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FACULDADE CATÓLICA SANTA TERESINHA

BACHARELADO EM SERVIÇO SOCIAL

ALDENÍ GOMES DE ARAÚJO JÚNIOR

ENSAIOS DE UMA CATEGORIA EMANCIPATÓRIA: A IMPORTÂNCIA DA


TEORIA SOCIAL MARXISTA NO FORTALECIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL

CAICÓ-RN
2021
ALDENÍ GOMES DE ARAÚJO JÚNIOR

ENSAIOS DE UMA CATEGORIA EMANCIPATÓRIA: A IMPORTÂNCIA DA TEORIA


SOCIAL MARXISTA NO FORTALECIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL

Monografia apresentada como requisitos para


a obtenção de graduação em Bacharel em
Serviço Social. Faculdade Católica Santa
Teresinha, Curso de Bacharelado em Serviço
Social.

Orientadora: Prof. Esp. Ozeane Araújo de


Albuquerque da Silva.

CAICÓ-RN
2021
CATALOGAÇÃO NA FONTE
Biblioteca Madre Francisca Lechner
Faculdade Católica Santa Teresinha

A663e Araújo Junior, Aldení Gomes de.

Ensaios de uma Categoria Emancipatória: A Importância da Teoria Social


Marxista no Fortalecimento do Serviço Social. / Aldení Gomes de Araújo
Junior. – Caicó, RN, 2021.

70f.

Orientador(a): Profª. Esp. Ozeane Araújo de Albuquerque da Silva.

Monografia (Bacharelado em Serviço Social) – Faculdade Católica Santa


Teresinha. Curso de Graduação em Serviço Social.

1. Serviço Social- Monografia. 2. Materialismo Histórico- Monografia.


3. Totalidade- Monografia. 4. Marxismo- Monografia I. Araújo Junior,
Aldení Gomes de. II. Faculdade Católica Santa Teresinha. III. Título.

RN/BU/FCST CDU 364:316.26

Catalogado por Régio Neri Galvão de Araújo CRB15-897/0


ALDENÍ GOMES DE ARAÚJO JÚNIOR

ENSAIOS DE UMA CATEGORIA EMANCIPATÓRIA: A IMPORTÂNCIA DA


TEORIA SOCIAL MARXISTA NO FORTALECIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL

Monografia apresentada como requisitos para


a obtenção de graduação em Bacharel em
Serviço Social. Faculdade Católica Santa
Teresinha, Curso de Bacharelado em Serviço
Social.

MONOGRAFIA APROVADA EM: 25/02/2021


BANCA EXAMINADORA:

Prof.ª Esp. Ozeane de Albuquerque da Silva Medeiros


Faculdade Católica Santa Teresinha
(Orientadora)

Prof. Me. Sebastião Caio dos Santos Dantas


Faculdade Católica Santa Teresinha
(Examinador)

Prof.ª Ma. Raquel Sales de Medeiros


Faculdade Católica Santa Teresinha
(Presidenta da Banca)
Dedico este trabalho à minha família e
às/aos amigas/os que fizeram parte direta
da minha formação, bem como minhas
professoras e professores que trilharam o
caminho da formação acadêmica em
conjunto com todas/todos nós.
AGRADECIMENTOS

Aqui caberia um “mundo de agradecimentos” quando se nota as inúmeras


contribuições que eu tive no meu processo de formação. Não poderia começar sem
agradecer imensamente à minha mãe Jailde Oliveira e à minha irmã Dayana Grace
que foram essenciais não somente na faculdade, mas em toda a minha vida. Vocês
são exemplos de mulheres que eu admiro. Agradecer aos meus três raios de luz
Ianne Thays, Emily Cecília e Maria Valentina pela imensa força que vocês me
passam de continuar lutando por um mundo melhor.
O meu imenso obrigado a Gabriel Cileno, que foi a minha surpresa e parte da
minha alegria nesses quatro anos de formação. Aquele que não me deixa
desanimar, que segura a minha mão e consegue enxergar na tristeza um momento
de recomeçar e levantar. Sou grato por todo o companheirismo durante todo esse
tempo.
A minha sincera gratidão a Bruna Dantas e Victor Vinícius por todo o apoio,
principalmente no início do curso, fazendo-me continuar diante de tantas
dificuldades que surgiram. À Patrícia Lima, Reicle Kledson e Istelo Almeida que
sempre me alegraram e dividiram momentos incríveis juntas e juntos, enchendo-me
de apoio e ânimo para prosseguir.
À minha “galerinha top top”, Nadir Mayara, Hiorrana Larissa, Maria do Rosário
e Francisco das Chagas, o meu muito obrigado por tudo! Trilhamos este caminho
juntas e juntos. Foram os mais diversos momentos, desde choro, alegrias, sorrisos,
abraços... Amigos que eu levarei comigo pelo resto de minha vida. A Vanessa
Amâncio, Leiliany Keila, Mariana Dantas e tantas outras/outros que dividiram comigo
momentos no estágio e na vida.
Eu não poderia esquecer das/dos minhas/meus queridas/dos amigas/os e
docentes Priscilla Brandão, Sebastião Caio e Ozeane Albuquerque que me
inspiraram enquanto exemplos de profissionais comprometidas, engajadas/os nas
lutas e por todo o conhecimento construído. Meu muito obrigado!!
Agradeço, direta ou indiretamente, à todas as pessoas que fizeram parte da
minha formação, às/aos demais professoras e professores que trilharam esse
caminho de conhecimento e luta diante de tantos retrocessos vivenciados na
atualidade. Muito obrigado!
Todas as classes anteriores que
conquistaram o poder procuraram
proteger uma posição já alcançada na
vida, submetendo toda a sociedade as
suas condições de apropriação. Os
proletariados não podem se tornar
mestres das forças produtivas da
sociedade, a não ser para abolir o seu
próprio modo anterior de apropriação e
com ele todo o modo anterior de
apropriação. Os proletários nada têm de
seu a salvaguarde. Sua missão é destruir
todas as garantias e seguranças da
propriedade privada até então existentes.

(Karl Marx & Friedrich Engels).


RESUMO

O presente estudo tem como foco a análise da teoria social marxista no Serviço
Social, adentrando em seu processo sócio-histórico e o seu amadurecimento teórico,
metodológico e interventivo da categoria. A fundamentação teórica analisou o
processo antagônico das classes existentes, correlacionando os seus conflitos e
interesses distintos, seguindo para o marxismo na contemporaneidade e os seus
diversos desafios diante do Estado burguês e os seus meios de dominação. Sendo o
Serviço Social uma profissão que se modificou durante a sua trajetória, o seu projeto
profissional consolidou-se hegemonicamente enquanto norte emancipatório e de
rompimento com as práticas da classe dominante, refletindo acerca da própria
sociabilidade atual. Ademais, além da fundamentação, concluiu-se com a análise
dos dados obtidos através da pesquisa de caráter bibliográfico que explorou dez
anos de publicações das plataformas digitais Katálysis, Temporalis e Serviço Social
& Sociedade, sendo um campo diverso que demonstrou o interesse da categoria em
discutir temas como a aproximação da profissão com o marxismo, o processo de
rompimento com o conservadorismo e o materialismo histórico e dialético. Com base
nessas categorias elencadas que se desenvolveu tal proposta de trabalho
apresentado, elencando questões pertinentes para o Serviço Social tanto em sua
formação acadêmica quanto no seu fazer profissional.

Palavras-chave: Serviço Social. Materialismo histórico. Totalidade. Marxismo.


ABSTRACT

The present study focuses on the analysis of marxist social theory in Social Service,
entering into its socio-historical process and its theoretical, methodological and
interventional maturation of the category. The theoretical foundation analyzed the
antagonistic process of the existing classes, correlating their distinct conflicts and
interests, moving on to Marxism in contemporary times and its various challenges
before the bourgeois state and its means of domination. Since Social Service was a
profession that changed during its trajectory, its professional project was
hegemonically consolidated as an emancipatory north and a break with the practices
of the ruling class, reflecting on the current sociability itself. Moreover, in addition to
the foundation, it was concluded with the analysis of the data obtained through the
bibliographic research that explored ten years of publications of the digital platforms
Katálysis, Temporalis and Serviço Social & Sociedade, being a diverse field that
demonstrated the interest of the category in discussing topics such as the
approximation of the profession with marxism, the process of disruption with
conservatism and historical and dialectical materialism. Based on these selected
categories, this proposal of work presented was developed, list questions relevant to
Social Service both in its academic education and in its professional practice.

Keywords: Social Service. Historical materialism. All. Marxism.


LISTA DE SIGLAS E ABREVIAÇÕES

CFESS Conselho Federal de Serviço Social


CRESS Conselho Regional de Serviço Social
ABEPSS Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social
ENESSO Executiva Nacional de Estudantes de Serviço Socia
MPC Modo de Produção Capitalista
CEP Código de Ética Profissional
PEP Projeto Ético-político
EAD Ensino à Distância
LISTA DE QUADROS

QUADRO I - PLATAFORMAS E NÚMERO DE PUBLICAÇÕES EXCLUÍDAS E


INCLUÍDAS NA AMOSTRA, COM BASE NOS CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E
EXCLUSÃO. .............................................................................................................. 42

QUADRO II - ARTIGOS ANALISADOS POR CÓDIGO, TÍTULO, RESUMO,


INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR E ANO DE PUBLICAÇÃO ......................... 45
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 14
2 CLASSES SOCIAIS, MARXISMO E DIRECIONAMENTO CRÍTICO DO
SERVIÇO SOCIAL.................................................................................................... 16
2.1 ANÁLISE DAS CLASSES ANTAGÔNICAS: BURGUESIA E
PROLETARIADO ................................................................................................... 16
2.1.1 LUTAS DE CLASSES, ESTADO E QUESTÃO SOCIAL ................................ 21
2.2 MARXISMO E A CONTEMPORANEIDADE ..................................................... 26
3 DIREÇÃO NORTEADORA DO SERVIÇO SOCIAL ........................................... 32
3.1 PROJETO PROFISSIONAL ............................................................................. 32
3.2 ECLETISMO E PLURALISMO NO SERVIÇO SOCIAL ..................................... 36
4 A GÊNESE DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL, ANÁLISE DIALÉTICA E OS
DESAFIOS DA PÓS-MODERNIDADE PARA A CATEGORIA. ............................... 41
4.1 METODOLOGIA............................................................................................... 41
4.2 SERVIÇO SOCIAL E SEU PROCESSO SÓCIO-HISTÓRICO.......................... 47
4.3 SERVIÇO SOCIAL E A PÓS-MODERNIDADE: PROCESSOS
CONSERVADORES E CONTRADITÓRIOS NA CATEGORIA. ............................. 53
4.4 MATERIALISMO HISTÓRICO E DIALÉTICO ................................................... 56
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 60
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................... 63
14

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho buscou apreender a discussão da teoria social marxista


na categoria do Serviço Social, tendo como norte publicações que dialogam sobre a
temática. Ao fazer o apanhado dos artigos, foram encontrados dez trabalhos que
respondiam aos critérios de inclusão e exclusão, que serão melhor detalhados nos
aspectos metodológicos. Utilizou-se as plataformas Katálysis, Temporalis e Serviço
Social & Sociedade para filtrar e selecionar os artigos utilizados.
A tabulação apresentou um leque de conteúdos os quais se expressam
através das publicações, como a ligação da atuação profissional pautada no projeto
ético político, os mais diversos códigos de éticas (Código de Ética de 1947, 1965,
1975, 1986 e por último, Código de Ética de 1993), durante todo o processo de
surgimento e desenvolvimento da profissão; a resistência às frentes neoliberais que
visam reduzir o Serviço Social à meras práticas paliativas e pontuais, a aproximação
da categoria com a teoria social marxista e todo o processo histórico ocorrido.
Ainda no projeto de pesquisa, tinha-se enquanto hipóteses a presença
marcante da teoria social marxista no Serviço Social, o crescimento conservador na
profissão que se choca com as bases curriculares, indo ao encontro de uma prática
eclética e fora da visão de atuação que a categoria almeja. E, por fim, o fazer
profissional crítico/reflexivo pautado na teoria social marxista, o qual se evidencia
enquanto fator basilar para que se possa responder as mais diversas expressões da
questão social e realizar uma leitura crítica ao sistema vigente.
Sendo assim, tais hipóteses confirmaram-se ao realizar o apanhado teórico
utilizado na pesquisa. Consequentemente, evidencia-se a teoria social marxista na
prática atual da profissão, tendo em vista os avanços conservadores que atingem a
esfera daquela desde sua base curricular, sendo uma luta que se materializa por um
Serviço Social crítico/reflexivo e outra por uma prática imediata que responda aos
interesses do sistema capitalista.
Dessa forma, o objetivo geral fora analisar os avanços e desafios da
efetivação da teoria social marxista no Serviço Social, mediante o cenário de
investidas neoliberais e os avanços do conservadorismo. Ademais, enquanto
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objetivos específicos, elencou-se apreender a base da teoria marxista na formação


profissional dos assistentes sociais, identificar as condições materiais e históricas
nas contradições contemporâneas entre capital e trabalho e seus rebatimentos na
atuação profissional, e distinguir projetos profissionais contrários à base teórica
marxista do Serviço Social, confrontando com a perspectiva pós-moderna.
O presente trabalho tem relevância acadêmica para a formação dos discentes
de Serviço Social, ao pensar nas análises e críticas ao sistema capitalista, fator
basilar quando que se evidenciam as mais diversas expressões da questão social,
além do conhecimento acerca do processo sócio-histórico da categoria, seus
avanços e desafios.
Além disso, há uma grande importância para profissionais já atuantes, tendo
em vista a crescente ascensão dos estudos pós-modernos que ganham forças no
fazer profissional, os quais estabelecem confrontos com as análises críticas e suas
bases marxistas que detêm importância e contribuição alicerçada na profissão.
Igualmente, a sua relevância social, quando se sobressaem as errôneas
críticas ao marxismo diante do avanço conservador de direita e no seu interesse na
manutenção da ordem capitalista.
Portanto, apontar-se-á a importância dos ideais marxistas no que se refere a
sua organização política e social, a luta por direitos inegociáveis e, através de um
pensamento crítico/reflexivo, a fim de contribuir para a formação acadêmica e
profissional das/dos assistentes sociais. Como também, reforçar os estudos
marxistas na vivência dessas/desses profissionais e a sua importância para a
categoria.
16

2 CLASSES SOCIAIS, MARXISMO E DIRECIONAMENTO CRÍTICO DO SERVIÇO


SOCIAL

Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário. Nunca será


demasiado insistir nessa ideia. (Lenin).

