma que o


sistema atual já concentra recursos entre as candidaturas mais
votadas. Lôbo (2017) também afirma que uma eleição estritamente
majoritária poderia aumentar os custos de campanha.

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Já os(as) polêmicos(as) “puxadores(as) de votos” não desapareceriam
em um sistema como o distritão, já que partidos provavelmente
apostariam mais em figuras carismáticas ou personalísticas, mesmo
sem vocação ao Legislativo.

O modelo proposto poderia levar a uma dificuldade de acesso ao


Legislativo de novas candidaturas e, principalmente, das que
representam minorias políticas. O modelo atual, por mais que seja
falho, permite algum grau de correção da concentração de poder,
tornando possível a alternância de forças e o contraditório nos
debates do Congresso. A proposta do distritão pode significar, na
prática, uma porta fechada para uma multiplicidade de candidatos(as)
que não possuem recursos para campanhas amplas, excluindo grupos
historicamente desfavorecidos como mulheres, negros(as), indígenas
e trabalhadores(as) de classe baixa.

De acordo com as simulações realizadas para este estudo, 64


cadeiras eleitas, em 2018, no Congresso Nacional, seriam alteradas
(cerca de 12%). Acre, Santa Catarina e Sergipe são os estados que
sofreriam mais alterações: 25% de suas cadeiras.

Caso o distritão fosse aprovado, os partidos que mais “ganhariam”


deputados(as) federais, em ordem de saldos positivos, seriam: PSDB
(+10), DEM (+6), REPUBLICANOS (+4), PROGRESSISTAS (+3), PSD
(+3), SOLIDARIEDADE (+3), PR – atualmente Partido Liberal (+3) –,

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CIDADANIA (+2), PT (+2), MDB (+1) e PTB (+1). Por outro lado, o
partido que mais perderia com a mudança do sistema eleitoral para o
distritão seria o PSL (–10), que aglomerou diversas figuras pelo país
para fixar o então candidato Bolsonaro à sua imagem. Mesmo não
sendo mais deputado federal, Bolsonaro conseguiu ser um “puxador
de votos” indireto para os/as que se filiaram ao PSL conjuntamente.
Um aspecto relevante desse possível cenário é a presença marcante
do conhecido “Centrão”, caso o distritão fosse aprovado.

Com relação à diferença de representatividade feminina na Câmara


federal, caso fosse adotado o distritão, teríamos a saída de doze e a
entrada de somente oito mulheres, ou seja, uma baixa de quatro
mulheres, no total. Além do mais, na atualidade, ficaria de fora a
única representante indígena no parlamento, a deputada federal por
Roraima, Joênia Wapichana, do Partido REDE.

Com mais de 50% de participação na composição da sociedade


brasileira, o Congresso ficaria menos representado do que já o é na
atualidade, quando tomado o ponto da representatividade racial.
Adotado o distritão, entrariam mais brancos(as), sobretudo homens
(53, no total), e teríamos menos pardos(as), com uma diferença de
seis parlamentares, e autodeclarados(as) pretos(as), com uma
diminuição de 3 deputados homens.

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Somando-se as duas constatações anteriores, adotado o distritão, a
Câmara dos Deputados, na contramão dos movimentos sociais, se
tornaria bem “mais branca” e mais “masculina” do que é na
atualidade.

Por fim, os dados da categoria “Experiência Política” corroboram o


argumento de que a adoção do distritão favorece figuras de carreiras
consolidadas, de faixa etária avançada e dentro do perfil que sempre
dominou a cena política nacional.
Na tentativa de antecipar impactos da adoção desse modelo que
escapem à teoria, olhar para fora pode ser esclarecedor. O simples
fato de apenas 2% das democracias adotarem o Sistema Eleitoral do
Votos Únicos Não Transferíveis em seus pleitos, como vimos
anteriormente, já é sintomático das suas limitações e de seu potencial
para distorções.

Certos anseios com a representação política na sociedade brasileira


não serão sanados com a adoção de um ou outro modelo eleitoral,
o que não significa que nada deve ser mudado ou que efeito positivo
algum surgiria de uma alteração nas regras do jogo eleitoral vigente.
O caminho é fazer com que as ideias e inovações passem por um
processo amplo de discussão na sociedade civil e estejam baseadas
em evidências suficientes de melhora na representação popular e na
diminuição das distorções advindas dessa relação.

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Sumário
Primeiro, não custa perguntar: Você sabe o que é isso? ................................................ 11

Afinal, de onde vem a ideia de um Distritão? ......................................................................... 16

Onde esse modelo é aplicado? ............................................................................................................ 19

O Distritão japonês ......................................................................................................................................... 21

O Distritão afegão ............................................................................................................................................ 26

E como o Distritão seria adptado ao contexto brasileiro? ou “será que já não


vimos esse filme antes”? .............................................................................................................................. 31

O que nos dizem as teorias jurídicas e políticas sobre o debate? ........................ 34

Quais os possíveis impactos da adoção do modelo no Brasil? .............................. 44

Como seria com o Distritão? .................................................................................................................. 48

Mas como os partidos poderiam se posicionar? Como ainda podemos


melhoras a representação do nosso sistema eleitoral? .................................................... 59

Referência bibliográficas ............................................................................................................................. 67

Anexo 1 .................................................................................................................................................................... 70

Anexo 2 .................................................................................................................................................................... 74

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“O que é o voto distritão em discussão na reforma política?”, “Entenda o
que é o distritão”, “Entenda o que é o modelo distritão” são algumas
das frases que nos acostumamos a ler em reportagens de diferentes momentos
do período recente. Em 2017 e em 2021, por exemplo, encontramos explica-
ções sintetizadas do que é esse modelo de cálculo para o ingresso nas cadeiras
do Legislativo, acompanhadas de informações atualizadas da tentativa mais
recente de fazer tal modelo emplacar. Como se trata de proposta de alteração
constitucional, na medida em que não é aprovada, o debate se esvai para dar
as caras em outro momento, fazendo a agenda política efervescer novamente,
provocando manifestações junto à opinião pública a respeito das justificativas,
dos ganhos e perdas da proposta.

Este documento visa a contribuir para essa discussão, mas evitando ser mais
uma das reportagens que surgem para lembrar que, por exemplo, a palavra
“distritão” é um tanto enganosa quanto à proposta que o modelo evoca. Sem
oposições a esses conteúdos mais breves; eles são essenciais! Aqui, contudo,
buscaremos algo de maior fôlego: dar um breve histórico de como a ideia
ganhou corpo e foi materializada em projeto de Emenda Constitucional, quais
são as experiências internacionais parecidas, o que podemos aprender com
elas, além de ver o que a teoria e a prática dizem sobre os possíveis efeitos do
distritão. Para complementar, traremos alguns cálculos que realizamos, que
talvez ajudem a ilustrar o cenário que estamos abordando. Enfim, vamos lá!

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Primeiro, não custa perguntar:
você sabe o que é isso?
O distritão é um modelo que busca alterar a maneira como são realizadas as
eleições para a Câmara dos Deputados e para as assembleias legislativas, nos
âmbitos nacional e estadual, respectivamente, além das câmaras municipais,
em que se elegem os vereadores. Já iremos entender que alteração é essa, mas,
antes, vamos descrever o panorama atual.

Temos dois modelos de eleição: a primeira é a que chamamos de majoritária,


na qual a candidatura que recebe maior número de votos na eleição fica com
a cadeira em disputa. É um modelo mais intuitivo e, atualmente, é utilizado
para escolhermos as representações do Poder Executivo, como prefeituras,
governos estaduais e a Presidência da República, e representantes do Senado
Federal. No caso do Executivo, há a possibilidade de disputa em segundo
turno, caso o nome mais votado no primeiro não atinja 50% + 1 (um) dos
votos válidos, desde que isso ocorra em cidades com mais de 200 mil
habitantes (além, é claro, dos estados e da Presidência da República). Quanto
ao Senado, a votação é em turno único, onde se renovam 2/3 e 1/3 das vagas
a cada eleição.

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Já o segundo modelo de eleição é aquele que leva em conta o que chamamos
de critério de proporcionalidade. Não à toa, esse modelo é conhecido como
eleição proporcional. Ele é válido para a escolha de deputadas e deputados,
tanto federais quanto estaduais, e vereadoras e vereadores. A ideia aqui é,
basicamente, tratar uma candidatura individual como sendo parte de um grupo
de candidaturas, com ideias e propostas parecidas. É fazer com que o voto de
uma pessoa ajude a eleger o nome que foi escolhido por ela para ocupar a
vaga, mas também auxiliar o grupo ao qual esse mesmo nome faz parte. Isso
assegura maior importância aos programas dos partidos e coligações e garante
que, se a pessoa escolhida por você não tiver o número de votos necessário
para entrar, ainda assim seu voto seja útil para outra ou outro aspirante do
mesmo programa político.

Na eleição proporcional, o total de votos para os cargos legislativos é somado


e dividido pelo número de cadeiras a serem ocupadas. Esse resultado é o
famoso quociente eleitoral, que serve para os partidos verificarem quantas de
suas candidaturas os representarão nas câmaras municipais, nas assembleias
legislativas ou na Câmara dos Deputados.

Por exemplo, se o total de votos recebidos pelas candidaturas do “Partido A”


for 50.000 e o quociente eleitoral daquela eleição for de 10.000, isso
significa que esse partido terá direito a ocupar cinco vagas no parlamento em
questão, e as 5 candidaturas mais votadas ocuparão essas vagas na Câmara,
Assembleia ou Câmara dos Deputados. E o mais importante: isso acontece

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independentemente se as cinco candidaturas tiveram, individualmente, mais
ou menos de 10.000 votos, pois os votos daquelas e daqueles que não
entraram, ou até os votos excedentes dos ingressantes, são computados para
auxiliar o partido a ter mais representantes.

Ressalte-se que esse mecanismo de contabilização de votos, num processo


eleitoral, é também denominado “sistema proporcional de lista aberta”, que
significa que é o(a) eleitor(a) que, ao votar, monta a ordem de ingresso dos(as)
concorrentes de um determinado partido, ao contrário do modelo em
funcionamento em vários outros países do Sistema ONU, que é denominado
“sistema proporcional de lista fechada”, no qual se vota na lista do partido, que
é responsável por definir previamente a ordem de ingresso das suas
candidaturas para ocupar as vagas alcançadas pela soma dos votos alcançados.

Esses modelos e, em particular, o vigente no Brasil são modelos que podem


parecer difíceis de entender, mas que garantem uma representação mais
alinhada aos anseios da população de acordo com os programas dos partidos,
e não somente o que pensa o(a) candidato(a) com mais recursos e chance de
obter mais votos. Todas as candidaturas são importantes, uma vez que cada
voto ajuda a compor a proporcionalidade eleitoral. Em suma, é um modelo
que amplia o sentimento de pertencimento à legenda. Além do mais, permite
maior renovação dos quadros políticos, já que novas candidaturas podem se
aproveitar da votação obtida por outras mais consolidadas dentro de seus
partidos políticos.

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O distritão surge para tentar tornar mais fácil esse cálculo, além de também
permitir candidaturas mais independentes e, com isso, acabar por diminuir a
relevância dos partidos. Há, entretanto, uma pergunta incômoda que os/as
defensores(as) da tese de candidaturas independentes necessitam responder:
independentes de quem?

Mais adiante, neste texto, veremos que nem sempre o que é mais fácil de
entender é mais desejável de se ter. De toda forma, a proposta é que esse
modelo atual – de eleição proporcional – torne-se majoritário, ou seja,
somente os/as mais votados(as) seriam eleitos(as), independentemente do
quociente eleitoral obtido pelas legendas. Os municípios, nas eleições para
vereança, e os estados, nas eleições para as assembleias legislativas e Câmara
Federal, se tornariam, para efeitos dos cálculos, imensos distritos – daí o termo
“distritão” – e a contabilização é feita na base de uma lista classificatória, ou
seja, os/as mais votados(as) ocupariam as vagas em disputa.

Se, em determinada eleição, numa cidade ou estado, havia 50 vagas em


disputa, as 50 candidaturas mais votadas estariam dentro, não importando o
total de votos obtidos por cada partido. Igualmente não importaria saber ou
contabilizar se os primeiros lugares, por exemplo, tiveram muito mais votos
que o quociente eleitoral, ou seja, os votos excedentes seriam
desconsiderados.

