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ADVOCACIA-GERAL DA UNIÃO

CONSULTORIA JURÍDICA DO MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO, ORÇAMENTO E GESTÃO

PARECER/MP/CONJUR/PFF/Nº 469 – 3.16 / 2008

PROCESSO Nº 17944.001239/2007-24

EMENTA: CONSULTA DA PROCURADORIA-GERAL DA


FAZENDA NACIONAL. REQUERIMENTO
ADMINISTRATIVO. LICENÇA PARA TRATAR DE
INTERESSES PARTICULARES. ART. 91, DA LEI
N.º 8.112/90. DEFINIÇÃO. RESTRIÇÕES
ESTABELECIDAS PELA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL E PELA LEI N.º 8.112/90.
SUPERVENIÊNCIA DE ATOS NORMATIVOS.
CONFLITO APARENTE. MÉTODO LÓGICO-
SISTEMÁTICO DE INTERPRETAÇÃO. ART. 172 DA
MEDIDA PROVISÓRIA N.º 431, DE 14 DE MAIO DE
2008. ALTERAÇÃO DO ART. 117 DA LEI N.º
8.112/90. “QUARENTENA”. ARTS. 6º E 7º DA
MEDIDA PROVISÓRIA N.º 2.225-45, DE 4 DE
SETEMBRO DE 2001. MANIFESTAÇÃO QUANTO À
POSSIBILIDADE DE CONCESSÃO DA REFERIDA
LICENÇA. À COORDENAÇÃO-GERAL DE
ELABORAÇÃO, SISTEMATIZAÇÃO E APLICAÇÃO
DE NORMAS DA SECRETARIA DE RECURSOS
HUMANOS DESTE MINISTÉRIO, PARA ADOÇÃO
DAS PROVIDÊNCIAS CABÍVEIS.

1. Em atenção ao Despacho de fls. 20/22, por meio do qual a Coordenadora-


Geral de Elaboração, Sistematização e Aplicação das Normas, Vânia Prisca Dias Santiago,
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solicita desta Consultoria Jurídica esclarecimentos sobre a possibilidade do servidor, em


licença para tratar de interesses particulares, desempenhar função de administração e
gerência de empresa privada, especialmente após o advento de atos normativos posteriores
à Lei n.º 8.112/90, como é o caso da Medida Provisória n.º 2.174-28, de 24 de agosto de
2001, que teriam atenuado o rigor da aludida Lei, colacionam-se as seguintes
considerações:

2. Trata-se de consulta realizada pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional


sobre a possibilidade da concessão de licença para tratar de interesses particulares,
requerida pelo servidor Tarcisio Jose Massote de Godoy, Analista de Finanças e Controle,
pelo período de um ano, de 1º de outubro de 2007 a 30 de setembro de 2008, nos termos do
art. 91 da Lei n.º 8.112/90, para exercer, durante o afastamento, o cargo de Diretor-
Presidente da BRASILPREV Seguros e Previdência S.A.

3. De início, permita-me transcrever, em razão da clareza de sua exposição, o


histórico elaborado pela Coordenação-Geral de Elaboração, Sistematização e Aplicação de
Normas a respeito da matéria versada nos presentes autos. Veja-se:

“A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional – PGFN, do Ministério da


Fazenda encaminha o presente processo a esta Coordenação-Geral de
Elaboração, Sistematização e Aplicação das Normas –
COGES/DENOP/SRH/MP, para manifestação sobre concessão de licença
para tratar de interesses particulares.

2. Trata-se de requerimento, à fl. 1, por meio do qual o interessado


solicita licença para tratar de interesses particulares pelo período de um
ano, de 1º de outubro de 2007 a 30 de setembro de 2008, nos termos do art.
91 da Lei 8.112, de 1990.
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3. Consta do autos, à fl. 02, declaração na qual o servidor informa


que, durante o período de licença, exercerá atividade profissional como
Diretor Presidente da empresa BRASILPREV Seguros e Previdência S/A, e
que não há conflito de interesses com as atividades que exerce atualmente,
nos termos da Resolução nº8, de 25 de setembro de 2003, exarada pela
Comissão de Ética Pública – CEP, às fls. 07 e 08.