Neste capítulo tratar-se-á acerca das condições materiais e sociais que


envolvem a atual sociabilidade capitalista, firmada na classe das/dos
trabalhadoras/es e a burguesia. A partir disso, entender os condicionantes que
permeiam essa dicotomia histórica, fruto inerente do sistema vigente; e as suas
relações antagônicas que se firmam através da lógica do capital.
Analisando os condicionantes e alicerçadas relações materiais que envolvem
as classes existentes, por consequência, pensar o papel das classes existentes a
partir de uma análise contínua de disputas e contradições apresentadas.
Diante de perspectivas divergentes, pensar acerca do papel do Estado
burguês na atual sociabilidade capitalista e a sua figura de dominação posta
enquanto fator basilar da conservação das prerrogativas de exploratórias de uma
classe pela outra.
Consequentemente, analisar a teoria social marxista na atualidade diante de
seus avanços e desafios, à luz dos estudos marxiano e marxistas e dos
condicionantes políticos conservadores que avançam em diversos países, em
especial, tratando-os no Brasil contemporâneo e as suas investidas neoliberais.
Além do fortalecimento conservador e o seu avanço e ataque à teoria social
marxista, bem como a descrença da desatualização do marxismo na atualidade,
posta enquanto condicionante da classe dominante.

2.1 ANÁLISE DAS CLASSES ANTAGÔNICAS: BURGUESIA E PROLETARIADO

Historicamente falando, a própria existência das sociedades se firma a partir


das vivências das classes sociais que se configuram pelos seus interesses e
confrontos (MARX; ENGELS, 2015). Desde o feudalismo, adentrando ao modo de
produção escravista até chegarmos na atual sociabilidade capitalista, os conflitos
existentes fazem parte da relação de dominado e dominador. Cada modo de
17

produção apresenta características próprias de economia, organização social e


dominação de poder e/ou riquezas, bem como as classes sociais existentes em
cada época. Logo, não se diferenciando, na contemporaneidade, a sociedade
capitalista “distingue-se, contudo, por ter simplificado os antagonismos de classe.
Toda a sociedade está dividida [...] em dois grandes campos hostis, em duas
grandes classes em confronto direto: a burguesia e o proletariado”. (MARX,
ENGELS, 2015, p. 63).
Consequentemente, no capitalismo, a proposta de organização social
privilegia uma classe em detrimento do empobrecimento de outra. Isto é, à classe
dos proletariados resta o trabalho explorado, as condições precárias de atuação
profissional e existência, bem como o empobrecimento gradativo, fruto da
acumulação capitalista. Já à burguesia, classe detentora dos meios de produção e
dona das riquezas produzidas socialmente, resta-lhe a concentração de poder, dos
bens materiais e sociais, e o não-trabalho, ou seja, a exploração deste.
Por classe trabalhadora, segundo Engels (2013), entende-se todas aquelas
pessoas que garantem as suas condições mínimas de existência e sobrevivência
por meio da venda de seu trabalho, adentrando às precárias condições de vida a
partir da exploração da força de trabalho. Com isso, intensificando, até mesmo, a
concorrência entre uma/um trabalhadora/o no escasso mercado laboral.
A burguesia já se mostrou incapaz de gerir com equidade a sociedade, bem
como o sistema capitalista coloca-se enquanto inviável para uma relação justa entre
as classes, tendo em vista a sua própria origem calcada na desigualdade e na
exploração entre àquelas. Então, essa classe dominante, que concentra o poder do
Estado e as riquezas, tem o seu contexto histórico na desenfreada destruição, como
Marx aponta quando traz que:

A burguesia, onde ascendeu ao poder, destruiu todas as relações feudais,


patriarcais e idílicas. Rasgou sem piedade todos os variados laços feudais
que prendiam o homem aos seus “superiores naturais” e não deixou outro
laço entre um homem e outro que não o do interesse nu e cru, o do
insensível “pagamento em dinheiro”. Afogou a sagrada reverência da
exaltação religiosa, do fervor cavalheiresco, da melancolia sentimental do
burguês, filisteu, na água gelada do cálculo egoísta. Transformou a
dignidade pessoal em um simples valor de troca, e no lugar de um sem-
número de liberdades legítimas e estatuídas colocou a liberdade única, sem
escrúpulos, do comércio. Em uma palavra, no lugar da exploração
18

encoberta com ilusões políticas e religiosas, colocou a exploração seca,


direta, despudorada e aberta. (MARX, ENGELS, 2015, p. 65).

Nessa relação de interesses contrários, as condições de trabalho se


intensificam e se agravam a partir da própria acumulação capitalista em detrimento
do empobrecimento populacional. Para se manter tais relações, tendo em vista o
controle da burguesia, a população “sobrante”, ou seja, os grupos de pessoas que
não encontram meios e/ou condições de se inserirem no mercado de trabalho,
consequentemente, demarcando os meios precários de existência das/os
proletariadas/os quando “cria-se assim, sistematicamente, um exército industrial de
reserva sempre disponível, durante parte do ano dizimado por um trabalho forçado
desumano, enquanto durante outra parte está na miséria por falta de trabalho”.
(MARX, 1996, p. 108).
Dessa forma, esses grupos de pessoas desempregadas se tornam funcionais
ao sistema capitalista diante do controle gerado pelas/os empregadas/os, resultado
no exército industrial de reserva que se forma, o qual intensifica o papel de
dominação burguesa e, consequentemente, do grande mercado, e gerando
processos de concorrência entre as/os mesmas/os (MARX, 1996). Além disso,
coloca a classe proletária em condições de também produto gerado, visto enquanto
uma não-pessoa:

O trabalhador abaixa à condição de mercadoria [...] e à de mais miserável


mercadoria, que a miséria do trabalhador põe-se em relação inversa à
potência e à grandeza da sua produção, que o resultado necessário da
concorrência é a acumulação de capital em poucas mãos, portanto a mais
tremenda restauração do monopólio (MARX, 2010, p. 79).

Essas premissas legitimam as diversas formas exploratórias impostas pelo


sistema capitalista, pois colocam a classe trabalhadora diante de decisões
desumanas de existências. Nesse caso, a escolha entre ter a sua força de trabalho
explorada ou sucumbir diante das relações financeiras e do não-acesso às
condições básicas de subsistência.
Ademais, nas relações precárias de trabalho, o proletariado projeta a sua
força para a criação do produto, fruto do dispêndio de suas forças e apropriado pela
classe das/dos não-trabalhadores, ou seja, a burguesia. Sendo assim, o sujeito que
colocou a sua força e deu vida a esse produto não se enxerga no processo de
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criação. Logo, emerge esse trabalho alienado, a função estranhada e o não


pertencimento da ação, sendo

O objeto que o trabalhador produz, o seu produto, se lhe defronta como um


ser estranho, como um poder independente do produtor. O produto [...] do
trabalho é o trabalho que se fixou num objeto, fez-se coisal, é a objetivação
do trabalho. (MARX, 2010, p. 80).

O trabalho no sistema capitalista modifica a relação entre trabalho e produto.


Tendo em vista que tudo no capital se torna vendável, a classe das/dos
trabalhadoras/es também adentra nesse aspecto. Diante disso, esse distanciamento
entre o trabalhador e o trabalho são de interesse da classe dominante, pois são
sujeitos alienados e distantes do produto criado, uma vez que quando se desenvolve
o trabalho, até mesmo se desconhece ou nunca visualiza a conclusão do seu
esforço. Com isso, o trabalho desenvolvido é algo estranho ao sujeito, algo em que
ele não se reconhece diante da realização do seu feito, tornando-se, assim, algo
alheio às suas realizações e sua vontade. O sujeito se vê distante do produto criado
por não se pertencer àquela atividade efetivada.
O trabalho forçoso, fator primordial da existência das/dos trabalhadoras/es na
atual sociabilidade, obriga toda uma gama de pessoas a venderem sua força de
trabalho. Consoante a isso, o proletariado cria o produto não para a sua
necessidade e condição de vida, mas a cria como condição de receber um
pagamento pela atividade realizada e, só assim, sobreviver e atender as suas
necessidades e condições (mínimas) de existência.

A taxa mais baixa e unicamente necessária para o salário é a subsistência


do trabalhador durante o trabalho, e ainda [o bastante] a raça dos
trabalhadores não se extinga. O salário habitual é, segundo Smith, o mais
baixo que é compatível com a simples humanidade, isto é, com uma
existência animal. (MARX, 2010, p. 24).

Então, a realização do produto é algo estranho e alheio ao trabalhador por


caracterizar as normas vigentes capitalistas que o reduz a um produto criador de
outro produto. Dessa forma, esse trabalho criado o domina e o conduz à condição
de criador, e, simultaneamente, não consumidor daquele, pois o trabalhador não
detém de condições materiais (financeiras) para adquirir o próprio resultado de seu
20

labor, tendo em vista que o seu pagamento condiz à sua manutenção de


sobrevivência e reprodução. Outrossim, é importante para o capitalismo que o
trabalhador não se enxergue naquela atividade, não desperte para a sua condição
de criador, pois a condição de trabalho alienante e o estranhamento do trabalho é
fator fundante e geradora de lucro para a classe burguesa.
Todavia, diante desse dinamismo, existe um processo alienatório que é visível
a cláusula fundante disso tudo, ou seja, o estranhamento não só de seu trabalho
desempenhado, mas também estranho ao seu próprio pertencimento enquanto
classe e alheio aos seus semelhantes.
Estes se encontram estranhadas/os e por muito não se reconhece enquanto
classe trabalhadora, fator desarticulante das/dos mesmas/os. O capitalismo coloca a
classe trabalhadora em uma condição de competição trabalhista, onde as/os
trabalhadoras/es são seus próprios rivais no grande mercado de trabalho. Diante
desse pensamento, o capitalismo aliena os sujeitos de si mesmo e dos seus
semelhantes.

Na medida em que o trabalho estranho 1) estranha o homem a natureza, 2)


[e o homem] de si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade
vital/ ela estranha do homem o gênero [humano]. Faz-lhe da vida genérica
apenas um meio da vida individual. Primeiro, estranha a vida genérica,
assim como a vida individual. Segundo, faz da última em sua abstração um
fim da primeira, igualmente em sua forma abstrata e estranhada. Pois
primeiramente [...] o trabalho, a atividade vital, a vida produtiva, mesmo
aparece ao homem apenas como um meio para satisfação de uma
carência, a necessidade de manutenção da sua existência física (MARX,
2010, p. 89).

Isto é, o sujeito não se realiza no seu labor, haja vista que para ele é um
martírio e uma obrigação diante das condições impostas pelo capital. Ele somente
se realiza nas suas atividades mais básicas de sobrevivência, não no seu trabalho,
pois esse não o pertence, essa atividade não o caracteriza enquanto sujeito, mas
sim como objeto criador de outro objeto.

Chega-se, por conseguinte, ao resultado de que o homem (o trabalhador)


só se sente como [ser] livre e ativo em suas funções animais, comer, beber
e procriar, quando muito ainda habitação, adornos etc, e em suas funções
humanas só [se sente] como animais. O animal se torna humano, e o
humano, animal. (MARX, 2010, p. 83).
21

Portanto, esse não-pertencimento condiciona toda uma classe a uma vida de


exploração e segregação das/dos suas/seus, alicerçada no projeto maior, que visa o
acúmulo nas mãos da burguesia. Assim, o sistema capitalista aliena os seres
humanos de sua subjetividade, de suas atividades vitais, do mundo, da
sociabilização, do trabalho, e retira daqueles o sentido real de liberdade. Logo, essa
forma de existir transforma a vida humana em condições de existência individual,
vida essa estranha a si e às/aos outras/os que lhes cercam. E, cada um ser alienado
dos outros e cada um dos seus semelhantes devem ser igualmente alienados da
sua própria existência natural.

2.1.1 LUTAS DE CLASSES, ESTADO E QUESTÃO SOCIAL

Diante das contradições existentes entre ambas as classes sociais, a


burguesia e o proletariado, é visível que, a partir de interesses contrários, busca-se
projetos conflitantes e de perspectivas diferenciadas. Tais direções materializam-se
e incorporam-se nas lutas sociais e mobilizações a força motora da classe explorada
em buscar por mudanças sociais, melhores condições de vida, trabalho, moradia,
educação, entre outros, fruto da negação de direitos e intensificação das relações
capitalistas.
Tendo em vista que o sistema vigente é pautado na exploração de muitas/os
em favor do enriquecimento de poucas/os, as relações de desigualdades se
ampliam a partir de tal premissa, gerando, assim, as mais diversas expressões da
questão social, resultado do avanço da burguesia e da concentração de riqueza
desta. (IAMAMOTO, 2010)
A partir disso, as mobilizações sociais resultam enquanto meio político
das/dos trabalhadoras/es como processo reivindicatório e de expressão de seus
anseios, conflitos, necessidades e revoltas, colocando-se enquanto sujeitos ativos e
participantes nos espaços democráticos políticos.
Para impedir qualquer retrocesso de direito e garantia assegurada, é
importante assinalar a participação dos movimentos sociais e dos grupos
organizados no enfrentamento advindo de projetos conservadores e contrários à
democracia atual. Nesse sentido, tendo em mente que a articulação faz parte do
22

fortalecimento da classe trabalhadora, a desarticulação se torna arma nas mãos dos


dominantes a partir da não-mobilização social, como também a inércia das
reivindicações e a aceitação da ordem vigente. Sendo assim:

Nos últimos anos temos acompanhado um significativo avanço do


pensamento e da ação política da direita no Brasil. O discurso de ódio sobre
minorias, movimentos sociais e sindicatos, a perseguição a professores e à
liberdade de cátedra, o ataque a concepções progressistas, o repúdio ao
bem público e a exaltação exacerbada do mercado têm sido algumas das
manifestações dessa espécie de “refluxo” reacionário. (GALLEGO, 2018, p.
42).