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É um modelo que foge da proporcionalidade. As campanhas passam, então, a
ser individuais, e não mais baseadas num programa partidário e numa linha
ideológica em comum com colegas de sigla. Isso faz com que sejam eleitas as
pessoas mais conhecidas pelo público em geral, e não necessariamente as mais
preparadas para desempenhar essa importante tarefa de representação.

Uma mudança como essa, que altera a maneira como fazemos nossos cálculos
e nossa lógica na hora de votar, assim como a própria condução de
campanhas eleitorais, merece bastante cuidado na análise. Afinal, o voto é algo
essencial para uma democracia e, em especial, para nossa vida democrática.

No Brasil, cada conquista de representação eleitoral foi feita a custo de muito


suor de nossa população. Vejamos: o voto feminino somente foi permitido em
1932, mesmo o Brasil já sendo uma República há mais de 40 anos. E isso
depois de muita luta das sufragistas e do movimento feminista como um todo.
Antes da República, o voto era censitário, só podendo votar homens livres
acima de 25 anos e que tivessem, no mínimo, 100 mil réis declarados. Esse
cenário parece antigo demais, ultrapassado? Pois bem, foi apenas com a
Constituição de 1988 que pessoas analfabetas tiveram reconhecido o direito
de votar.

Esses grandes marcos foram acompanhados de outros aprimoramentos


importantes, como os avanços na organização partidária e as cotas para
pessoas negras e mulheres nas candidaturas, ou mesmo o financiamento
público de campanha, evitando que grandes empresas financiassem
candidaturas que contemplariam seus interesses acima daquilo que é público.

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Afinal, de onde vem a ideia de um
distritão?
Podemos dizer que o distritão surgiu no âmbito de uma intenção maior de
mudança do sistema político brasileiro. Desde 1988, quando o Brasil
promulgou a sua nova Constituição Federal, algumas propostas vieram para
alterar as regras eleitorais, ou seja, mudar as condições e o funcionamento de
como escolher quem nos representa e definir quem pode entrar e sob quais
parâmetros se alcança essa condição. Em 1993, por exemplo, ocorreu um
plebiscito para decidir se o Brasil seguiria sendo república presidencialista ou
se adotaria a monarquia e, se mantida a república, se esta seria presidencialista
ou parlamentarista. Mais adiante, em 1998, foi aprovada proposta de emenda
constitucional permitindo uma reeleição para os cargos executivos
(prefeitos(as), governadores(as) e presidente, algo até então não permitido.

Mais recentemente, registra-se a ocorrência de insatisfação generalizada com


tudo aquilo que pudesse representar o “sistema político brasileiro”,
manifestada nas jornadas de junho de 2013. Apesar de terem levantado
pautas difusas e, por vezes, até contraditórias, essas manifestações tiveram
como resposta, por exemplo, uma proposta de assembleia constituinte para a
reforma política apresentada pela então Presidente da República, Dilma
Rousseff. No bojo dessas discussões sobre o sistema político, surgiam
diferentes ideias sobre o que fazer para corrigir as disparidades de

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representação do cenário brasileiro, como se para tentar equacionar os
problemas levantados nas pautas difusas. Um dos temas amplamente
debatidos foi a mudança na forma de financiamento das campanhas eleitorais.

Entretanto, a primeira vez que a ideia de uma “eleição majoritária” para o


preenchimento das cadeiras dos legislativos ganhou forma de Proposta de
Emenda à Constituição – PEC – foi em 2015. Nesse caso, esta foi adicionada
a partir de uma proposta já existente, que versava sobre outras mudanças
relativas a uma reforma política. Foi encabeçada pelos, até então, Presidente da
Câmara Federal e Vice-Presidente da República, Eduardo Cunha e Michel
Temer, respectivamente. A proposta do distritão foi votada pela Câmara a
partir de uma Comissão Especial da Reforma Política, formada para discutir
alterações no sistema político e eleitoral vigente. Dentro das outras pautas de
alteração, estava a limitação de reeleições de cargos executivos, mandato de
cinco anos para cargos eletivos, limites em gastos de campanha e cláusula de
desempenho para definir o financiamento público aos partidos.

O distritão e várias outras propostas não foram aprovados. Um dos elementos


que possibilitou a não aprovação foi a percepção, pela maioria do Plenário,
que tais mudanças trariam distorções na forma de representação, cujos
resultados seriam ainda mais danosos1. Tentou-se uma alternativa mista, que

1 G1. Câmara rejeita sistema “distritão” para escolha de deputados e vereadores. Disponível
em: http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/05/camara-rejeita-sistema-distritao-para-
escolha-de-deputados-e-vereadores.html Acesso em 16 de maio de 2021.

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combinasse metade dos cargos legislativos em eleições proporcionais e a
outra metade em eleições majoritárias, mas essa proposta também não
prosperou.

Em agosto de 2017, o distritão voltou à cena. O texto que propunha tal


medida chegou a ser aprovado pela Comissão Especial da Reforma Política na
Câmara e, dessa vez, criou-se uma expectativa de que o modelo passasse a
valer já nas eleições seguintes, de 2018. Mas, como se tratava de uma emenda
à Constituição, precisava ser aprovado por 342 dos(as) 513 parlamentares da
Câmara dos Deputados. A tese novamente não obteve êxito.

Os episódios de articulação em torno de mudanças eleitorais não ocorrem em


anos ímpares por acaso. A Constituição determina o prazo de um ano antes
das eleições para que as mudanças aprovadas no Legislativo passem a vigorar
como regulamentação do próximo pleito, o que nos traz ao momento atual,
2021, quando novas (ou nem tão novas assim) mobilizações se fazem em
torno da aprovação do distritão, cuja adoção somente poderá se materializar
mediante a combinação das duas regras básicas e fundamentais: aprovação
por 2/3 da Câmara e do Senado (primeiro e segundo turnos) e ocorrência
antes de um ano do próximo pleito. Isso explica a importância deste
documento, que procura destrinchar o que está por trás de todo esse
envolvimento político e os impactos efetivos à nossa sociedade.

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Onde esse modelo é aplicado?
Após compreendermos no que consiste a proposta da emenda constitucional
do distritão, vamos analisar alguns casos em que este modelo foi adotado.
Reunimos alguns exemplos de países e momentos históricos para entender os
resultados obtidos na construção de representatividade e democracia.

O distritão é reconhecido no mundo ocidental por seu nome em inglês: Single


Non-Transferable Vote (SNTV), ou seja, Sistema Eleitoral de Votos Únicos Não
Transferíveis (VUNT). É adotado atualmente em apenas 2% dos países e sua
condução política tem diversas contradições e peculiaridades nos contextos
em que foram experimentadas. Dentre alguns, estão países insulares, como:
Taiwan, com 24 milhões de habitantes, para o preenchimento de 6 cadeiras
de representação da população aborígene; Vanuatu, com 200 mil habitantes;
o território ultramarino britânico das Ilhas Pitcairn (de 56 habitantes); o
território, controlado pelos EUA, de Porto Rico, com 3 milhões de habitantes,
para o preenchimento de 11 cadeiras do Senado e 11 na assembleia dos(as)
representantes, além do Kuwait, com 4 milhões de habitantes, uma monarquia
constitucional que, desde 1752, vive sob a direção da família Al-Sabah.
Outras localidades que também já adotaram esse modelo, em formatos
distintos, foram Líbia, Jordânia, Coreia do Sul e Hong Kong, entretanto, estes,
na atualidade, já modificaram seu sistema eleitoral.

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A seguir, para além dos elencados acima, serão apresentados dois exemplos
de países que já adotaram esse sistema eleitoral ou que permanecem em
diferentes formatos para exercê-lo. São os casos de Japão e Afeganistão. A
partir deles, poderemos compreender os motivos pelos quais adotou-se esse
desenho institucional e os efeitos associados à sua aplicação.

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O distritão japonês
A Constituição Imperial Meiji foi introduzida em 1889. Nela, o poder
emanava do imperador e a estrutura de governo era formada majoritariamente
pela aristocracia e por antigos senhores feudais (hambatsu). Eram grupos
privilegiados que mantinham a máquina estatal sob seu poder de influência,
que perdurou por anos no Japão.

A primeira eleição nacional foi marcada pela disputa de muitos partidos e pela
força do personalismo das candidaturas, as quais, em sua maioria, tinham
pouca ou nenhuma experiência política institucional. A seleção de membros
da Câmara Baixa era, até então, majoritária mista, sendo 214 parlamentares
eleitos(as) em distritos uninominais e 86 parlamentares eleitos(as) em distritos
binominais, com o total de 43 distritos com voto múltiplo. Isto é: cada
eleitor(a) votava a quantidade de vezes equivalente ao número de cadeiras em
disputa, no caso, ou em uma pessoa ou em duas pessoas, a depender do
distrito. Além disso, o direito de votar era restrito àqueles(as) que pagassem
pelo menos 15 yenes em impostos federais por ano.

O resultado dessa primeira eleição levou à formação de uma maioria de


oposição ao governo, que solicitava a redução de impostos. É neste cenário,
em 1900, que surge, entre os/às favoráveis ao governo a ideia de implantar o
Voto Único Não Transferível, o nosso famoso distritão. Era uma forma de

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manter o poder em partidos que não pudessem alterar a lógica dos interesses
dos antigos senhores feudais, de tal modo que, com partidos fracos, a
burocracia imperial teria mais poder que a classe política.

A Segunda Guerra Mundial marcou mudanças profundas no Japão, inclusive


com o término do período Meiji, notadamente pelo fracasso da aliança do
Japão à Alemanha e Itália e, posteriormente, pela ocupação americana no país
até 1955. Após esses anos de domínio ocidental, o sistema eleitoral japonês
foi reivindicado para a volta das condições ao distritão, com a consolidação,
nesse momento, de poucos partidos com interesses nacionais. Assim foram
determinados distritos de médio porte com eleição de três a cinco cadeiras.

A partir de então, iniciou-se a Era do domínio do Liberal Democratic Party


(LDP), partido político que ficou por cerca de quatro décadas no poder (de
1955 a 1993). Esta era uma fusão dos partidos conservadores e liberais rivais
no parlamento, que se unificaram para assegurar a maioria política no
parlamento. Do outro lado, a oposição também formou uma aliança entre a
centro-esquerda e os/as socialistas marxistas-leninistas, no Social Democratic
Party of Japan (SDPJ). Essa fusão é uma das características do sistema SNTV (ou
VUNT, em português), decorrente da busca pela manutenção de espaço de
poder no parlamento.

As eleições no Japão, nesse contexto, tinham por característica a ausência de


controles para o financiamento privado em campanhas eleitorais, com o
predomínio de formas de clientelismo, pela compra de votos e por meio da

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concessão de presentes aos grupos empresariais, como gestão de obras
públicas. Outro grande problema que ocorria nesse sistema eleitoral era o
desperdício de votos, na medida em que muitos nomes com votação
significativa não chegavam ao limite de cadeiras do distrito e não tinham
nenhum de seus votos aproveitados.

Esse sistema também gerava cada vez mais sub-representação nos grandes
centros urbanos como Kobe, Osaka e Yokohama, que, apesar de sua
densidade populacional, tinham proporcionalmente números pequenos de
representantes, enquanto zonas rurais contavam com sobrerrepresentação
parlamentar, sobretudo onde o LDP tinha maior influência. Por isso, o Liberal
Democratic Party com o uso da máquina pública, manteve-se no poder e
conseguiu se estabelecer com políticas direcionadas a setores específicos do
eleitorado e por meio de ações clientelistas, evitando a ascensão de novos
atores políticos (COX, 2005, apud FEITOSA, 2018).

Entretanto, o fracasso do sistema político começou a ficar evidente a partir do


início da década de 1990, com altos níveis de insatisfação pública com
políticos(as), estimulado principalmente pela mídia japonesa, além de
mudanças na política internacional e crises econômicas. Esse contexto foi
agravado pelos escândalos de corrupção, elevados custos das campanhas
eleitorais, pelas críticas quanto às atividades de angariação de fundos na
política e a falta de transparência, com a ausência de alternância de partidos
no governo.