4. Após analisar o processo, a Coordenação-Geral de Recursos


Humanos do Ministério da Fazenda, encaminhou-o à Procuradoria Geral
da Fazenda Nacional – PGFN, para pronunciamento acerca da legalidade
do pleito do servidor, diante do conflito existente entre a norma legal acima
mencionada e o art. 117, inciso X do Regime Jurídico Único, que
estabelece:

“Art. 117. Ao servidor é proibido:

X – participar de gerência ou administração de sociedade privada,


personificada ou não personificada, salvo a participação nos conselhos
de administração e fiscal de empresas ou entidades em que a União
detenha, direta ou indiretamente, participação no capital social ou em
sociedade cooperativa constituída para prestar serviços a seus
membros, e exercer o comércio, exceto na qualidade de acionista,
cotista ou mandatário;” (Redação dada pela Lei n.º 11.094, de 2005)

5. Por meio da NOTA/PG/PGFN/Nº 907/2007, à fl. 09, o Procurador


Geral da Fazenda manifestou-se favoravelmente quanto à concessão da
licença, uma vez tratar-se de direito assegurado pelo Estatuto do Servidor
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Público – Lei 8.112, de 1990, sugerindo, no entanto, o encaminhamento do


processo a esta Secretaria para manifestar-se conclusivamente quanto à
possibilidade de o servidor poder ou não desempenhar a função indicada,
matéria que suscita dúvidas no âmbito da Administração.
6. Retornando os autos ao Ministério da Fazenda, a licença requerida
foi concedida ao servidor, por meio da Portaria nº 448, de 11º de outubro
de 2007.

7. Pronunciado mais uma vez nos autos, no sentido de proceder à


análise do mérito quanto à função a ser ocupada pelo servidor, aquela
douta Procuradoria, por meio da NOTA PGFN/CJU/CPN Nº 1175/2007, às
fls. de 15 a 18, preliminarmente, não questiona o entendimento de que a
licença para trato de interesses particulares não interrompe o vínculo
existente entre o servidor e a Administração.

8. De fato, sobre o assunto, a egrégia Corte de contas da União firmou


jurisprudência, consubstanciada na Súmula 246, in verbis:

“O fato de o servidor licenciar-se, sem vencimentos, do cargo


público ou emprego que exerça em órgão ou entidade da administração
direta ou indireta não o habilita a tomar posse em outro cargo ou emprego
público, sem incidir no exercício cumulativo vedado pelo art. 37 da
Constituição Federal, pois que o instituto da acumulação de cargos se
dirige à titularidade de cargos, empregos e funções públicas, e não apenas
à percepção de vantagens pecuniárias.”

9. A questão que se coloca, então, seria a de identificar a que


restrições estaria sujeito o servidor que se encontra licenciado do exercício
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do cargo ou, mais especificadamente, saber se, mesmo quando afastado


formalmente de suas atribuições funcionais, estaria o servidor proibido de
participar de gerência ou administração de sociedade privada.
10. Em seguida, destaca dispositivo da resolução nº 08, de 25 de
setembro de 2003, da lavra da Comissão de Ética Pública da Presidência
da República, que identifica situações que suscitam conflito de interesses e
dispõe sobre o modo de preveni-los:

“3. A autoridade poderá prevenir a ocorrência de conflito de


interesses ao adotar, conforme o caso, uma ou mais das seguintes
providências:
a) abrir mão da atividade ou licenciar-se do cargo, enquanto
perdurar situação passível de suscitar conflito de interesses;”

11. Cita ainda a Medida Provisória nº 2.174, de 24 de agosto de 2001,


que institui no âmbito do Poder Executivo da União, o Programa de
Desligamento Voluntário – PDV, a jornada de trabalho reduzida com
remuneração proporcional e a licença sem remuneração com pagamento
de incentivo em pecúnia, na qual o Poder Público admitiu que mesmo
servidores em exercício, com jornada reduzida, pudessem atuar na
gerência ou administração de sociedade privada, pelo simples fato de sua
carga de trabalho no setor público estar reduzida, destacando:

