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PRESSUPOSTOS FILOSÓFICOS DO PRINCÍPIO DA JUSTIÇA E EQUIDADE:

ARISTÓTELES E RAWLS

Wilson Martins dos Santos1

Resumo

O presente trabalho é uma pesquisa bibliográfica exploratória, pois, tem como


objetivo apresentar conceitos sobre o princípio da equidade baseando-se nas
concepções de Aristóteles e Rawls. Após a elaboração de todo o embasamento
teórico Rawls procura através das instituições e por meio de sua objetividade a
justiça que é racionalmente compartilhada no convívio social. Os princípios de
justiça interligados a equidade não se aplicam diretamente ou regulam internamente
a sociedade, e sim, ajustam a sua estrutura básica, uma vez que se baseia em
metas, aspirações e no caráter dos cidadãos entendidos como objeto da justiça
política e social. Rawls busca um modelo de governo espelhando-se nos princípios
da liberdade e igualdade aos direitos e deveres dos cidadãos. Percebeu-se que
Aristóteles ao trabalhar o conceito de equidade, faz a comparação com a justiça,
concluindo que são a mesma coisa, contudo a equidade é a melhor. Portanto,
conclui-se que a equidade é a adequação da lei ao caso concreto, ou seja, se liga à
lei no sentido de corrigi-la no ato de sua aplicação ao caso fático, tendo em vista a
generalidade e abstração da vontade do legislador. Sendo assim, conclui-se o
presente trabalho que ambas as teorias aristotélicas e rawlsiana não são contrarias,
pois, estimular o ser humano a colaborarem entre si por meio da efetivação de suas
virtudes éticas.

Palavras-Chave: Igualdade. Liberdade. Sociedade. Ética. Moral.

1
Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade do Oeste de Santa Catarina, MBA em
Direito Civil e Processo Civil, advogado, e-mail: wilson@martinsdossantos.com.br,
wilsonadv.wmds@gmail.com
ABSTRACT

The present work is an exploratory bibliographical research, as it aims to present


concepts about the principle of equity based on the conceptions of Aristotle and
Rawls. After elaborating all the theoretical foundation, Rawls searches through
institutions and through his objectivity the justice that is rationally shared in social life.
The principles of justice linked to equity do not apply directly or internally regulate
society, but rather adjust its basic structure, as it is based on goals, aspirations and
the character of citizens understood as the object of political and social justice. Rawls
seeks a model of government mirroring the principles of freedom and equality to the
rights and duties of citizens. It was noticed that Aristotle, when working the concept
of equity, makes the comparison with justice, concluding that they are the same
thing, however equity is the best. Therefore, it is concluded that equity is the
adequacy of the law to the specific case, that is, it is linked to the law in order to
correct it in the act of its application to the factual case, considering the generality
and abstraction of the legislator's will. Thus, the present work concludes that both
Aristotelian and Rawlsian theories are not contrary, as they encourage human beings
to collaborate with each other through the realization of their ethical virtues.

Keywords: Equality. Freedom. Society. Ethic. Moral.

Sumário: 1 Introdução. 2 Desenvolvimento. 2.1 Conceitos, Princípios e Características da Teoria


da Justiça. 2.2 Princípio da Equidade Histórico e Aplicabilidade. 2.3 A Teoria da Justiça de John
Rawls. 2.4 A Teoria da Justiça como Equidade á Teoria Aristotélica da Justiça. 3 Conclusão.
Referências.