23
Os/As dirigentes políticos(as) da época associaram os problemas acima ao
sistema eleitoral, endereçando suas críticas a uma proposta de reforma. Dentre
as diversas propostas em discussão, estava a adoção de um sistema eleitoral
misto. Assim, passava-se a considerar a proporcionalidade dos distritos para se
ter em conta as representações das minorias e da representatividade conforme
o tamanho populacional. Essa representação atualmente está demonstrada
pela maior proporcionalidade dos partidos políticos japoneses, conforme o
mapa a seguir, das eleições gerais de 2017. Apesar das mudanças, seguem
com a força partidária LDP em sua maioria, alcançando 284 cadeiras no
parlamento, no total de 465.

Figura 1 – Resultado das eleições gerais no Japão em 2017

Fonte: MIC, 2017.

24
Apesar dos avanços, a reforma em 1996 para a proporcionalidade em um
sistema distrital misto ainda não modificou por completo as conformidades
estabelecidas na representatividade eleitoral japonesa. A sua aceitação ocorreu
somente porque o modelo atendia aos interesses dos grandes partidos, que
viam, no sistema majoritário de distritos uninominais, uma oportunidade de
manter reduzida a competição interna de seus quadros e a consequente
redução do custo das campanhas. Também ia de encontro aos interesses das
lideranças dos pequenos partidos envolvidos na coalizão, que viam, na parte
proporcional do sistema, um meio de manter a sua representação no
parlamento (HIZEN, 2004, apud FEITOSA, 2018). Ao fim e ao cabo, a
reforma aplacou uma redução do custo de campanha, mas não acabou com a
formação iminente de um sistema bipartidário no Japão, com grande influência
personalista de lideranças partidárias, impossibilitando a alternância de poder
almejada.

25
O distritão afegão
Após o fim do Emirado Islâmico regido pelo Talibã, decorrente da invasão
americana ao Afeganistão em 2001, as forças políticas opositoras apoiadas
pelos Estados Unidos deram início à refundação por completo do país. O
Acordo de Bonn estabeleceu um governo de transição com uma Força
Internacional de Assistência em Segurança, que seria responsável pela
estabilização dos conflitos internos. Um grupo de lideranças políticas afegãs
próximas a esses organismos internacionais passou a trabalhar no novo
desenho de instituições para estabelecer um Estado constitucional
democrático, segundo critérios desse acordo (THIER e CHOPRA, 2002).

Para o processo de definição do sistema eleitoral, foi sugerido um sistema


proporcional de lista, como forma de viabilizar as diferentes representações
étnicas que constituem a sociedade afegã. No entanto, com a alegação de
dificuldade de compreensão por parte dos membros da administração interna,
da alta taxa de analfabetismo, da desconfiança dos afegãos aos partidos
políticos desde o período em que o governo afegão esteve no satélite soviético
e da inexperiência democrático-eleitoral da população no passado, adotou-se
o sistema de Voto Único Não Transferível (REYNOLDS, 2006).

26
Dessa maneira, o Afeganistão foi dividido em 34 distritos eleitorais
multinominais de grandes variações entre si: entre 2 e 33 cadeiras em disputa.
Eleitoras e eleitores depositavam um voto em uma das candidaturas
concorrentes, sendo que os/as que alcançavam o maior número de votos até
o limite das cadeiras em disputa levavam o cargo. Aqui, uma novidade: o
sistema também previa a possibilidade de candidaturas independentes de
partidos e uma cota de 68 cadeiras para mulheres (REYNOLDS, 2006).

Aspectos positivos e negativos podem ser mencionados sobre a adoção desse


sistema. De forma positiva, ele incentivou a participação de candidaturas
independentes e de diferentes grupos e etnias, já que os distritos foram
formados com base nas províncias tradicionais existentes no país, as quais
eram caracterizadas, em alguma medida, pelo desenho da clivagem étnica
existente. É importante ressaltar que o país contém essa fragmentação étnica,
linguística e religiosa2 (ver mapa a seguir, que apresenta o Afeganistão em seus
34 distritos eleitorais e a população de origem étnica), ou seja, uma
diversidade que foi assegurada nas eleições, devido à grande quantidade de
nomes. Além do mais, a diluição entre as diversas candidaturas possibilitou o

2 A Constituição afegã de 2004 aponta nominalmente 14 etnias e mais o reconhecimento


da existência de outras tribos não nominadas; duas línguas oficiais, o dari e o pashto, e
outras trinta menores, faladas por comunidades locais, e uma diferença religiosa entre as
muçulmanas e os muçulmanos de maioria sunita (80% da população) e minoria xiita (20%
da população).

27
desenvolvimento da participação feminina na política institucional, tendo sido
eleitas diversas mulheres já no primeiro pleito de 2005, sem o auxílio das
cotas previstas pelo sistema.

Figura 2 – Distritos eleitorais afegãos e suas etnias

Fonte: https://www.nybooks.com/daily/2010/10/07/should-afghanistan-exist/

Quanto aos aspectos negativos, pode-se apontar o elevado índice de votos


desprezados3, criando margens muito estreitas de diferença entre as
candidaturas mais votadas e as menos votadas, o que prejudicaria a
legitimidade do parlamento, ainda mais se levadas em conta as diversas

3 A título de exemplo, nas eleições parlamentares de 2005, 68% dos votos válidos foram
para candidaturas que não foram eleitas. Além disso, o percentual médio de votos do nome
mais votado em cada distrito foi de 11,5% (REYNOLDS, 2006).

28
denúncias de fraudes eleitorais e manipulação de campanha. Este fato é
esperado em sistemas eleitorais dessa magnitude, como o First Past The Post,
originário do Reino Unido e usado como base em diversos outros países.
Nesse sistema, há dificuldade de criar coalizões e até um sistema partidário,
devido à quantidade grande de parlamentares independentes eleitos(as), sem
uma clara definição de agenda e posição em relação ao governo, tornando
altamente volátil a relação entre Executivo e Legislativo, de tal forma que a
Presidência tem de estar em constante barganha política. O processo eleitoral
afegão tornou-se uma disputa de poder eminentemente personalista e
fragmentada, com a quantidade exorbitante de oitenta e seis partidos políticos
registrados com baixo nível de organização (NDI, 2001, apud FEITOSA,
2018).

Por fim, outro ponto está atrelado à fragmentação linguística e ao consequente


analfabetismo de grande parte da população. Esse fator sociocultural levou a
comissão eleitoral a adotar um modelo de cédulas com os/as aspirantes ao
voto identificados(as) com fotos ou símbolos gráficos. A quantidade
exacerbada de candidaturas tornou a cédula enorme e confusa para quem ia
votar, ao invés de ter facilitado, o que também contribuiu para a pouca
participação popular na votação.

O somatório dos problemas repertoriados acabou por gerar a necessidade de


mudanças. Dessa maneira, criou-se um projeto de reforma política em 2012.
A Comissão Eleitoral Independente do Afeganistão trouxe, então, o desenho

29
de um sistema misto em que permaneceria o sistema de Votos Únicos Não
Transferíveis para 159 cadeiras do parlamento, além de 80 em um sistema
proporcional, mantendo-se as 68 de reservas para mulheres e a quota de 10
cadeiras eleitas separadamente para o povo nômade Kuchi. Após mais de um
ano de discussão, mesmo com amplas modificações no referido projeto,
nenhuma alteração no sistema eleitoral foi aprovada, pois prevaleceu a
posição do presidente Hamid Karzai e das elites aliadas de manutenção das
regras do jogo como forma de garantir a sua perpetuação no poder (BIJLERT,
2013, apud FEITOSA, 2018).

Em 2015, mais uma vez, tentou-se debater a alteração do sistema de votos,


com duas diferentes propostas, porém a ausência de acordo entre as forças
políticas, principalmente em torno das consequências da possível perda de
poder para a própria classe política e de representatividade étnica e geográfica,
impossibilitou a realização de qualquer modificação, permanecendo até hoje
as regras do Voto Único Não Transferível: o distritão.

30
E como o distritão seria adaptado
ao contexto brasileiro? Ou “Será
que já não vimos esse filme
antes”?
É importante lembrar: o distritão já esteve em vigor no Brasil! Foi entre a época
imperial (1824-1889) e o fim da República Velha (1889-1930). Esses
períodos foram momentos históricos na política brasileira, em que fraudes
eleitorais eram frequentes, como o uso do mecanismo de voto por procuração,
no qual a pessoa transferia seu direito de votar para outra, ou mesmo de
títulos eleitorais falsos. Além do mais, o voto era censitário, ou seja, apenas
uma parcela da população tinha direito ao sufrágio. Como adiantamos no
início, durante o Império, podiam votar somente homens, maiores de 25 anos,
alfabetizados e que tivessem uma renda mínima de 100 mil réis anuais.
Mesmo com a Proclamação da República, esse quadro não teve grandes
modificações, mantendo mulheres, pessoas analfabetas, em situação de rua,
soldados rasos, indígenas, integrantes do clero e quem fosse menor de 21
anos impedidos de votar. Ou seja: as eleições, nesse período, tinham
baixíssima representatividade.

31
Nessa situação, a população brasileira continuava com as mesmas
características desiguais de três séculos de colonização, em que 85% da
população era analfabeta e mais de 90% vivia em áreas rurais, sob a influência
de pessoas com grandes propriedades de terra. Em 1894, por exemplo, na
capital do país, Rio de Janeiro, que contava com 500 mil habitantes, apenas
1,3% da população votou (CARVALHO, 2001).

São considerados períodos com validade democrática questionável, cuja


condução política tentava manter os poderes regionais nas mãos de grandes
detentores de terra. Era assim atribuído o voto de cabresto, em que a figura dos
coronéis de cada local coagia suas “apadrinhadas” e seus “apadrinhados” a
votarem na pessoa que fosse indicada. Além do mais, o voto da maioria, sem
representatividade de contribuição com proporcionalidade à minoria, teve
como resultado a permanência de “currais eleitorais” e o mantimento de
governantes de um único partido por região, para garantir o interesse exclusivo
de latifundiários e a economia agropecuária, com poucas modificações nos
quadros gerais dos parlamentos nacional, regionais e municipais (LEAL, 1997).
Apesar de algumas mudanças do período Imperial para a República Velha, em
termos de sistema eleitoral, a descentralização atribuída ao federalismo
facilitou a aproximação da população às elites locais, construindo sólidas
oligarquias estaduais. Os eleitores e eleitoras acabavam tendo maior nível de
dependência ao coronel, a quem obedeciam com maior fidelidade, pela sua
concentração de poder. O voto da maioria, também nas assembleias
legislativas, consolidava o amplo controle do coronel na condução
político-econômica e influência no governo central (CARVALHO, 2001).

32
Esses grandes latifundiários detinham os principais partidos políticos, que
acabavam por eleger a presidência da Nação. Esse período também ficou
conhecido como “política do café com leite”, justamente pela prioridade
econômica que se alternava em conluio de poder entre o Partido Republicano
Paulista (PRP), comandado pelos nomes ligados à produção de café, e o
Partido Republicano Mineiro (PRM), que comandava os latifúndios pecuários
e de leite. Os estados se revezavam na indicação da presidência: uma vez
ligada a São Paulo, outra vez a Minas Gerais, enquanto outros estados, bem
como outros partidos, acabavam sendo sub-representados, já que o próprio
sistema do distritão e as fraudes eleitorais reforçaram o poder do PRM e do
PRP no rumo da condução política nacional.

Essa experiência brasileira do passado ainda mantém suas raízes no sistema


eleitoral e distributivo de representatividade até hoje. Não obstante, houve
mudanças no regime democrático brasileiro; ainda existem propostas que
tentam retomar a conservação desses interesses político-econômicos de
exploração agropecuária no país. Apesar das diversas diferenças existentes
com outros contextos políticos, como o afegão e o japonês, o distritão se
torna uma das propostas de sistema que tenta retomar essa antiga influência
clientelista, adicionando o veemente personalismo político.

