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A PSICOLOGIA DO JUIZ

Luiz Guilherme Marques

2004

Parte 1 de 5

Juiz é aquele que nasceu com a dura missão de retificar.


(um sábio da antigüidade)

Conhece-te a ti mesmo.
Nada em excesso.
(recomendações inscritas no templo e oráculo de Apolo em
Delfos)

O juiz não deve se sentir representante do governo, mas um


"educador", representando o membro cultural.
(Antonio José Marques)

O que está hoje a morrer não é a noção de homem, mas sim a


noção insular do homem, separado da natureza e da sua própria
natureza; o que deve morrer é a auto-idolatria do homem, a
maravilhar-se com a imagem pretensiosa de sua própria
racionalidade.
(Edgar Morin)

Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará.


(Jesus Cristo)

DEDICATÓRIA

- a Terezinha, minha esposa


- a Tereza Cristina e Jaqueline Mara, minhas filhas, razão de tudo
que faço

A personalidade carismática de CARL GUSTAV JUNG foi a


grande revelação que nos cativou nestas andanças pelos domínios
da Psicologia, bem como a sensibilidade dos psicólogos
transpessoais e humanistas, que vêem no ser humano a
perfectibilidade. A esses corações afetuosos é dedicado este
estudo.

Nossa fé na magistratura nos levou a escrever este livro.


Dedicamo-lo aos colegas juízes.

AGRADECIMENTOS

- a Ronaldo Tornel da Silveira e Elaine Civinelli Tornel da


Silveira, pela amizade antiga,
- a Anna Costa Pinto Ribeiro, pelas nossas conversas sobre
Psicologia,
- a Divaldo Pereira Franco e Maria Geny Barbosa, pelo apoio
fraterno,
- a José Norberto Vaz de Mello e Mayflower Possas Vaz de
Mello, Márcio Antonio Abreu Corrêa de Marins e Marly de
Castro Corrêa de Marins e José Guido de Andrade (in
memoriam), pela segurança na condução da magistratura mineira
em épocas diferentes,
- a Sálvio de Figueiredo Teixeira, pelas suas propostas
progressistas

ÍNDICE

Introdução
1 - O Juiz na Visão dos Advogados
1.1 - Piero Calamandrei
1.2 - Enrico Altavilla
1.3 - Philippe Becard
1.4 - Umberto Fiore
2 - O Juiz na Visão dos Juízes
2.1 - Cyro Marcos da Silva
3 - O Juiz na Visão dos Psicólogos e Psicanalistas
3.1 - Lídia Reis de Almeida Prado
3.2 - David Zimerman
4 - O Auto-conhecimento
4.1 - O Conjunto Eletrônico (Corpo)
4.2 - A Consciência (Alma, Psique etc.)
5 - A Psicologia Analítica (Junguiana)
5.1 - Dados Biográficos de Jung
6 - A Psicologia Humanista
7 - A Psicologia Transpessoal
Conclusão
Notas
Bibliografia

INTRODUÇÃO

Os problemas da Justiça sempre ocuparam o cérebro dos


luminares da ciência jurídica desde a mais remota antigüidade,
que, insatisfeitos com o nível já alcançado, sonham com uma
Justiça mais próxima da perfeição: seu idealismo é sagrado.

Frente a esses cérebros lúcidos e percucientes seria ingênuo de


nossa parte trazer sugestões inovadoras nas áreas objeto de suas
elucubrações.

Entretanto, podemos sugerir em um aspecto pouco explorado na


Justiça, que é o da Psicologia[1] Judiciária[2].

Pouquíssimos estudos existem a respeito, principalmente no


Brasil, entretanto trazemos aqui os resultados que pudemos colher
de nossas leituras e reflexões.

Pretendemos que este trabalho some alguma coisa para o


aperfeiçoamento da Justiça.

Assim, sem mais detença, passemos ao tema.

Quanto ao primeiro dos nossos referenciais:

conhece-te a ti mesmo

foi a meta vivida por Sócrates e Platão e os estudiosos da psique


humana, que vêm aprofundando a sonda da investigação nesse
oceano infinito, desvinculando a pesquisa dos terrenos da
Religião e da Filosofia (pois somos homens de ciência) e, a partir
de 1879, tratando-o como assunto da ciência psicológica.

Essa desvinculação dos domínios religioso e filosófico, para ser


tratada como matéria científica, fez aproximar do estudo da
psique humana os homens de ciência.

A Psicologia (através de suas correntes mais humanas: Psicologia


Analítica de JUNG, Psicologia Humanista e Psicologia
Transpessoal) pretende ensinar a Ética cientificamente, e tornou-
se a grande ciência do século XX e do século XXI.

As pesquisas de CARL GUSTAV JUNG[3] mostraram que a


alma humana é um verdadeiro universo, cheio de galáxias,
estrelas e buracos negros, mas que, acima de tudo, arrancaram o
ser humano da horizontalidade esterilizante da descrença no seu
próprio valor e revelaram a maravilha que é cada ser pensante,
cheio de potencialidades a serem exploradas para sua própria
felicidade e da humanidade.

No corre-corre tipicamente ocidental (agora adotado febrilmente


no Oriente) vem-se desprezando a realidade interior do ser
humano, restando poucos santuários dessa procura, como é o caso
da Índia, entretanto, com a aproximação cultural dos dois
hemisférios, começamos a verificar que não compensa sermos
homens e mulheres voltados apenas para as conquistas materiais e
para o falido império da fria racionalidade.

Os estudiosos dessa nova ciência passaram a curar distúrbios


psicológicas levando os pacientes à reflexão, despertando neles a
análise ética sem julgá-los como párias morais, mas acenando-
lhes com a felicidade que todos merecem e devem procurar, e,
quanto aos homens e mulheres harmonizados interiormente,
propicia-lhes informações que os aperfeiçoam e os fazem mais
realizados ainda, conforme as experiências de ABRAHAM
MASLOW[4]).

Esses psicólogos otimistas mostraram que essa ciência não é outra


coisa que a forma de descobrir as riquezas interiores, pois até os
pontos escuros da personalidade merecem nossa observação
calma e amorosa para serem transformados em pontos luminosos
com o amor que venhamos a ter a nós mesmos e aos semelhantes.

Trata-se do conhecimento mais importante que alguém pode


alcançar, diferenciando-se as pessoas justamente por esse auto-
conhecimento, como o atestam as vidas de Sócrates, Buda,
Gandhi e Jesus Cristo.

Quanto ao segundo:

juiz é aquele que nasceu com a dura missão de retificar

entendemos que o juiz[5] é aquele que tem a espinhosa tarefa de


assegurar que cada um respeite seus semelhantes e o meio
ambiente.

Essa tem sido a nossa missão, mas é preciso que ela evolua para
um nível mais elevado que o de corrigir, punir, obrigar, pois o
padrão vigente ainda é o da Roma antiga.

Precisamos verificar o que as coletividades esperam de nós, o que


as pessoas acham do nosso tipo de contribuição e se nosso
trabalho gera realmente a paz social.

Nosso estudo associa essas duas idéias idealizando um paradigma


melhor que o atual.

É evidente a necessidade do auto-conhecimento para a vida


harmônica de qualquer pessoa e também para nós juízes
podermos, harmonizados interiores, bem desempenhar nossa
espinhosa missão.

O que seja auto-conhecimento é coisa que a Psicologia Junguiana,


por exemplo, esclarece e aprofunda, e que veremos no transcorrer
deste estudo.

Não dizemos que os juízes necessitem para si da Psicologia das


doenças da alma, mas sim da Psicologia Humanista de
ABRAHAM MASLOW e CARL ROGERS[6], da Psicologia
Analítica de JUNG e da Psicologia Transpessoal (que
abordareremos nos Capítulos próprios) para melhorarmos nosso
mundo interior e a qualidade do nosso trabalho.

Mostraremos a importância da Psicologia na vida dos juízes.

Vejamos a ligação entre juízes e psicólogos nas quatro fases da


vida do juiz (o concurso de ingresso, o período de freqüência à
Escola Judicial, o estágio probatório e a vida profissional do juiz
vitaliciado):

Primeira Fase:

A forma mais usual de ingresso na magistratura no Brasil é


através de concurso público de provas e títulos, oportunidade em
que os candidatos participam de provas escritas e orais de Direito
e apresentam títulos relacionados a essa área, submetendo-se
também a um exame psicotécnico[7] e a uma entrevista. (A banca
examinadora é quem avalia os candidatos e, quanto ao exame
psicotécnico, apesar de realizado por uma comissão de
psicólogos, seu parecer é adotado ou não pela banca examinadora
segundo seu livre convencimento.)

O exame psicotécnico deveria ser erigido à categoria de prova


eliminatória, como acontece, por exemplo, no Rio Grande do
Sul[8], pois é através dele que se avalia a vocação dos candidatos,
não sendo concebível que alguém ingresse na carreira sem
vocação comprovada.

Disse o eminente RUI BARBOSA (Internet)[


http://www.casaruibarbosa.gov.br/rui_barbosa/oracao.pdf] que
trata-se a magistratura da mais eminente das profissões, a que um
homem se pode entregar neste mundo.

Sendo uma profissão onde as exigências são especiais, somente


aqueles que se adeqüem ao tipo psicológico do juiz poderão bem
exercê-la.

Não ter vocação para essa profissão não significa demérito,


podendo-se ser bem sucedido em outros setores da área jurídica.

A vocação somente é detectada por profissionais de Psicologia,


enquanto que a entrevista (realizada pela banca examinadora)
(idealizada por Marc Ancel, magistrado e jurista francês), apesar
de importante, não tem a mesma segurança, evidentemente.

Segunda Fase:

Nas Escolas Judiciais algumas informações de Psicologia


costumam ser dadas aos novos juízes, mas, infelizmente ainda
sem grande ênfase, enquanto que o ideal é que fosse um item
importante do curso, inclusive com verificação de aproveitamento
ao final.

Terceira Fase:
Durante os dois anos do estágio probatório deveriam haver
avaliações psicológicas, tal como ocorre, por exemplo, no caso da
magistratura gaúcha [9].
Quarta Fase:

Passando a trabalhar no dia-a-dia os juízes não têm mais contato


com os psicólogos, a não como peritos nos processos.

Vejamos algumas abordagens que mostram a importância da


Psicologia no mundo dos juízes.

Como raciocina o juiz ao ditar a sentença?

Responde LEIB SOIBELMAN:

Problema interessantíssimo, muito estudado pelos adeptos da


Escola Realista Americana. O que se aceita hoje é o seguinte: o
juiz, ainda no curso do processo, tem uma visão intuitiva global
dos fatos e do direito a ser aplicado, intuição obtida de forma
emocional, mas não destituída de objetividade, porque baseada
nos valores admitidos pelo meio em que vive. Imagina primeiro a
solução que irá efetivamente dar ao caso, mas só depois de
encontrada a solução por esta forma é que irá procurar
dispositivos legais e autoridades doutrinárias ou princípios de
direitos para fundamentá-la. Esta forma de raciocínio foi
confessada por juízes da envergadura de Bártolo, Hutcheson,
Kent, Cardozo e é aceita como correta por Jerome Frank
Llewellyn, Dualde, Recasens Siches, etc. Ela contraria totalmente
a doutrina clássica que vê na sentença um silogismo, analogia
observada pela primeira vez por Kant (V. silogismo judiciário).
Importante na matéria são as premissas de fato que o juiz aceita:
os fatos nunca chegam ao seu conhecimento tal como
aconteceram, mas filtrados pelas versões das partes, e a ele cabe
dar aos fatos a qualificação jurídica que lhe proporcionará a
indicação da norma jurídica a ser aplicada, porque não é possível
dizer de antemão qual seja ela, porque isto depende de
interpretação e a lei não dá nenhum critério ao juiz para escolher
entre os diversos métodos de interpretação das leis fornecidos
pela doutrina, o que dependerá unicamente da sua intuição. Os
juízes antigos tinham vergonha de confessar que julgavam desta
forma, e então disfarçavam a solução intuitiva com uma série de
raciocínios para justificar a escolha deste ou daquele método ou
solução, o que não deve ocorrer se o juiz aplicar a lógica do
razoável de Recasens Siches, que consiste em aplicar a solução
mais justa de acordo com os valores atualmente vigentes. A
lógica do razoável se propõe a substituir a lógica clássica, de
caráter formal e que tinha por modelo a matemática, lógica que só
se preocupava com a correção do raciocínio e não com as suas
conseqüências ou conteúdo, o que é de vital importância no
direito, que trata diretamente da vida humana. A lógica
aristotélica não mais explica convincentemente o ato de julgar. B.
- Luís Recaséns Siches, Nueva filosofia de la interpretación del
derecho. Fendo de Cultura. México, 1956; Jerome Frank Derecho
y incertidumbre. Centro Editor de América Latina. Buenos Aires,
1968; I. Castan Tobeñas, Teoria de la aplicacion y investigacion
del derecho. Reus ed. Madri, 1947.

DAVID ZIMERMAN (2002:87) afirma a importância da


emocionalidade no âmbito profissional:

Na atualidade nenhum profissional da área jurídica contesta que a


eficácia de sua formação e desempenho prático depende não
unicamente da integração de seus conhecimentos teóricos, aliados
a uma sólida cultura humanística em geral e a um continuado
exercício de experiências no seu campo de trabalho, como
também ela está intimamente conectada com um bom
conhecimento e manejo dos aspectos emocionais, que permeiam
todos os seus inter-relacionamentos, consigo próprio e com os
demais, em todas suas cotidianas vivências profissionais.

As críticas[10] aos juízes são muitas, cada vez mais diretas e


gerais nestes tempos de transparência.

As pesquisas de opinião pública sobre o Judiciário demonstram


que as pessoas esperam muito de nós, mas que estamos aquém
das expectativas.

O Judiciário é procurado ainda dentro de uma mentalidade


salvacionista, conforme as reflexões de CYRO MARCOS DA
SILVA (2003:31):

Nestes tempos modernos, informatizados, rápidos, apressados,


inquietos, em que a violência espoca aqui e ali, em que, por outro
lado, se quer fugir a qualquer custo do encontro com o mal- estar
inerente à cultura, o tema me veio: felicidade. E surgem as
questões: diante da Justiça, demanda-se o quê? O homem
pretende o direito, o direito último de quê? Parece pretender o
direito à felicidade.

Infelizmente, no Brasil, apenas alguns profissionais da área


psicológica se dedicam à Psicologia do juiz.

Prolatar sentenças nem sempre significa solucionar problemas,


significando muitas vezes um recrudescimento da animosidade
das partes litigantes, enquanto que a única solução é a
conciliação, incrementada no Ocidente pelo Cristianismo com
base na orientação de São Paulo, e, no Oriente, principalmente no
Japão, pelas idéias budistas.

É importante essa mudança, pois a Justiça voltada para o exterior


não conseguiu pacificar as pessoas e as coletividades, haja vista a
força do terrorismo, do crime organizado, da violência, da
corrupção e das guerras.

Temos de relembrar que a prevenção é outra solução, e não a


punição, contanto que educação seja a que muda a intimidade do
ser humano tornando-o mais humano.

Vale a reflexão de ANTONIO JOSÉ MARQUES: o juiz não deve


se sentir representante do governo, mas um "educador",
representando o membro cultural.

Se a magistratura é realmente uma profissão tão boa como afirma


RUI BARBOSA, temos que nos preparar para exercê-la, inclusive
com a inteligência espiritual[11].

ELÁDIO LECEY (1999:267) afirma a necessidade de novos


paradigmas na formação dos juízes: Uma educação holística,
visando o desenvolvimento integral do juiz.

Vivemos uma época de transição, conforme LUÍS PELLEGRINI


(na apresentação de A Psicologia Transpessoal - Introdução á
Nova Visão da Consciência em Psicologia e Educação, de
MARCIA TABONE pp. 12-13):
O ciclo do paradigma racionalista, fragmentador e separador - a
cujos excessos deve ser debitada boa parte dos problemas que
hoje vivemos - parece estar chegando ao fim. Uma nova
concepção da vida e do mundo surgiu, e está sendo estruturada,
assumindo a cada dia contornos mais definidos. Assistimos ao
nascimento de um novo paradigma, e um dos seus nomes de
batismo é "holismo" (do grego "holos", totalidade). Trata-se de
uma concepção sistêmica da vida e do mundo, baseada na
consciência do estado de inter-relação e interdependência
essencial de todos os fenômenos - físicos, biológicos,
psicológicos, sociais, culturais e espirituais.

É preciso, contudo, por questão de justiça, lembrar que essa


concepção holística ou sistêmica só é nova no âmbito do chamado
conhecimento oficial do Ocidente. Ela já era conhecida e
desenvolvida, de forma velada ou explícita, pelas grandes escolas
da tradição ocultista ocidental, tais como a alquimia, a cabala e a
astrologia. Quanto às civilizações orientais, pode-se afirmar que
elas estão completamente estruturadas dentro da concepção
sistêmica. Basta dizer que, na sua totalidade, as grandes filosofias
que essas civilizações desenvolveram, como o hinduísmo, o
taoísmo chinês, o budismo e o zen-budismo, propõem como
axioma de base a idéia de que tudo é "vivo", desde a menor
partícula do átomo até Deus. E que a "essência vital" de todas as
formas criadas é exatamente a mesma. As doutrinas arcaicas da
Índia chegam mesmo a admitir a existência de um intercâmbio
perpétuo entre os seres: "a matéria evolui em direção ao espírito
através dos reinos da natureza e das raças humanas".

Sobretudo, devemos ser pacificadores. Para isso temos de trazer a


paz dentro de nós, conseqüência do auto-conhecimento.
Esperamos ser útil ao maior número de pessoas, sem desmerecer
quem pense de forma diferente da nossa.

O autor

1 - O JUIZ NA VISÃO DOS ADVOGADOS

1.1 - PIERO CALAMANDREI (2000):

Crítico rigoroso dos juízes em várias situações, mas, em outras,


extremamente compreensivo, faz observações importantes para
nossa reflexão:

A irascibilidade é um defeito grave. Assim indaga ele:

O que é pior para o bom andamento da justiça: um advogado


nervoso ou um magistrado irascível? (p. 43)

A capacidade de sorrir é primordial para gerar confiança naqueles


que nos procuram, muitas vezes como sua última esperança:

Para nos entendermos como pessoas sensatas, é preciso estarmos


dispostos a sorrir também: com um sorriso poupamo-nos tantos
discursos inúteis! (p. 45)

A soberba é um defeito que somente alguns têm ou é geral? A


afirmação é uma acusação séria:

Grave defeito num juiz é a soberba: mas talvez seja uma doença
profissional. (p. 61)

A intuição é um dom maravilhoso, que encurta o caminho para a


decisão e aponta o rumo certo, convencendo as duas partes
litigantes:
Juiz ótimo é aquele em que prevalece, sobre a cauta
cerebralidade, a pronta intuição humana. O senso de justiça pelo
qual, sabidos os fatos, logo se sente quem está com a razão. (p.
181)

Se avançarmos demais na reflexão seremos um PAUL


MAGNAUD ou ficaremos sem condição de julgar? Tout
comprendre, c’est tout pardonner (?) CALAMANDREI nos
coloca num beco sem saída?

Debaixo da ponte da justiça passam todas as dores, todas as


misérias, todas as aberrações, todas as opiniões políticas, todos os
interesses sociais. E seria bom que o juiz fosse capaz de reviver
em si, para compreendê-los, cada um desses sentimentos:
experimentar a prostração de quem rouba para matar a fome ou o
tormento de quem mata por ciúme; ser sucessivamente (e,
algumas vezes, ao mesmo tempo) inquilino e locador, meeiro e
proprietário de terras, operário em greve e industrial. Justiça é
compreensão, isto é, abarcar e conciliar os interesses opostos: a
sociedade de hoje e as esperanças de amanhã, as razões de quem a
defende e as de quem a acusa. Mas se o juiz compreendesse tudo,
talvez não pudesse mais julgar: tout comprendre, c’est tout
pardonner. Talvez, para que possa alcançar os limitados objetivos
que nossa sociedade lhe atribui, a justiça necessite, para
funcionar, de horizontes não demasiado vastos e de um certo
espírito conservador, que pode parecer mesquinharia. Os
horizontes do juiz são marcados pelas leis; se o juiz
compreendesse o que há além, talvez não pudesse mais aplicá-las
com tranqüilidade de consciência. É bom que não perceba que a
função que nossa sociedade atribui à justiça é, com freqüência, a
de conservar as injustiças consagradas nos códigos. (pp. 280-281)

As virtudes para desempenhar nossa dura missão de retificar não


são somente aquelas lembradas por JUCID PEIXOTO AMARAL,
citado por JÔNATAS MILHOMENS e GERALDO MAGELA
ALVEZ de honradez, independência, coragem, bondade,
despretensão, amor ao estudo, amor ao trabalho, cultura,
sociabilidade e brandura.

1.2 - ENRICO ALTAVILLA (2003) :

Trancrevemos, a seguir, a abordagem excelente feita por


GETÚLIO MARCOS PEREIRA NEVES (Internet) [
http://www1.jus.com.br/doutrina/texto.asp?id=4259] resumindo
os pontos mais importante da obra A Psicologia do Juiz, de
ALTAVILLA.

As afirmações do famoso criminólogo, jurista e advogado italiano


refletem a realidade da época e do país em que viveu, devendo-se
esclarecer que seu estudo se volta sobretudo para a área criminal.
No entanto, muito se aproveita, com as devidas adaptações e
atualizações e decotada uma certa animosidade contra os juízes:

... o Juiz seleciona o material sobre que deve proferir o seu


julgamento, antes de submete-lo a seu exame. Esta seleção
inconsciente deve-se à personalidade do Juiz, visto só avaliarmos
aquilo que, através da percepção, entrou no domínio da nossa
consciência.
Por isto, observa o autor não raro serem abandonados elementos
importantíssimos, não porque o Juiz os não julgue importantes,
mas porque não fixou sobre eles sua atenção, não os
percepcionando.
Recomenda, então, que a primeira preocupação do Juiz seria a de
registrar, serena e exatamente, os fenômenos externos que lhe são
trazidos no âmbito da causa.
Adiante, aborda os tipos psicológicos[12] dos juízes (vide 3.2 -
DAVID ZIMERMAN):
1) O analítico: para o autor, os altamente analíticos têm uma visão
exata dos elementos que compõem um acontecimento, mas não
sabem graduá-los segundo sua importância, de modo a organizá-
los.
Isto porque dão importância excessiva a detalhes que acabam por
desviá-los de uma síntese compreensiva das circunstâncias mais
importantes. Compreendem, portanto, o conjunto, mas esta
compreensão não se confunde, de forma alguma, com a
capacidade de julgar.
2) O sintético: o exagero do temperamento sintético tende a
generalizar situações, de molde a confundir analogias com
identidades.
O altamente sintético muitas vezes é levado a impressões que não
são resultado dos elementos fundamentais do processo, guiando-
se mais por seu temperamento, sentimentalidade, casos análogos
já julgados, que já revelaram anteriormente a agudeza de sua
crítica.
Assim, prontos a se utilizar de suas idéias para aceitar ou repelir
de imediato idéias ou sentimentos dos outros, descuidam-se de
pontos essenciais, não distinguem o sentimento geral e profundo
do que examinam, e correm o risco de se mostrarem injustos.
Para entender os perfis psicológicos derivados dos dois acima
comentados, introduz o autor a noção de subjetivismo, dizendo
ser a "exageração egocêntrica, que se projeta sobre os próprios
juízos, porque em nenhum homem é possível desencarnar a sua
opinião de sua personalidade, sem infringir a imperiosa lei de
causalidade". Afinal, continua ele, "o julgamento não é produto
do momento, mas é a expressão final da nossa personalidade".
Quer dizer que, no seu exercício de elaboração intelectual, o Juiz
sistematiza, coordena de maneira lógica as idéias, imagens,
percepções. Nesta coordenação, influem obviamente os aparelhos
sensorial e cerebral de cada um. Se esta influência for excessiva,
cair-se-á no subjetivismo.
O subjetivismo é alimentado pela introspecção, que é a tendência
inconsciente que temos, ao proceder a um julgamento, de
fazermos uma comparação entre o nosso pensamento e o que
guiou a ação alheia. Se a introspecção é desejável do ponto de
vista da humanização da decisão, por outro lado tal recurso é
imperfeito, por estabelecer-se uma comparação entre elementos
heterogêneos: o Juiz, quase sempre um homem normal, e o
acusado, quase sempre anormal ou premido por circunstâncias
anormais que determinam sua conduta. [...]
3) O perplexo: provém do analítico e caracteriza-se por um alto
grau de indecisão, que o impede de dar a determinadas
circunstâncias o caráter de prevalência decisiva que devem ter
sobre outras.
É o dubitativo, que não consegue formar, dos argumentos que lhe
são expostos, uma convicção segura a respeito da questão.
4) O generalizador: o espírito sintético tende a generalizar, e
muitas vezes é levado a esquematizar a multiplicidade humana em
fórmulas rígidas, nem sempre justas.
Se por um lado à capacidade de se enunciar uma lei geral da
constatação de um determinado fato, aplicando-se, assim, a uma
classe de indivíduos o que observado em alguns, é das mais altas
expressões da inteligência, por outro o fato de enunciar
intimamente tal lei pode levar o juiz a uma "inércia mental", fruto
de sua experiência das decisões anteriores.
Por exemplo, "o reincidente é sempre culpado": cabe ao defensor
fazer ver ao Juiz que o caso posto a seu exame é diferente do
anteriormente examinado, que o Processo é algo vivo.
Principalmente importante nesse processo é a presença do
acusado, que acaba por chamar sobre ele a atenção do Juiz,
fazendo-o descer da generalização ao caso concreto.
5) O instintivo: da fusão do subjetivo com o sintético resulta o
instintivo. O juiz instintivo deixa-se levar por vagas impressões, a
ponto de julgar um homem antes de estudar as provas contra ele
obtidas e a sua defesa.
O instinto é fator obscuro e poderoso de qualquer julgamento,
principalmente do juiz criminal. No julgamento cível, o julgador
tem presentes apenas elementos intelectivos, sem que
intervenham sentimentos para perturbá-lo.
Já esta perturbação acontece, em maior ou menor grau, no
julgamento penal, onde elementos sentimentais e emotivos dão
uma orientação particular à personalidade do Juiz que procede ao
exame das provas.
Mas o bom Juiz sabe evitar que sentimentos de simpatia ou
antipatia pela pessoa do acusado venham a influenciar na decisão
final da causa.
6) O obstinado: O subjetivismo e a instintividade criam a
obstinação.
Todo homem tem suas próprias tendências e crenças, e suas
condições psicológicas não mudam grandemente quando os
resultados da realidade venham a se opor a elas.
Mas quando se exagera na imutabilidade psicológica a ponto de
se agarrar a uma idéia porque é a "nossa" idéia, surge a
obstinação, que para Altavilla é "uma verdade arbitrária, que
tende a manter-se em oposição com a verdade, unicamente porque
ela está em oposição com a nossa opinião".
O Juiz deve ser capaz de modificações ou realizações de idéias e
pensamentos, conforme o exijam o caso concreto. O obstinado
não é capaz de faze-lo: antes, é levado a forçar o caso particular
para o pôr de acordo com as diretivas de seu sistema conceitual.
7) O misoneísta: é o que tem "espírito de contradição", guardando
muitas afinidades com o obstinado.
O obstinado opõe-se à realidade porque ela é contrária à sua
opinião pré-constituída; já o que tem espírito de contradição opõe-
se a ela apenas por uma questão de antítese: uma atitude
orgulhosa e ofensiva, que se traduz na negação de tudo.
O misoneísmo é o defeito daquele que, geralmente na idade
madura, opõe-se a toda e qualquer novidade. Desconfia de novos
produtos e descobertas científicas, agarrando-se ao passado.
O Juiz misoneísta é aquele tipo de obstinado que sentir-se-ia
humilhado em reconhecer que mudou de opinião, principalmente
após externá-la diversas vezes por meio de sentenças.
8) O desconfiado: do subjetivismo, com certa dose de
instintividade, deriva a desconfiança. Esta desconfiança que se
comenta não é a do tipo saudável, que mantém o homem afastado
do erro, mas a que gera o receio de mudar um ponto de vista,
repudiando pontos de vista contrários.
Principalmente o Juiz é levado a isto, pelo contínuo risco que
corre de ser enganado. Por isto, muitas vezes desconfia de
qualquer prova que, surpreendentemente, possa mudar o curso do
processo.
Por exemplo, há que se desconfiar de testemunhas de defesa
presenciais ao fato e que trazem aos autos versão diametralmente
oposta à apurada desde a fase de inquérito. A saudável
desconfiança, que impedirá de ser enganado, não deve, no
entanto, ser a ponto de fechar arbitrariamente os olhos do Juiz a
uma evidência que se lhe apresente.
9) O escrupuloso: a perplexidade gera o escrúpulo.
O escrupuloso é um sugestionável, que vê sua convicção sempre
abalada pelos argumentos alheios.
É o Juiz cheio de hesitações, que nunca consegue convencer-se
plenamente e, por isto, prefere os meio-termos, as absolvições por
insuficiência de provas e as penas curtas, geralmente suavizadas
por benefícios.
Se o obstinado recusa-se ao esforço de mudar de opinião, o
escrupuloso recusa-se ao trabalho de criticar as opiniões alheias.
Ambas são formas de inércia mental.
10) O intelectual: o Juiz do tipo intelectivo tem a preocupação
principal de dar aos fatos seu verdadeiro significado: é um
rigoroso jurista, árido e freqüentemente severo, que retira do
delito a carga emocional que o cerca, para disseca-lo em todos
seus elementos constitutivos.
11) O emotivo: o Juiz do tipo emotivo, ao contrário, vê o lado
humano dos acontecimentos, enxerga perfeitamente as
circunstâncias emocionais que integram o delito, e portanto tende
para a indulgência.
É raro entre juízes experientes, já calejados pela profissão.
12) O lógico: na mente do Juiz do tipo lógico as idéias associam-
se sistemática e rigorosamente, levados os argumentos às últimas
conseqüências.
Acontece que a lógica refere-se à normalidade, à harmonia,
enquanto que na mente do delinqüente muitas vezes
desenvolvem-se processos anormais de raciocínio, não
alcançáveis, portanto, para este tipo de Juiz.

ALTAVILLA é daqueles que reconhece a influência da


personalidade do juiz nas sentenças:

Esta é, por conseguinte, constituída por um conjunto de relações


coordenadas num sistema lógico, que tende a uma escolha dos
elementos probatórios, deduzindo de um facto, na sua realidade
natural, os elementos necessários à estruturação do crime e das
suas circunstâncias. Nesta escolha, que tende a concretizar uma
hipótese, influi não somente a personalidade do juiz, com as suas
experiências, mas também a interpretação dada pela doutrina e
pela jurisprudência, que, se por um lado favorece o processo
lógico, por outro contém a insídia da confusão, numa inexistente
uniformização de casos heterogéneos. (p. 475)
Para quem confia demais na sua perspicácia vai aqui a lição de
ALTAVILLA:

A realidade tem sempre, portanto, um valor subjectivo e, por


conseguinte, relativo, porque é uma projecção do mundo exterior
que chega ao nosso eu, deformado pelos nossos sentidos e por
todos os nossos processos psíquicos.

Diz ALTAVILLA como se forma a convicção do juiz:

Segundo PLANIOL, o juiz pode chegar a formar à sua convicção:

a) Verificando directamente um fenómeno, uma situação, um


facto material: por ex., o estado de um imóvel. É aquilo a que os
ingleses chamam a evidência imediata ou directa, e que
WIGMORE define com uma expressão dificilmente traduzível:
Autoptic proference, comentando: Res ipsa loquitur.

Esta verificação pode revestir duas formas: examinar uma


situação preexistente, ou reproduzi-la, o que constitui a
experiência judiciária.

Estudaremos dentro em pouco este método. Por agora, limitar-


nos-emos a dizer que ele apresenta o grave perigo de se furtar à
crítica do magistrado de apelação, transformando-se o juiz numa
testemunha que atesta coisas percepcionadas, mas com
afirmações revestidas de uma tal autoridade, que constituem
verdadeiros ângulos mortos para qualquer verificação posterior.

b) Chegando à verdade por meio de raciocínios, deduzindo de


factos conhecidos (indícios) factos ignorados ou contrastantes:
provas indirectas, ou por presunção.

c) Reportando-se à atestação alheia: testemunhas e peritos,


declarações das partes.

Esta exacta distinção deve, porém, ser englobada numa outra mais
geral, a que chamarei: por intuição e por raciocínio.

A intuição, diz DE SANCTIS, “é uma generalização de


observações (experiências subconscientes)”, ou, como diz
POINCARÉ, “é o pressentimento de uma demonstração
aritmética”.

A intuição, precisamente devido a esta sua origem, pode às vezes


dar resultados preciosos, outras vezes criar um uniformismo
perigoso para o juiz. A intuição é, certamente, uma voz que nasce
do inconsciente, no qual se acumulou a nossa experiência e
também a da raça, que, precedendo qualquer processo analítico de
raciocínio, nos faz sentir como deve ter ocorrido um facto. Às
vezes este juízo antecipado cristaliza-se tão potentemente na
consciência do juiz, que não só as conclusões processuais não
conseguirão modificá-lo, mas até ele, inconscientemente, se
esforçará por adaptar esses resultados à sua convicção.

Experiência para o juiz, significa decisão de factos semelhantes


mas não idênticos, o que cria o perigo de uma semelhança poder
fazer com que não se percepcionem aspectos diferenciais e ser
tomada por identidade.

A intuição pode, por isso, ser um utilíssimo instrumento de


justiça, desde que seja logo seguida pela verificação, através do
exame objectivo, do que se apurou no processo. Acrescente-se
que a vulgar intuição não é mais, muitas vezes, que uma
enganadora impressão de simpatia ou de antipatia, que gera um
apressado juízo de inocência ou de culpabilidade. (pp. 480-481)

ALTAVILLA faz um paralelo entre a sentença e diagnóstico


médico:

O juízo do magistrado, embora com maior complexidade de


elementos, recorda o diagnóstico do médico.

Para o diagnóstico existem, porém, sintomas objectivos, cujo


sábio reagrupamento, cuja exacta explicação evitam o erro, ao
passo que a sentença deve, quase sempre, basear-se em factos
íntimos da consciência, que têm de ser descobertos, interpretados
e coordenados, deve utilizar “sintomas” que são sempre
ambíguos.

Há, no entanto, entre diagnóstico e sentença, um aspecto comum:


os erros são determinados, antes de mais nada, por uma errônea e
incompleta visão de conjunto, Assim como o médico, enganado
por um sintoma, polariza a sua indagação para a descoberta de
uma sintomatologia mórbida, que não existe na espécie, e não
observa fenômenos que o teriam levado para o bom caminho,
também o magistrado, em virtude do daltonismo determinado por
uma convicção apriorística, tem uma visão lacunar e unilateral
dos acontecimentos.

Começa, por conseguinte, por ser diverso o material sobre o qual


tem de pronunciar-se um julgamento, em conseqüência da
diferente personalidade do juiz, visto nós julgarmos só sobre
aquilo que, através da percepção, penetrou no domínio da nossa
consciência; ora, como já largamente dissemos, os nossos órgãos
sensoriais têm diferente sensibilidade, conforme as opiniões que
já existem no nosso património intelectual. Efectivamente, a
percepção só é possível se a nossa atenção vier a fixar-se sobre
um determinado acontecimento, ora a atenção é regulada pelo
interesse, é dominada pelas especiais orientações da nossa
mentalidade. De maneira que o juiz trata de seleccionar o material
sobre que terá de emitir o seu juízo, antes de submetê-lo ao seu
exame.

Não é, por isso, raro que elementos importantíssimos sejam


inteiramente descurados, não porque o juiz os não considere
importantes, mas porque, não fixando sobre eles a sua atenção,
não os percepciona.

A sua primeira preocupação deveria, por isso, ser a de registar,


serena e exactamente, os fenómenos externos: e a aptidão para a
serenidade e para a exactidão pode adquirir-se educando o
mecanismo psicológico de maneira a obter-se uma fixação precisa
de tudo o que ocorre no âmbito dos nossos sentidos. (pp. 483-
484)

O julgamento, conforme esclarece ALTAVILLA, é trabalho de


análise e síntese:

Este fenómeno de seleccão acentua-se através dos dois processos


principais que elaboram o julgamento.

“Julgar, dizia PLATÃO, é recordar-se de um mundo inteligível


em que todas as idéias, que entram no julgamento, são
desenvolvidas numa imutável e indecomponível unidade”.

Resume-se neste pensamento o duplo trabalho intelectual que se


conclui com a formulação de um juízo.

Efectivamente, não basta a simples percepção dos


acontecimentos, é necessário que o juiz os analise
inteligentemente, para depois os coordenar naquele trabalho de
síntese que é a sentença.

Toda a vida intelectual se resume a estes dois processos: um de


decomposição e de análise, o outro de assimilação e de síntese.
Todas as impressões que chegam à consciência através dos
sentidos, todas as ideias que acordam em nós, sugeridas pela
conversa ou pela leitura, todos os sentimentos, todas as
impressões que podem fazer nascer ou guiar até ao nosso
conhecimento as nossas relações com o mundo exterior e os
nossos contactos com os outros homens, todos os fenómenos
psíquicos, numa palavra, passam, mais ou menos, por estes dois
processos de elaboração.

A análise realiza-se “pelo funcionamento espontâneo ou directo


da reflexão, das ideias, das tendências já organizadas, dos hábitos
já adquiridos, que separam e isolam, nos factos novos que se
apreendem, os elementos que podem adaptar-se a eles e completá-
los”.
Este trabalho de seleccão, com finalidade específica, que é a
averiguação de especiais circunstâncias, tem um valor inibitório
para a espontânea apreensão de todos os elementos que se
mostrem estranhos a tal indagação.

O que já notámos em relação às simples percepções, repete-se


neste fenómeno mais complexo. Dêmos um exemplo: são
acusados três irmãos de haverem, em conjunto, cometido um
homicídio; o juiz persuade-se de que o elemento processual
decisivo e a averiguação do número de tiros que foram ouvidos
no momento em que se consumava o crime, mas não se dá conta
da importância que pode ter averiguar a presença de caçadores
nas redondezas e não se da ao cuidado de verificar ou aprofundar
esta circunstancia. Consegue, assim, assegurar-se de que houve
vários tiros, pensando ter cumprido a sua missão; por isso, quando
a defesa apresenta a tese de alguns dos tiros ouvidos pelas
testemunhas terem sido desfechados por um dos caçadores, ele
não conseguirá formular um juízo com serenidade.

Por conseguinte, como já recordei, neste trabalho de selecção


manifesta-se um grave perigo, porque o juiz vira a dispor, para a
sua síntese final, não dos elementos mais importantes, mas
daqueles que pareciam sê-lo, quando lhe faltava ainda aquela
visão de conjunto, a única que podia permitir uma exacta
valoração.

E isto agrava-se mais quando toda a indagação se polarizou de


acordo com uma versão do acontecimento, descurando-se outras
interpretações importantes.

Cada individuo dá uma diferente orientação a um complexo de


imagens e de percepções, do que deriva que os mesmos
elementos, diversamente coordenados, possam dar lugar às mais
diversas convicções.

Em cada processo há um episódio, uma opinião expressa por uma


testemunha, por um acusado, por um perito, uma circunstância
genérica, ou outra coisa qualquer, que se torna, para o juiz, o
centro, à volta do qual se orienta toda a massa probatória:
acontece, naturalmente, que os elementos que têm maior
afinidade com o centro são postos em evidência, ao passo que os
outros se conservam na penumbra, descurados, e dessa maneira,
factos importantíssimos podem manter-se afastados, por não
haverem sido julgados dignos de qualquer consideração. Imagine-
se que um processo, assim orientado, passa para as mãos de outro
juiz, que não sofra a sugestão de uma opinião que está
materializada em cada página do processo, e que dê a uma das
circunstâncias desprezadas um valor fulcral: logo todo o processo
começará a modificar-se, de modo a dever, necessariamente,
determinar uma diferente convicção.