Consequentemente, essa intensificação reacionária é alicerçada pelo prisma


do Estado burguês no sentido de criminalizar a classe explorada. Além dessa
intensificação do mercado, que adentra no fortalecimento das expressões da
questão social quando “impera no cotidiano da atuação política dos movimentos
sociais o largo quadro de dificuldades em um cenário de ampliação do desemprego,
precarização do trabalho e agravamento da pobreza. (GUIMARÃES, 2015, p. 725)
Posteriormente, a propagação do discurso de ódio aos movimentos sociais
perpassa pela ideia da desestruturação política dessas organizações na perspectiva
de desmobilização da classe trabalhadora para que esta não possa reivindicar
direitos ou questionar a estrutura posta. Quando, na verdade, é a mobilização social
o que tensiona e as relações contraditórias das classes existentes.
Portanto, a marginalização dos espaços políticos e das reivindicações do
proletariado é funcional ao capital devido ao seu amortecimento dessa massa
populacional que luta e se manifesta contrária ao modelo capitalista na sociabilidade
contemporânea. Diante disso, essa ação da classe dominante é pensada para a
manutenção da conjuntura da miséria vivenciada pelas/os trabalhadoras/es, ao
negar condições básicas de existência e instigar as relações exploratórias
vivenciadas por estas/es. (GUIMARÃES, 2015)
A exemplo disso, o avanço conservador atinge as organizações políticas,
sindicatos e movimentos sociais como forma de transformá-los em espaços
marginais e distantes dos interesses da classe trabalhadora, alienados do processo
de lutas de classes e contrários aos projetos que visualizam a democracia ou a
superação da ordem vigente. Além disso, há a lógica imposta pelo modo de
produção capitalista, sobre a existência dessa luta de classe não passar de
23

processos superados e que não condizem com a realidade contemporânea.


Portanto:

espera-se que finjamos para nós mesmos que as classes e contradições de


classe já não existem ou não mais importam. Da mesma forma, pressupõe-
se que o único rumo viável da ação no assim postulado “mundo real” seria
ignorar ou “oferecer explicações que neguem” as evidências da
instabilidade estrutural proporcionada por nossos próprios olhos, varrendo
pressurosamente para baixo de um tapete imaginário os problemas crônicos
e os sintomas da crise (ambos de gravidade cada vez maior) que
diariamente a ordem social vigente coloca diante de nós. (MÉSZÁROS,
2011, p. 40).

Segundo Montanõ e Duriguetto (2010), essa perspectiva é condicionada pelo


modo de produção capitalista, instituída pelas contradições existentes entre capital e
trabalho, que se manifesta nas mais diversificadas formas e atinge as esferas das
relações de gênero, trabalho, raça/etnia, organização social, entre outros ilimitados
cenários que se agravam com o fortalecimento do MPC, apresentando outras novas
expressões da questão social.
Logo, o Estado burguês oferece as condições de permanência das
desigualdades entre as classes e, posteriormente, persegue as organizações e
mobilizações sociais no sentido de confrontar o proletariado e barrar as suas
reivindicações. O Estado alicerçado pela classe dominante, então, apresenta-se
enquanto “comitê executivo da burguesia monopolista” (NETTO, 2011, p. 26), na
intensificação das expressões da questão social, ou seja, no fortalecimento das
desigualdades materializadas na sociedade.

Essa multiplicidade e variedade de “problemáticas”, [...] que se apresentam


na aparência de fenômenos autônomos e independentes. Assim, as lutas
sociais estão presentes diretamente nas contradições estruturais (capital-
trabalho) e nas suas manifestações (refrações da “questão social”),
configurando formas e espaços das lutas de classes. (MONTANÕ;
DURIGUETTO, 2010, p. 117).

Com isso, sendo essas expressões fruto e resultado da contradição estrutural,


tão logo as desigualdades entre as classes são inerentes ao modo de produção
capitalista e ao sistema vigente na contemporaneidade. Consequentemente, as lutas
entre as classes existentes são as respostas diante das expressões da questão
social apresentadas, tais quais são somatórias do descontentamento e revolta do
24

proletariado com a organização política-social que impera no Estado burguês.


Destarte, os baixos salários, as condições de vida, moradia, educação, entre outros,
são resultados da própria estrutura capitalista e expressões da relação macro entre
capital e trabalho.
Igualmente, Marx e Engels (2008) apontam que a existência das classes na
atual sociabilidade, o seu confronto e antagonismo estão diretamente relacionadas
ao modo de produção capitalista, como visto anteriormente. Assim, a sua superação
perpassa pela ideia da organização da classe trabalhadora para a tomada do poder
concentrado nas mãos do Estado burguês e, em consequência, a abolição das
classes socias.
Outrossim, esse proletariado organizado e ciente das mazelas que o assola
evidencia a consciência de classe, que “é determinada pela realidade social, e ela é
condição para sua transformação. A mera vivência das pessoas sobre a(s)
realidade(s) social(is) determina um tipo de consciência”. (MONTANÕ;
DURIGUETTO, 2010, p. 98)
Nesse ínterim, a partir do seu reconhecimento enquanto classe, atrelado à
sua organização em processos e mobilizações políticas, bem como alinhado a uma
teoria que responda aos interesses revolucionários de mudança real da estrutura
capitalista posta, esses sujeitos podem visualizar meios e caminhos para a sua
consciência enquanto proletariado e situado em uma classe explorada e alienada
dos seus. Essa alienação, como citado anteriormente, segundo Marx (2010), faz
com que as/os trabalhadoras/es não se reconheçam como tal, consequentemente,
não se mobilizem entre si e não tenham enquanto pauta as suas reivindicações.
Diante disso, atrelada a essa proposta, entende-se que a funcionalidade
dessa não-consciência está ligada diretamente aos interesses da classe dominante
em perpetuar o seu projeto societário de dominação e exploração das classes
(NETTO, 1999), posteriormente, a propagação e crescimento das múltiplas
expressões da questão social que se apresentam. Assim sendo:

O desenvolvimento da “consciência de classe” representa o máximo de


consciência possível, entendida como o conhecimento científico da
realidade e dos fundamentos da vida social em uma dada época. Como o
desenvolvimento da teoria marxista, e com sua subsequente compreensão
das leis, da estrutura e da dinâmica no MPC, dos fundamentos da contração
capital-trabalho, da exploração, das lutas de classes, já não é possível uma
25

consciência de classe que não incorpore tais categorias. (MONTANÕ;


DURIGUETTO, 2010, p. 110).

Então, através desse processo e por representar o ápice da consciência,


esses sujeitos respaldados em bases teóricas sólidas e materiais que respondem
aos anseios da classe trabalhadora, não só refletem sobre as suas condições de
existência, como também estão pautados em um ideal de superação do MPC.
Ademais, almejam novas formas de organizações e projetos societários que
respaldem os seus interesses.
Dessa forma, sendo a classe dos proletariados fator basilar na produção e
nas relações de trabalho, faz-se a única capaz de desenvolver essa consciência e
modificar as estruturas postas na contemporaneidade, pondo fim nesse processo de
exploração. (VIEGAS, 2013)
Todavia, diante da realidade material posta na contemporaneidade, essa
mobilização e organização da classe explorada encontra em seu percurso a figura
do Estado burguês no foco da dominação e concentração de poder, bem como a da
coerção o qual este tem domínio.
Lenin (2007, p. 27) aponta que “O Estado é o produto e a manifestação do
antagonismo inconciliável das classes. O Estado aparece onde e na medida em que
os antagonismos de classes não podem objetivamente ser conciliados”. Ou seja, a
figura atual daquele como se encontra organizado e direcionado aos interesses da
classe dominante é incompatível com a superação da dominação capitalista, tendo
em vista que responde pelo seu interesse próprio. Logo, continua o autor ao afirmar
que a “existência do Estado prova que as contradições de classes são
inconciliáveis”. (LENIN, 2007, p. 27)
Portando, a luta, pensada na superação do sistema capitalista, torna-se
necessária e essencial no embate entre as classes, na perspectiva de superação do
modo de produção capitalista, bem como na retirada do poder das mãos da classe
dominante que impera enquanto concentradora de riquezas, a qual está aliada ao
Estado burguês que atende a interesses próprios.
Assim, com a organização e mobilização proletária, somada a sua
consciência enquanto pertencente a uma classe explorada, pode modificar a
estrutura societária e a dominação do Estado burguês. O proletariado mobilizado e
26

consciente vai tirar, “pouco a pouco, todo o capital das mãos da burguesia, para
centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, [...] isto é, do
proletariado organizado como classe dominante”. (MARX; ENGELS, 2015, p. 87)
Ou seja, é dominar as estruturas políticas, realizar um processo de tomada de
poder das mãos da classe dominante, modificar a figura do Estado burguês para,
assim, atender aos interesses do proletariado organizado. Ademais, romper, pouco a
pouco, tanto com a estrutura do modo de produção capitalista, quanto com a
acumulação de riquezas e dominação da propriedade privada.
Consoante a isso, Lenin (2007) aponta que, com o fortalecimento do
proletariado organizado e inserido nas esferas de poder, o Estado se extinguirá
pouco a pouco a partir da conjuntura alicerçada da classe trabalhadora mobilizada e
empenhada para a superação do modo de produção capitalista. Assim, com o fim do
Estado, sendo as/os proletárias/os tomando e destruindo todas as estruturas que
as/os dominavam, consequentemente, rompe-se com a lógica das classes e, em
seguida, dá-se o fim da estrutura de dominação de uma pela outra.
Finalmente, ao se conquistar a superação dessas estruturas de dominação e
exploração, tão logo o fim do sistema capitalista, há a possibilidade de dar início a
uma nova sociabilidade pautada na liberdade real, sem domínio de classes nem
exploração do trabalho e da vida humana. Nesse sentido, abre-se caminhos para a
construção de uma sociedade socialista, no comunismo e na superação real do
MPC.
Portanto, Marx e Engels (2015, p. 61) trazem que “já é tempo de os
comunistas exporem abertamente ao mundo inteiro o seu modo de ver, os seus
objetivos, as suas tendências e de contrapor a lenda do fantasma do comunismo”.
Ou seja, é o momento de alicerçar as suas lutas em pautas e teorias revolucionárias,
pensando na superação do sistema vigente, cuja finalidade seja cessar a exploração
de classes e expor, sem medo, as suas reivindicações e anseios enquanto classe.

2.2 MARXISMO E A CONTEMPORANEIDADE

As investidas de partidos de direita e extrema direita na América do Sul


representam retrocessos no processo democrático e atingem as garantias
27

asseguradas através de lutas e reivindicações da classe trabalhadora (GALLEGO,


2018). Esse projeto reforça a arbitrariedade da figura do Estado mínimo, através de
uma lógica neoliberal contrária aos interesses da população, que atende somente às
aspirações do mercado. Dessa forma, esse norte, pautado no fortalecimento das
relações mercantis priva o acesso à toda a população, ao chocar-se com as bases
universais de acesso da Constituição Federal (1988) e os princípios de
democratização frisados no Código de Ética Profissional (1993). Logo, Guerra
aponta:

A premissa da qual partimos é a de que o neoliberalismo, e sua política de


ajustes econômicos visando à estabilização, é incompatível com o padrão
de política social amplo, universal, de qualidade e gratuito proposto na
Constituição Brasileira, de modo que à massa da população brasileira são
negados direitos básicos, ainda que formulados na Constituição Cidadã de
1988. (GUERRA, 2010, p. 36).

Consequentemente, tais bases conservadoras trazem à tona as já agravadas


e consolidadas expressões da questão social na contemporaneidade, que
restringem o acesso às políticas públicas e joga a responsabilidade para com
sociedade nas mãos das grandes empresas, as quais visam única e exclusivamente
o lucro próprio.
Nessa perspectiva, as propostas neoliberais vivenciadas na atualidade são
conflitantes também com o Código de Ética Profissional do Serviço Social, pois
valores como a autonomia, a liberdade, a equidade social (CFESS,1993) entre
outros são norteados de maneira antagônica na perspectiva do acesso às políticas
públicas.
Outrossim, a perspectiva do conservadorismo contemporâneo na América
Latina que envolve o Serviço Social cresce e toma espaço, posto que as “condições
em que as sociedades latino-americanas estavam então organizadas, fortemente
polarizadas e tensionadas pela sua específica inserção no sistema capitalista
mundial”. (ESCORSIM NETTO, 2011, p. 21)
Sendo assim, essas investidas atingem não só o fazer profissional e o acesso
às políticas, mas também o seu contexto teórico profissional, quando se propaga a
velha história da teoria social marxista enquanto algo pertencente a um dado espaço
de tempo, longe da atualidade e que não consegue responder aos anseios da
28

dinâmica e diversificada sociedade, também fruto desse avanço conservador que


reforça esse viés da contrarreforma e desarticulação da categoria.
Frei Betto (2019) aponta que o marxismo continua atual enquanto método
para conceber uma análise crítica da sociabilidade capitalista, afirmando a sua
contribuição para a contemporaneidade. Diferente do capitalismo, apontado como
não contributivo socialmente, pois:

 Promoveu a mais acentuada desigualdade social entre a população


do mundo;
 Apoderou-se de riquezas naturais de outros povos;
 Desenvolveu sua face imperialista e monopolista;
 Centrou o equilíbrio do mundo em arsenais nucleares; e
 Disseminou a ideologia neoliberal, que reduz o ser humano a mero
consumista submisso aos encantos da mercadoria. (BETTO, 2019, p. 17).

