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História da África

Material Teórico
A expansão Islâmica na África

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Ms. Avelar Cezar Imamura

Revisão Textual:
Profa. Ms. Rosemary Toffoli
A expansão islâmica na África

• O processo de expansão
• O Islã na África do Norte
• O avanço em direção ao Saara
• O Sudão e o poderoso Império de Gana
• Em direção ao sul do Saara e do lendário Império Mali
• A chegada na Senegâmbia e na Núbia
• O islã numa Etiópia cristã
• A expansão na Costa da África Oriental e nas Ilhas

··Entender a importância histórica da expansão islâmica na África na sua


configuração étnica, política, religiosa e cultural.

Leia atentamente o conteúdo desta Unidade, que lhe possibilitará conhecer o processo que
levou o islamismo a ser uma das religiões com maior número de fiéis na África.
Você também encontrará nesta Unidade uma atividade composta por questões de múltipla
escolha, relacionada ao conteúdo estudado. Além disso, terá a oportunidade de trocar
conhecimentos e debater questões no fórum de discussão.
É extremante importante que você consulte os materiais complementares, pois são ricos
em informações, possibilitando-lhe o aprofundamento de seus estudos sobre este assunto.

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Unidade: A expansão Islâmica na África

Contextualização

Atualmente, ouvimos falar com muita frequência sobre os países africanos que professam
a fé mulçumana. Contudo, não sabemos que nem sempre tais países estavam submetidos ao
Islã ou, ainda, que muitos deles professavam algum tipo de cristianismo ou que já conheciam
a fé judaica, além de cultivarem suas crenças tradicionais...
Para conhecerem a história de tais países, leia com atenção os textos, pesquise, e reflita
sobre a situação dos países na África que professam a fé islâmica. Verifique se estes países
participaram do movimento político-religioso que ficou conhecido como “Primavera Árabe”,
e quais foram as consequências.

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Introdução

O contato e as trocas comerciais e culturais entre africanos e árabes são registradas desde
a Antiguidade. A busca por novos produtos, bem como o uso de rotas marítimas e terrestres
permitiram o encontro com as culturas nômades de ambos os Continentes.
Por volta do V século da nossa era, um elemento irá ligar mais estreitamente os países
do Norte da África e o mundo árabe: o Islã irá despontar no horizonte e expandir-se tanto
religiosa como cultural e politicamente, e nações inteiras serão convertidas ao islamismo.

“Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso. Louvado


seja Deus, Senhor do Universo. O Clemente, o Misericordioso.
Soberano no Dia do Juízo. Só a Ti adoramos e só de Ti imploramos
ajuda. Guia-nos à senda reta. A senda de quem agraciaste, não
à dos abominados, nem à dos extraviados.” (Surata de Abertura
do Alcorão é primordial na oração islâmica. Ela contém a essência do
Alcorão e é recitada no início de toda oração)

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Unidade: A expansão Islâmica na África

O processo de expansão

Depois de sua primeira visão e da fuga (hégira1) para Medina, em 622, Maomé (Mohammad)
tornou-se o Profeta de Alá e fundador de uma nova religião monoteísta – o Islã (submissão). Os
adeptos da religião do Profeta – o islamismo – serão aqueles “submissos (submetidos) a Alá. E
sua tarefa é a de converter todos aos desígnios divinos de Alá.

Maomé irá receber, por meio das visões do anjo Gabriel, o livro sagrado dos muçulmanos –
o Corão2. Sem sofrer nenhuma alteração ao longo dos séculos, composto de 114 suratas, é a
principal fonte da fé e da vida de todo muçulmano. Traça as orientações para uma sociedade
justa, a conduta humana perfeita e para um equitativo sistema econômico.
Mapa do Norte da África e a expansão do Islã durante e após a morte do Profeta

Expansão durante a época de Maomé, 622-632


Expansão durante o Califado Rashidun, 632-661
Expansão durante o Califado Omíada, 661-750

Fonte: Wikimedia Commons

A expansão da doutrina e dos domínios do Islã aconteceu depois da morte do Profeta que,
por não ter indicado sucessores ou estabelecido critérios para a eleição, gerou conflitos entre
seus seguidores. Dois grupos, que ainda hoje vivem em conflito, surgiram da disputa pelo
controle da religião: os sunitas (seguidores da suna3)– que apoiavam a sucessão por eleição
seguindo a tradição das tribos árabes nômades e elegeram Abu Bakr como sucessor (Khalifah),
que morreu dois anos depois e foi sucedido por Omar; e os xiitas4, partidários da escolha
hereditária do cargo de chefe religioso e político do Islã e que viam em Ali – genro e primo do
Profeta – o legítimo sucessor.