“Art. 17. O servidor poderá, durante o período em que estiver


submetido à jornada reduzida, exercer o comércio e participar de
gerência, administração ou de conselhos fiscal ou de administração
de sociedades mercantis ou civis, desde que haja compatibilidade de
horário com exercício do cargo.
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§ 2º aos servidores de que trata o caput deste artigo aplicam-se as


disposições contidas no art. 117 da Lei nº 8.112, de 1990, à exceção
da proibição contida em seu inciso X.”
12. E, como conclusão, o que se segue:
“Ora, causa estranheza que o servidor, cuja jornada de trabalho no
setor público restou reduzida a seu pedido, pudesse atuar como
administrador de uma sociedade privada, e esse mesmo servidor,
por uma pretensa interpretação do art. 117 da Lei 8.112, de 1990, se
solicitasse seu completo afastamento de suas atividades públicas,
inclusive sem a percepção dos vencimentos durante todo o período
de afastamento, estivesse proibido de exercer aquela mesma
atividade particular! Sendo princípio de hermenêutica que a
interpretação das normas não se pode conduzir a absurdos, cumpre
que se verifique qual a melhor interpretação a ser dada ao art. 117
da lei 8.112, de 1990, no que tange aos servidores afastados do
exercício de seus cargos, consideradas as informações destacadas
na presente Norma.”

(...) ”

4. É o relatório.

5. A licença, como trivialmente sabido, é a permissão conferida ao servidor


para faltar ao serviço durante um prazo determinado, nas hipóteses previstas em lei. No
caso específico dos autos, cuida-se da licença para tratar de assuntos particulares, prevista
no art. 91 da Lei n.º 8.112/90, que assim dispõe:

“Art. 91. A critério da Administração, poderão ser concedidas ao servidor


ocupante de cargo efetivo, desde que não esteja em estágio probatório,
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licenças para o tratamento de assuntos particulares pelo prazo de até 3


(três) anos consecutivos, sem remuneração.

Parágrafo único. A licença poderá ser interrompida, a qualquer tempo, a


pedido do servidor ou no interesse do serviço.”

6. Como se pode observar, trata-se de um ato de natureza eminentemente


discricionária, que tem por escopo conferir ao servidor a possibilidade de se afastar do
trabalho pelo prazo de até três anos, sem a perda do seu cargo efetivo. Ou seja, mesmo
licenciado, o vínculo entre o servidor e a Administração Pública persiste. Nesse sentido,
1
fecundo o magistério do jurista Palhares Moreira Reis que, ao discorrer sobre a licença
para trato de assuntos particulares, dilucida:

“A grande indagação a respeito da licença para trato de assuntos


particulares é relativa dos deveres do servidor licenciado para com a
Administração Pública. Se ele passa a poder realizar aquelas atividades
que, em exercício, estaria impedido de praticar, como, por exemplo,
advogar livremente, sem os impedimentos legais, ou dirigir empresa
mercantil, como indaga THEMÍSTOCLES CAVALCANTI (op. cit, I, 449)
(...)
Entretanto, o vínculo com a Administração persiste, e não pode ser
esquecido, eis que o seu retorno poderá ocorrer, não apenas no fim do
período autorizado, senão mesmo antes, a seu pedido ou no interesse da
Administração. E, por isso, “não há dúvida que a licença para trato de
interesses particulares não interrompe o vínculo existente entre o servidor e
a Administração” (Parecer nº 3.341/52 DASP-DOU 27-1-54).

1
Os Servidores, a Constituição e o Regime Jurídico Único, pgs. 144/146, 1ª ed.
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E, enquanto persiste o vínculo, os direitos, deveres e proibições continuam


vigentes em relação ao servidor licenciado.”

7. Não é outro o pensar do Superior Tribunal de Justiça sempre que colocado a


enfrentar tal questão; por todos, colaciona-se o entendimento manifestado na seguinte
ementa:


MANDADO DE SEGURANÇA. FISCAL DE DERIVADOS DE

PETRÓLEO E OUTROS COMBUSTÍVEIS. PROCESSO


ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR. GERÊNCIA E ADMINISTRAÇÃO DE
EMPRESA PRIVADA. EXERCÍCIO DE ATIVIDADE INCOMPATÍVEL
COM O CARGO OU FUNÇÃO. LICENÇA PARA TRATO DE INTERESSE
PARTICULAR. VÍNCULO DO SERVIDOR COM A ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA. DEMISSÃO. REINTEGRAÇÃO.

I – A via estreita do mandamus tem por finalidade a correção de atos


decorrentes de abuso de autoridade, e que estejam violando direito líquido
e certo de cidadãos, o que não restou configurado in casu.
II – A licença para trato de interesses particulares não interrompe o
vínculo existente entre o servidor e a Administração, devendo este estar
obrigado a respeitar o que lhe impõe a legislação e os princípios da
Administração Pública.
III – O Processo Administrativo Disciplinar assegurou ao impetrante os
princípios do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa.

