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Música de Câmara
(CHAMBER MUSIC)
James Joyce

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Música de Câmara
 (CHAMBER MUSIC)
James Joyce

Tradução e prefácio:
Eric Ponty

ALGUMAS CONSIDERAÇOES SOBRE CHAMBER


MUSIC

I - Considerações sobre a estrutura sinfônica:

Musica de Câmara é um aparente conjunto de poemas que


não possui nenhuma preocupação dos livros posteriores, mas
Samuel Beckett nos dá uma outra visão através de seu estudo
que reproduzi o esquema de como este se estrutura como em
uma sinfonia.
Quanto ao meu trabalho de aproximação de leitura
que eu apresento ao leitor devo salientar que não
transpus em minha leitura as rimas que estão no
original, uma vez, que teria de reinventar coisas
para que estas se encaixarem na tradução, além de
particularmente não sentir nenhuma paixão pessoal
pelas mesmas, vide, por exemplo, o primeiro poema
que nos dá a idéia que James Joyce os pensava
ritmicamente:

Strings in the earth and air


Make music sweet;
Strings by the river where
The willows meet.

There’s music along the river


For Love wanders there,
Pale flowers on his mantle,
Dark leaves on his hair.

Neste primeiro poema de Musica de câmara


James Joyce inicia sua estrutura sinfônica através
das cordas como em todo bom movimento em uma
peça de câmara que se preza dando-nos o tema e a
exposição deste:

Cordas na terra e ar,


Fazem música suave.
Cordas pelo rio onde
salgueiro se encontre.
 
Há música ao longo do rio,
para viagens de amor,
Flores pálidas o cobrem,
folhas escuras nos ramos.

No segundo poema James Joyce nos dá o de-


senvolvimento deste primeiro tema exposto:

A transformação do crepúsculo de ametista


para fundo e mais profundamente azul,
O abajur enche de um brilho verde pálido
As árvores da avenida.

No terceiro poema James Joyce nos dá a coda


da primeira exposição do tema, lembrando que o
leitor deve ter em mente que não segue o rigor de
uma estrutura sinfônica propriamente dita como,
por exemplo, nas sinfonias metafísicas de Gustav
Mahler, e suas imagens em Musica de câmara me
fazem lembrar um pouco este compositor por utili-
zar-se das mesmas metáforas da natureza:

Tangem, as harpas invisíveis, até mesmo no amor,


o céu se fez incandescente,
naquela instante quando luzes brandas vêm e vão,
há uma doce música suave no ar
sobre a terra fica embaixo.

Edmund Wilson em O Castelo de Axel faz a se-


guinte observação sobre a construção da matéria
imaginativa: “Joyce é, na verdade, o grande poeta
de uma nova fase da consciência humana. Como o
mundo de Proust, de Whitehead ou de Einstein, o
mundo de Joyce está sempre mudando, como, é
observado por diferentes observadores em tempos
diferentes. É um organismo constituído de” even-
tos” que podem ser considerados como infinitamen-
te inclusivos ou infinitamente pequenos: cada um
deles implica todos os outros, a cada um deles é
único.” Numa divisão da imaginação, na sua ruptura,
e musica de câmara já contem isto em sua estrutu-
ra com a preocupação das três fases biológicas da
vida e de sua transformação e como James Joyce é
um admirador do filosofo italiano Giambattista Vico
e seu Musica de Câmara já perpassa esta preocupa-
ção viceana que dividiu o desenvolvimento de socie-
dade humana em três períodos:
1. 1.       Teocrático

2. 2.       Heróico

3. 3.       Humano (civilizado)


cada uma das classificações correspondente ao seu idioma:
1. 1.       Hieroglífico (sagrado)

2. 2.       Metafórico (poético)

3. 3.       Filosófico (capaz de abstração e generalização)


II - Pressuposto para imaginação da poesia de
James Joyce.

