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NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA

INTRODUÇÃO

Falar sobre o novo acordo ortográfico implica saber que em


termos históricos já se fizeram várias tentativas de unificação da
ortografia da língua portuguesa, sendo que a primeira data de 1911,
que culminou em Portugal na primeira grande reforma. Depois
existiram várias tentativas, sendo a mais importante a de 1990 que
é a que está por trás de tudo levantado atualmente sobre esta
questão.

Quando vai entrar em vigor este novo acordo ortográfico?

É certo que, em 2004, se estabeleceu num protocolo modificativo,


celebrado com intervenção dos representantes de todas as partes
em questão, que bastaria o depósito da ratificação por três dos
países intervenientes para o Acordo se considerar em vigor.

Mas essa estipulação consubstancia um clamoroso falhanço


diplomático e jurídico.

Não se vê em que é que ela tenha o poder mirífico de dispensar a


ratificação nos países em que não ocorreu e muito menos de suprir
a falta dela!

E que se saiba, nem sequer esse expeditivo protocolo foi aprovado


ou ratificado nas Repúblicas da Guiné-Bissau, de Angola e de
Moçambique.

Os sete Estados intervieram em pé de igualdade na celebração do


Acordo e do protocolo.

Se o protocolo modifica uma convenção internacional sujeita a


ratificação, terá de ser ratificado por todos.

Tanto é assim, que o ponto 3 do Protocolo Modificativo, não


obstante a sua absurda pretensão de obrigar sete pela ratificação
de apenas três, prevê expressamente o depósito pelos Estados dos
“instrumentos de ratificação ou documentos equivalentes que os
vinculem ao Protocolo”!
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Nem procede a argumentação do Prof. Vital Moreira quando diz,


quanto ao Acordo, nada impedir que "posteriormente uma parte dos
Estados acordem entre si que ele passe a vincular aqueles que o
ratifiquem (desde que sejam pelo menos três) sem esperar pelos
outros".

Esta posição não é admitida nem pela letra nem pelo espírito do
Protocolo.

Não é pela letra, porque na sua celebração intervieram os sete


Estados e porque o objectivo absolutamente claro é o de vincular
todos os Estados subscritores e não apenas três...

Não o é pelo espírito porque, admitir, sequer como hipótese, que


três países que ratificaram passem a adoptar uma grafia, “sem
esperar pelos outros”, e esses outros continuem com uma grafia
diferente, seria atraiçoar o próprio desígnio essencial que tinha sido
contemplado.

Por outras palavras, tratar-se-ia de negar a ambição da projecção


geral do Acordo e da ortografia que ele quer fazer adoptar no
espaço da língua portuguesa!

Sendo assim, só uma conclusão se impõe: os Estados ratificantes


têm de esperar pelos outros até o Acordo se encontrar em
condições de entrar em vigor!

Sempre seria, de resto, uma ofensa chocante ao princípio da plena


igualdade entre os Estados, que hoje rege as relações
internacionais, considerar-se que os mais pequenos ou, a qualquer
título, menos significativos, não contam e devem ser forçados a
aceitar a dispensa da aplicação dos seus próprios mecanismos
constitucionais…

De maneira que tudo o que o Governo está a fazer no tocante à


aceleração da aplicação do Acordo Ortográfico, em especial a
aprovação do protocolo modificativo em questão, não só não tem o
condão de pôr o Acordo Ortográfico em vigor, como abre a porta à
inconstitucionalidade.

Não por propor a aprovação, o que, embora muito discutível,


corresponde a uma fase normal do processo.
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Mas porque, no art.º 2 da proposta se dispõe já substantivamente


quanto à aplicação do Acordo no prazo de seis anos após o
depósito do instrumento de ratificação, sem saber ainda se o
protocolo será ratificado pelos Estados que ainda o não fizeram.

Isto é, sem ter qualquer garantia de que o Acordo entrará em vigor


antes de decorrido esse prazo.

Pretende-se contar a partir da ratificação um prazo que só faria


sentido começar a contar a partir da entrada em vigor do Acordo!

Para quem tanto diz prezar a projecção universal da língua


portuguesa, aqui está uma medida tão apressada quanto violadora
do n.º 2 do art.º 8.º da Constituição...

A precipitação do Governo é também indiciada por outras


circunstâncias.