33
O que nos dizem as teorias
jurídicas e políticas sobre o
debate?
Como já demonstrado, a proposta do distritão e da reforma política tem
aparecido no debate público coincidentemente aos anos que antecedem as
eleições estaduais e nacionais. Isso nos traz uma vantagem: já em 2017,
diversos pesquisadores e pesquisadoras se posicionaram sobre o tema,
argumentando e mostrando, com base na teoria política e do direito, os riscos
e as consequências da alteração no sistema eleitoral. Aproveitando esse
acúmulo, retomaremos os pontos mais relevantes encontrados nessa literatura
recente para posicionar a discussão no cenário político atual.

Primeiramente, falemos sobre essa estranha coincidência. A maneira como a


pauta é colocada em debate, marcadamente às vésperas das eleições nacionais
e estaduais, já dá algum indício sobre o desconcerto que uma reforma desse
porte causa à sociedade. Nessas condições, ela acaba sendo debatida, de
saída, de uma perspectiva muito pontual e específica. Como afirmou o filósofo
Marshall Mcluhan, nos anos 1960: “o meio é a mensagem”. Dessa forma,
propor a alteração constitucional fora de um ambiente de debate amplo sobre
o sistema político brasileiro, olhando apenas para um de seus mecanismos,

34
periga cair em propostas “apequenadas pelo roldão imediatista, limitadas pelos
interesses individuais e localizados de representações políticas e suas
agremiações”, nas palavras da jurista Edilene Lôbo (2017, p. 112). Mudanças
políticas devem ser amplamente debatidas, lançando mão de consultas diretas
à população, e não se reservar apenas ao debate dentro do sistema partidário,
uma vez que os partidos são os principais interessados quando essa agenda
emerge, a cada quatro anos.

No campo favorável à defesa do distritão, circula um texto de proposta para


angariar apoiadores4. O principal argumento apresentado é que existe hoje um
afastamento da população com o mundo político, diminuindo a participação
civil nos espaços de poder. Um dos argumentos utilizados considera que um
dos principais fatores para esse fenômeno é o sistema eleitoral proporcional,
pois ele se mostra de muito difícil compreensão, com suas regras e as
distorções decorrentes. Continuam os argumentos ancorados no fato de que
a adoção do sistema majoritário, de mais fácil compreensão, permitirá menor
abstenção na participação política e melhor controle do(a) eleitor(a), que terá
maior facilidade de se “lembrar” em quem votou5. O texto argumenta, ainda,

4 Poder 360. Câmara escolhe PEC da reforma política e tenta pular tramitação na CCJ.
Disponível em: https://www.poder360.com.br/congresso/camara-escolhe-pec-da-reforma-
politica-e-tenta-pular-tramitacao-na-ccj/ Acesso em 19 de maio de 2021.
5 Proposta de emenda à constituição n° -, de 2020. Disponível em: https://static.poder360.
com.br/2021/03/PEC-distritao-giovani-cherini.pdf. Acesso em 19 de maio de 2021.

35
que o sistema majoritário irá diminuir o número de nomes disputando o
pleito, ampliando o controle sobre os gastos eleitorais.

Um artigo escrito pelo então Vice-presidente Michel Temer em 2015, no


Jornal O Estado de São Paulo, desenvolve os principais argumentos do campo
favorável ao distritão6. Temer deixa claro, na defesa, que o objetivo principal de
sua proposta é a conservação da democracia, sendo esse o valor maior da
constituição, significando que “a maioria pratica os atos de governo,
respeitando a minoria”, tendo o povo como titular do poder. Nesse sentido, as
eleições proporcionais estariam distorcendo a vontade da maioria da
população, pois não alçariam como representantes aqueles(as) com maior
quantidade de votos.

Temer levanta uma questão que é um transtorno para os que votam: os/as
famosos(as) puxadores(as) de votos, pessoas com resultados excepcionais que
acabam colaborando para que nomes desconhecidos ocupem as cadeiras do
parlamento. Como explica o autor: “Já houve caso concreto de um deputado
federal eleito com cerca de 1,5 milhão de votos que conduziu pela legenda
mais quatro deputados – um deles com 382 votos (e que residia, de fato, em
outro estado). Enquanto um candidato de outra legenda, com 128 mil votos,
não foi eleito, em face do chamado quociente eleitoral”. Por fim, levanta um

6 O ‘distritão’. Disponível em: https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-distritao-imp-,


1634397. Acesso em 19 de maio de 2021.

36
outro transtorno referente aos custos das campanhas, justificando que o voto
majoritário iria restringir o número de candidaturas listadas pelos partidos,
afastando a dispersão e, consequentemente, barateando a busca por votos.

Ainda, podemos encontrar mais argumentos contra o modelo proporcional


vigente nas discussões ocorridas na Câmara. Em 2016, ocorreu uma audiência
pública sobre o tema da reforma política, com a presença de especialistas,
deputadas e deputados7. Na ocasião, o Dr. Flávio Eduardo Wanderley Britto,
membro fundador da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, trouxe
alguns pontos interessantes para o debate, problematizando as críticas mais
comuns ao sistema majoritário. Os mais interessantes se referem aos votos
desperdiçados, um dos efeitos do distritão, sendo que uma solução simples e
que poderia reduzir essa distorção seria o uso de dois turnos também para as
eleições do Legislativo, assim como ocorre no modelo francês. Na mesma
audiência, o deputado Lázaro Botelho (PP--TO) colocou a maneira
insustentável como as campanhas têm ocorrido no modelo atual, com um
número exaustivo de aspirantes e os custos de campanha extremamente
elevados.

7 Câmara dos Deputados – Comissão Especial – Reforma Política. Audiência pública.


Reunião n° 1540/16, em 01/12/2016.

37
Os pontos levantados pelos favoráveis ao distritão seguem uma argumentação
lógica, dialogando com anseios da população e dando exemplos concretos.
Contudo, é importante analisar cada um desses argumentos mais
detalhadamente.

Iniciaremos pelo custo das campanhas políticas. Conforme mostra o


pesquisador Jairo Nicolau (2017), referência no debate sobre sistemas
eleitorais, existe uma ilusão sobre a competição eleitoral no Brasil. No modelo
atual, já possuímos um sistema extremamente concentrado de votos, em que
uma pequena parte das candidaturas concentra a maior parte do dinheiro de
campanha e que efetivamente briga pelas cadeiras do Legislativo. Assim, apesar
das inúmeras figuras que, por vezes, nos surpreendem no horário eleitoral, os
partidos não possuem uma distribuição equânime de seus recursos, havendo
pouca alteração com a redução desse quantitativo.

Jairo demonstra seu argumento olhando os resultados das eleições para a


Câmara dos Deputados federal em 20148. Naquele ano, 70% dos(as) menos
votados(as) arrecadaram apenas 5% do total de votos, enquanto os/as 10%
mais votados(as) ficaram com 75%. Ainda, conforme argumenta Edilene Lôbo
(2017), uma eleição estritamente majoritária pode aumentar os custos de
campanhas, uma vez que essa lógica irá imperar para todas e todos, não

8 O pesquisador aplicou o índice de Gini sobre os eleitos de cada estado. A medida é


utilizada para medir a desigualdade dentro de determinada população.

38
havendo o recurso de transferências de votos e enfraquecendo chapas com
viés mais partidário do que personalista. Dessa forma, os/as aspirantes não
poderiam optar por abordagens localizadas, sendo imprescindível o
estabelecimento de campanhas por todo o território do Estado para angariar
uma votação ampla, no caso de deputadas e deputados federais e estaduais, o
que, naturalmente, elevará os custos das campanhas.

Em segundo lugar, os nomes puxadores de votos. Quem não se lembra da


campanha de Tiririca em 2010 e todo o debate que transcorreu por conta
dela? O episódio gerou, inclusive, a expressão “Efeito Tiririca”, ilustrando o
fenômeno do voto de protesto em figuras escrachadas. De fato, casos como
esses são efeitos adversos do nosso sistema e causam muita revolta. Contudo,
como mostra Márcio Cunha Carlomagno (2015), pesquisador da área de
política, apesar de esses casos ganharem uma grande proporção midiática, eles
são uma excepcionalidade9. O autor defende esse argumento também
olhando para quem foi eleito(a) na Câmara dos Deputados de 2014,
realizando uma simulação para o modelo do distritão e atestando que 8,7%
dos votos, ou 45 cadeiras, seriam alterados. Busca, ainda, demonstrar que
tanto o distritão quanto a proposta que acabou sendo adotada em 2017, o

9 Esse fenômeno foi corrigido na reforma política de 2017, que passou a exigir que o/a
candidato(a) faça, no mínimo, 10% do quociente partidário para ser puxado.

39
modelo proporcional sem coligação, trariam resultados piores do que o
modelo vigente, quando medido o índice de desproporcionalidade eleitoral10.
No mesmo sentido, o sociólogo e comentarista político Sérgio Abranches
(2017) argumenta que, ao contrário do que se coloca, o distritão privilegia as
figuras que puxam voto, uma vez que a disputa majoritária criaria novas
estratégias dos partidos em direção a nomes com esse apelo, preservando
os/as atuais detentores(as) das vagas e dificultando o acesso de novos nomes
ao Legislativo. Ou seja, o modelo de votos majoritário pode disseminar a
estratégia de lançar candidaturas com alto apelo personalista e populista,
independentemente de sua vocação para o Legislativo, aprofundando o que
hoje é uma exceção.

Aliada a isso, temos a questão dos votos desperdiçados no modelo do


distritão. Nesse caso, o voto de quem não se elege é, de fato, desconsiderado,
diferentemente do que acontece no modelo proporcional, em que há a
transferência para outros correligionários e correligionárias. Jairo Nicolau
demonstra que, em 2014, o número de votos desperdiçados chegaria a 34%.
Mesmo com a adesão de dois turnos, como argumentou o Dr. Flávio Britto,
ainda se mantém a questão do descarte de votos no primeiro turno para
cargos que têm o propósito de serem mais representativos entre a população

10 Outros(as) autores(as) consideram o fim das coligações um avanço do sistema,


como Jairo Nicolau: https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/11/20/fim-das-
coligacoes-produziu-o-melhor-sistema-eleitoral-da-historia-diz-nicolau.ghtml .
Acesso em 21 de maio de 2021.

40
do que os cargos executivos. O fato tenderia a enfraquecer ainda mais a
participação social nos pleitos, o que poderia gerar mais frustração e
desestímulo (LÔBO, 2017).

Enfim, a democracia. Em se tratando de temas polêmicos como a reforma da


Constituição e do sistema político, a democracia deve servir de farol para guiar
os debates, sendo indiscutível a predominância do poder do povo na
legitimidade do Estado brasileiro. No entanto, tomar o conceito como
“exercício da maioria, com respeito da minoria” pode ser um jeito simplista de
entender o equilíbrio de poderes da sociedade e, considerando-se a opção
pelo voto majoritário, uma exclusão das minorias políticas e o império da
tirania da maioria, ou seja, o caminho oposto das propostas de democracias
modernas, em que existem regulações no sistema para evitar que grupos com
maior controle de recursos tomem o poder da máquina pública. Nesse sentido,
a evolução dos sistemas eleitorais nas sociedades modernas tem caminhado
na direção da criação de regras que contemplem os grupos minoritários da
sociedade, conforme argumentamos na seção anterior.

A questão também é encarar a democracia em abstrato, longe das implicações


do contexto histórico e social do país. Isto é, não se pode avaliar o sistema
eleitoral sem se levar em conta as características dos partidos, os conflitos
socioeconômicos do país e sua desigualdade social, que se traduz também em
desigualdade eleitoral. Dessa forma, conforme argumentamos anteriormente, a
proposta do distritão significará, na prática, uma porta fechada para uma

41
multiplicidade de aspirantes que não possuem recursos para campanhas
amplas, excluindo grupos historicamente desfavorecidos como mulheres,
pessoas negras e que pertencem à classe baixa. Por mais que se argumente que
o modelo favorece a renovação com grande influência na sociedade, para
além do sistema partidário, não serão esses casos exceções, assim como são
de pessoas desses grupos que conseguem romper as barreiras estruturais da
sociedade?