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Segurança denegada. (MS 6808/DF. Rel. Ministro Felix Fischer. DJ


19.06.2000).

8. Essa constatação é de fundamental importância para análise da situação


posta nos autos. Se com a licença, a relação estatutária do servidor com a Administração
Pública permanece, todos os princípios e deveres a ela inerentes continuam vigentes. Nessa
linha, não se pode olvidar das proibições previstas nos incisos do art. 117 da Lei n.º
8.112/90, dentre as quais se destacam:

Art. 117. Ao servidor é proibido:

X – participar de gerência ou administração de sociedade privada,


personificada ou não personificada, salvo a participação nos conselhos de
administração e fiscal de empresas ou entidades em que a União detenha,
direta ou indiretamente, participação no capital social ou em sociedade
cooperativa constituída para prestar serviços a seus membros, e exercer o
comércio, exceto na qualidade de acionista, cotista ou comandatário;

XIII – aceitar comissão, emprego ou pensão de estado estrangeiro;

XVIII – exercer quaisquer atividades que sejam incompatíveis com o


exercício do cargo ou função e com o horário de trabalho;

9. Some-se a isso a observância dos princípios administrativos, notadamente


aqueles previstos no art. 37, caput, da Constituição Federal, a saber:

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Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes

da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos


princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
eficiência e, também, ao seguinte:

10. Sobreleva, por oportuno, anotar que no direito público vigora o princípio da
legalidade estrita. Segundo o qual, nos dizeres do eminente jurista Hely Lopes Meirelles2:

“...o administrador público está, em toda a sua entidade funcional,


sujeito aos mandamentos da lei e às exigências do bem comum, e deles não
se pode afastar ou desviar, sob pena de praticar ato inválido e expor-se a
responsabilidade disciplinar, civil e criminal, conforme o caso.

A eficácia de toda atividade administrativa está condicionada ao


atendimento da Lei e do Direito. É o que diz o inc. I do parágrafo único do
art. 2º da Lei n.º 9.784/99. Com isso, fica evidente, que, além da atuação
conforme à lei, a legalidade significa, igualmente, a observância dos
princípios administrativos.

Na Administração Pública não há liberdade nem vontade pessoal.


Enquanto na administração particular é lícito fazer tudo que a lei não
proíbe, na Administração Pública só é permitido fazer o que a lei autoriza.

A lei para o particular significa “


pode fazer assim ”
; para o administrador

público significa “
deve fazer assim ”
.”

2
Direito Administrativo Brasileiro, 26 ed., pág. 82.
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11. Da leitura das normas acima transcritas, depreende-se que a liberdade de


atuação do servidor licenciado na esfera privada não é absoluta e intangível; mas, ao revés,
encontra-se condicionada aos limites constitucionais e legais mencionados anteriormente.
Nesse contexto, infere-se, sem maiores dificuldades, que a referida licença não poderá ser,
igualmente, concedida naquelas hipóteses em que o seu exercício apresentar conflito de
interesse com a Administração Pública.

12. À guisa de exemplo, imagine-se a seguinte hipótese: Militares ou Civis do


Governo Federal que trabalhem na área de planejamento e aquisição de produtos logísticos
que pretendam se afastar temporariamente do serviço fazendo uso de licença não
remunerada poderão ter sua situação examinada com cautela no caso de se verificar a
possibilidade de ocorrência ou não de conflito de interesses entre o público e o privado.
Isso poderá acontecer nos casos em que, no período de afastamento, o interessado venha a
trabalhar para uma instituição que efetiva ou potencialmente, direta ou indiretamente
comercialize para o Governo produtos logísticos (ex.: armamento, suprimentos
aeronáuticos, bélicos ou navais, etc.)3. Neste caso, ressoa inequívoco o conflito de
interesses.

13. Em razão das inúmeras peculiaridades que envolvem cada situação, não é
possível estabelecermos aqui um rol taxativo contemplando todas as hipóteses que
caracterizariam conflito de interesse com a Administração Pública. É uma tarefa que
demandará uma análise detalhada de cada caso concreto, a ser submetido à apreciação da
Administração, devendo-se sempre levar em consideração as atribuições do servidor
interessado e a do órgão público a qual esteja vinculado, assim como os limites
constitucionais e legais já analisados.

3
Exemplo extraído do sítio do Ministério da Defesa.
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14. A título elucidativo, convém destacar que a Comissão de Ética Pública, com
o objetivo de orientar as autoridades submetidas ao Código de Conduta da Alta
Administração Federal na identificação de situações que possam suscitar o conflito de
interesses, editou a Resolução nº 08, de 25 de setembro de 2003, identificando tais
situações, a saber:

“(...)