1 INTRODUÇÃO

O presente estudo busca fazer um comparativo entre os conceitos do


princípio da justiça e da equidade na visão de Aristóteles e John Rawls, bem como
avaliar as mudanças de perspectivas entre elas, em especial pelo lapso temporal
existente entre os dois renomados filósofos. A equidade confunde-se com a origem
do direito e da Justiça.
A diferença nos conceitos de equidade e justiça esta no que se refere ao justo
legal e ao justo natural, a justiça política compreende os dois conceitos, a parte
natural é aquela igual, aonde o homem não pensa ou age diferente e a legal é todas
as leis, decretos e prescrições. A equidade traz ao caso concreto a possibilidade de
corrigir eventuais equívocos cometidos pelo legislador, ou preencher lacunas que
sua atividade legislativa não conseguiu prever. Pode-se, considerá-la como um
elemento subsidiário à noção de justiça, mas que termina por lhe atribuir dinamismo
quando o intérprete se encontra diante de um caso concreto cuja solução não foi
prevista pela norma.
A teoria da justiça como equidade de John Rawls fundamenta-se na utilização
de dois princípios básicos que asseguram as liberdades individuais e a diminuição
das desigualdades sociais, legitimando a existência de uma sociedade democrática
(RAWLS, 1980). Nesse sentido, tais princípios auxiliam na manutenção da paz
social, de modo que a mediação enquanto política pública no tratamento de conflitos
é mecanismo facilitador do diálogo, resolvendo litígios de forma consensual e
prevenindo a ocorrência de outros conflitos.
Nesse contexto, a presente pesquisa é uma pesquisa bibliográfica
exploratória, uma vez que foram abordadas diversas teorias da justiça como base
para se conceber um significado objetivo para a teoria do desenvolvimento. O
método de procedimento teve como base no levantamento de referências
bibliográficas e documentais, consistentes em artigos científicos, livros, relatórios de
órgãos oficiais e estudos científicos diversos relacionados ao objeto de pesquisa.
O embasamento teórico foi elaborado de acordo a autores renomados como:
Bittar, Nedel, Pegoraro, Rawls, Ross, Silva, Silveira, Robledo, Taylor. A estrutura do
trabalho está composta pelos seguintes tópicos: Conceitos, Princípios e
Características da Teoria da Justiça. Princípio da Equidade Histórico e
Aplicabilidade. A Teoria da Justiça de John Rawls. A Teoria da Justiça como
Equidade á Teoria Aristotélica da Justiça.

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 CONCEITOS, PRINCÍPIOS E CARACTERÍSTICAS DA TEORIA DA JUSTIÇA

A partir do século XIII começou-se a discutir o que é justiça, e os primeiros


conceitos descreviam que justiça está relacionada ao direito do ser humano, cabe ao
Estado juntamente com o Poder Judiciários desenvolver ações jurisprudenciais que
façam tornar efetiva a justiça. Silva (1953) cita que pela expressão fazer justiça tem-
se o significado de aplicar uma pena cominada ou reconhecer uma virtude ou uma
qualidade em alguém ou em algo.
Não se pode descrever o conceito de justiça sem os princípios da teoria da
justiça igualdade e liberdade, estes estão relacionados aos direitos, obrigações,
deveres e benefícios. de acordo com Rawls (2000, p. 64):

A primeira formulação de tais princípios ainda é um esboço, no qual o


contrato é estruturado tomando por base dois princípios basilares de seu
sistema acerca de justiça, que são: 1) cada pessoa deve ter um direito igual
ao mais abrangente sistema de liberdades básicas iguais que seja
compatível com um sistema semelhante de liberdades para as outras. 2) as
desigualdades sociais e econômicas devem ser ordenadas de tal modo que
sejam ao mesmo tempo (a) consideradas como vantajosas para todos
dentro dos limites do razoável, e (b) vinculadas a posição e cargos
acessíveis a todos.

É na sociedade que estes princípios se fundamentam e direcionam os direitos


e dever econômicos e sociais. Rawls (2000) cita que o primeiro princípio determina
as liberdades, enquanto o segundo princípio regula a aplicabilidade do primeiro,
corrigindo assim as desigualdades que possam ocorrem. Sabe-se que não é
possível extinguir as desigualdades citadas entre os indivíduos, mas, os órgãos
competentes ou as instituições podem equilibrar as desigualdades e as deficiências
em prol da sociedade.
Quando se fala em liberdade, nota-se que esta assegura a equidade e a
igualdade e ambas relacionam - se aos princípios originais. Rawls (2000) cita alguns
tipos de liberdade como: a liberdade política (o direito de votar e ocupar um cargo
público) e a liberdade de expressão e reunião; a liberdade de consciência e de
pensamento; as liberdades da pessoa, que incluem a proteção contra opressão
psicológica e a agressão física (integridade da pessoa); o direito à propriedade
privada e a proteção contra a prisão e a detenção arbitrárias, de acordo com o
conceito de estado de direito.
Segundo a teoria do direito, todas as liberdades devem ser iguais bem com
sua aplicabilidade, resultando na efetivação da justiça como equidade e igualdade.
Para Bittar (2011, p. 99):
Trata-se de uma teoria que busca identificar as desigualdades naturais e
corrigi-las. Uma vez que, aplicando corretamente os princípios, cada um dá
sua forma, o primeiro buscando a igualdade e equidade através de suas
liberdades, o segundo princípio fazendo com o que o primeiro se cumpra
corretamente, e ajudando a corrigir as desigualdades que por ventura
possam ocorrer, temos a justiça como amplitude igualmente atribuída
conforme as imputações necessárias. Então, após ocorrer o contrato inicial
e as escolhas dos princípios a serem regidos, os pactuantes, devem
escolher uma constituição a ser seguida. A constituição constitui um
governo de legalidade, do qual as normas dos princípios a serem seguidos,
devem estabelecer a igualdade e a publicidade.