Essa análise do sistema capitalista e a sua forma exploratória parte do


princípio que Marx e Engels (2008) atentam para a necessidade de analisar a
história e visualizar as condições de vida organizacional, política, entre outros, que
fazem parte do modo de produção. Nesse sentido, o marxismo, ao mesmo tempo
em que é veementemente criticado pela classe dominante por sua possível
desatualização e deslocamento da realidade, também é propagado enquanto algo
utópico pela burguesia.
Além disso, tais críticas partem de premissas do desconhecimento acerca das
temáticas abordadas, desconsiderando as obras marxianas e as suas aspirações
marxistas advindas com a posterioridade, por vezes, não sendo consultadas para
esse processo. Consequentemente, esses pensamentos, segundo Netto (2009),
partem de interpretações equivocadas e errôneas derivadas tanto das/dos marxistas
que consultavam as suas obras, partindo de análises positivistas, quanto por
aquelas/es que tentavam corromper as ideias do autor.
Séculos se passaram desde que as escritas de Marx foram publicadas, a
exemplo de obras como “O Capital”, que viriam a modificar as lutas de classes, as
relações de trabalho e as vivências sociais. Diante disso, as suas obras foram
consultadas e reconsultadas incontáveis vezes, passando por contextos de
perseguições aos estudiosos e revolucionários marxistas a interpretações
infundadas.
29

A sociedade capitalista, vivenciada por Marx, ainda no século 19, tinha um


contexto de extrema desigualdade caracterizada pelas diversas expressões da
questão social, como a falta de moradia, trabalhos cada vez mais exploratórios,
salários não condizentes com a realidade, entre outros aspectos inerentes a classe
trabalhadora. Além disso, jornadas de trabalhos que chegavam a 16 horas, trabalho
de crianças e mulheres que tinham sua força de trabalho duplamente exploradas em
detrimento de menores salários, e o constante acirramento existente entre os
interesses antagônicos da classe proletária e a burguesia. Por isso, Marx escreveu
analisando essa realidade, tendo em vista o crescente domínio da burguesia e a sua
– cada vez maior – concentração de riquezas socialmente produzidas.
A partir das múltiplas experiências vivenciadas principalmente no século XX,
lutas de classes e reivindicações foram palco de disputas constantes, ora por
melhores condições de trabalho, ora por direitos e garantias, mas que tinham o seu
enfoque pautado em um ponto comum que seria as condições precárias de
existência e sobrevivência, resultados das inúmeras formas exploratórias
condicionadas pela burguesia.
Portanto, diante das vivências e modificações ocorridas nesses quase dois
séculos entre as primeiras obras de Marx e a contemporaneidade, as relações que
envolvem a análise acerca de suas escritas amadureceram e se tornaram de mais
fácil acesso, diferente de contextos históricos anteriores já citados, tendo em vista as
várias traduções e edições existentes.
Na contemporaneidade, diante de um contexto de diversas crises do sistema
capitalista, Netto (2009) traz que ocorrem críticas acerca da teoria social marxista e
a sua contribuição para a atualidade, apontando que esses posicionamentos
contrários

Relaciona(m)-se a um pretenso ‘determinismo’ no pensamento marxiano: a


teoria social de Marx estaria comprometida por uma teleologia evolucionista
– ou seja, para Marx, uma dinâmica qualquer (econômica, tecnológica etc.)
dirigiria necessária e compulsoriamente a história para um fim previsto (o
socialismo). (NETTO, 2009, p. 04).

Assim sendo, é importante assinalar a contribuição de Lenin (2007) sobre


esse “determinismo” colocado nos estudos desenvolvidos por Marx, uma vez que ele
30

não teve a pretensão nenhuma de “criar” algo do nada, pois a sua investigação parte
da base da própria realidade existente, as relações contraditórias e os modos de
produções anteriores ao sistema capitalista. Realidade essa dinâmica pautada nas
relações sociais de materiais históricas, refletindo acerca do contexto atual que se
firma o capitalismo. Ou seja, uma análise partindo do materialismo histórico e
dialético para entender como se organizavam os antigos modos de produções, bem
como refletir o atual e a sua superação.
Por conseguinte, as análises marxistas são veemente visualizadas na
contemporaneidade das próprias crises cíclicas do capitalismo (LIMA, 2010),
reforçando o aspecto fundante e inerente ao sistema capitalista e o seu modo de
organização, produção e concentração de riquezas. Nesses momentos de aparente
declínio financeiro, a distribuição dos prejuízos se torna fator compartilhado:

Se a riqueza da sociedade estiver em declínio, então o trabalhador sofre


ao máximo, pois: ainda que a classe trabalhadora não possa ganhar tanto
quanto a [classe] dos proprietários na situação próspera da sociedade,
nenhuma sofre tão cruelmente com o seu declínio como a classe dos
trabalhadores. (MARX, 2010, p. 25)

Essa análise da realidade contemporânea reflete as desigualdades apontadas


por Marx em suas obras, bem como as estruturas fundantes que estão firmadas a
gênese capitalista na relação material e histórico da sociabilidade, acrescidas do
antagonismo das classes, haja vista o papel humano no enriquecimento da
burguesia. É nesse sentido que “o processo de acumulação do capital significa,
portanto, o uso ampliado de meios de produção e força de trabalho para a produção
crescente de mercadorias”. (LIMA, 2010, p. 89)
Nesse processo de relações e interesses contrários, esses momentos cíclicos
são frutos da existência do sistema capitalista, sendo parte basilar da sua formação,
existentes para a sua própria reinvenção e fortalecimento, pois “a crise é [...]
constitutiva do capitalismo: não existiu, não existe e não existirá capitalismo sem
crise”. (BRAZ; NETTO, 2007, p.157)
Ademais, Marx e Engels elaboraram rica contribuição da temática,
visualizando que:
31

Nas crises emerge uma social que teria parecido um contrassenso em


épocas anteriores – a epidemia da superprodução. A sociedade vê-se de
repente retransportada a um estado de momentânea barbárie; parece-lhe
que a fome, ou uma guerra universal de devastação, lhe cortaram todos os
meios de subsistência; a indústria e o comércio parecem-lhe aniquilados. E
por quê? Porque a sociedade possui civilização em excesso, meios de
subsistência em excesso, indústria em excesso e comércio em excesso. [...]
E como a burguesia supera essas crises? Por um lado, pela destruição
forçada de uma massa de forças produtivas; por outro lado, pela conquista
de novos mercados e pela exploração mais profunda de mercados velhos. A
que leva isso, então? À preparação de crises mais generalizadas e mais
graves, à redução dos meios para prevenir as crises. (MARX; ENGELS,
2015, p. 69-70).

Portanto, é nesse alicerçado contexto contraditório e de interesses distintos


que se apresenta o marxismo na atualidade não só para o Serviço Social, mas
também enquanto meio de análise crítica e interventiva da sociedade. Dessa forma,
Netto (1989, p.101) traz que “sem Marx, e a tradição marxista, o Serviço Social
tende a empobrecer-se independente da sua filiação teórica e ideo-política, o
assistente social necessita travar um diálogo sério com Marx e a tradição marxista”.
Assim, é beber da fonte teórica marxiana e das suas vertentes marxistas, as
quais são condizentes com o que pretende e adota o projeto ético-político do Serviço
Social, alinhado a aproximação com os movimentos sociais e desenvolvimento
crítico/reflexivo da categoria, diante das expressões da questão social que se
apresentam em seu cotidiano.
Além disso, em consonância com o direcionamento emancipatório (BRASIL,
2012), é importante ter sólido o seu posicionamento focado na superação do modo
de produção capitalista, adotando e respondendo ao que traz o seu CEP acerca da
superação de quaisquer formas de exploração. Perspectiva essa, portanto, somente
visualizada em uma sociabilidade posterior ao capitalismo, tendo em vista que a
exploração constitui as bases do sistema.
Com isso, ao se ter a premissa da extrema direita, dos conservadores e da
pós-modernidade, a (contra) atualização das práticas profissionais, e encontrando
na própria teoria marxista o “inimigo” a ser combatido para a sua manutenção
capitalista, faz-se necessário uma maior articulação do Serviço Social frente aos
mais diversos ataques enfrentados. Pois, como lembra Frei Betto (2019, p. 17), “O
marxismo é um método de análise da realidade. E, mais do que nunca, útil para se
compreender a atual crise do capitalismo”.
32

3 DIREÇÃO NORTEADORA DO SERVIÇO SOCIAL

No lugar da velha sociedade burguesa com suas classes e seus


antagonismos de classes surge uma associação em que o livre
desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de
todos. (Karl Marx & Friedrich Engels).

Neste capítulo pretende-se debater acerca da direção que a profissão adota a


partir da sua aproximação com a teoria social marxista que a alicerça na atualidade,
a fim de entender a perspectiva do projeto profissional e, por consequência, refletir
diante dos diversos conflitos da materialização daquele na atualidade.
Posteriormente, busca-se analisar as contradições existentes entre a adoção
de uma perspectiva plural x eclética e os conflitos que envolvem o Serviço Social, os
quais têm visualizado tentativas de retorno a práticas ecléticas e positivistas, tendo
em vista as demandas aligeiradas e pontuais solicitadas pelas instituições
empregatícias e pelo Estado, tais quais pensam no fazer profissional somente
técnico e que responda as demandas sociais pelo prisma da imediaticidade.
Então, haja vista a proposta de análise da totalidade das relações para a
intervenção profissional, tais práticas conservadoras têm em sua premissa a
proposta do ecletismo, o qual se distancia da proposta plural vigente, bem como traz
o seu risco na intervenção da realidade e, também, na formação acadêmica.

3.1 PROJETO PROFISSIONAL

A partir da perspectiva do amadurecimento do Serviço Social através da


aproximação com a teoria social marxista, iniciada em meados dos anos 1970 e se
consolidando na década seguinte, principalmente com o processo de
redemocratização do Brasil e as mudanças no CEP do Serviço Social (NETTO,
2005), visualiza-se o firmado Projeto Profissional da categoria, frente a dinâmica
societária capitalista e as suas nuances. Nessa perspectiva, a direção hegemônica
da categoria aponta para um norte prescrito nas relações com as/os usuárias/os, no
fazer profissional, na teórica pautada na emancipação humana, ou seja, alinhado a
um projeto societário que visualiza os interesses da classe trabalhadora entre
outros, sendo a perspectiva adotada pela profissão. Portanto:
33

Os projetos profissionais apresentam a auto-imagem (sic) de uma profissão,


elegem os valores que a legitimam socialmente, delimitam e priorizam seus
objetivos e funções, formulam os requisitos (teóricos, práticos e
institucionais) para o seu exercício, prescrevem normas para o
comportamento dos profissionais e estabelecem as bases das suas
relações com os usuários de seus serviços, com as outras profissões e com
as organizações e instituições sociais privadas e públicas (inclusive o
Estado, a que cabe o reconhecimento jurídico dos estatutos profissionais)
(NETTO, 1999, p. 04).

Segundo o que traz o autor, pode-se entender o Projeto Profissional a partir


de diversos aspectos inerentes a profissão, em específico, à categoria do Serviço
Social. Diante da relação teórica, a adoção da teoria social marxista iniciada pela
categoria profissional a partir dos anos de 1970, firma em suas bases curriculares
uma análise crítica da sociedade capitalista, fruto esse da investigação incansável
do Serviço Social diante das mais diversas expressões da questão social
apresentadas na atual sociabilidade.
Consequentemente, as instâncias representativas da profissão como a
ABEPSS, ENESSO, bem como o conjunto CFESS/CRESS posicionam-se firmes à
crítica diante do modo de produção capitalista e a sua base exploratória da classe
trabalhadora. Ademais, também estão inseridas/os nesse processo de luta
antagônica as/os estudantes, movimentos sociais, a classe trabalhadora entre outros
sujeitos (BAIRRO, E. O.; BULLA, L.C, 2017).
Na formação acadêmica, o projeto profissional apresenta-se desde suas
bases curriculares até a materialização da experiência profissional. Nesse sentido,
dá-se através do estágio curricular em consonância com os princípios ético-políticos,
evidenciados em seu último Código de Ética Profissional de 1993, caracterizando-se
enquanto preceitos norteadores adotados pelo Serviço Social (ABEPSS, 2010).
Neste ínterim, a atuação profissional pauta-se primordialmente no que traz a
direção da categoria. Ou seja, é o direcionamento que se apresenta diante de seu
CEP, seus valores emancipatórios junto às/aos usuárias/os, as normativas adotadas
na relação com as demais profissões e o que se pretende enquanto inserida nas
contradições capitalistas. A partir disso, em conjunto com os Conselhos Regionais e
Federal, em consonância com os princípios adotados nas Bases Curriculares,
busca-se “no contexto atual, a urgência na defesa de um projeto profissional
34

vinculado a um projeto de sociedade no horizonte estratégico da ampliação dos


direitos, na direção da emancipação humana” (ABEPSS, 2010, p. 01-02).
Dessa forma, o Projeto Ético-Político do Serviço Social se materializa a partir
desse conjunto, representado pelo CEP, as instâncias representativas, as diretrizes
curriculares, a lei de regulamentação da profissão 8.662/1993 entre outros que
solidificam o direcionamento pretendido e adotado pela categoria.
Por consequência, diante do amadurecimento da categoria somada ao
processo de ruptura com o conservadorismo e adoção da teoria social marxista, o
Código de Ética Profissional de 1993 traz, em seus princípios fundamentais, “a
opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova
ordem societária, sem dominação, exploração de classe, etnia e gênero” (BRASIL,
2012, p. 23). Assim, tem-se que tal direção é pautada no materialismo histórico e
dialético, o qual fez sazonar o Serviço Social, consequentemente o seu projeto ético-
político e os seus princípios a partir da aproximação do marxismo com a categoria
(NETTO, 2005).
Diante disso, pensar no projeto profissional é vinculá-lo com teorias que
subsidiem uma prática interventiva voltada para o rompimento com a dominação
imposta pelo sistema capitalista, bem como cessar/reduzir as diversas expressões
da questão social que surgem a partir da contradição entre capital e trabalho. Ou
seja, não se pode pensar em um Serviço Social consoante ao que traz os seus
princípios, e compactuá-los com teorias e práticas conservadoras alinhadas as
normativas burguesas. Equipará-los, para tanto, seria firmar compromisso contrário
ao que se pretende enquanto profissão – voltado aos interesses da classe
trabalhadora – e ir ao encontro de propostas ecléticas, descartando a teoria que
subsidia a profissão.
Então, é a partir desse projeto de sociedade que se almeja, diante de uma
atuação condizente com tais princípios, que “cabe pensar a ética como pressuposto
teórico-político que remete ao enfrentamento das contradições postas à profissão,
[...] a partir de uma visão crítica, e fundamentada teoricamente” (BRASIL, 2012, p.
22). Logo, é pautado na ética da profissão em que se firma o projeto profissional e,
consequentemente, reflete-se na atuação da categoria nos mais diversos espaços
35

sócio-ocupacionais de inserção da/do Assistente Social, no enfrentamento direto (ou


indireto) das contradições inerentes ao sistema vigente.
Diante de tal contraste, é possível a descrença para pôr em prática os
princípios assegurados no Código de Ética Profissional, sobretudo quando atravessa
o campo prático da profissão (TEIXEIRA; BRAZ, 2009), bem como o
questionamento acerca das possíveis contradições entre o espaço teórico e prático,
divergência essa que reforça a ideia de inexistência da materialização do projeto
profissional. Neste sentido:

É possível que, em conjunturas precisas, o projeto societário hegemônico


seja contestado por projeto profissionais que conquistem hegemonia em
seus respectivos corpos (esta possibilidade é tanto maior quando tais
corpos se tornam sensíveis aos interesses das classes trabalhadoras e
subalternas e quanto mais estas classes se afirmem social e politicamente).
Tais situações agudizam, no interior desses corpos profissionais, as
diferenças e divergências entre os diversos segmentos profissionais que os
compõem (NETTO, 1999, p. 06).

Nesse campo de contradições em que a dinamicidade societária está posta, a


disputa pela defesa do projeto hegemônico do Serviço Social se confronta diante da
perspectiva e projetos contrários aos seus, direcionando por caminhos, por vezes,
conservadores e conflitantes entre a proposta adotada pela categoria.
Tal projeto profissional, alinhado a demais categorias que compartilham das
propostas emancipatórias e direcionamento ético-político adotadas pelo Código de
Ética, fortificam “e respaldam as ações profissionais na direção de um projeto em
defesa dos interesses da classe trabalhadora e que se articula com outros sujeitos
sociais na construção de uma sociedade anticapitalista” (BRASIL, 2012, p. 14).
Portanto, pensar no projeto profissional do Serviço Social é ser condizente
com os princípios éticos postos em suas normativas, assim como analisar e intervir a
partir das contradições existentes da sociedade capitalista e ter direcionamento
norteado por uma teoria que responda aos interesses da classe trabalhadora e a
contemplação da superação do capitalismo.
36

3.2 ECLETISMO E PLURALISMO NO SERVIÇO SOCIAL

Sabe-se que o Serviço Social atua nas mais diversas contradições existentes
do sistema capitalista, na mediação entre o Estado garantidor de direitos e as/os
usuárias/os que necessitam acessá-los através das mais diversas políticas públicas
existentes.
Por muitos anos, principalmente entre as primeiras décadas da profissão, que
correspondem entre os anos de 1930 ao processo de ruptura no final de 1970, o
Serviço Social atendia veementemente aos interesses do Estado burguês,
associando a sua ação profissional por um prisma conservador e psicologizante
(IAMAMOTO, 2014). A partir dos anos de 1980, da consolidação da
redemocratização do país e, principalmente, pela sua atualização no Código de
Ética Profissional de 1993, a profissão amadureceu o suficiente para fortalecer as
suas práticas profissionais, bem como a sua teoria que subsidia e o seu projeto
profissional.
Em consequência disso, frentes conservadoras advindas de projetos políticos
contrários aos adotados pelo Serviço Social lutam incessantemente pela sua
propagação de normativas tradicionalistas. Tais normativas, no entanto, têm como
norte o retorno do ajuste social, das políticas paliativas e da culpabilização das/dos
usuárias/os, negando a aproximação do materialismo histórico como forma de
entender, interpretar, intervir e visualizar estratégias de superação da realidade
capitalista, mas, sim, fortalecer essa configuração burguesa (SILVEIRA JÚNIOR,
2016).
Para melhor entendimento, é sabido que a profissão tem em sua base o
pluralismo, o qual dialoga através da interdisciplinaridade e faz parte da atuação da
categoria, diferenciando-se de pontos norteadores ecléticos e que traz o
“sincretismo” para o Serviço Social, uma vez que os direcionamentos pautados em
diversas ciências, por vezes, não se conversam e não se relacionam entre si. Assim,
analisando pela premissa do Projeto Profissional do Serviço Social, “o pluralismo é
um elemento factual da vida social e da própria profissão, que deve ser respeitado.
Mas este respeito [...] não deve ser confundido com uma tolerância liberal para com
o ecletismo” (NETTO, 1999, p. 06).
37

Essa prática eclética é vista, principalmente, em seus primeiros Códigos de


Ética Profissional, ao verificar que “os fundamentos da profissão são influenciados
pela concepção funcionalista, com um lastro de neotomismo e ideais liberais
burgueses, apresentando um marcante ecletismo” (FERNANDES, 2018, p. 66).
Neste ínterim, o ecletismo profissional direciona a categoria para diversos
caminhos quando se pauta em múltiplas teorias que, por vezes, não compactuam e
não são condizentes com o norte pensado em seu Projeto Profissional do Serviço
Social. Pode-se dizer, também, que o Serviço Social eclético se choca com as bases
marxistas da categoria, tendo em vista as problemáticas que envolvem o fazer
profissional desnorteado de uma base sólida e sem uma direção muito clara a se
seguir. Além disso, torna-se um dos mais diversos desafios que se reafirmam para a
profissão, quando questiona-se “[...] como manter um debate teoricamente plural no
Serviço Social, sem resvalar para os efeitos danosos derivados do ecletismo teórico”
(IAMAMOTO, 2010, p. 187).
Entretanto, segundo Netto (2011), esse debate acerca do ecletismo na
profissão só se intensifica a partir do amadurecimento teórico do Serviço Social e a
sua aproximação com as bases marxistas da categoria, analisando e reformulando a
categoria e as suas ações anteriores vistas enquanto conservadoras.
Sendo assim, é importante destacar que as bases do ecletismo estão
inteiramente ligadas às normativas e prorrogativas da sociedade burguesa, bem
como às práticas psicologizantes e terapêuticas vivenciadas anteriormente nas
bases curriculares e atuação profissional do Serviço Social (ROCHA, 2015). Logo, a
autora segue afirmando que:

Vale salientar que o Ecletismo enquanto posicionamento teórico-


metodológico e ideo-político busca estabelecer o consenso entre as
diferentes matrizes de conhecimento social. O que propõe, também o
discurso da pós-modernidade diante dos rebatimentos da crise de
sociabilidade do capital e do trabalho no âmbito do conhecimento. Tal
situação permeia os desafios, limites e possibilidades da profissão postos
na contemporaneidade, não apenas nas dimensões da pesquisa e da
intervenção, mas consequentemente, para o ensino e a formação
profissional, estando inserida no debate ideo-político que vem ponderando
as várias perspectivas do pensar/agir profissional e os compromissos ético-
políticos assumidos nas décadas de 80 e 90. Compromissos estes firmados
no Código de Ética Profissional de 1993. (ROCHA, 2015, p.17).
38

Consequentemente, adverte-se acerca das diversas problemáticas que


imperam diante de práticas pautadas no ecletismo, as quais atingem a todas as
esferas da categoria, desde a sua formação acadêmica, como também à teoria que
subsidia a profissão e a atuação profissional. Isso, portanto, apresenta-se
incompatível com os princípios adotados pelo Serviço Social a partir do seu
processo de ruptura e o seu amadurecimento posto em seu último Código de Ética
Profissional.
Nesse sentido, o ecletismo no Serviço Social é enviesado enquanto um dos
“alvos de críticas no enfretamento das demandas e necessidades sociais colocadas
ao serviço social na contemporaneidade. Daí podemos justificar a importância de
uma discussão mais aprofundada sobre a influência do Ecletismo na profissão”
(ROCHA, 2015, p. 11). Portanto, essa crítica parte da perspectiva de direções
contraditórias adotadas pelas práticas ecléticas.
Já o pluralismo, todavia, na profissão, é destacado em seu Código de Ética
Profissional de 1993, em seus Princípios Fundamentais, como sólido no fazer
profissional e no seu ensino, tendo o seu preito pelas correntes existentes e o seu
alinhamento com o aprimoramento da categoria (BRASIL, 2012).
Diante dessa perspectiva, o pluralismo pauta-se na análise e intervenção de
teorias alinhadas ao Projeto Profissional do Serviço Social e o seu norte
emancipatório e de superação da sociabilidade capitalista. Netto (1999, p. 06)
aponta, então, que “o verdadeiro debate de idéias (sic) só pode ter como terreno
adequado o pluralismo que, por sua vez, [...] supõe também o respeito às
hegemonias legitimamente conquistadas”.
Assim, a hegemonia refere-se ao reconhecimento de uma sociedade não
homogênea, mas unificada, em sua grande maioria por projetos semelhantes que
visam modificações societárias (GRAMSCI, 1999). Ou seja, visualizando as
contradições existentes na sociedade capitalista e adotando direção na categoria
pautada em teorias condizentes com a prática emancipatória.
Dessa forma, as correntes adotadas pelo Serviço Social a partir de seu
processo de ruptura com as práticas conservadoras (como o positivismo)
aproximam-se da teoria social marxista e das frentes que adotam projetos e práticas
teóricas condizentes com a incorporada pela categoria, desde seu último Código de
39

Ética Profissional. Consequentemente, a hegemonia na profissão apresenta-se


“numa unidade na diversidade. [...] Queremos construir uma consciência ética
universal, fundada na unidade de alguns valores humanistas básicos e na
diversidade dos modos de explicitá-los” (COUTINHO, 2017, p. 16).
Igualmente, pensar em uma teoria que adote a proposta de um grupo plural e
análise crítica da sociabilidade capitalista é refletir (e intervir) em consonância com a
teoria social marxista abraçada pela categoria profissional a partir do processo de
ruptura com o conservadorismo.
Indubitavelmente, diante do que traz Forti (2017), a adoção do pluralismo no
Serviço Social não pode ser confundida com neutralidade ou análise pautada em
quaisquer ausências, ou imparcialidade da categoria diante das mais diversas
expressões da questão social que surgem diariamente em seu cotidiano. Pensar o
pluralismo na profissão é, portanto, firmar-se diante de bases sólidas que visualizem
as propostas emancipatórias inseridas no Projeto Profissional. Assim:

Isto significa dizer que não precisamos desconsiderar a atualidade do


marxismo e sua importância para o Serviço Social, mas ao mesmo tempo
necessitamos respeitar o pluralismo, considerando as formas possíveis de
interlocução com outras correntes de pensamento que não legitimem o
ecletismo. Historicamente, o Serviço Social vem afastando os
posicionamentos ecléticos de suas discussões teóricas e metodológicas,
defendendo a totalidade para o entendimento da complexidade da
realidade. Logo, resgatar o conservadorismo, por meio do ecletismo e do
sincretismo poderia retroceder aos avanços construídos ao longo dos anos
em que a teoria social crítico-dialética marxista se aproximou do Serviço
Social e lhe serviu como base para a construção de seu estatuto teórico-
profissional. (ARAÚJO; MARINHO. 2017, p. 231-232).

Esse retrocesso do Serviço Social, a partir da adoção de teorias e práticas


ecléticas, contradiz os avanços alcançados pela categoria a partir de seu
amadurecimento histórico e a aproximação com o marxismo na análise interventiva
daquela.
Outrossim, a adoção da totalidade como meio de analisar e intervir nas mais
diversas expressões da questão social não condizem com práticas positivistas,
neotomistas entre outras, que não ultrapassam a superficialidade das expressões da
questão social apresentadas no cotidiano profissional. É o que Coutinho (2017, p.
13) contribui, dizendo que “não se pode pensar em conciliar pontos de vistas
40

inconciliáveis, em nome do pluralismo. Não é isso que o pluralismo tem a nos


oferecer, no terreno da ciência”.
Portanto, a real contribuição do pluralismo no Serviço Social parte muito além
da ideia rasa de análise da realidade na sociabilidade capitalista. A partir da adoção
concreta da teoria social marxista, não só a profissão vislumbra o seu
amadurecimento – teórico e interventivo –, mas também a sua concretude
participativa das lutas junto à classe trabalhadora, a qual pertence, bem como a
projeção do rompimento com as práticas conservadoras que permeiam a profissão a
partir dos avanços da pós-modernidade.
41

4 A GÊNESE DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL, ANÁLISE DIALÉTICA E OS


DESAFIOS DA PÓS-MODERNIDADE PARA A CATEGORIA.

A ação transformadora tem de ser rigorosa, precisa, oportuna. Para isso, a


práxis necessita da teoria. E nem toda teoria é boa. Grandes construções
teóricas já sofreram derrotas consideráveis em batalhas travadas contra
ideias improvisadas e frágeis. Por quê? Porque os combates históricos são
decididos no plano da atuação das forças materiais. (Leandro Konder)

Nesse capítulo, a abordagem será a partir da análise sócio-histórica do


Serviço Social, compreendendo-a mediante análises das publicações que serviram
de objeto de pesquisa. Inicia-se apresentando um pouco sobre a história da
profissão no Brasil e os seus processos de modificações que refletiram em seus
cinco Códigos de Ética Profissional existentes e o vigente de 1993.
Posteriormente, busca-se refletir acerca da prática profissional na
contemporaneidade, inserida em tempos de pós-modernidade e desatualização da
profissão, propiciada por perspectivas conservadoras revestidas de modernizantes.
Concluindo, reflete-se, também, sobre o materialismo histórico e dialético
doravante análise crítica de Karl Marx, bem como a sua contribuição para o
amadurecimento do Serviço Social atual atrelado à ideia da totalidade.