Ronald Peacock coloca em “Formas da literatura


dramática” a seguinte colocação sobre a visão imaginativa “Os
contextos de conscientização imaginativa, que nisso se
distinguem de conscientização conceptual cu perceptiva,
permitem-nos fazer descobertas visuais a respeito do mundo, e
muitos pintores já exploraram a natureza nesse sentido.
Resolvidos a estudar suas aparências, sentiram sempre que sua
pintura descobria aspectos da natureza que não eram de forma
alguma uma questão “subjetiva” mar, essencialmente. elementos
ali presentes para serem vistos e, urna vez apontados, prontos a
exigir admissão de sua existência pelos outros. CONSTABLE é um
exemplo destacado, pois buscou - por meio da mais atenta
observação - qualidades da natureza, que não haviam antes sido
retratadas, falando de uma “arte de ver a natureza” a ser
aprendida pela mais humilde dedicação. Um comentário de
CÉZANNE ilustra como o artista procura situar-se no contato
mais intimo possível com a natureza que o circunda:”E assim fui
obrigado a desistir de meu projeto de refazer todo Poussin
diretamente da natureza, a não construído pedaço por pedaço a
partir de notas, desenhos a fragmentos de estudos: em poucas
palavras, de pintar um Poussin vivo, ao ar livre, com cor a luz,
em vez de rima dessas obras imaginadas num estúdio, onde tudo
tem a coloração marrom de uma fraca luz do dia, sem reflexos do
céu a do sol”.”Em vez de uma dessas obras imaginadas num
estúdio — Cézanne coloca aqui a imaginação em contato direto
com a cor e a luz, para que sua pintura, por sua vez, possa
refletir essa intimidade. Ele vê: a depois pinta.” E quando tentei
aproximar minha leitura tentei fazer o máximo possível de
autonomia imaginativa em relação á voz derradeira de Joyce num
intercambio desta via.
Richard Ellmann nos dá em seu ensaio”Tornado-se exilados”
uma visão de como James Joyce tinha consideração por este seu
livro de poemas: “Imagine-se como Joyce devia achar
extraordinário que Kettle fizesse uma resenha tão favorável de
um livro de poemas que incluía dois dirigidos à sua futura mulher.
Era o tipo de ironia que lhe agradava. Como que pare completá-
la, ele resolveu que seu presente de casamento pare o casal
seria um exemplar de Música de câmara, especialmente
encadernado pare eles em Trieste. Para alguém sem muito
dinheiro para gastar, a sem grandes propensões a dar presentes
de casamento a troco de nada, a oferenda a um noivos
envolvendo atenções rivais para com a noiva possuía um peso
simbólico. Terá sido uma espécie de adultério mais exeqüível?
Será que Joyce esperava que os poemas escritos para Mary
Sheehy finalmente iriam receber sue atenção, que seus olhos
seriam perpassados pelas emoções que ele sentira e ele
expressara muito tempo antes? O fato de que o presente de
Joyce permita colocar tais perguntas leva-nos a reconhecer um
ponto que, de que outra forma, poderia passar despercebido:
que Joyce colocou Kettle, Cosgrave e Gosgarty em Robert Hand,
mas, além deles, também incluiu algo de si mesmo.”

III– Considerações Literárias:

Não considero ora trabalho que o leitor tem em


mãos como uma tradução propriamente dita, mas
como um mero exercício de leitura, uma aproxima-
ção de leitura do texto joyceano em construção.
Há doze anos venho tendo a curiosidade de poder ler este
conjunto de poemas que se denomina-se de “CHAMBER MUSIC”
e nunca eu encontrei nenhuma tradução exceto um ou dois
poemas que não me davam na minha curiosidade de leitor a
extensão do conjunto de “Música de Câmara” deste
apaixonante escritor irlandês que é James Joyce.
Pude perceber nestes versos de Música de Câmara o
mesmo caráter romântico de Giácomo Joyce que havia lido na
tradução de Paulo Leminski, pôde perceber também o inicio da
formação das palavras valises que cominariam no Finnegans
Wake, além de me parecer um poeta melancólico e romântico
muito influenciando por W.B. Yeats.
Musica de Câmara, o primeiro livro de Joyce permaneceu
para mim sempre em aberto na minha formação de leitor
joyceano e considero o trabalho aqui apresentado apenas como
já disse, uma aproximação da voz derradeira de James Joyce.
Em suma, não considero que é um trabalho concluído de
leitura, que estará em constante transformação, uma vez, que
espero sugestões de colaboração de seus possíveis leitores e
termino citando a última estrofe do primeiro poema:

Tocam suavemente tudo,


inclinando-se sobre a musica,
e dedos vagueiam,
sobre o instrumento...
Música de Câmara
 (CHAMBER MUSIC)

Poema I

Cordas na terra e ar,


Fazem doce música.
Cordas pelo rio onde
salgueiros se encontram.
 
Há música ao longo do rio,
para viagens de amor,
Flores pálidas o cobrem,
folhas escuras nos ramos.
 
Tocam suavemente tudo,
inclinando-se sobre musica,
e dedos vagueiam,
sobre o instrumento..
 
Poema II

A transformação do crepúsculo de ametista


para fundo e mais profundamente azul,
O abajur enche de um brilho verde pálido
As árvores da avenida.
 
O piano velho soa pelo ar,
sereno e lento e alegre;
Ela toca suas teclas amarelas,
rebaixando-se com a cabeça.
 
Pensamentos tímidos e os olhos amplos e sérios
se atem quando estes surgem
O crepúsculo vira azul marinho
nas luzes de ametista.
 
Poema III

Naquela instante quando todas as coisas param,


O desolado observador solitário está nos céus,
você ouve o vento noturno e seus suspiros,
de harpas que tangem até amor se reunir
nos pálidos portões do êxtase??
 
Quando todas as coisas pararem, e ficarem sós
acorda para ouvir o doce tanger das harpas,
para amar.
E o vento noturno, responde em antífona,
Até que esta noite termine?
 
Tangem, as harpas invisíveis, até mesmo no amor,
o céu se fez incandescente,
naquela instante quando luzes brandas vêm e vão,
há uma doce música suave no ar
sobre a terra fica embaixo.
 
Poema IV

Quando surge a estrela tímida diante do céu


Como para toda garota, desconsolada,
e você a escuta sonolenta até mesmo
aquele que está cantando em seu portão.
A suave canção é mais macia que o orvalho
E ele lhe veio visitar.
 
Não toca mais alto
quando está cantando,
nem a musa: Que pode ser este cantor,
e de quem é canção que diz seu coração?
Reconhecerá, o canto do amante,
Pois este é seu visitante.
Poema V

Tangendo fora da janela,


seu cabelo dourado,
o ouvi cantando
num alegre ar.
 
Meu livro está fechado,
eu não o estou lendo-o mais,
observo a dança do fogo
no chão.
 
Cantando e cantando
um alegre ar,
tangendo para fora da janela,
seu cabelo dourado.
 
Poema VI

Eu seria como aquele seio de doçura,


(Que tão doce e é tão justo!),
Onde nenhum rude vento poderia me visitar.
Por causa de meu triste pesar,
farei-me como naquele seio tão doce.
 
Eu já faria parte daquele coração,
(Tão macio e suave que eu o imploro!),
onde somente paz poderia me pertencer.
sua firmeza era de todas a mais doce,
só assim eu já faria naquele coração.
 
Poema VII

Meu amor está em um traje claro


entre as árvoresmaças,
onde alegria ganha ao fazer-se de grande desejo
para passar juntas.
 
Lá, onde os ventos alegres ficam a cortejar
as jovens folhas que passam,
Meu amor vai devagar, enquanto vai tangendo
sua sombra pela grama;
 
E onde como numa taça do céu azul pálido
se faz pela risonha terra,
Meu amor segue lento, enquanto tange
pelo vestido com sua uma mão delicada.
 
Poema VIII

Que se vai entre a verde madeira


Como uma maré de água-viva que a tudo adorna?
Que se vai entre a verde madeira alegre
a fazer-se mais alegre.
 
Que se passa na luz solar
que conhece a clara dança de outono?
Que se passa na doce luz solar
Com aurora tão virginal?
 