Um exemplo esclarecerá o meu pensamento.

Ocorre um homicídio, encontra-se um móvel arrombado, no qual


faltam dinheiro e alguns documentos; três testemunhas exprimem
três convicções diferentes: a morte foi para roubar o dinheiro; a
morte foi para roubar os papéis; roubou-se para enganar a justiça
acerca do verdadeiro móbil do homicídio, e eis que, conforme o
juiz se convença com a opinião de uma ou de outra, o processo
poderá seguir três orientações tão diferentes, fazendo-o descurar
gravíssimos elementos de prova.

Esta orientação, ao mesmo tempo que é uma inelutável


necessidade psicológica, representa um perigo que não devemos
esquecer, porque tira ao juiz grande parte da sua serenidade de
apreciação, visto que ele é, instintivamente, levado a acreditar em
tudo aquilo que reforça a sua convicção e a não crer em todos os
demais elementos processuais, que perturbem a sua interpretação.

É profundamente exacta uma observação de PREZZOLINI: “Uma


pessoa que já tem em mente ‘como se devem ter passado as
coisas’, acreditará, por orgulho, mais na mentira que lhe da razão,
do que na verdade que lha nega, e preferirá ser enganada, a ver
ofendido o seu amor pr6prio”. Isto é também reforçado por um
sentimento de preguiça da parte do magistrado. Um instrutor que
seguiu uma especial orientação mental seria constrangido a
renovar grande parte da instrução, se viesse a mudar a sua
convicção. Quantas perguntas são feitas, ou não o chegam a ser, a
acusados e a testemunhas, conforme o juiz haja aceitado esta ou
aquela versão?

Concluindo, direi que o magistrado deve procurar ter uma


impressão de conjunto, descendo a uma análise, para lhe poder
penetrar os caracteres simples que dela são a condição
determinante. “Toda a arte da experiência - disse FLOURENS -
está em descobrir factos simples”, o que significa que a análise
deve tender a uma simplificação, da qual jorra a síntese, como
resultante lógica dos elementos essenciais ao juízo. (pp. 484-487)

ALTAVILLA comenta sobre a integração psicológica do


processo:

Dizia BOSSUET: “É justo não só aquele que julga, mas também


aquele que justifica”. Justificação significa compreensão piedosa,
que exige, da parte do magistrado, uma aptidão prevalente: saber
penetrar na alma do réu, descobrir os verdadeiros motivos do
crime, de modo a poder reconstituir em que condições psíquicas
ele foi cometido, e saber fixar, com aproximação, em que medida
contribuíram o organismo psico-ético e a ocasião, de maneira a
transformar a sentença numa sabia diagnose, que justifique a
medida defensiva, como um adequado meio terapêutico. Deve
portanto, direi com FRANCHI, “integrar antropologicamente o
processo”.

Para o fazer, deve dispor de um sentido psicológico, que os mais


perfeitos silogismos não podem substituir. A intuição é mais útil
que o espírito geométrico. É mais com a intuição, do que com o
raciocínio, que se perscruta um pensamento e se aprecia um
individuo.

Este sentido psicológico torna possível a integração psicológica,


que significa “o sistema pelo qual à magistratura inquirente é
também confiada a missão de investigar os caracteres pessoais
(anamnesia, fisiologia, psicologia, ambiente, condições
econômicas) do individuo, quer pela utilidade imediata que o
conhecimento desses caracteres tem para a instrução geral, e mais
ainda para a instrução especial (exercida, no entanto, com
moderação conveniente, também em relação ao testemunho), quer
para a mediata utilidade do desenvolvimento do processo oral, nas
suas decisões e, sendo necessário, na execução da sentença”.

É esta a principal virtude do magistrado: de que serve que ele


saiba descobrir num facto a aplicabilidade desta ou daquela
disposição da lei, se a personalidade do réu continua a ser para ele
um impenetrável enigma?

A sala do tribunal não é uma academia, mas uma clínica social; o


crime não é um facto a catalogar, mas a aberração de uma
personalidade humana, que é preciso explicar, emendar ou
imunizar. O magistrado deverá conhecer essa personalidade, com
os seus erros, com as suas anomalias, com as suas deformações,
com as suas doenças. E não deverá nunca deixar de escrutar os
cantos mais recônditos, mesmo quando o crime pareça
completamente justificado por uma causa, porque a indagação
poderá revelar-lhe que ela foi apenas a ocasião, não sendo, por
isso, mais que uma causa aparente.

Mas, para ser capaz de uma função tão delicada, precisa de ter
uma cultura completa de psicologia criminal, de psicologia
judiciária e de sociologia criminal, porque é realmente estranho
que, enquanto o educador, o medico, o artista, e até o
comerciante, começam a compreender os serviços preciosos que
lhes pode prestar a psicologia aplicada, só os juristas e os
magistrados, encerrados nas suas torres de marfim, pretendem não
se importar com a psicologia, porque pensam que “o seu instinto
judiciário é capaz de suprir todas as necessidades”. (MOORE)

1.3 - PHILIPPE BECARD (Internet)

[mensagem transmitida via correio eletrônico]:

Trata-se de uma visão crítica da magistratura francesa:


[...] se há um país em que pode-se caracterizar UMA psicologia
do juiz, é possivelmente a França... Pois, como sabeis, existe uma
via de acesso principal à magistratura de ordem judiciária: o
concurso da ENM, em que é sempre um mesmo perfil alcança
aprovação no referido concurso (se minha memória está boa,
houve uma época em que as pessoas que conseguiam sucesso no
concurso eram na sua maioria pessoas que tinham diplomas
duplos de Mestrado em Direito Privado _ Ciências Po IEP e
sobretudo os estudantes de Paris). Como sabeis, esse concurso
permite o acesso a uma Escola - a escola Nacional da
Magistratura em Bordeaux, - única escola na França para a
formação de magistrados judiciários - ou seja, os juízes de ordem
judiciária franceses têm todos as mais das vezes uma trajetória
semelhante e são então quase todos um tanto fabricados na
mesma forma... poder-se-ia então calcular que funcionar todos um
pouco da mesma maneira [...]

Fica a indagação, qual o melhor modelo: um Judiciário onde os


juízes são iguais demais (estilo francês), ou diferentes demais
(estilo brasileiro)?

1.4 - UMBERTO FIORE

Falando da magistratura italiana na sua época afirma a


insuficiência da cultura estritamente jurídica (1914:83-85):

Uma aplicação completa e profícua das normas que a psicologia


judiciária nos sugere não pode conceber-se desde que se prescinda
de uma radical renovação da consciência e da educação
profissional da magistratura.

Hoje na educação academica e profissional do magistrado


predomina a preocupação da cultura juridica. O magistrado tem
principalmente em atenção delinear com a máxima perfeição a
configuração técnica e jurídica do crime. Obséca-o a mania de ser
impecavel na classificação de uma determinada ação criminosa e
na aplicação das respectivas normas de processo. Verdade que
para assim proceder tem o incentivo sobretudo no codigo e nas
leis penaes, de cuja dição e espirito não se pode desprender; mas a
sua educação inteletual moderna leva-o a exagerar essa tendencia.
Diariamente assistimos ao deslizar de rios de tinta, que correm a
encher folhas de papel no intuito de precisarem a linha divisoria
de dois crimes, de compendiarem todos os elementos da lesão
juridica.

Certamente não pode pretender-se que a cultura do magistrado


seja pobre de noções de direito. Sendo chamado á aplicação de
uma norma legal, o magistrado não pode ignorá-la, nem os seus
precedentes historicos, a sua razão de ser filosofica e as normas
de legislação comparada que a ela se ligam ou dela se afastam,
como ignorar não pode a jurisprudencia que a essas normas
respeita. Mas o que com direito se pode negar ao magistrado é
que, se a cultura juridica deve constituir um capitulo importante
da sua educação intelectual, esta não pode unicamente restringir-
se á cultura do direito.

Hans Gross, que na sua longa e afortunada carreira de juiz


instrutor, auxiliado por uma imensa cultura criminologica e pela
paixão severa e sincera da finalidade do seu oficio, teve ocasião
de verificar quão larga deva ser a corrente dos estudos necessarios
a alimentar a educação profissional de um juiz. No seu ultimo e já
celebre volume de "Policia judiciaria", demonstra-nos como uma
serie de pequenos conhecimentos de diversas ciencias resultam de
maior auxilio ao magistrado do que uma abundancia de
conhecimentos juridicos.

Linhas adiante fala que noções de Psicologia são conhecimentos


importantes para os juízes.

2 - O JUIZ NA VISÃO DOS JUÍZES

2.1 - CYRO MARCOS DA SILVA (2003:75):

Julgar é sempre pensar (não se julga sem pensar, é o que se


espera). Não é porque julga ou porque pensa, que terá acesso
garantido à verdade. É estranho dizer isto, mas julgar e pensar não
são dependentes da verdade. Considerações de verdade não são aí
levadas em conta. Ora, um pensamento ou julgamento pode ser
verdadeiro ou falso. O engano está sempre por aí, valendo no
julgamento, na sentença, tanto quanto uma suposta verdade, isto
é, valendo como ficção.

Mais adiante mostra que o ideal da neutralidade é uma utopia:

Ao julgar, o juiz que sempre só julga em causa alheia, não tem


como escapar da sua própria causa, da sua própria história de
vida, de suas questões particulares, da ética do inconsciente como
texto. Em cada juiz, como em cada um de nós, um Édipo é
convocado perante o enigma de uma esfinge. Daí a neutralidade,
decantado o ideal, será um ideal impossível. (p. 84)

3 - O JUIZ NA VISÃO DOS PSICÓLOGOS E


PSICANALISTAS

3.1 - LÍDIA REIS DE ALMEIDA PRADO

Em 2002:43, faz referência aos trabalhos de autores integrantes


do "realismo americano", que analisam os reflexos sobre a
sentença dos predicados do psiquismo do julgador. Relaciona
alguns juristas que admitem a influência do psiquismo do juiz na
elaboração do Direito: Luis Recaséns Siches, Joaquim Dualde,
Karl Llewellyn e Jerome Frank, dizendo que este último diz que:

... o Direito adquire realidade, não devido à exclusiva


interpretação de velhas regras abstratas, mas também pela ação de
seres humanos concretos, cuja mente funciona como a dos demais
seres humanos. Para ele, um aspecto fundamental na sentença,
embora não o único, é a personalidade do juiz, sobre a qual
influem a educação geral, a educação jurídica, os valores, os
vínculos familiares e pessoais, a posição econômica e social, a
experiência política e jurídica, a opinião política, os traços
intelectuais e temperamentais. De acordo com essa visão, seria
possível controlar as indevidas influências desses fatores – se
forem inconscientes – através da boa disposição que os juizes
tiverem para se auto analisarem. (pp. 43-44)

Mais adiante afirma:

... apesar do avanço da Psicologia nos últimos cem anos, a


educação no Ocidente, de modo geral, ainda se limita ao
conhecimento da realidade externa, em detrimento do universo
interior do indivíduo, que é sempre excluído. Porém, é no
convívio com nosso mundo interno e suas divergências que
vamos adquirindo meios para o entendimento das discrepâncias
exteriores. O juiz tem uma função que atinge aspectos
importantes da vida individual e social. Entretanto, como
qualquer pessoa, não está imune ao seu inconsciente. Assim, é
inadmissível, numa época em que não mais se questiona a
importância dessa instância do psiquismo, que o órgão judicante
continue adotando, nos concursos públicos, apenas critérios
formais de seleção, numa reprodução do modelo do ensino
universitário, de caráter legalista e acrítico. (pp. 46-47)

Diz que

o juiz racional-emocional poderá ser um parâmetro na formação


de julgadores do século XXI. (p. 48)

Mais adiante:

a inexistência do sentimento pode comprometer a racionalidade.


(p. 51)

Cita DANIEL GOLEMAN, que no seu livro “Inteligência


emocional” diz que

a emoção – e não só o intelecto - , pode dar a verdadeira medida


da inteligência humana. (p. 51)

Menciona DOMENICO DE MASI, autor de “A emoção e regra”,


o qual diz que a criatividade

é filha do equilíbrio delicado entre razão e emoção, fantasia e


senso prático. (p. 51)

Refere-se a LUÍS FERNANDO COELHO, para quem

a metodologia jurídica passou a considerar motivações irracionais


que interferem no processo decisório (assim como na elaboração
das leis), inclusive pendores emocionais do juiz e do legislador.
(p. 51)

Em 2003:302-304 analisa a questão da neutralidade e da


imparcialidade dos juízes, expondo a tese de JEROME FRANK:

Esse autor ressaltou o caráter criador da sentença, bem como a


importância, na decisão, da pessoa do magistrado e de seus
conteúdos internos. Jerome Frank desmistificou a neutralidade do
juiz, de uniformidade e generalidade do direito, bem como o de
segurança jurídica absoluta.

No livro Law and the Modern Mind, de que farei uma síntese, o
autor analisa a ordem jurídica positiva e estuda a influência do
magistrado na criação do direito.

Nesse livro, Frank afirma que não existe certeza, ou segurança do


direito, na fase de sua aplicação. Para ele, nas sociedades
complexas, as decisões jurídicas apresentam um caráter plástico e
mutável, com a formalidade de amoldarem-se às circunstâncias da
vida social. Pensa ser essa incerteza a responsável pelo progresso
do direito. Cita casos em que a alteração da composição de uma
Corte, em razão da morte ou aposentadoria de algum de seus
interesses, ocasiona uma mudança de decisão.

De acordo com o autor, o anseio de uma excessiva estabilidade


jurídica não surge de necessidades práticas, mas do desejo de algo
mítico. É interessante – prossegue – que as pessoas não se
surpreendam com as alterações jurídicas por via legislativa, mas
se assustem com a falta de previsibilidade dos juízes. Buscam a
segurança no substituto do pai no “Juiz Infalível”, o qual vai
determinar, de modo seguro, o que é justo e o que é injusto.

Para essa falácia da total certeza jurídica colaboraria, também, a


tendência humana de fugir das realidades inquietantes ou
desagradáveis e refugiar-se na ilusão de um mundo perfeito.

Segundo Frank, as normas gerais consistem em apenas um dos


ingredientes presentes na sentença. É que, enquanto o juiz não se
pronunciar sobre um processo, não se pode afirmar que se tenha
ou não direito sobre o objeto da ação. Portanto, o direito
aperfeiçoa-se, adquire realidade, não devido à exclusiva
interpretação de velhas regras abstratas, mas também pela ação de
seres humanos concretos, cuja mente funciona como a dos demais
seres humanos.

Um aspecto importante na sentença, embora não o único –


ressalta o autor -, é a personalidade do juiz, sobre a qual influem a
educação geral, a educação jurídica, os valores, os vínculos
familiares e pessoais, a posição econômica e social, a experiência
política e jurídica, a filiação e opinião política, os traços
intelectuais e temperamentais. Pode controlar as indevidas
influências desses fatores, se forem inconscientes, a boa
disposição que os juízes tiverem para se auto-analisarem,
adquirindo consciência de cada um deles.

É evidente que a uniformidade e a certeza do direito se debilitam


na medida em que as personalidades de todos os juízes não são
idênticas, e na medida em que os juízes não têm iguais hábitos
mentais e emocionais. Jerome Frank não esconde que essa
circunstância seja desagradável, mas assinala que a uniformidade
levaria a conseqüências muito piores, pois implicaria escolher
para a judicatura pessoas pouco talentosas, de mente rígida,
estereotipada, predispostas a ignorar os matizes individuais de
cada caso.

O mencionado autor entende que os juízes usam a intuição ou


sentimento na escolha das premissas que embasarão a sentença.
Todavia, não esquece a importância do fato de que as normas, os
princípios jurídicos nelas contidos, os precedentes
jurisprudenciais, os valores gerais contribuem para a formação
dessas intuições. E, diante da questão da escolha entre diferentes
princípios igualmente válidos, tem primacial importância a
personalidade do magistrado.

E em razão da tradição formalista, os julgadores omitem o


verdadeiro modo como raciocinam ao decidir, ou seja, como
meros seres humanos, ainda que conhecedores do direito. Ora, os
homens pensam, comumente, sem o uso do silogismo, mas
raciocinam partindo das conclusões para as premissas. Além
disso, explica que os fatos nunca são observados diretamente pelo
juiz, que tem deles um conhecimento indireto, através dos
depoimentos das testemunhas, da análise dos documentos, das
opiniões dos peritos etc. Destaca que o juiz, ao analisar um
depoimento, deixa-se influir, inconscientemente, por fatores
emocionais de simpatia, de antipatia, que se projetam sobre as
testemunhas, os advogados e as partes.

As experiências anteriores do julgador também podem acarretar


reações inconscientes favoráveis ou desfavoráveis a respeito de
mulheres ruivas ou morenas, homens com barba, italianos,
ingleses, padres, médicos, filiados a determinado partido político,
por exemplo. Esses preconceitos, que podem ser involuntários ou
inconscientes, afetam a mem6ria ou a atenção do julgador e
influem sobre a credibilidade das testemunhas ou das parte.

É necessário observar uma vez mais que Jerome Frank reconhece


o valor das normas jurídicas gerais, que cumprem uma função
relevante. Nega, porém que o direito efetivo produzido pelos
tribunais consista exclusivamente em conclusões tiradas das leis,
devendo ser também considerada a influencia da personalidade do
juiz na produção da sentença.
Dentro dessa ordem de idéias, creio pertencer ao passado a idéia
de um magistrado neutro e, portanto, alheio ao litígio, como se o
desfecho da ação não decorresse, necessariamente, de sua
intervenção efetiva no caso levado a julgamento. Mesmo porque
as rápidas mutações da nossa época exigem do Poder Judiciário
um constante diálogo com a sociedade. É também ultrapassada a
concepção de um juiz indiferente ao resultado da causa e sem
qualquer preocupação com o alcance da justiça. O magistrado
empenhado em bem exercer sua profissão, que tem a virtude da
prudência, não pode ficar indiferente ao resultado da contenda e
alheio à busca em cada caso.

3.2 - DAVID ZIMERMAN (2002):

O auto-conhecimento exige um mergulho profundo na nossa


própria história, repassando-a serenamente desde os primeiros
anos de vida para descobrir-lhe os claros e escuros:

Atualmente a psicanálise está emprestando um papel de suma


importância às experiências emocionais acontecidas durante o
desenvolvimento emocional primitivo, numa época em que o
bebê ainda se imagina fundido com a mãe, portanto sob a égide
do narcisismo, ou seja, a criança, ou o futuro adulto que estiver
fixado nesta etapa arcaica, não consegue estabelecer uma
diferenciação entre ela e as pessoas do mundo exterior, e mantém
a crença ilusória de que o mundo é que gira em torno delas, e não,
obviamente, o contrário, dentro das leis da realidade.

Este período evolutivo primitivo também merece uma especial


importância porque o não suprimento das necessidades básicas do
bebê, pela falha da função de uma maternagem suficientemente
boa, pode formar vazios interiores, que mais tarde vão se traduzir
em patologias bastante regressivas. (p. 91)

DAVID ZIMERMAN afirma que o nosso inconsciente é atuante e


incisivo nas nossas ações:

Certamente, a maior contribuição de Freud foi ter dado uma


dimensão científica e aprofundada sobre a existência de um
inconsciente ativo, coisa que os antigos filósofos cogitavam, mas
não passaram de meras especulações fortuitas. O grande lema da
psicanálise, durante muito tempo e ainda hoje parcialmente
válido, era “tornar consciente tudo aquilo que for inconsciente”.

Na verdade, o inconsciente comanda a vida da espécie humana


muito mais do que, a uma primeira vista, possa se imaginar. Para
esclarecer essa afirmativa, vamos a uma metáfora, empregada por
Freud com um iceberg, no qual a parte visível dessa montanha de
gelo pode ser comparada ao nosso consciente, no entanto, a parte
oculta, equivalente ao inconsciente humano, é muitíssimo maior e
é justamente onde os navios se espatifam, assim como os
psicóticos, psicopatas e neuróticos comandados por graves
conflitos inconsciente podem espatifar as suas vidas e as dos
outros.

O inconsciente funciona como uma usina geradora de pulsões,


porque nele habita o id, a um mesmo tempo em que também
funciona como um lugar que serve como sede e abriga os
recalcamentos, isto é, as repressões de tudo aquilo que o
consciente não tolera. (p. 93)

Nessa rememoração, diz DAVID ZIMERMAN,

... é de fundamental importância que o sujeito desenvolva uma


capacidade dialética consigo mesmo, ou seja, que estabeleça um
diálogo entre a sua parte infantil com o seu lado adulto, a parte
sadia com a doente, o consciente com o inconsciente, o seu
narcisismo com o socialismo, e assim por diante, englobando os
diversificados núcleos que foram se formando ao longo de sua
evolução psicossexual. (p. 98)

O papel do analista tem semelhanças com o trabalho do juiz:


... vai muito além de ser meramente um bom decodificador e
interpretador de conflitos psíquicos, protegido por uma
neutralidade absoluta, como era na época pioneira da psicanálise.
Na atualidade, ganha uma expressiva relevância a pessoa real do
analista e não unicamente, como era praxe, ele não sendo mais do
que uma constante pantalha transferencial onde seriam revividos
os antigos conflitos dos pacientes.

Assim, principalmente levando em conta que o terapeuta também


se constitui como um novo modelo de identificação para o
paciente, importa bastante se ele reúne, ou não, autênticos
atributos de continência, empatia, intuição, paciência,
consideração, a forma de como articula os pensamentos, de como
enfrenta situações angustiantes, de como lida com as verdades,
como escuta e comunica; se ele tem sensibilidade para perceber
os vazios existenciais de certos pacientes e consegue suplementa-
los; se, de fato, é uma pessoa verdadeira, que acredita e gosta de
seu trabalho ou que simplesmente está burocraticamente bem
cumprido a sua tarefa, etc., etc.

Nos dias atuais a psicanálise está saindo da sua torre de marfim


onde ficou encastelada durante longas décadas; assim, não é mais
possível conceber que ela se mantivesse auto-suficiente e apartada
de outras disciplinas e do público em geral. (p. 100)

A influência dos fatores psicológicos inconscientes na decisão


jurisdicional é decisiva:

... os aspectos subjetivos, ou seja, o fato de que a capacidade de


julgar a realidade exterior depende diretamente de como é o juízo
crítico de cada pessoa em relação ao seu mundo interior. [...]

A formação do juízo crítico depende de uma série de fatores –


conscientes e inconscientes – dos quais, aqui, vamos considerar,
separadamente, os seguintes: os valores impostos pelo Superego;
as funções do Ego, como as de Percepção, Pensamento e
Discriminação; o processo de Identificação; os tipos básicos de
Personalidade e a Ideologia pessoa do juiz.
Superego

Participação do Superego, que resulta de como, desde as mais


precoces etapas evolutivas, internalizamos os códigos de valores,
regras e expectativas de nossos pais, educadores, autoridades,
veículos de comunicação, etc. Se toda a educação de um
determinado indivíduo, desde criancinha, tiver sido baseada em
valores maniqueístas do tipo: pode ou não pode; deve e não deve;
prêmio ou castigo; certo ou errado; bom ou mau; gosto de ti
versus não gosto, etc., é inevitável que, quando for adulto, ele se
sentirá policiado, tanto internamente quanto externamente, por um
superego do tipo exigente, punitivo e controlador. Como
decorrência, este indivíduo será modelado por estes valores, e será
através desta óptica que ele julgará aos demais e sentir-se-á
julgado pelos outros.

Percepção

Constitui-se como a óptica com a qual percebemos o mundo


exterior, a qual, conforme o que foi antes destacado, depende
diretamente de como visualizamos nosso mundo interior. Cabe
exemplificar com uma analogia simples: a olho nu, a parede de
uma determinada sala é, por exemplo, de cor branca e, assim, ela
está sendo percebida por todos os presentes; no entanto, se
alguém olhá-la com óculos escuros, poderá jurar que, em sua
percepção, a cor da parede é negra; se as lentes forem azuis ele
verá tudo azul e assim por diante. Da mesma forma, vamos
imaginar uma pessoa caminhando tranqüilamente na rua, até que
alguém, por zombaria, lhe diga que seu rosto está coberto por
manchas feias. É muito provável que, daí em diante, ele passe a
perceber em todos os passantes que o fitarem, atitudes de crítica
ou deboche, e isso vai se prolongar até que encontre um espelho e
tudo volte à normalidade anterior. A percepção que o sujeito tem
dos outros, será tanto mais distorcida quanto mais paranóide for a
estrutura da sua personalidade.

Percepção paranóide
O termo paranóide, acima mencionado, merece uma maior
consideração. A própria etimologia da palavra (composta de para
e gnose) se processa à margem (para) da realidade. Trata-se de
um transtorno da função do pensamento. Dessa forma, é
importante sublinhar o uso do mecanismo defensivo inconsciente
da projeção, através da qual o sujeito atribui como pertencendo a
um outro aqueles pensamentos, sentimentos e intenções que ele
não consegue assumir como seus próprios, por lhe serem
desagradáveis e intoleráveis. Dizendo com outras palavras, o
sujeito identifica (a morfologia deste verbo é ficar idem, ou seja,
tornar idêntico) os outros à sua imagem e feição, e os julga como
tal. Um exemplo banal disso: no jardim zoológico, o menino
trêmulo diante da jaula do leão, puxa o pai pelo braço e exclama;
“pai, vamos embora porque tu estás com medo”. Ou, como
possibilidade recíproca, é o pai quem diz isso para o filho diante
da montanha russa de um parque de diversões...

Parte 2 (continuação)

Identificações

Nos exemplos acima, é fácil encontrar como, através de um jogo


de projeções, podemos identificar aos outros como uma extensão,
uma cópia de nós próprios. É importante fazer uma ressalva: o
uso dessas projeções, que no jargão psicanalítico levam o nome
de identificações projetivas, nem sempre é prejudicial, e somente
será patogênica se for usada em doses excessivas. Pelo contrário,
esses mecanismos projetivos e introjetivos fazem parte da
evolução normal de qualquer pessoa e, quando utilizados em
doses adequadas, propiciam a capacidade de formar identificações
boas e sadias, nos casos em que exista uma admiração pelo
modelo com quem estão se identificando. É útil que se faça uma
distinção entre admiração excessiva idealização, porquanto se
trata de dois sentimentos de significados bem diferentes em sua
essência embora observem uma semelhança na aparência. Se as
figuras parentais com quem a criança estiver fazendo suas
identificações são sentidas por ela como desqualificadas,
desprezadas, odientas..., as identificações serão patogênicas, e a
possibilidade de, no curso de sua vida, vir a fazer projeções
paranóides aumenta bastante.

Empatia

Desta forma, a capacidade de empatia – muito importante nas


funções de Comunicação e de Julgamento – resulta diretamente
dessa possibilidade de uma pessoa poder se identificar, isto é, de
se pôr no lugar do outro, e de sentir junto com ele, e não por ele.
A textura da palavra empatia (em + patia) sugere claramente essa
condição de poder sintonizar, de entrar dentro (em) do sofrimento
(pathos) do outro. Empatia guarda, pois, uma significação
profunda, e não deve ser confundida com simpatia, que se refere a
uma atitude de superficialidade e que visa, sobretudo, a agradar e
ser agradado, ou, mais fundamente, a de não decepcionar.

Discriminação

Outro fator importante na capacidade judicante e a capacidade de


se fazer discriminações. Discriminar significa o contrario de
confundir, ou seja, a faculdade de o sujeito reconhecer, e de
separar, os diferentes estímulos e respostas, o que é dos outros e o
que provém dele próprio. Dessa forma pode-se dizer que uma
perturbação na função de discriminar possa resultar em um in-
discriminado uso abusivo do ato de in-criminar ou de re-criminar,
por parte do Juiz, às pessoas que ele estiver julgando.

Vamos figurar uma hipótese: devo julgar um homem acusado de


ter agredido a sua esposa, em uma briga de casal. A minha atitude
interna diante dessa situação específica pode ser alternante: tanto
posso me manter neutro (não é o mesmo que indiferente), como
posso me identificar, conforme os meus conflitos internos, tanto
com o agressor, quanto com o agredido, ou simultânea e
alternadamente com ambos. Se, por exemplo, a briga deste casal
estiver ressoando em meu inconsciente o registro das brigas que
meus pais tiveram, ou as minhas próprias brigas, o mais provável
é que eu, inconscientemente, tomarei um partido, o da vítima por
exemplo e, como se fosse ela, sentirei a sua dor e indignação.
Essa identificação com a vítima pode ser boa - possibilita uma
empatia -; porem, se ela for excessiva, me levará a um impulso de
retaliação na base de “dente por dente e olho por olho”, como,
aliás, está implícito na própria etimologia do verbo retaliar: re (de
novo, e mais uma vez) + foliar (aplicar a lei de Talião). (pp. 103-
106)

DAVID ZIMERMAN analisa os perfis caracterológicos dos


juízes (vale a pena comparar com os de ALTAVILLA, no ítem
1.2):

Este aspecto se constitui como um fator importantíssimo para a


função judicante. A caracterotogia de qualquer pessoa é resultante
do uso predominante de determinados mecanismos defensivos
que ela utiliza desde a infância. não só como um meio de se
defender das pulsões instintivas e das ameaças punitivas do
superego, como também para a sua adaptação a realidade do meio
em que vive. Os traços caracterológicos mais marcantes
determinam os mais diferentes tipos de personalidade, os quais,
em linhas gerais, são os dez seguintes tipos: personalidade
depressiva; paranóide; maníaca; fóbica; obsessivo-compulsiva;
esquizóide; psicopática; personalidade falsa (ou como se); e de
tipo narcisista. Segue uma descrição sumaríssima de cada um
deles.

Assim, uma personalidade fortemente depressiva. enxerga o


mundo sob a óptica das lentas negras do pessimismo e o seu juízo
de valores será baseado em uma auto-desvalia. O sujeito muito
depressivo, no fundo de seu inconsciente, abriga indefinidos
sentimentos de culpa e fantasias de que ele é co-responsável pelos
males e tragédias dos outros e, por essa razão, o juiz, com essas
características depressivas, terá sérias dificuldades em, por
exemplo, vir a condenar alguém.

Estes aspectos depressivos podem fazer com que o magistrado


confunda os seus positivos sentimentos de consideração pelo
sofrimento de uma das partes que ele está julgando, com um
sentimento de pena, como piedade. Aliás é interessante registrar
que a palavra grega poiné deu origem à palavra latina poena, de
ambas derivando os vocábulos pain em inglês e pena em
português, todas elas significando tanto dor, sofrimento, quanto
castigo, punição.

Essa dupla significação demonstra a ultima conotação que existe


entre sentir pena. (no bom sentido, como sentimento de
consideração e empatia pelo outro) e aplicar a pena (pode ser
sentida como sendo a aplicação de um castigo).

Se não houver uma adequada discriminação entre ambas penas, a


função judicante pode ficar comprometida.

Se a personalidade do julgador for, basicamente, do tipo


paranóide o mais provável é que ele estará sempre, desconfiado,
melindrado e querelante, sendo que, pelo fato de que se mantém
em uma constante posição defensiva, contra-ataca com atitudes de
aparência agressiva.

Freqüentemente exerce o conhecido papel criador de casos. Outro


possível prejuízo é o de não tomar uma decisão que prejudique
alguém que ele imagina que possa vir a persegui-lo, como
vingança.

O sujeito de personalidade maníaca costuma reverter tudo a um


oba-oba de otimismo exagerado e dá um toque acelerado,
superficial e jocoso a tudo o que ele faz e diz. No fundo, ele está
fugindo de uma depressão e, por isso, as suas lentes são cor de
rosa, e o seu juízo de valores será de natureza grandiosa e
superlativa. No entanto seu humor é muito instável diante de
qualquer frustração, a sua manifesta alegria se transforma em ira.

Personalidade esquizóide caracteriza aquelas pessoas muito


arredias e que costumam ser reconhecidas pelos outros como
sendo esquisitas. Uma atitude esquizóide pode aparentar como
sendo a de um desdém indiferente ou até arrogante em relação aos
outros, mas na verdade está encobrindo um ensimesmamento,
devido às suas sérias dificuldades de relacionamento, em razão de
uma excessiva timidez e medo de ser rejeitado.

A personalidade fóbica caracteriza-se. principalmente, pelo fato


de o sujeito utilizar uma óptica em que as lentes tem a cor do
medo, de modo que ele ajuíza os valores pelo critério de perigo
que ele imagina existir em certas situações, de sorte que ele
desenvolve táticas para evitar entrar em contato com elas. Por
essa razão, a pessoa fóbica torna-se especialista na arte de tirar o
corpo fora através dos múltiplos recursos de evitação (para
exemplificar: nos casos mais exagerados, de neurose fóbica
propriamente dita, o sujeito pode evitar o elevador, ou viajar de
avião, etc., etc., que representam ser os lugares simbó1icos onde o
fóbico deslocou certos temores inconscientes seus). Uma
característica comum nas personalidades fóbicas é que eles
desenvolvem estratégias de muito bem dissimular os seus temores
que, não obstante reconheçam como medos irracionais, não
conseguem dominá-los, e a saída é fugir daqueles lugares e
situações que os angustiam e os ameaçam de uma tragédia. É fácil
imaginar o desgaste de alguém que tenha fortes características
fóbicas, em se comprometer com uma delicada decisão judicante.

Os traços obsessivos, em doses adequadas, compõem uma


personalidade sadia porquanto eles determinam as atitudes de
disciplina, ordem, parcimônia e seriedade. No entanto, o uso
exagerado da obsessividade toma o julgador uma pessoa
implacável e radical. Ele fica, então, sem um mínimo. Ele fica
flexibilidade e costuma perder-se num detalhamento inútil e, pior
ele acredita estar sendo o único, ou o mais honesto e capaz entre
os demais. O juízo de valores dos obsessivo-compulsivos
(obsessivo refere-se aos pensamentos, e compulsivo aos atos) é
baseado num perfeccionismo e o traço mais marcante de sua
caracterologia é o de manter um rígido controle sobre si mesmo e,
como conseqüência sobre os outros. Pode também ocorrer que
devido ao seu medo de errar, ele esteja sempre em estado de
dúvidas, o que pode acarretar, quando se trata de um magistrado,
que a função judicante lhe seja extremamente desgastante e
extenuante e, por essa razão, uma porta de acesso a um estresse
emocional.

No tipo histérico, os traços mais evidentes consistem em uma


avidez, possessividade e em uma instabilidade de humor devido a
uma baixíssima capacidade de tolerar frustrações. São adultos que
alternam momentos de maturidade com outros momentos em que
se comportam com as reações típicas de crianças quando não
ganham aquilo que querem. Eles dramatizam de forma
hiperbólica qualquer situação do cotidiano; usam muito p recurso
da sedução (não necessariamente de natureza erótica), e os
vínculos, quando aprofundados costumam ser frágeis,
inconstantes e volúveis. Nos primeiros tempos, acompanhando os
padrões culturais e comportamentais da época, supunha-se que a
histeria fosse própria exclusivamente das mulheres (daí porque a
escolha da palavra histeria para designar este tipo de estado
mental, já que, em grego, hysteros quer dizer útero). Hoje
sabemos que a personalidade histérica manifesta-se
indistintamente nas mulheres e nos homens.

Personalidade psicopática (também conhecida como sociopática)


é própria daquelas pessoas que não tem compromisso com a
verdade, a seriedade e consideração pelos demais. Antes de servir
aos outros, ele serve-se destes. O engodo e o cambalacho passam
a ter um valor hipertrofiado na forma de como conduz o seu
relacionamento com os outros. Uma característica marcante
desses sujeitos é a de serem insinuantes e sedutores, com
facilidade para envolver aos que lhe cercam. Geralmente são
muito simpáticos e cativam pela beleza e convencimento do
verbo, até que, mais cedo ou mais tarde, aprontam alguma coisa.
É importante que um juiz tenha a capacidade de reconhecer estes
traços de personalidade nas partes intervenientes dos processos
sob sua responsabilidade jurisdicional.

A personalidade tipo falsa também é conhecida pela denominação


de personalidade como se. Como o nome indica, trata-se de
pessoas que aparentam ser aquilo que na realidade, não são.
Costumam aparentar muito sucesso, felicidade e segurança,
porém, no fundo. sentem uma permanente sensação de vazio e de
falsidade. Porquanto eles sabem, embora em um plano não
consciente, que estão iludindo aos outros e, especialmente, a si
próprios. Os graus de comprometimento exagerado deste tipo
como se constituem a figura do impostor.

Personalidade narcisista. É o último desta listagem, mas talvez


seja o primeiro em importância, devido à crescente freqüência de
sua manifestação, especialmente nos tempos em que as culturas
vigentes na maioria dos países do mundo estão adquirindo, de
forma cada vez mais crescente, padrões nitidamente narcisísticos.
O narcisismo se institui a partir de uma extrema necessidade de
preservação da auto-estima do sujeito, seriamente ameaçada pela
frenética competitividade da sociedade moderna, a qual dentre os
atributos humanos, valoriza sobretudo a imagem do mais bem
sucedido, onde o ter adquire mais importância do que o, de fato,
ser.

As lentes da óptica narcisista consistem em uma exagerada


valorização de si próprio. Decorre dai que essas pessoas se
cercam de outras que os admirem e aplaudam
incondicionalmente, razão porque elas toleram mal qualquer
crítica que ameace a sua auto-imagem de proprietário da verdade
e da razão. As pessoas narcisistas funcionam fundamentalmente
na base do tudo ou nada (ou sou melhor, ou sou o pior, etc.);
amam somente aqueles que os amem e, no relacionamento com os
outros, eles contraem com facilidade a formação de conluios
inconscientes nos moldes de recíproca fascinação. Para
compensar a insegurança interior, os narcisistas se respaldam na
busca substituta de fetiches: na terminologia psicanalítica, esse
termo significa a posse de algo que aparenta ser muito valorizado
pelos outros, o que lhes garante a sensação de que estão sendo
reconhecidos, admirados e amados.

Os fetiches mais comuns e freqüentes repousam na busca de


beleza, riqueza, prestígio, poder, conquistas amorosas e,
sobretudo, a comprovação de uma constante reafirmação de seu
valor e uma demanda insaciável por elogios. Em uma exagerada
figura de retórica pode-se dizer que eles sofrem de um complexo
de deus, quando, então, o sujeito narcisista sente-se como se fosse
o Sol, enquanto configura aos demais como sendo seus planetas e
satélites que devem orbitar em torno dele. Muitas vezes pagam
um preço por essa ânsia de brilhatura porque seguidamente são
vítimas de um outro tipo de complexo, que podemos denominar
como complexo de mariposa, isto é, tal como esses insetos, são
tão atraídos pela luminosidade e brilho das lâmpadas que acabam
se queimando nelas.

Antes de prosseguir, é preciso deixar bem claro três pontos: o


primeiro, é a obviedade de que estes tipos de personalidade se
manifestam em indivíduos que labutam em qualquer área da
atividade humana, não obstante o fato de que os psicanalistas e
magistrados, pela natureza de sua função, que acarreta uma
facilidade de serem excessivamente idealizados, sejam
particularmente bastante propensos a se deixarem picar pela
mosca azul do narcisismo.

O segundo ponto é o de que os tipos básicos de personalidade


antes descritos, não são estanques como a esquematização
utilizada pode ter sugerido; antes, eles se sobrepõem e se
combinam entre si, de sorte que o mais comum é que alguns
destes distintos traços caracterológicos coexistam e se
superponham em um mesmo sujeito. em graus diferentes.

A terceira observação é a de que estes tipos de personalidade são


normais, e alguns até sadios, quando não forem empregados em
doses excessivas, em cujos casos podem se tornar patológicos e,
portanto, deixar as pessoas mais vulneráveis à formação de crises.

