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Fichamento do texto A Ideologia Alemã para Disciplina Teoria Sociológica

Comentário Introdutório: Como tive oportunidade de comentar durante o próprio curso, a temática do meu

trabalho de conclusão de curso foi a obra do jovem Marx, onde foram analisados tanto os Manuscritos

econômico-filosóficos quanto o texto por ora em questão.

O fichamento que segue, portanto, é baseado em grande medida nestas outras notas que o autor já teve

oportunidade de redigir. Adicionalmente, cumpre destacar que a edição do texto consultada foi a

recentemente publicada pela Boitempo, a qual faremos a referência precisa ao fim do documento.

Fichamento por tópicos:

1) O debate do materialismo

O livro, escrito em momento de embate entre os discípulos da tradição hegeliana a qual inclusive

inicialmente Marx vinculava-se, tem como um dos pontos centrais a afirmação da concepção materialista

aplicável tanto à história como à filosofia, igualmente. O texto, que na trilha d`A Sagrada Família segue na

direção crítica aos jovens-hegelianos, recupera também importantes concepções já formuladas anteriormente,

como por exemplo a do trabalho exposta a seguir e já formulada nos Manuscritos, onde são relacionados a

concepção materialista no geral. É isso que se pode ver quando os autores afirmam em relação ao trabalho

então que ele é

“o primeiro pressuposto de toda existência humana e também, portanto, de toda a


história, a saber, o pressuposto de que os homens têm de estar em condições de
viver para poder “fazer a história”. Mas, para viver, precisa-se antes de tudo, de
comida, bebida, moradia, vestimenta e algumas coisas mais. O primeiro ato
histórico é, pois, a produção dos meios para a satisfação dessas necessidades, a
produção da própria vida material, e este é, sem dúvida, um ato histórico, uma
condição fundamental de toda a história, que ainda hoje, assim como há milênios,
tem de ser cumprida diariamente, a cada hora, simplesmente para manter os
homens vivos.” (Marx e Engels, [1845-46] 2007, p. 32-3)

Assim sendo, o que fica evidente é qual o papel de relevância que cumpre a produção em relação às
outras determinações da existência. Isto, e nos parece nítido na passagem, não por haver uma

secundarização de Marx em relação aos demais momentos da existência, em texto posterior que

também tivemos oportunidade de investigar em aula, o Prefácio de 1859, denominados de

superestruturais e apenas porque para poderem fazer a história, nos diz a passagem, os homens

precisam anteriormente estar em condições de viver. Assim, nos diz Marx, o primeiro ato histórico é

exatamente as satisfações destas necessidades que são imprescindíveis a manutenção da vida.

Em outras palavras, ainda tendo em vista a citação, a produção da vida material é condição

indispensável e determinante para a própria concretização da história em uma dada forma. É a esta

concepção geral materialista da história que se referem as costumeiras e reducionistas explicações

sobre a determinação da estrutura em relação a superestrutura.

Comentário adicional ainda no âmbito na concepção materialista da história e, em igual medida,

também relacionado ao Prefácio de 1859, é o que diz respeito às forças produtivas que já aparecem

enquanto categoria analítica n`A Ideologia Alemã. Isto porque, ao passo que o ser social concretiza

as possibilidades iniciais do trabalho, apreende elementos da relação homem-natureza, cria novas

necessidades e, igualmente, novas possibilidades de ampliação do leque inicial de objetivações do

trabalho ao seu dispor. Este processo, onde não podemos deixar de notar os elementos

contraditórios e dialéticos, é que já no texto já analisado denomina-se estágio de desenvolvimento

das forças produtivas.

Assim sendo, a conexão que se deseja fazer é que o leque de objetivações possíveis em um dado

momento do desenvolvimento do ser social está condicionado, por sua vez, a um determinado

estágio de desenvolvimento das forças produtivas. Nas palavras dos autores “a soma das forças

produtivas acessíveis ao homem condiciona o estado social” (Marx e Engels, [1845-46] 2007, p. 34).

2) A concepção materialista da consciência

Outro ponto de igual relevância em relação ao debate materialista na história e na filosofia é a

concepção materialista da consciência, que por ora apresentamos. Embora o debate sobre os
momentos da consciência seja importante, estamos ainda em um patamar anterior e de mais elevada

abstração onde o que importa é perceber sua determinação em relação ao ser social. Isto porque, se

por um lado faz-se necessário investigar as determinações materialistas originárias do trabalho, por

outro importa igualmente também perceber que “o homem tem também consciência” (Marx e

Engels, [1845-46] 2007, p.34).