Todo bosque
Vislumbra-se num fogo macio e dourado -
Para fazer todo ensolarado
em um leve traje tão valente?
 
Este é para meu verdadeiro amor
os bosques e as suas ricas folhagens
este é para meu verdadeiro amor,
que é tão jovem e justo.
 
Poema IX

Ventos de maio que dançam no mar,


Dançando como um anel,
De cume para cume, enquanto
a espuma se faz adornada,
Em arcos prateados que atravessam o ar,
a observar meu verdadeiro amor em qualquer lugar?
Welladia! Welladia!
Para os ventos de maio!
Amor estará infeliz enquanto estiver ausente!
 
Poema X

Luminoso cume de raios,


Ele canta no vazio:
Venha siga, venha siga,
 
Todos estão com você naquele amor.
Deixe a quimera para o sonhador
este não mais virá,
Aquela canção e aquele riso
não fazem qualquer movimento.
 
Com os retalhos fluindo
Ele canta mais audaz;
Ajuntando-se ao se reunir
aos zumbidos selvagens das abelhas.
E o tempo para sonhar
com as quimeras que se findaram -
como um amante para outro amante,
Amada, eu venho.
 
Poema XI

Dê adeus, adeus, adeus


Dê adeus para sua tenra idade,
O alegre amor veio para lhe cortejar
como seu jeito tão feminino
que te fez tão formoso,
que tange em cabelo dourado.
 
Quando tu ouvir o teu nome
entre as cornetas de um querubim
comece suavemente repartindo
vosso suave seio feminino
desfazendo-se desta desconfiança
deste tenro virginal sinal.
 
Poema XII

Que conselho tem a pálida lua


para dizer em vosso coração, minha tímida doce,
de plenilúnio de um amor antigo,
a glória e estrelas estão debaixo de vossos pés -
Seu receio é bem menor que dos amigos e parentes
que se fazem parecer como comediante Capuchinho?
 
Eu acredito que este seja um conselho sábio
bastante, para seu divino descuido,
Uma glória ressurge nestes olhos,
tremendo como a luz das estrelas. Mina, O Mina!
Não será apenas esta uma lágrima de lua ou névoa
para vós, minha doce sentimentalista.
Poema XIII

Vá buscá-la com toda cortesia,


E diga que eu já virei,
Vento especial já fez sua canção
Epithalamium.
a correr para o alto das terras escuras
E que se expandem até o mar
Pelos mares e terras que não nos separará
nem meu amor e nem eu.
 
Agora, vento, com boa cortesia,
Eu rogo que se vá,
E penetre em seu pequeno jardim
E soe em sua janela
Cantando: O vento nupcial está murmurando
Para este amor que se faz ao meio-dia;
E logo mais seu verdadeiro amor estará se reunido,
Logo, logo.
 
Poema XIV

Minha pomba, minha linda,


surja, surja!
À noite-orvalho jaz entre
meus lábios e meus olhos.
 
Os odores dos ventos estão tangendo
em sua música de suspiros:
Surja, surja,
Minha pomba, minha linda!
 
Eu espero junto à árvore de cedro,
Minha irmã, meu amor.
Alvo peito de uma pomba,
será sua cama este meu peito.
 
O orvalho pálido jaze
como véu em minha cabeça.
Minha mais justa, minha única pomba,
surja, surja!
 
Poema XV

Dos sonhos mais calmos, minha alma, aparece,


Do profundo sono e da morte,
As árvores estão apinhadas de suspiros
De quem folhas da manhã anunciam.
 
Para o leste este amanhecer lento aparece
onde fogos suaves ardem e surgem,
fazendo-se luzir em todas nuances
entre o cinzento e o suave dourado.
 
Enquanto doce, suave, secreto,
são tangidos os sinos floridos da manhã
E os sábios coros das fadas
Começam (indescritíveis!) a serem escutados.
 
Poema XVI

O frescor deste vale agora


E ali, amor, nós fará
para muitos que este coro está cantando agora
onde o amor existiu algum dia.
E não ouve você, seu tordo chamado,
nos evocando daqui?
O frio é agradável neste o vale
do amor que nos reunirá.
 