1 Hégira - significa “fuga” e marca o início do calendário islâmico.


2 Corão ou Alcorão - (a) recitação.
3 Suna - conjunto de preceitos e tradições escritos com base nas palavras de Maomé e dos quatro califas ortodoxos. Esse conjunto de regras
é um suplemento legal do Corão.
4 Xiitas - do árabe “shiat Ali”, partidários de Ali. Defendiam que os valores políticos, religiosos e culturais do islamismo deveriam estar
concentrados em um único líder, o imã.

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Imediatamente à morte de Maomé, o Islã viveu um período de agitação. Os conflitos se
deram com as tribos no Norte da Arábia, formadas por grupos de xiitas, kharidjitas, qaysitas,
todos partidários de Ali. Com a morte de Ali, chega ao fim o período dos “Califas Ortodoxos”.
E Moawiya, em 661, assume o poder inaugurando a Dinastia Omíada (661 a 750)5. E Hisham
ibn Abd al-Malik será um dos seus sucessores mais conhecidos. A dinastia da família Omíada
será determinante para a expansão do Império Árabe.

Construções dos Omíadas no Norte da África

Fonte: Kairouan/Wikimedia Commons

Com a inauguração de um novo período de paz, a expansão do império se dará em três


direções: Constantinopla e Ásia Menor, África do Norte e Espanha, Ásia Central.

5 Dinastia Omíada - originários de Meca, a família Omíada havia chegado ao poder durante o governo do terceiro califa Otman, mas o regime
Omíada foi fundado em 661 por Muawaya, governador da Síria, após o fim da primeira guerra civil islâmica.

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Unidade: A expansão Islâmica na África

O Islã na África do Norte

Alguns registros comprovam a presença de mulçumanos no Continente africano muito


antes de sua penetração rumo ao Norte da África. No período inicial do Islã, durante a
perseguição, alguns dos seguidores de Maomé buscaram refúgio na Etiópia e ficaram sob a
proteção do rei Najashi.

Marrocos, Tunísia, Argélia, Líbia e Mauritânia, o Sudão assim como o Saara Ocidental
(estes últimos incluídos posteriormente) são os países que formam a região conhecida como
Norte da África ou África Setentrional, que, pelo Mediterrâneo, mantinha constantes contatos
com as culturas, línguas e religiões diferentes. Muitos autores afirmam que é justamente este
convívio que facilitou a conquista do Islã.

O primeiro país a aderir ao islamismo foi o Egito (século VII). Alguns atribuem a conversão
tanto ao conflito entre as Igrejas Cristãs Copta (Igreja cristã egípcia com ritos e idioma próprios)
e Bizantina (Igreja cristã de rito e língua gregas), como pelos constantes contatos comerciais,
pela entrada de agricultores beduínos nômades islamizados em terras egípcias e pela estrutura
político-administrativa dos estados árabes islâmicos.

Seu avanço foi marcado pela criação de entrepostos em importantes pontos da costa
africana. Locais estratégicos como Trípoli, alcançada em 643, e tornada um acampamento
militar permanente em 670, e depois Cartago, invadida em 695 e ocupada definitivamente
em 698, se tornaram fundamentais para as intenções islâmicas na África do Norte.
África Setentrional
Tunísia
Marrocos

Argélia Líbia
Saara Egito
ocidental

Mauritânia

Fonte: Fustat/Wikimedia Commons

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Seguindo as rotas terrestres já usadas pelos comerciantes árabes beduínos, diferente processo
ocorreu na conquista dos países do Magreb6, uma vez que as populações mais próximas
ao Mediterrâneo já eram há muito convertidas ao cristianismo, enquanto as localizadas no
interior eram adeptas das religiões tradicionais africanas. Em algumas regiões, sobretudo nas
montanhosas, era praticada a fé judaica.
O general Ukba é mencionado como o responsável pela pacífica conversão ao Islã das populações
do Magreb. Entretanto, estudiosos apontam para o caráter lendário dos feitos do general. A ocupação
da região foi muito mais longa e violenta do que constam nos registros de Ukba.
A existência de várias comunidades cristãs, depois de dois séculos do início da expansão islâmica
confirma o caráter lento e violento das conversões. Documentos papais chamam a atenção para
o reduzido número de clérigos e religiosos para atender às comunidades autóctones que ainda
resistem no norte africano. O processo de conversão será mais fácil na cidade do que no campo.