1. Suscita conflito de interesses o exercício de atividade que:

a) em razão da sua natureza, seja incompatível com as atribuições do cargo


ou função pública da autoridade, como tal considerada, inclusive, a
atividade desenvolvida em áreas ou matérias afins à competência
funcional;
b) viole o princípio da integral dedicação pelo ocupante de cargo em
comissão ou função de confiança, que exige a precedência das atribuições
do cargo ou função pública sobre quaisquer outras atividades;
c) implique a prestação de serviços a pessoa física ou jurídica ou a
manutenção de vínculo de negócio com pessoa física ou jurídica que tenha

interesse em decisão individual ou coletiva da autoridade;

d) possa, pela sua natureza, implicar o uso de informação à qual a


autoridade tenha acesso em razão do cargo e não seja de conhecimento
público;
e) possa transmitir à opinião pública dúvida a respeito da integridade,
moralidade, clareza de posições e decoro da autoridade.
(...)”

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15. Mais adiante, o item 5 da referida Resolução dispõe:


5. A participação de autoridade em conselhos de administração e fiscal de

empresa privada, da qual a União seja acionista, somente será permitida


quando resultar de indicação institucional da autoridade competente.
Nestes casos, é-lhe vedado participar de deliberação que possa suscitar
conflito de interesses com o Poder Público.”

16. Malgrado a aludida Resolução restrinja-se às autoridades submetidas ao


Código de Conduta da Alta Administração Federal e que estejam em exercício, não se
pode deixar de reconhecer a sua contribuição, servindo como norte para a Administração,
ao analisar os casos de servidores que estejam em situações análogas às disciplinadas pela
referida norma. Percebe-se que o seu conteúdo é extremamente rigoroso, chegando-se ao
ponto inclusive de só se admitir a participação de autoridade em conselhos de
administração e fiscal de empresa privada, da qual a União seja acionista, quando
resultante de indicação institucional da autoridade competente.

17. De tudo aquilo que foi até agora exposto, depreende-se que o legislador,
preocupado com a transparência, moralidade e a impessoalidade, que devem sempre
nortear a gestão da coisa pública, delimitou sobremaneira a atuação privada do servidor
público licenciado. Não obstante tais restrições, foi publicada em 25 de agosto de 2001, a
Medida Provisória n.º 2.174-28, de 24 de agosto do mesmo ano, que instituiu no âmbito do
Poder Executivo da União, o Programa de Desligamento Voluntário – PDV, a jornada de
trabalho reduzida com remuneração proporcional e a licença sem remuneração com
pagamento de incentivo em pecúnia, destinados ao servidor da administração pública
direta, autárquica e fundacional, que em seu art. 17 assim prescreve:

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Art. 17. O servidor poderá, durante o período em que estiver submetido à

jornada reduzida, exercer o comércio e participar de gerência,


administração ou de conselhos fiscal ou de administração de sociedades
mercantis ou civis, desde que haja compatibilidade de horário com o
exercício do cargo.”

18. À primeira vista, percebe-se a existência de uma eventual incompatibilidade


entre duas normas: de um lado, o art. 117, X, da Lei n.º 8.112/90, que proíbe ao servidor
participar de gerência ou administração de sociedade privada, bem como de exercer o
comércio, exceto na qualidade de acionista, cotista ou comandatário; do outro, o art. 17 da
Medida Provisória n.º 2.174-28, de 24 de agosto de 2001, afastando a referida proibição no
caso da jornada reduzida.

19. Num primeiro momento, seria razoável afirmar que a autorização


consagrada no art 17 da Medida Provisória n.º 2.174-28, em razão de sua especialidade, só
seria conferida ao servidor que aderisse à jornada de trabalho reduzida. Em todas as outras
hipóteses, aplicar-se-ia a regra geral do art. 117 da lei n.º 8.112/90, que proíbe o servidor
de participar de gerência ou administração de sociedade privada e de exercer o comércio.