Por outro lado, é preciso acrescentar que também o outro – o que


está sendo julgado - também é portador de um perfil de
personalidade que pode ser concordante ou conflitante com o do
julgador e que isso, de uma forma ou de outra, pode repercutir na
decisão jurisdicional, desde o extremo de uma exagerada
benevolência, até o de uma franca repulsa. (pp. 106-112)
A ideologia pessoal é um fator preponderante:

A ideologia pessoal é um dos fatores muito importantes que,


somados aos atrás mencionados, participa significativamente para
os acertos e/ou erros, na eficiência da difícil ciência e arte da
função de interpretar, julgar e aplicar os códigos da lei. (p. 112)

Pode ocorrer a crise do magistrado:

1. Pressões exteriores de origem extraprofissional (familiares,


sócio-econômicas, financeiras...)

2. Pressões exteriores de ordem profissional (demanda excessiva


de trabalho; comarcas que não são as de sua livre preferência ou
de sua livre escolha; salários inadequados; relações conflituosas
com colegas de trabalho...)

3. Pressões interiores, oriundas desde as camadas inconsciente do


mundo íntimo de cada pessoa. E ai que se entrecruzam primitivas
necessidades, desejos, mecanismos defensivos, identificações
pessoais que foram importantes na sua evolução e que agora estão
introjetadas, relações vinculares com o mundo exterior que
reproduzem os modelos de relacionamento tal como estão
internalizados em cada sujeito, e os diferentes tipos de ansiedade
e sentimentos como os de amor, ódio, medo, vergonha, inveja,
ciúme, desconfiança, culpas, etc.

Um estudo mais completo dos fatores ansiogênicos – tanto


externo quanto internos -, que podem desestabilizar a organização
defensiva da personalidade e gerar crises emocionais, assim como
também bem a descrição das diversas formas que as mesmas
assumem – com os respectivos recursos preventivos e curativos -
exigiria um espaço demasiado longo. Vamos nos limitar,
portanto, a alguns, poucos, aspectos especialmente relevantes.

Em primeiro lugar, vale citar o problema da ambigüidade.


Sabemos que a nossa personalidade não se institui como um bloco
uniforme e maciço; pelo contrário, no mesmo indivíduo
coexistem aspectos contraditórios e diferentes identidades
parciais, porquanto todo adulto conserva um tanto da criança, ou
do adolescente que ele já foi. Assim, subjacente ao seu lado forte,
podem remanescer ocultos núcleos de timidez e de fragilidade e,
da mesma forma, um caráter autenticamente fundado em uma
rígida disciplina e moral, não exclui a presença de sentimentos
bem contrários e opostos a estes; e assim por diante. A
conseqüência mais notória dessa ambigüidade, quando excessiva,
consiste numa desgastante indefinição quanto ao sentimento de
identidade, e também quanto à tomada de posições, o que
transparece para os outros como sendo aquele que costuma "ficar
em cima do muro", ou aquele que "acende, ao mesmo tempo, uma
vela para deus e outra para o diabo".

Acontece que, na pessoa do magistrado, esses naturais


sentimentos de ambivalência e ambitendência ficam complicados.
A própria semântica da palavra magistrado traz implícita uma
exigência de virtudes extraordinárias e de perfeição
irrepreensível. Como isso e impossível de ser plenamente
atingido, pois, como seres humanos que são, os magistrados
também terão, em grau maior ou menor, inevitáveis falhas,
limitações, fraquezas e pecadilhos. A intolerância que o
magistrado possa ter em relação a algum aspecto seu que ele
considera como menos nobre, mas que ameaça emergir em sua
consciência e conduta, pode levá-lo a sérios conflitos de valores e,
daí, para a crise emocional.

Exemplos banais dessa ambigüidade em relação a tendências


igualmente fortes, mas que são contraditórias e opostas entre si:
"aceito ficar neste cargo, como e onde estou, ou mando tudo para
as favas e vou abrir outros caminhos na minha vida?".

No plano social, vale este outro exemplo: “preciso me comportar


como um verdadeiro magistrado nesta festa, ou posso me passar
um pouco na bebida, ou posso me envolver no clima de sedução
que está pintando, ou posso perder os cardemos e reagir
agressivamente a tal provocação?”. E evidente que os exemplos
hipotéticos poderiam se multiplicar ao infinito.
Em segundo lugar, como fator desencadeante de crises
emocionais, e importante registrar o problema das perdas. Uma
grande parte destas perdas é inerente ao processo de viver e elas
se manifestam sob múltiplas formas, como por exemplo:
sucessivas remoções da sede das autarquias as quais esteja se
acostumando e afeiçoando, com o conseqüente abandono de
hábitos, afetos e transtornos práticos para os familiares; ou de
filhos que crescem e se afastam de casa; ou o envelhecimento,
doença e morte de amigos e pais, assim como o problema de suas
próprias limitações físicas, ou perda de motivação para investir
em novos projetos, etc. Também representa ser uma perda
significativa quando o magistrado percebe que os só1idos
conhecimentos com os quais ele forjou a sua identidade
profissional já estão ficando algo desatualizados diante da enorme
avalanche de mudanças que se processam em ritmo vertiginoso,
tanto sob a forma de novas leis, quanto as mudanças tecnológicas
e científicas e multidisciplinares, que embasam diretamente o seu
trabalho, e para as quais ele não consegue, ou não quer,
acompanhar. A proximidade de uma aposentadoria compulsória,
num grande número de vezes, também ressoa como uma perda
significativa, por mais que transpire uma aparência de um grande
alívio e de um merecido repouso.

Um importante tipo de perda que tem se tornado


progressivamente mais comum é o da separação do casal e, por
mais útil e necessário que seja este divórcio, ele é sempre a
expressão de uma crise familiar, de um fracasso afetivo e, ao
mesmo tempo, age como um fator realimentador da crise pessoal.

Um outro tipo de perda também muito importante, de ordem mais


complexa, é a que diz respeito ao fato de que, em certa quadra de
sua vida, o magistrado tenha a coragem e honestidade de fazer um
balanço avaliativo de sua vida, pessoal e profissional, e pode
concluir, melancolicamente, que ele não atingiu as metas a que
tinha se proposto e com as quais sempre sonhou. É duro perder
ilusões – e as feridas narcisistas doem muito - quando o sujeito
constata que ele não é e nunca será o que ele pensava que era ou
que um dia viria a alcançar e ser. No entanto, é somente através
da renúncia das ilusões narcisistas que o individuo abre a
possibilidade de poder assumir o autêntico sentimento de
identidade de quem ele realmente é. E, principalmente. de como,
o que e quem ele pode vir a ser, dentro de suas possibilidades e
limitações realísticas.

As manifestações clínicas das crises emocionais assumem


diversas configurações, de acordo com a natureza da situação
ansiogênica e do grau de exacerbação dos conflitos subjacentes ao
tipo básico de personalidade de cada um. As crises, ainda que
penosas, podem ser de resolução sadia e de crescimento positivo,
mas, também, podem ser patológicas e mutilantes. Nesse último
caso, podem manifestar-se sob a forma de sintomas psíquicos
(angústia, depressão, etc.); ou de somatizações (úlcera péptica,
hipertensão arterial, etc.); assim como a crise pessoal pode se
expressar através de transtornos de conduta (uma regressão à fase
de adolescência, por exemplo, com tudo que essa fase tem de
bom, mas também de inconseqüente...); por problemas de
alcoolismo ou outras drogadições; por envolvimentos de natureza
sadomasoquisticas; e outras manifestações afins. Enfim, são
múltiplas e variadas as crises emocionais, porém não cabe aqui
esmiuçá-las mais aprofundadamente.

Em relação às medidas que podem ser adotadas para amenizar o


sofrimento e o desgaste resultante do estresse emocional, pode-se
apontar três procedimentos básicos: alguma forma de medicação
da psicofarmacologia moderna; alguma modalidade de
psicoterapia e a prática de grupos de reflexão.

A medicação com psicofármacos, quando bem indicados e


aplicados, de preferência por um psiquiatra bem experiente e
atualizado, num grande número de casos (por exemplo:
depressões endógenas; síndrome do pânico; angústias
intoleráveis, etc.) pode produzir excelentes resultados clínicos, em
pouco tempo e sem maiores riscos. No entanto, somente a
medicação usada isoladamente, sem um acompanhamento
psicoterápico concomitante, não obstante os magníficos
resultados de alívio dos sintomas, sempre fica a dever alguma
coisa, como, por exemplo, uma maior possibilidade de recidivas.

A psicoterapia, em uma de suas múltiplas formas – psicanalítica


ou não; individual ou grupal; de apoio ou de insight; com uso
simultâneo de medicação, ou não, breve ou prolongada, etc., se
constitui como um excelente recurso, sempre que o magistrado
reconhecer que ele necessita e que, de livre arbítrio, ele quer
entender melhor o seu lado desconhecido, de sorte a fazer
mudanças em alguns aspectos de sua personalidade.

Os grupos de reflexão, por sua vez, tal como o nome sugere, não
objetivam prioritariamente a obtenção “de resultado psicoterápico
propriamente dito; antes, através de uma atividade reflexiva
conjunta com participantes de um mesmo nível, eles visam ao
desenvolvimento de capacidades e de funções do ego, como são
as de percepção, pensamento, juízo crítico, discriminação,
comunicação, etc. Essa atividade reflexiva consiste na feitura de
reuniões regulares (não exclui a possibilidade da realização de um
ou poucos encontros isolados) que tanto podem ser semanais,
como quinzenais ou mesmo mensais, desde que guardem uma
certa sistemática na preservação da regularidade, no sentido de
que sejam realizadas sempre num mesmo local, com o
cumprimento de um mesmo horário marcado para os encontros,
porquanto é importante criar uma identidade própria para o
referido grupo de reflexão, através da introjecao em cada um e
todos, dos parâmetros referenciais, da sua ideologia e a
importância de terem conquistado um espaço especial para
refletirem e debaterem as dúvidas profissionais e existenciais.

O mencionado grupo de reflexão deve ser composto -


espontaneamente - por magistrados interessados em conhecer
melhor os dinamismos psíquicos inconscientes que cercam a sua
atividade judicante e, para tanto, o grupo deve ter a coordenação
de algum técnico da área psicológica que reúna uma boa
experiência nesse tipo de atividade. O funcionamento deste grupo
consiste no livre aporte por parte de cada participante, de
vivendas do cotidiano de sua função jurisdicional que, de uma
forma ou outra, estejam despertando sentimentos de alguma
modalidade de angústia, de modo a propiciar que os demais
participantes troquem experiências similares, num dinâmico e
fértil intercâmbio de idéias, enriquecidas pelas colocações do
coordenador.

A minha experiência pessoal com esse tipo de atividade, que já


efetivei com juízes, mas principalmente com médicos, comprova
que os participantes crescem não só profissionalmente, mas
também como indivíduos, nas diversas áreas das suas inter-
relações pessoais, e consigo próprios. (pp. 112-116)

DAVID ZIMERMAN faz um paralelo entre o analista e o juiz:

... as pessoas do psicanalista, assim como a do juiz de direito, são


gente também, embora o exercício da atividade profissional de
cada um deles requeira uma certa austeridade, uma postura de
neutralidade e de reserva. (p. 576)

... o magistrado e o psicanalista têm o dever de manter uma


rigorosa neutralidade, de modo a não se deixar levar pelos
sentimentos que lhe foram despertados, não obstante, no fundo,
ele já tenha formulado uma opinião e posição pessoal.

O termo neutralidade não deve ser confundido com uma – passiva


– indiferença e, tampouco com a atitude de não comprometimento
de lavar as mãos, tal como, segundo o relato bíblico, Pilatos
tomou diante do julgamento de Cristo. (p. 578)

DAVID ZIMERMAN deixa uma interrogação:

... Freud fez a sua clássica afirmação de que “educar, governar e


psicanalizar são profissões impossíveis”, e me atrevo a completar
que muitas e muitas vezes o ato de julgar e sentenciar poderia
estar incluída entre aquelas três. (p. 581)

DAVID ZIMERMAN mostra-nos o caminho da humildade:


Nenhum de nós é perfeito e temos que aprender a conviver com
nossas falhas e limitações. (p. 583)

4 - O AUTO-CONHECIMENTO

JOSÉ OUTEIRAL (2002) escreveu um livro sobre o auto-


conhecimento na linha freudiana. Afirma que somente podemos
nos conhecer parcialmente e de maneira muitas vezes enganosa.
(p. 18)

A Psicologia, qualquer que seja a corrente, procura o caminho do


auto-conhecimento.

Conforme o prezado Leitor pôde perceber desde o começo, nossa


preferência é pela Psicologia Junguiana (Analítica), pela
Psicologia Humanista e pela Transpessoal.

Neste Capítulo nos aateremoa a breves notas.

Primeiro: o que é o ser humano?

ALBERT EINSTEIN afirma: o ser humano é um conjunto


eletrônico regido pela consciência.

É importante conhecer cada um desses dois elementos: o conjunto


eletrônico e a consciência.

A interdependência entre eles é inquestionável.

Mente sã em corpo são.

4.1 - O CONJUNTO ELETRÔNICO (CORPO)

Não resta dúvida de que o cérebro é o departamento mais


importante do corpo, como diretor das demais estruturas físicas
que obedecem as ordens da psique humana.
Estudos recentes pretendem que o cérebro humano não é um
monobloco, mas sim a junção de três cérebros diferentes (réptil,
mamífero e primitivo), cada qual com funções específicas.

A necessidade cria o órgão, ou seja, à medida que os seres foram


evoluindo, gradativamente surgiram as estruturas físicas
necessárias para as novas funções.

O que somos hoje fisicamente é o resultado de muitos milhões de


anos de evolução das espécies mais primitivas que nós.

ROBIN ROBERTSON (1992:23-29) fala do cérebro triuno de


PAUL MACLEAN:

Em The Dragons of Eden, Carl Sagan popularizou o modelo


triuno de cérebro proposto por Mac Lean, segundo o qual o
cérebro que cerca o chassi neurológico consiste em três cérebros
separados, cada um deles situado sobre o outro e cada um deles
representando um estágio da evolução. Indo do mais antigo para o
mais recente, esses três cérebros seriam caracterizáveis da
seguinte maneira:

1) o complexo R, ou cérebro réptil, que "desempenha um


importante papel no comportamento agressivo, na territorialidade,
no ritual e no estabelecimento das hierarquias sociais". O
complexo R provavelmente apareceu com os primeiros répteis, há
cerca de um quarto de bilhão de anos;

2) o sistema límbico (que inclui a glândula pituitária), ou cérebro


mamífero, que controla em grande parte nossas emoções. Ele
"governa a consciência social e os relacionamentos - a sensação
de pertinência e importância afetiva, a empatia, a compaixão e a
preservação grupal". Provavelmente apareceu há não mais que
150 milhões de anos, e finalmente,

3) o neocórtex, o cérebro primitivo, "mais orientado que os outros


para os estímulos externos". Este controla as funções cerebrais
superiores como o raciocínio, a deliberação e a linguagem. O
neocórtex também controla tarefas complexas de percepção,
especialmente o controle da visão. Na realidade, embora nenhum
acrônimo descreva com exatidão sua complexidade, denominar o
neocórtex de "cérebro visual" não está assim tão longe de uma
exatidão terminológica. Embora seja provável que tenha
aparecido nos mamíferos superiores "há várias dezenas de
milhões de anos...seu desenvolvimento acelerou-se grandemente
nos últimos milhões de anos, quando surgiram os seres humanos".
[...]

As afirmativas seguintes de ROBIN ROBERTSON valem como


esclarecimento e alerta:

...uma boa parte de nossas vidas ainda é governada pelo cérebro


réptil, a saber: é esse sistema que nos impele a proteger e ampliar
o nosso "território", conceito que se tornou generalizado nos
humanos num sentido que em muito ultrapassa o território físico.

Embora possamos estar inconscientes quanto à dinâmica


subjacente de nossas ações quando estas são mobilizadas pelo
cérebro réptil, estamos conscientes dentro dos parâmetros
estipulados por esse cérebro. Quando o cérebro réptil está no
comando, somos em grande medida movidos por instintos antigos
e profundos, mas estes são instintos sobre os quais temos um
certo grau de controle, pelo menos o suficiente para adaptá-los ao
nosso meio ambiente. [...]

Segue-se a conclusão de ROBIN ROBERTSON:

O fato significativo é que até mesmo a ciência física demonstra


que ainda contemos uma história de nossa herança evolutiva em
torno de nosso corpo como um todo e igualmente dentro de nossa
estrutura neurológica. O conceito junguiano de inconsciente
coletivo é um reconhecimento de que a história ancestral ainda
exerce poderosos efeitos em nossas vidas.

Se cada um dos três cérebros tem funções específicas, grande


parte da memória está registrada por todo o cérebro, conforme a
teoria de KARL PRIBRAM, citado por ROBIN ROBERTSON
(1992:23-36).

ROBIN ROBERTSON (1992:23-38) diz sobre a função principal


do cérebro, mostrando que ele é mero instrumento da psique:

É muito mais viável pensar que o cérebro é, em grande medida,


um dispositivo de comunicação mais do que de estocagem.

4.2 - A CONSCIÊNCIA (ALMA, PSIQUE ETC.)

De início, deve-se esclarecer que a expressão consciência, usada


por ALBERT EINSTEIN, tem o significado de alma, psique etc.,
enquanto que aquela utilizada por JUNG significa uma das três
partes da psique (consciente ou conciência, inconsciente pessoal e
inconsciente coletivo).

ROBIN ROBERTSON (1992:41) esclarece que:

Não há dúvida de que a relação entre consciência e inconsciente


forma uma dinâmica complexa que não se presta facilmente a
uma resposta.

ROBIN ROBERTSON (1992:22) diz:

Segundo JUNG, a consciência o aparente sina qua non da


humanidade - é tão-somente a ponta do iceberg. Por baixo dela,
encontra-se um substrato muito maior de recordações pessoais,
sentimentos ou condutas esquecidas ou reprimidas que Jung
denominou inconsciente pessoal. E por baixo dele está o mar
abissal do inconsciente coletivo, imenso e ancestral, repleto de
todas as imagens e comportamentos que vêem sendo repetidos
incontáveis vezes ao largo de toda a história não só da
humanidade, mas da própria vida. Como disse Jung: "...e quanto
mais fundo se vai, mais ampla se torna a base".
ROBIN ROBERTSON (1992:31) afirma:

... em si mesma, a consciência é às vezes insuficiente para


avançar, independentemente do quanto possam ser extremados os
esforços. Consideremos de que modo cada um de nós enfrenta
seus problemas na vida. Primeiro, empregamos todos os nossos
recursos conscientes tradicionais para cogitar sobre o problema,
confiantes de que o solucionarão, assim como aconteceu com
tantos outros, no passado. Contudo, quando nenhum dos métodos
de praxe funciona e o problema é suficientemente importante para
não podermos apenas deixá-lo de lado com um encolher
indiferente de ombros, então ocorre algo de novo: mossa energia
emocional é mobilizada para o inconsciente. Lá o problema entra
em fase de gestação até que, no devido tempo, emerja uma nova
abordagem.

Os estudos sobre a psique humana têm avançado no sentido da


confirmação das crenças orientais mais antigas da Índia, China,
Tibete etc.

Através do aprofundamento nos três ramos da Psicologia que


mencionamos pode-se chegar ao auto-conhecimento.

Aí chegaremos à harmonização interna e externa.

Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará.

5 - A PSICOLOGIA ANALÍTICA (JUNGUIANA)

DUANE P. SCHULTZ e SYDNEY ELLEN SCHULTZ


(1992:362-365) falam sobre a Psicologia Analítica:

Um ponto fundamental de diferença entre Jung e Freud vincula-se


com a natureza da libido. Enquanto Freud a defendia em termos
predominantemente sexuais, Jung a considerava energia vital
generalizada de que o sexo era apenas uma parte. Para Jung, essa
energia libidinal básica se exprime no crescimento e na
reprodução, e também em outras atividades, a depender do que é
mais importante para um indivíduo num momento particular.

A recusa junguiana de considerar a libido como exclusivamente


sexual deixou-o livre para dar interpretações diferentes ao
comportamento que Freud só podia definir em termos sexuais.
Para Jung, por exemplo, entre os três e os cinco anos de vida, que
ele denominava fase pré-sexual, a energia libidinal serve às
funções de nutrição e de crescimento e não tem nenhuma das
nuanças sexuais da concepção freudiana desses primeiros anos.

Jung também rejeitava o complexo de Édipo freudiano e


explicava o apego da criança à mãe em termos de uma
necessidade de dependência, com todas as satisfações e
rivalidades associadas com a função materna de fornecer
alimento. À medida que a criança amadure e desenvolve o
funcionalismo sexual, as funções de nutrição combinam-se com
sentimentos sexuais. Para Jung, a energia libidinal só assume
forma heterossexual depois da puberdade. Ele não negava a
existência de fatores sexuais, mas reduzia o papel do sexo ao de
um dos impulsos que compõem a libido.

É fácil ver que as próprias experiências de vida de Jung


influenciaram sua teoria como a de Freud, foi intensamente
autobiográfica. Já observamos que a imersão pessoal de Jung no
inconsciente pressagiava seu interesse profissional ulterior pelo
tópico. Com relação ao sexo, as evidências também são altamente
sugestivas. Jung não tinha como usar, nem precisava de um
complexo de Édipo em sua teoria, porque isso não tinha
relevância para a infância. Ele descrevera a mãe como uma
mulher gorda e pouco atraente, e por isso nunca pôde
compreender a insistência de Freud de que todo garotinho tinha
anseios sexuais pela mãe.

Ao contrário de Freud, Jung não desenvolveu nenhuma


insegurança, inibição nem ansiedade sobre o sexo quando adulto,
e não fez nenhuma tentativa de limitar suas atividades sexuais,
também ao contrário de Freud. Na verdade, Jung teve alguns
casos com pacientes e discípulas. “Para Jung, que satisfazia livre
e freqüentemente suas necessidades sexuais, o sexo tinha um
papel mínimo na motivação humana. Para Freud, acossado por
frustrações e ansioso com seus desejos contrariados, o sexo tinha
o papel central” (Schultz, 1990, p. 148).

A segunda diferença básica entre as obras de Freud e Jung e a sua


concepção da direção das forças que influenciam a personalidade
humana. Freud via as pessoas como vítimas dos eventos da
infância; Jung acreditava que somos moldados por nossas metas,
esperanças e aspirações com relação ao futuro, bem como pelo
nosso passado. Jung propunha que comportamento humano não é
determinado por inteiro pelas primeiras experiências da vida,
estando sujeito a mudança em anos subseqüentes.

Uma terceira diferença entre os dois é que Jung enfatizava mais o


inconsciente. Ele tentava mergulhar mais profundamente na
mente inconsciente, tendo-lhe acrescentado uma nova dimensão -
as experiências herdadas dos seres humanos como espécie e as
dos seus ancestrais animais (o inconsciente coletivo).

Jung usava o termo psique pan referir-se à mente, que segundo ele
consistia em três níveis: a consciência, o inconsciente pessoal e o
inconsciente coletivo. No centro da mente consciente esta o ego,
que se assemelha à nossa concepção de nós mesmos. A
consciência inclui percepções e lembranças, e é a via de contato
com a realidade que nos permite adaptar-nos ao nosso ambiente.
Jung acreditava, contudo, que se dera demasiada atenção à
consciência, que ele julgava secundária diante do inconsciente.
Ele comparava a parte consciente da psique com a porção visível
de uma ilha. Existe uma parte maior desconhecida sob a pequena
parte visível acima da linha da água, e foi nessa base oculta
misteriosa que Jung concentrou sua atenção.

Ele postulava dois níveis do inconsciente. Logo abaixo da


consciência está o inconsciente pessoal, pertencente ao indivíduo.
Ele consiste em todas as lembranças, impulsos, desejos,
percepções fugidias e outras experiências da vida da pessoa que
foram suprimidas ou esquecidas. Incidentes do inconsciente
pessoal podem ser trazidos com facilidade à percepção
consciente, o que indica que esse nível de inconsciência não é
muito profundo.

As experiências do inconsciente pessoal estão agrupadas em


complexos. Trata-se de padrões de emoções, lembranças, anseios,
etc., com temas comuns. Os exemplos se manifestam na pessoa
como uma preocupação com alguma idéia, como o poder ou a
inferioridade, que influencia o comportamento. Assim, um
complexo é essencialmente uma personalidade menor que se
forma no interior da personalidade total.

Abaixo do inconsciente pessoal se encontra o terceiro e mais


profundo nível de psique, o inconsciente coletivo, que o indivíduo
não conhece e que contém as experiências acumuladas de todas as
gerações precedentes, incluindo nossos ancestrais animais. O
inconsciente coletivo consiste em experiências evolutivas
universais e forma a base da personalidade. Como dirige todo o
comportamento corrente, ele é considerado a mais potente força
presente na personalidade. É importante notar que as experiências
evolutivas no interior do inconsciente coletivo são, naturalmente,
inconscientes; não as percebemos, não nos recordamos delas nem
temos imagens suas, ao contrário do que ocorre com as
experiências do inconsciente pessoal.

Jung acreditava que a universalidade do inconsciente coletivo


podia ser explicada pela teoria da evolução, mediante a
semelhança de estruturas cerebrais presentes em todas as raças
humanas.

Na analogia junguiana da ilha, algumas pequenas ilhas que se


elevam acima da superfície da água representam a mente
consciente individual de algumas pessoas. A área de terra de cada
ilha que está logo abaixo da água, e que de quando em vez e
exposta pela ação das marés, representa o inconsciente pessoal de
cada indivíduo. O leito do oceano, em que todas as ilhas estão, é o
inconsciente coletivo.

Jung enfatizou o poder de contribuição do inconsciente coletivo


ao desenvolvimento da psique. Tendências herdadas contidas no
inconsciente coletivo - aquilo que Jung denominou arquétipos -
são determinantes preexistentes ou inatos da vida mental que
dispõem a pessoa a se comportar de modo semelhante ao de
ancestrais que se viram diante de situações análogas.

Os arquétipos são vivenciados como emoções e outros eventos


mentais, e estão tipicamente associados com experiências
significativas da vida como o nascimento e a morte, com estágios
particulares como a adolescência e com reações ao perigo
extremo. Jung empreendeu uma extensa investigação das criações
míticas e artísticas de várias civilizações e descobriu símbolos
comuns a todas, mesmo em culturas tão amplamente separadas no
tempo e no espaço que excluam a possibilidade de influência
direta. Ele também descobriu o que considerou vestígios desses
símbolos nos sonhos contados por seus pacientes. Todo esse
material corroborava sua concepção de inconsciente coletivo.

Quatro dos arquétipos descritos por Jung pareciam ocorrer mais


freqüentemente do os outros. Eles estavam plenos de altos níveis
de significado emocional, podendo ser remetidos a mitos antigos
de diversas origens. Esses arquétipos principais, considerados por
Jung sistemas distintos de personalidade, são a persona, a anima e
o animus, a sombra e o self.

A persona, o aspecto mais exterior da personalidade, oculta o eu


verdadeiro. É a máscara que usamos nos contatos com os outros,
representando-nos tal como queremos a aparecer para a
sociedade. A persona pode não corresponder à verdadeira
personalidade do indivíduo. A noção de persona se assemelha ao
conceito sociológico de desempenho de papel (role playing), em
que podemos agir como pensamos que os outros esperam que
ajamos em diferentes situações.

Os arquétipos da anima e do animus refletem a idéia de que cada


pessoa de um sexo exibe algumas das características do outro. A
anima se refere às características femininas presentes no homem;
o animus denota características masculinas na mulher. Tal como
os outros arquétipos, esses advêm do passado primitivo da espécie
humana, em que os homens e as mulheres absorveram algumas
das tendências comportamentais e emocionais do outro sexo.

O arquétipo da sombra, nosso eu mais sombrio, é a parte mais


primitiva e animalesca da personalidade. Jung o considerava
nosso legado racial de formas inferiores de vida. A sombra
contém todos os desejos e atividades imorais, passionais e
inaceitáveis. Jung escreveu que a sombra nos impele a fazer
coisas que normalmente não nos permitiríamos. Uma vez que
tenhamos feito uma dessas coisas, costumamos insistir que algo
se apossou de nós. Jung afirmou que o “algo” é a parte primitiva
da nossa natureza. Mas a sombra também tem um lado positivo: é
a fonte da espontaneidade, da criatividade, da percepção e da
emoção profunda, todas elas necessárias ao pleno
desenvolvimento humano.

Jung considerava o self o mais importante arquétipo do seu


sistema. Equilibrando todos os aspectos do inconsciente, o self
proporciona unidade e estabilidade à personalidade. Como
representação da pessoa inteira, o self tenta promover a integração
da personalidade e pode ser comparado com um impulso para a
auto-realização ou auto-atualização. Por auto-atualização, Jung
designava a harmonia e a completude da personalidade, o
desenvolvimento mais integral de todos os aspectos do self.

Jung acreditava que a auto-atualização não podia ser alcançada


antes da meia-idade, e considerava esses anos (entre os trinta e
cinco e os quarenta) essenciais para o desenvolvimento da
personalidade, uma época de transição natural em que a
personalidade passa por mudanças necessárias e benéficas.
Vemos nessa crença, outro elemento autobiográfico da teoria de
Jung. A meia-idade foi a época de sua vida em que ele acreditava
ter alcançado a integração do seu self, a partir da resolução de sua
crise neurótica. Assim, para ele, o estagio mais importante do
desenvolvimento da personalidade não era a infância, ao contrário
da vida e do sistema de Freud, mas a meia-idade, época de sua
própria crise pessoal.

O trabalho de Jung sobre as atitudes de introversão e extroversão


é bem conhecido. Ele via essas modalidades de reação a
diferentes situações como parte da mente consciente, definindo-as
em termos da direção da energia libidinal. O extrovertido dirige
libido para fora do eu, para eventos e pessoas do mundo exterior.
Uma pessoa desse tipo é fortemente influenciada por forças do
ambiente, sendo sociável e autoconfiante numa ampla gama de
situações. A libido do introvertido é dirigida para o seu próprio
interior. Uma pessoa introvertida é mais contemplativa,
introspectiva e resistente a influências externas, menos confiante
nas relações com os outros e com o mundo exterior e menos
sociável do que a extrovertida. Ambas as atitudes opostas existem
em algum grau em todas as pessoas, mas uma delas costuma ser
mais pronunciada. Ninguém é totalmente extrovertido ou
introvertido. A atitude dominante a qualquer momento dado pode
ser influenciada pela situação. Por exemplo, de modo geral, as
pessoas introvertidas podem tornar-se sociáveis e francas em
situações que atraiam o seu interesse.

Segundo a teoria de Jung, as diferenças de personalidade também


se manifestam por meio das quatro funções, as maneiras como
nos orientamos tanto diante do mundo objetivo exterior como
diante do nosso mundo subjetivo interior. Essas funções são o
pensamento, o sentimento, a sensação e a intuição. O pensamento
é um processo conceitual que proporciona sentido e compreensão.
O sentimento é um processo subjetivo de ponderação e avaliação.
A sensação é a percepção consciente de objetos físicos. E a
intuição envolve perceber de maneira consciente.

Jung considerava o pensamento e o sentimento modalidades


racionais de reação, visto envolverem a razão e o juízo. A
sensação e a intuição são consideradas não racionais, pois
dependem do mundo dos estímulos concretos e específicos e não
envolvem o uso da razão. Em cada par de funções, somente uma
pode ser dominante num dado momento. As funções dominantes
podem se combinar com o domínio da extroversão ou da
introversão para para produzir diferentes tipos psicológicos.

Jung desenvolveu o teste de associação de palavras como


instrumento de diagnóstico e terapia para descobrir complexos da
personalidade em seus pacientes. Ele iniciou essa pesquisa sobre a
associação de palavras depois que um colega lhe falou do
experimento de associação de Wilhelm Wundt. No procedimento
de associação de palavras de Jung, o analista lê para o paciente
uma lista de palavras, dizendo uma de cada vez. O paciente
responde a cada palavra com a primeira palavra que lhe vier à
mente. Jung media o tempo que o paciente levava para reagir a
cada palavra, bem como as alterações da respiração e da
condutividade elétrica da pele, consideradas evidências de reações
emocionais. Se uma palavra específica produzisse um longo
tempo de resposta, irregularidades na respiração e uma mudança
na condutividade da pele, Jung deduzia a existência de um
problema emocional inconsciente vinculado com a palavra-
estímulo ou com a réplica.

DUANE P. SCHULTZ e SYDNEY ELLEN SCHULTZ


(1992:365-366) falam sobre a influência da Psicologia Analítica:

A obra de Jung tem tido alguma influência sobre a psicologia e a


psiquiatria, mas principalmente sobre campos diversos como a
religião, a história, a arte e a literatura. Muitos historiadores,
teólogos e escritores o reconhecem como fonte de inspiração. De
modo geral, no entanto, a psicologia científica tem ignorado sua
psicologia analítica. Muitos dos seus livros não foram traduzidos
para o inglês até os anos 60, e seu estilo não inteiramente claro
tem impedido um entendimento completo de suas formulações.
Seu desdém pelos métodos científicos tradicionais repele muitos
psicólogos experimentais, para quem as idéias de Jung, com sua
base mística e religiosa, tem ainda menos atrativo do que as de
Freud. Além disso, as críticas a que nos referimos no Capitulo 13
acerca das evidências corroboratórias da teoria de Freud também
se aplicam ao trabalho de Jung. Também ele se apoiou na
observação clínica e na interpretação, e não na investigação
controlada de laboratório. Mas a psicologia analítica recebeu uma
avaliação menos minuciosa do que a psicanálise freudiana,
provavelmente porque a estatura de Freud no campo relegou Jung
e outros a um plano secundário na competição por atenção
profissional.

A delineação por Jung dos oito tipos psicológicos tem estimulado


consideráveis pesquisas. Tem particular importância o Myers-
Briggs Type Indicator (Indicador de Tipo Myers-Briggs), um
teste de personalidade elaborado nos anos 20 por Katharine
Briggs e Isabel Briggs Myers. Ele se tornou um importante
instrumento de pesquisa e avaliação. A obra de Jung sobre a
introversão e a extroversão inspirou o psicólogo inglês Hans
Eysenck a desenvolver o Maudsley Personality Inventory
(Inventário de Personalidade Maudsley), um teste popular para
medir essas duas atitudes. Estudos usando esses instrumentos
forneceram algum apoio empírico às idéias de Jung e demonstram
que ao menos algumas de suas noções são suscetíveis de teste
experimentais. Tal como ocorreu com a obra de Freud, os
aspectos mais amplos da teoria de Jung (como os complexos, os
arquétipos e o inconsciente coletivo) resistem a tentativas de
validação científica.

Jung deu outras contribuições à psicologia. O teste de associação


de palavras tornou-se uma técnica projetiva padrão e incentivou o
desenvolvimento do Teste Rorscbach. O conceito de auto-
atualização (auto-reatização) antecipou a obra de Abraham
Maslow e de outros que desde então, têm desenvolvido tema de
Jung. A sugestão junguiana de que a meia-idade é uma época
crucial de mudança de personalidade foi incorporada por Maslow
e Erik Erikson, tendo sido aceita por teóricos contemporâneos da
personalidade como estágio desenvolvimento necessário (ver
Levinson, 1978; Wrightsman, 1981).

Apesar dessas contribuições, o grosso da obra de Jung não tem


sido popular na psicologia. Suas idéias gozaram de uma explosão
de atenção pública nos anos 70 e 80, ao que parece devido ao seu
conteúdo místico. Treinamento formal em análise junguiana e
oferecido em Nova York, São Francisco e Angeles, bem como em
institutos junguianos na Europa e em Israel.

5.1 - DADOS BIOGRÁFICOS DE JUNG

PIERRE MOREL (1997:133-135) resume a vida de JUNG (1875-


1961) com franca antipatia, mas que mantemos para que o
prezado Leitor possa também tomar contato com as informações
(verdadeiras?) dos seus opositores:

Jung nasceu a 26 de julho de 1875 em Kesswill, aldeia do cantão


de Turgóvia, onde seu pai era reitor da Igreja Reformada. Seu avô
paterno, médico originário de Mannheim, se refugiara na Suíça
em 1819, depois de incidentes políticos, e se tomara reitor da
Universidade de Basiléia, enquanto o avô materno, o teólogo
protestante Samuel Preiswerk, assim como diversos membros da
família, se interessavam muito por espiritismo e parapsicologia.

Em 1895, Jung começou seus estudos de medicina em Basiléia, e


tomou-se em 1900 assistente de Bleuler no Hospital Burgholzli.
Em 1902, defendeu uma tese sobre “A psicologia e a patologia
dos fenômenos ocultos”, pelos quais havia começado a interessar-
se a propósito do caso de uma jovem médium, sua prima Hélène
Preiswerk. Passou o inverno de 1902-03 junto a Pierre Janet e
voltou para o serviço de Bleuler, onde permaneceria ate 1909.
Nomeado Privat Dozent em 1905, começou a ensinar em Zurique,
quando em fevereiro de 1907 ficou conhecendo Freud. Sua
promoção no movimento psicanalítico foi rápida: em 1908, foi
redator-chefe do Jahrbuch for psychopathologische und
psychoanalytische Forschungen, em 1909, Stanley Hall o
convidou, com Freud e Ferenczi, para fazer uma série de
conferências na Clark University e, em 1910, foi presidente da
Associação Psicanalítica Internacional. Já em 1911, entretanto,
surgiram os primeiros mal-entendidos com Freud. Em outubro de
1913, a ruptura foi definitivamente consumada: Jung abandonou a
redação do Jahrbuch, demitiu-se de suas funções na Associação
Psicanalítica e alguns meses depois renunciou também ao seu
posto de Privat Dozent para dedicar-se a sua clientela particular.

Os seis anos que se seguiram corresponderam para ele a uma


verdadeira crise interior, uma “viagem através do inconsciente”
(Ellenberger), exploração do “mundo obscuro” que se encontra
nele, e que permitiria a elaboração da sua própria doutrina.
Depois da guerra, fez uma série de viagens: Magreb, Saara,
Estados Unidos, Novo México, Quênia, Índias e Sri Lanka, de
onde trouxe grande quantidade de documentos etnográficos. Em
1930, foi eleito presidente honorário da Sociedade Alemã de
Psicoterapia, cujo presidente em atividade era Ernst Kretschner,
que pediu demissão em 1933, logo que Hitler chegou ao poder.
Jung recebeu então a presidência da nova Sociedade Intencional
de Psicoterapia, que foi integrada, em 1936, a um vasto Instituto
Alemão de Pesquisas Psicológicas e de Psicoterapia, dirigido por
Matthias Goering. Essas “más companhias” fariam com que Jung,
durante 20 anos, fosse acusado de atividades pró-nazistas e anti-
semitas.

Desde 1933, foi professor na Escola Politécnica de Zurique. Em


1935, fundou a Sociedade Suíça de Psicologia Clínica) e a 15 de
outubro de 1943 foi nomeado professor de psicologia médica na
Universidade de Basiléia, função que teve que abandonar alguns
meses depois, por razões de saúde. Morreu a 6 de junho de 1961,
na sua propriedade de Küsnacht, nas margens do lago de Zurique,
região onde se instalara em 1908, e da qual recebera o título de
cidadão honorário por ocasião do seu 85° aniversário.

