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Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito do 3º Juizado Especializado no

Combate a Violência Doméstica Contra a Mulher da Comarca de Manaus/AM :


Ação Penal
Proc. nº. XXXXXXXXXXXXXXX
Autor: Justiça Pública
Acusado: ODORICO PARAGUAÇU

ODORICO PARAGUAÇU, já qualificado na denuncia, que lhe move a JUSTIÇA PÚ BLICA,


assistido juridicamente por seu procurador infra-assinado, devidamente constituído,
(doc.01) “in fine”, vem, no prazo legal, perante Vossa Excelência com o devido acato e
respeito de estilo, apresentar dentro do prazo legal RESPOSTA À ACUSAÇÃO com
fundamento no artigo 396 e 396-A ambos do Có digo de Processo Penal pelas
motivações fáticas e jurídicas a seguir expostas:
I. DA GRATUIDADE DA JUSTIÇA
Antes de adentrarmos em preliminares e o mérito da presente defesa, o cidadã o acusado
requer a concessã o da justiça gratuita, por ser pessoa pobre no sentido jurídico do
vocá bulo, nã o possuir condiçõ es de demandar em juízo sem sacrifício do sustento pró prio e
de seus familiares, assegurado pela Constituiçã o Federal, artigo 5º, inciso LXXIV, Art. 1º, §
2º da Lei n. 5478/68, bem como Art. 99 da Lei 13.105/2015.
II. SINTESE DOS FATOS
Em proêmio, insta salientar que a vítima e o denunciado, por cerca de 2 (dois) anos tiveram
relacionamento amoroso. Apesar das intempéries que assolavam o relacionamento, como
em qualquer outro, obtiveram por consequência o privilégio de conceber uma criança
anexo certidã o nascimento (doc. 04).
Segundo o relato fá tico contido na peça acusató ria, à s (fls. 35 e 36), no dia 19 de junho de
2017, por volta das 19 horas e 30 minutos, na Av. Margarita, Bairro Nova Cidade, nesta
cidade o acusado supostamente ameaçou a integridade física e moral da sua ex-namorada
Sueli Andrade. Tal conduta, segundo o MP, se amoldou no crime previsto no artigo 147 do
Có digo Penal. Em sede policial, o denunciado negou a autoria do delito.
Diante disto, o acusado foi denunciado pelo Representante do Ministério Pú blico, como
incurso nas sançõ es do artigo 147 do Có digo Penal Brasileiro.
Nos termos do artigo 396 do Có digo de Processo Penal, o denunciado foi intimado para, no
prazo de 10 (dez) dias, apresentar sua Resposta à Acusaçã o, o que vem fazer,
tempestivamente, pelos motivos de fato e direito a seguir delineados.
III- DO INQUERITO POLICIAL
Excelência, na verdade, o inquérito policial pela sua pró pria essência inquisitorial, parcial e
unilateral, raríssimas vezes produzirá matéria ou subsídios capazes de embasar eventual
tese defensiva, levando-se em conta que o indiciado nã o representa ali, uma entidade apta a
exercer qualquer atividade de defesa e construir eventual prova que lhe favoreça.
Tanto é verdade que o inquérito policial, continua tendo como principal objetivo a
investigaçã o da autoria e materialidade e demais circunstâ ncias capazes de formar o opinio
delicti para que o titular da açã o penal possa exercê-la.
Ora Excelência, como enfrentar o mérito nesta fase processual, se todas as diligências
realizadas pela polícia judiciá ria visaram criar terreno propício à cultura da pretensã o
condenató ria da acusaçã o oficial?
O que o tempo vem demonstrando é que a maioria esmagadora das respostas à acusaçã o
ou defesas preliminares continua tendo o mesmo efeito da antiga e inofensiva defesa
prévia, com cará ter meramente formal, ausente de conteú do probante, cuja ú nica
finalidade é enfrentar eventuais questõ es processuais e arrolar testemunhas.
Esta afirmaçã o se baseia na experiência do cotidiano forense, que de forma majoritá ria
professa pela presunçã o de culpa exagerada à pessoa do imputado, antecipando um
julgamento e criando indiscutível clima de prévia condenaçã o.
No entanto, por amor ao argumento e por acreditar na inocência do réu, data venia,
doravante passamos a descrever o descabimento da açã o penal promovida pela Justiça
Pú blica. “Faria, José Roberto Telo”, Advogado Criminalista”,
IV. DAS PRELIMINARES PROCESSUAIS