20. Sucede, todavia, que a interpretação de uma norma, malgrado parta


inicialmente do critério literal, reclama outros métodos de exegese, dentre os quais o lógico-
sistemático, pelo qual se interpreta a norma inserindo-a em um sistema lógico, o qual não se
admite contradições ou paradoxo. Nesse sentido, é o entendimento do ilustre jurista Carlos
Maximiliano4, ao afirmar que:

4
Hermenêutica e Aplicação do Direito. Rio de Janeiro: Forense, 15ª edição. Pg. 123.
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“O Processo Lógico tem mais valor do que o simplesmente verbal (1). Já se


encontrava em textos positivos antigos e em livros de civilistas, brasileiros
ou reinícolas, este conselho sábio: “deve-se evitar a supersticiosa
observância da lei que, olhando só a letra dela, destrói a sua intenção”
(2).” (Grifou-se)

21. Mais adiante, ao discorrer sobre o processo sistemático, acrescenta o


renomado autor5:

“Não se encontra um princípio isolado, em ciência alguma; acha-se cada


um em conexão íntima com outros. O Direito objetivo não é um
conglomerado caótico de preceitos; constitui vasta unidade, organismo
regular, sistema, conjunto harmônico de normas coordenadas, em
interdependência metódica, embora fixada cada uma em seu lugar próprio.”

22. Nesse passo, em que pese a Medida Provisória n.º 2.174-28/2001 não seja
satisfatoriamente explícita quanto à previsão dos servidores que não aderirem á jornada de
trabalho reduzida, enquanto licenciados, estejam autorizados a exercer o comércio,
participar de gerência, administração ou de conselhos fiscal ou de administração de
sociedades mercantis ou civis. Induvidoso também é que um ato normativo não deve
receber interpretação isolada.

23. Não faz sentido, por exemplo, que os servidores contemplados pelo aludido
ato normativo estejam autorizados, durante o período em que estiverem submetidos à
jornada reduzida, a exercer as referidas atividades, e os servidores que não aderiram á

5
Ob. Cit. Pg.128
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redução de jornada e que se encontram licenciados e, por conseqüência, sem remuneração,


nos moldes do art. 91 da Lei n.º 8.112/90, estejam proibidos de exercer tais atividades.

24. Resulta evidente, portanto, que: se os servidores submetidos à jornada


reduzida, nos termos da referida Medida Provisória, estão autorizados a exercer as referidas
atividades, nada mais natural que seja reconhecido aos servidores licenciados para tratar de
interesses particulares igual direito.

25. Como se vê, mediante a adoção do método lógico-sistemático na


interpretação da Medida Provisória n.º 2.174-28/2001, ressoa inequívoca a possibilidade
dos servidores que não aderiram à jornada de trabalho reduzida e que se encontram
licenciados na forma do art. 91 da Lei n.º 8.112/90 de exercer o comércio, participar de
gerência, administração ou de conselho fiscal ou de administração de sociedades mercantis
ou civis, desde que ausente o conflito de interesses com a Administração Pública, o
que, permita-me a insistência, deverá ser analisado à luz do caso concreto.

26. Corroborando a tese aqui defendida, foi publicada, recentemente, no Diário


Oficial da União de 14.05.2008 – Edição extra, a Medida Provisória n.º 431, de 14 de maio
de 2008, que dentre outras providências alterou o art. 117 da Lei n.º 8.112/90,
acrescentando-lhe um parágrafo único, nos seguintes termos:

“Art. 117. Ao servidor é proibido:


(...)
X – participar de gerência ou administração de sociedade privada
personificada ou não personificada, exercer o comércio, exceto na
qualidade de acionista, cotista ou mandatário;
(...)

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Parágrafo único. A vedação de que trata o inciso X não se aplica nos


seguintes casos:
I – a participação nos conselhos de administração e fiscal de empresas ou
entidades em que a União detenha, direta ou indiretamente, participação no
capital social ou em sociedade cooperativa constituída para prestar serviços
a seus membros; e
II – gozo de licença para o trato de interesses particulares, na forma do art.
91, observada a legislação sobre conflito de interesses. (Destacou-se)

27. Como se vê, a referida norma coloca uma pá de cal sobre a matéria,
permitindo ao servidor licenciado nos termos do art. 91 da Lei n.º 8.112/90, uma vez
ausente o conflito de interesses com a Administração Pública, a participar da gerência ou
administração da sociedade privada e de exercer o comércio.

28. Não se pode esquecer que a licença, com já demonstrado, é um ato de


natureza discricionária, podendo ser interrompida a qualquer tempo no interesse da
Administração, conforme o disposto no art. 91, parágrafo único, da Lei n.º 8.112/90. Assim,
acaso a Administração Pública verifique que o servidor licenciado esteja exercendo
atividade que contrarie o interesse público, estará autorizada a interrompê-la, sem prejuízo
da aplicação das penalidades disciplinares cabíveis.