Jung se tornou conhecido em 1906, com os seus Estudos sobre as


associações verbais, processo imaginado em 1879 por Galton,
utilizado por Wundt e por Kraepelin, e que Bleuler o encarregou
de estudar no Burghölzli, no âmbito da sua teoria da
esquizofrenia. No ano seguinte, publicou a Psicologia da
demência precoce, uma das primeiras aplicações da “psicologia
das profundezas” a uma doença psicótica. Nesse momento,
começou o seu breve período psicanalítico.
Sem dúvida, Freud depositava muitas esperanças na adesão de
Jung, cujas nacionalidades e origem deveriam permitir que a
psicanálise saísse do estreito círculo vienense judaico. Mas
rapidamente, o recém-chegado adotou posições teóricas que só
podia resultar na exclusão, tentando “uma transposição dos fatos
analíticos para o modo abstrato, impessoal, sem levar em conta a
história do indivíduo, posição com a qual ele pretendia evitar o
reconhecimento da sexualidade infantil e do complexo de Édipo,
ao mesmo tempo que a necessidade da análise da infância”
(Freud). Em 1913, o “príncipe herdeiro” não pertencia mais ao
movimento freudiano.

Pouco a pouco, Jung elaborou uma nova Psicologia analítica,


cujos princípios essenciais, já enunciados em 1921 em Os tipos
psicológicos, iriam enriquecer-se e complicar-se
progressivamente ao longo das obras. A energética da alma
(1928); O homem à descoberta de sua alma. Metamorfoses da
alma e seus símbolos (1950). Através de uma análise histórica
erudita das obras de intelectuais, filósofos, teólogos, opunha
introversão e extroversão, duas visões do mundo que superam a
simples psicologia individual. À noção freudiana de inconsciente
“pessoal” acrescentou a de inconsciente coletivo, povoado de
imagens arquetípicas, espécie de linguagem simbólica universal,
cuja expressão se encontra nos mitos de todos os povos e de todos
os tempos. Quanto à edificação da personalidade, esta é a
conseqüência de um processo de individuação [13], constituído de
metamorfoses sucessivas, que podem estender- se pela existência
inteira. Se admitia os tratamentos de Freud e Adler, Jung
propunha também uma terapêutica específica, o método sintético
hermenêutico, utilizando amplamente a análise dos
sonhos,negando o papel positivo da transferência e reclamando
uma colaboração ativa do paciente e do terapeuta, destinada a
tomar o primeiro rapidamente, consciente das suas dificuldades.

E impossível, em poucas linhas, expor ainda que superficialmente


a riqueza e a complexidade dessa obra, visando a universalidade
dos conhecimentos, plena de referências históricas, simbólicas,
mitológicas e culturais, e que por isso foi acusada de misticismo
nebuloso.

Desde 1948, existe em Zurique um Instituto C.G. Jung, fundado


por personalidades suíças, inglesas e americanas, e que continua a
oferecer o ensino das teorias e métodos junguianos de psicologia
analítica.

6 - A PSICOLOGIA HUMANISTA

DUANE P. SCHULTZ e SYDNEY ELLEN SCHULTZ


(1992:392-395) abordam a Psicologia Humanista, conhecida
como Terceira Força:

No inicio dos anos 60, há mais de três décadas, desenvolveu-se na


psicologia americana um movimento conhecido como psicologia
humanista ou a terceira força. Ele não pretendia ser a revisão nem
a adaptação de nenhuma escola de pensamento corrente, ao
contrario do que ocorria com algumas posições neofreudianas e
neocomportamentais. Em vez disso, como o termo terceira força o
indica, a psicologia humanista queria substituir o
comportamentalismo e a psicanálise, as duas principais forças da
psicologia.

Os temas básicos da psicologia humanista, como os de todos os


movimentos, tinham sido reconhecidos e defendidos
anteriormente. Os pontos essenciais eram (1) uma ênfase na
experiência consciente, (2) uma crença na integralidade da
natureza e da conduta do ser humano, (3) a concentração do livre-
arbítrio, na espontaneidade e no poder de criação do individuo, e
(4) o estudo de tudo o que tenha relevância para a condição
humana. Antecipações dessas idéias podem ser encontradas nas
obras dos primeiros psicólogos.

Consideremos o caso de Franz Brentano (Capitulo 4), oponente


de Wundt e precursor dos gestaltistas. Brentano criticou o uso da
abordagem mecanicista e reducionista da ciência natural para a
psicologia e favoreceu o estudo da consciência como qualidade
molar ativa, e não como conteúdo molecular passivo. Oswald
Külpe demonstrou que nem toda experiência consciente podia ser
reduzida à forma elementar ou ser explicada em termos de
respostas a estímulos. William James se opusera à abordagem
mecanicista e conclamara à concentração na consciência e no
indivíduo inteiro.

Os gestaltistas acreditavam que a psicologia deveria abordar a


consciência a partir da perspectiva da totalidade. Diante da
primazia do comportamentalismo, eles continuaram a insistir que
a experiência consciente era uma área de estudo legítima e
proveitosa para a psicologia. Alguns psicólogos afirmaram que a
semelhança entre a psicologia da Gestalt e a psicologia humanista
é tão forte que não há razão para dar ao movimento mais novo
nenhum outro nome. Eles acreditam que o rótulo Gestalt é
adequado para descrever os temas compreendidos pela psicologia
humanista (Wertheimer, 1978).

Há vários antecedentes da posição humanista na psicanálise.


Adler, Horney, Erikson e Allport se opuseram à idéia freudiana de
que a personalidade é determinada por forças biológicas e eventos
passados. Também, discordaram da noção de Freud de que as
pessoas são governadas por forças inconscientes. Esses
dissidentes da psicanálise ortodoxa de que as pessoas são
primordialmente seres conscientes que possuem espontaneidade e
livre arbítrio e são pelo menos tão influenciadas pelo presente e
pelo futuro quanto pelo passado. Eles creditavam à personalidade
humana o poder criativo de moldar a si mesma.

Com todos os movimentos da psicologia moderna, o Zeitgeist faz


sentir sua influência ao transformar antecedentes e tendências
num ponto de vista efetivo. A psicologia humanista parecia
refletir a insatisfação e o desgosto veiculado pelos jovens dos
anos 60 contra os aspectos mecanicistas e materialistas da cultura
ocidental contemporânea. Dissemos que todo novo movimento
usa seu oponente mais antigo, a posição estabelecida, como base a
partir da qual impele a si mesmo para ganhar impulso. Em termos
práticos, o novo movimento precisa afirmar articuladamente e em
voz alta as fraquezas da visão dominante vigente. A psicologia
humanista tinha dois desses alvos: o comportamentalismo e a
psicanálise.

Os psicólogos humanistas acreditavam que o


comportamentalismo era uma abordagem estreita, artificial e
relativamente estéril da natureza humana. A ênfase no
comportamento manifesto era, diziam eles, desumanizante,
reduzindo-nos a animais ou máquinas. Eles rejeitavam a
concepção de seres humanos funcionando de modo determinista
em resposta a experiências infantis ou a eventos-estímulo do
ambiente. Além disso, o comportamentalismo não chegara a um
acordo com características propriamente humanas, com as
qualidades conscientes subjetivas que distinguem as pessoas dos
animais de laboratório. Uma psicologia baseada em respostas
condicionadas discretas faz da pessoa um organismo mecanizado
que apenas responde aos estímulos apresentados. Para os
psicólogos humanistas, os seres humanos são muito mais do que
ratos brancos, robôs ou computadores, não podendo ser
objetificados, quantificados e reduzidos a unidades de estímulo-
resposta. Em outras palavras os indivíduos não são organismos
vazios.

Os psicólogos humanistas também se opunham às tendências


deterministas encontradas na abordagem freudiana da psicologia,
bem como à sua minimização do papel da consciência. Os
freudianos eram criticados por só estudarem pessoas perturbadas
– neuróticos e psicóticos. Se os psicólogos tivessem como foco
exclusivo a doença mental, como poderiam alguma coisa sobre a
saúde mental, sobre qualidades e características humanas
positivas? Desconsiderando atributos como o júbilo, a satisfação,
o contentamento, o êxtase, a gentileza e a generosidade, e
concentrando-se no lado mais sombrio da personalidade humana,
a psicologia ignorava todas essas forças e virtudes distintamente
humanas. Assim, foi em resposta à forma limitadora de psicologia
promovida pelo comportamentalismo e pela psicanálise que os
psicólogos humanistas apresentaram sua alternativa como a
terceira força em psicologia.
Todos os aspectos da experiência peculiarmente humana são
levados em consideração pela psicologia humanista: o amor, o
ódio, o medo, a esperança, a felicidade, o bom humor, a afeição, a
responsabilidade e o sentido da vida. Esses aspectos da existência
humana não são tratados por muitos manuais modernos de
psicologia por não serem suscetíveis de definição operacional,
quantificação ou manipulação de laboratório. Os críticos da
psicologia humanista asseveram que o seu escopo parece vago,
mas isso é da natureza do movimento descrever aquilo a que se
opõem os psicólogos humanistas do que aquilo que defendem ou
como esperam alcançar suas metas. O termo psicologia humanista
veio a ter muitos sentidos e é “improvável que uma definição
explícita dele que venha a ser formulada satisfaça mesmo uma
pequena parcela das pessoas que denominam a si mesmas
“psicólogos humanistas”. (Wertheimer, 1978, p. 743).

Como a psicologia humanista, ao contrário da primeira


psicanálise, se concentrava mais em pessoas psicologicamente
saudáveis do que em pessoas emocionalmente perturbadas, sua
abordagem terapêutica era diferente. Chamadas terapias do
crescimento, parte do movimento do potencial humano, terapias
humanistas proliferaram nos anos 60 e 70, quando milhões de
pessoas passaram a freqüentar grupos de encontro e programas de
treinamento da sensibilidade em escolas, empresas, igrejas,
presídios e clínicas privadas. A popularidade desses programas
vem desde então declinando dramaticamente.

Derivadas em parte do trabalho de Kurt Lewin (Capitulo 12),


terapias do crescimento eram usadas com pessoas de saúde mental
normal ou média a fim de elevar seus níveis de consciência,
ajudá-las a se relacionar melhor consigo mesmas e com os outros
e libertar potenciais ocultos de criatividade e
autodesenvolvimento. Em outras palavras, os programas
pretendiam incrementar a saúde psicológica e a auto-reatização.

Infelizmente, o movimento do potencial humano atraiu mais


charlatães, praticantes bem intencionados mas não treinados e
gurus e messias autocriados, que faziam mais mal do que bem, do
que merecia. Estudos sobre os efeitos ulteriores da participação
em grupos de encontro revelaram um aumento de taxas de baixas
psicológicas de menos de 1% para quase 50% (Hartley, Robach e
Abramowitz, 1976). Muitas pessoas acreditam que a psicologia
humanista se resumia aos grupos de encontro, mas o movimento é
muito mais amplo. Trata-se de um sério estudo da natureza e da
conduta humana, e é talvez melhor representado pelas obras
Abraham Maslow e Carl Rogers.

DUANE P. SCHULTZ e SYDNEY ELLEN SCHULTZ


(1992:399-400) falam da influência da Psicologia Humanista:

A psicologia humanista exibiu no início do seu desenvolvimento


as mesmas características que vimos em todos os outros novos
movimentos da história da psicologia. Seus membros foram
enfáticos em apontar as fraquezas das posições mais antigas, o
comportamentalismo e a psicanálise, ambas bases sólidas a partir
das quais tomar impulso. Muitos psicólogos humanistas eram
zelosos e cheios de retidão, preparados para combater os
demônios da situação.

O movimento foi formalizado com a fundação da publicação


Journal of Humanistic Psychology em 1961, da Associação
Americana de Psicologia Humanista em 1962, e da Divisão de
Psicologia Humanista da APA em 1971. Assim, os traços
distintivos de uma escola coesa de pensamento ficaram evidentes.
Os psicólogos humanistas deram sua própria definição de
psicologia, distinta da das outras duas forças do campo, e
descreveram seu próprio objeto de estudo, seus próprios métodos
e sua própria terminologia. E, sobretudo, possuíam aquilo que
todas as outras escolas de pensamento se gabavam de ter em seus
primeiros dias: uma apaixonada convicção de que o seu era o
melhor caminho a ser seguido pela psicologia.

Apesar desses símbolos e características de escola de pensamento,


a psicologia humanista não se tornou de fato uma escola. Foi esse
o julgamento dos próprios psicólogos humanistas numa reunião
de 1985, quase três décadas depois do início do movimento. “A
psicologia humanista foi uma grande experiência”, disse um
deles, “mas é basicamente uma experiência fracassada, já que não
há uma escola de pensamento humanista em psicologia, nem uma
teoria que possa ser reconhecida como uma filosofia da ciência”
(Cunnigham, 1985, p. 18).

Carl Rogers concordou. “A psicologia humanista não tem tido um


impacto significativo sobre a corrente principal da psicologia”,
afirmou. “Somos percebidos como tendo relativamente pouca
importância” (Cunningham, 1985, p. 16). Rogers disse aos que
apoiavam a sua posição que, se quisessem uma prova de sua
afirmação, bastava que examinassem qualquer manual
introdutório de psicologia. Ali, encontrariam os mesmos tópicos
que caracterizavam a psicologia vinte e cinco anos antes, com
pouca menção à pessoa inteira. Uma análise dos manuais
correntes na época revelou que Rogers tinha razão: menos de 1%
do conteúdo dos livros se ocupava da psicologia humanista. Os
poucos dados existentes falavam apenas da hierarquia de
necessidades de Maslow e da terapia centrada na pessoa de
Rogers (Churchill, 1988).

Por que a psicologia humanista não se tornou parte da corrente


principal do pensamento psicológico? Uma das razões é que a
maioria dos psicólogos humanistas trabalha em clínicas
particulares, e não em universidades. Ao contrário dos psicólogos
acadêmicos, os humanistas não fizeram o mesmo número de
pesquisas nem publicaram artigos ou treinaram novas gerações de
alunos de pós-graduação para dar continuidade à sua tradição.

Outra razão se relaciona com o momento do seu protesto. No seu


auge, os anos 60 e início dos 70, os psicólogos humanistas
atacavam posições que já não tinham tanta influência na
psicologia. Tanto a psicanálise freudiana como o
comportamentalismo skinneriano já tinham sido amortecidos e
enfraquecidos pela divisão em seus quadros, e ambos já estavam
começando a mudar na direção indicada pelos psicólogos
humanistas. Tal como os gestaltistas ao chegarem aos Estados
Unidos, os psicólogos humanistas estavam se opondo, nos anos
60, a movimentos que já não dominavam em sua forma original.

Embora a psicologia humanista não tenha transformado o campo


como um todo, ele reforçou a idéia, contida na psicanálise, de que
podemos consciente e livremente preferir moldar a nossa própria
vida. Ela pode ter ajudado a fortalecer o crescente
reconhecimento da consciência na psicologia acadêmica, pois foi
contemporânea do movimento cognitivo. Ela promoveu métodos
terapêuticos que acentuam a auto-realização, a responsabilidade
pessoal e a liberdade de escolha, bem como a consideração da
pessoa no contexto da família, do trabalho e dos ambientes
sociais. A psicologia humanista ajudou a expandir e ratificar
mudanças já em curso, e, desse ponto de vista, pode-se considerar
o movimento bem-sucedido.

7 - A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL

CARLOS ANTONIO FRAGOSO GUIMARÃES publicou A


PSICOLOGIA
TRANSPESSOAL[http://geocities.yahoo.com.br/carlos.guimarae
s/psicotrans.html], que resume bem o que seja essa Quarta Força:
"Não apenas é o homem parte da natureza - e esta é parte sua -,
como deve ser minimamente isomórfico (semelhante a) com ela
para nela ser viável. Ela o gerou. Sua comunhão com aquilo que o
transcende não precisa ser definida, portanto, como não-natural
ou sobrenatural. Pode ser vista como uma experiência 'biológica'
".
Abraham Maslow

O que é e como surgiu a Psicologia Transpessoal


Foi em meados da década de sessenta, durante o rápido
desenvolvimento e aceitação dos pressupostos básicos da
psicologia humanista, com Maslow e Rogers, que alguns
psicólogos e psiquiatras começaram a discutir quais os limites e
características a que seria possível chegar o potencial da
consciência humana. Muitos pesquisadores achavam que a visão
da psique dada pela Psicanálise e pelo Behaviorismo eram, no
mínimo, bastante simplificadas e reducionistas, não explicando
uma grande gama de fenômenos mentais que escapavam - e muito
- do campo de alcance de tais teorias. E a Psiquiatria dava ainda
menos clareza sobre uma ampla gama de estados de conciência
claramente chocantes e, ao mesmo tempo, fascinantes, que não
podiam se restringir unicamente à história orgânico-biográfica de
alguns pacientes.

A grande maioria dos teóricos da personalidade toma por


fundamento básico a consciência em estado de vigília, ou
consciência normal, como sendo a única possibilidade saudável
de nível de percepção congnitiva. As caraceterísticas básicas desta
consciência normal, segundo Fadiman & Frager, é que a pessoa
sabe "quem é", tem perfeita noção de si mesma como uma
individualidade, e seu sentido de identidade é estável. Ou seja, a
pessoa tem uma idéia clara de ser uma individualidade
diferenciada do meio que a cerca. Estudos vários sobre a imagem
corporal e do sentido do ego concluem que qualquer desvio
desses limites é um grave sintoma psicopatológico. Só que tal
conclusão começou a ser seriamente questionada com vários
relatos e pesquisas sérias realizadas em várias partes do mundo.
Às vezes, experiências correlacionadas com um declínio de uma
psicopatologia e com a restauração da saúde psíquica podem
muito bem expor experiências subjetivas que ultrapassam e muito
os chamados limites normais do ego. William James já o havia
notado em fins do século passado. O resultado de muitas destas
pesquisas, muitas delas envolvendo psiquiatras e psicólogos
famosos, levantou uma séria questão: seria possível que algumas
das distinções que mantemos entre nós mesmos e o resto do
mundo sejam arbitrárias e/ou culturalmente condicionadas?
Talvez a consciência humana seja um vasto campo ou espectro,
semelhante ao espectro eletromagnético, onde cada "freqüência"
expressaria um modo de percepção, muito mais que um conjunto
firme de traços ou características rigidamente definidas de
expressão, já que em certas experiências - algumas delas
envolvendo psicodélicos ou drogas psicoativas - a consciência do
sujeito parece abranger elementos que não têm nenhuma
continuidade com sua identidade do ego usual e que não podem
ser considerados simples derivativos de suas experiências no
mundo convencional.
Vejamos esta descrição, feita por Stanislav Grof, de experiências
correlacionadas com o declínio de uma patologia (extraído, com
comentários meus, de Fadiman & Frager, 1986, página 168):
"No estado de consciência 'normal' ou usual, o indivíduo se
experimenta existindo dentro dos limites de seu corpo físico (a
imagem corporal), e sua percepção do meio ambiente é
restringida pela extensão, fisicamente determinada, de seus órgãos
de percepção externa; tanto a percepção interna quanto a
percepção do meio ambiente estão confinadas dentro dos limites
do espaço e do tempo (numa aceitação cultural das premissas do
paradigma cartesiano-newtoniano próprio da visão de mundo
ocidental nos últimos 300 anos). Em experiências psicodélicas
(área explorada por Grof em fins dos anos 50, na
Tchecoslováquia, e nos anos 60 nos EUA) de cunho
transpessoais, uma ou várias destas limitações parecem ser
transcendidas (este fenômeno também se encontra, de modo
esporádico, nas várias terapias psicológicas, tendo recebido
nomes como "Experiências Oceânicas" em Freud, "Experiências
Culminates" em Maslow, "Consciência Cósmica", em Weil,
"Experiência Mística", etc). Em alguns casos, o sujeito
experiencia um afrouxamento de seus limites usuais de ego e sua
consciência e autopercepção parecem expandir-se para incluir e
abranger outros indivíduos e elementos do mundo externo. Em
outros casos, ele continua experienciando sua própria identidade,
mas numa percepção de tempo diferente, num lugar diferente ou
em um diferente contexto. Ainda em outros casos, o individiuo
pode experienciar uma completa perda de sua própria identidade
egóica e uma total identificação com a consciência de uma 'outra'
entidade. Finalmente (em similiraridade com o que experiencia o
místico), numa categoria bastante ampla destas experiências
psicodélicas transpessoais (experiências arquetípicas, união com
Deus, etc.), a consciência do sejueito parece ambranger elementos
que não têm nenhuma continuidade com a sua identidade de ego
usual e que não podem ser considerados simples derivativos de
suas experiências do mundo tridimensional".
São, pois, estas experiências culminates e transuamas que são o
foco central da Psicologia Transpessoal.
Muitos renomados psicólogos humanísticos e alguns psiquiatras
insatisfeitos com a abordagem excessivamente mecanicista e
biomédica de sua disciplina mostraram crescente interesse por
áreas de estudo antes negligenciadas, e por tópicos de psicologia
próximas a estes estados-alterados de consciência, como, por
exemplo, as experiências místicas, ou de consciência de transe.
As tendências isoladas começaram a se unir graças aos trabalhos
de Abraham Maslow e Anthony Sutich, o que acabou por
consolidar a chamada Quarta Força em Psicologia (esta
classificação é feita com base em características próprias de cada
escola, não pelo contexto histórico. Assim, a Primeira seria o
Behaviorismo, a Segunda a Psicanálise e a Terceira o
Humanismo). Foi assim que nasceu a Psicologia Transpessoal,
como disciplina autônoma, no final dos anos sessenta, mas as
tendências desse movimento já existiam há muito tempo. Por
exemplo, Carl Gustav Jung, Roberto Assagioli e o próprio
Maslow já haviam lançado as bases para o movimento
transpessoal (Grof, 1988). Outros psicólogos, como Carl Rogers,
acabaram, na evolução de seu trabalho e de sua prática clínica,
por se encontrarem com dimensões transcendentes trazidos à tona
por clientes e grupos terapêuticos.
Carl Gustav Jung
Carl Gustav Jung pode ser considerado o mentor máximo e o
primeiro psicólogo transpessoal. As diferenças entre a Psicanálise
Freudiana e as teorias de Jung são muito bem representativas das
diferenças entre uma psicoterapia mecanicista e biomédica e uma
mais humana e holística. Ainda que Freud e muitos dos seus
discípulos tenham ido muito a fundo nas suas revisões da
psicologia ocidental, atingindo os limites do paradigma cartesiano
em Psicologia, apenas Jung questionou radicalemente seus
fundamentos filosóficos: a visão de mundo de Descartes e
Newton. Jung salientou, de modo convincente, aspectos não
racionais e não lineares da psique, que inclui o misterioso, o
criativo e o espiritual como meios válidos, ou formas holísticas-
intuitivas de conhecimento.
Jung via a psique como uma interação complementar entre
elementos conscientes e insconscientes, com uma constante troca
de infromação e fluidez entre ambos. O insconsciente não seria
um mero depósito psicobiológico de tendências instintivas
reprimidas. Ele seria um princípio ativo inteligente, que, em seu
estrato mais profundo, ligaria o indivíduo à toda a humanidade, à
natureza e ao cosmos. Ele não seria governado apenas pelo
determinismo histórico, como postulado por Freud, mas também
por uma ânsia evolutiva com uma função projetiva e teleológica.
Estudando a dinâmica do inconsciente, Jung descobriu as
unidades funcionais que chamou de complexos e, como tais,
foram adotadas po Freud. Os complexos são constelações de
elementos psíquicos - idéias, opiniões, atitudes e convicções -
associados com sensações diversas e que se juntam ao redor de
um tema nuclear. Partindo de áreas biograficamente determinadas
do inconsciente, Jung chegou aos padrões de criação dos mitos,
lendas e símbolos universais, aos quais ele deu o nome de
arquétipos e que expressam, de forma simbólica, conteúdos
psíquicos de significação emocional universal, como o processo
de maturação psíquica e outros (c.f. a Home Page sobre Jung).
Jung não acreditava que o ser humano fosse uma mera máquina
biológica. O conceito de máquina é extremamente antropomórfico
para ser um conceito natural. Além disso, ele reconhecia que o
processo de maturação psíquica pode, em certos casos,
transcender e muito os estreitos limites do ego e do inconsciente
individual. Por isso ele é considerado o primeiro representante da
orientação transpessoal em psicologia.
Pela sutil e cuidadosa análise de seus próprios sonhos, tal como
antes fizera Freud, bem como dos sonhos de seus pacientes e dos
delírios de pacientes psicóticos, Jung descobriu que os sonhos
têm, algumas vezes, imagens e motivos que se repetem e que
podem ser encontrados não só nas diversas partes do mundo,
como tabém em dirferentes períodos da história. Assim, ele
chegou à conclusão de que, além do inconsciente individual, há
um inconsciente coletivo ou racial, comum a toda a humanidade,
manisfestação da criatividade universal. As únicas fontes de
informação sobre os aspectos coletivos do incosnciente seriam o
estudo das religiões comparadas e da mitologia universal. Para
Freud, os mitos podem ser interpretados em termos de problemas
e conflitos caracterísiticos da infância e sua universalidade reflete
o conjunto da experiência humana compartilhada culturalmente.
Jung rejeitou tal explicação reducionista. Ele havia observado que
os enredos mitológicos universais ocorriam em indivíduos que
não tinham, de maneira alguma, qualquer conhecimento deles.
Isso lhe sugeriu que haveria elementos estruturais formadores de
mitos na psique inconsciente. Tais elementos originariam tanto a
fantasia viva e os sonhos pessoais quanto a mitologia dos povos.
Assim, os sonhos podem ser encarados como mitos individuais e
os mitos, como sonhos coletivos. De qualquer modo, estas
matrizes primárias são como a expressão instintual do potencial
psíquico que cada indivíduo terá de, em seu crescimento,
desenvolver.
Freud sempre demonstrou durante toda a sua vida um apaixoante
interesse por religião e espiritualidade, mas como expressão de
recalques do desenvolvimento psicossexual do homem expresso
na forma da cultura religiosa. Ele acreditava que era possível uma
compreensão do processo irracional conflitivo, que viria das que
fases do desenvolvimento psicossexual, responsável pelo
surgimento da religião. Jung, ao contrário, dispunha-se a aceitar o
irracional e o paradoxal como válidos em si mesmos. Ele estava
convicto da realidade da dimensão espiritual no esquema
universal das coisas. Sua suposição básica era que o elemento
espiritual é uma parte orgânica integral da psique. A verdadeira
espiritualidade, ou a sua busca, é um aspecto pulsional do
inconsciente coletivo, independente do condicionamento da
infância e da vida do indivíduo, do ponto de vista cultural e
educacional. Assim, se a análise e a auto-exploração alcançam
suficiente profundidade, os elementos espirituais emergem
espontanemante na consciência. A maior contribuição de Jung
para a psicoterapia é seu reconhecimento das dimensões
espirituais da psique e suas descobertas nos campos transpessoais.
O que faz de Jung um gênio na psicologia moderna é sua ampla
visão, que vai bem além de sua época, e o seu método científico.
O enfoque de Freud era estritamente histórico e determinísitco,
bem ao gosto do paradigma cartesiano-newtonino; ele se
interessava em encontrar explicações lineares-racionais para todos
os fenômenos psíquicos, seguindo uma gênese histórico-
biográfica. Jung estava convencido de que a causalidade linear
não era o único princípio mandatório na natureza. Ele criou um
termo, sincronicidade, para designar um princípio de ligação entre
eventos de forma NÃO-causal, o que explicaraia as chamamdas
coincidências significativas de ventos separados no tempo e/ou no
espaço. Também se interessava intensamente pelo
desenvolvimento da Física Moderna e mantinha estreito contato
com seus representantes mais proeminentes. Foi Einstein que,
durante um encontro pessoal, encorajou Jung a perseguir o
conceito de sincronicidade, e Wolfgang Pauli, um dos fundadores
da teoria quântica, publicou um ensaio conjunto com Jung sobre
sincronicidade, bem como escreveu um estudo sobre os
arquétipos na obra do físico Johannes Kepler. Não deixa de ser
tremendamente irônico o fato de que, embora Freud se orgulhasse
de a Psicanálise ser atrelada ao mecanicismo newtoniano e de que
os psicanalistas serem "mecanicistas incorrigíveis", ter sido a
psicologia "esotérica" de Jung a que tenha exercido maior
impacto entre os gênios da ciência moderna.
Mas o que tem a ver Física e Psicologia? Bem, os Físicos
modernos têm muito a dizer sobre a importância da consciência
na definição do que seja realidade. Eles, juntamente com os
místicos genuínos, parecem estar cada vez mais próximos uns dos
outros em suas tentativas para descrever o que seja o universo
(ver os excelentes livros de Fritjof Capra e de Lawrence LeShan).
Os reseultados das experiências transpessoais sugerem que a
natureza da gênese da consciência podem ser mais realisticamente
descritas por mísiticos e físicos modernos do que pela mais
estável e aceita linha psicológica acadêmica.
Muitos autores (Abraham Maslow, Pierre Weil, Stanislav Grof,
Ken Wilber, Walsh, Vaughan entre outros) oferecem a evidência
de que os assim chamados "estados alterados" são não só naturais,
como também são necessários para o bem-estar e a saúde do
indivíduo, após atingir um certo grau de desenvolvimento
cognitivo e ter atendido as necessidades básicas mais urgentes.
Maslow acredita que, a menos que tenhamos oportunidade de
mudarmos nosso estado de consciência, podem se desenvolver
sintomas emocionais graves se imperdirmos o afloramente dos
níves transcendentes da personalidade. Da mesma forma como
existe uma pulsão para a experiência sexual, também parece haver
uma pulsão para o desenvolvimento de níveis de percepção.
Roberto Assagioli
Outro autor de importância para o desenvolvimento da Psicologia
Transpessoal é Roberto Assagioli. Ele é o criador da
psicossíntese, que é um tipo de resposta ao método fragmentar da
psicanálise, onde está claro a responsabilidade do indivíduo no
processo do próprio crescimento, que é um impulso constante em
todos as pessoas, apesar de relativamente tênue, embora poucas se
dêem a chance de se desenvolverem plenamente.
A cartografia de Assagioli sobre a personalidade humana tem
muito em comum com o modelo junguiano da psique, uma vez
que inclui os campos espirituais e os elementos coletivos da
psique. Ele se consitui de sete consituintes dinâmicos: o
insconsciente inferior orienta as atividades psicológicas básicas,
como as pulsões sexuais e os complexos emocionais. O
inconsciente médio seria algo como o subconsciente. O campo
superconsciente é o local dos sentimentos e aptidões superiores,
onde se localizam a intuição e a inspiração. O campo da
consciência inclui os pensamentos e sentimentos analisáveis. O
ponto central da psique é o self. Todos esses componentes são
anexados ao inconsciente coletivo.
O processo terapêutico fundamental da psicossíntese envolve
quatro estágios consecutivos. Primeiro, o cliente toma
conhecimento dos vários elementos (didaticamente falando) de
sua personalidade, o que inclui seu ego ideal e o seu ego real, com
todos os defeitos que a pessoa gostaria de suprimir. Depois que
estiver bem familiarizado com eles, ele terá que começar a se
desindentificar com esses elementos (conhecer-se a si mesmo e
perceber que suas várias características são apenas características,
não o fundamento do ser, ou self). Depois que a pessoa descobre
seu centro psicológico unificador, é possível a realização total da
psicossíntese, caracterizada pela culminância do processo de auto-
realização pela integração dos componentes da personalidade à
volta do novo centro, o self.
Abraham Maslow
Foi AbrahamMaslow quem primeiro formulou, explicitamente, os
princípios da psicologia transpessoal como uma abordagem
diferenciada. Uma de suas mais importantes contribuições é seu
estudo sobre pessoas que vivenciaram, espontaneamente, as
chamadas experiências místicas de "pico". Na psicoterapia
tradicional, experiências místicas de qualquer tipo são sempre
taxadas como sérias psicopatologias. Em seu muito bem-feito
estudo, Maslow desmonstrou que as pessoas que tiveram
experieencias espontâneas de "pico" benceficiavam-se delas e
mostravam um claríssima tendência para a auto-realização, que é
o objetivo da psicoterapia humanística. Ele julgou estas
experiências como supernormais em vez de subnormais. A partir
desse fato, ele erigiu os fundamentos da nova psicologia.
Um outro aspecto importante do trabalho de Maslow é a análise
das necessidades humanas e sua revisão geral da teoria dos
instintos. Ele descobriu que as maiores necessidades representam
um aspecto importante e autêntico das estrutura da personalidade
humana e não pode ser reduzido a uma mera derivação de
instintos básicos (a idéia de instinto sugere uma busca da ligação
do comportamento humano dentro das diretrizes da ciência
mecanicista convencional). Segundo ele, as maiores necessidades
têm um papel importante na doença e na saúde mental. Valores
superiores (metavalores) e os impulsos para alcança-los
(metamotivações) são intrínsecos à natureza humana, possuindo
uma fundamentação tão biológica quanto a pulsão sexual, por
exemplo.
Eis as palavras de Maslow anunciando o desenvolvimento da
Psicologia Transpessoal (Maslow, 1968, página 12):
"Devo também dizer que considero a Psicologia Humanística, ou
Terceira Força em Psicologia, apenas transitória, uma preparação
para uma Quarta Força ainda "mais elevada", transpessoal,
transumana, centrada mais na ecologia universal do que nas
necessidades interesses restritos ao ego, indo além da identidade,
da individuação e congêneres... Necessitamos de algo "maior do
que somos", que seja respeitado por nós mesmos e a que nos
entreguemos num novo sentido, naturalista, empírico, não-
eclesiástico, talvez como Thoreau e Whitman, William James e
John Dewey fizeram".
Carl Rogers
Apesar de não ser incluído, pela maioria dos autores, como um
psicólogo transpessoal, mas como um dos mais significativos
psicólogos humanistas, não escapou à Carl Rogers as chamadas
dimensões transcendentes ou espirituais que frequentemente
emergiam no contexto terapêutico, especialmente em termos de
Terapia de Grupo, na qual Rogers foi grande pioneiro. E foi
exatamente a partir do revolucionário trabalho com Grandes
Grupos e em Workshorps, na última fase de sua formulação
teórica, que a temática transpessoal começa a se delinear nos
escritos do criador da Abordagem Centrada na Pessoa, e nos
escritos de seus principais colaboradores. John K. Wood, por
exemplo, escreveu o seguinte comentário (Rogers, 1983b) sobre
as ocorrências transpessoais que costumam ocorrer em Grandes
Grupos:
Freqüentemente as pessoas compartilham e falam de sonhos sem
interpretação ou comentário. Sonhos comuns muitas vezes
ocorrem. Algumas pessoas reportam "experiências místicas" (...).
As mesmas idéias e mitos [imagens arquetípicas] frequentemente
emergem de várias pessoas ao mesmo tempo. (Rogers, 1983b, p.
34)
O próprio Rogers se refere muitas vezes em suas últimas obras às
percepções transpessoais e fenômenos congêneres de estados sutis
de consciência, e estabelece que estes são eventos observáveis e
inerentes ao trabalho bem sucedido com Grandes Grupos e
Workshops:
O outro aspecto importante do processo de formação de [Grandes
Grupos] com que tenho tido contato é a sua transcendência e
espiritualidade. Há alguns anos eu jamais empregaria estas
palavras. Mas a estrema sabedoria do grupo, a presença de uma
comunicação profunda quase telepática, a sensação de que existe
"algo mais", parecem exigir tais termos (Rogers, 1983a, p. 62).

Tenho a certeza de que este tipo de fenômeno transcendente às


vezes é vivido em alguns grupos com que tenho trabalhado,
provocando mudanças na vida de alguns participantes. Um deles
colocou de forma eloqüente: "Acho que vivi uma experiência
espiritual profunda, senti que havia uma comunhão espiritual no
grupo. Respiramos juntos, sentimos juntos, e até falamos uns
pelos outros. Senti o poder de força vital que anima cada um de
nós, não importa o que isso seja. Senti sua presença sem as
barreiras usuais do 'eu' e do 'você' - foi como uma experiência de
meditação, quando me sinto como um centro de consciência,
como parte de uma consciência mais ampla, universal. (Rogers,
1983a, pp. 47-48)
De certa forma, Rogers parecia estar indicando que a ACP por ele
elaborada, junto com seus colaboradores, estaria se
desenvolvendo ao ponto de incluir as dimensões transpessoais em
seu arcabouço teórico, mas a sua morte o impediu de levar adiante
seus insights:
Tenho a certeza de que nossas experiências terapêuticas e grupais
lidam com o transcendente, o indescritível, o espiritual. Sou
levado a crer que eu, como muitos outros, tenho subestimado a
importância da dimensão espiritual ou mística (Rogers, 1983a, p.
53).
Características de uma nova Psicologia
A nova psicologia que surge, apoiada nuca concepção holística e
sistêmica, considera o organismo humano como um todo
integrado que envolve padrões físicos, mentais, sociais e
espirituais. Assim, a base conceitual da Psicologia dever ser
compatível tanto com a da Biologia quanto da Sociologia,
Antropologia e Filosofia. No modelo acadêmico moderno, a
estrutura voltada à especialização do conhecimento tornou muito
difícil a comunicação entre as disciplinas, e entre biólogos e
psicólogos o entendimento era muito sofrido. E pior era a
comunicação, cheia de medos e ressentimentos, entre psicólogos e
médicos. Mas a abordagem sistêmica fornece um terreno propício
para a compreensão das manifestações psicossomática do
organismo na saúde e na doença, permitindo um intercâmbio,
desde que se queira, entre biomédicos e psicólogos.
O foco central da psicologia está tendendo a se transferir das
estruturas psicológicas para os processos relacionais subjacentes.
A psique humana é vista como um sistema dinâmico que envolve
uma variedade de fenômenos ligados à auto-atualização e
crescimento contínuos. Assim, a psique teria um tipo de
inteligência intríseca que a habilita a envolver-se a tal ponto com
o meio, que este processo pode levar não só a uma doença, mas
também ao processo de cura e crescimento, como a concepção de
autortranscendência da teoria dos sistemas.
O Espectro da Consciência
Um dos sistemas didáticos, em psicologia, que procura integrar os
diferentes insights das várias escolas psicoterapêuticas do
ocidente entre si, e estas com as várias abordagens orientais, é a
Psicologia do Espectro, proposta por Ken Wilber, como um
modelo da compreensão transpessoal das diferenças entre
psicoterapias. Nele, cada uma das diferentes escolas é vista como
uma faixa que se dedica a um aspecto específico do total a que se
pode apresentar a consciência humana. Cada uma dessas escolas
aponta para um estado de consciência que se caracteriza por
possuir um diferente senso de identidade, indo da pequena
identidade restrita ao ego até à suprema identidade com todo o
universo, que é o nível extremo da consciência transpessoal. Este
espectro pode ser entendido a partir de qutro níveis: o do ego, o
biossocial, o existencial e o transpessal.
No nível do ego, a pessoa não se indentifica, a rigor, com o seu
organismo, mas com uma representação mental, ou com um
conceito do mesmo, como uma auto-imagem construida, ou
egóica. É, pois, um problema de identificação com um modelo
que a pessoa aceita, num investimento, como sendo seu "eu".
Existe - para ela - um "eu" que é diferente e independente de tudo
e de todos. A pessoa não se interessa muito em cultivar relações
interpessoas sem que haja uma vantagem específica para o ego, e
muito menos se preocupa com aspectos ecológicos ou sociais.
O nível biossocial já envolve a consciência e a preocupação com
o nível e com os aspectos do ambiente social da pessoa. A
influência preponderante é a de padrões culturais e sociais. A
pessoa sente como fazendo parte - e tendo alguma
responsabilidade - pelo seu meio-ambiente social e natural.
O Nível existencial é o nível do organismo total, caracterizado por
um senso de identidade corpo/mente auto-organizador. É o nível
dos ideais humanistas e do pensamento mais sofisiticado, em
termos de filosofia de vida. Emoção e rezão estão mais ou menos
associadas para o crescimento e o desenvolvimento das
potencialidades do homem, desde que os meios sejam
razoavelmente propícios. Quando não, ainda assim a pessoa luta
para se auto-atualizar e a ajudar seus semelhates. Alto grau de
desenvolvimento moral é frequentemente associado a este estágio.
O nível transpessoal é o nível da expansão da consciência para
além das fronteiras do ego, correspondendo a um senso de
indentidade mais amplo. Elas podem encolver percepções do
meio ambiente, onde tudo está, de uma forma sutil mas muito
presente, ligado - de forma NÃO LINEAR - a tudo. É o nível do
inconsciente coletivo e dos fenômenos que lhe estão associados,
tal como descritos por Jung e seguidores. É também neste nível de
percepção que podem - mas não necessariamente ocorrem ou são
regra geral próprias de uma percepção transpessoal - surgir, como
eventos secundários, certos fenômenos parpsicológicos, como
telepatia, precognição ou - o que não tipifica um fenômeno
parapsicológico, mas sim psicológico - lembranças de vidas
passadas. É uma forma extremamente sofisticada e não oprdinária
de consciência em que a pessoa não aceita mais a crença uma
separação rígida entre ela e todo o universo, a não ser como uma
forma de atuar praticamente sobre o meio em que vive com outras
pessoas. Essa forma de consciência transcende,e muito, o
raciocíonio lógico concvencional, e aproxima-se das assim
chamadas experiências místicas. E é este estado que é objeto mais
íntimo de estudo da Psicologia Transpessoal.
Enfim, para terminar, é preciso definir o relacionamento entre a
prática da psicologia transpessoal e os enfoques tradicionais de
psicoterapia. O que caraceteriza um terapeuta transpessoal não é o
seu conteúdo, mas o contexto. O conteúdo é determinado pela
relação terapêutica em si, entre cliente e terapeuta, como bem o
estabeleceu Carl Rogers. Um terapêuta transpessoal lida com os
problemas que emergem durante o processo terapêutico, incluindo
acontecimentos mundanos, fatos biográficos e problemas
existenciais. O que realmente define a orientação transpessoal é
um modelo da psique humana que reconhece a importância das
dimensões espirituais e o potencial para a evolução da
consciência. O terapeuta transpessoal deve ser consciente do
espectro total e deve sempre acompanhar o cliente a novos
campos experienciais, quando há oportunidade, não importando
qual o nível que o processo terapêutico esteja focalizando.
CONCLUSÃO

Nos tempos atuais, onde todos os valores são colocados sob


análise crítica, o Judiciário tem sido abordado pela opinião
pública com pouca compreensão pelo importante papel que
desempenha.

