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TABERNÁCULO EDUCACIONAL

Disciplina: Filosofia Professor: Lobão

METAFÍSICA ARISTOTÉLICA

Diante do conflito entre mobilismo e imobilismo como modos opostos de interpretar a


realidade, Sócrates e Platão dividiram-na em dois níveis distintos: o sensível e o inteligível.
Assim, a estabilidade do ser, defendida por Parmênides, foi atribuída ao mundo inteligível,
constituído pelas ideias ou formas e acessível apenas ao pensamento. Já a fluidez do devir,
destacada por Heráclito, foi entendida como um traço de imperfeição, atribuído ao mundo
sensível, composto de elementos materiais e acessível aos sentidos. Logo, a essência de cada
coisa, isto é, sua forma, passou a ser considerada exterior a ela. Por exemplo, a essência de
uma mesa, existente no mundo sensível, estaria no mundo inteligível como ideia de mesa.
Posteriormente, Aristóteles refletiu sobre a concepção platônica e discordou da
divisão da realidade em dois níveis. Ele entendia os entes sensíveis como sínolos, ou seja,
como compostos de matéria (hylé) e forma (morphé). Portanto, considerava as formas
inseparáveis das coisas (teoria conhecida como hilemorfismo). Sendo assim, retomando o
exemplo anterior, do ponto de vista aristotélico, a essência ou ideia de uma mesa existente
no mundo sensível estaria na própria mesa, e não em um mundo inteligível, exterior a ela.
Além disso, ao contrário de Platão, Aristóteles entendia a transformação dos objetos
sensíveis como a realização de suas próprias essências, e não como um traço de imperfeição.
Para ele, a matéria de um ente correspondia à potência, isto é, à sua capacidade de assumir
diferentes formas. Já a forma correspondia ao ato, ou seja, à realização (ou atualização) de
suas potencialidades materiais.
Em uma obra denominada Física, Aristóteles propôs-se a investigar a natureza dos
entes caracterizados pela possibilidade de sofrer mudanças. Ele apontou diferentes modos
de mudança (movimento); porém, ressaltou que nem tudo estaria sujeito a se modificar.
Entes como os números, deuses e astros, por exemplo, eram considerados imutáveis.
Em outra obra, atualmente denominada Metafísica, Aristóteles propôs-se a investigar
a natureza de todos os entes, em busca de um saber universal, ao qual se referia como
“Filosofia primeira”, ou “Ciência do ser enquanto ser”. À procura desse saber, ele investigou
o que é necessário para que algo exista, seja qual for esse ente (um número, um sonho, um
ser humano, uma nuvem, um astro, etc.).
“Uma planta caracteriza-se essencialmente pelo metabolismo,
transformação interna, capacidade de se desenvolver,
envelhecer e morrer. Além disso, ela pode ser deslocada e
crescer ou ser podada, de modo que aumente ou diminua
seu tamanho. Transformação, deslocamento e aumento/
diminuição são três modalidades aristotélicas de mudança.”
Poucos escritos aristotélicos chegaram à atualidade. Os que se conhecem foram
organizados no século I a.C., em forma de coletânea, por um seguidor de Aristóteles,
chamado Andrônico de Rodes. Ao estabelecer uma sequência entre as obras aristotélicas,
ele colocou os textos sobre Filosofia primeira (ou Ciência do ser) logo após o conjunto de
textos que Aristóteles nomeara como Física, a ciência do movimento que caracteriza os
entes sensíveis. Na falta de um título para esses escritos, designou-os com o termo
Metafísica, que pode significar “depois” ou “além” da Física.
A tradução além da Física poderia transmitir a ideia de superioridade da Ciência do
ser sobre as demais. Por esse motivo, o termo Metafísica prevaleceu para designar tal área
da Filosofia, apesar da proposta medieval do nome de Ontologia, que seria retomada e aceita
após a Modernidade. Além disso, o termo metafísica passou a ser utilizado para nomear a
atitude de buscar a realidade além das aparências.

entes: “aquilo que está sendo” – coisas, objetos, seres ou âmbitos da realidade.
Ontologia: em grego, onto significa o ser, o que é.
Modernidade: período que vai do Renascimento ao século XVIII.