Ainda que consideremos possível uma relação mais próxima entre quem vota
e quem é votado(a), conforme argumentam os defensores do distritão, é
importante pensarmos quais seriam as implicações para o sistema político com
a corrosão da mediação dos partidos políticos no Legislativo, levando a um
perfil muito mais personalista de exercício da representação. Na prática, como
afirma Jairo Nicolau11, o distritão aumenta o poder de barganha individual da
pessoa e enfraquece os partidos, mesmo aqueles que poderão ter mais
acúmulo de cadeiras por ter maior representatividade nos estados, como MDB,
PT, PSD e PSDB, Isso porque se enfraquece o poder do partido nas tomadas de
decisões e alinhamento dos seus deputados e deputadas nos enquadramentos
ideológicos, prevalecendo uma lógica direta entre representante e votante,
afetando a governabilidade do sistema e, considerando os votos
desperdiçados, a exclusão de grupos da participação política.

11 "Distritão não responde a nenhum problema". Disponível em: https://valor.globo.com/


politica/coluna/distritao-nao-responde-a-nenhum-problema.ghtml.
Acesso em 20 de maio de 2021.

42
Por fim, inserindo a proposta dentro do contexto político atual, parece ser
ainda mais difícil que ela seja uma solução aos anseios de maior engajamento
da população e superação da crise de legitimidade institucional do mundo
político. Desde as “jornadas de 2013”, fica evidente o crescente
descontentamento da população com o sistema atual e o direcionamento
dessa frustração aos partidos políticos.

Na interpretação do filósofo Marcos Nobre (2018), as manifestações daquele


ano foram barradas na porta do sistema político, que optou por se preservar e
evitar uma renovação mais ampla dos mecanismos democráticos internos dos
partidos. Na falta de espaço parlamentar, essas frustrações se manifestam de
outras maneiras. Um exemplo sintomático e eloquente do momento atual é
que o atual Presidente da República esteja governando sem partido por mais
de um ano e meio.

Em face dos argumentos elencados, realizamos um esforço, na próxima seção,


para analisar os possíveis impactos do modelo do distritão com base em
simulações dos resultados das eleições passadas (2018). O mais importante é
entendermos que a mudança tem o potencial de alterar diversas dinâmicas
sociais e políticas, nem sempre para reforço da legitimidade, mas, na verdade,
para reafirmar e aprofundar desigualdades já existentes na sociedade brasileira.

43
Quais os possíveis impactos da
adoção do modelo no Brasil?
Na esteira de toda problematização já desenvolvida, podemos nos dedicar a
discutir, por fim, os possíveis impactos da adoção do distritão no sistema
eleitoral brasileiro. Embora as formulações teóricas e os casos internacionais
explorados até o momento forneçam argumentos para tanto, esse é sempre
um exercício de especulação, na medida em que, como já mencionado, diante
de novas regras do jogo, as partes envolvidas – tanto quem vota quanto quem
tenta se eleger – modificam seus cálculos estratégicos, ocasionando resultados
não previstos. Com rigor e cuidado, porém, é possível antecipar tendências e
possíveis efeitos dessa mudança e quais as consequências para a renovação
política e a saúde democrática do Brasil.

Para tanto, lançaremos mão de uma simulação, aplicando o modelo do


distritão aos resultados da eleição de 2018 para a Câmara dos Deputados
federal. Esse exercício não é inédito e já foi realizado em outros estudos,
principalmente com dados de 2014. Com todas as limitações e cautela que
toda simulação exige – como dissemos, a alteração das regras do jogo implica
mudança nas estratégias de quem joga –, é possível discutir alguns aspectos
pertinentes. As tabelas com todos os dados compilados estão disponíveis no
anexo deste documento.

44
Vamos aos resultados. Em 2018, caso o distritão tivesse sido adotado, do
total de 513 cadeiras em disputa, 64 – ou seja, 12% – sofreriam mudanças.
Esse número representa um aumento de 3% em relação à simulação com
dados de 2014, que previa alteração de 45 assentos12. Para além do
quantitativo total, é possível olhar essa simulação filtrando os números por
unidade da federação, como o gráfico a seguir mostra.

Figura 3 – alterações na composição da câmara dos deputados por uf -


eleições 2018 votos com o distritão

Fonte: QCP (2021)

12 Uma ressalva há de ser feita antes de qualquer análise sobre essa diferença entre os
resultados dos dois ciclos eleitorais: diferentemente de 2014, em 2018 já não eram
permitidas coligações proporcionais. O impacto dessa nova regra, embora seja difícil de
mensurar, também deve ser levado em conta.

45
Como cada estado possui uma quantidade diferente de vagas em disputa, é
necessário se atentar para os valores relativos: Acre, Santa Catarina e Sergipe
são os estados que sofreriam, proporcionalmente ao número de vagas, mais
alterações: 25% de suas cadeiras. São seguidos por Rio de Janeiro, com 21%,
e Espírito Santo, com 20%. Duas coisas chamam a atenção nesse recorte: a
diversidade regional e a diferença de magnitude dos distritos, pois há estados
com menos de 10 cadeiras e outros, como São Paulo, com 70. Ou seja, pelo
menos preliminarmente, não é possível concluir que as mudanças mais
expressivas se dão por algum critério regional ou pelo tamanho dos distritos.

Em termos absolutos, esses valores trazidos podem não parecer tão


significativos, mas certamente não devem ser desprezados. Além disso, mais do
que o volume de vagas que mudariam de mãos partidárias caso o distritão
fosse aprovado, é fundamental identificar as diferenças de perfis e de
orientação entre quem ganha e quem perde. Em outras palavras: quem sairia
de cena? E quem entraria no lugar? Os anexos 1 e 2 trazem essas
desagregações.

A análise que será apontada aqui representa somente as eleições de 2018 na


Câmara dos Deputados e as possíveis mudanças que ocorreriam caso o
distritão já estivesse em vigor. Esse recorte pontual foi escolhido porque essa
eleição foi a única cujos partidos não estavam unidos para o Legislativo,
estando eles disputando suas cadeiras na proporção dos votos unicamente em
suas legendas. As 64 mudanças de cadeiras nessa legislatura e as mudanças
nos partidos estão representadas nos gráficos adiante.

46
Figura 4 – partidos políticos câmara federal
eleição 2018 votos proporcionais

Fonte: QCP (2021)

47
Como seria com o distritão?
Caso o distritão fosse aprovado, os seguintes partidos teriam mais deputadas
e deputados federais, em ordem de saldos positivos: PSDB (+10), DEM (+6),
REPUBLICANOS (+4), PROGRESSISTAS (+3), PSD (+3), SOLIDARIEDADE
(+3), PR – atualmente Partido Liberal – (+3), CIDADANIA (+2), PT (+2), MDB
(+1) e PTB (+1). Como apresentado no próximo gráfico, aumentaria ainda
mais o número de nomes no espectro de centro-direita e direita, sobretudo de
diversas figuras filiadas ao PSDB. Neste partido, dos(as) possíveis postulantes,
somente duas figuras estão abaixo dos 53 anos, tendo a maioria consolidadas
carreiras políticas, tendo apresentado candidatura desde a década de 1980 e
1990, ou seja, já estão presentes na máquina pública em um grande período
da redemocratização.

Por outro lado, o partido que mais perderia com a mudança do sistema
eleitoral para o distritão seria o PSL (–10), que aglomerou diversas figuras pelo
país para fixar o então candidato Bolsonaro à sua imagem. Mesmo não sendo
mais candidato a deputado federal, Bolsonaro conseguiu ser um “puxador de
votos” indireto para os que se filiaram ao PSL conjuntamente. Além desse
partido, outros que também perderiam cadeiras com a adoção do distritão, em
ordem de saldos negativos, seriam os seguintes: PDT (–5), AVANTE (–5), PHS
(–5), NOVO (–3), PSB (–2) e PMN (–2). E os que diminuiriam uma cadeira são:
PROS, PRP, PSC, REDE, PCdoB e PSOL.

48
Figura 5 – Partidos póliticos câmara Federal
Eleição 2018 votos com dirtritão

Fonte: QCP (2021)

Um aspecto relevante desse possível cenário é a presença marcante do


conhecido “Centrão”, caso o distritão fosse aprovado. São pessoas que se
aliam a partidos para o fortalecimento do grupo e, impedindo eventuais
mudanças no arranjo político, tentam se beneficiar da situação governista.
Mantêm essa ordem de trocas informais e retroalimentam a existência local de
estruturas oligárquicas e personalizadas de poder (VAZ e MATTOSO, 2015).
É notável que quem se candidata à Presidência influencia também nas eleições
legislativas. É possível, embora careça de maior aprofundamento, que sejam os
casos de PDT e AVANTE, os quais estavam na mesma coligação majoritária
com o candidato Ciro Gomes, que teve uma votação expressiva no primeiro
turno, terminando em terceiro lugar. Além do mais, partidos menores, de novas
agremiações ou que têm dificuldades de capilaridade no interior do país por
posturas ideológicas mais firmes, também teriam maiores perdas relativas, tais
como NOVO, PCdoB, REDE e PSOL.

49
Por fim, outro ponto são os partidos que já têm pouca expressão em seus
posicionamentos e, devido às suas possíveis perdas nas cláusulas de barreira,
já iniciam suas fusões ou extinções, como os casos do PHS, que se incorporou
ao PODEMOS, e do PRP, que se fundiu ao PATRIOTAS. Outros partidos
permanecem como legendas de aluguel.

Essas mudanças em âmbito federal são corroboradas com os mesmos aspectos


de capilaridade nos quais partidos fisiológicos do “Centrão” se consolidam no
resto do país. Nas últimas eleições municipais, em 2020, evidenciou-se que,
dos dez partidos que mais prefeituras venceram, cinco (que concentram 43,5%
dos municípios) constam como os que também teriam mais cadeiras na
Câmara federal, caso o distritão fosse aprovado. São os mesmos interessados:
PROGRESSISTAS (PP), PSD, DEM, PL e REPUBLICANOS, de partidos com
programas adaptados à situação de governo e com filiações dotadas de certa
flexibilidade programática.

O PSDB, apesar de não ser considerado do grupo do “Centrão”, também


possui grande capilaridade no território nacional e teria a mesma relação
traçada acima: quanto mais capilaridade, mais ganhos com o distritão. No
caso, o PSDB possui o 4º lugar no total de prefeituras, em 2020, e lidera os
ganhos hipotéticos com o modelo do distritão, em 2018. Já o MDB representa
um caso a ser mais bem explorado: apesar de manter o maior número de
filiados(as) e de prefeituras no Brasil, o partido teria um pequeno aumento
(+1), caso houvesse a mudança do sistema eleitoral.

50
Como o distritão remonta a diferenças de cunho personalista, também é
relevante demonstrar as distinções em aspectos gerais de representação de
gênero, racial e classificação etária. Conforme mostra o gráfico a seguir, há
uma mudança, considerada pequena, de somente 1%, tanto no aspecto de
gênero quanto de raça. Entretanto, vale lembrar que as lutas de mulheres,
pretos e pretas para representação na Câmara dos Deputados enfrenta diversos
obstáculos e a possível mudança para o voto do distritão, nesses exemplos
tomados, dificultaria ainda mais uma reversão dessa sub-representação na
política brasileira. Em outras palavras, se não retrocede tanto o cenário atual,
certamente indica um entrave para o seu avanço.

Com relação à diferença de representatividade feminina na Câmara federal,


caso fosse adotado o distritão, teríamos a entrada de oito mulheres e a saída
de doze, ou seja, uma baixa de quatro mulheres no total. Além do mais, não
teríamos a única representante indígena no parlamento, a deputada federal por
Roraima, Joênia Wapichana, do REDE.

Figura 6 – divisão de gênero em voto distritão Figura 7 – divisão de gênero em voto proporcional
na camara federal - eleição 2018 na camara federal - eleição 2018

Fonte: QCP (2021) Fonte: QCP (2021)

51
Quando tomado o ponto da representatividade racial, entrariam mais
brancos(as), sobretudo homens (53, no total) e teríamos menos pardos(as),
com uma diferença de seis parlamentares, e autodeclarados(as) pretos(as), com
uma diminuição de 3 deputados homens. Entretanto, em um caso isolado,
com a adoção do distritão, teríamos a entrada de mais uma mulher preta no
parlamento brasileiro pela Bahia: Tia Eron, do REPUBLICANOS. Esses
apontamentos raciais estão apresentados no gráfico a seguir.