Após os princípios da teoria da justiça, o quadro 1 descreve as características


da teoria da justiça seguindo as concepções de Rawls.

Quadro 1: Características da teoria da justiça.

Características Conceito

Contrato inicial Primeira principal característica,

surge como base/pilar de toda teoria.

Visão de justiça como equidade Segunda principal característica, uma

equidade de forma de igualdade,

direito de cada um.

Os princípios Esses fortaleceram o contrato e

buscam concretizar os direitos e

deveres de cada um, e reparar as

desigualdades que possam ocorrer.

A Constituição Surge como forma de impor as leis e

uma forma de escolha de governo,

assegurando o cumprimento do

contrato e seus princípios com base

na equidade, igualdade e liberdade.

Fonte: Rawls (2000).


Com isso percebe-se que todo o ser humano deve seguir as leis descritas na
constituição para viver em sociedade, somente assim, serão colocadas em práticas
as leis do direito a igualdade. Rawls (2000) afirma que a justiça se aplicada desde o
princípio como forma de equidade, igualdade, e liberdade, torna-se algo estável a
sociedade. Quando cada indivíduo respeita seus direitos e dever é possível se ter
uma sociedade organizada.

2.2 PRINCÍPIO DA EQUIDADE HISTÓRICO E APLICABILIDADE

O termo equidade teve origem através do filosofo Aristóteles na Grécia Antiga


de acordo com o filosofo a equidade está ligado aos conceitos de justiça. Para
Aristóteles (1999, p. 101):

Equidade é a qualidade que nos permite dizer que uma pessoa está
predisposta a fazer, por sua própria escolha, aquilo que é justo, e, quando
se trata de repartir alguma coisa entre si mesma e a outra pessoa, ou entre
duas pessoas, está disposta a não dar demais a si mesma e muito pouco à
outra pessoa do que é nocivo, e sim dar a cada pessoa o que é
proporcionalmente igual, agindo de maneira idêntica em relação a duas
outras pessoas. A justiça, por outro lado, está relacionada identicamente
com o injusto, que é excesso e falta, contrário à proporcionalidade, do útil ou
do nocivo. No ato injusto, ter muito pouco é ser tratado injustamente, e ter
demais é agir injustamente.

Com isso entende-se que equidade e justiça possuem ideias similares, mas, o
que é equitativo é justo com a lei para que sirva como corretivo para a justiça não
permitir injustiças perante a sociedade. Aristóteles utilizada uma metáfora para
diferençar a justiça da equidade, justiça é uma régua rígida, e a equidade é uma
régua maleável, capaz de se adaptar às anfractuosidades do campo a ser medido.
Sem quebrar a régua, o magistrado, ao medir a igualdade dos casos concretos, vê-
se a necessidade de adaptá-las aos pormenores não previstos e imprevisíveis pela
lei, sob pena de perpetrar uma verdadeira injustiça e, assim, contradizer a própria
finalidade intrínseca das normas legais (FRANÇA, 2018).
No decorrer da história percebe-se que a codificação justiniana origina-se do
Direito romano, sendo considerado um marco na aplicação da equidade. com isso,
Carvalho Filho (2013) cita, eis que conferia poderes ao juiz para decidir por equidade
em preferência ao jus strictum.
No primitivo estágio da civilização humana, o estado natural, a equidade era
presente em todas as decisões, eis que a correspondência ação e reação se via
sentir face o efeito punitivo, correcional, de castigo, que se impingia em condutas
desaprovadas por aquele meio social (FRANÇA, 2018). Com isso, percebe-se que o
termo equidade era amplo, pois, era aplicado em todos os casos, de forma irrestrita
e ordinariamente.
Nas novas civilizações, a equidade era exceção, e só poderia ser aplicada se
prévia e disposta pelo legislador (FRANÇA, 2018). Por fim, a equidade compreende
como justo oferecer igualdade para indivíduos diferentes tratando os diferentes de
maneira diferente, originando o direito a diferença como sendo um direito
fundamental prescrito pela Constituição Federal.