Poema XVII

Porque sua voz estava a meu lado


Quando eu lhe falei da minha dor,
Porque dentro de minha mão eu te segurei
Sua mão outra vez.
 
Não há nenhuma palavra e qualquer sinal
que nos faça reunir -
Ele é um estranho a mim
Eu que era o seu amigo.
 
Poema XVIII

O Amada, me escute
com minha história de amor;
Um homem terá tristeza
quando os amigos lhe faltarem

Porque ele deve saber então


que os amigos são falsos
E de pequenas cinzas são
as palavras quando surgem.
 
Mas uma palavra irá até ele
indo suavemente lhe tocar
E ternamente o cortejará
Com seu jeito de amor.
 
A mão está debaixo dela
de seu redondo peito liso;
Assim ele que está triste.
Terá todo o resto.
 
Poema XIX

Não fique triste porque todos os homens


Prefiram seu glamour antigo:
Amada, esteja novamente em paz
poderão eles lhes desonrar?

São mais tristes que todas as lágrimas;


Vidas passam como num suspiro ininterrupto.
Orgulhosamente responda às lágrimas:
como eles negarem, negue.
 
Poema XX

Na madeira escura do pinheiro


eu me deitarei convosco,
Em uma funda sombra fresca
Ao meio-dia.
 
Como deitar pode ser doce,
Doce como beijar,
Onde a grande floresta de pinheiros
Está!
 
Vós beijarei lentamente
sendo assim o mais doce
com um tumulto macio
em vossos cabelos.

Até o pinheiro,
ao meio-dia
se parecerá agora comigo,
amando docemente, daqui.
 
Poema XXI

Para quem perdeu sua glória, nem encontra


alguma alma para ser sua companheira,
Entre os inimigos que o desprezarem com ira
tendo esta nobreza tão antiga, -
O amor lhe servirá como companhia.
 
Poema XXII

Desta tão doce prisão


minha alma, mais querida está
nos braços macios que me quer namorar
e conquistar.
Ah, podem os braços me segurar
onde alegremente fui prisioneiro!
 
Minha querida, por entre estes entrelaçados
braços que o amor fizeram-se trêmulos,
Aquela noite me seduziu e me avisou
agora eles podem nos preocupar;
Mas dorme seu sono mais amado para que se junte
onde alma e o espírito fazem-se de prisioneiras.
 
Poema XXIII

Este coração que treme próximo ao meu coração


todas minhas riquezas são a minha esperança,
Infelicidade é quando a gente se separa
E é feliz entre beijo e um outro beijo;
Todas minhas riquezas são a minha esperança.-sim! -
E toda minha felicidade
 
Lá, como em algum ninho musgoso,
os rouxinóis que guardam seus tesouros
onde eu guardei todos meus tesouros que eu possuía
antes que os cultos olhos tenham aprendido a se lamentar.
É preciso nós não sermos tão sábios
embora amor sobreviva por mais um dia?
 
Poema XXIV

Silenciosamente ela está se penteando,


penteando os seus cabelos longos,
silenciosa e graciosamente,
feito como muitas de lindo ar.
 
O sol está nas folhas de salgueiro
E na grama manchada,
E ela penteia seus cabelos longos
na frente do espelho.
 
Eu rogo, que os deixe de pentear,
pare de pentear seus cabelos longos,
porque eu ouvi dizer de seu feitiço
debaixo deste lindo ar,
 
Que faz objeto de seu ao amante
que o faz se parecer como muitos
e como muitas de um lindo ar
que muitos ignoram.
Poema XXV

Venha levemente e ligeiramente se vá:


embora vosso coração sinta aflição,
como um sol perdido em muitos vales,
Ninfas dão risadas de vossa presa com este
cultivado ar irreverente da montanha
que ondula todo vosso cabelo quando voa.