29. Registre-se, por fim, que os servidores titulares de cargos de Ministro de


Estado, de Natureza Especial e do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores – DAS,
nível 6, assim como as autoridades equivalentes, que tiveram acesso a informações que
possam ter repercussão econômica, estão sujeitos à “quarentena”, ficando impedidos de
exercer atividades ou de prestar qualquer serviço no setor de sua atuação, por um período de
quatro meses, contados da exoneração ser observado pelos servidores.

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30. Durante esse período, as referidas autoridades permanecem vinculadas ao


órgão ou entidades em que atuavam, fazendo jus à remuneração compensatória equivalente
à do cargo em comissão que exerciam. É o que se extrai da leitura dos arts. 6º e 7º da
Medida Provisória n.º 2.225-45, de 4 de setembro de 2001, veja-se:

“Art. 6º Os titulares de cargos de Ministro de Estado, de Natureza Especial


e do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores – DAS, nível 6, bem assim
as autoridades equivalentes, que tenham tido acesso a informações que
possam ter repercussão econômica, na forma definida em regulamento,
ficam impedidos de exercer atividades ou de prestar qualquer serviço no
setor de sua atuação, por um período de quatro meses, contados da
exoneração, devendo ainda observar o seguinte:
(...)
Parágrafo único. Incluem-se no período a que se refere o caput deste artigo
eventuais períodos de férias não gozadas.

Art. 7º Durante o período de impedimento, as pessoas referidas no art. 6º


desta Medida provisória ficarão vinculadas ao órgão ou entidade em que
atuarem, fazendo jus a remuneração compensatória equivalente à do cargo
em comissão que exerceram.

§1º Em se tratando de servidor público, este poderá optar pelo retorno ao


desempenho das funções de seu cargo efetivo nos casos em que não houver
conflito de interesse, não fazendo jus à remuneração a que se refere o caput.

§2º O disposto neste artigo e no art. 6º aplica-se, também, aos casos de


exoneração a pedido, desde que descumprido o intersício de seis meses no
exercício do cargo.
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§3º A nomeação para outro cargo de ministro de Estado ou cargo em


comissão faz cessar todos os efeitos do impedimento, inclusive o pagamento
da remuneração compensatória a que se refere o caput deste artigo.

31. Em 8 de fevereiro do corrente ano, foi publicada no Diário Oficial da União,


a Orientação Normativa n.º 1 da Secretaria de Recursos Humanos deste Ministério,
estabelecendo recomendações para os órgãos e entidades do Sistema de Pessoal Civil da
Administração Pública Federal quanto aos procedimentos a serem adotados acerca da
aplicação dos arts. 6º e 7º da referida Medida Provisória.

32. Acrescente-se, ainda, que tramita no Congresso Nacional já tendo sido


aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal, o Projeto de Lei n.º
7.528/06, do Executivo, que amplia de quatro meses para um ano o prazo dessa
“quarentena”. Além disso, o aludido projeto estabelece que as pessoas sujeitas ao seu
regime devem seguir as regras inclusive no caso de licença e afastamento do cargo.

33. Assim, afigura-se patente que a Administração Pública, ao analisar as


licenças dos servidores titulares de cargos dessa natureza, deve também atentar para o
período da “quarentena”.

34. Por todo o exposto, sugere-se o encaminhamento dos autos à Coordenação-


Geral de Elaboração, Sistematização e Aplicação de Normas da Secretaria de Recursos
Humanos deste Ministério, para ciência desta manifestação e adoção das providências
cabíveis.

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Processo n.º 17944.001239/2007-24

À consideração superior.

Brasília, 16 de maio de 2008.

PAULO FERNANDO FEIJÓ TORRES JÚNIOR


Advogado da União

De acordo. À consideração do Sr. Consultor Jurídico.


Em /05/2008.

SUELI MARTINS DE MACEDO


Coordenadora-Geral Jurídica de Recursos Humanos

Aprovo. Encaminhem-se os autos à Coordenação-Geral de Elaboração, Sistematização e


Aplicação de Normas da Secretaria de Recursos Humanos deste Ministério, para ciência e
adoção das providências cabíveis.

Em /05/2008.

WILSON DE CASTRO JUNIOR


Consultor Jurídico

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