2.3 A TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS

John Rawls trouxe a teoria da justiça como equidade nos anos 70,
especificamente em 1971, o objetivo era apresentar um conceito de justiça pura
voltado os direitos e deveres sociais. Por tanto, Rawls (1980, p. 13) tem o seguinte
proposito se tratando da teoria da justiça:

Propor uma teoria contratualista, nos moldes de Kant, Rousseau e Locke,


apresentando a sua concepção de justiça como resultado de um consenso
original que estabelece princípios para a estrutura básica da sociedade. Os
princípios reguladores são, então, escolhidos por pessoas livres e racionais
preocupadas com seus próprios interesses, que os aceitariam, frente a uma
posição original de igualdade, como definidores de sua associação.

Nota-se que o autor não quer fundar uma nova sociedade, mas sim selecionar
princípios da justiça que se sejam responsáveis pela regularização da sociedade.
Podendo desta forma escolherem os princípios justos sobre o conceito do véu de
ignorância, segundo o qual, cada pessoa ignoraria todas as suas circunstâncias
pessoais anteriores a essa situação hipotética. Desta forma essas pessoas
desconheceriam suas condições financeiras como também seus próprios dotes
naturais. Assim, por exemplo, se aqueles responsáveis por legislar fossem grandes
proprietários de terras e soubessem disso, dificilmente concordariam com a
distribuição equânime de terras como critério de justiça.
Por outro lado, se esses legisladores iniciais não tivessem essa informação,
seria mais fácil realizar a distribuição equitativa de terras como algo justo, isso
porque os legisladores teriam receio de após ser levantado o véu de ignorância
descobrirem que não possuíam quaisquer bens materiais. Dessa forma,
justamente egoísmo seria o fato motivador da utilização do véu de ignorância para a
obtenção dos princípios da justiça (RAWLS, 2000).
Para Rawls a única forma das pessoas alcançarem a justiça seria retornando
para a posição original. Os princípios de justiça são escolhidos na posição original,
que têm como função orientar a atribuição e determinar a distribuição adequada de
direitos e deveres nas instituições, bem como regular todos os acordos, de acordo
com Rawls (2000, p. 548) as formas de governo e os tipos de cooperação social,
são:

Primeiro, o princípio da liberdade igual para todos e, segundo, (a) o princípio


da igualdade de oportunidades e (b) o princípio da diferença. Esses
princípios, aqui expostos em sua formulação primeira, têm como bases
principais a prioridade absoluta da justiça e a maximização das expectativas
dos menos favorecidos, sendo redigidos definitivamente da seguinte
maneira: Cada pessoa tem igual direito a um esquema plenamente
adequado de liberdades básicas iguais que seja compatível com um
esquema semelhante de liberdade para todos; As desigualdades sociais e
econômicas têm de satisfazer duas condições: (a) primeira, relacionar-se
com postos e posições abertos para todos em condições de plena equidade
e de igualdade de oportunidades; e (b) segunda, redundar no maior
benefício dos membros menos privilegiados da sociedade (princípio de
diferença).