Para enfrentar as necessidades da nossa época têm sido propostas


reformas do Judiciário a nivel exterior, que não afetam nosso
mundo interior.

Essas proposições apresentam-se insuficientes, pois, se criam


novas técnicas de atuação externa, permanecemos envolvidos pela
mesma inciência das forças interiores, que influem no nosso dia-
a-dia profissional.

A presença do inconsciente no nosso trabalho é inquestionável e


precisa ser conhecida e canalizada de forma útil.

Somente através de um estudo competente se tem acesso ao auto-


conhecimento.

Podemos nos aperfeiçoar nessa área tanto quanto nos estudos


jurídicos, para melhor desenvolvermos nosso trabalho.

Assim fazendo, teremos não a paz social formal, decorrente da


prolação de sentenças, mas a paz social real, passificando as
pessoas.

Assim estaremos atendendo às espectativas das comunidades.

NOTAS

[1] Na Internet [http://pt.wikipedia.org/wiki] há uma conceituação


da Psicologia:
A psicologia é uma ciência que se propõe a tarefa de estabelecer
as leis básicas do comportamento, estudar as vias de sua
evolução, descobrir os mecanismos que lhe servem de base e
descrever as mudanças que ocorrem nessa atividade nos estados
patológicos. Especializações: Psicologia comparada, Psicologia
do desenvolvimento, Psicologia fisiológica, Psicologia social,
Psicologia clínica, Psicologia organizacional, Psicologia
educacional, Psicologia da saúde]]. Existem inúmeras linhas
teóricas na psicologia, o que nos obriga a não falar em uma
psicologia, mas em ciências psicológicas. Entre as linhas mais
conhecidas, estão o behaviorismo radical, a psicologia cognitiva,
as linhas psicanalíticas, o construtivismo, o sócio-interacionismo,
a gestalt-terapia, a psicologia da consciência, a perspectiva
centrada no cliente, e a psicologia da auto-atualização.

Na Internet
[http://www.filosofiaclinica.com.br/Resenhas/resenhas%20-
%20clinical%20philosophy%20-%20filosofia%20clínica.htm]
encontra-se o texto abaixo, excelente para principiantes, e que
mostra, resumidamente, a história da Psicologia:

A DEFINIÇÃO DA PSICOLOGIA

FRED SIMMONS KELLER, 1899-……

EDIÇÃO NORTE-AMERICANA – 1937

TRADUÇÃO BRASILEIRA – 1965

EDITORA PEDAGÓGICA E UNIVERSITÁRIA LTDA.

4a REIMPRESSÃO - 1974

por JOÃO BATISTA DE CASTRO

(filósofo clínico, psiquiatra e psicoterapeuta de Goiânia)


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§ Definir a psicologia – O autor deste livro optou por definir a


psicologia “em termos dos teorizadores individuais que tiveram
idéias mais vivas sobre o assunto. Tal procedimento é discutível,
já que focaliza a atenção sobre os homens, em vez de sobre os
desenvolvimentos mais amplos nos quais desempenharam
meramente uma parte conspícua; mas espera-se que o que se
perde em generalidade possa ser recuperado na moeda da
especificidade”. Pág. 59.
PREFÁCIO
Nova York, 1937.

I - A HISTÓRIA DO PROBLEMA
§ Há dificuldades em definir a psicologia e avaliar o tremendo
avanço dos últimos anos.

1) O homem primitivo tinha opiniões “psicológicas”: a crença das


“almas-sombras”.

2) ARISTÓTELES, 382-322, o verdadeiro pai de toda a


psicologia: a mente é como uma tabuinha inicialmente em branco
– tabula rasa.

3) CLAUDIUS GALENO, 130-199, médico grego. Classificação


dos temperamentos e localização da razão no cérebro.

4) TOMÁS DE AQUINO, 1224-1275.

5) RENÉ DESCARTES, 1596-1650, filósofo francês,


matemático, o pai da psicologia moderna. A “mente” é o que
“pensa”, cuja principal sede está na cabeça e não pode ocupar
nenhum espaço físico. Os animais não têm mente. Mente = alma:
é unitária. O “corpo” é uma “substância extensa”; tem duas
metades simétricas. A alma influencia o corpo através do corpo
pineal.
O movimento do corpo pineal modifica o fluxo dos espíritos e
interrompe a seqüência de atividade de corda-de-sino (nervos
sensoriais) e tubo (nervos motores). Os espíritos descem pelos
tubos até os músculos e provocam as ações. Explicação sino-
corda-tubo: DESCARTES imaginou existir um sistema nervoso
que explicasse as conexões entre músculos e órgãos dos sentidos,
entre respostas e estímulos. Duas principais contribuições:

1a o dualismo interacionista (um tipo de relação “mente-corpo”).

2a a idéia é “inata” (pertence à inteligência sem o influxo do


mundo exterior).

NOTAS:

1a O problema das respostas “inatas” versus “adquiridas” já era


velho!

2a Outra contribuição: classificação das emoções primárias:


admiração, amor, ódio, desejo, alegria e tristeza, das quais as
outras derivavam.

3a Sensoriais: nervos que conduzem impulsos dos órgãos dos


sentidos para o cérebro ou para a medula.

4a Motores: nervos que conduzem impulsos do cérebro ou da


medula para os órgãos motores: músculos e glândulas.

6) JOHN LOCKE, 1632-1704, filósofo inglês. A natureza e a


aquisição do conhecimento. Livro: ENSAIO SOBRE A
NATUREZA HUMANA. Todas as idéias provêm da experiência:
a mente, no seu estado virginal, é como uma folha de papel em
branco.

Origem das idéias:

1o dos sentidos (diretamente);


2o da reflexão da mente sobre o conhecimento vindo dos sentidos
(indiretamente): idéias de idéias!

Classificação das idéias:

1o simples – a) idéias simples primárias – assemelham-se aos


objetos do mundo exterior que as causam (solidez, figura
movimento) e b) idéias simples secundárias – não se assemelham
aos objetos do mundo exterior que as causam. (cores, sons,
sabores), por isso LOCKE reconheceu que algumas percepções do
mundo não podem ser “reflexos especulares” do próprio mundo,
pelo menos a correspondência da representação não é unívoca.

2o complexas (composição das simples).

Criou o movimento filosófico Empirismo Inglês, base da moderna


psicologia experimental. Eliminou da experiência tudo, menos as
impressões dos sentidos e suas combinações; aceitou a existência
de objetos que fossem semelhantes às nossas idéias. Idéia é
qualquer pensar da mente. LOCKE acredita que, direta ou
indiretamente, podemos conhecer o mundo exterior. Essas noções
de análise, combinação e composição de idéias acenaram para a
possibilidade de analisar a mente humana em elementos, bem
como a da natureza provável destes elementos, mais tarde. Foi “o
primeiro associacionista”. Escreveu um capítulo do seu livro com
o título de “associação de idéias”.

7) GEORGE BERKELEY, 1685-1753, filósofo e bispo irlandês,


“idealista subjetivo” – Não há matéria! Não existem objetos. Deus
é quem dá e garante as idéias. A mente não representa os objetos.
A mente é a única realidade verdadeira!

A “mente” gera a “matéria” (mais especificamente “coisas” ou


“objetos”) pela combinação ou associação de certas idéias.

Idealismo (tipo de relação “mente-corpo”) não é a opinião das


pessoas médias!
Livro: NOVA TEORIA DA VISÃO. A avaliação das distâncias
ou da solidez dos objetos é um problema psicológico, desde
LEONARDO DA VINCI e DESCARTES. BERKELEY: nunca
percebemos a visão em profundidade ou a terceira dimensão
diretamente. A avaliação da distância depende de:

a) Tamanho relativo dos objetos;

b) Interposição;

c) Perspectiva aérea;

d) Apreciação da distância entre as pupilas dos olhos. Hoje:


convergência binocular: quanto maior a convergência, mais
próximo está o objeto, e vice-versa;

e) Objetos muito próximos do olho requerem grande contração


destes músculos (hoje chamada acomodação).

BERKELEY tivesse usado técnicas experimentais, seria o pai da


psicologia experimental!

8) DAVID HUME, 1711-1776, filósofo escocês, historiador,


estadista. Questiona a existência de Deus e da alma. A única
realidade: as impressões e as idéias. Sua teoria psicológica da
“causalidade” (a relação entre causa e efeito): não há uma
conexão necessária entre duas coisas quaisquer no mundo
objetivo. HUME distingue impressões (chamadas posteriormente
de sensações) de idéias (chamadas posteriormente de imagens).
As idéias são cópias desmaiadas das impressões. Não é fácil
distinguir idéias de impressões apenas na base da experiência.

“Nada é tão usual e tão natural para aqueles que pretendem ter
descoberto algo de novo no mundo da filosofia e das ciências do
que insinuar elogios a seu próprio sistema, através do vitupério a
todos os que tinham sido avançado antes”.

9) DAVID HARTLEY, 1705-1757, médico inglês, erudito,


dualista paralelista. Desenvolveu:

1o o conceito de “associação”, incluindo além das idéias,


sensações e ações.

2o o conceito de “paralelismo psicofísico” (chamado hoje):


relação entre “mente-corpo”. O dualismo paralelista é o mais
aceito pela maioria dos psicólogos mais modernos: os eventos
mentais correm paralelos, mas não afetados pelos eventos
corporais. A mente e o corpo são como dois relógios, colocados
um de costas para o outro, andando exatamente ao mesmo tempo
um com outro, mas sem nenhuma influência recíproca.

10)JAMES MILL, 1773-1836. Escocês, sucessor de HARTLEY.


As sensações sãos as unidades fundamentais da mente. As idéias
são cópias das sensações. Deu grande importância à “associação
de idéias”, explicando a vida mental, a formação de idéias
complexas e cadeias de idéias. Mais apoio à Lógica do que à
experiência. Uma idéia complexa é o somatório de muitas idéias
simples, cuja concepção foi chamada posteriormente de
“mecânica mental”. Mais interessado no que deveria ser um
complexo de idéias do que no que poderia ser encontrado.

11)JOHN STUART MILL, 1806-1873. Filho de JAMES MILL.


Mais apoio à experiência do que à Lógica.

Diferencia-se do pai (onde diferiu de seu pai, mais se aproximou


das doutrinas modernas!):

1o uma idéia complexa é mais do que a mera soma de


componentes simples, cuja concepção foi chamada
posteriormente de “química mental”.

2o Menos interessado no que deveria ser um complexo de idéias


do que no que poderia ser encontrado.

12)CHARLES DARWIN, 1809-1882. O animal tem alma. Esta


só se difere da alma humana em grau, não em espécie. A forma
mais elevada do princípio evolucionista era um desenvolvimento
evolucionário direto da inferior. A psicologia, excetuando o
funcionalismo, tem negligenciado a natureza e o desenvolvimento
da mente.

13)HERBERT SPENCER, filósofo e cientista inglês. Concepção


do “associacionismo evolucionário” – doutrina da “herança das
associações adquiridas”: reconciliação entre “algo inato” com
“tudo da experiência”: a mente humana é o que é através da
experiência racial tanto quanto da individual. O “inato” se reduz à
experiência ancestral. Diferencia o que é aprendido do que não é
aprendido, ou dado, na conduta humana.

14) GUSTAV THEODOR FECHNER, 1801-1887, médico


alemão, matemático e físico. O “pai da psicologia quantitativa ou
experimental”. Fundamentalmente não foi um psicólogo. Aos 49
anos, após sério e prolongado “esgotamento nervoso” se
interessou ativamente pelas relações da mente com o corpo,
abordando-as pelo método experimental. A psicologia
experimental primitiva baseava-se em técnicas e descobertas
fisiológicas. “Instrumentos de latão” é uma facécia que
caracteriza o tipo de psicologia que utiliza os aparelhos e técnicas
do fisiólogo ou do físico na investigação da mente.

Fundador da ciência da “psicofísica”, relacionando sensações


(algo mental) e estímulos (algo físico). Deixou claro que técnicas
experimentais e procedimentos matemáticos podiam ser aplicados
a problemas psicológicos. Desenvolveu métodos de mensuração.
Conclusão irrefutável: quaisquer que sejam as opiniões filosóficas
a respeito do problema corpo-mente, há ainda a possibilidade de
construir uma psicologia experimental.

§ FRENOLOGIA (hoje desacreditada!) – certas “faculdades”


mentais (comparáveis aos modernos “traços” de personalidade)
relacionam-se diretamente ao desenvolvimento de certas áreas
cerebrais (como as várias protuberâncias ou “calombos” do
crânio).
§ Independentemente da falta temporária de uma definição
universalmente satisfatória – o verdadeiro objeto da psicologia -,
a abordagem científica não deve ser desprezada.

II - O APARECIMENTO DA PSICOLOGIA MODERNA


§ Diferenciar “pais” de “fundadores” das ciências. Os “pais”
preparam o solo e lançam as sementes; os “fundadores” cuidam
do plantio. Podem ser muitos os “pais”, mas são poucos os
“fundadores”.

§ WILHELM WUNDT, 1832-1920, médico alemão, fisiólogo,


filósofo, lógico e ético. O verdadeiro pai da moderna psicologia
experimental. Dualista paralelista. Com a atividade do cérebro
vinha a atividade mental, mas a 1a, na realidade, não “causa” a
2a, nem poderia a 2a causar a 1a. A “psicologia fisiológica” era a
melhor maneira de designar o interesse duplo da nova psicologia
e a íntima relação entre a atividade fisiológica e a atividade
psicológica. Fundamentalmente foi um psicólogo. Análise
excessivamente minuciosa de conteúdos mentais! Adicionou às
técnicas e descobertas fisiológicas, a filosofia, a astronomia, a
antropologia, o hipnotismo.

Livro: ESBOÇOS DE PSICOLOGIA FISIOLÓGICA: “Livro


mais importante na história da psicologia moderna”. Foi o 1o
livro de texto da nova ciência e nenhum desse material é de
leitura “fácil”! Criou o 1o laboratório psicológico do mundo,
1879, na Universidade de Leipzig. Criou uma revista científica,
1881. Publicou, em media, mais de 02 páginas por dia, durante 68
anos. Foi a 1a psicologia “sistemática”: definição + métodos +
problemas + classificação dos resultados.

Definição: a psicologia é “a ciência da experiência imediata,


consciência ou processo mental”. Experiência: sensações,
percepções, sentimentos, emoções etc.

Métodos: 1o “introspecção” (o “observar” da consciência), 2o


análise e 3o experimentação. “O mundo exterior” era apenas outra
experiência. O que fazer com a experiência?
a) análise dos elementos da natureza de suas conexões
(associações): identificar os elementos fundamentais, irredutíveis,
antes de empreender a demonstração de suas relações uns com os
outros em fusões e combinações da vida mental cotidiana (a
dessecação mental até a unidade simples: exemplo vermelho);

b) determinar as leis das conexões.

OBS.: A “idéia” de JOHN LOCKE é totalmente diferente do


processo sensorial ou imagístico de WUNDT.

Problema: descrever o conteúdo ou estrutura da mente em termos


de elementos e suas combinações, desenvolvimento mental e
evolução, causa e efeito, inato e adquirido, linguagem, memória,
pensamento, volição. WUNDT ambicionava explicar as relações
da mente-corpo pelo uso dos métodos da ciência.

§ Quando o “sistema” ou ponto de vista de um autor é aceitável


por certo número de outros, que o divulgam, é ordinariamente
uma “escola”.

III - O ESTRUTURALISMO

§ EDWARD BRADFORD TITCHENER, 1867-1927, inglês,


revisou o sistema de WUNDT e o apresentou ao mundo de língua
inglesa. Universidade de CORNELL – EUA. TITCHENER
chamou o seu sistema de “existencialismo” porque o mundo dos
processos mentais ou das experiências (“simples existência”) é o
único mundo que a ciência pode conhecer. Mas o seu sistema veio
a ser conhecido por Sistema ou escola “estrutural” ou
“introspectiva”.

Definição: “Psicologia é a ciência da mente, aquela que pode ser


descrita em termos de fatos observados, não um serzinho
insubstancial dentro de nossas cabeças”. As demais ciências
descrevem o mundo mas o homem é “deixado de fora”; a
psicologia descreve o mundo tal como é na experiência humana
com o homem “dentro dele”. A mente inclui todos os fenômenos
da experiência humana considerados como dependentes de um
sistema nervoso: nem todos os eventos do sistema nervoso têm
paralelo nos eventos mentais, mas todo o mental tem sua
contrapartida em algo físico que ocorre no cérebro em resultado
da estimulação dos órgãos dos sentidos ou nervos.

Método: Há um experimentador e um observador nos estudos de


laboratório. O experimentador estabelece as condições essenciais
e o observador relata sua “experiência”, relatório que é registrado,
naturalmente, pelo experimentador. Distingue observação
psicológica (introspecção) de observação física (inspeção).
Introspecção não é reflexão sobre ou contemplação da própria
experiência (como DESCARTES e os empiristas ingleses) nem
introversão. A distinção entre ambas é feita pela diferença de
atitude.Toda observação científica:

a) atitude em relação à própria experiência,

b) experienciar ele próprio,

c) relato adequado da experiência em palavras.

Problema:

1. Análise introspectiva dos fenômenos mentais (complexos


perceptivos ou imagéticos) em seus elementos. Dar resposta à
pergunta “o quê?” Classificação em divisão, em sub-divisão etc.;

2. Síntese do estudo das conexões entre os processos mentais


elementares; determinação de suas leis de conexão. Dar resposta à
pergunta “como?”. Embora mais difícil que a análise, acompanha-
a pari passu. Vai-se do simples para o complexo.

3. Correlação da mente com o sistema nervoso (além de


WUNDT). O corpo não é causa da mente, mas as idéias se
formam em condições de certos processos nervosos (Dualismo
Paralelista). Dar resposta à pergunta “por quê?”.
Classificação dos elementos mentais segundo a análise
introspectiva:

1a Sensações – elementos sensoriais: visual, auditivo, olfativo,


gustativo, cutâneo, cinestético (sensações ou sinais procedentes
do músculos, tendões e juntas) e orgânico (sensações mal
definidas provenientes dos sistemas digestivo, urinário,
circulatório, respiratório e genital).

OBS.: O trabalho de descoberta, classificação e correlação das


sensações já vinha desde ARISTÓTELES sendo feito, mas
TITCHENER sistematizou as sensações dentro de seu sistema:
“Vermelho”, “doce” ou “dó sustenido” são sensações (elementos
mentais irredutíveis) comparáveis aos elementos da química.
Atributos são certas propriedades:

1) Qualidade;

2) Intensidade;

3) Duração;

4) Vivacidade;

5) Extensão – apenas para as sensações cutâneas e visuais.

OBS.: Considerados os atributos mais importantes: qualidade e


intensidade.

2a Imagens: não se distinguem as sensações exclusivamente pela


observação introspectiva. Há uma imagem para cada sentido,
excetuando o cinestético. A lista é longa de modalidades de
imagens, pois há diferentes espécies dentro de um mesmo sentido.
As imagens têm os atributos das sensações e mais outros.

3a Afecções ou verdadeiros sentimentos: distinguem-se das


sensações pelo número de atributos e sempre tem uma de duas
qualidades – agrado e desagrado. As outras categorias de
sentimento não são elementares: são combinações. Tensão,
relaxamento, excitação e calma são sentimentos-sensoriais:
combinações de sensações orgânicas e sentimentos verdadeiros.

OBS.: antes de sua morte, TITCHENER concluiu que mesmo os


sentimentos seriam provavelmente redutíveis a sensações.

Estruturas mentais (os elementos se fundem ou formam padrões


no espaço e tempo pela Lei da Associação):

1. Percepções e Idéias: unidades da vida mental diária. Ambas


têm um significado. Decompõem-se em sensações e imagens e
são “moldadas pela ação de forças nervosas que não se mostram
nem na sensação nem na imagem”. A idéia típica possui um
núcleo de imagens: núcleo imagético. A idéia pode incluir
sensação material que adicione à sua complexidade.

2. Emoções

3. Associação

4. Memória

5. Pensamento

6. Sentimentos

7. “Eu”

§ TITCHENER defendia:

1) “hipótese do feixe”: sensações, imagens e sentimentos são a


matéria-prima de que a mente está construída.

2) Teoria do contexto do significado: “Significado” é influência


de experiência passada! Percepções de um mesmo objeto
procedentes de órgãos sensoriais diferentes apresentam o mesmo
significado. Essa teoria é um desenvolvimento da teoria da
percepção de distância de BERKELEY. O “significado”... “é
sempre contexto; um processo mental é o significado de outro
processo mental se for o contexto deste outro”. O próprio
contexto não é nada senão “a fímbria de processos relacionados
que se reúnem em torno de um grupo central de sensações ou
imagens”. Há contexto e núcleo. O contexto pode desnudar-se do
núcleo; pode adicionar-se ao núcleo; pode separar-se do núcleo
temporalmente; pode acrescer de diferentes núcleos. O mesmo
núcleo pode ter vários contextos. Mas como o significado é
sempre contexto, se ele pode ser carregado por uma “disposição
cerebral” na ausência de representação consciente? O contexto se
acrescenta ao núcleo associativamente. THICHENER aplica a Lei
da Associação, a despeito de ter feito exaustiva crítica ao antigo
associacionismo, particularmente na abordagem da memória e
imaginação, mas ele o próprio compreendia que a associação não
era completamente suficiente para o entendimento das conexões
mentais todas.

Os processos mentais, bem como as ações, aparecem não só como


resultado da força dos vínculos associativos, mas também por
causa de certas forças diretivas: “hábitos cerebrais”, “tendências
instintivas”, “disposições nervosas” etc. Assim, em acréscimo às
tendências associativas, há as “tendências determinantes”.

IV - O FUNCIONALISMO

§ Os Estados Unidos têm um certo desprezo pelo precedente e um


alto apreço pelo prático. O ataque à psicologia estrutural veio
cedo, mas não de uma frente única e unida, sob o comando de um
só chefe reconhecido. Foi um sistema mal alinhavado e uma
escola desunida. Não tinha um único ponto de vista sobre o
problema corpo-mente e exibia mesmo uma falta de acordo sobre
o uso adequado de palavras-chave como “função” - assuntos de
pouca importância prática (apreço pela utilidade).

§ Oposição ao estruturalismo procedeu principalmente da


Universidade de Chicago.
§ JOHN DEWEY, 1859-1952, filósofo e educador; JAMES R.
ANGELL, 1869-1949; HARVEY CARR, 1873-1954 – Livro
PSICOLOGIA - o mais conhecido, o decano dos psicólogos de
Chicago; o mais sistematizador.

§ Características gerais do funcionalismo, uma vez que não houve


características específicas:

1. Anti-estruturalistas;

2. Ênfase à função e não à estrutura. Dar respondas às perguntas:


o que é que os processos mentais realizam? Em que diferem os
processos mentais? Como trabalham os processos mentais?;

3. Ênfase aos valores do bom senso e à prática;

4. Ênfase à biologia darwiniana do que à fisiologia. Qual o papel


da mente para o êxito dos organismos humanos ou animais na luta
pela existência;

5. Inclusão de psicologia animal, da criança, do anormal,


diferencial e outras;

6. Influência de WILLIAM JAMES, 1842-1910, fisiólogo,


psicólogo, filósofo, professor e escritor. “O decano” da psicologia
norte-americana. Livro: PRINCÍPIOS DE PSICOLOGIA.

Não estabeleceu uma escola nem pertenceu a qualquer uma. A


mente é algo “pessoal”, “mutável”, “contínuo”, “seletivo”,
“tratando de objetos outros que de si próprio”. A mente evolui
com o propósito de “dirigir um sistema nervoso levado a tal
complexidade que já não pode regular a si próprio”.

Objeto: a “atividade mental” no sentido de pensar, sentir,


imaginar, perceber etc., não no significado de processos
elementares. Assim, a atividade mental de “pensar” nunca poderia
ser reinstalada com o mesmo conteúdo de idéias ou imagens; mas,
sim, como função implicada do organismo humano. A atividade
mental é atividade psicofísica, envolvendo diretamente estruturas
físicas: sentidos, músculos e nervos.

Métodos:

1o Observação subjetiva ou introspecção: apreensão das próprias


operações mentais do observador. As modificações
caleidoscópicas da vida mental iludem a quem não seja
observador treinado, e mesmo o relato deste não é verificável,
pois é de natureza essencialmente pessoal.

2o Observação objetiva: apreensão de operações mentais de um


outro indivíduo na medida em que se refletem no seu
comportamento, de animais, crianças, primitivos e insanos, e
testes “mentais” (na verdade testes “comportamentais”). Os
funcionalistas foram além do indivíduo humano, normal e adulto.

Problema: Qual a relação entre organismo e meio ambiente? 1o


como se exerce a atividade mental, 2o o que ela desempenha e 3o
por que tem lugar. Os assuntos psicológicos incluem o conceito
de “arco reflexo” e o conceito de “comportamento adaptativo”.

“Arco reflexo”: descoberta antecipada por DESCARTES. O “arco


reflexo” passou a ser explicação para psicólogos interessados no
comportamento dos organismos, ou nos corretados fisiológicos da
mente. “Reflexo” – reações animais não-aprendidas,
inconscientes, involuntárias a certas excitações ambientais,
devidas à transmissão de influências dos órgãos dos sentidos para
músculos (ou glândulas) através de uma série de fibras nervosas.
O comportamento animal e humano pode, pelo menos em parte,
ser susceptível de uma análise em unidades reflexas ou
elementos!

Princípios deduzidos do conceito de arco-reflexo:

1o “todos os estímulos sensoriais exercem certo efeito sobre a


atividade do organismo”;
2o “toda a atividade... é iniciada por estímulos sensoriais” – é
muito difícil, senão impossível, descobrir o estímulo iniciador de
muitas respostas. Estas podem ser devidas à estimulação vinda de
dentro do organismo, por exemplo, fome, sede e dores internas;

3o “há um processo contínuo de interação entre estímulos


sensoriais e respostas motoras” – toda resposta altera a situação
sensorial e assim determina, em parte, a natureza das respostas
subseqüentes.

Funcionalistas se interessam pela conduta tanto quanto pela


consciência – na atividade física tanto quanto na mental.

“Comportamento adaptativo”: semelhante ao conceito de “arco


reflexo”: “um estímulo motivador, uma situação sensorial, e uma
resposta que altere a situação de modo a satisfazer as condições
motivadoras”. O motivo é sempre um estímulo – geralmente
interno - e praticamente idêntico ao que alguns psicólogos
chamam “necessidades orgânicas”, “impulsos”, “carências”. “Um
estímulo relativamente persistente que domina o comportamento
do indivíduo até que reaja de maneira a não mais ser afetado por
ele”. Um organismo reage à “situação sensorial” como um todo
enquanto se adapta a um único aspecto dela. As respostas de um
comensal faminto, à mesa, fornecem uma boa ilustração.
Finalmente, o comportamento adaptativo supõe uma resposta que
modifique a situação sensorial e satisfaça as condições
motivadoras.

Fases do comportamento adaptativo:

1a fase “preparatória” – “o que quer que venha” -,

2a fase “consumatória”.

O funcionalismo afastou-se da visão da psicologia como estudo


da mente ou experiência, para se aproximar da visão biológica
como o estudo das reações do organismo.
V – BEHAVIORISMO

§ JOHN WATSON, 1878-1958. Estudou na Universidade de


Chicago com JAMES R. ANGELL. Linguagem simples e
colorida de seus livros captou a imaginação do seu país. Livros:
1o COMPORTAMENTO, UMA INTRODUÇÃO À
PSICOLOGIA COMPARADA; 2o PSICOLOGIA DO PONTO
DE VISTA DE UM BEHAVIORISTA e 3o BEHAVIORISMO.

Professor de Psicologia na Universidade de John Hopkins.


“Psicologia é um ramo puramente objetivo e experimental das
ciências naturais”. Ansioso por colocar a psicologia em pé de
igualdade com os outros ramos da ciência biológica.

§ Críticas de WATSON principalmente ao estruturalismo e ao


funcionalismo:

1. O estruturalismo tornou-se, na mente de muitos, uma peça de


museu e o funcionalismo, esquecido.

2. O behaviorista não encontra nenhuma prova de “existências


mentais” ou “processos mentais” de nenhuma espécie.

3. “Consciência” é meramente uma outra palavra para a “alma” de


tempos mais antigos. A psicologia anterior tem algo
extremamente esotérico em seus métodos.

4. Na psicologia a falha dos experimentos se deve aos


observadores; na física ou na química, às condições
experimentais.

5. A psicologia introspectiva se degenera na argumentação em


vez de experimentação; a psicologia funcional, embora
abandonando os elementos mentais e pretendesse tratar de
“funções mentais”, ainda emprega o método introspectivo.

6. “O exame do problema mente-corpo não afeta nem o tipo de


problema escolhido nem a formulação da solução do problema”.
“... relíquias tradicionais da especulação filosófica...”.

§ Sinônimos de Behaviorismo: psicologia objetiva ou


Antroponomia ou psicologia do outro ou Condutismo (em
Portugal) ou Comportamentismo (Brasil).

§ Conclusão de WATSON retirada da experimentação: animais


dependem, em alto grau, de sensações cinestéticas para a
resolução de problemas.

Definição: psicologia é “a divisão das ciências naturais que toma


o comportamento humano – o fazer e o dizer, aprendido ou não,
das pessoas, como seu objeto”. A psicologia analisa o
comportamento humano em elementos reflexos, estuda as leis de
conexão destes elementos e mostra a natureza de sua dependência
das funções nervosas.

Objeto: comportamento – consiste em “respostas”, “reações” ou


“ajustamentos” de um organismo a certos eventos antecedentes –
“estímulos” ou “situações-estímulo”.

Método geral: observação objetiva. Métodos específicos:

1. Observação sistemática com ou sem controle experimental ou


experimento – sempre que possível usar os “instrumentos de
latão”, aparelhos e técnicas refinadas, estudos de laboratório
devem suplementar os estudos de campo;

2. Reflexos condicionados – técnicas originadas no laboratório do


fisiólogo russo, PAVLOV. O estímulo, substituto do estímulo
“natural”, causa uma resposta modificada ou adquirida. Reflexos
condicionados dependem da:

1a amplitude da sensibilidade do sujeito;

2a acuidade da sensitividade do sujeito


OBS.: “Reflexos incondicionados” – o estímulo causa uma
resposta “natural”.

3. Relato-verbal – o experimentador watsoniano faz uma


descrição das respostas do sujeito no estruturalismo: o
experimentador observa o observador titcheneriano, que descreve
sua “experiência”.

OBS.: a) O comportamentismo crou outra terminologia; b)O


método do relato-verbal é o substituto watsoniano para o método
da introspecção.

4. Testes científicos – o interesse real do psicólogo está no


“desempenho” (verbal, manual ou outro) do sujeito. Maior ênfase
deve ser colocada sobre os testes não-lingüísticos.

Problema: predição e controle do comportamento humano:

1o predizer as situações ou estímulos causais prováveis de uma


resposta;

2o dada a situação, predizer a resposta.

Por que havia psicólogos de laboratório e psicólogos de salão?


Porque houve uma divulgação ampla do Behaviorismo.A
psicologia norte-americana e Behaviorismo watsoniano, para
muitos europeus, mesmo hoje, são indistintos! A razão do bom
recebimento do comportamentismo é porque a maioria dos seres
humanos gostaria de saber como predizer e controlar o
comportamento dos outros – “levar vantagens sobre os outros”;
todos encaram o comportamentismo como sendo característica
distintiva de uma ciência exata. É uma psicologia de
aconselhamento e do conhecimento e controle do indivíduo pela
sociedade. WATSON propunha sempre questões de natureza
“bom senso”, cujas respostas qualquer um gostaria de saber.
WATSON dedicou-se mais aos valores que aos fatos: tecnólogo e
não puro cientista (o oposto de TITCHENER!).
§ WATSON estende o significado dos termos fisiológicos com o
fim de cobrir eventos mais complexos e integrados. “Estímulo” –
coisas simples e mensuráveis como raios de luz e ondas sonoras.
“Resposta” - atividades restritas aos movimentos de um músculo
ou grupo de músculos. “Situação-estímulo” e “ajustamento” –
eventos mais complexos: teoricamente analisáveis em
componentes mais simples. O interesse primordial é o fator
resposta.

§ Tipos de respostas fisiológicas:

1. Respostas dos músculos:

1o “efetores” músculos esqueléticos: movimentos externos;

2o “efetores” músculos lisos – ajustamentos internos do


organismo.

2. Repostas das glândulas: as secreções.

§ Principais classes psicológicas das respostas fisiológicas:

1. Respostas habituais explícitas – Maioria das reações dos


músculos esqueléticos.

2. Repostas habituais implícitas – Reações de músculos lisos e


glândulas que estabelecemos em nós mesmos através de certo
grau de treino: corar na presença do bem-amado, suar ao som da
broca do dentista.

3. Respostas hereditárias explícitas – “Reações instintivas e


emocionais observáveis como, por exemplo, espirrar, piscar,
bocejar, mamar, fechar os punhos, esquivar o corpo, e no medo,
na raiva e no amor”. Instintos é o mesmo que reflexos!

4. Respostas hereditárias implícitas – emoções, várias secreções


glandulares, modificações circulatórias e outras.
§ “Explícito” = “aberto ou observável” e “Implícito” = “coberto
ou não-observável”.

§ Abordagem “genética” ou do desenvolvimento estuda toda a


influência ambiental no comportamento humano desde o
nascimento, através do uso incansável de procedimentos
experimentais. Para distinguir respostas hereditárias de adquiridas
(ou habituais), WATSON traçou o desenvolvimento das reações
do recém-nascido passo a passo e catalogou as respostas não
aprendidas das crianças durante os primeiros meses (em alguns
casos, anos) de vida:

1. Atividades reflexas (espirrar, chorar, fechar os punhos, piscar


etc.) que apareciam em seqüência bem definida durante os
primeiros dias da infância;

2. Emoções fundamentais da natureza humana através de estudos


genéticos e experimentais:

1a medo: tomar respiração, fechar apertadamente as pálpebras,


movimentos intermitentes de fechar os punhos, chorar ou
abrochar os lábios etc.

2a raiva: enrijecimento do corpo, agitação de mãos e braços,


prender a respiração.

3a amor: sorrir, palrar e balbuciar e, em crianças mais velhas, no


estender os braços.

§ Respostas emocionais mais complicadas do comportamento


humano, “timidez”, “vergonha”, “ódio”, “orgulho”, “ciúme”,
“angústia”, são combinações e permutações dos três padrões de
respostas elementares.

§ Mecanismo de condicionamento: os padrões não aprendidos na


infância promovem emoções mais coordenadas e especializadas
nos adultos. Medo de animais, de escuro, é um medo aprendido
na convivência, principalmente com babás.
OBS.: JOHN LOCKE, falando de “associação de idéias”, dizia a
mesma coisa!

§ Mecanismo de transferência da reação emocional a um grande


número de outros estímulos.

§ Respostas emocionais, presumivelmente condicionadas, podem


ser removidas tão bem quanto implantadas? O procedimento
empregado (para o descondicionamento) assemelhava-se de certo
modo ao usado na sua fixação. Um menino portador de medo
exagerado de ratos brancos, coelhos, casacos de pele etc.

Foi colocado na extremidade de uma sala de cerca de 12 m de


comprimento, onde tinha o costume de tomar um lanche de leite e
bolachas todas as tardes, e, ao mesmo tempo, um coelho, em uma
gaiola, foi mostrado à criança, “suficientemente longe para não
perturbar a refeição”. Em dias sucessivos, o coelho foi colocado
cada vez mais perto do menino até perto do “ponto perturbador”.
Eventualmente a criança veio a comer com uma das mãos e
brincar com o coelho com a outra! As respostas emocionais aos
outros objetos de medo foram diminuídas e, em alguns casos,
inteiramente eliminadas.

1. Emoção – “um padrão hereditário de reações, acarretando


profundas modificações nos mecanismos corporais como um
todo, mas particularmente nos sistemas viscerais (vísceras são os
grandes órgãos internos do corpo) e glandulares”. As emoções
dos adultos são condicionamentos de muitas maneiras que
obscurecem a sua natureza primitiva não aprendida.

2. Instinto – “um padrão hereditário de reação, cujos elementos


separados são movimentos, principalmente de músculos
estriados”: mais “explícito”, mais adaptativo, menos caótico no
seu aparecimento e menos difuso na sua natureza que a emoção.
Os instintos são praticamente impossíveis de verificar na
atividade adulta por causa da sobreposição de respostas-hábitos
que os escondem da observação.
“Hipótese do feixe”: Todos os comportamentos complexos
organizados dos adultos são resultado do treinamento
(condicionamento) a partir de respostas básicas não aprendidas
(reflexos).

§ Declaração estarrecedora de WATSON: todas as “capacidades”,


“talentos” e “temperamentos” são a resultante de fatores, não
hereditários, mas ambientais.

1. O instinto foi jogado para fora da psicologia, foi negado!

2. WATSON ignorou “carências”, “impulsos”, “motivos” e


“necessidades orgânicas”!

§ Outra declaração estarrecedora é sobre “Que é o pensamento?”.


“Pensar” é uma “resposta habitual implícita”. “Falar” é uma
“resposta habitual explícita”. Pensar é falar “sub-vocal” e
gesticulação; pode mesmo acarretar reações condicionadas mais
amplas. Pensar e falar (gesticular) são uma e mesma coisa. Pensar
é uma resposta predominantemente verbal cujo resultado é o
ajustamento do organismo humano a um ambiente social
complexo.

§ O comportamentismo se assemelha ao estruturalismo no que se


refere à insistência nos conteúdos e processos mentais
momentâneos. Geralmente descrições de relações entre estímulos
e respostas estreitamente reunidos no tempo.