O avanço em direção ao Saara

Os berberes7 foram o grupo que maior resistência ofereceu ao domínio do Islã. A progressiva
conversão deu-se em etapas com fases de avanços e de retrocessos. No início, a conversão
adquiria um caráter formal e era realizada pelos chefes e anciãos dos clãs. Quando as tropas
árabes se retiravam eles retornam as suas práticas administrativas antigas, para, em pouco
tempo depois, retornar à submissão ao Islã.
Esta prática foi realizada durante muito tempo, até que os árabes resolveram mudar a
tática: condicionavam a libertação de jovens líderes africanos à sua conversão ao Islã e em
troca ofereciam postos de comando no exército. Os vários guerreiros berberes que passaram
a integrar os exércitos árabes dão sinais de que a nova estratégia foi bem sucedida. Entretanto,
cabe acrescentar que a conversão se dará nas cidades e regiões costeiras. A introdução o
islamismo nas regiões mais longínquas levará mais tempo e empreenderá mais esforços árabes.
Mapa com a localização das populações berberes
Tuaregs Kabyles
Zaians Chawis
Riffis Saharian Berbers
Chenwis Chleuhs

Fonte: iStock/Getty Images

6 Magreb (Al-Maghrib) – “onde o sol se põe”, poente ou ocidente. Região a Noroeste da África que corresponde a região da África do Norte
ou África Setentrional. No Império Romano era conhecida como África Menor.
7 Berbere - grupo da família de línguas afro-asiáticas. Vários povos nômades (como os cabilas ou os tuaregues) que habitam o Norte da África
(Argélia, Egito, Líbia, Marrocos e Túnisia) e o Saara, principalmente nas regiões montanhosas.
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Unidade: A expansão Islâmica na África

Após decênios de embates, os berberes irão aceitar o islamismo, mas não a dominação
estrangeira. Sua resistência acabará por uni-los a um dos mais antigos grupos político –religioso
do Islã: os kharidjitas.

O ensinamento político e religioso dos kharidjitas era, a um só


tempo, democrático, puritano e integrista, satisfazendo todos os
pontos em relação aos quais ele se opunha radicalmente a ortodoxia
absolutista do califado. Os princípios igualitários dos kharidjitas
expressam‑ se pelo modo de designação do imame (o chefe da
comunidade muçulmana): para eles, tratava‑se de um posto eletivo
e não hereditário, acessível a qualquer muçulmano pio, desde que
a sua moral e as suas convicções fossem irreprocháveis, fosse ele
árabe ou não, escravo ou homem livre. (El Fasi, p. 79, 2010)

Os princípios defendidos pelos kharidjitas conquistaram os berberes que abraçaram a fé


islâmica e a espalharam por toda a região desértica por eles ocupada. A opção pela doutrina
kharidjita se traduzia, efetivamente, na rejeição à classe árabe dominante e também à abertura
tanto para a doutrina sunita, com eleição de um líder muçulmano não berbere (como em Taert,
em Idris), como para a xiita, uma vez que a sucessão poderia ser hereditária como ocorria em
Marrocos, cujo chefe era um descendente de Ali.
O domínio do Islã já parecia consolidado quando questões políticas e econômicas alteraram
a situação. O grupo dos fatímidas8 tentou atrair para si os berberes kharidjitas, mas estes se
voltaram ao ramo sunita do islã. Os conflitos entre os diferentes grupos resultaram no fim dos
kharidjitas berbere do Magreb e, por fim, o islamismo que resistiu e se consolidou pela região
foi o da escola malikita do islã sunita.