Nota-se que, que John Rawls quer deixar claro na sua teoria características
voltadas ao justo e ao bom. Na teoria da justiça isso significa, que as pessoas
relacionam o bem com os princípios da justiça, portanto, ideias de bem e justiça se
completam, mas, a justiça tem a prioridade, já que os princípios de justiça regulam
os planos individuais de vida.
Do ponto de vista moral Rawls (1980) a prioridade do justo sobre o bom
significa a limitação imposta pelos princípios de justiça às concepções de bem
possíveis de serem escolhidas pelos indivíduos, tornando-se a característica central
da concepção de justiça como equidade. Charles Taylor e Alasdair MacIntyre,
repudiam a prioridade do justo sobre o bem na teoria de John Rawls, também
consideram uma teoria procedimental universalista, que estabelece princípios de
justiça que acabam por determinar a submissão de todos os indivíduos com visões
diferentes de bem (TAYLOR, 2018).
Segundo eles, princípios de justiça somente poderiam ser tematizados a partir
de sociedades reais, uma vez que todos estão numa situação semelhante e
ninguém pode designar princípios para favorecer sua condição particular, os
princípios da justiça são o resultado de um consenso ou ajuste equitativo. A essa
maneira de considerar os princípios da justiça eu chamarei de justiça como equidade
(RAWLS, 1981).
A justiça Rawlsiana busca resolver os conflitos pela distribuição de bens
sociais entre as pessoas. Uma das formas de superação destes conflitos seria
considerar a sociedade como um sistema equitativo de cooperação. Rawls
considerava que as pessoas como seres racionais e razoáveis, possuem interesses
próprios de acordo com a concepção do bem que formulam para as suas próprias
vidas, que, simultaneamente, se dispõem em função do sentido de justiça que
possuem, a discutir entre si, quais seriam os termos mais justos de cooperação que
deveriam regular o convívio social e a distribuição dos benefícios sociais.
Destarte, segundo Rawls, a coletividade chega a um acordo sobre os
princípios de justiça que serão adotados. Como forma de solução do conflito gerado
pela distribuição dos benefícios da cooperação social, Rawls desenvolveu princípios
de justiça aplicados à estrutura básica da sociedade que sejam aceitos por todos de
maneira equitativa. Rawls imaginou uma sociedade de igualdade democrática, onde,
por meio da justiça das instituições sociais, estivesse garantido o direito de todas as
pessoas se favorecerem das conquistas e dos benefícios da cooperação social.
Na sua concepção política de justiça como equidade Rawls define a
sociedade bem ordenada como sendo aquela na qual todos aceitem e saibam que
os outros aceitam os mesmos princípios de justiça, e as instituições sociais básicas
geralmente satisfazem, e geralmente se sabe que elas satisfazem, esses princípios
(RAWLS, 1981).
Neste contexto, temos dois pontos de vistas bem distintos sobre os conceitos
de equidade, primeiro sob a perspectiva de Aristóteles, que atribui a Equidade a
faculdade de equilibrar as desigualdades legislativas, outorgando ao magistrado
através do uso da prudência e das demais virtudes os mecanismos necessários para
equilibrar eventuais discrepâncias legislativas aplicadas aos casos concretos para se
alcançar a justiça.
Por fim, nota-se que Teoria da Justiça como equidade de John Rawls
somente será alcançada quando a sociedade através de um novo contrato social,
fizer uma distribuição equitativa de todos os seus bens, bem como dos frutos desta
distribuição de forma solidária puderem dividir as conquistas e frutos da cooperação
social.

2.4 A TEORIA DA JUSTIÇA COMO EQUIDADE À TEORIA ARISTOTÉLICA DA


JUSTIÇA

A equidade em Aristóteles é relacionada à justiça, sendo está considerada


pelo filósofo como a principal das virtudes, visto que se manifesta na relação com o
próximo, por meio de práticas reiteradas de ações justas. Assim é necessário tecer a
teoria aristotélica da ética, bem como sua teoria das virtudes e da justiça. Assim, a
teoria da justiça como equidade não se apresenta como uma concepção verdadeira,
mas como uma base de acordo político que sirva de base para uma sociedade
marcada por diferenças (RAWLS, 2000).
Dessa forma, Rawls (2000) recua de sua ambição universalista de aplicação
de seus princípios de justiça, pois isso se torna incompatível com o próprio
liberalismo. Não é possível chegar a um consenso em uma sociedade liberal,
caracterizada pela pluralidade de convicções, sem recorrer à intervenção da força
autoritária estatal, o que significaria que essa sociedade deixaria de ser liberal.
Rawls (200) cita que além do mais, essa marca exigiria a referência a uma
verdadeira concepção de justiça, configurando-a como uma doutrina abrangente, e
não estritamente política.
Assim, para Rawls (1996, p. 51):