A idade daqueles(as) que conseguiriam cadeira no parlamento com o distritão


tem uma variação entre 35 e 76 anos, com uma média de idade de 56,3 anos,
sendo que todos que estão acima dessa idade (34 postulantes) são homens,
o que reflete um majoritário e conservador voto no sexo masculino. Por outro
lado, entre os nomes que perderiam, há uma média menor, de 50,6 anos,
tendo uma variação maior entre 29 e 76 anos. Além disso, 25% das mulheres
que estão nessa lista proporcional estão acima dessa média de idade, o que
resulta numa maior representatividade de gênero também na classificação
etária.
Figura 8 – divisão racial em voto proporcional Figura 9 – divisão racial em voto distritão
na camara federal - eleição 2018 na camara federal - eleição 2018

Fonte: QCP (2021) Fonte: QCP (2021)

52
Assim, o que se apresenta, no caso de adoção do distritão, é o aumento da
força dos maiores partidos, principalmente do Centrão, com a dificuldade dos
menores e novas agremiações em angariar cadeiras, além da diminuição da
diversidade ideológica e social. Aumentam-se também os aspectos
personalistas, diminuindo a importância e responsabilidade do programa
partidário, conservando algumas figuras no poder. Entre os estados, alguns
casos podem deixar mais evidente essa diferença, principalmente aqueles que
possuem maior número de cadeiras a deputadas e deputados federais.

Em São Paulo, por exemplo, sairiam seis homens brancos e 1 preto, além de 1
mulher (com partidos que variam da esquerda para a direita, quais sejam,
PCdoB, NOVO, MDB, PSL, PT e PODEMOS), para a entrada de 7 homens
brancos (DEM, PP, PSD, 3 do PSDB e PSB).

O Rio de Janeiro tem um caso ainda mais emblemático: perderiam a vaga 6


homens brancos e 3 homens pretos, além de 2 mulheres, sendo 1 parda e 1
branca, dos seguintes partidos: PSL (3), PSDB (1), PDT (2), PROS (1), AVANTE
(1) e PHS (1). A substituição se daria, em caso de mudança, para a entrada de
7 homens brancos e 2 homens pardos, além de 1 mulher branca, dos
seguintes partidos: REPUBLICANOS (3), DEM (2), PR (2), MDB (1),
PROGRESSISTAS (1) e PSDB (1), ou seja, aumentar-se-iam as cadeiras do
Centrão e perder-se-iam as renovações.

53
Minas Gerais é também outro estado que seguiria os mesmos aspectos.
Perderia 4 homens brancos e 1 preto e 2 mulheres brancas dos seguintes
partidos: PSL (3), AVANTE (2), PMN (1) e PHS (1). Suas vagas seriam
substituídas por 6 homens e 1 mulher, todos(as) brancos(as), dos partidos:
PSDB (2), PROGRESSISTAS (2), PODE (1) e DEM (1).

Outro ponto importante a ser analisado são as distintas ocupações entre


parlamentares, caso houvesse mudança no sistema eleitoral. As profissões
devem ser analisadas com cautela, pois nem sempre guardam semelhança com
a atuação prática da pessoa em questão. Muitas e muitos já estão há tanto
tempo ocupando cargos públicos que já se consideram políticas e políticos
profissionais, independentemente de qualquer formação ou ocupação. Não
raro, as categorias se mesclam. No entanto, são úteis em perspectiva
comparada, uma vez que permitem observar: bases eleitorais com potencial
para captação de votos, os perfis de quem entra e quem sai e até a diversidade
de ocupações representadas.

Conclusões mais acabadas exigiriam uma análise mais detalhada da figura de


cada uma. Algumas profissões, por exemplo, como “empresário(a)”, são amplas
o suficiente para abarcar diversos tipos de atuação; outras, como
“advogado(a)”, são bem populares e, no geral, dizem pouco sobre a figura. Não
por acaso, ambas aparecem com grande frequência, tanto na simulação quanto
no resultado pelo sistema proporcional.

Alguns aspectos interessantes saltam aos olhos, no entanto. É o caso de


profissionais do setor que chamaremos aqui, amplamente, como Segurança
Pública, que abarca as polícias do âmbito federal e estadual e as Forças

54
Armadas. Dentro dos 64 nomes que foram eleitos em 2018, mas não o seriam
pelo distritão, 7 apresentavam esse perfil, provavelmente na esteira do discurso
do então candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Na simulação, no entanto,
não seria eleito nenhum nome vinculado a essa categoria. Isso pode significar
um padrão de votos mais concentrado, por ser de uma classe corporativa, cuja
potência se esvai caso o critério seja o voto majoritário.

Outro ponto a ser notado é o ligado ao âmbito religioso: tanto nas eleições
realizadas quanto na simulação feita, as figuras ligadas, de alguma maneira, a
religiões – em aspecto amplo – são expressivamente representadas. Talvez o
que seja válido notar em pesquisas futuras é, dentro dessa categoria, quais os
perfis da atuação desses(as) candidatos(as).

O que fica mais patente ao examinarmos os resultados pela perspectiva das


ocupações é a expressividade de um conjunto de pessoas que podem ser
denominadas, amplamente, “comunicadoras”. São nomes bastante conhecidos
com potencial imenso de captação de votos: radialistas, apresentadores e
apresentadoras, cantores e cantoras, familiares de pessoas famosas, repórteres,
líderes de igrejas com grande alcance, entre outros. Obviamente, o sistema
proporcional também é permeável a essas figuras; mas, uma vez que as regras
do distritão só privilegiam a quantidade de votos, não é de se espantar que
essas pessoas sejam quase imbatíveis na disputa; nesse sentido, fica nítida a
crítica ao efeito corrosivo que a lógica do voto majoritário impõe ao tipo de
democracia que queremos defender.

55
A inclusão das variáveis “Seguidores(as) no Instagram” e “Seguidores(as) no
Twitter”, medidas pelas respectivas quantidades de seguidores(as), foi uma
tentativa de captar o poder e influência das redes sociais nas eleições13. Um
dos argumentos utilizados contra o sistema proporcional é que, ao transferir o
excedente de votos de um nome para outros do partido, seriam eleitas pessoas
desconhecidas pelo(a) eleitor(a) e que, assim, a vontade popular não seria
respeitada. Uma vez que o distritão, em oposição, só elege os/as mais
votados(as), faria sentido que uma atuação expressiva nas plataformas de
internet se traduzisse em cadeiras ganhas. Os resultados estão expressos nos
anexos 1 e 2. Já é possível notar que, em termos quantitativos, o Instagram
possui uma aderência maior do que o Twitter.

Os dados indicam que quem se elegeria pelo distritão não possui, no geral, um
número de seguidores(as) maior do que quem perderia em ambas as
plataformas, como poderíamos supor. Pelo contrário, a candidata com maior
número de seguidores(as), Lauriete, com 1.600.000 no Instagram, não seria
eleita pelo distritão. Foi, no entanto, pelo voto proporcional.

Para o grupo que perderia, a média de seguidores(as) no Instagram é de


83.337 e, no Twitter, de 34.254. Já o conjunto que ganharia apresenta média
de 11.416 seguidores(as) no Instagram e 5.445 no Twitter. Isso poderia
indicar que, em termos de atividades nas redes, os candidatos e candidatas

13 Antes de analisar os resultados, já adiantamos as limitações dessa estratégia: o número


de seguidores(as), principalmente dos perdedores(as) (ou que não seriam eleitos(as) pelo
distritão) foi coletado após o pleito e pode ter se alterado significativamente desde que
os/as candidatos(as) tomaram posse.

56
efetivamente eleitos(as) pelo proporcional são muito mais populares do que
os/as que ganhariam pelo majoritário. Não podemos, no entanto, nos
apressar: a grande amplitude dos valores pode explicar uma média maior para
quem foi eleita e eleito pelo voto proporcional (ou um possível “Efeito
Lauriete”, ou seja, uma candidata com número de seguidores(as) muito grande
que eleva a média).

Desse universo de 64 que embasam as análises, os 5 nomes eleitos pelo


proporcional mais populares no Instagram possuem uma quantidade de
seguidores(as) que vai de 149.000 a 1.600.000; em contraponto, os/as 5
mais populares, que seriam eleitos(as) pelo distritão, de 39.900 a 76.100. No
Twitter, esses valores vão de 73.900 a 917.000, para o primeiro grupo, e de
10.800 a 99.900, para o segundo. Interessante também constatar que, dentro
do conjunto de vencedores(as) pelo distritão, um número considerável não
possui nem Instagram, nem Twitter; no caso dos(as) vencedores(as) pelo
proporcional, a quantidade de quem não ingressou nas redes é bem menor.
A amostra é muito pequena para permitir inferências e é evidente que a
popularidade nas redes sociais é apenas uma dimensão do poder de alcance
dessas figuras. Muitos(as) que denominamos “comunicadores(as)”, que teriam
sucesso pela fórmula majoritária, são populares por outros meios, como rádio
ou televisão. No entanto, os números coletados evidenciam maior visibilidade,
pelo menos nessas plataformas, dos nomes eleitos pelo sistema proporcional,
enfraquecendo a tese de que essa fórmula alçaria ao poder ilustres
desconhecidas e desconhecidos à população.

57
Por fim, os dados da categoria “Experiência Política”14 corroboram o
argumento de que a adoção do distritão favorece figuras de carreiras
consolidadas, de faixa etária avançada e dentro do perfil que sempre dominou
a cena política. Basta reparar que, enquanto, entre os/as 64 eleitos(as) pelo
voto proporcional, 14 tiveram sua primeira filiação antes de 2000, entre o
mesmo número de vencedores(as) na simulação do distritão esse número
subiu para 2515. Mais um indicativo para engrossar o coro de que esse sistema,
a despeito de sua simplicidade, vai na contramão da diversidade e da
renovação política.

14 Essa categoria é mensurada pelo ano da primeira filiação da pessoa a um partido político.
15 Nesse sentido, o caso do PSDB, partido que mais assentos ganharia segundo os resultados
da simulação, é emblemático. Das 12 vagas que iriam ser conquistadas, 8, ou 66%, estariam
com políticos(as) cuja primeira filiação partidária ocorreu há mais de 20 anos, sendo que a
data mais antiga é 1981.

58
Mas como os partidos poderiam se
posicionar? Como ainda podemos
melhorar a representação do
nosso sistema eleitoral?
Nenhum sistema eleitoral está isento de falhas e distorções na representação
e isso deve estar claro para todas e todos que chegaram até aqui. Da mesma
forma, apenas o sistema eleitoral não pode ser responsável por corrigir os
diferentes conflitos do regime democrático, quando diversos outros fatores
estão interligados na dinâmica do poder na sociedade: igualdade econômica,
acesso a recursos, dinâmicas dos partidos e história política. Esse fato fica
ainda mais evidente quando o momento é de desconfiança e crise
institucional de quem dá as cartas politicamente, dado que mudanças sempre
trarão consequências imprevistas.

O argumento segue a mesma recomendação de que uma reforma política com


mudanças estruturais seja concebida para um horizonte mais amplo do que o
pleito do ano posterior. Essa constatação é evidente no vasto conjunto de
materiais produzidos nos últimos anos, como pode ser ilustrado na Audiência
Pública da Câmara em 2016 – todas e todos os especialistas ali concordavam
com esse argumento. Hoje, após anos turbulentos de ataque à democracia, é

59
imprescindível que o processo eleitoral busque a renovação do espírito
democrático e acordos comuns para a convivência do pluralismo, tendo uma
base sólida de segurança jurídica em 2022.

Tivemos, sim, avanços importantes e aperfeiçoamentos do sistema, aprovados


pelo Congresso Nacional, como a proibição do financiamento privado de
campanha, em 2015, e o fim das coligações para eleições proporcionais, em
2017, mas também tivemos o que podemos considerar como retrocessos,
também em 2017, e a flexibilização nas prestações de contas das campanhas,
em 2019, e o fim das propagandas partidárias gratuitas na televisão e no
rádio, apenas para citar os movimentos recentes. Ou seja, corrobora a tese de
que interesses pontuais podem minar um pensamento que mire problemas
mais estruturais do sistema. Sem dúvida, esse é o caso do distritão.