8 Fatímidas - dinastia xiita ismaelita que considerava Ismail o sétimo imã xiita. Alegam ser descendentes de Fatima - filha do Profeta - e de
seu marido Ali. Daí o nome Fatímidas. Opunham-se ao califado sunita dos Abássidas.

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O Sudão e o poderoso Império de Gana

Pouco a pouco, o Islã foi penetrando o interior do continente. O Sudão será o próximo
alvo de sua expansão. Entretanto, alguns autores acreditam que a população deste país já
tinha tido contato com o islã dos kharidjitas, antes mesmo da islamização do Magreb e Saara.
Muito provavelmente isto tenha ocorrido por influência da seita ibadita que, formada por
comerciantes, desde o século II/VIII, já mantinha relações com o Sudão e, embora não tenham
relatos sobre missionários entre eles, supõe-se alguma influência religiosa deste grupo nos
importantes centros comercias que frequentavam.
A pressão dos almorávidas9, a partir do IV/X séculos, irá fazer desaparecer os traços e as
influências dos ibaditas. Além da associação ao comércio, é fato que nos seus primórdios o
Islã foi introduzido junto com uma mescla de elementos religiosos de seitas islâmicas, bem
como das religiões cristã e judaica e também das religiões tradicionais africanas. E que coube
ao ibadismo o mérito de apresentar às populações sudanesas a fé em Alá.

A associação do islã e do comércio na África subsaariana é um fato


bem conhecido. Os grupos mais ativos no plano comercial, tais como
os dioula, os haussa e os dyakhanke, estiveram entre os primeiros
a se converterem quando os seus países entraram em contato com
os muçulmanos e esta conversão explica‑se por fatores sociais
e econômicos. Religião nascida no seio da sociedade comercial
da Meca e pregada por um profeta que fora ele próprio durante
muito tempo um comerciante, o islã apresentava (e apresenta)
um conjunto de preceitos morais e práticos estreitamente ligados
as atividades comerciais. Este código moral ajudava a sancionar
e controlar as relações comerciais e oferecia, aos membros dos
diferentes grupos étnicos, uma ideologia unificadora que atuava
em favor da segurança e do crédito, duas das condições essenciais
para a existência de relações comerciais entre parceiros comerciais
distantes entre si. (El Fasi, p. 88, 2010)

Serão os estabelecimentos comercias nos grandes centros e rotas comerciais que irão
garantir a propagação do Islã. Com a atuação dos clérigos muçulmanos, que inicialmente
serão enviados aos bairros habitados por mulçumanos para assisti-los em suas práticas
religiosas (orações diárias, vestimentas, rejeição absoluta ao álcool...), a população irá
converter-se progressivamente – embora sem abandonar as práticas religiosas tradicionais.
Os chefes e artesãos serão o próximo grupo a converter-se e a influenciar novas conversões
no Sudão e depois nos países vizinhos.
Durante os séculos V/XI, a expansão islâmica alcançará a região do Sudão Central
e Ocidental, o primeiro Estado a adotar o islã será o poderoso Império de Gana,
influenciado pela conversão de seus líderes. As informações sobre a conversão de Gana
são controversas. Enquanto afirmam que a nação foi convertida pelos almorávidas por
volta de 469/1076, estudos recentes tendem a acreditar que as duas potências eram
aliadas e não inimigas. A adoção do islamismo sunita como religião do Império de Gana
teria se dado por meios pacíficos.

9 Almorávidas - grupo de monges que abraçaram uma interpretação rigorosa do islã unificou sob o seu domínio grandes extensões no
ocidente do mundo muçulmano com as quais formaram um império, entre os séculos XI e XII.

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Unidade: A expansão Islâmica na África

Mapa – Destaque para o Sudão e o Saara

Fonte: Nasa

Os almorávidas foram importantes para o processo de expansão do islã para o sul do Saara,
embora não haja consenso sob sua efetiva participação. As divergências residem na forma
de expansão, se pacífica ou violenta, e nas razões das migrações dos soninquês10 de Gana.
Os registros não apontam hostilidade destes comerciantes em relação ao islã e sua atividade
propiciou a expansão da religião para regiões onde outros grupos islamizados não tinham
alcançado. A sua atuação ganhará destaque após o período dos almorávidas.
A ligação das classes dirigentes com o islã oferecia algumas vantagens políticas e econômicas
aos reinos. Grandes impérios sudaneses, como o Mali e os shongais11, irão se beneficiar
dessa influência, tendo em vista o controle do comércio entre o Sudão e a África do Norte.
Internamente a adoção de uma religião única diminua as tensões entre os grupos reinantes e
as diferentes práticas e crenças religiosas da população. Também os escribas mulçumanos irão
ajudar a estabelecer critérios para o controle administrativo dos reinos em contínua expansão.