Categorias e causas
Para entender o que motivou a investigação de Aristóteles, apresentada na Metafísica,
imagine-se observando fotografias suas, tiradas em diferentes fases de sua vida, desde que
você nasceu. Essa observação revelaria que você se transformou. Todavia, na oração “você se
transformou”, a quem corresponde o pronome você? Ao bebê, à criança, ao adolescente ou ao
jovem que observa as fotografias? Quem se transformou? Há um único “você” ou mais de
um? Pode-se responder apressadamente: há um só, mas ele mudou. Então, o que significa
mudar? O entendimento comum é: permanecer o mesmo, porém diferente. Nesse caso, o que
significa “o mesmo”? Aquele recém-nascido existe como era? Ele existe, mas não como era?
Ou não existe mais, e agora só existe você? Mas, se ele não existe, como você pode existir?
Partindo de reflexões semelhantes a essa, sobre a essência dos entes e suas
transformações, Aristóteles concluiu que cada ente era uma substância (hypokeímenon) e
estabeleceu a seguinte divisão:
• substância primeira – indivíduos;
• substância segunda – espécies e gêneros dos indivíduos.
Nesse contexto, a espécie definiria o conjunto de propriedades comuns entre alguns
indivíduos. Por sua vez, o gênero definiria o conjunto de propriedades comuns entre algumas
espécies. Por exemplo, o indivíduo Tom pertence à espécie dos gatos e esta pertence ao
gênero animal.
De acordo com Aristóteles, as espécies e os gêneros estariam presentes nos
indivíduos particulares como universais que o pensamento poderia identificar. Para ele, o
conhecimento sobre particulares não era suficiente para haver ciência (conhecimento
rigoroso), o que dependeria de se conhecerem os universais (substância segunda). Além
disso, o filósofo estabeleceu categorias e causas que deveriam ser observadas para a
compreensão de cada ente.
Segundo Aristóteles, cada categoria deveria ser pensada como um sujeito ou como um
predicado. Para ele, a substância era o sujeito; as demais categorias, seus predicados. Estes
poderiam ser acidentais – ou seja, variáveis de acordo com diferentes circunstâncias e
causas – ou essenciais – isto é, determinantes para a identificação do sujeito. No caso da
substância primeira (o indivíduo), os predicados poderiam ser acidentais, mas, para a
substância segunda (o gênero ou a espécie), eles seriam sempre essenciais, pois, se
mudassem, ela deixaria de ser o que era. Exemplificando: existem pessoas que não dispõem
da capacidade de falar; portanto, essa característica pode ser considerada acidental para os
indivíduos humanos (substância primeira). Todavia, comunicar-se por meio da fala é uma
característica da espécie humana, que a diferencia de outras; portanto, é essencial para a
espécie (substância segunda).
Assim, ao associar as categorias de Aristóteles à sua concepção da matéria como
potência e da forma como ato (atualização de uma potência), pode-se concluir que, no
pensamento dele, o ser equivaleria à substância; o não ser, a um potencial não realizado; e o
devir, à atualização de uma potencialidade. Além disso, o filósofo citava quatro tipos de
causas que seriam responsáveis pela constituição dos entes e pela atualização de suas
potências. Observe, a seguir, as quatro causas aristotélicas aplicadas ao exemplo de uma
casa.

No contexto aristotélico, destacava-se uma causa final comum a todos os seres: Deus,
o primeiro motor imóvel, ou seja, o que colocaria as coisas em movimento, sem se mover. Ele
não era visto como criador. Apenas atraía os seres com sua perfeição, em busca da qual eles
seriam aperfeiçoados, atualizando seus próprios potenciais, sob o impulso de causas
eficientes. Posteriormente, na Metafísica cristã, ao contrário do primeiro motor imóvel
aristotélico, Deus apareceria como criador, sendo móvel e causa eficiente, por mover-se e
mover a substância no ato da criação do mundo.

O texto a seguir revela a superioridade que Aristóteles conferia à Ciência do ser


enquanto ser, ou das causas primeiras, isto é, à Metafísica. Afinal, considerava que dela viria
o conhecimento mais profundo e verdadeiro: o dos princípios e das causas fundamentais para
a existência de todas as coisas.

“Porém, a que ensina é a ciência que investiga as causas, porque só os que dizem as
causas de cada coisa é que ensinam. Ora, conhecer e saber por amor deles mesmos é próprio
da ciência do sumamente conhecível. Com efeito, quem procura o conhecer pelo conhecer
escolherá, de preferência, a ciência que é mais ciência, e esta é a do sumamente conhecível;
e sumamente conhecíveis são os princípios e as causas: é, pois, por eles e a partir deles que
conhecemos as outras coisas, e não eles por meio destas que são subordinadas. A mais
elevada das ciências, e superior a qualquer subordinada, é, portanto, aquela que conhece
aquilo em vista do qual cada coisa se deve fazer. E isto é o bem em cada coisa e, de maneira
geral, o ótimo no conjunto da natureza. Resulta, portanto, de todas estas considerações que
é a esta mesma ciência que se aplica o nome que procuramos. Ela deve ser, com efeito, a
[ciência] teorética dos primeiros princípios e das causas, porque o bem e o “porquê” são uma
das causas.” - ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Abril, 1973. p. 214. (Os pensadores).

Copie e resolva os exercícios abaixo, em seguida tire fotos dos mesmos e as envie para o
formulário através do link: https://forms.gle/92kitKbDtqTCqWMB7

1. Especifique as causas aristotélicas para o ente navio.


2. Considerando a imagem a seguir, preencha o quadro com informações coerentes,
aplicando as categorias aristotélicas ao personagem Tom, criado nos Estados
Unidos, na década de 1940.
Substância Primeira
Substância Segunda Espécie: Gênero:
Qualidade
Quantidade
Relação
Lugar
Tempo
Posição
Posse
Ação
Paixão

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