§ O comportamentismo pouco se assemelha ao funcionalismo.

§ WATSON (como TITCHENER) era elementarista em


psicologia. A personalidade completa do indivíduo se constrói a
partir de um número muito simples de elementos-respostas não
aprendidos, reunidos, pelo menos em grande parte, graças ao
princípio da associação, gerando combinações de grupos de
respostas integrados, e não combinações de elementos destes
grupos como em TITCHENER.
§ O comportamentismo pouco se interessa pelos “mecanismos”
anatômico e fisiológico do comportamento; seu maior interesse
está no próprio comportamento: os atos observáveis e
ajustamentos do organismo em relação a seu ambiente. Dá ao
sistema nervoso o mesmo status que as demais partes do
mecanismo de resposta: músculos estriados, músculos lisos,
glândulas etc. A fisiologia estuda o funcionamento de partes
corporais específicas tais como digestão, respiração e circulação,
enquanto o Behaviorismo “trabalha com o corpo todo em ação”.

§ Críticas ao Behaviorismo: sistema “materialista”,


“mecanicista”, porque não encontra lugar para a “consciência”,
“mente”, “alma”, “volição” e porque procura uma explicação de
ciência natural para todos os assuntos psicológicos. Foi taxado até
de “anti-psicológico”.

§ Críticas ao próprio WATSON: simplificar demais os problemas


psicológicos; forçar categorias mentais em compartimentos
físicos; produzir teorias que não podem ser verificadas; defender
posições insustentáveis aos olhos da filosofia, medicina, direito,
religião e ética; tirar o sentido da arte; corromper a juventude.
WATSON eliciou muitas respostas raivosas!

§ O auge do Behaviorismo foi excitante, mas não podia durar


muito. A força real de um sistema não é medida pelo calor das
primeiras escaramuças ou pelo clamor dos que nele acampam.

§ O desenvolvimento do Behaviorismo culminou na psicologia


experimental do século XX.

VI – A GESTALT

§ A Gestalt é concomitante ao Behaviorismo, na Alemanha.


Traduções da palavra Gestalt pouco usadas: forma, padrão,
contorno, figura, estrutura e configuração, Psicologia da Forma
(em Português). “Gestalten” é o plural de “Gestalt”: totalidades
organizadas da experiência ou comportamento que têm
propriedades definidas não redutíveis a suas partes ou a suas
relações.

§ O fundador é MAX WERTHEIMER, 1880-1943, da


Universidade de Frankfurt, com o artigo da revista de psicologia
alemã: “Estudos experimentais do movimento aparente”, cujos
observadores eram WOLFGANG KÖHLER, 1887-1964, e KURT
KOFFKA, 1886-1941. A Gestalt é uma escola extremamente
unida. A Gestalt cria uma nova terminologia.

Livros sistemáticos, de leitura difícil:

1o A PSICOLOGIA DA GESTALT, de KÖHLER, 1929;

2o PRINCÍPIOS DE PSICOLOGIA DA GESTALT, de


KOFFKA, 1935.

§ A psicologia da Gestalt critica o estruturalismo quanto ao:

1a elementarismo em psicologia. A mente (ou comportamento)


não é mera coleção, mosaico ou “feixe” de elementos unitários,
independentemente da natureza dos elementos subscritos como as
“idéias” de LOCKE até os “reflexos” de WATSON. É contra
qualquer tipo de análise! Os elementos são artificiais!

2a associacionismo em psicologia. A associação é uma espécie de


cola mental que mantém unidos os elementos – o cimento para os
tijolos psíquicos. As conexões e vínculos são artificiais!

Definição: é o estudo do comportamento em suas conexões


causais com o campo psicofísico, KOFFKA. Dito de outro modo:
o ambiente físico (geográfico) causa eventos dinâmicos molares
no sistema nervoso que, por sua vez, dão origem ao
comportamento molar; e a experiência direta acompanha algumas
destas mudanças fisiológicas, sendo ela o ponto de partida da
ciência.
Tipos de comportamento:

1o comportamento molar: totalidades amplas, organizadas, ocorre


em um ambiente - corresponde ao “ajustamento” watsoniano, mas
jamais analisável em elementos moleculares;

2o comportamento molecular: elementos pequenos, isolados,


ocorre dentro do organismo, e “é apenas iniciado por fatores
ambientais chamados estímulos” - corresponde à “resposta”
watsoniana: reflexos simples e arcos reflexos.

Tipos de ambiente:

1º geográfico;

2º comportamental

§ O ambiente comportamental, embora determinado em parte pelo


geográfico, não se identifica com ele. O ambiente
comportamental é o ambiente geográfico tomado do ponto de
vista do sujeito. O ambiente comportamental “causa” o
comportamento.

§ O comportamento é influenciado pelo “campo psicofísico”, que


abrange: “experiências externas” (ambiente comportamental) +
“experiências internas” (percepção consciente de “desejos e
intenções, ... êxitos e desapontamentos... alegrias e tristezas,
amores e ódios”) + nossas próprias ações. O campo psicofísico é
que proporciona a “experiência direta” ou consciência do sujeito.
KOFFKA usa linguagem puramente psicológica, termos
experienciais, em vez de termos fisiológicos. Os sucessores,
entretanto, pretendem um dia inverter essa linguagem.

OBS.: “Externo” e “interno” não são termos de KOFFKA: usados


apenas para a apresentação esquemática do sistema!

§ Causas do comportamento que não têm determinantes


conscientes (estão fora da experiência direta!):

1. Reflexos (embora “moleculares”, são “determinantes do


campo”!)

2. Determinantes inconscientes

3. Certos aspectos da memória e habilidade

§ A Gestalt defende que a experiência direta, ela própria, é


acompanhada paralelamente de atividade nervosa, especialmente
do cérebro; a organização da consciência da pessoa é uma
verdadeira representação de uma organização correspondente de
processos fisiológicos subjacentes, de natureza fundamentalmente
molar. Os processos cerebrais refletem Gestalten ou totalidades de
experiência maiores e melhor integradas, e igualmente causam
bem integradas totalidades de ação.

§ A linguagem é o mecanismo simbólico dos seres humanos para


contarem de suas experiências organizadas, pode servir também
ao mesmo tempo como símbolo objetivo das fisiológicas e, menos
diretamente, da realidade física ou geográfica. Onde não há
linguagem, como no caso dos animais, alguma outra forma de
comportamento servirá também.

§ Em física, oconceito de “ação à distância” de um objeto sobre


outro foi suplantado pela noção de “campo de força” entre os
objetos. O conhecimento que o físico tem do objeto lhe permite
nomear as propriedades do campo do objeto, por exemplo os
movimentos da agulha magnética dizem do campo magnético da
terra; os momentos do pêndulo, do campo gravitacional.

§ O campo comportamental tem qualidades dinâmicas, por isso o


comportamento tem mais explicação do que acaso.

Objeto: comportamento tal como determinado pelos processos


psicofísicos. Segundo KOFFKA:
1. Só se pode conhecer acerca do comportamento através de nossa
própria experiência dele!

2. Só se conhece a experiência de outrem através do


comportamento!

3. Há eventos importantes além da “experiência e


comportamento”!

Método: FENOMENOLOGIA é experiência direta, parecida à


observação direta e à introspecção, mas não há nada de unidades
reflexas nem elementos mentais.

Problema:

1. determinar a natureza e organização intrínsecas do campo


psicofísico;

2. estudar suas relações com o ambiente geográfico e com o


comportamento que resulta da organização do campo;

3. “explicar” a experiência direta com referência ao campo


subjacente, puramente fisiológico.

§ O experimento inicial da escola de WERTHEIMER sobre “o


movimento aparente” não podia ser explicado pela “hipótese do
feixe” nem pela “hipótese da constância” (nome dado pelos
Gestaltistas à teoria que afirma uma correspondência um-a-um
entre estímulos específicos e sensações específicas). Nem
WUNDT, nem BERKELEY, nem ninguém até então podia
explicar a natureza gestáltica, única, do movimento “subjetivo”
observado, pois não havia movimento “real”! o movimento não
era “uma ilusão” nem influência da experiência passada ou
“significado”! Formulou-se a explicação do isomorfismo:
movimento aparente – um todo da experiência, dinâmico e
unificado – devia ser interpretado como atribuível a um processo
cerebral similarmente organizado como um todo. O todo é mais
significante que, e determina a natureza das partes que o
compõem. Daí, a justificação gestáltica para a avaliação do
caráter pela caligrafia ou fotografias, sem nenhuma relação com a
chamada investigação elementarista (descartada) que lida com a
medida das letras e outros detalhes e com feições faciais isoladas.

§ Isomorfismo – a estrutura dinâmica básica da consciência é a


mesma que a dos eventos fisiológicos correlatos. A organização
no mundo fisiológico, bem como no físico, é por causa da
organização fundamental da experiência direta. Existem
“processos cruzados” no cérebro e no órgão que lhe está ligado.

§ KOFFKA mostra que a explicação de BERKELEY sobre a


percepção visual de profundidade (distância a que estão de nós os
objetos) sustenta-se em duas pressuposições falsas:

1a a percepção visual é bi-dimensional porque a retina do olho o


é, fornecendo simplesmente conhecimento do acima e abaixo,
esquerdo e direito no espaço, mas não do perto e longe;

2a pode-se conhecer adequadamente o campo visual pelo estudo


de pontos nele situados.

Oposições de KOFFKA:

1. a percepção visual de profundidade é mesmo uma forma mais


primitiva de organização do que a percepção de superfície;

2. Não aceita a “hipótese da constância”.

§ A Gestalt pretende lançar luz mesmo sobre os mais recônditos


recessos do pensamento psicológico e demonstrar o valor da
aplicação dos princípios gestálticos a todos os tipos de função
psicológica: o que se acentua é a organização.

§ Críticas à psicologia da Gestalt: faltar com o reconhecimento


aos antecedentes e contemporâneos; substituir por novos e vagos
termos os velhos e bem definidos; suplantar uma forma de
elementarismo por outra; aceitar a “forma” e rejeitar o “conteúdo”
do comportamento e da experiência; presumir que nas
“organizações” esteja a sua própria explicação. Críticas como O
FANTASMA DA GESTALT e O PEQUENO BANDO
ALEMÃO. Outras críticas puseram severamente à prova a
reconhecida capacidade polêmica de KÖHLER e KOFFKA.

§ A Gestalt de fato esposa uma forma temperada ou restrita de


associacionismo, a que trata dos traços neurais organizados e das
“comunicações” entre eles.

§ A psicologia da Gestalt é mais acadêmica, porque os problemas


e interesses da escola são, por natureza, técnicos demais para
despertar a discussão ampla provocada pelo Behaviorismo. É a
escola mais notável na Alemanha e sua influência tem sido
igualmente grande na América. O próprio caráter “gestáltico” da
escola parece ter sido responsável pela sua posição singular na
psicologia moderna.

VII - O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO


§ O autor deste livro revisou quatro sistemas de psicologia no ano
de 1937, apenas porque se interessou pelos aspectos “genéticos”
do problema da definição de psicologia.

§ A psicologia da Gestalt, como todos os três sistemas anteriores,


será provavelmente absorvida dentro de um ponto de vista ainda
mais consistente, flexível e duradouro, que virá a ser conhecido
não como um sistema, mas como a psicologia.

§ Há mais sistemas de psicologia: psicologias “hórmica”,


“dinâmica”, “do ato”, “da reação”, “da compreensão” e
“reflexologia” não receberam nos Estados Unidos veredicto tão
favorável como os quatro estudados acima. A tendência moderna
da psicologia é unificar a multiplicidade dos sistemas.

§ Por que os sistematizadores discordam? Resposta: porque os


psicólogos são seres humanos e a psicologia é uma ciência jovem.
Há divergências de terminologia e de desavença em uma ou duas
questões maiores! Sem alguma dissenção, na verdade, o progresso
científico não seria tão grande quanto é.

A psicologia é uma jovem ciência recém-libertada da filosofia e


nem sempre distinguida, em alguns de seus labores, da fisiologia.

§ O que deve ser a verdadeira definição de psicologia? Uma única


definição unanimemente aceita da psicologia não está à mão –
ainda! O autor deste livro procurou a definição dada por cada um
dos quatro sistemas estudados.

§ As novas doutrinas desempenharam um grande papel na


determinação da forma e do conteúdo da psicologia atual.

Traços mais proeminentes na psicologia de hoje nos Estados


Unidos:

1. Objetividade – o comportamento está no lugar de experiência


ou consciência. A mente do sujeito é sempre inferida de seu
comportamento ou desempenho;

2. A psicologia se sustenta sobre os seus próprios pés como


jamais o fez. Menos preocupada com a fisiologia. Os eventos
neurais são mais inferidos. Nem todos os psicólogos estão
ansiosos por explorar a terra incógnita (KÖHLER) entre estímulo
e resposta. A única vantagem que possui o fisiólogo em tais casos
é a de estar trabalhando no mesmo universo do discurso que o
físico e o químico – de ser capaz de falar em termos físico-
químicos em vez de puramente “psíquicos”.

3. Mais ênfase nos aspectos temporais da atividade humana.

4. Mais ênfase no estudo da gênese do comportamento e de


comparações de funções animais com humanas.

5. Mais ênfase nos estudos de diferenças individuais, ao lado da


“mente” generalizada das primitivas investigações de laboratório,
através de uma variedade de métodos – experimental, estatístico e
clínico.
§ Qual a reposta ao desafio do cético a respeito da psicologia
sistemática e problemas de definição? Resposta: um sistema
psicológico é uma tentativa de arranjar em um todo significativo e
satisfatório; de indicar as fraquezas e lacunas do nosso
conhecimento; e mostrar o caminho para o avanço futuro. Um
sistema é uma tentativa de dizer justamente o que a psicologia é,
de que é ciência, e acerca de que trata de definir o objeto, e assim
dirigir a pesquisa.

§ TITCHENER pode ter sido estreito demais e o funcionalismo


amplo demais, WATSON ingênuo demais e a GESTALT
preocupada demais em matar fantasmas; mas a cada um deve ser
dado o crédito de uma porção, maior ou menor, do arcabouço
básico da psicologia.

[2] Psicologia Judiciária, segundo LEIB SOIBELMAN


(Enciclopédia do Advogado) é o estudo das condições
psicológicas das testemunhas, partes e juízes.

[3] G. J. BALLONE,
http://www.psiqweb.med.br/persona/jung2.html (PSIQWEB)
apresenta as teses principais de JUNG, que mencionamos abaixo,
com exceção dos tipos psicológicos, que citamos na nota [12].

O Ego

O Ego é o centro da consciência e um dos maiores Arquétipos da


perso-nalidade. Ele fornece um sentido de consistência e direção
em nossas vidas conscientes. Ele tende a contrapor-se a qualquer
coisa que possa ameaçar esta frágil consistência da consciência e
tenta convencer-nos de que sempre devemos planejar e analisar
conscientemente nossa experiência. Somos levados a crer que o
Ego é o elemento central de toda a psique e chegamos a ignorar
sua outra metade, o inconsciente.

De acordo com Jung, a princípio a psique é apenas o inconsciente.


O Ego emerge dele e reúne numerosas experiências e memórias,
desenvolvendo a divisão entre o inconsciente e o consciente. Não
há elementos inconscientes no Ego, só conteúdos conscientes
derivados da experiência pessoal.

A Persona

Nossa Persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo. É


o caráter que assumimos; através dela nós nos relacionamos com
os outros. A Persona inclui nossos papéis sociais, o tipo de roupa
que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. O
termo Persona é derivado da palavra latina equivalente a máscara,
se refere às máscaras usadas pelos atores no drama grego para dar
significado aos papéis que estavam representando. As palavras
"pessoa" e "personalidade" também estão relacionadas a este
termo.

A Persona tem aspectos tanto positivos quanto negativos. Uma


Persona dominante pode abafar o indivíduo e aqueles que se
identificam com sua Persona tendem a se ver apenas nos termos
superficiais de seus papéis sociais e de sua fachada. Jung chamou
também a Persona de Arquétipo da conformidade. Entretanto, a
Persona não é totalmente negativa. Ela serve para proteger o Ego
e a psique das diversas forças e atitudes sociais que nos invadem.
A Persona é também um instrumento precioso para a
comunicação. Nos dramas gregos, as máscaras dos atores,
audaciosamente desenhadas, informavam a toda a platéia, ainda
que de forma um pouco estereotipada, sobre o caractere as
atitudes do papel que cada ator estava representando. A Persona
pode, com freqüência, desempenhar um papel importante em
nosso desenvolvimento positivo. À medida que começamos a agir
de determinada maneira, a desempenhar um papel, nosso Ego se
altera gradualmente nessa direção.

Entre os símbolos comumente usados para a Persona, incluem-se


os objetos que usamos para nos cobrir (roupas, véus), símbolos de
um papel ocupacional (instrumentos, pasta de documentos) e
símbolos de status (carro, casa, diploma). Esses símbolos foram
todos encontrados em sonhos como representações da Persona.
Por exemplo, em sonhos, uma pessoa com Persona forte pode
aparecer vestida de forma exagerada ou constrangida por um
excesso de roupas. Uma pessoa com Persona fraca poderia
aparecer despida e exposta. Uma expressão possível de uma
Persona extremamente inadequada seria o fato de não ter pele.

A Sombra

Para Jung, a Sombra é o centro do Inconsciente Pessoal, o núcleo


do material que foi reprimido da consciência. A Sombra inclui
aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que são
rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a Persona e
contrárias aos padrões e ideais sociais. Quanto mais forte for
nossa Persona, e quanto mais nos identificarmos com ela, mais
repudiaremos outras partes de nós mesmos. A Sombra representa
aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e
também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em
nós mesmos. Em sonhos, a Sombra freqüentemente aparece como
um animal, um anão, um vagabundo ou qualquer outra figura de
categoria mais baixa.

Em seu trabalho sobre repressão e neurose, Freud concentrou-se,


de inicio, naquilo que Jung chama de Sombra. Jung descobriu que
o material reprimido se organiza e se estrutura ao redor da
Sombra, que se torna, em certo sentido, um Self negativo, a
Sombra do Ego. A Sombra é, via de regra, vivida em sonhos
como uma figura escura, primitiva, hostil ou repelente, porque
seus conteúdos foram violentamente retirados da consciência e
aparecem como antagônicos à perspectiva consciente. Se o
material da Sombra for tra-zido à consciência, ele perde muito de
sua natureza de medo, de desconhecido e de escuridão.

A Sombra é mais perigosa quando não é reconhecida pelo seu


portador. Neste caso, o indivíduo tende a projetar suas qualidades
indesejáveis em outros ou a deixar-se dominar pela Sombra sem o
perceber. Quanto mais o material da Sombra tornar-se consciente,
menos ele pode dominar. Entretanto, a Sombra é uma parte
integral de nossa natureza e nunca pode ser simplesmente
eliminada. Uma pessoa sem Sombra não é uma pessoa completa,
mas uma caricatura bidimensional que rejeita a mescla do bom e
do mal e a ambivalência presentes em todos nós.

Cada porção reprimida da Sombra representa uma parte de nós


mesmos. Nós nos limitamos na mesma proporção que mantemos
este material inconsciente.

À medida que a Sombra se faz mais consciente, recuperamos


partes previamente reprimidas de nós mesmos. Além disso, a
Sombra não é apenas uma força negativa na psique. Ela é um
depósito de considerável energia instintiva, espontaneidade e
vitalidade, e é a fonte principal de nossa criatividade. Assim como
todos os Arquétipos, a Sombra se origina no Inconsciente
Coletivo e pode permitir acesso individual a grande parte do
valioso material inconsciente que é rejeitado pelo Ego e pela
Persona.

No momento em que acharmos que a compreendemos, a Sombra


aparecerá de outra forma. Lidar com a Sombra é um processo que
dura a vida toda, consiste em olhar para dentro e refletir
honestamente sobre aquilo que vemos lá.

O Self

Jung chamou o Self de Arquétipo central, Arquétipo da ordem e


totalidade da personalidade. Segundo Jung, consciente e
inconsciente não estão necessariamente em oposição um ao outro,
mas complementam-se mutuamente para formar uma totalidade: o
Self. Jung descobriu o Arquétipo do Self apenas depois de
estarem concluídas suas investigações sobre as outras estruturas
da psique. O Self é com freqüência figurado em sonhos ou
imagens de forma impessoal, como um círculo, mandala, cristal
ou pedra, ou de forma pessoal como um casal real, uma criança
divina, ou na forma de outro símbolo de divindade. Todos estes
são símbolos da totalidade, unificação, reconciliação de
polaridades, ou equilíbrio dinâmico, os objetivos do processo de
Individuação.
O Self é um fator interno de orientação, muito diferente e até
mesmo estranho ao Ego e à consciência. Para Jung, o Self não é
apenas o centro, mas também toda a circunferência que abarca
tanto o consciente quanto o inconsciente, ele é o centro desta
totalidade, tal como o Ego é o centro da consciência. Ele pode, de
início, aparecer em sonhos como uma imagem significante, um
ponto ou uma sujeira de mosca, pelo fato do Self ser bem pouco
familiar e pouco desenvolvido na maioria das pessoas. O
desenvolvimento do Self não significa que o Ego seja dissolvido.
Este último continua sendo o centro da consciência, mas agora ele
é vinculado ao Self como conseqüência de um longo e árduo
processo de compreensão e aceitação de nossos processos
inconscientes. O Ego já não parece mais o centro da
personalidade, mas uma das inúmeras estruturas dentro da psique.

Crescimento Psicológico - Individuação

Segundo Jung, todo indivíduo possui uma tendência para a


Individuação ou auto desenvolvimento. Individuação significa
tornar-se um ser único, homogêneo. na medida em que por
individualidade entendemos nossa singularidade mais íntima,
última e incomparável, significando também que nos tornamos o
nosso próprio si mesmo. Pode-se traduzir Individuação como
tornar-se si mesmo, ou realização do si mesmo.

Individuação é um processo de desenvolvimento da totalidade e,


portanto, de movimento em direção a uma maior liberdade. Isto
inclui o desenvolvimento do eixo Ego-Self, além da integração de
várias partes da psique: Ego, Persona, Sombra, Anima ou Animus
e outros Arquétipos inconscientes. Quando tornam-se
individuados, esses Arquétipos expressam-se de maneiras mais
sutis e complexas.
Quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmos através do
auto conhecimento, tanto mais se reduzirá a camada do
inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta
forma, sai emergindo uma consciência livre do mundo
mesquinho, suscetível e pessoal do Eu, aberta para a livre
participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos.

Essa consciência ampliada não é mais aquele novelo egoísta de


desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que
sempre deve ser compensado ou corrigido por contra-tendências
inconscientes; tornar-se-á uma função de relação com o mundo de
objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional,
obrigatória e indissolúvel com o mundo.

Do ponto de vista do Ego, crescimento e desenvolvimento


consistem na integração de material novo na consciência, o que
inclui a aquisição de conhecimento a respeito do mundo e da
prória pessoa. O crescimento, para o Ego, é essencialmente a
expansão do conhecimento consciente. Entretanto, Individuação é
o desenvolvimento do Self e, do seu ponto de vista, o objetivo é a
união da consciência com o inconsciente.

Como analista, Jung descobriu que aqueles que vinham a ele na


primeira metade da vida estavam relativamente desligados do
processo interior de Individuação; seus interesses primários
centravam-se em realizações externas, no "emergir" como
indivíduos e na consecução dos objetivos do Ego. Analisandos
mais velhos, que haviam alcançado tais objetivos, de forma
razoável, tendiam a desenvolver propósitos diferentes, interesse
maior pela integração do que pelas realizações, busca de
harmonia com a totalidade da psique.

O primeiro passo no processo de Individuação é o desnudamento


da Persona. Embora esta tenha funções protetoras importantes, ela
é também uma máscara que esconde o Self e o inconsciente.

Ao analisarmos a Persona, dissolvemos a máscara e descobrimos


que, aparentando ser individual, ela é de fato coletiva; em outras
palavras, a Persona não passa de uma máscara da psique coletiva.
No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre
o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que alguém parece ser:
nome, título, ocupação, isto ou aquilo.
De certo modo, tais dados são reais mas, em relação à
individualidade essencial da pessoa, representam algo de
secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual
outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em
questão.

O próximo passo é o confronto com a Sombra. Na medida em que


nós aceitamos a realidade da Sombra e dela nos distinguimos,
podemos ficar livres de sua influência. Além disso, nós nos
tornamos capazes de assimilar o valioso material do inconsciente
pessoal que é organizado ao redor da Sombra.

O terceiro passo é o confronto com a Anima ou Animus. Este


Arquétipo deve ser encarado como uma pessoa real, uma entidade
com quem se pode comunicar e de quem se pode aprender. Jung
faria perguntas à sua Anima sobre a interpretação de símbolos
oníricos, tal como um analisando a consultar um analista. O
indivíduo também se conscientiza de que a Anima (ou o Animus)
tem uma autonomia considerável e de que há probabilidade dela
influenciar ou até dominar aqueles que a ignoram ou os que
aceitam cegamente suas imagens e projeções como se fossem
deles mesmos.

O estágio final do processo de Individuação é o desenvolvimento


do Self. Jung dizia que o si mesmo é nossa meta de vida, pois é a
mais completa expressão daquela combinação do destino a que
nós damos o nome de indivíduo. O Self torna-se o novo ponto
central da psique, trazendo unidade à psique e integrando o
material consciente e o inconsciente. O Ego é ainda o centro da
consciência, mas não é mais visto como o núcleo de toda a
personalidade.

Jung escreve que devemos ser aquilo que somos e precisamos


descobrir nossa própria individualidade, aquele centro da
personalidade que é eqüidistante do consciente e do inconsciente.
Dizia que precisamos visar este ponto ideal em direção ao qual a
natureza parece estar nos dirigindo. Só a partir deste ponto
podemos satisfazer nossas necessidades.
É necessário ter em mente que, embora seja possível descrever a
Individuação em termos de estágios, o processo de Individuação é
bem mais complexo do que a simples progressão aqui delineada.
Todos os passos mencionados sobrepõem-se, e as pessoas voltam
continuamente a problemas e temas antigos (espera-se que de uma
perspectiva diferente). A Individuação poderia ser apresentada
como uma espiral na qual os indivíduos permanecem se
confrontando com as mesmas questões básicas, de forma cada vez
mais refinada. Este conceito está muito relacionado com a
concepção Zen-budista da iluminação, na qual um individuo
nunca termina um Koan, ou problema espiritual, e a procura de si
mesmo é vista como idêntica à finalidade.)

Obstáculos ao Crescimento

A Individuação nem sempre é uma tarefa fácil e agradável. O Ego


precisa ser forte o suficiente para suportar mudanças tremendas,
para ser virado pelo avesso no processo de Individuação.

Poderíamos dizer que todo o mundo está num processo de


Individuação, no entanto, as pessoas não o sabem, esta é a única
diferença. A Individuação não é de modo algum uma coisa rara
ou um luxo de poucos, mas aqueles que sabem que passam pelo
processo são considerados afortunados. Desde que
suficientemente conscientes, eles tiram algum proveito de tal
processo.

A dificuldade deste processo é peculiar porque constitui um


empreendimento totalmente individual, levado a cabo face à
rejeição ou, na melhor das hipóteses, indiferença dos outros. Jung
escreve que a natureza não se preocupa com nada que diga
respeito a um nível mais elevado de consciência, muito pelo
contrário. Logo, a sociedade não valoriza em demasia essas
proezas da psique e seus prêmios são sempre dados a realizações
e não à personalidade. Esta última será, na maioria das vezes,
recompensada postumamente.
Cada estágio, no processo de Individuação, é acompanhado de
dificuldades. Primeiramente, há o perigo da identificação com a
Persona. Aqueles que se identificam com a Persona podem tentar
tornar-se perfeitos demais, incapazes de aceitar seus erros ou
fraquezas, ou quaisquer desvios de sua auto-imagem idealizada.
Aqueles que se identificam totalmente com a Persona tenderão a
reprimir todas as tendências que não se ajustam, e a projetá-las
nos outros, atribuindo a eles a tarefa de representar aspectos de
sua identidade negativa reprimida.

A Sombra pode ser também um importante obstáculo para a


Individuação. As pessoas que estão inconscientes de suas
sombras, facilmente podem exteriorizar impulsos prejudiciais sem
nunca reconhecê-los como errados. Quando a pessoa não chegou
a tomar conhecimento da presença de tais impulsos nela mesma,
os impulsos iniciais para o mal ou para a ação errada são com
freqüência justificados de imediato por racionalizações. Ignorar a
Sombra pode resultar também numa atitude por demais moralista
e na projeção da Sombra em outros. Por exemplo, aqueles que são
muito favoráveis à censura da pornografia tendem a ficar
fascinados pelo assunto que pretendem proibir; eles podem até
convencer-se da necessidade de estudar cuidadosamente toda a
pornografia disponível, a fim de serem censores eficientes.

O confronto com a Anima ou o Animus traz, em si, todo o


problema do relacionamento com o inconsciente e com a psique
coletiva. A Anima pode acarretar súbitas mudanças emocionais
ou instabilidade de humor num homem. Nas mulheres, o Animus
freqüentemente se manifesta sob a forma de opiniões irracionais,
mantidas de forma rígida. (Devemos nos lembrar de que a
discussão de Jung sobre Anima e Animus não constitui uma
descrição da masculinidade e da feminilidade em geral. O
conteúdo da Anima ou do Animus é o complemento de nossa
concepção consciente de nós mesmos como masculinos ou
femininos, a qual, na maioria das pessoas, é fortemente
determinada por valores culturais e papéis sexuais definidos em
sociedade.)
Quando o indivíduo é exposto ao material coletivo, há o perigo de
ser engolido pelo inconsciente. Segundo Jung, tal ocorrência pode
tomar uma de duas formas. Primeiro, há a possibilidade da
inflação do Ego, na qual o indivíduo reivindica para si todas as
virtudes da psique coletiva. A outra reação é a de impotência do
Ego; a pessoa sente que não tem controle sobre a psique coletiva e
adquire uma consciência aguda de aspectos inaceitáveis do
inconsciente-irracionalidade, impulsos negativos e assim por
diante.

Assim como em muitos mitos e contos de fadas, os maiores


obstáculos estão mais próximos do final. Quando o indivíduo lida
com a Anima e o Animus, uma tremenda energia é libertada. Esta
energia pode ser usada para construir o Ego ao invés de
desenvolver o Self. Jung referiu-se a este fato como identificação
com o Arquétipo do Self, ou desenvolvimento da personalidade-
mana (mana é uma palavra malanésica que significa a energia ou
o poder que emana das pessoas, objetos ou seres sobrenaturais,
energia esta que tem uma qualidade oculta ou mágica). O Ego
identifica-se com o Arquétipo do homem sábio ou mulher sábia
aquele que sabe tudo. A personalidade-mana é perigosa porque é
excessivamente irreal. Indivíduos parados neste estágio tentam ser
ao mesmo tempo mais e menos do que na realidade são. Eles
tendem a acreditar que se tornaram perfeitos, santos ou até
divinos, mas, na verdade, menos, porque perderam o contato com
sua humanidade essencial e com o fato de que ninguém é
plenamente sábio, infalível e sem defeitos.

Jung viu a identificação temporária com o Arquétipo do Self ou


com a personalidade-mana como sendo um estágio quase
inevitável no processo e Individuação. A melhor defesa contra o
desenvolvimento da inflação do Ego é lembrarmo-nos de nossa
humanidade essencial, para permanecermos assentados na
realidade daquilo que podemos e precisamos fazer, e não na que
deveríamos fazer ou ser.

Anima ou Animus
Jung postulou uma estrutura inconsciente que representa a parte
sexual oposta de cada indivíduo; ele denomina tal estrutura de
Anima no homem e Animus na mulher. Esta estrutura psíquica
básica funciona como um ponto de convergência para todo
material psíquico que não se adapta à auto-imagem consciente de
um indivíduo como homem ou mulher.

Portanto, na medida em que uma mulher define a si mesma em


termos femininos, seu Animus vai incluir aquelas tendências e
experiências dissociadas que ela definiu como masculinas.

Todo homem carrega dentro de si a eterna imagem da mulher, não


a imagem desta ou daquela mulher em particular, mas uma
imagem feminina definitiva. Esta imagem é uma marca ou
Arquétipo de todas as experiências ancestrais do feminino, um
depósito, por assim dizer, de todas as impressões já dadas pela
mulher. Uma vez que esta imagem é inconsciente, ela é sempre
inconscientemente projetada na pessoa amada e é uma das
principais razões para atrações ou aversões apaixonadas.

De acordo com Jung, o pai de sexo oposto ao da criança é uma


importante influência no desenvolvimento da Anima ou Animus,
e todas as relações com o sexo oposto, incluindo os pais, são
intensamente afetadas pela projeção das fantasias da Anima ou
Animus. Este Arquétipo é um dos mais influentes reguladores do
comportamento. Ele aparece em sonhos e fantasias como figuras
do sexo oposto, e funciona como um mediador fundamental entre
processos inconscientes e conscientes. Ele é orientado
basicamente para os processos internos, da mesma forma como a
Persona é orientada para processos externos. É a fonte de
projeções, a fonte da formação de imagens e a porta da
criatividade na psique. (Não é surpreendente, pois, que escritores
e artistas homens tenham pintado suas musas como deusas
femininas.)

[4] ABRAHAM MASLOW (1908-1970)


SCHULTZ e SCHULTZ (1992:395-397) falam de Abraham
Maslow:

Abraham Maslow é considerado o pai espiritual da psicologia


humanista, e é provável que tenha feito mais do que ninguém para
difundir o movimento e conferir-lhe um certo grau de
respeitabilidade acadêmica. Maslow desejava compreender as
mais elevadas realizações que os seres humanos são capazes de
alcançar, razão por que estudou uma pequena amostra das pessoas
mais saudáveis psicologicamente que pode encontrar a fim de
determinar de que maneira diferiam das pessoas cuja saúde
mental não passava da média. A partir desse estudo, ele
desenvolveu uma teoria da personalidade que se concentra na
motivação para crescer, para se desenvolver e realizar o eu a fim
de concretizar de modo pleno nossas capacidades e
potencialidades humanas.

Nascido no Brooklyn, Nova York, Maslow teve uma infância


infeliz. Seu pai era um alcoólatra e pervertido distante que
desaparecia por longos períodos de tempo. Sua mãe era
intensamente supersticiosa, e punia o jovem Maslow pelo mínimo
comportamento incorreto, rejeitando-o abertamente em favor dos
seus dois filhos mais novos. Certa feita, ela matou dois gatos que
ele levara para casa batendo-lhes a cabeça contra a parede na
frente dele. Ele nunca perdoou sua atitude e seu comportamento
para com ele e, quando ela morreu, recusou-se a ir ao funeral.
Essas experiências tiveram sobre Maslow um efeito que durou
toda a vida. “Todo o impulso da minha filosofia de vida”,
escreveu ele, “e todas as minhas pesquisas e teorias... têm suas
raízes no ódio e na revolta contra tudo o que ela representava”
(Hoffman, 1988, p. 9).

Maslow tinha um sentimento de inferioridade desde a infância,


por causa do seu físico esquelético e do seu nariz grande, e
caracterizou sua adolescência como um gigantesco complexo de
inferioridade, que ele tentou compensar desenvolvendo
habilidades atléticas. Assim, o homem que mais tarde se
interessou pela obra de Alfred Adler era ele mesmo um exemplo
da teoria adleriana dos sentimentos de inferioridade e da
compensação. Como não conseguisse alcançar aceitação e es
estima no campo atlético, Maslow se voltou para os livros e para
o estudo. Nessa arena, sua atuação sempre foi excelente.

Ele se inscreveu na Universidade Cornell, onde seu primeiro


curso de psicologia foi, segundo ele, “terrível e exangue, nada
tendo que ver com as pessoas; por isso, dei de ombros e o
abandonei” (Hoffman, 1988, p. 26). Ironicamente, o professor de
Maslow naquele curso era E. B. Titchener, que ainda (em 1927)
ensinava apenas sua própria forma estreita de psicologia
estrutural, ignorando as outras escolas de pensamento. Maslow
transferiu-se para a Universidade de Wisconsin e doutorou-se em
1934.

No inicio, Maslow era um ardoso comportamentalista,


convencido de que a abordagem mecanicista da ciência natural
fornecia respostas para todos os problemas do mundo. Então, uma
série de experiências pessoais, que foram do nascimento do seu
primeiro filho a eclosão da Segunda Guerra, passando pela
exposição a outras abordagens da natureza humana (tais como a
filosofia, a psicologia da Gestalt e a psicanálise freudiana), o
persuadiram de que o comportamentalismo era demasiado
limitado para ter relevância para questões humanas duradouras.
Maslow também sofreu a influência de alguns psicólogos
europeus que tinham fugido da Alemanha nazista e se instalado
nos Estados Unidos - Alfred Adler, Karen Horney, Kurt Koffka e
Max Wertheimer. Seus sentimentos de assombro diante de
Wertheimer e da antropóloga americana Ruth Benedict o levaram
ao seu primeiro estudo das pessoas auto-realizadoras
psicologicamente saudáveis. Wertheimer e Benedict foram os
modelos de Maslow para a melhor expressão da natureza humana.

Trabalhando principalmente na Universidade Brandeis, em


Waltham, Massachusetts, entre 1951 e 1969, Maslow
desenvolveu e aprimorou sua teoria numa série de livros
provocadores. Ele apoiou o movimento dos grupos de
sensibilidade e veio a ser um dos mais bem conhecidos psicólogos
dos anos 60. Em 1967, foi eleito presidente da APA.

Segundo a perspectiva de Maslow, cada pessoa traz em si uma


tendência inata para tornar-se auto-realizadora (Maslow, 1970).
Esse nível mais alto da existência humana envolve o
desenvolvimento e o uso supremos de todas as nossas qualidades
e capacidades, a realização de todo o nosso potencial. Para tornar-
se auto-realizadora, a pessoa precisa satisfazer as necessidades
que estão na escala mais baixa da hierarquia de necessidades
proposta por Maslow. Essas necessidades são inatas, e cada uma
delas tem de ser satisfeita antes que a próxima necessidade da
hierarquia surja para nos motivar. As necessidades, na ordem em
que têm de ser atendidas, são: (1) as necessidades fisiológicas de
comida, água, ar, sono e sexo; (2) as necessidades de garantia:
segurança, estabilidade, ordem, proteção e libertação do medo e
da ansiedade; (3) as necessidades de pertinência e de amor, (4) as
necessidades de estima dos outros e de si mesmo; e (5) a
necessidade de auto-realização.

O maior volume das pesquisas de Maslow concentrou-se nas


características de pessoas que atenderam à necessidade de auto-
realização e são por isso consideradas psicologicamente
saudáveis. Maslow disse que elas não chegam a 1% da população.
Essas pessoas são livres de neuroses e psicoses e quase sempre
têm da meia-idade em diante. Elas têm em comum as seguintes
características: uma percepção objetiva da realidade; a plena
aceitação de sua própria natureza; compromisso e dedicação a
algum tipo de trabalho; simplicidade e naturalidade em seu
comportamento; necessidade de autonomia, privacidade e
independência; experiências místicas ou culminantes (momentos
de êxtase, maravilhamento, assombro e deleite intensos); empatia
com toda a humanidade e afeição por ela; resistência ao
conformismo; estrutura de caráter democrática; atitude de
criatividade; e um alto grau de interesse social (um conceito
tornado de Alfred Adler).

Nessa descrição, Maslow apresentou uma imagem otimista e


lisonjeira da natureza humana, uma concepção de saúde
psicológica e de realização que pode ser considerada um bem-
vindo antídoto para os aspectos doentios, preconceituosos e hostis
que podemos encontrar em nossa vida cotidiana. Muitas pessoas
consideram tranqüilizador acreditar que ao menos alguns de nós
são capazes de alcançar um estado próximo da perfeição.