10 Soninquês - grupo etnolinguistico mandiga que habitava a região entre o rio Níger e o Senegal.
11 Shongais - grupo que ocupava as duas margens do médio Níger

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Em direção ao sul do Saara e do lendário Império Mali

O final do século VII/XIII verá os líderes do poderoso Império do Mali converterem-se ao islã.
Os registros do final do século VII/XIV descrevem o reino como um estado onde o islã fincará
raízes e cuja população obedece aos preceitos islâmicos. Será durante este período, marcado
pela paz e pelo progresso, que o comércio no Sudão Ocidental irá expandir, assim como os
limites do reino, o número de conversões ao islã e o surgimento de um clero islâmico local.
Em Tombouctu, no Mali, irá florescer um dos maiores, mais importantes e admirados centros
de intelectuais e eruditos (em sua maioria de origem sudanesa) islâmicos de origem africana.
Neste centro de estudiosos, todos os altos postos (kādī, imame e khatīb)) eram ocupados por
negros mulçumanos vindos do interior do Império Mali.
Mapa com a difusão do islã na África

Fonte: Adaptado de World Fovtbook, 2004

Kano, principal cidade estado do país dos haussás12, localizado entre o rio Niger e o lado
Chad, será outra nação africana que, por volta dos séculos VIII/XIV já tinha recebido alguma
influência do islã. Os autores encontraram diferentes crônicas sobre a chegada e permanência
de islâmicos no país dos haussás. Entretanto, o fortalecimento da religião será notado a partir
da segunda metade do século IX/XV.
Embora consolidado, o islã não era unanimidade entre os haussás, enquanto a classe
dominante se convertia – tendo em vista os interesses econômicos e comerciais –, boa parte
da população permanecia fiel às práticas tradicionais. Este islã híbrido será, pouco a pouco,
aceito e irá ajudar na expansão do reino e do islã.

12 Haussás – uma das etnias que ocupava a Nigéria Meridional e sul da República do Níger.

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Unidade: A expansão Islâmica na África

A chegada na Senegâmbia e na Núbia

A consolidação do islã nos séculos X/XVI irá garantir sua expansão também nos reinos da
Senegâmbia no outro extremo da zona sudanesa. Na segunda metade deste século, os religiosos
mulçumanos andavam pelo litoral pregando os preceitos islâmicos às cidades. Mesmo com a
resistência de alguns grupos que permaneciam fiéis à religião tradicional, o islã estava presente
em toda a região sudanesa, do Atlântico ao lago Chad.

Em todas as cidades e em numerosas localidades viviam muçulmanos


africanos, de origens étnicas diversas, dentre os quais não eram
muçulmanos senão pelo nome, entretanto, entre os quais havia
frequentemente homens eruditos e pios, de espírito aberto e em
contato com o vasto mundo situado ao Norte do Saara. Embora as
massas camponesas não tivessem sido senão levemente atingidas
por esta religião universal, o islã tornava‑se, após tantos séculos
de presença, um fenômeno familiar, um dos elementos da cena
cultural da África Ocidental. (El Fasi, p. 100, 2010)