Diz ter consultado, através do Instituto Camões, “as diversas


entidades relevantes nesta matéria”.

Ora não consultou nenhuma Universidade portuguesa, nem o


Conselho de Reitores, nem a Associação Portuguesa de Escritores,
nem a Sociedade de Língua Portuguesa… e não sabe o que
pensam a APEL e a UEP.

E não estando o Instituto Camões sob a tutela do Ministério da


Educação, o aspecto mais singular deste caso é não haver qualquer
indício de a Ministra da Educação ter sido tida ou achada em
matéria de tamanha importância.

Tanto mais que a Senhora Ministra teve várias reuniões de trabalho


ao longo de 2007, com os editores de livros escolares, sobre os
manuais a produzir a partir de 2010, e nunca a questão do Acordo
Ortográfico foi referida!

Sem contar que, no arquivo do seu ministério, existe sem dúvida o


parecer negativo que a Direcção-Geral do Ensino Básico e
Secundário oportunamente deu ao Acordo.

E ainda hoje foi distribuída nesta sala a posição da Associação


Portuguesa de Linguística em resposta à consulta do Instituto
Camões cuja conclusão convém reproduzir aqui, pois recomenda:
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“1. Que seja de imediato suspenso o processo em curso, até uma


reavaliação, em termos de política linguística, cultural e educativa,
das vantagens e custos da entrada em vigor do Acordo Ortográfico
de 1990.

2. Que, a manter-se o texto actual do Acordo, Portugal não ratifique


o Segundo Protocolo Modificativo.”

Atualização: O novo Acordo Ortográfico entrou em vigor em


Janeiro de 2009 em Portugal, mas até 2015, decorre um período

Quanto à questão da entrada em vigor do Acordo Ortográfico

Para o Acordo Ortográfico vigorar na ordem interna portuguesa não


lhe bastam a aprovação parlamentar e a ratificação do Presidente
da República.

Tem de ter assegurada a sua vigência no ordenamento


internacional.

Em vários dos países intervenientes na negociação e conclusão do


Acordo, ainda não tiveram lugar a aprovação e a ratificação.

As respectivas leis fundamentais prevêem princípios semelhantes


ao do nº 2 do art. 8º da nossa Constituição.

Em qualquer desses Estados, segundo os princípios gerais de


Direito Constitucional, é forçoso entender-se que “os requisitos
constitucionais de ratificação e/ou aprovação são requisitos de
validade do tratado”.

Não sendo pois o Acordo ainda válido nesses países, não se vê


como se pode sustentar que ele vigora no ordenamento
internacional.

E não estando em vigor no ordenamento internacional, ainda menos


se vê como há-de estar em vigor no nosso país…

e transição, durante o qual ainda se pode utilizar a grafia atual.

O que muda, afinal com o novo acordo ortográfico?


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O alfabeto português passará de 23 para 26 letras, com a inclusão


em definitivo do k (capa ou cá), do w (dáblio, dâblio ou duplo vê),
y (ípsilon ou i grego).

O uso de maiúsculas e minúsculas obedece a novas regras:

1. os meses do ano e os pontos cardeais deverão ser escritos


em minúsculas (janeiro, fevereiro e norte, sul, etc.).
2. poder-se-á usar maiúsculas ou minúsculas em títulos de
livros, no entanto a primeira palavra será sempre maiúscula
(Insustentável Leveza do Ser ou Insustentável leveza do
ser)
3. também é permitida dupla grafia em expressões de
tratamento (Exmo. Sr. ou exmo. sr.) em sítios públicos e
edifícios (Praça da República ou praça da república) e em
nomes de disciplinas ou campos do saber (História ou
história, Português ou português)

A supressão de consoantes mudas tal como o nome indica, vai


levar ao desaparecimento de consoantes, em que o critério para tal
é a sua pronúncia.

1. cc - ex.: transacionado, lecionar. Mantém-se em friccionar,


perfeccionismo, por se articular a consoante.
2. cç – ação, ereção, reação. Mantém-se em fricção, sucção.
3. ct – ato, atual, teto, projeto. Mantém-se em fato, bactéria,
octogonal.
4. pc – percepcionar, anticoncepcional. Mantém-se em
núpcias, opcional.
5. pç – adoção, concepção. Mantém-se em corrupção,
opção.
6. pt - Egito, batismo. Mantém-se em inapto, eucalipto.