O objetivo principal na reformulação configura-se como a tentativa de busca


de um consenso que abarque somente os aspectos políticos essenciais da
sociedade e se aplique somente quanto à regulação da estrutura básica da
sociedade. Parte-se das convicções historicamente estabelecidas ao longo
da tradição democrática e da nossa consideração a respeito de nossa
própria cultura política, na busca por atingir a formulação de princípios
substantivos de justiça que expressem satisfatoriamente essas ideias
fundamentais compartilhadas por uma sociedade democrática.
Algumas características dessas transformações levam a entender uma
relação entre Rawls e Aristóteles. Ross (1987) descreve que John Rawls, demonstra
que a comunidade também é valorizada, já que os princípios universais são
confrontados com os juízos ponderados de justiça, fazendo com que entre estes e
aqueles haja um equilíbrio reflexivo.
Percebe-se que os princípios da justiça não estão desvinculados do mundo
social, isso só poderá ser feito por meio juízos ponderados. A aproximação a
Aristóteles é notada nesse aspecto, já que o filósofo grego, na definição do éthos,
parte de um juízo moral concreto, nos modos e costumes institucionalizados na
sociedade, e da experiência na polis (senso moral da comunidade) para atingir a
norma universal (ROSS, 1987). Aristóteles destaque a justiça atua no privado e no
coletivo, fazendo o elo entre o ser humano e a pólis, sendo assim, a justiça esta
unida a moral, pois o Estado deve sempre buscar a formação moral social.
Quanto a esse aspecto, percebe-se a importância da historicidade da lei e da
soberania da comunidade, apresentando-se um forte particularismo na teoria da
justiça de Aristóteles, evidenciado na fundamentação dos princípios de justiça na
comunidade política, a ordem política se fundamenta, portanto, nas formas éticas de
vida, demonstrando uma ligação fundamental entre ética (doutrina moral individual)
e política (doutrina moral social) (SILVEIRA, 2011).
O interior da pólis constitui o local no qual o indivíduo poderá efetivar suas
virtudes éticas e ter uma vida boa e feliz, demonstrando a importância primordial da
lei para que ela se constitua de maneira justa, assegurando não apenas a
convivência, mas uma maneira nobre de viver. A justiça, nesses termos, seria
indissociável da polis, ou seja, da vida em comunidade, desenvolvendo-se a partir
desse conhecimento prático de senso comum e se realizando na prática constante
da relação com o outro (ROBLEDO, 1986). Com isso, nota-se que existem
semelhanças nas duas terias, uma entra em defesa da educação e a outra defende
melhores condições para conscientização ética por meio da moral.
Há, portanto, uma relação circular entre ética e política no pensamento dos
dois filósofos, segundo Pegoraro (2015, p. 94):

Tal relação é notada na posição original, pois se percebe que há um grau de


consciência moral na participação dos autores do acordo original e que, no
final de sua obra, Rawls apela para o cultivo dos conceitos de justiça e
responsabilidade, formando-se, então, a consciência moral necessária para
a constituição de uma sociedade justa. Isso significa que, no momento de
efetivação do acordo original, as partes só concordam com os princípios de
justiça por já conhecerem a importância de virtudes como a justiça e a
cooperação. Assim, segundo esse autor, a acusação feita à teoria de Rawls
como sendo uma teoria a-histórica, que desvincula as pessoas de seu
passado e de sua comunidade, está desfeita por essa circularidade.

Rawls abre lacunas que entram em confrontos com os princípios de justiça,


originando avanços e o mesmo tempo recuos a tais princípios levando a pensar em
seus ajustes e correções. Nedel (2010) cita que os indivíduos identificam facilmente
os casos de justiça e de injustiça, pois há uma total coincidência entre os princípios
reguladores da sociedade, escolhidos no acordo original, e suas próprias convicções
de justiça.
Assim sendo, a justiça não se torna algo relativo, pois a sua concepção foi
desenvolvida pelos próprios indivíduos que devem segui-la. Dessa maneira, os
cidadãos, segundo Rawls, ao perceberem que vivem em uma sociedade justa,
reforçam seu senso de justiça, fazendo com que aumente o desejo de manter as
instituições dessa sociedade (NEDEL, 2010). O fluxograma 1 demostra dois pontos
do pensamento de Rawls.

Fluxograma 1: Pensamentos de Rawls

Fonte: Rawls (1980).