O contato da Núbia com o islã deu-se por ocasião de sua chegada ao Egito, no início
do século I/VII. Entretanto, a ligação com o cristianismo e com a religião local ofereceu
resistência à conversão dos povos núbios. Mediante um acordo com o reino de El- Makurra,
que perdurou por cerca de seis séculos, em troca de proteção aos mulçumanos na Núbia, o
Egito comprometia-se a respeitar os estados núbios cristãos.
As relações amigáveis entre os soberanos egípcios e os núbios permitiam o acesso de
comerciantes e mercadores árabes, inclusive islâmicos, à região da Núbia. Estes viviam em
bairros separados e, embora não fossem fiéis zelosos, foram os responsáveis por introduzir os
primeiros preceitos da fé islâmica.
A penetração do islã na Núbia será dará por duas vias: no século II/VII, os grupos árabes
nômades acessavam a região partindo do Alto-Egito fixando-se entre o vale do Nilo e o litoral
do Mar Vermelho. Séculos depois, a presença islâmica já era verificada no norte da Núbia e
alguns núbios instalados na segunda catarata também professavam a fé islâmica.
O litoral do Mar Vermelho era outra via de penetração do islã usada, principalmente, pelos
mercadores árabes que se instalavam, desde o século II/VIII, nas cidades costeiras. Uma das
formas de impor sua influência às populações dominadas era a realização de casamentos com
famílias de líderes locais. Estratégia que será muito usada pelo islã que via surgir poderosas
famílias islâmicas nos territórios ocupados.
Com a imigração lenta e persistente de beduínos árabes no norte da Núbia, o islã foi sendo
instalado na região e os pequenos reinos começaram a sofrer influência islâmica. Por volta de
713/1315, foi eleito um rei núbio já convertido ao islã e a Nubia, antes reduto cristão, passa a
ser mais um estado islâmico na África. No rastro dos nômades vinham os missionários e com
eles a sharia13.
A associação de vários fatores vai resultar no fim do cristianismo na Núbia. Toda a região
do Nilo Branco e do Azul passou para o domínio islâmico e, nos séculos X/XVI, a fronteira do
islã se estabilizou ao longo do paralelo 18.

13 Sharia (shariah) - nome que se dá ao Direito Islâmico

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O islã numa Etiópia cristã

Mais uma vez, será através de rotas comerciais que o islã penetrará na Etiópia. Por volta do
século II/VIII, as ilhas Dahlak se tornam mulçumanas. E em pontos do litoral do Mar Vermelho
se instalarão mulçumanos de diferentes procedências. Embora o islã tenha sido difundido pela
população costeira, essencialmente nômade, sua influência ficou restrita até o século IV/X.
Há registros da presença islâmica em toda a Etiópia, mas o comércio foi a área de atuação
desses religiosos. A sólida formação cristã no país não permitia a pregação da fé mulçumana,
mas permitia o exercício livre do comércio de árabes e mulçumanos em toda a sua extensão.
O avanço para o sul do país parece ter partido do importante porto de Zayla, no Golfo
de Aden. A região, fronteira entre cristãos e mulçumanos, vivia momentos de tensão e, com
o avanço e o aumento do número de árabes mulçumanos que entravam no país, durante os
séculos II/VIII e III/IX, consolidou sua importância, também política e econômica, para a
expansão do islã para outras regiões.
Os registros atestam a criação e o crescimento de sultanatos que, para alguns autores,
datariam de final do século III/IX, como o sultanato de Shoa. Além deste há registros de
outros como Dawãro, a oeste da região de Harar, Sharka, na região de Arusi, e Bãli, ao sul
de Dawãro. O mais importante, entretanto, era o sultanato de Ifá cujos reis diziam descender
diretamente da família do Profeta. Em 684/1285, seu maior sultão, ‘Umar Walasma’, anexou
o sultanato de Shoa.
Mapa – Chifre da África com destaque para a Etiópia e o sultanato de Ifá

Fonte: dialogosdosul.org.br

Com o enfraquecimento da influência cristã, o islã foi sendo expandido pelo país. As
populações de várias origens foram se convertendo e, por ocasião do jihad contra a Etiópia
cristã, Ahmad Gran, no século X/XVI, reuniu em seu exército as mais distintas etnias que há
muito haviam abraçado a fé islâmica.

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Unidade: A expansão Islâmica na África

Não obstante, apareçam e tenham importância singular nesse processo de expansão do islã
na Etiópia, pouco se sabe sobre as origens da conversão dos somalis. Tanto os do Golfo de
Aden como os da costa do Oceano Índico conhecerão o islã através de cidades do litoral. No
caso destes últimos pelas cidades de Mogadíscio, Brava e Marka. Apesar da islamização, os
somalis eram orgulhosos de suas origens e sua conversão não foi acompanhada pelo processo
de arabização como o ocorrido na África do Norte ou no Sudão.