Passam a ser suprimidos alguns acentos gráfico em palavras


graves: crêem, vêem, lêem passam a creem, veem e leem; pára,
pêra, pêlo, pólo passam a para, pera, pelo e polo. As palavras
acentuadas no ditongo oi e ei passam a ser escritas sem acento:
estoico, paleozoico, asteroide e boleia, plateia, ideia. Existe
também a supressão completa do trema(¨): aguentar (e não
agüentar), frequente (e não freqüente), linguiça (e não lingüiça).
Supressão do acento circunflexo em abençoo, voo, enjoo.

O uso do hífen vai ser suprimido em:


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1. palavras compostas em que o prefixo termina em vogal e o


sufixo começa em r ou s, dobrando essa consoante:
cosseno, ultrassons, ultrarrápido.
2. o prefixo termina em vogal diferente da incial do sufixo:
extraescolar, autoestrada, intraósseo.
3. formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo
haver: hei de, hás de.

O hífen emprega-se em:

1. palavras compostas onde a última vogal do prefixo coincide


com a inicial do sufixo, exceto o prefixo co- que se aglutina ao
sufixo iniciado por o: contra-almirante, micro-organismo,
coobrigação.
2. palavras que designam espécies da Biologia ou Zoologia:
águia-real, couve-flor, cobra-capelo.

Pode existir dupla grafia em algumas palavras?

Sim. Isso está previsto no novo acordo por existirem diferenças na


pronúncia de país para país assim temos:

característicacaraterística
intersecção interseção
infeccioso infecioso
facto fato
olfacto olfato
conceção concepção
súbdito súdito
amnistia anistia
amígdala amídala
súbtil sútil
académico acadêmico
ingénuo ingênuo
sénior sênior
cómico cômico
vómito vômito
fémur fêmur
abdómen abdômen
bónus bônus
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bebé bebê
puré purê
judo judô
metro metrô
andámos andamos

Argumentos a favor

- aproximação da oralidade à escrita

- simplicidade de ensino e aprendizagem

- unificação de todos os países de língua oficial portuguesa

- fortalecimento da cooperação educacional dos países da CPLP

- evolução da língua portuguesa

- pequena quantidade de vocábulos alterados (1,6% em Portugal e


0,45% no Brasil)

Argumentos contra

- evolução não natural da língua

- tentar resolver um “não-problema”, uma vez que as variantes


escritas da língua são perfeitamente compreensíveis por todos os
leitores de todos os países da CPLP

- desrespeito pela etimologia das palavras

- a não correspondência da escrita à oralidade. Por exemplo,


existem consoantes cuja função é abrir vogais, mas que o novo
acordo considera mudas nomeadamente em teto, passando a
escrever-se teto, dever-se-ia ler como teto (de seio)?

- processo dispendioso (revisão e nova publicação de todas as


obras escritas, os materiais didáticos e dicionários tornar-se-ão
obsoletos, reaprendizagem por parte de um grande número de
pessoas, inclusive crianças que estão agora a dar os primeiros
passos na escrita)

- o fato de não haver acordo, facilita o dinamismo da língua,


permitindo cada país divergir e evoluir naturalmente, pelas próprias
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pressões evolutivas dos diferentes contextos geo-sócio-culturais


como no caso do Inglês ou do Castelhano

- afeto com a grafia atual

- falta de consulta de e estudo do impacto das alterações

Em termos legais e jurídicos também parece haver falta de


consenso:

CITAÇÃO

«Vasco Graça Moura, escritor e tradutor premiado e deputado no Parlamento Europeu


(e ex-advogado), o mais conhecido dos detratores portugueses do Acordo, defende que
o Segundo Protocolo Modificativo, como qualquer outra convenção internacional, só
obriga à sua aplicação em cada país se for ratificado por todos os países signatários, o
que ainda não aconteceu. Ou seja, só depois de todos os países ratificarem este
Protocolo é que estes ficam obrigados a implementar o Acordo internamente caso este
seja ratificado por três países. A racionalidade jurídica dum tratado que obriga um
país a aprovar outro tratado caso este seja aprovado por países terceiros é disputada.
No entanto, o argumento da ilegalidade da ratificação do Protocolo modificativo de
2004 é contestado pelo jurista Vital Moreira[8].»

in Acordo Ortográfico de 1990 – Wikipédia, a enciclopédia livre

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