O método de pesquisa e os dados de Maslow têm sido criticados a


partir da alegação de que sua amostra de cerca de vinte pessoas é
demasiado pequena para permitir generalizações. Além disso,
seus sujeitos foram escolhidos segundo seus próprios critérios
subjetivos de saúde psicológica, e os seus termos são definidos de
maneira ambígua e inconsistente. Maslow admitiu que seus
estudos não preenchiam os requisitos da pesquisa científica, mas
retorquiu que não há outra maneira de estudar a auto-realização.
Ele disse que seu programa de pesquisa consiste em estudos
pilotos, e permaneceu convencido de que as suas conclusões um
dia seriam confirmadas.

A teoria da auto-realização tem apenas um limitado apoio


laboratorial empírico; a maioria das pesquisas não conseguiu
sustentá-la. Ela foi aplicada nos negócios e na industria, onde
muitos executivos acreditam que a necessidade de auto-realização
é uma útil força motivadora e uma fonte potencial de satisfação
no trabalho. Apesar de sua popularidade entre os líderes de
negócios, a teoria tem um baixo grau de validade científica e uma
aplicabilidade apenas limitada ao mundo do trabalho. Ela tem
sido aplicada em outras áreas, incluindo a psicoterapia, a
educação e a medicina.

[5] JÔNATAS MILHOMENS e GERALDO MAGELA ALVES


(1997:3-4) fazem um traçado da evolução da função de julgar:

Desde que se formaram os primeiros círculos sociais, na remota


antigüidade, deve ter-se delineado a figura do juiz - pessoa
encarregada de resolver questões surgidas entre os membros do
grupo.

Inevitáveis os conflitos de interesses, o choque das paixões,


naturalmente alguém havia de ser convocado a dirimir
desavenças.

O Ministro Mário Guimarães entrevê nesse fato o surgimento da


função de julgar, tão antiga como a própria sociedade.

“Na família, forma rudimentar da coletividade, juiz é o pai. No


clã, é o chefe, em cujas mãos se concentram, habitualmente, todos
os poderes, é o rei, o general, o sacerdote, o legislador, o juiz”.

“Quando se torna a grei mais numerosa, crescem e se complicam


as relações humanas. O rei, absorvido por outras atividades,
máxime as de guerra, não terá tempo de prover a todos os
dissídios do seu povo. Cometerá tais funções a um preposto.
Destaca-se, nesse momento, a entidade do juiz..” (O Juiz e a
Função Jurisdicional, Rio, 1958, p, 19).

A justiça de mão própria, justiça selvagem, pela tendência a


exceder os limites do necessário à defesa de cada um nos casos
concretos, não podia subsistir, havia de ser substituída por outro
sistema, no qual o juiz seria pessoa alheia aos interesses dos
litigantes.

A princípio com atribuições compreendendo questões


administrativas e religiosas, foi-se restringido a função judicante
ao mesmo tempo em que se desenvolviam os círculos, se
multiplicavam e complicavam as relações sociais, ate chegar-se à
situação à atual, em que se destaca um Poder próprio, autônomo,
composto de órgãos singulares e colegiados, servido por não
menos numeroso séqüito de auxiliares especializados: o Poder
Judiciário.

Em todos os povos se manifestou a função de julgar, grafada em


Códigos, que as pesquisas históricas nos revelaram em escritos,
transcritos pelos antepassados.

“Como quer que seja, quando os povos começam a penetrar na


História, possuem já, delineada, a estrutura de juízes e
tribunais...”(ob. cit., p. 20).

Justiça privada, justiça estatal. Confirmada a natureza social do


homem, é quase certo, entretanto, que nos primórdios da
sociedade fosse constante a disputa dos bens - do alimento, do
vestuário, do abrigo -, “fracos por demais os elos morais para
sustar o braço humano nos golpes desfechados contra a vida, a
liberdade, a honra e os bens alheios”, como se expressa Afonso
Fraga. A autotutela de todos os direitos impunha-se então a cada
um dos associados “como uma necessidade tão imperiosa como o
ar que se respira ou o calor que tudo vivifica” (Instituições do
Processo Civil do Brasil, tomo I, São Paulo, 1940, p. 4).

O Estado - supressa a Justiça pelas próprias mãos daquele que se


diz vítima de ameaça ou ofensa a seu direito - a todos promete o
remédio da prestação jurisdicional, isto é, a tutela jurisdicional,
direito de defender em juízo o que é seu, o que lhe pertence, na
forma prescrita em lei.

Salvo casos excepcionais, só aos Juízes compete dirimir as


dissidências, os conflitos. Nenhum juiz, entretanto, prestará tutela
jurisdicional senão quando a parte ou o interessado a requerer, nos
casos e formas da lei, dispõe o art. 2° do Código de Processo
Civil.

[6] CARL ROGERS (1902-1987)

SCHULTZ e SCHULTZ (1992:397-399) falam em Carl Rogers:

Carl Rogers é conhecido por uma abordagem popular de


psicoterapia denominada terapia centrada na pessoa ou terapia
centrada no cliente. Com base em dados derivados de sua terapia,
Rogers desenvolveu uma teoria da personalidade que se concentra
numa única motivação avassaladora, semelhante ao conceito de
auto-realização de Maslow. Rogers propôs que cada pessoa
possui uma tendência inata para atualizar as capacidades e
potenciais do eu. Ao contrário de Maslow, no entanto, as visões
de Rogers não foram formuladas a partir do estudo de pessoas
saudáveis, mas advieram do tratamento de indivíduos
emocionalmente perturbados através da terapia centrada na
pessoa.

O nome de sua terapia sugere algo da sua concepção da


personalidade humana. Atribuindo a responsabilidade da mudança
à pessoa ou cliente, e não ao terapeuta, como é o caso na
psicanálise ortodoxa, Rogers supôs que as pessoas podem alterar
consciente e racionalmente seus pensamentos e comportamentos
indesejáveis, tomando-os desejáveis. Ele não acreditava que as
pessoas sejam controladas por forças inconscientes ou por
experiências da infância. A personalidade é moldada pelo
presente e pela maneira como o percebemos conscientemente.

A idéia de Rogers de que a personalidade pode ser compreendida


apenas em termos das nossas experiências subjetivas pode refletir
um incidente de sua própria vida. Quando tinha vinte e dois anos
e assistia na China a uma conferencia de estudantes cristãos,
começou a questionar as crenças religiosas fundamentalistas dos
pais e a desenvolver uma filosofia de vida mais liberal (ver
Rogers, 1967). Convenceu-se de que as pessoas devem confiar
em seu próprio exame e na interpretação das suas próprias
experiências. Ele também acreditava as pessoas podem melhorar
conscientemente a si mesmas. Esses conceitos se tornaram pilares
de sua teoria da personalidade. No curso de uma carreira ativa,
Rogers desenvolveu sua teoria e sua abordagem psicoterapêutica,
exprimindo idéias em inúmeros artigos e livros populares.

Rogers sugeriu que a principal força motivadora da personalidade


é a atualização do eu (Rogers, 1961). Embora esse impulso para a
auto-atualização seja inato, ele pode ser ajudado ou prejudicado
por experiências infantis e pela aprendizagem. Rogers enfatizou a
importância da relação mãe-filho porque ela afeta o crescente
sentido do eu da criança. Se a mãe satisfazer sua necessidade de
amor, que Rogers denominava estima positiva, a criança tenderá a
se tornar uma personalidade saudável. Se a mãe condicionar seu
amor pelo filho ao comportamento adequado (o que é
denominado estima positiva condicional), a criança vai
internalizar a atitude da mãe e desenvolver condições de valor.
Nessa situação, a criança só tem um sentido de valor próprio em
certas condições, e evita os comportamentos que produzam
desaprovação por parte da mãe. Como resultado, o eu da criança
não consegue se desenvolver de modo pleno, já que está impedido
de exprimir todos os seus aspectos.

O requisito primordial para o desenvolvimento da saúde


psicológica é a estima positiva incondicional na infância. Durante
esse período, a mãe deve demonstrar seu amor e aceitação da
criança, pouco importando o comportamento desta última. A
criança que recebe essa estima positiva incondicional não
desenvolve condições de valor e não terá de reprimir nenhuma
parcela do eu emergente. Só assim pode a auto-atualização ser
alcançada.

A auto-atualização é o nível mais alto de saúde psicológica, e é


alcançada por meio de um processo que Rogers denominou
funcionamento pleno. Esse nível de desenvolvimento supremo na
teoria de Rogers se assemelha em principio com o estudo de auto-
realização proposto por Maslow. As duas teorias diferem um
tanto no tocante às características da pessoa psicologicamente
saudável ou que alcançou seu pleno funcionamento. Para Rogers,
as pessoas que alcançaram seu pleno funcionamento se
caracterizam por uma abertura a toda experiência, uma tendência
a viver plenamente cada momento, a capacidade de serem guiadas
pelos próprios instintos, e não pela razão ou pelas opiniões dos
outros, um sentido de liberdade de pensamento e de ação e um
alto grau de criatividade.

A abordagem de psicoterapia centrada na pessoa desenvolvida por


Rogers tem tido um grande impacto sobre a psicologia e sobre o
público em geral, sendo ao menos tão popular quanto a
psicanálise freudiana. Sua teoria da personalidade tem sido bem
recebida, particularmente sua ênfase na importância do eu. Têm
sido feitas críticas à falta de especificidade no tocante ao
potencial inato de auto-realização, bem como a ênfase nas
experiências conscientes subjetivas com a exclusão de possíveis
influências inconscientes. Tanto a teoria como a terapia geraram
consideráveis pesquisas corroboratórias, sendo amplamente
usadas em ambientes clínicos. Rogers influenciou o movimento
do potencial humano, e sua obra é vista como uma importante
contribuição da tendência de humanização da psicologia. Foi
eleito presidente da APA em 1946 e recebeu dela os prêmios
Distinguished Scientific Contribution Award e Distinguished
Professional Contribution Award.

[7] A respeito a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça dá


um indicativo de como a maioria dos tribunais decide: (veja-se na
Internet: [http://www.stj.gov.br/SCON/pesquisar.jsp])

Processo ROMS 6407 / RO ; RECURSO ORDINÁRIO EM


MANDADO DE SEGURANÇA 1995/0059391-2 Relator(a)
Ministro FELIX FISCHER (1109) Órgão Julgador T5 - QUINTA
TURMA Data do Julgamento 25/08/1997 Data da
Publicação/Fonte DJ 06.10.1997 p.50017 Ementa
ADMINISTRATIVO. CONCURSO. JUIZ DE DIREITO.
EXAME PSICOTÉCNICO. AUSÊNCIA DE PREVISÃO
LEGAL. - O EXAME PSICOTÉCNICO EM CONCURSO
PÚBLICO PARA JUIZ DE DIREITO DEVE SER PREVISTO
EM LEI, NÃO BASTANDO PARA A SUA LEGALIDADE
SUA PREVISÃO NO EDITAL. - PRECEDENTES. - RECURSO
PROVIDO. Acórdão POR UNANIMIDADE, CONHECER DO
RECURSO E DAR-LHE PROVIMENTO. Resumo Estruturado
ILEGALIDADE, EXIGÊNCIA, EXAME PSICOTÉCNICO,
CONCURSO PÚBLICO, JUIZ SUBSTITUTO, NECESSIDADE,
PREVISÃO, LEGISLAÇÃO, INSUFICIÊNCIA, PREVISÃO,
EDITAL. Referência Legislativa LEG:FED CFD:000000
ANO:1988 ***** CF-88 CONSTITUIÇÃO FEDERAL
ART:00093 INC:00001 LEG:FED LCP:000035 ANO:1979
***** LOMAN-79 LEI ORGÂNICA DA MAGISTRATURA
NACIONAL ART:00078 PAR:00002 (LOMAN)

[8] Transcrevemos abaixo a RESOLUÇÃO Nº 428 /2002-CM do


Conselho da Magistratura do Rio Grande do Sul
[http://www.tj.rs.gov.br/conc/428-2002.html]

CONSELHO DA MAGISTRATURA
RESOLUÇÃO Nº 428 /2002-CM

Adota e regulamenta o procedimento para o próximo concurso de


ingresso na Magistratura, nos termos dos arts. 7º e 8º da Lei nº
6.929/75, com redação introduzida pelas Leis nºs 10.069/94 e
10.615/95.

O CONSELHO DA MAGISTRATURA, no uso de suas


atribuições legais, em sessão de 26-12-2002, (Proc. nº 301/2002-
CM, 5ª Classe),

RESOLVE:

Adotar o procedimento para o próximo concurso de ingresso na


Magistratura Estadual, previsto nos arts. 7º e 8º da Lei nº 6.929,
de 03-12-75 (Estatuto da Magistratura), com a redação
introduzida pelas Leis nºs 10.069/94 e 10.615/95, e lhe dar a
seguinte regulamentação:

REGULAMENTO

Art. 1º - O ingresso na Magistratura de carreira, no cargo de Juiz


de Direito Substituto, depende de aprovação em concurso de
provas e títulos (CF, art. 93, I).

Art. 2º - A realização do concurso será anunciada por edital


publicado integralmente no Diário da Justiça e, duas vezes, por
extrato, em jornal diário da Capital, de larga circulação, com as
indicações dos prazos do edital, de inscrição e de validade, dos
requisitos da inscrição, da sistematização do concurso, da
natureza das provas, dos valores a elas atribuídos, dos títulos que
poderão ser apresentados, do número de vagas, dos recursos
cabíveis e do programa das disciplinas (Estatuto, art. 5º, parágrafo
único, art. 14, parágrafo único, e CF, art. 37, III e IV).
CAPÍTULO I

Das Bases do Concurso

Art. 3º - O concurso para provimento do cargo inicial da


Magistratura do Estado do Rio Grande do Sul, organizado pela
Comissão de Concurso do Tribunal de Justiça, observará as
normas das Constituições Federal e Estadual, da Lei nº 6.929, de
03-12-75, com as alterações posteriores, especialmente as das
Leis nºs 10.069/94 e 10.615/95, as do Regimento Interno do
Tribunal de Justiça e as desta Resolução.

Art. 4º - O processo de seleção desdobrar-se-á em três fases:


preliminar, intermediária e final.

§ 1º - Durante o concurso, serão realizados, com caráter


eliminatório:
a) sindicância sobre a vida pregressa do candidato;
b) exames de sanidade física, psiquiátrica e de aptidão
psicológica.

§ 2º - Sem caráter eliminatório, será ainda realizada entrevista


com os candidatos.

§ 3º - As provas escritas, o estágio de avaliação e as provas orais


serão sucessivamente eliminatórias.

CAPÍTULO II

Da Inscrição

Art. 5º - A inscrição é requerida ao Presidente do Tribunal de


Justiça, mas será processada e decidida pela Comissão de
Concurso (Estatuto, art. 9º, com a redação dada pela Lei nº
8.708/88).

§ 1º - No requerimento devem constar a qualificação do


candidato, suas profissões atual e anteriores, os lugares onde
exerceu cargo ou função pública, atividade ou emprego privado.

§ 2º - O requerimento será instruído com os seguintes


documentos, juntados por cópia e acompanhados do original para
simples conferência (Estatuto, art. 8º, com redação dada pela Lei
nº 10.069/94):
a) cédula de identidade expedida pelo Instituto de Identificação de
Segurança Pública ou carteira de identidade profissional emitida
pela OAB;
b) título de bacharel em Direito;
c) guia de recolhimento da taxa de expediente;
d) duas (2) fotografias recentes, tamanho 3x4;
e) indicação de endereços residencial e profissional, bem como
telefones.

§ 3º - Até três (3) dias úteis anteriores ao início do estágio de


avaliação, o candidato apresentará os seguintes documentos:
a) título de bacharel em Direito devidamente registrado;
b) prova de estar em dia com as obrigações militar e eleitoral, esta
mediante certidão da zona de inscrição;
c) cartão de identificação do contribuinte (CIC) da Receita
Federal;
d) indicação dos cargos, funções e atividades exercidos, públicos
e privados, remunerados ou não, e dos lugares de residência desde
os dezoito (18) anos de idade;
e) declaração, subscrita do próprio punho, sobre antecedentes
criminais, procedimentos administrativos em que tenha sido
indiciado, ações em que seja ou tenha sido réu, no juízo cível ou
criminal, protesto de títulos, penalidades no exercício de cargo
público ou qualquer outra atividade profissional;
f) prova relativa aos antecedentes criminais (folhas corridas da
Justiça Estadual, da Justiça Federal e da Justiça Militar).

§ 4º - Nos dois (2) dias úteis seguintes à publicação do Edital


contendo as notas da Fase Intermediária, após recursos, o
candidato apresentará os títulos obtidos nas áreas universitária e
educacional e outros de que dispuser.
Art. 6º - Para a inscrição é exigida idade superior a vinte e três
(23) anos e inferior a quarenta e cinco (45) anos.

Parágrafo único - O limite de quarenta e cinco (45) anos é


verificado no dia da abertura do prazo de inscrição, e o limite de
vinte e três (23) anos, no dia do encerramento do mesmo prazo
(Estatuto, arts. 7º, 8º, e redação da Lei nº 8.708/88; Lei nº
10.069/94, art. 8º, letra a).

Art. 7º - Os pedidos de inscrição serão registrados e autuados um


a um e distribuídos entre os componentes da Comissão de
Concurso, inclusive ao representante da Ordem dos Advogados
do Brasil.

Parágrafo único - O Serviço de Seleção e Aperfeiçoamento do


Departamento de Recursos Humanos devolverá ao interessado os
documentos apresentados e cancelará o pedido de inscrição, caso
não preenchidas as exigências da lei, desta Resolução e do
respectivo edital.

Art. 8º - Será cancelada a inscrição e sujeitar-se-á à demissão


durante os dois (2) primeiros anos de exercício efetivo do cargo,
além de responder criminalmente pela falsidade, o candidato
responsável por declaração falsa (Estatuto, art. 10).

Parágrafo único - Durante a realização do concurso, os candidatos


a respeito dos quais venha a ser comprovado o não-preenchimento
das condições objetivas e as qualidades morais exigidas para o
ingresso na carreira serão excluídos pela Comissão do Concurso.
Será observado o disposto no art. 35, § 2º, da presente Resolução,
para as hipóteses ocorrentes após a realização das provas da fase
final e a homologação dos resultados (Estatuto, art. 12, parágrafo
2º).

Art. 9º - Findo o prazo de inscrição, publicar-se-á no Diário da


Justiça a relação dos números das inscrições dos candidatos que
não tiveram suas inscrições homologadas.
CAPÍTULO III

Das Provas Escritas

SEÇÃO I

Da Fase Preliminar

Art. 10 - Na fase preliminar, serão considerados classificados os


candidatos que alcançarem nota igual ou superior a seis (6).

§ 1º - A fase preliminar compreenderá duas (2) provas: objetiva e


de sentença.

§ 2º - A prova objetiva conterá noventa (90) questões, versando


sobre Direito Civil, Direito Processual Civil, Direito Penal,
Direito Processual Penal, Direito Constitucional, Direito
Comercial, Direito Administrativo, Direito Tributário e Língua
Portuguesa.

§ 3º - A prova objetiva terá a duração mínima de quatro (4) horas


e selecionará os candidatos que alcançarem sessenta por cento
(60%) de acertos, até o número previsto e nas condições
estabelecidas no edital, tornando-os aptos à prova de sentença.

§ 4º - A prova de sentença terá a duração mínima de quatro (4)


horas e consistirá na elaboração de sentença, de natureza cível ou
criminal, ou de ambas, envolvendo temas jurídicos constantes do
programa, considerado também o conhecimento do vernáculo,
exigindo-se, para a aprovação, nota mínima de seis (6) na
sentença determinada ou em cada uma delas, se ambas forem
exigidas.

§ 5º - Na prova objetiva, os candidatos não poderão efetuar


qualquer tipo de consulta. Na de sentença, só será permitida
consulta à legislação não-comentada e não-anotada. Não se
considera legislação comentada ou anotada a que trouxer súmulas
de jurisprudência ou simples remissão a outros textos de lei. O
candidato inobservante desta proibição sujeita-se ao cancelamento
sumário da inscrição.

§ 6º - Observar-se-ão os seguintes pesos, em dez (10): prova


objetiva, quatro (4); prova de sentença, seis (6).

§ 7º - O desempate com a mesma nota final, na fase preliminar,


atenderá aos seguintes critérios:
I - melhor grau na prova de sentença, se for uma só, ou na média,
se forem exigidas duas sentenças;
II - melhor nota na prova objetiva;
III - maior número de acertos, por ordem, em Direito Civil e
Direito Penal;
IV - persistindo o empate, mediante sorteio público.

Art. 11 – A prova objetiva da fase preliminar poderá ser


organizada, aplicada e corrigida por professores ou entidade
especializada e conceituada, contratados pelo Poder Judiciário,
mediante indicação da Comissão de Concurso.

Parágrafo único - A banca contratada submeter-se-á à supervisão


da Comissão de Concurso, que homologará ou modificará os
resultados e julgará os recursos.

Art. 12 – Apuradas as notas das provas da fase preliminar, a


Comissão de Concurso procederá à identificação e fará publicar,
no Diário da Justiça, o número de inscrição dos classificados.

SEÇÃO II

Da Fase Intermediária

Art. 13 – Serão matriculados no Estágio de Avaliação para


Ingresso na Carreira da Magistratura no máximo os sessenta (60)
primeiros classificados.

§ 1º - Os demais classificados poderão ser habilitados à fase


intermediária, segundo a ordem de classificação, no prazo de
validade do concurso, conforme as necessidades da
Administração.

§ 2º - O Estágio será ministrado pela Corregedoria-Geral da


Justiça, com a colaboração da Escola Superior da Magistratura do
Rio Grande do Sul e supervisão da Comissão de Concurso.

§ 3º- Os candidatos matriculados no Estágio farão jus a bolsa de


estudo de valor correspondente a cinqüenta por cento (50% ) dos
vencimentos do cargo de Juiz de Direito de entrância inicial. O
benefício será devido do início ao término do estágio, cessando,
automaticamente, no caso de cancelamento voluntário ou
compulsório da matrícula.

§ 4º - O servidor público estadual matriculado tem direito ao


afastamento do serviço para freqüentar o Estágio de Avaliação
para Ingresso na Carreira da Magistratura.

§ 5º - Se o afastamento for concedido com prejuízo de


vencimentos, o servidor fará jus à bolsa de estudo referida no §
3º.

§ 6º - O Estágio terá a duração mínima de dois (2) meses.

§ 7º- O Estágio será administrado por uma Comissão composta de


dois (2) Juízes-Corregedores e dois (2) representantes da Escola
Superior da Magistratura, presidida por membro da Comissão de
Concurso.

§ 8º - A Comissão do Estágio criará o programa de trabalho, que


será submetido à Comissão de Concurso, elaborando, ainda, a
estimativa das despesas e a previsão dos repasses periódicos a
serem submetidas ao Presidente do Tribunal de Justiça.

§ 9º - A Comissão do Estágio especificará os temas a serem


desenvolvidos a partir das matérias constantes do edital. Os
estagiários serão submetidos à avaliação mediante provas e
elaboração de trabalhos práticos ligados à atividade jurisdicional,
levando-se em conta os níveis de qualidade e de quantidade
apresentados pelo estagiário.

§ 10 - A freqüência deverá ser integral, admitindo-se apenas dez


por cento (10%) de faltas justificadas.

§ 11 - Serão excluídos do Estágio os candidatos com ausência


não-justificada, que mantiverem comportamento inadequado ou
usarem de meios ilícitos no período de avaliação.

§ 12 - A aptidão para o exercício da Magistratura será aferida em


função da adequação e da capacidade demonstrada pelo candidato
de desempenhar atos e atividades inerentes ao cargo e pela
correção, presteza e segurança demonstradas no desempenho dos
exercícios teóricos e práticos que lhe forem solicitados.

§ 13 - Ao final da fase intermediária, a Comissão do Estágio


emitirá parecer escrito fundamentado sobre o aproveitamento e
aptidão dos candidatos.

§ 14 - A Comissão do Concurso, de posse do parecer, proferirá


julgamento, declarando os candidatos aprovados na fase
intermediária, atribuindo-lhes nota de um (1) a dez (10),
determinando publicação.

§ 15 - Será considerado aprovado o candidato que obtiver média


final igual ou superior a seis (6).

Disposições Gerais

Art. 14 - A ausência do candidato a qualquer uma das provas, seja


qual for o motivo, implicará o cancelamento de sua inscrição.

Art. 15 - Serão consideradas não-escritas as provas ou trechos de


prova que forem ilegíveis.

Art. 16 - Serão também consideradas não-escritas as meras


reproduções, no todo ou em parte, de textos de lei ou de
regulamento.

CAPÍTULO IV

Da Sindicância

Art. 17 - A sindicância, ou investigação social, consiste na coleta


de informações sobre a vida pregressa e atual e a conduta
individual e social do candidato.

Parágrafo único - A sindicância será realizada pela Comissão de


Concurso e iniciada após conhecidos os candidatos habilitados à
fase intermediária.

Art. 18 - A Comissão de Concurso encaminhará aos magistrados,


à Seção e Subseções da Ordem dos Advogados do Brasil, à
Procuradoria-Geral do Estado, à Defensoria Pública e à
Procuradoria-Geral de Justiça a nominata dos candidatos
habilitados, para que informem a respeito de qualquer um deles
no prazo de trinta (30) dias.

Parágrafo único - Se o candidato residir em outro Estado, a


nominata será encaminhada às respectivas Presidências dos
Tribunais de Justiça e Alçada, à Corregedoria-Geral da Justiça, à
Procuradoria-Geral de Justiça, à Procuradoria-Geral do Estado,
Defensoria Pública e à Seção da Ordem dos Advogados do Brasil.

Art. 19 - As autoridades e qualquer cidadão poderão prestar,


sigilosamente, informações sobre os candidatos, vedado o
anonimato.

CAPÍTULO V

Dos Exames de Saúde

Art. 20 - O candidato habilitado à fase intermediária submeter-se-


á a exame de sanidade física, psiquiátrica e de aptidão
psicológica.
Art. 21 - O Departamento Médico Judiciário do Tribunal de
Justiça programará a realização dos exames, em consonância com
as diretrizes estabelecidas pela Comissão de Concurso.

Parágrafo único - O não-comparecimento injustificado a qualquer


exame acarretará o cancelamento da inscrição do candidato.

Art. 22 - Os laudos serão sempre sigilosos, fundamentados, com


apreciação crítica sobre o candidato e conclusivos.

§ 1º - O laudo, na área de sanidade física, será elaborado por dois


profissionais responsáveis pelos exames dos candidatos. Havendo
discordância, cada profissional lavrará seu laudo, e a Comissão de
Concurso indicará o desempatador.

§ 2º - Os laudos psicológicos e psiquiátricos realizados por


especialistas das respectivas áreas enunciarão as condições de
habilitação do candidato em relação às doenças mentais, às
exigências da atividade jurisdicional e à segurança no
comportamento, bem como seu quociente de inteligência.

§ 3º - A pedido do candidato, ou se julgar necessário, a Comissão


poderá determinar a realização de outros exames por outros
peritos.

Art. 23 – Cabe à Comissão avaliar os laudos juntamente com os


dados da sindicância e entrevista.

Parágrafo único - Julgado inabilitado por decisão fundamentada,


assegurar-se-á ao candidato acesso às conclusões do laudo,
fornecendo-se-lhe cópia deste.

CAPÍTULO VI

Da Entrevista

Art. 24 - A entrevista é encargo da Comissão de Concurso e


processar-se-á após a fase intermediária, servindo para conhecer
aspectos da estrutura da personalidade e para identificar as
qualidades morais, sociais, educacionais e culturais do candidato.

Art. 25 - Os entrevistadores, que poderão ser em número de dois


(2) para cada entrevista, elaborarão as avaliações pessoais dos
candidatos, combinando os dados da entrevista com as conclusões
dos exames de saúde, de aptidão psicológica e o teor das
informações recebidas.

Parágrafo único - A avaliação será registrada e comunicada aos


integrantes da Comissão de Concurso e, se aprovado o candidato,
à Corregedoria-Geral da Justiça.

CAPÍTULO VII

Das Provas Orais

Art. 26 - A data do início das provas orais será anunciada por


edital publicado no Diário da Justiça e em jornal de grande
circulação, com a antecedência mínima de cinco (5) dias.

Art. 27 - As provas orais, realizadas em locais abertos ao público,


consistirão na dissertação e argüição sobre temas das disciplinas
de Direito Constitucional, Direito Civil, Direito Penal, Direito
Comercial, Direito Processual Civil e Direito Processual Penal.

§ 1º - Serão examinadores os integrantes da Comissão de


Concurso e Desembargadores especialmente convidados,
formando-se banca de dois integrantes para cada disciplina.

§ 2º - O ponto será sorteado na presença do examinado,


assegurando-se-lhe o prazo de quinze (15) minutos para consulta
à legislação não-comentada.

§ 3º - A seguir, o examinando comparecerá perante a banca e


disporá de quinze (15) minutos para discorrer sobre o ponto
sorteado.
§ 4º - Após a dissertação, a critério da banca, poderão ser
propostas outras questões sobre qualquer dos pontos da disciplina
objeto do exame.

§ 5º - Cada examinador atribuirá o seu grau de avaliação, de zero


(0) a dez (10), e a nota da disciplina resultará da média aritmética.

Art. 28 - Será considerado aprovado o candidato que tiver média


aritmética final igual ou superior a seis (6), e nenhum grau
inferior a cinco (5), por disciplina.

CAPÍTULO VIII

Da Prova de Títulos

Art. 29 - Os títulos apresentados pelos candidatos aprovados nas


provas escritas e orais serão apreciados pela Comissão de
Concurso.

Art. 30 - Constituem títulos:


a) o exercício da judicatura: peso máximo oito (8) pontos, se o
tempo de exercício for superior a vinte e quatro (24) meses; peso
máximo seis (6) pontos, se inferior;
b) o exercício do cargo de Pretor: peso máximo sete (7) pontos, se
o tempo de exercício for superior a vinte e quatro (24) meses;
peso máximo seis (6) pontos, se inferior, ponderadas, na
valoração, a segurança e a presteza no exercício da jurisdição;
c) o exercício de cargo do Ministério Público, Procuradoria do
Estado ou Defensoria Pública: peso máximo de sete (7) pontos, se
o exercício for superior a vinte e quatro (24) meses; peso máximo
seis (6) pontos, se inferior (com a redação aprovada a 20-06-2000
pelo Conselho da Magistratura) ;
d) o exercício efetivo da advocacia pelo prazo mínimo de cinco
(5) anos: peso máximo sete (7) pontos;
e) o exercício do magistério jurídico, desde que o candidato tenha
sido admitido no corpo docente através de processo seletivo, ou
esteja em atividade por tempo superior a três (3) anos: peso
máximo cinco (5) pontos;
f) aprovação em concurso para judicatura, Ministério Público,
Procuradoria do Estado, Defensoria Pública ou magistério
jurídico, desde que não sejam computados pontos com base nas
letras a, b e d: peso máximo quatro (4) pontos (com a redação
aprovada a 20-06-2000 pelo Conselho da Magistratura) ;
g) autoria de livro com apreciável conteúdo jurídico: peso
máximo cinco (5) pontos; trabalho jurídico - pareceres, teses,
estudos, conferências: peso máximo três (3) pontos;
h) exercício de função pública que exija admissão mediante
concurso e amplos conhecimentos jurídicos: peso máximo quatro
(4) pontos;
i) o exercício de função pública que exija amplos conhecimentos
jurídicos: peso máximo dois (2) pontos;
j) cumprimento de estágio junto ao Poder Judiciário: peso
máximo dois (2) pontos;
k) curso de preparação à Magistratura, realizado em convênio
com o Tribunal de Justiça, com nota de aproveitamento: peso
máximo quatro (4) pontos; apenas com certidão de freqüência:
peso máximo dois (2) pontos;
l) curso de extensão teórico-prático de decisões judiciais
resultante de convênio firmado entre o Tribunal de Justiça e a
Escola Superior da Magistratura da Ajuris: peso máximo dois (2)
pontos;
m) curso de extensão sobre matéria jurídica, com mais de
cinqüenta (50) horas-aula, com nota de aproveitamento ou
trabalho de conclusão de curso, ministrado por professor de
notória capacidade docente: peso máximo de dois (2) pontos;
n) diploma de curso de aperfeiçoamento, no máximo três (3)
pontos, e de especialização, no máximo até quatro (4) pontos;
o) diploma de Livre-Docente ou de Doutor, até no máximo oito
(8) pontos, e de Mestre, no máximo seis (6) pontos;
p) láurea universitária no curso de Bacharelado em Direito: peso
máximo três (3) pontos.

Art. 31 - Não constituem títulos:


a) trabalho cuja autoria não seja exclusiva ou não esteja
comprovada;
b) atestado de capacidade técnica ou de boa conduta profissional;
c) trabalhos forenses;
d)diplomas ou certificados de cursos com menos de cinqüenta
(50) horas-aula, ou de mera freqüência a cursos sobre matéria
jurídica.

Art. 32 - A nota máxima da prova de títulos será igual a dez (10)


pontos, ainda que o candidato faça jus a mais.

CAPÍTULO IX

Da Nota Final do Concurso

Art. 33 - A nota final de aprovação no concurso corresponderá à


média aritmética final ponderada igual ou superior a seis (6), na
escala de zero (0) a dez (10), atribuindo-se:
a) peso três (3) à nota final das provas preliminares;
b) peso quatro (4) à nota final da fase intermediária;
c) peso dois (2) à nota final das provas orais;
d) peso um (1) à nota final da prova de títulos.
Art. 34 - A Comissão de Concurso calculará a nota de cada
candidato e publicará, no Diário da Justiça, a classificação geral
com os nomes dos habilitados, pela ordem decrescente do grau
obtido, declarando inabilitados os demais.

CAPÍTULO X

Da Homologação pelo Órgão Especial

Art. 35 - Compete ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça, com


a participação e o voto do representante da Ordem dos Advogados
do Brasil, homologar os resultados do concurso, à vista de
relatório apresentado pelo Presidente da Comissão de Concurso.

§ 1º - A não-homologação do resultado em relação a algum


candidato dependerá do pedido de destaque e de voto da maioria
absoluta dos integrantes do Órgão Especial.
§ 2º - Serão excluídos, por decisão do Órgão Especial, ainda
depois de realizadas as provas e homologados os seus resultados,
os concorrentes a respeito dos quais venha a ser comprovado o
não-preenchimento das condições objetivas ou das qualidades
morais exigidas para o ingresso na carreira (Estatuto, art. 12,
parágrafo 2º).

Art. 36 - Homologados os resultados finais do concurso, será


enviada à autoridade competente a relação nominal dos
candidatos aprovados, obedecendo-se, nas nomeações, à ordem de
classificação (Estatuto, art. 13).

Parágrafo único - Havendo empate entre os candidatos, será


preferido, na ordem de classificação, o que tiver obtido melhor
nota na fase intermediária e, persistindo o empate, o de melhor
nota na fase preliminar e, por fim, se necessário, o de maior média
na prova de sentença.

Art. 37 - O concurso terá validade por dois (2) anos, contados da


data de publicação do resultado final, prorrogável, por igual
período, a critério do Órgão Especial do Tribunal de Justiça
(Estatuto, art. 14, parágrafo único, e CF, art. 37, III).

CAPÍTULO XI

Da Reconsideração, da Revisão e dos Recursos

Art. 38 - Compete à Comissão de Concurso, com a participação e


o voto do representante da Ordem dos Advogados do Brasil, o
julgamento, em caráter definitivo e irrecorrível, dos pedidos de
revisão de notas atribuídas em cada prova.

Art. 39 - As decisões da Comissão de Concurso, relativamente à


recusa na admissão de candidatos, ao cancelamento de inscrição,
à declaração de inaptidão física, mental ou psicológica e à
classificação final dos aprovados, serão passíveis de recurso, no
prazo de cinco (5) dias, ao Conselho da Magistratura (art. 15 da
Lei nº 8.708/88).
§ 1º - O recurso será dirigido à própria Comissão, que o apreciará
previamente, em juízo de sustentação ou reforma, fundamentando
a decisão. Mantida a decisão, o recurso irá ao conhecimento e
julgamento do Conselho da Magistratura.

§ 2º - Compete ao Conselho da Magistratura, com a participação e


o voto do representante da OAB, o julgamento, em caráter
definitivo e final, dos recursos previstos neste artigo (Lei nº
8.708/88, art. 15, parágrafo único).

Art. 40 - Todo recurso terá efeito suspensivo, salvo em relação à


recusa na admissão dos candidatos.

Art. 41 - O Órgão Especial do Tribunal de Justiça, com a


participação e voto do representante da OAB, poderá, pelo voto
da maioria absoluta de seus membros, apreciando pedido de
destaque, excluir candidato integrante da nominata encaminhada
pela Comissão de Concurso, inclusive por defeito moral.

§ 1º - O candidato excluído poderá interpor pedido de


reconsideração, sem efeito suspensivo, no prazo de cinco (5) dias.

§ 2º - Para provimento do pedido de reconsideração, são


necessários votos da maioria absoluta dos membros do Órgão
Especial, com a composição prevista no caput deste artigo.

Art. 42 - Excluído o caso do artigo antecedente, o julgamento dos


recursos pelo Conselho da Magistratura e a homologação dos
resultados pelo Órgão Especial são definitivos.

CAPÍTULO XII

Disposições Gerais

Art. 43 - A Comissão de Concurso, julgando necessário, poderá


exigir do candidato, para seu ingresso nos locais de prova, a
exibição de cédula de identidade.
Art. 44 - Anulada alguma questão da prova escrita, a Comissão
decidirá se a prova será renovada ou se os pontos relativos à
questão serão creditados a todos os candidatos.

Art. 45 - Não podem tomar parte dos atos do concurso os


Desembargadores ou advogados parentes, consangüíneos ou
afins, até o terceiro grau, inclusive, de qualquer candidato.

Art. 46 - O representante da OAB tem direito a voz e voto no


âmbito da Comissão de Concurso, como também nas sessões do
Conselho da Magistratura e do Órgão Especial do Tribunal de
Justiça, em que se discuta e julgue matéria pertinente ao concurso.

Art. 47 - O pedido de inscrição do candidato implica a declaração


de que conhece este regulamento e se obriga a respeitar suas
prescrições.

Art. 48 - Os examinadores poderão solicitar dispensa dos


encargos jurisdicionais durante o tempo necessário à correção das
provas escritas ou à realização das provas orais.

CAPÍTULO XIII

Disposições Finais

Art. 49 - Os casos omissos nesta Resolução serão resolvidos pela


Comissão de Concurso, ad referendum do Conselho da
Magistratura.

Art. 50 - A presente Resolução entrará em vigor na data de sua


publicação, revogadas as disposições em contrário, e
especialmente a Resolução nº 320/2000-CM.

Porto Alegre, 27 de dezembro de 2002.

DES. JOSÉ EUGÊNIO TEDESCO,


Presidente.
BELª. ANA LIA VINHAS HERVÉ,
Secretária.

[9] O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul dá um realce


especial à avaliação psicológica dos juízes durante o período de
vitaliciamento
[http://www.tj.rs.gov.br/institu/projetos/sisvita.html]:

Sistema de Vitaliciamento de Juízes

De acordo com o artigo 95, inciso I da Constituição Federal, os


Juízes gozam da garantia da vitaliciedade, que, no primeiro grau,
só será adquirida após dois anos de exercício do cargo. Neste
período, o Juiz encontra-se em processo de vitaliciamento.

Logo após a posse dos novos Juízes, a Corregedoria-Geral da


Justiça organiza, curso preparatório ao exercício da magistratura,
de caráter eminentemente prático e com duração estabelecida para
cada turma.