Como argumenta Nohlen (2018, apud FEITOSA DUARTE), o elemento


essencial para a caracterização de uma fórmula eleitoral não é o procedimento
adequado, mas seus efeitos observados na prática. Por mais intuitiva que seja
uma construção teórica – e o argumento do distritão é muito competente em
usar de uma simplicidade cativante para provar seu ponto –, a realidade é que
agentes se movimentam por cálculos de custo-benefício, visando
à autopreservação. Desse cálculo racional, frequentemente derivam
externalidades muito distantes da justificativa de resguardo da vontade
popular. É crucial verificar, então, para além do discurso, qual seria o potencial
do distritão para mitigar o que são entendidos como os principais problemas

60
do sistema representativo e, mais importante, detectar quais outras implicações
não previstas surgirão de uma adesão automática ao modelo.

Uma primeira reflexão fala sobre em que medida o remédio prescrito é o mais
adequado ao diagnóstico realizado. Conforme expôs Carlos Melo16, na
ocasião das discussões de 2015, da maneira que foi proposta, a reforma
política se reduziu à forma eleitoral; os problemas apresentados pelo nosso
sistema político não passam unicamente pela eleição, mas também pelo modo
como é construída a governabilidade e as maiorias no Congresso. Outras
normatizações, como regras de financiamento de campanha ou mesmo a
composição da magnitude dos distritos, ficaram à margem ou, pelo menos,
não foram tratadas de forma conjunta no debate. Em resumo: creditar ao
sistema proporcional todas as disfunções da representação brasileira é um
raciocínio, no mínimo, ingênuo e, no extremo,
mal-intencionado.

Na tentativa de antecipar impactos da adoção desse modelo que escapem à


teoria, olhar para fora pode ser esclarecedor. O simples fato de apenas 2% das
democracias adotarem o Sistema Eleitoral do Votos Únicos Não Transferíveis
em seus pleitos, como vimos anteriormente, já é sintomático das suas
limitações e de seu potencial para distorções. É bastante intuitivo acreditar

16 O Estado de São Paulo. Reforma Política. Disponível em: https://infograficos.estadao.


com.br/politica/reforma-politica/. Acesso em 16 de maio de 2021.

61
que, caso o distritão representasse, de fato, todas as virtudes que advoga, seria
amplamente adotado em outras democracias. Pontos como a grande
quantidade de votos desperdiçada e o predomínio de interesses de partidos
dominantes ficaram patentes nas experiências trazidas, como Afeganistão e
Japão.

O caso do Afeganistão é de particular interesse, uma vez que o país, à


semelhança do que é proposto para o Brasil, apresenta distritos de alta
magnitude: por lá, registrou-se um grande número de candidaturas e um
resultado de eleitos com percentual muito baixo de votos em relação ao total
(REYNOLDS; CAREY, 2012, p. 4; 7-8). Esse resultado já antecipa o que
poderia acontecer em distritos como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais;
independentemente do tipo de sistema eleitoral adotado, a tendência é que,
em distritos de alta magnitude, sejam eleitos perfis com uma porcentagem
pequena de votos (FEITOSA DUARTE, 2018), o que pode comprometer a
legitimidade do processo.

Os desgostos e problemas do sistema político são conhecidos e disseminados


entre opinião pública e especialistas. Observando rapidamente os temas
discutidos em torno da reforma política, vemos alguns desses tópicos: os
privilégios da classe política, seus diferentes auxílios em face de uma
sociedade empobrecida pela crise econômica prolongada; a fragmentação
partidária e falta de representatividade, afastando a população da política, bem
como a inteligibilidade das regras eleitorais. Não são desafios fáceis de serem

62
superados. No entanto, é difícil crer que serão tratados apenas com mudanças
nas regras eleitorais.

A aproximação dos partidos com a sociedade e a reafirmação de sua


importância na mediação do governo, evitando dispersões e fisiologismos, são
um ponto importante para pensarmos em caminhos a serem traçados. No
entanto, não se pode mirar o futuro olhando para o passado: diferentes
especialistas argumentam que o padrão de relação entre cidadãs, cidadãos e
partidos não terá o mesmo conteúdo que nas décadas anteriores.

A sociedade mudou e os padrões de comunicação e criação de vínculos


também. A mudança na cultura política deve abarcar tanto o ambiente
institucional quanto aqueles externos às Câmaras legislativas, implicando que
os partidos adotem inovações e experiências nesses diálogos, aumentando a
democracia interna e a abertura para os movimentos emergentes. Nessa linha,
possuir mais permeabilidade para novos modelos institucionais de partido,
como Frentes e Movimentos enquanto forças capazes de concorrerem às
eleições, pode ser um sinal positivo dessa mudança. Da mesma maneira, a
implantação de reais mecanismos de participação da população e dos filiados
nas escolhas de quem sairá candidato(a) para qual cargo, as famosas prévias,
precisa ser resgatada e atualizada ao modelo de interação social hoje
predominante. Aqui, é importante que as inovações trazidas não sejam apenas
pró-forma, representando transformações, de fato, impactantes na redução dos
déficits de representatividade.
Diminuir privilégios e encarar com seriedade as insatisfações populares parece

63
ser necessário para que novas vozes adentrem na política institucional, o que,
na verdade, reforça a manutenção de sistemas eleitorais que valorizem a
capacidade de renovação dos quadros políticos, ao invés de consolidar
aqueles que já centralizam o poder. De todo modo, uma reforma política,
principalmente se pensada apenas em seu eixo eleitoral, dificilmente irá minar
os conflitos existentes na diversidade política. O descontentamento da
população com determinadas figuras de diferentes espectros ideológicos
reflete, na verdade, a diversidade das opiniões políticas no Brasil. Em outras
palavras, você pode não gostar de determinado(a) candidato(a), sua postura e
formas de pensar, mas não é alterando a regra eleitoral que você evitará que
essa pessoa esteja na Tribuna. Ou, se alterar, outra figura que lhe desagrada
estará lá, representando outra fração da sociedade. A solução para o
desencantamento com a política, por incrível que pareça, é mais política. Uma
política do dia a dia, que efetive mecanismos de acompanhamento contínuo
das atividades legislativas e que mantenha próximo(a) quem elege e quem é
eleita ou eleito, para além do que ocorre, geralmente em outubro, a cada dois
anos.

Quanto às reformas do sistema eleitoral, algumas novidades podem ser


pensadas para o futuro, como o sistema distrital puro e simples: aquele que
considera a particularidade territorial das regiões de cada município ou estado,
ou, ainda, um sistema distrital misto, que leve em conta esse aspecto
geográfico, mas que mantenha algum critério de proporcionalidade. Aqui, não

64
se estaria indo de encontro ao distritão, uma vez que o sistema distrital
apresenta grandes diferenças, já que as eleições majoritárias se dão num
espaço circunscrito muito menor e mais homogêneo do que cidades ou
estados inteiros, por exemplo. Nesse modelo de votação distrital misto, uma
parte dos eleitos emergiria dos distritos e outra, pela votação geral do estado
pelo qual o/a candidato(a) disputar a eleição em dois turnos. No primeiro
turno, todos(as) os/as candidatos(as), de todos os partidos, devem se
apresentar. No segundo, a disputa será entre os/as dois/duas mais votados(as)
em cada distrito. Contudo, mesmo esse modelo carece de advir com um
intenso debate sobre seus prós e contras, evitando estar calcado, como já
discutimos aqui, apenas nas eleições que se avizinham.

O importante de se frisar, e é uma das principais intenções dos esforços que


empreendemos até aqui, é que certos anseios com a representação política na
sociedade brasileira não serão sanados com a adoção de um ou outro modelo
eleitoral. O que não significa, e isso é tão importante quanto o primeiro ponto,
que nada deve ser mudado ou que efeito positivo algum surgiria de uma
alteração nas regras do jogo eleitoral vigente. O caminho é fazer com que as
ideias e inovações passem por um processo amplo de discussão na sociedade
civil e estejam baseadas em evidências suficientes de melhora na
representação popular e na diminuição das distorções advindas dessa relação.
Para isso, os exemplos internacionais que mobilizamos, os cálculos
empreendidos e as análises advindas deles, além dos argumentos de uma série

65
de especialistas, levam-nos a crer que o distritão não trará resultados positivos
nesse sentido. Na verdade, ele pode ir além de uma mera insuficiência
enquanto modelo, tendo o potencial de representar uma sinalização a
retrocessos no aparato democrático que acreditávamos, enquanto nação, já
termos superado.

66
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69
ANEXO 1 – Tabela de “vencedoras e vencedores”:
candidaturas a deputada(o) federal que seriam eleitas pelo distritão em 2018
NOME Estado Partido Gênero Classificação Raça Profissão Seguidores(as) Seguidores(as) Experiência
Etária Twitter Instagram Política

FABIANO MG CIDADANIA Homem 47 Branco Advogado 2.096 14.600 2004 - PPS


TOLENTINO

JORDY PA CIDADANIA Homem 62 Pardo Funcionário 8.743 9.161 1986 - PCB


público

ALELUIA BA DEM Homem 73 Branco Engenheiro 20.300 7.951 1990 - PFL


eletricista, prof.
universitário

DR ANIBAL CE DEM Homem 67 Pardo Cirurgião-dentista, 1989 - PSDB


agropecuarista

ALVARO MG DEM Homem 50 Branco Repórter e 99.900 76.100 2012 - PSB


DAMIÃO DA apresentador
ITATIAIA

MARCOS RJ DEM Homem 42 Branco Advogado e 136 17.600 2006 - PDT


SOARES sobrinho de
Edir Macedo

LAURA RJ DEM Mulher 57 Branca Advogada 2.936 11.000 1989 - PFL


CARNEIRO

MISSIONARIO SP DEM Homem 64 Branco Comerciante, 4.647 1982 -


JOSE OLIMPIO ligado à Igreja PMDB
Mundial do
Poder de Deus

LELO COIMBRA ES MDB Homem 66 Branco Sanitarista 6.516 1995 -


PMDB

LEONARDO RJ MDB Homem 41 Branco Bacharel em 10.700 2002 -


PICCIANI Direito PMDB

VALDIR SC MDB Homem 71 Branco Técnico 7.952 39.800 1998 -


COLATTO agropecuário e PMDB
engenheiro
agrônomo

DRA EMILIA SE PATRI Mulher 58 Branca Advogada, 2.551 42.000 2012 -


CORREA comunicadora de DEM
rádio e TV,
defensora pública

70
RONALDO AL PDT Homem 52 Branco Engenheiro Civil 329 29.400 1982 -
LESSA PMDB

PROFESSOR DF PODE Homem 47 Pardo Prof. Ens. 3.017 13.500 2014 - PSB
PACCO Superior,
palestrante

BRUCE MG PODE Homem 35 Branco Advogado e 89 3.521 2018 -


MARTINS empresário PODEMOS

ANA PAULA MG PP Mulher 55 Branca Produtora 2.494 7.091 2018 - PP


agropecuária

RENATO MG PP Homem 50 Branco Bispo, pastor, 743 5.672 2004 - PP


ANDRADE advogado,
empresário,
agropecuarista

JULIO LOPES RJ PP Homem 62 Branco Administrador 1.779 19.200 2014 - PP

ARNALDO SP PP Homem 75 Branco Advogado, 883 10.900 2006 - PP


FARIA DE SA contabilista,
radialista,
professor

LAZARO TO PP Homem 74 Branca Agropecuárista 302 2018 - PP


BOTELHO

ANTONIA AC PR Mulher 50 Pardo Empresária e 2.494 7.091 2018 - PP


LUCIA economista, bispa
Assembléia de
Deus

PATRICIA AP PR Mulher 45 Branca Dentista 9.190 26.700 2014 - PSC


FERRAZ

MARCÃO RJ PR Homem 46 Branco Servidor Público 2012 - PT


GOMES Federal

DICA RJ PR Homem 62 Branco Advogado 12 1.189 1996 - PFL

JORGE SC PR Homem 59 Branco Empresário 48 2.323 2008 - PR


GOETTEN

JOÃO PE PROS Homem 41 Branco Administrador 12.900 2002 - PSB


FERNANDO
COUTINHO

ODORICO CE PSB Homem 59 Branco Médico, professor, 5.169 2014 - PT


pesquisador

LUIZ LAURO SP PSB Homem 42 Branco Publicitário 3.666 4.828 2013 -


FILHO PSDB

71
PAULO BA PSD Homem 68 Branco Administrador 108 2.077 1991 -
MAGALHÃES PFL

NEUCIMAR ES PSD Homem 54 Pardo Administrador 1.738 9.257 2000 -


FRANGA PST

EVANDRO PR PSD Homem 48 Branco Professor, ex 2.849 10.100 2014 -


ROMAN árbrito PSD

DR. ELEUSES SP PSD Homem 67 Branco Médico, professor 2.655 7.935 2008 -
PAIVA universitário DEM