4.1 METODOLOGIA

A pesquisa trata-se de um levantamento bibliográfico em três plataformas de


publicação de artigos online, as quais são Katálysis, Serviço Social & Sociedade e a
Temporalis. Através da Qualis/CAPES, os sites receberam respectivamente
avaliações contendo graus de relevância A1, A1 e B1, sendo as duas primeiras
citadas de qualidade ótima e, a última, boa, expressando níveis elevados de
destaque no que diz respeito às pesquisas.
Segundo Gil (1994), a pesquisa bibliográfica torna possível a obtenção de
uma gama de informações diversas, por vezes, dispersos em inúmeras publicações,
auxiliando na construção e na própria captação das informações e dados do objeto
de estudo escolhido.
42

Utilizando-se da palavra-chave “Marxismo e Serviço Social”, na língua


português (PT), e a temporalidade do ano de 2010 a 2019, pôde-se fazer o
apanhado do material que serviu de objeto de estudo. Foram excluídas da pesquisa
artigos que não respondiam ao intervalo de tempo citado e as demais plataformas.
Logo, a pesquisa tem seu caráter qualitativo, sendo a forma de apreensão que
melhor se encaixa nas análises dos dados. Sendo assim:

A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se


preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser
quantificada. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos,
aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço
mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não
podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. (MINAYO, 1994, p.
21-22).

Anterior a essa forma de coleta de dados, foi pensado na análise dos livros do
próprio autor Karl Marx enquanto objeto de estudo, para que a coleta fosse realizada
através de suas obras e correlacionadas com autores do Serviço Social que
discutem o assunto. No entanto, por se tratar de uma forma de pesquisa muito
abrangente e ampla, optou-se pelas publicações de artigos e das técnicas citadas
anteriormente, como forma de afunilar as discussões, o objeto de estudo, as
análises e os debates posteriores.
Inicialmente, foram encontradas vinte e oito (28) publicações que atendiam
aos critérios de inclusão nas três plataformas supracitadas. Posteriormente, treze
(13) desses trabalhos foram excluídos após leitura do resumo, e cinco (5) ao ser
realizada a leitura completa por entender que não atendiam completamente aos
critérios de inclusão da pesquisa. Como forma de otimizar a apresentação dos
resultados, optou-se pela utilização do termo “Ar.” (artigo) somado ao algoritmo
romano (I, II, III...) para codificar as publicações.

Quadro 01: Plataformas e número de publicações excluídas e incluídas na


amostra com base nos critérios de inclusão e exclusão:

Plataformas Número inicial Excluídas Incluídas


43

Katálysis 14 10 4

Serviço Social & 7 4 3


Sociedade

Temporalis 7 4 3

Total 28 18 10

Buscou-se analisar as dez (10) publicações filtradas como forma de entender,


a princípio, o número de artigos por cada plataforma, bem como a região e aspectos
semelhantes discutidos pela profissão, tendo em vista o conjunto de categorias
apresentadas anteriormente. As publicações apresentaram um vasto campo de
análise que não se esgotou com a referida pesquisa, principalmente quando se
pensa que a profissão continua em seu processo de mudança e luta constante
contra os avanços conservadores.
Sendo assim, a partir do levantamento bibliográfico, foi possível observar a
predominância da plataforma Temporalis que, nos últimos dez anos, publicou o total
de quatro artigos. Seguidas da plataforma Serviço Social & Sociedade e a Katálysis,
ambas com três publicações cada.
44

Como mostra o gráfico, o maior número de publicações correlacionadas ao


tema citado encontra-se no ano de 2010 com o total de três publicações. Todavia,
nos anos de 2012, 2014 e 2015 não foi encontrado nenhum arquivo acerca da
temática.
É interessante apontar que, no Brasil, iniciada com mais expressividade no
ano de 2014, o país vivenciou a ascensão de várias frentes de direita e o
crescimento dos debates conservadores. Gallego (2018) traz que esse crescimento
reavive ideologias antimarxistas, visando combater as pautas e discussões
progressistas e instaurando a falácia do “Marxismo Cultural”. Dessa forma, as
perseguições contra as ciências sociais se fortaleceram, trazendo aspectos
conservadores que desconsideram e/ou menosprezam as pesquisas, a academia e
sua contribuição para com a sociedade.
Com isso, o ataque às ciências não é algo novo, mas que se consolida diante
do advento conservador, sendo uma forma de organização ideológica e política,
quando valoriza o seu ganho material e diminui a sua importância teórica,
evidenciando a pós-verdade (CARMARGO JÚNIOR, 2018). Portanto, são aspectos
que poderiam ter influenciado na inexistência de publicações nesse período, levando
em consideração os filtros apresentados.
Outrossim, o aspecto do negacionismo se tornou cotidiano e explícito, reflexo
de projetos conservadores que desmontam os fatos históricos e as produções
científicas, sejam elas das ciências humanas, sociais, exatas entre outras,
justificando-os enquanto meios de análises rasos e sem fundamentação teórica e
científica. Assim, Moraes (2011) aponta que essa corrente da negação se
consolidou e se fortaleceu a partir de grupos de extrema direita pós II guerra. Além
disso, Barroco (2019, p. 14) reforça esse pensamento ao afirmar que “a sociedade
burguesa tende a suprimir e/ou negligenciar as abordagens críticas, humanistas e
universalistas, donde a desvalorização do conhecimento filosófico, o apelo ao
conhecimento instrumental, ao utilitarismo ético, ao relativismo cultural e político”.
A partir do avanço de grupos conservadores no Brasil, como citado
anteriormente, observou-se a predominância dessa corrente da negação às
ciências, como forma de ataque às universidades e à pesquisa, consolidando-se
através da ascensão da extrema-direita no governo do país (GALLEGO, 2018).
45

Portando, é importante e essencial apontar que o Serviço Social defende e


luta cotidianamente contra tais avanços conservadores (entre outros) e se reafirma,
segundo a ABEPSS (2010), enquanto profissão em seu caráter acadêmico e atuante
na defesa da pesquisa e extensão, na própria defesa das ciências humanas e
sociais.

Quadro 02: Artigos analisados por código, título, resumo, Instituição de Ensino
Superior e ano de publicação.

Código Título do Resumo da Instituição Ano


do artigo artigo/Autoria publicação
Ar. I Expressões do As expressões Universidade
pragmatismo no conservadoras Federal do Rio de 2013
Serviço Social: e plurais na Janeiro – UFRJ.
reflexões prática
preliminares/ Yolanda profissional.
Aparecida Demetrio
Guerra.
Ar. II Hegemonia e filosofia Os novos Universidade
da práxis: os desafios desafios Federal de 2017
ao Serviço Social/ enfrentados Alagoas – UFAL /
Josimeire de Omena pelo Serviço Universidade
Leite, et. al. Social em Federal de
tempos Pernambuco –
neoliberais. UFPE.
Ar. III Método, ideologia e Apreensão do Universidade
Estado: aproximações método Federal do 2018
a partir do legado de histórico- Tocantins – UFT.
Marx/ Davi Machado dialético e
Perez análise do
Estado.
Ar. IV Sob o casaco de Marxismo, Universidade
46

Marx? A categoria da alienação e Federal do Rio 2019


alienação no Serviço Serviço Social. Grande do Norte
Social/ Henrique – UFRN.
Wellen, et. al.
Ar. V A formação Análise da Universidade 2010
profissional crítica em formação Federal dos Vales
Serviço Social acadêmica em dos Jequitinhonha
inserida na ordem do tempos e Mucuri –
capital monopolista/ neoliberais e o UFVJM.
Ricardo Silvestre da seu reflexo na
Silva. atuação
profissional.
Ar. VI O que Serviço Social Breve relato Universidade 2011
quer dizer/ Vicente de histórico do Católica de
Paula Faleiros. Serviço Social Brasília – UCB.
e as suas
modificações.
Ar. VII Subjetividade, Relação da Universidade do
marxismo e Serviço subjetividade Estado do Rio de
Social: um ensaio com o Serviço Janeiro – UERJ.
crítico*/ Marco José Social, a luz do 2010
de Oliveira Duarte marxismo,
correlacionado
com as teorias
da psicanálise
e elabora
críticas acerca
da
psicologização
da profissão.
Ar. VIII A cultura pós- A pós- Universidade 2016
moderna no Serviço modernidade e Federal da
47

Social em tempos de o projeto ético- Paraíba – UFPB.


crise/ Adilson Aquino político do
Silveira Júnior. Serviço Social.
Ar. IX A falsa dicotomia A atuação Universidade
entre teoria e prática/ profissional e a Federal
Henrique Wellen. et. formação Fluminenses – 2010
al. acadêmica, UFF.
norteadas por
frentes
ideológicas
como o
marxismo ou
positivismo.
Ar. X Teoria das profissões, A profissão na Universidade 2019
marxismo e Serviço sociedade Federal de Juiz de
Social/ Ludson Rocha moderna. Fora – UFJF.
Martins.

Visualizou-se o maior número de publicações vindas da região Sudeste,


totalizando cinco (5) trabalhos. Em seguida, a região Nordeste com três (3) trabalhos
e Norte e Centro-Oeste com um (1) cada. Não foram identificadas, para tanto,
publicações da região Sul.
As obras de Karl Marx foram referenciadas em uma parte considerável dos
artigos, sendo “O Capital” o seu livro mais citado. As publicações Ar. I, Ar. II, Ar. VI e
Ar. VIII foram as únicas que não referenciaram diretamente suas obras, mas, sim, o
diálogo com autores marxistas. Entre autores de Serviço Social, grandes nomes
para a categoria são os mais citados, como José Paulo Netto e Marilda Villela
Iamamoto.

4.2 SERVIÇO SOCIAL E SEU PROCESSO SÓCIO-HISTÓRICO

A partir das análises já finalizadas de todas as publicações filtradas das três


plataformas que serviram como campo de pesquisa para buscar os artigos utilizados
48

(Katálysis, Serviço Social & Sociedade e Temporalis), observou-se o conjunto de


categorias que fizeram parte da apreensão do conteúdo assimilado. Os aspectos
teórico-metodológicos do Serviço Social e o seu processo histórico e avanços na
categoria evidenciaram direta ou indiretamente em todas as dez (10) publicações
apreendidas neste processo, sendo mais desenvolvida nos ar. V, VI e VIII, quando
apontam-se a construção da profissão, seus avanços éticos, profissionais, teórico e
os seus desafios, bem como o direcionamento proposto pela categoria, como
demonstrando no ar. VI, quando traz que:

Na realidade, o exercício do Serviço Social não se tensiona apenas entre


propostas diferentes por parte dos profissionais, mas entre propostas
societárias de mudanças. Nesse sentido, os profissionais brasileiros
mobilizados pelas suas organizações profissionais construíram uma
proposta ético‑política com compromisso democrático, da cidadania, [...] de
participação política e de crítica ao capitalismo e ao neoliberalismo.
(FALEIROS, 2011. p. 756).

Os artigos demonstraram o interesse da categoria em discutir o processo


sócio-histórico do Serviço Social através da intenção de ruptura com as práticas
conservadoras que acompanham a profissão desde a sua gênese ligada à igreja
católica (NETTO, 2005), como bem traz os Ar. I, Ar. VI e Ar. IX, que reforçam esse
processo de ruptura e a sua aproximação com as escritas marxistas.
Nesse sentido, para melhor compreensão, e através da análise histórica da
gênese da profissão, entende-se que o Serviço Social no Brasil surge a partir dos
anos de 1930, tendo a sua primeira Escola em 1936 em São Paulo. Nasce, então,
no berço dos princípios e base cristã da igreja católica, representados pela caridade,
benevolência e altruísmo da Instituição e suas profissionais, tendo em vista que era
composta apenas por mulheres da alta classe brasileira. Além disso, sua atuação
profissional carregava em seu bojo concepções ideológicas conservadoras e
acríticas, pautadas no controle da força de trabalho de forma a sustentar a ordem
vigente e assegurar a manutenção mínima das condições de vida da classe
trabalhadora (IAMAMOTO, 2014).
A princípio, a profissão atuava enquanto categoria empenhada no chamado
“ajustamento social”, adequando e moldando o(s) indivíduo(s) às normas vigentes
da classe dominante, sem considerar aspectos de amplitude e totalidade, pautando
49

a sua atuação no sujeito enquanto único e responsável pela sua mudança e pelo fim
da problemática existente (FALEIROS, 2011).
O seu primeiro código de ética profissional, datado em 29 de setembro de
1947, trouxe as concepções do neotomismo da igreja católica pautando a sua
atuação profissional nas práticas do “bem comum e nos dispositivos de lei, tendo [...]
em mente o juramento prestado diante do testemunho de Deus” (FERNANDES,
2018, p, 65).
Diante disso, a atuação profissional se dava alinhada ao respeito com o
próximo, às leis religiosas, atrelada a uma visão de honestidade entendida como
papel fundante na imagem desempenhada pela profissão e a manutenção da
perspectiva de justiça do cristianismo, visualizadas em seu Código de Ética de 1947.
Por consequência, o Serviço Social atuou durante muitos anos através dessa
visão caritativa e da benevolência, não realizando críticas construtivas referentes à
superação das diversas expressões da questão social apresentadas, mas, sim
atuando no ajuste das/dos usuárias/os em favor da classe dominante.
Posteriormente, o Serviço Social ainda refletia práticas ecléticas e
funcionalistas em seu segundo Código de Ética de 1965, assim como aspectos
conservadores e psicologizantes de seu terceiro Código de Ética de 1975.
(FERNANDES, 2018). Sendo assim, segundo o Ar. I:

Na trajetória histórica da profissão, os influxos do pragmatismo deixaram


suas marcas: na concepção de profissão como instrumento a serviço do
projeto do capital, na concepção de prática de ajuda psicossocial, no seu
enfoque no sujeito, na sua função educativa visando adaptação e
ajustamento, na sua fissura pelas técnicas, instrumentos e metodologias de
ação, no profundo ecletismo, no desprezo pelos fundamentos. (GUERRA,
2013, p. 46).