Ligeiramente, levemente— já assim:


Nuvens lá embaixo cobrem os vales
há instantes que se parecem com estrelas
que são como seus os criados mais humildes;
Amor e risada confessam em suas canções.
Poema XXVI

Tu é mais magra que à concha da noite,


Querida senhora, de divinas orelhas.
Naquele suave murmúrio da delicia,
qual foi o tom fez vosso coração temer?
Pareciam-se com rios que apressam adiante
dos desertos cinzentos do norte?
 
Vosso animo, ô minha tímida
se olhar bem, é como do homem
neste furioso conto que nos chega
nesta hora sombria e conjecturável
E para todos num nome que se lerá
Em Purchas ou em Holinshed.
 
Poema XXVII

Embora vós Mithridates seja,


feito para lançar seu dardo de veneno,
Ainda que me faça atingir desavisado
Saiba que no êxtase de vosso coração,
eu me fiz e confessei em vossa terna malícia.
 
Para sua elegante e antiga frase,
Mais querida, meus lábios se fecharam em sabedoria;
Nem eu soube de um amor cujo elogio
Nossos poetas serenos solenizaram,
Nem com um amor onde não pudesse ser
de tão pouca falsidade.
 
Poema XXVIII

Gentil senhora, não cante


canções tristes sobre o fim do amor;
Coloque esta tristeza de lado e cante
este amor que passa. Já é o bastante.
 
Cante sobre o longo sono profundo
dos amantes mortos, e como
dormirá todo amor numa lápide:
Amor já se fez exausto agora.
Poema XXIX

Amor veio com o tempo e por nós passou


como um tímido crepúsculo se aparecia
E com um medo parado permaneceria -
Pois todo primeiro amor nos amedronta.
 
Nós éramos como amantes sérios. Amor ido
já teve todas suas doces horas;
Bem-vinda agora ao passado
da mesma maneira que nós já fomos.
 
Poema XXX

Querido coração, por que você me faz assim?


Queridos olhos que suaves me autocensuram,
Ainda são tão bonitos -mas,
o que são em toda sua beleza!
 
Pelo branco espelho de seus olhos,
Pelo grito macio de se beijar,
desolados ventos assaltam como gritos
do obscuro jardim de onde o amor se faz.
 
E logo que o amor for diluído
como num rufo dos ventos selvagens a rugir para nós -
Mas você, querido amor, tão querido para mim,
Ai! Por que você me usa assim?
 
Poema XXXI

Estava fora de Donnycarney


Quando um morcego voou de árvore para outra
Meu amor e eu caminhamos juntos;
E de doçura sejam as palavras que ela me disser.
 
Junte-se a nós vento de verão
vá murmurando, felizmente! -
Mas mais macia era sua respiração de verão
Era o beijo que ela havia dado para mim.
 
Poema XXXII

Chuva caiu durante todo o dia.


Vinda entre as árvores frondosas:
As folhas jazem grossas no horizonte
das recordações.
 
Se parecem um pouco
com as recordações que a gente deve recordar.
Venha, minha querida, onde eu posso
falar com seu coração.
 
Poema XXXIII

Agora, agora, nesta terra marrom


Onde o amor se fez de tão doce música
Nós dois devemos passear, de mãos dadas,
Pacientes por causa de uma velha viagem,
sem aflição porque nosso amor era tão alegre
para que termina-se agora deste jeito.
 
Um tratante vestido vermelho e amarelo
Está batendo, batendo na árvore;
E em volta de nossas solidões
O vento está assobiando.
As folhas - elas não suspiram nada
Quando o ano vir com o outono.
 
Agora, agora, nós não ouviremos nada mais
nem villanelle e rondó!
Ainda vamos nos beijar, amada, antes
de nos ausentarmos ao triste fim do dia.
Não se aflija, amada, por nada
O ano, o ano já está terminando.
Poema XXXIV

Durma agora, durma agora


fala meu inquieto coração
a voz chora: “durma agora”
É se faz ouvir no meu coração.
 
A voz do vento
se ouve na porta
Oh durma, para esperar a primavera
que está chorando: “Durma agora”.
 