CONCEIÇÃO AM PSDB Mulher 55 Parda Radialista, 862 10.600 2004 -


SAMPAIO apresentadora de PTdoB
TV

IMBASSAHY BA PSDB Homem 73 Branco Engenheiro 8.077 1990 -


eletricista PFL

JEAN CARLO GO PSDB Homem 44 Branco Advogado 10.400 2010 - PPS

FABIO SOUSA GO PSDB Homem 38 Branco Bispo, historiador, 10.800 49.900 2004 -
teólogo e PSDB
jornalista

MARCUS MG PSDB Homem 60 Branco Economista e 20.700 2006 -


PESTANA professor PSDB

CARLOS MG PSDB Homem 76 Branco Professor e 32 2.069 1983 -


MOSCONI médico MDB

GERALDO MS PSDB Homem 66 Branco Médico 5.499 3.326 1981 -


RESENDE obstetra MDB

OTAVIO LEITE RJ PSDB Homem 59 Branco Advogado 8.664 4.634 1992 - PDT

MARCO SC PSDB Homem 63 Branco Engenheiro 5.848 1992 -


TEBALDI in memoriam PSDB

MIGUEL SP PSDB Homem 63 Branco Advogado 367 4.155 1982 -


HADDAD MDB

CARLOS SP PSDB Homem 53 Branco Médico 51.700 63.800 2000 -


BEZERRA JR PSDB

LOBBE NETO SP PSDB Homem 63 Branco Biomédico 942 1982 - PMDB

TIÃO AC PSL Homem 67 Branco Prof. Ens. Médio 800 7.736 1998 -
BOCALOM Matemática PSDB

VICTORIO GALLI MT PSL Homem 60 Branco Prof. Ens. Médio 146 4.361 2006 - PMDB

JOSEILDO BA PT Homem 63 Pardo Agrônomo 4.472 16.000 1998 -


RAMOS PT

72
MERLONG PI PT Homem 62 Branco Prof. Ens. Superior 3.247 10.200 2010 - PT
SOLANO Economista

MINEIRO RN PT Homem 64 Branco Professor 12.600 2089 - PT

ANA PAULA SC PT Mulher 57 Branca Enfermeira 4.475 3.917 2002 - PT


LIMA

MARCIO SE PT Homem 50 Branco Biólogo e 9.854 11.200 2010 - PT


MACEDO professor

SANTINI RS PTB Homem 47 Branco Advogado 5.865 2006 - PTB

RONALDO RS PTB Homem 55 Branco Administrador e 1993 - PTB


NOGUEIRA pastor da
Assembléia de
Deus

TIA ERON BA REPUBLICANOS Mulher 48 Preta Deputada 4.506 1.6200 2001 - PFL

RONALDO CE REPUBLICANOS Homem 43 Branco Apresentador 274 35.500 2000 - PL


MARTINS Cidade Alerta,
cantor gospel

JORGE BRAZ RJ REPUBLICANOS Homem 67 Branco Bispo IURD 1.656 16.900 2000 - PPB

BENEDITO RJ REPUBLICANOS Homem 63 Pardo Deputado 5 2014 -


ALVES PMDB

DEJORGE RJ REPUBLICANOS Homem 46 Pardo Empresário 60 1.442 2004 - PL


PATRICIO

AIRTON RR REPUBLICANOS Homem 57 Branco Empresário 6.747 1998 - PPB


CASCAVEL

SIMPLICIO MA SD Homem 52 Branco Analista de 5.427 17.700 1998 - PSC


ARAUJO sistemas

KAIO PE SD Homem 37 Branco Empresário 85 2014 - PHB


MANIÇOBA

MARCIO PR SD Homem 48 Branco Empresário 3.088 10.400 2012 - PDT


PAULIKI

TIZIU JIDALIAS RO SD Homem 51 Preto Empresário 3.088 10.400 2006 -


PMDB

73
ANEXO 2 - tabela de “perdedoras e perdedores”: candidaturas a
deputado(a) federal eleitas em 2018 que não venceriam pelo distritão
NOME Estado Partido Gênero Classificação Raça Profissão Seguidores(as) Seguidores(as) Experiência
Etária Twitter Instagram Política

JESUS SERGIO AC PDT Homem 47 Pardo Professor 480 2.967 2012 - PDT

PASTOR AC PRB Homem 49 Pardo Pastor 1.373 2008 - PRB


MANUEL
MARCOS

TEREZA NELMA AL PSDB Mulher 63 Branca Psicóloga 378 15.100 2000 - PSB

BOSCO AM SD Homem 61 Pardo Empresário 3.508 18.500 1998 - PSL


SARAIVA

LEDA SADALA AP AVANTE Mulher 54 Parda Contadora 1.505 3.515 2015 -


PCdoB

ALEX BA PDT Homem 48 Branco Corretor de 539 12.200 2016 -


SANTANA imóveis e pastor PHS

IGOR BA PHS Homem 36 Pardo Cantor de 106.800 847.000 2013 -


KANNARIO Pagode PHS

PASTOR ABILIO BA PHS Homem 56 Preto Pastor 11.400 44.400 2003 -


SANTANA PRP

TITO BA AVANTE Homem 44 Branco Advogado 729 14.800 2000 - PSDB

RAIMUNDO BA PRP Homem 60 Pardo Pescador e 5.237 1999 - PP


COSTA administrador

JUNIOR MANO CE Patriota Homem 36 Pardo Empresário 639 27.400 2007 - PRB

DR JAZIEL CE PR Homem 60 Branco Médico 26.600 2004 - MDB

VAIDON CE PROS Homem 46 Pardo Comerciante 242 5.699 2012 -


OLIVEIRA PSDC

CELINA LEÃO DF PP Mulher 44 Branca Administradora 7.232 62.000 2005 - PSDB

LAURIETE ES PR Mulher 51 Branca Cantora 3.479 1.600.000 2005 - PSDB

EVAIR DE MELO ES PP Homem 49 Branco Agrônomo 4.671 13.200 2003 - PSDB

JOSE NELTO GO PODEMOS Homem 60 Branco Advogado 3.626 30.900 1978 - MDB

MAJOR VITOR GO PSL Homem 43 Pardo Militar 258 149.000 2018 - PSL
HUGO

74
PATOR MA PMN Homem 49 Pardo Sarcedote 258 1.183 1998 - PFL
GILDENEMYR

FRANCO MG PHS Homem 34 Branco Empresário 3.949 13.200 2012 - PHS


CARTAFINA

CHARLLES MG PSL Homem 36 Branco Servidor público 3.029 23.500 2011 - PP


EVANGELISTA e empresário

LEO MOTTA MG PSL Homem 47 Preto Cantor 15.400 6.466 1991 - PTC

LUIS TIBE MG AVANTE Homem 49 Branco Empresário 11.600 13.200 2000 - PGT

ALE SILVA MG PSL Mulher 46 Branca Advogada 146.400 61.300 2018 - PSL

GREYCE MG AVANTE Mulher 39 Branca Advogada e 598 26.800 2003 - PFL


ELIAS produtora rural

ZE VITOR MG PMN Homem 36 Branco Engenheiro 622 1.296 2007 - PDT

DAGOBERTO MS PDT Homem 65 Branco Advogado e 2011 - PP


administrador

JUAREZ COSTA MT MDB Homem 61 Pardo Empresário 7 6.577 2001 - MDB

EDUARDO PA PTB Homem 53 Branco Médico 1.207 2002 - PST


COSTA

TADEU PE PSB Homem 58 Branco Procurador, 1.013 18.600 2007 - PSB


ALENCAR bancário e escritor

FERNANDO PE PHS Homem 37 Pardo Jornalista 455 2003 - PL


RODOLFO

ATILA LIRA PI PSB Homem 74 Branco Economista e 1.013 18.600 2007 -


administrador Arena

ENIO VERRI PR PT Homem 60 Branco Economista 44.500 28.700 1985 - PT

AROLDO PR PRB Homem 59 Branco Comunicólogo 2.679 12.600 2016 - PRB


MARTINS e bispo

ALINE PR PSL Mulher 41 Branca Agente 59.100 45.000 1998 - PSL


SLEUTJES administrativa

CHRIS RJ PSL Mulher 29 Parda Advogada 62.400 62.800 2018 - PSL


TONIETTO

ALEXANDRE RJ PSDB Homem 45 Branco Médico 1.952 9.298 1999 - PPS


SERFIOTIS

CLARISSA RJ PROS Mulher 38 Branca Jornalista 15.200 25.900 1999 - PDT


GAROTINHO

75
PROFESSOR RJ PSL Homem 55 Preto Militar 3.217 22.300 2003 -
JOZIEL PSDC

DANIEL RJ PSL Homem 38 Branco Policial militar 3.530 2018 -


SILVEIRA PSL

GELSON RJ PHS Homem 56 Branco Empresário 316 4.071 2018 -


AZEVEDO PSL

CHICO D RJ PDT Homem 68 Branco Médico e 17.300 5.187 1989 -


ANGELO sindicalista PT

CHIQUINHO RJ AVANTE Homem 59 Branco Comerciante e 1.022 10.300 2003 -


BRAZAO empresário MDB

PAULO RAMOS RJ PDT Homem 76 Branco Militar reformado 1.798 21.600 1980 -
e advogado PMDB

JEAN WYLLYS RJ PSOL Homem 47 Preto Jornalista e 917.000 554.000 2009 -


professor PSOL

FABIO FARIA RN PSDB Homem 43 Branco Administrador 247.600 436.000 2005 -


PMN

CORONEL RO PSL Homem 61 Pardo Militar e 365 7.811 2005 -


CHRISOSTOMO engenheiro PRN

JOENIA RR REDE Mulher 48 Indígena Advogada 11.800 38.400 2017 -


WAPICHANA REDE

LIZIANE BAYER RS PSB Mulher 40 Branca Pastora 3.176 16.100 2013 - PSB

NEREU CRISPIN RS PSL Homem 57 Branco Empresário 3.936 4.789 2018 - PSL

RICARDO GUIDI SC PSD Homem 43 Branco Produtor rural e 12.200 438 2014 - PPS
Empresário

CORONEL SC PSL Homem 63 Branco Militar reformado 3.431 13.100 2018 - PSL
ARMANDO

RODRIGO SC PSB Homem 40 Branco Advogado 7.235 33.800 2012 - PDT


COELHO

GILSON SC NOVO Homem 40 Branco Advogado 29.600 18.300 2017 -


MARQUES NOVO

VALDEVAN SC NOVO Homem 51 Branco Advogado 29.600 18.300 2017 -


NOVENTA NOVO

FABIO SE PSC Homem 48 Branco Policial 23.300 2003 -


HENRIQUE rodoviário PDT

ALENCAR SP PT Homem 45 Branco Advogado 15.500 7.430 1998 -


SANTANA PT

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ORLANDO SP PCdoB Homem 49 Preto Liderança 73.900 29.000 1989 -
SILVA política PCdoB

ADRIANA SP NOVO Mulher 52 Branca Administradora 23.700 17.900 2017 -


VENTURA NOVO

ROBERTO DE SP PODEMOS Homem 55 Branco Pastor 3.500 82.900 2009 - PV


LUCENA

HERCULANO SP MDB Homem 64 Branco Empresário 2.410 3.686 2000 - PV


PASSOS

ALEXIS SP NOVO Homem 53 Branco Empresário 22.400 2018 -


NOVO

GUIGA SP PSL Homem 59 Branco Administrador 16.700 12.200 2016 -


PEIXOTO PSC

CELIO MOURA TO PT Homem 67 Branco Advogado 5.427 3.549 1980 - PT

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