Rawls demonstra que, por meio da construção de uma justiça como


equidade na sociedade, atinge-se a estabilidade social plena por meio do
reconhecimento mútuo calcado nas disposições humanas de ordem psicológica, da
tolerância e do reconhecimento público de um senso de justiça, que conduz os
cidadãos à defesa de instituições justas. Assim, todos estes fatores levam as
pessoas à estabilização de uma sociedade que também visa o bem comum, fazendo
com que a sociedade natural conviva com a sociedade erguida pelo contrato social
(PEGORARO, 2015), objetivo máximo da teoria da justiça de Rawls.
Por fim, percebeu-se que a equidade é a adequação da lei ao caso concreto,
ou seja, se liga à lei no sentido de corrigi-la no ato de sua aplicação ao caso fático,
tendo em vista a generalidade e abstração da vontade do legislador. Desta forma a
lei só atingirá seus fins sociais se for aplicada de forma prudente pelo magistrado,
que guiado pelo juízo de equidade, promoverá a adequação da norma ao caso
concreto.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após a elaboração de todo o embasamento teórico percebeu-se no decorrer


da pesquisa que a justiça é apresentada com equidade, buscando nos princípios
estrutura que construir instituições sólidas. Rawls procura através das instituições e
por meio de sua objetividade a justiça que é racionalmente compartilhada no
convívio social. Os princípios de justiça interligados a equidade não se aplicam
diretamente ou regulam internamente a sociedade, e sim, ajustam a sua estrutura
básica, uma vez que se baseia em metas e no caráter social entendidos como objeto
da justiça política e social.
Rawls busca um modelo de governo espelhando-se nos princípios da
liberdade e igualdade aos direitos e deveres dos cidadãos. Percebeu-se que
Aristóteles ao trabalhar o conceito de equidade, faz a comparação com a justiça,
concluindo que são a mesma coisa, contudo a equidade é a melhor. O problema é o
fato de o equitativo ser justo, utilizado com uma forma corretiva da justiça legal.
Portanto, conclui-se que a equidade é a adequação da lei ao caso concreto, ou seja,
se liga à lei no sentido de corrigi-la no ato de sua aplicação ao caso fático, tendo em
vista a generalidade e abstração da vontade do legislador.
Desta forma a lei só atingirá seus fins sociais se for aplicada de forma
prudente pelo magistrado, que guiado pelo juízo de equidade, promoverá a
adequação da norma ao caso concreto. Ao se tratar do conceito de justiça, John
Rawls, estabeleceu elos entre a filosofia política e o pensamento ocidental, criando
um conceito de justiça voltado a liberdade e a igualdade, o autor sofreu criticas em
virtude da ideia de sua teoria, mas, com o passar do tempo Rawls foi reformulando
sua teoria de acordo com a evolução história.
Nos dias de hoje a teoria aristotélica volta-se para os aspectos morais do
cidadão e a ordem social, percebeu-se que a teoria aristotélica é de fundamental
importância para os debates modernos, orientando o agir moral para a solução dos
problemas que os atuais pensamentos morais não conseguem resolver. sendo
assim, conclui-se o presente trabalho que ambas as teorias aristotélicas e rawlsiana
não são contrarias, pois, estimular o ser humano a colaborarem entre si por meio da
efetivação de suas virtudes éticas.
REFERÊNCIAS

BITTAR, Eduardo Carlos Bianca. Curso de Filosofia do Direito. 1º Ed. São Paulo:


Atlas, 2011.

NEDEL, J. A teoria ético-política de John Rawls: uma tentativa de integração de


liberdade e igualdade. Porto Alegre, EDIPUCRS, 2010.

PEGORARO, O. Ética é justiça. Petrópolis, Vozes. 2015.

RAWLS, J. Uma teoria da justiça. Cambridge, Harvard University. 1980.

RAWLS, J. Political liberalism. New York, Columbia Universit. 1996.

RAWLS, J. Justiça e democracia. São Paulo, Martins Fontes. 2000.

ROSS, W. Aristóteles. Lisboa, Publicações Dom Quixote. 1987.

SILVA, A. B. Alves. Introdução à Ciência do Direito, 2ª edição, São Paulo:


Salesianas, 1953.

SILVEIRA, D. Os sentidos da justiça em Aristóteles. Porto Alegre, EDIPUCRS.


2011.

ROBLEDO, A. Ensayos sobre las virtudes intelectuales. México, Fondo de


Cultura Económica. 1986.

TAYLOR, C. Multiculturalismo: examinando a política de reconhecimento. Lisboa,


Instituto Piaget, 2018.

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