A expansão na Costa da África Oriental e nas Ilhas

Na Costa da África Oriental e nas ilhas, o processo de expansão foi particular. Diferente do
que ocorreu nas demais regiões africanas, o islamismo não causou o mesmo impacto e nem
atingiu tantas conversões entre os povos de línguas bantus e os habitantes da costa oriental.
Estima-se que até o século XVIII/XIX estes povos que habitavam o interior do país não haviam
sido tocados pelo islã, embora existam registros de populações de mulçumanos presentes em
cidades no litoral.
Os comerciantes do litoral se casavam com mulheres africanas, mas o idioma predominante
sempre foi o suaíli e o número destes mulçumanos na África Oriental permaneceu diminuto. A
exceção se aplica a um caso único: o ingresso de comerciantes mulçumanos suaílis no interior
do atual Moçambique e Zimbábue.
Mapa – Litoral da África Oriental e das Ilhas de Comores e Madagascar

Fonte: iStock/Getty Images

Os mulçumanos do litoral nunca conseguiram se impor no interior da África Oriental,


porém algumas localidades como Comores, Madagascar possuem registros da presença e
atuação do islã desde o século V-VII/XI-XIII.

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Certos grupos malgaxes do Norte reivindicam uma ascendência árabe e alguns rastros
da presença árabe são encontrados, como a escritura árabe, alguns vestígios do Corão e
algumas práticas sociorreligiosas de origem islâmica, entretanto não se encontram resquícios
de mesquitas ou qualquer outra instituição islâmica, por isso os pesquisadores preferem não
considerá-los islâmicos.
Em contrapartida, os islamizados do Norte criaram instituições de profundo caráter islâmico
que foram registradas em X/XVI pelos primeiros visitantes portugueses e sua convicção
religiosa influenciou alguns dos malgaxes.
Por fim:

[...] convém sublinhar que o islã não desempenhou em Madagascar


o mesmo papel que em outros partes da África tropical, onde ele
tornou‑se paulatinamente a religião de grupos étnicos inteiros e
marcou profundamente as sociedades africanas. Ele jamais impôs
a sua cultura a cultura malgaxe; muito pelo contrário, nas regiões
recuadas da ilha, foi antes o fenômeno inverso que ocorreu, a
saber, a absorção das populações islamizadas pelo ambiente
cultural local (El Fasi, p. 111, 2010).

O islã continuará expandido seus domínios pelo continente africano, porém sem a mesma
eficácia e com menor ênfase que nos anos iniciais do islamismo.

Algumas considerações

A presença do islã no continente africano, sobretudo no Norte, impactou todos os aspectos


da vida dos africanos. Os hábitos, culturas e religiões foram submetidos às prescrições do islã
e também os idiomas, assim como a política, passaram por um processo de arabização.
Muitos desses países vivem, nos dias atuais, os reflexos políticos e econômicos da
islamização. Os conflitos entre grupos religiosos pelo domínio político-econômico nos países
tem se demonstrado prejudicial e danoso a todos.
A falta de compreensão e de conhecimento com relação ao islã é dificulta pela o
estabelecimento do diálogo com as nações com o objetivo de encontrar uma saída e os possíveis
meios de construir uma convivência pacífica entre os diferentes grupos religiosos e políticos.
É o islã o grupo religioso que mais cresce no mundo em número de adesões, assim como
sua influência político-econômica tem aumentado em todos os continentes.

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Unidade: A expansão Islâmica na África

Material Complementar

Para complementar os conhecimentos adquiridos nesta Unidade sobre a presença do islã


no Brasil, acesse o link abaixo:
Livros:
Para saber mais sobre os africanos islamizados que organizaram revoltas no
Brasil, leia:

REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil. A História do Levante dos


Malês em 1835 3ª Edição Revista e Ampliada. 3ª edição. São Paulo: Companhia
das Letras. 2003.

Sites:

http://www.arresala.org.br/text.php?op=55

20
Referências

El FASI, Mohammed e HRBEK, Ivan. Etapas do desenvolvimento do Islã e da sua difusão na


África. In: El FASI, Mohammed (editor). História Geral da África III – África do século VII
ao XI. Brasília: UNESCO, 2010.

SILVA, Aberto da Costa e. A enxada e a lança. A África antes dos portugueses. 3ª ed.
rev. ampliada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

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Unidade: A expansão Islâmica na África

Anotações

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