Após um ano, é promovido encontro com os vitaliciandos, para


avaliar a atividade já desenvolvida, propiciando trocas de
experiências e projetando a orientação a ser seguida no trabalho
futuro.

A atividade de avaliação de desempenho dos Juízes em


vitaliciamento, cuja incumbência é também afeta à Corregedoria,
é feita da seguinte forma:

São formados expedientes individuais, controlados pelo SERAJ


(Serviço de Estatística e Registro da Atividade dos Juízes), sob a
supervisão do Juiz-Corregedor encarregado da matéria, onde
reúnem-se informações referentes à avaliação do desempenho do
Juiz vitaliciando levando em conta o periodo compreendido entre
o ingresso no exercício da função até 120 (cento e vinte) dias
antes de findar o biênio para aquisição da vitaliciadade.
Neste período, são avaliados o desempenho jurisdicional, incluída
a idoneidade moral, bem como a adaptação psicológica ao cargo e
às funções.

Para efeito de orientação do vitaliciando, haverá um Juiz-


Orientador, que o acompanhará durante todo o período de
vitaliciamento.

A avaliação do desempenho jurisdicional observará aspectos


qualitativos e quantitativos do trabalho desenvolvido pelo
magistrado.

A qualidade do trabalho é avaliada sob dois enfoques:


estrutura do ato sentencial e das decisões em geral;
presteza e segurança no exercício da função.

A avaliação da qualidade tem como universo as cópias de


trabalhos escolhidos remetidos mensalmente pelo magistrado
vitaliciando (sentenças e outros atos).

Tais trabalhos são examinados pelo Juiz-Avaliador, que preenche,


mensalmente, as planilhas correspondentes contendo a precisa
indicação do ato analisado e observações concretas sobre o
trabalho, as quais são remetidas trimestralmente ao avaliado.

A avaliação da presteza e segurança no exercício da função é


resultante das observações e informações colhidas pelo Juiz-
Corregedor- Orientador em visitas ao vitaliciando na comarca em
que estiver atuando.

O Juiz vitaliciando, sempre que possível, integra equipe de


trabalho que realiza inspeções em varas e cartórios onde estiver
designado.

A avaliação quantitativa do desempenho jurisdicional do


magistrado baseia-se na sua capacidade de contração ao trabalho e
eficiência no exercício da função, levando em conta
especialmente:
sentenças de mérito encaminhadas pelo vitaliciando durante o
período em exame;
demais decisões;
despachos;
audiências realizadas;
número de partes testemunhas ouvidas;
outras atividades eventualmente exercidas (Pequenas Causas,
Eleitoral, Juizado da Infância e Juventude, Direção do Foro,…).

A adaptação psicológica do magistrado em vitaliciamento ao


cargo e às funções, é avaliada a partir dos exames psicológicos
aos seis, doze e dezoito meses do exercício da judicância,
permanecendo os laudos à disposição da Corregedoria até 30 dias
após a última entrevista.

Os fatos relevantes são comunicados pelo Departamento Médico


Judiciário ao Corregedor-Geral da Justiça, de forma reservada,
para fins de acompanhamento e orientação quando possível.

O Juiz-Orientador, trimestralmente, elabora relatório sobre o


desenvolvimento do desempenho jurisdicional do vitaliciando,
abordando análise da judicância sob a ótica da qualidade e
quantidade do trabalho realizado, sempre considerando o universo
em que exercida a função, fazendo apreciações, críticas e
sugestões que entender oportunas e convenientes ao
aperfeiçoamento da atividade do magistrado, os quais são
levados, de imediato, ao conhecimento do Juiz vitaliciando.

[10] As críticas aos juízes muitas são rigorosas, vide


ALTAVILLA (2003:519-520):

Um dos elementos que mais perturba o juiz é a opinião pública,


sobre a qual se reflectem, como elementos componentes, as
opiniões políticas, o sentimento religioso, etc. Dão-se crimes que
provocam profunda impressão: cria-se um estado colectivo de
expectativa da sentença do juiz, o qual, involuntariamente, é
levado a proferir a sua sentença num sentido que o tornará
popular.

Observa, com muita exactidão, DE SANCTIS: “O juízo de valor,


é expressão dos instintos morais e sociais da sociedade. Mas
objecta-se que se deve substituir pelo juízo de facto o de valor, o
qual se acusa um pouco de tudo. O juízo de valor está fora da
lógica; e a lógica do sentimento (RIBOT), a qual entra no juízo do
grau de culpabilidade (por ex., na concessão das circunstâncias
atenuantes)”.

É perfeitamente exacto: o juízo de valor é completamente


estranho à indagação probatória. O desejo popular de que alguém
seja punido ou absolvido nada tem a ver com as provas obtidas, e
mesmo que este desejo se baseie numa convicção de inocência ou
de culpabilidade, só poderá ter valor, na medida em que, saindo
da nebulosa afectiva ou até simplesmente emotiva de uma
opinião, indique os elementos probatórios de que ela deriva.

Bem diverso é o juízo acerca do valor social, ou anti-social, do


facto.

Já noutro lugar demonstrámos que a lei escrita apresenta uma


série de porosidades, que permitem um trabalho de osmose, de
acordo com a mudança dos sentimentos éticos e, portanto, da
opinião pública.

Quando se fala de “facto injusto e justo”, dá-se a possibilidade de


concordar com uma expectativa de piedade, ou de severidade, que
pode ser satisfeita, porque o juiz não pode ser anti-histórico e
deve viver “na plenitude dos tempos”.

Um magistrado pode ser sereno e objectivo e não cumprir o seu


dever, porque vai beber as suas convicções a conhecimentos
extraprocessuais.

É um dos maiores perigos, que a defesa não pode combater de


maneira alguma. Um magistrado que ouviu contar um facto a um
criado, a um amigo, a qualquer pessoa, que lhe falou como
particular e não como magistrado, ficará amanhã céptico perante
os depoimentos de pessoas categorizadas, tomando quase a
atitude de uma testemunha que se insurge contra o depoimento de
outra testemunha, sem pensar que a sua função é, pelo contrário,
de crítica e de fiscalização.

E acontece que quando o advogado pensa ter feito todo o seu


dever, discutindo tudo o que consta do processo, não convenceu
de modo algum o juiz, o qual baseia toda a sua convicção numa
narração de que não há vestígios no processo.

De igual modo o conhecimento de uma pessoa, de uma


testemunha do ofendido, do próprio acusado, pode orientar
diversamente a convicção do juiz.

[11] A inteligência espiritual - qeinteligenciaepirit - que não é


matéria religiosa - tem sido objeto de estudo, conforme certificam
Danah Zohar e Ian Marshall no seu livro Inteligência Espiritual -
QEs, editado pela Sinais de Fogo, de Portugal
[http://artforall.shopping.sapo.pt/shop/SearchResults.asp?ProdSto
ck=qeinteligenciaepirit]:

O início do século XX lançou a ideia do Quociente de Inteligência


(QI). Em meados dos anos 90, Daniel Goleman demonstrou que a
Inteligência Emocional (QE) se reveste de igual importância. E,
fechando o milénio, Danah Zohar e Ian Marshall apresentam o
Quociente Espiritual.

A Inteligência Espiritual está relacionada com a necessidade


humana de encontrar o sentido das coisas.

Usamos o QEs para desenvolver a capacidade de dar significado e


valores à experiência. Permite-nos sonhar e lutar por converter os
nossos sonhos em realidades. Subjaz a tudo aquilo em que
acreditamos e ao papel que têm os nossos juízos e crenças nos
nossos actos.
É em essência o que nos faz humanos. Este livro analisa as provas
científicas da existência do QEs e ensina a medi-lo, a melhorá-lo
e a desenvolvê-lo.

[12] O número de tipos psicológicos varia infinitamente de


acordo com os critérios de cada pesquisador. O estudo mais
completo a respeito é o de RALPH METZNER em Know Your
Type. New York: Anchor, 1979.

JUNG dividiu inicialmente os tipos psicológicos em introvertidos


e extrovertidos, mas posteriormente foi levando em conta outros
dados e multiplicaram-se os tipos, chegando ROBIN
ROBERTSON (1992) a propor dezesseis tipos ou mais.

G. J. BALLONE, em
http://www.psiqweb.med.br/persona/jung2.html
(PAIQWEB), fala sobre os tipos psicológicos segundo JUNG:

Dentre todos os conceitos de Carl Gustav Jung, a idéia de


introversão e extroversão são as mais usadas. Jung descobriu que
cada indivíduo pode ser caracterizado como sendo primeiramente
orientado para seu interior ou para o exterior, sendo que a energia
dos introvertidos se dirige em direção a seu mundo interno,
enquanto a energia do extrovertido é mais focalizada no mundo
externo.

Entretanto, ninguém é totalmente introvertido ou extrovertido.

Algumas vezes a introversão é mais apropriada, em outras


ocasiões a extroversão é mais adequada mas, as duas atitudes se
excluem mutuamente, de forma que não se pode manter ambas ao
mesmo tempo. Também enfatizava que nenhuma das duas é
melhor que a outra, citando que o mundo precisa dos dois tipos de
pessoas.

Darwin, por exemplo, era predominantemente extrovertido,


enquanto Kant era introvertido por excelência.
O ideal para o ser humano é ser flexível, capaz de adotar qualquer
dessas atitudes quando for apropriado, operar em equilíbrio entre
as duas.

As Atitudes: Introversão e Extroversão

Os introvertidos concentram-se prioritariamente em seus próprios


pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo à
introspecção. O perigo para tais pessoas é imergir de forma
demasiada em seu mundo interior, perdendo ou tornando tênue o
contato com o ambiente externo. O cientista distraído,
estereotipado, é um exemplo claro deste tipo de pessoa absorta em
suas reflexões em notável prejuízo do pragmatismo necessário à
adaptação.

Os extrovertidos, por sua vez, se envolvem com o mundo externo


das pessoas e das coisas. Eles tendem a ser mais sociais e mais
conscientes do que acontece à sua volta. Necessitam se proteger
para não serem dominados pelas exterioridades e, ao contrário dos
introvertidos, se alienarem de seus próprios processos internos.
Algumas vezes esses indivíduos são tão orientados para os outros
que podem acabar se apoiando quase exclusivamente nas idéias
alheias, ao invés de desenvolverem suas próprias opiniões.

As Funções Psíquicas

Jung identificou quatro funções psicológicas que chamou de


fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. E
cada uma dessas funções pode ser experienciada tanto de maneira
introvertida quanto extrovertida.

O Pensamento
Jung via o pensamento e o sentimento como maneiras alternativas
de elaborar julgamentos e tomar decisões. O Pensamento, por sua
vez, está relacionado com a verdade, com julgamentos derivados
de critérios impessoais, lógicos e objetivos. As pessoas nas quais
predomina a função do Pensamento são chamadas de Reflexivas.
Esses tipos reflexivos são grandes planejadores e tendem a se
agarrar a seus planos e teorias, ainda que sejam confrontados com
contraditória evidência.

O Sentimento

Tipos sentimentais são orientados para o aspecto emocional da


experiência. Eles preferem emoções fortes e intensas ainda que
negativas, a experiências apáticas e mornas. A consistência e
princípios abstratos são altamente valorizados pela pessoa
sentimental. Para ela, tomar decisões deve ser de acordo com
julgamentos de valores próprios, como por exemplo, valores do
bom ou do mau, do certo ou do errado, agradável ou
desagradável, ao invés de julgar em termos de lógica ou
eficiência, como faz o reflexivo.

A Sensação

Jung classifica a sensação e a intuição juntas, como as formas de


apreender informações, diferentemente das formas de tomar
decisões. A Sensação se refere a um enfoque na experiência
direta, na percepção de detalhes, de fatos concretos. A Sensação
reporta-se ao que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar. É a
experiência concreta e tem sempre prioridade sobre a discussão
ou a análise da experiência.

Os tipos sensitivos tendem a responder à situação vivencial


imediata, e lidam eficientemente com todos os tipos de crises e
emergências. Em geral eles estão sempre prontos para o momento
atual, adaptam-se facilmente às emergências do cotidiano,
trabalham melhor com instrumentos, aparelhos, veículos e
utensílios do que qualquer um dos outros tipos.

A Intuição

A intuição é uma forma de processar informações em termos de


experiência passada, objetivos futuros e processos inconscientes.
As implicações da experiência (o que poderia acontecer, o que é
possível) são mais importantes para os intuitivos do que a
experiência real por si mesma. Pessoas fortemente intuitivas dão
significado às suas percepções com tamanha rapidez que, via de
regra, não conseguem separar suas interpretações conscientes dos
dados sensoriais brutos obtidos. Os intuitivos processam
informação muito depressa e relacionam, de forma automática, a
experiência passada com as informações relevantes da experiência
imediata.

Normalmente, uma combinação das quatro funções resulta numa


abordagem equilibrada do mundo para a pessoa.

Jung considera que, para nos orientarmos, temos que ter uma
função que nos assegure do concreto que está aqui (sensação).

Em seguida, uma segunda função que estabeleça o que é esse


concreto percebido (pensamento), depois, uma terceira função que
declare se isto nos é ou não apropriado ou que valor isso tem
(sentimento), finalmente, uma quarta função que indique de onde
isto veio e para onde vai (intuição).

Entretanto, ninguém desenvolve igualmente bem todas as quatro


funções.

Cada pessoa tem uma dessas funções fortemente predominante, e


tem também uma segunda função auxiliar, parcialmente
desenvolvida.

As outras duas funções restantes em geral são inconscientes e a


eficácia de sua ação será bem menor.

Quanto mais desenvolvidas e conscientes forem as funções


dominante e auxiliar, mais profundamente inconscientes serão as
funções opostas.

E quais seriam, segundo Jung, as funções consideradas opostas?


O Sentimento se opõe ao Pensamento e a Sensação se opõe à
Intuição.

Assim sendo, a pessoa jamais seria predominantemente


Sentimental tendo em segunda prevalência o Pensamento, ou seja,
jamais seria Sentimantal-Reflexiva, mas poderia ser Sentimental-
Intuitiva, por exemplo.

Segundo essa caracterização de personalidade de Jung, teríamos 4


tipos psicológicos mistos: Reflexiva-Sensitiva (caso prevaleça o
Pensamento em primeiro plano e a Sensação em segundo, sobre
as outras duas bastante apagadas); Sensitiva-Reflexiva, Intuitiva-
Sentimental e Sentimental-Intuitiva.Nosso tipo funcional indica
nossas forças e fraquezas relativas e o estilo de atividade que
tendemos a preferir.

A tipologia de Jung é especialmente útil no relacionamento


interpessoal, ajudando-nos a compreender os relacionamentos
sociais.

Ela descreve como as pessoas percebem, usam critérios, agem e


ao fazem julgamentos.

Por exemplo, os oradores Intuitivos-Sentimentais não terão um


estilo de conferência lógico, firmemente organizado e detalhado
como são os oradores Reflexivos-Sensitivos.

É provável que seus discursos sejam divagações, que apresentem


o sentido de um tema abordando-o sob vários ângulos diferentes,
ao invés de desenvolvê-lo sistematicamente.

Jung chamou as funções menos desenvolvidas em cada pessoa de


funções inferiores. Inferior é a função menos consciente, mais
primitiva e menos diferenciada.

Essa função inferior pode representar uma influência demoníaca


para algumas pessoas, pelo fato de terem pouco ou nenhum
entendimento ou controle sobre ela.
Por exemplo, tipos cuja função mais forte é a intuitiva, podem
achar que os impulsos sexuais parecem misteriosos ou até
perigosamente fora de controle pelo fato de haver excessiva falta
de contato com a função sensitiva.

[13] CARLOS BERNARDI publicou na Internet seu estudo


intitulado INDIVIADUAÇÃO: DO EU PARA O OUTRO,
ETICAMENTE
[http://www.rubedo.psc.br/artigosb/jgetiind.htm]

O senhor... Mira veja: o mais importante e bonito, do mundo, é


isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram
terminadas -- mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou
desafinam. Verdade maior.

Guimarães Rosa, Grande Sertão, Veredas

É quase uma unanimidade considerar o processo de individuação,


formulado por Jung, como uma de suas maiores contribuições à
psicologia e um de seus conceitos fundamentais.

Contudo, em sua não sistematicidade, característica marcante de


sua obra, Jung deixou espaço suficiente para respondermos de
maneira singular aos seus escritos. Somos instigados a continuar
reformulando suas idéias originais, de forma que o nome próprio
"Jung" se transforma em um estilo de pensamento ou em um
conjunto de questões que pedem respostas ou contra-assinaturas,
isto é, que sejam rigorosamente lidos, mas não literalmente
repetidos. Sob uma perspectiva, podemos dizer que Jung, através
das ferramentas conceituais que ele e sua psicologia nos
fornecem, ajuda-nos a olhar o mundo e seus fenômenos de uma
determinada maneira. Assim, seus escritos tornam-se apenas as
respostas que ele próprio deu a estes mesmos fenômenos, mas
não, necessariamente, as únicas respostas possíveis. A
importância desta perspectiva encontra-se no afastamento da
constituição de uma ortodoxia controladora.

Foi por intermédio desta abertura que pude estabelecer um


colóquio entre Jung e dois grandes pensadores contemporâneos, a
saber: Jacques Derrida e Emmanuel Levinas. Com suas reflexões
buscarei re-ver justamente o conceito de individuação, dedicando
atenção especial à possibilidade de sua leitura ontológica
redutora, controlada pela perspectiva do Mesmo, fato que, no meu
entender, diminui a força da dimensão ética da individuação, já
claramente estabelecida pelo próprio Jung. Portanto, seguindo
Levinas, proporemos uma inversão: levar a reflexão acerca do
processo de individuação da dimensão ontológica para uma
dimensão ética. Derrida, por sua vez, nos ajudará, entre outras
coisas, a pensar o relacionamento entre o ego e os "conteúdos" do
si-mesmo no processo de individuação em termos das
problemáticas e aporias da hospitalidade.

Sem sombra de dúvida, há uma dimensão ética no encontro com


as imagens no processo de individuação. Jung sempre enfatizou
sua importância no relacionamento entre o consciente e o
inconsciente. No prefácio ao seu texto "A Função
Transcendente", escreveu em relação às fantasias e imagens do
inconsciente:

O significado e valor dessas fantasias somente serão revelados


através de sua integração na personalidade como um todo - quer
dizer, no momento em que se é confrontado não apenas com o
que elas significam, mas também com suas demandas
morais.(The Transcendent Function, CW vol. 8, pág. 68)

Portanto, para Jung, as imagens da fantasia fazem exigências


morais à consciência. Estas devem ser respondidas, caso
contrário, formações neuróticas poderão ocorrer. Uma outra
possibilidade por ele levantada, aponta para o risco de
procedimentos puramente estéticos comandarem a dialética
consciente-inconsciente, tornando-a inócua. O encontro com as
imagens exigem uma seriedade que Jung sempre se esforçou em
demonstrar.

Gostaria, contudo, de destacar um trecho desta citação, tornando


ainda mais meticulosa minha análise, como exige a ética da
leitura desconstrutora. Trata-se da expressão "integração na
personalidade como um todo", . Ela toma, aqui, uma grande
importância pois, dependendo de como será entendida, obteremos
resultados diferentes na constituição de um modelo junguiano de
sujeito. É, inclusive, em relação a estas possibilidades, que as
preocupações éticas de Levinas ocorrerão. Lendo este trecho com
Levinas, duas palavras devem ser seriamente repensadas:
integração e todo. Surgem duas questões: onde ou a quem
integrar? Que espécie de todo é possível ser pensado?

Para respondê-las será preciso dialogar com outros escritos de


Jung.

Em "Consciência, inconsciente e individuação", Jung nos oferece


uma conceituação sucinta e central de individuação.

Uso o termo 'individuação' no sentido do processo que gera um


um 'in-divíduum' psicológico, ou seja, uma unidade indivisível,
todo. (Os arquétipos e o inconsciente coletivo, pág. 269)

Individuar, aqui, é separar e diferenciar elementos de um todo.


Contudo, esta unidade recém formada, constitui, por sua vez, um
outro todo, desta vez indivisível, ou seja, não mais passível de ser
diferenciado. Temos, então, duas espécies de todo. O primeiro, de
onde elementos se separam; o segundo, constituído por cada um
desses elementos. Não seria isso, uma grande contradição, a
existência dessas duas espécies de todo? No capítulo "Definições"
de seu livro Tipos Psicológicos, Jung escreve mais à respeito da
individuação.

Em geral, é o processo pelo qual seres individuais são formados e


diferenciados; em particular, é o desenvolvimento do indivíduo
psicológico como um ser distinto da psicologia coletiva geral.
Individuação, portanto, é um processo de diferenciação, tendo
como meta o desenvolvimento da personalidade individual.
(Tipos Psicológicos, par. 757)

Podemos claramente perceber que o todo a partir do qual a


individuação processa suas diferenciações, é um todo
indiferenciado, equiparado aos valores coletivos onde os
elementos se encontram, usando uma expressão alquímica, em um
estado de massa confusa ou inconsciência. Já o "segundo" todo,
seria fruto do meu posicionamento individual diante de tudo que
me cerca. O todo é tudo, poderia ser a expressão resumida deste
processo. Isto fica explícito quando Jung, afirma que o indivíduo,
que vai se constituindo através do processo de individuação, não é
um ser isolado, mas pressupõe um relacionamento coletivo.

Dessa forma, ele conclui: "o processo de individuação deve levar


a relacionamentos coletivos mais amplos e mais intensos e não a
um isolamento" (Tipos Psicológicos, par. 758). Esta é a dimensão
propriamente política da individuação. Nela não pode haver uma
oposição a uma norma coletiva. Isto seria, para Jung, apenas uma
outra norma contrária à primeira. Trata-se aqui da aderência cega
à norma coletiva. É esta aderência ou submissão que evita o
caminho da responsabilidade individual. Nas palavras de Jung:
"Quanto mais a vida de um homem é moldada pela norma
coletiva, maior é sua imoralidade individual." (Tipos
Psicológicos, par. 761).

Resumindo: o todo de que fala Jung quando pensa em


individuação é diferente deste outro indiferenciado. Vamos
guardar esta última expressão na memória, pois será nela que
ocorrerá a inversão que mencionei há pouco tempo atrás, e que,
inclusive, fornecerá um título a este trabalho, comandando do
alto, como fazem os títulos segundo Derrida, a direção deste
texto: do outro indiferenciado à diferenciação do outro. Só que
este título não está no alto em sua posição de poder, mas está em
meio ao texto e foi por ele produzido; foi, na verdade, produzido
por seu outro. Isto já é ética.

Todo e totalidade são palavras carregadas de peso no pensamento


ocidental, nos adverte Levinas. O grande perigo para o qual
chama a atenção é, nesta totalidade, o Outro ser reduzido ao
Mesmo, ou a ele integrado. Traduzindo isto para a linguagem
psicológica, seria reduzir os conteúdos do inconsciente ao ego.
Este risco é real na medida em que o ego ou a consciência-do-ego,
em seu "orgulho de juventude", se acha no controle dos processos
psíquicos e identifica-se com a totalidade destes mesmos
processos.

Só se pode falar de integração se esta for entendida não como um


processo de unificação ou simplificação, mas como um processo
de complexidade e reconhecimento constante da existência das
diferenças produzidas no movimento de diferenciação.
Integração, portanto, deve ser entendido como o resultado do
reconhecimento mútuo de todas as partes. É esta mutualidade que
pode ser chamada de totalidade. Nada nem ninguém pode ser
segregado, reprimido ou esquecido. Mesmo com esta advertência
o perigo de redução ao Mesmo ainda existe. Para Levinas, em
princípio, todo todo pensa em ser totalizável. Este "desejo" do
todo reaparece na psicologia junguiana nas fantasias da
individuação após a morte ou através de sucessivas
reencarnações, no final das quais, o eu (Mesmo) adquire a
totalidade há muito almejada, uma espécie de nirvana psicológico.
Este desejo de totalização pode estar, também, por detrás do
conceito de individuação da humanidade (conceito por si só
globalizante) que encontramos em Aniela Jaffé. Este conceito,
que vincula o desabrochar, através da história, de aspectos e
traços que gradual e hierarquicamente se aproximam da verdade
totalizada através de um modelo. A ela estão associadas as idéias
de globalização e de fim da história como estágio final do
desenvolvimento político-social através da democracia liberal.
Em "Espectros de Marx", Jacques Derrida faz um comentário que
em nada nos espanta.

Portanto, deve ser anunciado, no momento em que alguém tem a


audácia de neo-evangelizar em nome do ideal de uma democracia
liberal que finalmente compreendeu a si mesma como o ideal da
história humana: nunca a violência, desigualdade, exclusão, fome
e opressão econômica afetaram tantos seres humanos na história
da terra e da humanidade.

Zygmunt Bauman, um dos grandes teóricos da globalização e do


pós-modernismo, escreveu que a globalização "reivindica sua
própria imunidade ao questionamento" e que, embutida nesta
proposta, está um "viver sem alternativas". Tudo isto é passado
como se fosse o processo natural da evolução histórica e não
como uma ideologia que é imposta a todos, gerando, nas palavras
de Bauman, "a tentação de reduzir a diferença à força".

Segundo Levinas, o pensamento ocidental é caracterizado por um


esquecimento sistemático do Outro. Este só é permitido como um
momento de um processo em que ele irá, finalmente, ser
compreendido, incorporado e integrado ao Mesmo, uma outro
forma de pensar e nomear o eu. Mesmo e Outro formam uma
oposição que será, em última instância, unificada. Levinas
chamou esta unificação de totalidade. Como deseja pensar o
homem a partir de uma posição essencialmente ética, julga
imprescindível proteger o Outro de ser reduzido ao Mesmo. Em
outras palavras, deseja que o Outro seja recebido em sua
irredutível estranheza. A subjetividade passa a ser entendida como
a abertura original ao Outro. Este Outro não é um outro que eu
possa compreender pela empatia. Ele é sempre um mistério
essencial, nunca conhecido nem conhecível. Levinas substitui a
filosofia do fenômeno pela filosofia do enigma, uma filosofia da
escuridão na qual o Outro nunca é plenamente visto, conhecido ou
possuído.

A problemática do Mesmo e do Outro é exemplicada por duas


personagens conhecidas por todos: Ulisses e Abraão. Enquanto o
primeiro parte de Ítaca em direção a Tróia, se perde por 10 anos,
mas retorna ao seu ponto de origem, Abraão parte em busca de
uma terra desconhecida, estabelecendo uma eterna errância. Em
Ulisses, o Outro é reduzido ao Mesmo; em Abraão, o Outro é
mantido inatingível enquanto Outro.

O Outro me coloca em questão e é este colocar-me em questão


pelo Outro que Levinas denomina ética. Por isso, a ética é uma
ótica, brota da percepção impossível do Outro que mostra sua
face, se revela epifanicamente, mas nunca se constitui um objeto
de percepção ou conhecimento. A imagem é sempre um discurso
que nunca consigo compreender em sua plenitude.

É em seu ensaio "Sobre o Renascimento" que Jung vai se referir,


explicitamente, à individuação como uma conversa com o outro.
Menciona os Dióscuros, o par mortal-imortal de gêmeos da
mitologia grega, para ilustrar o encontro psíquico do ego com o
outro.

Os processos de transformação pretendem aproximar ambos, a


consciência porém resiste a isso, porque o outro lhe parece de
início como algo estranho e inquietante, e não podemos
acostumar-nos à idéia de não sermos senhores absolutos na
própria casa. Sempre preferiríamos ser 'eu' e nada mais. Mas
confrontamo-nos com o amigo ou inimigo interior, e de nós
depende ele ser um ou outro.(Sobre o renascimento, pág. 135)

"Sermos senhores absolutos na própria casa". Esta é uma


expressão metafórica utilizada repetidamente tanto por Jung
quanto por Freud. Ela está diretamente vinculada com as
preocupações e questionamentos éticos de Levinas e Derrida,
principalmente quando pensam o encontro com o outro através da
hospitalidade, ou, como prefere Derrida, hostipitalidade. Aqui
também surgem alguns questionamentos. Quem disse que somos
senhores absolutos na própria casa? Quem é o autor desta idéia?
Quem autorizou pronunciá-la e com qual autoridade ela é
mantida? Estou elencando algumas palavras cuja raiz vem do
grego auton, o Mesmo. Para Levinas, o Mesmo constitui a
dimensão ontológica por excelência. É a dimensão do ser. A
filosofia primeira no entender de Aristóteles. Nela o outro só tem
sua existência reconhecida na medida em que pode ser conhecido
e reduzido ao Mesmo. Podemos denominar esta atitude de
integração ontológica, que diferenciaremos de uma integração
ética.
A posição de Jung é similar a de Levinas. Esta conversa com o
outro pode ser chamada de “associação” ou “solilóquio”. O outro
é reduzido aos meus próprios pensamentos como se, nas palavras
de Jung, “tudo o que fosse psíquico pertencesse à alçada do eu!”
(pág. 136). Não é concedido ao Outro uma realidade absoluta ou
alteridade radical. Jung, contudo, nos adverte que não é o caso,
como muitos ingenuamente pensam, de “seguir” o ditames do
inconsciente, como se este fosse um proveta. Jung é claro: o
‘Outro’ deve ser tão unilateral quanto o eu. É através do conflito
que se instala que pode surgir a verdade e o sentido. Mas este
conflito só tem chances de acontecer se ao Outro é concedida
condição de realidade. Jung fala sobre o “outro”:

Este último tem uma personalidade própria, sem dúvida, tanto


quanto as vozes dos doentes mentais; porém um colóquio
verdadeiro só se torna possível quando o eu reconhece a
existência de um interlocutor. Este reconhecimento não é comum
entre as pessoas, pois nem todos se prestam aos Exercitia
spiritualia. Não se trata naturalmente de uma conversa quando
somente um dirige a palavra ao outro - como faz George Sand em
suas conversas com seu amigo espiritual; só ela fala nas trinta
páginas em questão e ficamos esperando inutilmente a resposta do
outro. Ao colóquio dos Exercitia segue-se talvez a graça
silenciosa, na qual o céptico moderno não acredita. Mas como
seria se Cristo com o qual falamos desse uma resposta imediata
através das palavras de um coração pecador? Que terríveis
abismos de dúvida se abririam então? Que loucura temeríamos?
Compreende-se que é melhor a mudez das imagens divinas e que
a consciência do eu acredite em sua supremacia em vez de
prosseguir associando. Compreende-se que o amigo interno
apareça tantas vezes como inimigo e, por estar tão longe, sua voz
é fraca.(págs. 136-137)

O tamanho da citação se justifica, pois ao mencionar Cristo e


penetrar, assim, na esfera religiosa, Jung e Levinas uma vez mais
se aproximam. Para obter do eu o reconhecimento da alteridade
radical, ambos divinizam o outro, pensando Deus ou o nome Deus
como a expressão máxima desta alteridade radical da qual nunca
obterei pleno conhecimento e, portanto, nunca conseguirei
integrá-la a mim mesmo. Só posso me sujeitar ao seu discurso e
recebê-lo em toda sua estranheza. Na face do outro vislumbramos
o rastro de Deus. Este é o arqué de toda alteridade. Levinas
condensou tudo isso na econômica expressão: a hospitalidade
antecede a propriedade. Na linguagem da psicologia analítica isto
pode ser traduzido dessa maneira: hospedo o si-mesmo antes
mesmo de me auto possuir. Assim, ao invés de sugar a libido das
imagens do inconsciente para o engrandecimento do eu, tal qual
um vampiro, a ética do processo de individuação me diz, ao
contrário, para doar meu sangue, pacificamente ofertando-me ao
vizinho. Por isso, daqui por diante, mudarei levemente a dicção
do nosso conceito central e passarei a pronunciar “processo de
individuação, movimento semelhante aquele feito por Derrida,
quando introduz, na palavra diferença, a letra “a”, transformando-
a em diffèrence, o processo incessante de diferenciar e adiar o
estabelecimento do sentido, ou seja, o sentido nunca se dá de uma
vez para sempre. Está sempre se fazendo, desfazendo, refazendo,
como o solve et coagula dos alquimistas. O mesmo ocorre no
processo de individuação.

Levinas irá acrescentar ao pensamento da totalidade, que nunca


tem um fora, a idéia de infinito, inspirando-se na terceira
meditação de Descartes. Nesta meditação, Descartes acrescenta à
certeza da existência do eu, até então, a única não passível de
dúvida, uma outra certeza. Como explicar que um ser finito pode
conceber o infinito? Esta idéia só pode ter sido criada por um ser
infinito. Descartes concluiu que além do sujeito há um outro ente,
Deus, que Levinas reinterpreta como o absolutamente Outro que
nunca poderá ser plenamente falado. O Outro é, portanto, o
infinito. A relação ética me faz desejar este Outro, um desejo que
nunca será satisfeito, pois não brota da falta nem se dirige à
totalidade. Não é necessidade que se esforça por ser saciada, mas
é desejo de infinito e transcendência.

Em seu livro mais importante, Outramente que Ser, ou Além da


Essência, Levinas acrescenta uma diferenciação crucial que muito
nos ajudará neste projeto de ler Jung com Levinas. Trata-se da
distinção entre o Dizer e o Dito. Estes são dois aspectos da
linguagem. Enquanto o dito se constitui de temas, idéias ou
observações que comunicamos através do discurso, o Dizer nunca
pode ser encapsulado no Dito, nunca está plenamente presente,
mas apenas deixa traços nele. O Dizer é o lugar utópico onde me
aproximo do Outro, onde o infinito, aquilo que me escapa, é
buscado e desejado, mas, novamente, nunca plenamente
apreendido.

O Dizer é, portanto, da ordem da significância, enquanto o Dito o


é do significado. O Dizer nada diz que possa ser tematizado. É
meramente um aqui estou ao qual estou exposto como sujeito. É
um diálogo responsável com o vizinho, outro nome com que
Levinas se refere ao Outro, um nome menos abstrato e mais
corporal. Dialogo com o vizinho, contudo, porque não sei o que
ele está me dizendo. Esta é a essência ética da minha
subjetividade.

A distinção entre ego e si-mesmo, na psicologia analítica, não se


deve a um processo de recalque, mas se dá como a condição
original do ser humano. Isto Levinas denomina a presença do
infinito no finito. Vamos, portanto, deixar de pensar o processo de
individuação como o movimento em direção à totalidade, mas
pensá-lo como um movimento em direção ao infinito, o
reconhecimento da existência de um Outro que epifanicamente
revela sua face. Ao eu cabe a tarefa enorme de dizer ao Outro:
“aqui estou”, colacando-me à disposdição de ouvir seu discurso,
aquilo que James Hillman chamou de retórica das imagens, sem
chegar a qualquer tipo de integração total ou a qualquer espécie
de deciframento final. Somos, portanto, anti-édipos, sempre
devorados pelo Outro e nunca capazes de decifrar seus enigmas.

A diferença proposta por Levinas entre o Dizer e o Dito é


fundamental e se encaixa perfeitamente nas reflexões de Jung
sobre a formação simbólica. Se o símbolo é a melhor tentativa de
se formular algo desconhecido, o que dele podemos pensar é
sempre da ordem de uma aproximação, nunca de um
esgotamento. À tradução completa em algo conhecido Jung
chamou de signo, que podemos dizer que é a morte do
desconhecido, a morte do Outro: sua radical estranheza é reduzida
ao meu total conhecimento de seu sentido, dando vazão ao nosso
sonho de estabilidade. A imagem simbólica se revela como um
Dizer ao qual só posso responder aproximadamente com um Dito.
Cada imagem é uma alteridade radical e absoluta, infinitamente
me instigando. Com isso, o si-mesmo deixa de ser o arquétipo do
significado, que pode ser esgotado em um Dito, passando a ser o
arquétipo da significância, da ordem do Dizer, um enigma que
provoca minha responsabilidade.

Deve ser hospitaleiro ao dizer do outro. Isto Levinas e Derrida


resumem na fórmula: ética é hospitalidade.

Derrida vê a hospitalidade como a atitude fundamental do eu em


relação ao Outro. Em seu livro “Da Hospitalidade” começa
falando sobre a questão do estrangeiro. Tanto a questão sobre seu
estatuto político quanto sobre a questão que ele nos lança. Entre
elas, a questão da linguagem. Por não compartilhar a mesma
linguagem ele deve ser recebido com mais tolerância. Mesmo
assim hospedar o estrangeiro ou o estranho torna-se uma questão
condicional. Dependendo de quem é, qual o seu nome, de onde
vem, serei capaz ou não de recebê-lo. Derrida deseja, contudo,
pensar uma outra espécie de hospitalidade, que denominou
hospitalidade absoluta, onde recebo o outro sem lhe perguntar seu
nome e, até mesmo, exigir reciprocidade. O oposto disso, quando,
por exemplo, nos sentimos invadidos ou violados, é um
etnocentrismo e nacionalismo ampliado, ambos xenófobos. É
construído um limiar onde o hospedeiro tenta calcular as chances
e riscos que o novo chegante lhe trará ao atravessar o mencionado
limiar. Isto, por sua vez, limita a aplicação da lei da hospitalidade.
Por um lado há a Lei da hospitalidade inconsndicional ou
hiperbólica; por outro lado, as leis que regulam, na prática as
condições da hospitalidade, agora, condicional e jurídico-politica.
Para Derrida, estes dois regimes são contraditórios, não-
dialetizáveis e inseparáveis.

Como pensar estas questões em relação à individuação? Vamos


pensar os conteúdos do inconsciente como o estrangeiro de que
fala Derrida. Ele é aqule que vem de “fora” do campo da
consciência. Como recebê-lo “em minha casa”, em minha
consciência? Temos aqui as duas possibilidades levantadas por
Derrida.

Por um lado, recebemos a imagem através do registro


condicional. Dependendo de como ela se apresenta, será rejeitada
pelo ego, ou seja, reprimida, ou de tal maneira domesticada que o
mistério que ela apresenta se transforma no conhecido que eu
posso aceitar e suportar. Isto reduz a individuação no projeto
egóico de ampliação e estabilidade.

Por outro lado, o processo de individuação só ocorrerá em toda


sua força ética no registro da hospitalidade absoluta, onde o eu
torna-se o sujeito que se sujeita ao Outro, hospedando sua face
enigmática sem tentar reduzi-lo ao Mesmo. Aqui o eu diz sim
àquilo que se apresenta.

Estas duas possibilidades, que refletem as tensões e aporias da


Individuação, leva-nos a concluir que ela é o encontro entre o eu e
o Outro, onde não há uma repetição cega do segundo pelo
primeiro, mas que tem, como condição sina qua non, o
posicionamento ético do eu em relação ao Outro, quer dizer,
minha pré-disposição de ouvir o que ele tem a Dizer.

Ego e si-mesmo, enquanto opostos, estão perpetuamente em


movimento. Podemos falar em negociação, principalmente depois
de Derrida ter resgatado a força da palavra através de sua
etimologia, não-descanso. No processo de individuação não há
estabelecimento de posições fixas. A neurose, em sua função
prospectiva, abala o ego em seu desejo de dominação e
apropiação por meio de um posicionamento unilateral, que não
estabelece negociações éticas com o outro.

Nos seminários sobre o Zaratustra de Nietzsche, Jung comenta


que ”não podemos individuar sem outros seres humanos. Não
podemos individuar no cume do Monte Evereste ou numa caverna
onde não vemos ninguém durante 70 anos. Só podemos
individuar com ou contra alguém ou alguma coisa” (Zaratustra,
pág. 209). Com estra frase, demonstra que a tarefa é tanto interna
quanto externa e que não posso me furtar a dar minha
contribuição responsável a nenhum desafio e questionamento que
a vida me apresenta. Dizer sim à vida, amar o destino, como
propõe Nietzsche, no processo infinito de confrontá-lo, sem
nenhum ponto de chegada, mas somente ceder ao desejo de ir ao
encontro dos Outros, caracteriza a plenitude de um processo de
individuação que deseja ser pensado como ético.

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