Meu beijo trará a paz
E aquietará o coração
Durma agora em paz.
Oh inquieto coração.
Poema XXXV

Todo o dia eu ouço o murmuro das águas


Gemendo
Triste como o mar-pássaro, ao partir
solitário
Ele ouve os ventos sussurrarem nas águas
Monotonia.
 
Os ventos cinzentos, os ventos frios estão soprando
onde eu irei
Escuto o marulho de muitas águas
Longe e distantes.
Toda à noite, eu os ouço fluindo todo o dia,
Para lá e para cá.
 
Poema XXXVI

Eu ouço um exército que passa pela terra,


E o trovão de seus cavalos enterrados; espumando sobre os
joelhos
Arrogantes, em negras armaduras,
cocheiros, de rédeas soltas, tremulando em seus chicotes.
 
Eles choram na noite seus nomes na batalha:
Eu tremo em meu sono quando eu ouço suas risadas ao longe.
Eles partem da escuridão dos sonhos, quais chamas ofuscantes,
Tinindo, tinindo no coração como em uma bigorna.
 
Eles vêm, enquanto sacodem em triunfo os longos cabelos
cinzentos:
Eles saem do mar e gritam correndo pela costa.
Meu coração, não conhece nada para se desesperar?
Meu amor, meu amor, meu amor, por que você me deixou só?

FIM
Eric Ponty

É poeta, escritor e ensaísta. Nasceu em abril de


1968. É membro da Academia de Letras
Sanjoanense na cadeira do Poeta José Severiano de
Rezende um dos precursores do Modernismo.

Foi elogiado pelos poetas Ferreira Gullar, Ivo Barro-


so, Ivan Junqueira, Augusto Massi, entre outros
pelo seu poema ainda inédito “Pompas de Abril”.
Lançou os seguintes livros de poesia “Homo-Ima-
gens” (esgotado), “Livro Sobre Tudo” (Elogiado pelo
Poeta Ferreira Gullar), traduziu “O Cemitério Mari-
nho” de Paul Valéry, e “O Anjo de David” este de
literatura infanto-juvenil e os livros de ensaios
“Breviário do Tempo” e “A Contemplação do belo
Adormecido” todos publicados pela A Voz do
Lenheiro Editora. O SACERDÓCIO DA POESIA, Uma
introdução à poesia de José Severiano de Resende.

Integra o projeto “A Voz do Poeta” que consiste na


gravação de um Cd individual onde se registra a
leitura pessoal de seus poemas. Com coordenação
de Ivo Barroso (Trad. Do Pêndulo de Focault e Ra-
zão e Sensibilidade). É colaborador da Dimensão
Revista Internacional de Poesia e da revista Xilo e
Orion – Revista de Poesia do Mundo de Língua Por-
tuguesa. Poesia para Todos. Colabora nas revistas
On-line Agulha e Tanto entre outras. Está incluído
na Antologia Mineira do Século XX do prof. e crítico
Assis Brasil editado pela Imago (RJ) em 1998 que
já se encontra esgotado.

“Com toda a sua atividade performática e multimídia, Eric Ponty


estreou com livro de poesia, Homo-imagens, de 1996, para no
ano seguinte lançar Livro sobre tudo, talvez uma “resposta “ ao
Livro sobre Nada de Manoel de Barros. os livros de poesia
inéditos são vários, em destaque Melancolia de uma tarde de
domingo e Inautagónico. Do primeiro, damos uma amostra nesta
Antologia.

Como muitos poetas de sua geração, Eric Ponty se diz devedor


dos movimentos poéticos das décadas de 60/70, mas com a
referência da tradição modernista de um Manuel Bandeira, e mais
Murilo Mendes e Dante Milano.
Coroando a sua performance literária, pelo menos na sua cidade
natal, Eric Ponty eleito membro da Academia de Letras de São
João del-Rei, cadeira cujo patrono é o poeta José Severiano de
Resende.”

A POESIA MINEIRA NO SÉCULO XX - ORGANIZAÇÃO E NOTAS


ASSIS BRASIL - Coleção Poesia Brasileira - Imago Rio de
Janeiro 1998 – Brasil

Para corresponder com Eric Ponty escreva:


ericponty@intermega.com.br

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