Uma analogia em relação ao debate do trabalho pode ser interessante. Anteriormente, afirmamos

que a protoforma geral de objetivação do ser social reside na atividade fundante do trabalho, com

isso, evidentemente, não queremos afirmar que o trabalho seja mais importante que qualquer outra

objetivação dos homens e mulheres e, ao contrário, apenas sublinhar que tal possibilidade guarda

seu fundamento naquela atividade fundante, o trabalho.

Da mesma forma, ao trazermos o debate sobre a determinação ontologicamente anterior do ser

social em relação ao processo de consciência, ontologicamente posterior, queremos novamente

apontar que a existência na consciência teu seu fundamento material calcado na integralidade do ser

social, isto é, a existência daquela seria impossível sem as determinações deste último. Isto porque,

o processo de formação da consciência consiste numa interiorização subjetiva do movimento

objetivo do próprio real, com este último pressuposto sendo irrevogável para o materialismo

histórico. Nas palavras de Marx e Engels([1845-46] 2007, p. 94),

A moral, a religião, a metafísica e qualquer outra ideologia, bem como as formas


de consciência a elas correspondentes, são privadas, aqui, da aparência de
autonomia que possuíam até então. Não têm história, nem desenvolvimento; mas
os homens, ao desenvolverem sua produção e seu intercâmbio material,
transformam também, com esta sua realidade, seu pensar e os produtos de seu
pensar. Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a
consciência.

Assim, nesta concepção dos processos de consciência, nos lembra a passagem, as ideias, sendo

incluídas a moral, a religião, metafísicas e mesmo quaisquer formas de ideologia, perdem seu

caráter aparentemente autônomo para relacionarem-se ao conjunto da vida social. Deixam de não

ter história para passarem a ser relacionadas com o processo produtivo e, indiscutivelmente, com o

conjunto do ser social.


Este último comentário é importante porque em torno dele residem comuns vulgarizações e

distorções da concepção marxista do processo de consciência. É importante reparar que a prioridade

ontológica do trabalho em relação às demais objetivações do ser social diz respeito à anterioridade

da práxis produtiva em relação às demais e não, todavia, a que somente a práxis produtiva

determine o processo de consciência. O que determina o processo de consciência do ser social são a

integralidade das objetivações da vida do ser social e não apenas as do mundo da produção, isto fica

evidente, por exemplo, quando os autores anotam que “A consciência não pode jamais ser outra

coisa do que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real” ( Marx e Engels,

[1845-46] 2007, p. 94), portanto, sem nenhum determinismo dos quais eventualmente são acusados.

3) Divisão do trabalho, classes sociais e ideologia

Considerando o título do próprio livro e, além do mais, todo o amplo debate existente na tradição do

marxismo que tem origem na própria obra de seus autores fundacionais, a categoria da ideologia

ocupa lugar de destaque na obra. Para debatê-la, contudo, precisamos ainda tratar de uma série de

importantes temas presentes na análise anteriormente, tal como a divisão do trabalho e a própria

existência das classes sociais. É somente compreendendo este conjunto de debates, portanto, que

poderemos nos aproximar das determinações que a importante categoria da ideologia ocupa no

texto.

A pergunta que se coloca inicialmente é: considerando todo o debate concreto que fizemos sobre o

processo de consciência e sua relação com a totalidade da vida social, poderia esta mesma

consciência representar algo que não o objetivamente real? Em termos históricos a questão é

facilmente respondida, já que não faltam exemplos de teorias que, nas mais diferentes áreas,

certamente representam uma explicação do ideal que foge a lógica dos nexos do real e

objetivamente existentes, ou seja, são explicações que acabam por encobrir ou distorcer o próprio

real.

O que, contudo, evidenciado o caráter prático do conhecimento e as determinações gerais do

processo de consciência permitiria que tal fenômeno ocorresse? Isto é, a partir de que momento os

seres humanos podem, sistematicamente, construir imagens falsas sobre si mesmos? A divisão do
trabalho aparece n`A Ideologia Alemã como a explicação histórica e lógica para este fenômeno,

passemos a questão.

Inicialmente, a divisão do trabalho é associada a fatores como o aumento da produtividade e

população onde nota-se, de início, uma relação com o debate do desenvolvimento das forças

produtivas. A questão ganha inflexão histórica, ainda que também estejam presentes anteriormente

importantes critérios de divisão sexual do trabalho, quando ocorre a divisão entre o trabalho manual

e espiritual, ou seja, quando passa a estar presente na história uma rígida divisão entre o que é

fundamentalmente prático e o que é majoritariamente intelectivo.