Tais práticas conservadoras são ecoadas e refletidas em atuações pautadas


no fazer profissional paliativo, pontual e associado ao ajuste das/dos usuárias/os às
normativas burguesas do Estado e da classe dominante, além da atuação
psicologizante e do Serviço Social de Caso. Logo, bem traz o Ar. VII, quando
destaca que “os que se alinham nessa perspectiva são os mesmos que atualizam o
Serviço Social de caso pela nomenclatura do Serviço Social clínico, [...] que em
50

nada tem a ver com as atribuições privativas do assistente social” (DUARTE, 2010,
p. 16).
Como apontado no Ar. VII, ‘’com a sua renovação e rompimento com a
perspectiva tradicional da profissão, esse mesmo Serviço Social relegou a
interlocução e a introdução da psicanálise’’ (DUARTE, 2010, p. 07 – 08). Essas
medidas, ainda reforçadas pela categoria em seu terceiro Código de Ética de 1975,
“de forma hegemônica, fundamentava sua ação na combinação do referencial
fenomenológico com a personalismo cristão” (FERNANDES, 2018, p. 68). Ou seja,
esse mesmo caminho de discussão que segue o Ar. VII, baseia-se na tentativa de
rompimento da categoria com práticas ecléticas da formação profissional e atuação
das/dos Assistentes Sociais.
Diante de sua revisão teórica, metodológica, operativa e política que iniciou
logo nos primeiros períodos da ditadura militar e irão refletir em seu último CEP, a
profissão aproximou-se sutilmente da teoria social marxista estreitando ainda mais
os laços com a classe explorada, indo de encontro aos ideais burgueses de
dominação e subjugação existentes. Com isso, a adoção de tal teoria modifica
completamente o fazer profissional e posicionamento da categoria, ocupando lugar
nas discussões, nos métodos, nos espaços acadêmicos e na atuação profissional
(MARTINS, 2019).
Como consequência, segundo Netto (2005), o Serviço Social passa pela
perspectiva modernizadora, reatualização do conservadorismo e pela intenção de
ruptura. Logo, tais perspectivas culminam no processo de modernização e
aperfeiçoamento da metodologia e arsenal teórico/prático, como também exprimem
a proposta de atualização das suas bases conservadoras e, posteriormente, o
rompimento com o conservadorismo, processo esse ainda em curso no Serviço
Social. Sendo assim:

Recusa-se o assistencialismo e a benemerência, questiona-se os


fundamentos positivistas da tríade do Social Work norte-americano: o
Serviço Social de casos, o Serviço Social de grupo e a
organização/desenvolvimento de comunidade difundida por ideólogos de
organismos internacionais durante a Guerra Fria. Busca-se um Serviço
Social latino-americano fundado nas particularidades da formação histórica
da América Latina e do Caribe, denunciando as relações de dependência
ante os EUA. (IAMAMOTO, 2019, p. 442-443).
51

É nesse mesmo período de ditadura militar no Brasil que, segundo Netto


(2005), fundamentada no Congresso da Virada de 1979, a categoria inicia um novo
olhar para as questões que perpassam as mais diversas expressões da questão
social, trazendo para si debates acerca da sua aproximação sutil para com a classe
trabalhadora, reconhecendo-se enquanto sujeitos também inseridos no mesmo
contexto exploratório do capital. Por classe trabalhadora, Marx entende que é:

A classe dos operários modernos, [...] os quais só vivem enquanto têm


trabalho, e só têm trabalho enquanto o seu trabalho aumenta o capital.
Esses operários, constrangidos a vender-se em parcelas, são uma
mercadoria como qualquer outro artigo de comércio e estão, por isso,
igualmente expostos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as
flutuações do mercado. (MARX; ENGELS, 2015, p. 70).

É dessa classe, para tanto, que a categoria do Serviço Social se aproxima e


inicia o seu reconhecimento, também, enquanto pertencente à ela, tendo em vista
que são todas e todos inseridos no contexto capitalista que nada tem para trocar por
um salário se não a sua força de trabalho. Dessa forma, segundo o Ar. X, “o
marxismo tem como alvo a verdade científica (tida como um dos meios de mudança
do real), voltando-se [...] à problemática do ser e as coisas da efetividade”
(MARTINS, 2019, p. 46), trazendo à tona a importância da teoria social marxista no
entendimento da sociedade capitalista. Então, o Ar. V. aponta que:

Nesse sentido, o que se denominou projeto ético-político, construído a partir


da virada para os anos 1980 e aprofundado nas décadas seguintes,
vinculou-se fortemente com uma capacidade de pensar a realidade a partir
do método crítico-dialético, em que toma o fundamento econômico da
questão social como ponto de partida para a realização das diversas
análises sobre a realidade social. (SILVA, 2010, p. 421).

O Serviço Social caminha no seu fortalecimento e distanciamento cada vez


maior com os dogmas caritativos adotado em sua gênese católica e intenciona uma
análise crítica da sociedade, expressando-se enquanto categoria que luta junto às
mais diversas frentes exploradas pelo capitalismo. Assim sendo, “sem correr o risco
do exagero, pode-se afirmar que esse período circunscreve um estágio [...] do
processo da profissão cujas incidências para o seu desenvolvimento”. (NETTO,
2005, p.115).
52

Essa aproximação, entretanto, dava-se a partir de leituras de autores que


interpretavam Karl Marx, sendo as suas obras pouco acessadas e restritas a grupos
de estudos que liam o autor limitadamente em Alemão. Ademais, também, nas
universidades eram pouco estudadas e referenciadas nos debates, tanto pela falta
de oportunidades para acessar as obras quanto devido o processo ditatorial que
cerceava os estudos. (SADER, 2017).
Posteriormente, em seu quarto Código de Ética, de 1986, a profissão já adota
a sua aproximação com conceitos de luta de classe e a sua importância na análise
interventiva na sociabilidade capitalista, refletindo acerca da contribuição da
categoria junto aos movimentos sociais e trabalhadoras/es. Tais ideais, no entanto,
são frutos do próprio processo histórico de amadurecimento da profissão atrelada ao
contexto social de redemocratização que se iniciava no Brasil.
Nesse ínterim, a profissão avança e modifica-se gradualmente, tendo em vista
as alterações de seus cinco Códigos de Ética, muito embora o enfoque seja no
último CEP, publicado em 1993, que traz o seu compromisso firmado junto à classe
trabalhadora. Logo, segundo Netto (1999), tal Código traz uma perspectiva voltada
para uma sociedade justa e igualitária e por uma nova forma de sociabilidade longe
das desigualdades do sistema capitalista, rompendo e superando-o.
Por consequência, adota-se um olhar crítico/reflexivo de totalidade para que
se possa entender e intervir nas mais diversas expressões da questão social que
circundam a atuação profissional, adicionadas ao posicionamento revolucionário de
emancipação humana e pelo fim do sistema capitalista.
Portanto, através desse processo histórico, pôde-se analisar e perceber as
transformações que ocorreram (e continuam a ocorrer) na profissão, observando-as
enquanto fator histórico que reflete o que a categoria pretende e almeja em sua
atualidade. Para tanto, o Serviço Social se apropria de um método de análise e
atuação, expondo “o materialismo histórico e dialético apontado por Karl Marx,
distanciando-se da tradição positivista, a qual objetivava a correção do sujeito,
eliminando carências e disfunções a partir de um tratamento isolado para cada
problemática” (GOMES, 2018, p. 03).
A profissão, ao tomar novos rumos de análise da realidade, parte dos
princípios materiais e históricos para entender as problemáticas postas diante de
53

sua intervenção. Por isso, visualiza “o mundo sensível como a totalidade da


atividade sensível viva dos indivíduos que o constituem” (MARX; ENGELS, 2009, p.
39). Ou seja, é a prática profissional em consonância com uma visão de análise
crítica e reflexiva no entendimento das mais diversas expressões da questão social
enquanto resultado da exploração e organização capitalista.

4.3 SERVIÇO SOCIAL E A PÓS-MODERNIDADE: PROCESSOS


CONSERVADORES E CONTRADITÓRIOS NA CATEGORIA.

A teoria e prática do Serviço Social são aspectos da atuação da categoria que


conversam entre si através do processo de análise da realidade posta ao
profissional, diante das mais diversas expressões da questão social que se
apresentam em seus espaços ocupacionais de intervenção e/ou fora deles. Segundo
o ar. IX, “Marx consegue elevar a um nível mais amplo a conexão entre prática e
teoria: tudo o que a teoria reflete está enraizado nas práticas sociais; a teoria é, de
fato, o reflexo das práxis humana, em seus diversos momentos”. (WELLEN, 2010, p.
122).
Para tanto, é sabido que a profissão tem em seus princípios a luta pela
emancipação humana através de seu compromisso com a classe trabalhadora e seu
projeto profissional, alinhada ao desenvolvimento de uma nova ordem societária
(NETTO, 1999). O alcance dessa sociedade onde os sujeitos serão livres,
superando o sistema capitalista, todavia, só é possível através de uma teoria que
responda aos anseios da classe trabalhadora, alinhada a uma prática condizente
com aquela.
No alcance de tal sociabilidade, a pós-modernidade reforça que em Marx
existe apenas uma teoria revestida de utopia distante da realidade. Parafraseando o
autor marxiano, Lênin aponta que “Ele não inventa, não imagina [...] uma sociedade
“nova”. Não, ele estuda, como um processo de história natural, as formas
intermediárias entre uma e outra”. (LENIN, 2007, p. 69). Mas o que seria essa pós-
modernidade? E qual o motivo para o seu desabono com a teoria social marxista?
A princípio, o ar. VIII traz acerca da problemática ao analisar e afirmar que a
“pós-modernidade opera a negação performática do programa de emancipação
54

racional [...] do gênero humano” (SILVEIRA JÚNIOR, 2016, p. 170). Essa pós-
modernidade, entretanto, atravessa as mais diversas esferas do conhecimento,
desde a filosofia, sociologia, as artes, a cultura entre outras formas de analisar, agir
e sentir o mundo. É essa propensão em refletir as condições atuais que se nega os
aspectos existentes no sistema capitalista, como a exploração da classe
trabalhadora e a luta de classes, além da negação das desigualdades existentes
enquanto processo histórico de construção.
Sendo assim, tal prática não atinge somente a esfera da atuação profissional,
iniciando-se a partir da formação acadêmica do Serviço Social, segundo o Ar. V:

O aprofundamento desse debate passa pela discussão sobre os


fundamentos éticos do Serviço Social, para que possamos confrontar a
proposta de formação, que tem desdobramentos sobre a prática
profissional, com o quadro universitário atual que assume contornos
claramente pós-modernos. A partir desse confronto, poderemos pensar os
dilemas e desafios profissionais para que coletivamente possamos
assegurar a direção social profissional conquistada historicamente. (SILVA,
2010, p. 422).

O reforço dessa pós-modernidade se intensifica através de políticas


neoliberais e partidos de extrema direita que vêm ganhando cada vez mais espaço,
com enfoque no avanço conservador na América do Sul (GALLEGO, 2018),
colocando em vigência a praticidade e o aligeiramento da formação acadêmica e
atuação profissional pautadas no imediato e pontual. Isto é, a pós-modernidade no
Serviço Social representa uma contrarreforma em sua base curricular,
metamorfoseada de modernização, mas que traz em seu bojo aspectos do
conservadorismo político, social e da própria categoria.
Dessa forma, Santos (2007) aponta que a intenção pós-moderna no Serviço
Social tem interesse de voltar às práticas conservadoras e acríticas, visualizadas na
gênese profissional da categoria e, em consequência disso, rejeita as vertentes
Marxistas e a própria Teoria Social de forma a negar uma prática que visualiza a
emancipação humana e a superação do capitalismo.
Com isso, ainda que esteja diante dos mais diversos avanços do Serviço
Social, como apresentado anteriormente, a profissão não conseguiu romper
completamente com os ideais conservadores, fortalecidos com o advento das
condições política/social e cultural enfrentadas na atual conjuntura. Em outras
55

palavras, o conservadorismo espreita a categoria como forma de controle burguês e


manutenção da ordem, “enquanto a demanda [...] que o sustenta existir, o
conservadorismo estará presente no Serviço Social – ora mais fortalecido, ora
menos, porém sempre atualizando-se” (SANTOS, 2007, p. 58).
Nessa perspectiva e reflexos ideológicos da classe dominante, Marx aponta
que:

A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material


dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo
que lhe estão assim, ao mesmo tempo, submetidas em média as ideais
daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual. As ideais
dominantes [...] não são mais do que a expressão ideal das relações
materiais dominantes, as relações materiais dominantes concebidas como
ideias; portanto, das relações que precisamente tornam dominante uma
classe, portanto as ideias do seu domínio. (MARX; ENGELS, 2009, p. 69).