Nas palavras dos autores,

A partir desse momento, a consciência pode realmente imaginar ser outra coisa
diferente da consciência da práxis existente, representar algo realmente sem
representar algo real – a partir de então, está em condições de emancipar-se do
mundo e lançar-se à construção da teoria, da teologia, da filosofia, da moral etc.
“puras”. (Marx e Engels, [1845-46] 2007, p. 35-6)

Isto é, de alguma forma, é como se o caráter prático-teórico da práxis social estivesse de alguma

forma inviabilizado. Em um rápido e simplificado exercício argumentativo, já sabemos que o

trabalho fornece a protoforma de objetivação das demais práxis sociais e que, da mesma forma que

aquele, a realização de quaisquer tarefas demandam um necessário conhecimento inicial do real que

só pode confirmado ou negado com base na própria prática. Dessa forma, se o ser social passa a

estar cindido em relação a estes momentos, o teórico e o prático, é possível que construa

representações que não se confirmam na realidade sem que necessariamente venha a percebê-lo.

Outra temática ainda importante para chegarmos ao debate da ideologia é o da propriedade. Isto

porque, na análise efetuada na obra, falar de divisão de trabalho e propriedade privada significa

abordar dois aspectos do mesmo fenômeno. Considerando um dado regime de produção e a

existência de uma determinada divisão do trabalho, ou seja, a forma diferenciada com que os

diferentes atores estão inseridos no processo produtivo, um dos efeitos gerados é que estas

diferentes posições fornecem diferenciadas capacidades de apropriação do produto social, e é

justamente neste momento que surge a propriedade privada. Assim, o que a divisão do trabalho
representa em termos no processo produtivo a propriedade privada representa, igualmente, em

termos do regime de propriedade e, por isso, tratam-se de discussões correlatas. Nas palavras dos

autores, "divisão do trabalho e propriedade privada são expressões idênticas – numa é dito com

relação à própria atividade aquilo que, noutra, é dito com relação ao produto da propriedade.”

(Marx e Engels, [1845-46] 2007, p. 37).

Está aberto, conforme a argumentação anterior, o terreno para o surgimento das classes sociais que,

evidentemente, relaciona-se em grande medida seja com o da divisão social do trabalho ou ainda

com as formas concretas em relação à apropriação do que é produzido. A existência destas classes,

por sua vez, é que enfim abre espaço para o debate do fenômeno da ideologia. Se, por um lado, a

afirmação da classe dominante passa pelo terreno da produção, ou seja, considera inclusive uma

dada divisão do trabalho e um regime de propriedade, o objetivo dos autores posteriormente passa a

ser a investigação de como esta dominação se dá nos marcos espirituais, no plano das ideias. É aqui

que surge o conceito de ideologia.

Tratando sobre os mecanismos ideológicos de dominação temos então a famosa passagem, onde

relacionando diversos elementos os autores afirmam então que

As idéias da classe dominante são, em cada época, as idéias dominantes, isto é, a


classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força
espiritual dominante. A classe tem à sua disposição os meios da produção material
dispõe também dos meios da produção espiritual, de modo que a ela estão
submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais
faltam os meios de produção espiritual. As idéias dominantes não são nada mais do
que a expressão ideal das relações materiais dominantes apreendidas como idéias;
portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe dominante, são as
idéias de sua dominação. (Marx e Engels, [1845-46] 2007, p. 47)

Quer dizer, a dominação de uma classe não está completa caso ela também não seja dominante no

plano espiritual. Na verdade, a dinâmica vai além com a argumentação centrando esforços em

mostrar que em cada época social as ideias dominantes são, igualmente, as ideias da classe

dominante do processo produtivo. Isto porque, tal como tem a sua disposição os meios de produção

que asseguram sua dominação econômica dispõe também dos meios espirituais que garantem a sua

dominação no plano das ideias. Sintetiza, por fim, que a ideias dominantes não seriam nada além
que a expressão ideal de uma dominação material apreendida enquanto ideia, no plano espiritual.

Portanto, as ideias das classes dominantes expressam as próprias ideias que fazem tal classe

dominante, conclui, `` são as idéias de sua dominação``.

Haveria, enfim, uma última pergunta: há alguma possibilidade de superação destes mecanismos

ideológicos? Como as ideias dominantes poderiam deixar as ideias da classe dominante? A resposta,

embora só pudesse ser plenamente desenvolvida ao longo de toda a obra dos autores, já tem no

proletariado e na classe trabalhadora um referencial central para a superação da dominação, seja

econômica ou ideológica, da burguesia. É por isso que afirmam “A existência de ideias

revolucionárias numa determinada época pressupõe desde já a existência de uma classe

revolucionária (...)” (Marx e Engels, [1845-46] 2007,p. 48), ou seja, a possibilidade de superação da

dominação de determinadas ideias da classe dominante, em processos aos quais os autores neste

momento denominaram ideológicos, reside na concretude de atuação de uma classe revolucionária,

interessada em desvendar os mecanismos do real, abolir a divisão intelectual do trabalho e a

propriedade privada, isto é, a classe trabalhadora.

Referência:

MARX, K. e ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.