Analisando pelo prisma desta contribuição marxiana, é notória que as


expressões vigentes na atual sociedade capitalista representam, em suma, os
interesses dessa classe dominante que detém não somente os meios de produção,
mas as ideias postas enquanto verdades e modelos a se seguirem. Sendo assim, se
a ideologia burguesa intervém nas relações, a formação acadêmica em Serviço
Social também é atingida pelos interesses da classe dominante.
Para tanto, no Ar. V, conforme Silva (2010) aponta, a partir do governo Lula
(Partido dos Trabalhadores), iniciado em 2002, observou-se a predominância do
investimento na educação privada e na modalidade EaD, priorizando as parcerias
com instituição norteadas pelo prisma do capital. Ou seja, a venda do ensino
enquanto mercadoria.
A partir disso, e principalmente, com o avanço do aligeiramento da formação
acadêmica, os ideais pós-modernos reforçam o fazer profissional paliativo, trazendo
à tona a atuação baseada no conservadorismo e nas práticas de ajustamento,
afinadas aos interesses da classe dominante. Por isso, é importante pontuar que o
projeto posto, revestido de universalização do ensino, e que não atinge somente a
categoria do Serviço Social, nada mais é do que um projeto reformista que “possui
uma clara conotação ideológica de cunho neoliberal, sendo amplamente utilizado
para justificar a privatização” (SILVA, 2010, p. 411).
56

Pode-se observar, também, dois pontos os quais devem ser destacados. O


primeiro é de que, a partir desse processo material histórico e dialético,
compreende-se que a profissão, como é vista na atualidade, formou-se através de
um conjunto de relações e mudanças ao decorrer da história, tendo em vista o longo
processo de interesses antagônicos que envolvem não somente a categoria do
Serviço Social, mas, principalmente, uma relação macro de antagonismo entre a
classe trabalhadora e a classe da burguesia.
Outro ponto é que essas relações de interesses contrários que envolvem a
profissão e toda a sociedade, hajam vista o avanço conservador, não é algo “dada
diretamente da eternidade, sempre igual a si mesma, e precisamente no sentido de
que ele é um produto histórico, o resultado da atividade de toda uma série de
gerações” (MARX; ENGELS, 2009, p. 37).
Portanto, se o avanço conversador é o resultado desses interesses
dominantes, produto histórico de lutas antagônicas, pode-se apontar uma direção de
rompimento com a mesma ordem dominante, tendo em vista que a atuação
profissional conservadora atende explicitamente aos interesses da burguesia através
do ajustamento social e da ascendência de uma classe pela outra. Sendo o Serviço
Social uma profissão que visualiza e luta por uma nova sociabilidade, o Ar. V traz, de
acordo com Silva (2016), que esse rompimento com o conservadorismo não é
exclusivo da profissão, mas deve se vincular às demais profissões norteadas por um
prisma emancipatório e ao conjunto da classe trabalhadora, para que se possa
alcançar tal objetivo.

4.4 MATERIALISMO HISTÓRICO E DIALÉTICO

A partir dos pontos trabalhados anteriormente, observou-se que o Serviço


Social passou por diversas mudanças desde a sua formação acadêmica e
profissional, até os resquícios conservadores que as permeiam e se intensificam nos
últimos anos. Sendo a teoria social marxista adotada pela profissão para analisar e
intervir na sociedade capitalista, é importante assinalar que se adota, também, e
principalmente, a defesa intransigente dos direitos humanos e da emancipação de
todas e todos (BRASIL, 2012).
57

Contudo, a dialética que Karl Marx e Friedrich Engels apontam difere das
propostas idealistas de filósofos como Hegel, que analisava as relações enquanto
dialética ainda pautada nos ideais metafísico, mesmo fazendo um contraponto a ela
(ZACARIAS, 2020). Sendo assim, Marx traz que:

A mistificação que a dialética sofre nas mãos de Hegel não impede, de


modo algum, que ele tenha sido o primeiro a expor as suas formas gerais
de movimento, de maneira ampla e consciente. É necessário invertê-la,
para descobrir o cerne racional dentro do invólucro místico. [...] Em sua
configuração racional, é um incômodo e um horror para a burguesia e para
os seus porta-vozes doutrinários, porque, no entendimento positivo do
existente, ela inclui ao mesmo tempo o entendimento da sua negação, da
sua desaparição inevitável; porque apreende cada forma existente no fluxo
do movimento, portanto também com seu lado transitório; porque não se
deixa impressionar por nada e é, em sua essência, crítica e revolucionária.
(MARX, 1996, p. 140-141).

Assim sendo, a partir das relações materiais contraditórias no sistema


capitalista que se observa a história, os fenômenos, os meios de produção, as
relações sociais entre outros, são frutos dessas ações contraditórias, resultados de
mudanças constantes. Todavia, “assim como examinam constantemente o mundo
em que atuam, os dialéticos devem estar sempre dispostos a rever as interpretações
em que se baseiam para atuar”. (KONDER, 2008, p. 80)
Para tanto, em uma análise da realidade interventiva das/dos profissionais de
Serviço Social, observar o aparente sem se aprofundar na realidade das
contradições existentes diante dos sujeitos pode fragmentar a atuação de caráter
interventivo. Neste sentido, o Ar. VI traz a discussão acerca da “fundamentação
dialética como ruptura com o linearismo do planejamento, [...] dominante no
exercício profissional. Há um processo de dupla ruptura: com seu tecnicismo e com
a metodologia e a epistemologia positivista” (FALEIROS, 2011, p. 753). Sendo
assim, diferindo da dialética dos idealistas, Marx (2008, p. 137) aponta que “o que
constitui o movimento dialético é a coexistência de dois lados contraditórios, sua luta
e a sua fusão em uma categoria nova”.
Portanto, é importante apontar a contribuição da dialética em Marx no
entendimento das realidades apresentadas no cotidiano da categoria, uma vez que a
leitura desses conjuntos de subjetividades que surgem nos campos de atuação é
composta por um macro de contradição inerente ao sistema capitalista. Ou seja, o
58

fazer profissional precisa estar atrelado ao rompimento com as práticas imediatistas


e sem aprofundamento da realidade, como visto na atuação profissional
conservadora.
Em consequência, Konder (2008, p. 35) traz que “para a dialética marxista, o
conhecimento é totalizante e a atividade humana, em geral, é um processo de
totalização, que nunca alcança uma etapa definida e acabada”. Dessa forma, para o
entendimento da/do profissional acerca das realidades colocadas é necessário o
entendimento de uma totalidade que responda a situação não enquanto caso
isolado, mas compreendendo que o aparente por si só não responde ao conjunto de
um todo que existe.
Para melhor entender, pode-se apontar a contribuição do próprio Marx acerca
da interferência dessa visão macro nas relações sociais e na perspectiva das
subjetividades dos sujeitos envolvidos:

A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica


da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica
e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de
consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo
de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que
determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua
consciência. (MARX, 2008, p. 47)

Portanto, tendo em vista que o modo de produção da vida material interfere


diretamente na existência de toda a sociedade, é sabido que esse modo de
produção parte de interesses próprios de uma classe que não é a classe das/dos
trabalhadoras/es, mas, sim a classe detentora dos meios de produção. Logo, esta é
quem dita as demais formas de relações a partir dessa dimensão de produção,
pautada na exploração de uma classe por outra.
Então, é nesse campo material onde tais relações são advindas de uma
estrutura exploratória, a qual vislumbra o lucro e interesse próprio e se apresenta
enquanto espaço de atuação do Serviço Social, destacando as mais diversas
expressões da questão social que surgem a partir desse prisma macro.
Outrossim, é sabido que a história por si só não é estática e que as relações
materiais interferem diretamente nas demais relações (MARX, 2009). Por isso, a
atuação profissional pautada na estreita relação da teoria social marxista
59

apresentada até aqui, busca incansavelmente o rompimento com essa forma de


sociabilidade exploratória, norteada por uma nova ordem social.
Para tanto, visualiza-se a teoria social marxista atual na contemporaneidade
não só no fazer profissional, mas a partir das próprias relações sociais e da
exploração cada vez mais acentuada da classe trabalhadora, como se observa nas
crises cíclicas do capitalismo.
Os estudos marxistas materializam-se de forma bastante atual nas respostas
das problemáticas contemporâneas advindas das novas formas exploratórias do
sistema capitalista, porém têm a sua base pautada no fator comum das
desigualdades entre as classes, questão essa inerente ao próprio sistema.
Diante disso, sendo atual uma teoria que responda aos anseios da classe
trabalhadora, é necessário o seu diálogo com todas e todos as/os trabalhadoras e
trabalhadores no entendimento da realidade exploratória que os permeiam. E o
Serviço Social, profissão interventiva nas mais diversas realidades, o qual atua em
consonância com tal teoria, consegue, através da junção de uma teoria
revolucionária e uma prática emancipadora, pensar um novo norte a se seguir junto
a toda classe trabalhadora e não dissociando-se da base, mas entendendo,
também, o seu local enquanto pertencente àquela.
60

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As mudanças que ocorreram no Serviço Social são diversas, desde o


amadurecimento em seu campo teórico/prático como também a perspectiva crítica
adotada pela profissão, reflexo de seu distanciamento hegemônico com a sua
gênese conservadora. Com isso, é importante assinalar que, ao mesmo tempo em
que a categoria reconhece o seu princípio junto à igreja católica e à prática paliativa
e caritativa, ela não nega essa origem, mas a abraça enquanto meio de análise da
formação e modificação da profissão durante os seus oitenta e cinco anos de
existência no Brasil.
Pensar no Serviço Social contemporâneo, alicerçado nas bases trabalhistas e
dinâmicas da sociabilidade capitalista no século XXI, difere e muito das pretensões
adotadas pela profissão em sua gênese. No entanto, é sabido que a categoria, em
sua origem, adentrava em seu campo interventivo calcado nos interesses da classe
burguesa e pensando no reajustamento das/dos usuárias/os (os então chamados
“clientes”), como forma de amenizar os efeitos causados pelas mais diversas
expressões da questão social, porém não vendo dessa forma, e sim culpabilizando
os sujeitos por essas “problemáticas” macro.
Com o seu amadurecimento teórico/crítico/reflexivo e, principalmente, a partir
do processo de ruptura com o Serviço Social positivista, atrelada às suas práticas
conservadoras, fora nos anos de 1970 que se observa a aproximação da profissão
com a classe trabalhadora, da qual tais profissionais inseridas/os na categoria
também pertencem. Esse reconhecimento enquanto classe, portanto, é fruto direto
da adoção da teoria social marxista que ganha força nas discussões e debates nos
espaços universitários, nas Conferências e Seminários, bem como no fazer
profissional.
Por consequência, o Serviço Social marxista marca a categoria desde suas
bases curriculares, refletindo em seu Projeto Profissional, Código de Ética, Lei de
Regulamentação da Profissão e nos campos interventivos, partindo do pressuposto
do alinhamento entre teoria revolucionária e prática condizente com os interesses
das/dos usuárias/os que buscam os serviços e políticas.
61

Dito isso, o presente trabalho analisou os condicionantes que envolvem a


aproximação crítica da teoria social marxista, tendo como consequência o
materialismo histórico e dialético. Este, por sua vez, posto em prática através da
intervenção cotidiana da categoria, como também representando a sua importância
e contribuição para o processo emancipatório que busca a categoria em seu Projeto
Profissional, visualizando uma nova forma de sociabilidade.
Nesse sentido, observou-se a teoria social marxista enquanto fator ímpar no
Serviço Social, tendo em vista a sua análise crítica das relações materiais e
históricas que envolvem os antagonismos de classes existentes no capitalismo.
Através da perspectiva da totalidade, então, a profissão vislumbra o entendimento
da(s) expressão(ões) da questão social apresentadas em seus campos de atuação
e, posteriormente, parte da perspectiva do macro na análise do que surge enquanto
aparente, buscando a sua essência nos condicionantes que envolvem as bases
desiguais do sistema capitalista.
Consequentemente, observou-se os limites do Estado burguês ligados à
classe dominante, pensando em seus interesses próprios e adotando políticas
neoliberais que reforçam as já consolidadas expressões da questão social, bem
como traz em suas pautas a perspectiva da contrarreforma apresentada ao Serviço
Social, alinhadas à ideia do retorno às práticas conservadoras, resultado da pós-
modernidade que flerta com o assolamento da base marxista na profissão. Ou seja,
mostrando-se enquanto desafios apresentados na pesquisa, a qual evidencia a
atuação profissional na contemporaneidade.
Outrossim, vê-se necessidade cada vez maior do fortalecimento do PEP e a
direção pretendida pela profissão, tendo em vista o avanço conservador que atinge
os espaços de atuação profissional e a formação acadêmica, refletidas em um norte
eclético e, por vezes, distante do norte emancipatório adotada pela profissão.
Nesse ínterim, a metodologia adotada para analisar tais condicionantes
apresentados partiu-se, a princípio, do levantamento bibliográfico de dez anos de
publicações nas plataformas Katálysis, Temporalis e Serviço Social & Sociedade,
quando se buscou o debate dos artigos e a perspectiva teórica do marxismo
discutidos nesses espaços.
62

As publicações responderam de forma positiva e satisfatória o filtro adotado


para selecionar os artigos, como também as categorias que se apresentaram na
construção desse trabalho. Sendo assim, demonstra-se, também, a contribuição da
pesquisa bibliográfica na construção dos saberes científicos, haja vista o seu caráter
na utilização desse método na obtenção das categorias e na construção total deste
trabalho.
Outrossim, a importância acadêmica do debate acerca dos desafios que
permeiam o Serviço Social marxista diante dos avanços conservadores que tentam,
de forma incansável, ressignificar a profissão, esta hegemonicamente consolidada
em sua base interventiva marxista e indo ao encontro dos interesses da classe
trabalhadora, alinhada aos movimentos sociais e buscando romper com a
exploração adotada e pregada no capitalismo. Ademais, trazer a relevância da
utilização destes dados coletados na pesquisa para a construção de outros saberes,
tendo em vista que o debate acerca destas categorias não se esgota neste trabalho.
Por fim, diante de tais desatualizações prescritas nos interesses de projetos
contrários ao adotado pelo Serviço Social, o presente trabalhou buscou demonstrar
e apresentar que é através da teoria marxista, da prática junto ao Código de Ética de
1993, assim como da direção crítica/reflexiva que a categoria pode fortalecer seu
papel profissional. Além disso, ao unir-se aos movimentos sociais e às demais
profissões que almejam projetos semelhantes para a classe trabalhadora, consegue-
se a reflexão e construção de uma nova ordem societária.
63

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