A) PRELIMINARMENTE – DA FALTA DE JUSTA CAUSA


Excelência, conforme podemos observar, a denú ncia tem sua base formada apenas pelo
depoimento da vítima, que de fato, foi à ú nica pessoa que presenciou o acontecimento. A
prova (neste caso, o depoimento da vítima), tem por finalidade o convencimento do Juiz,
que é o seu destinatá rio, de que uma pessoa cometeu ou nã o um ato delituoso.
Nosso sistema processual penal é acusató rio, cabendo nã o ao acusado o ô nus de fazer
prova de sua inocência, mas ao Ministério Pú blico, com provas robustas, comprovar a real
existência do delito.
Ao receber a denú ncia, dando assim o início ao processo penal, o juiz há de se lembrar de
que tem diante de si uma pessoa que tem o direito constitucional de ser presumido
inocente, pelo que possível nã o é que desta inocência a mesma tenha que fazer prova.
Resta, entã o, neste caso, ao Ministério Pú blico, a obrigaçã o de provar a culpa do acusado,
com supedâ neo em prova lícita e moralmente encartada aos autos, sob pena de, em nã o
fazendo o trabalho que é seu, arcar com as consequências de um veredicto valorado em
favor da pessoa apontada com autora do fato típico.
O que podemos ver no caso em tela, é que, apenas o depoimento da vítima embasa a
pretensão condenatória, o que se mostra completamente incabível num país que tem
como princípio constitucional fundamental a dignidade da pessoa humana.
Claro se mostra Excelência, que toda a situaçã o fá tica teria ocorrido em via pú blica como
narra a denú ncia à s (fls.36.), nã o restando sequer uma testemunha idô nea que tenha
presenciado toda a suposta açã o delituosa praticada pelo ora acusado. A denúncia do
Ministério Público se funda única e exclusivamente nos fatos narrados pela suposta
vítima Sra Sueli Andrade.
Mostra-se de total temeridade assim proceder-se a uma instruçã o processual, em vias
ainda de se chegar a uma condenaçã o e a imputaçã o de uma pena ao réu, frente à extrema
fragilidade do material probató rio que tenta comprovar a autoria de um pretenso delito
que não ocorreu.
O ordenamento pá trio nã o convive com isso. O Direito Penal é a ultima ratio e deve ser
sempre evitada e desta forma, frente a qualquer dú vida, prima-se pela liberdade do réu,
como expõ e o brocardo jurídico in dú bio pro reo.
Apenas a declaraçã o da suposta vítima de um crime nã o é suficiente para deflagrar a açã o
penal contra o acusado de cometê-lo. Tal entendimento é da 5ª Câ mara Criminal do Estado
do Rio de Janeiro:
“EMENTA: HABEAS CORPUS. PROCESSO PENAL. JUSTA CAUSA. CONSTRANGIMENTO
ILEGAL. A DENÚ NCIA COMO QUALQUER PETIÇÃ O INICIAL CONTÉ M “DESENHO
ESTRATÉ GICO SUBJACENTE, QUE SUGERE UM PLANO DE DESENVOLVIMENTO DA
ATIVIDADE PROBATÓ RIA E UMA PROPOSTA DE LEITURA DE PREVISÍVEL RESULTADO
DESTA ATIVIDADE DIRIGIDA AO JULGADOR”. INADMISSIBILIDADE DE AÇÃO PENAL SEM
SUPORTE EM UM MÍNIMO DE INFORMAÇÕES QUE ASSEGUREM TRATAR-SE DE
DEMANDA NÃO LEVIANA OU TEMERÁRIA(ARTIGO 395, III, DO CÓ DIGO DE PROCESSO
PENAL CONFORME A REDAÇÃ O DA LEI 11.719/08) CONSTRANGIMENTO ILEGAL
CARACTERIZADO QUANDO A DENÚ NCIA RECEBIDA PROPÕ E A CONDENAÇÃ O DA
PACIENTE COM BASE EM MEIO DE PROVA DE PLANO INCAPAZ DE AUTORIZAR A
EMISSÃ O DE DECRETO CONDENATÓ RIO.” (g.n.)
A acusaçã o tem de apontar sérios indícios para que a açã o penal seja deflagrada. Tal
exigência encontra fundamento de validade na Constituiçã o da Repú blica, nos princípios de
tutela da dignidade da pessoa, que se projeta no processo penal de modo a que só açã o
penal com justa causa, isto é, com indícios mínimos da viabilidade do pedido de
condenaçã o, possa deflagrar processo regular.
Nas liçõ es do eminente professor Nestor Tá vora, na justa causa:
“A açã o só pode ser validamente exercida se a parte autora lastrear a inicial com um
mínimo probató rio que indique os indícios de autoria, da materialidade delitiva, e da
constataçã o da ocorrência de infraçã o penal em tese (art. 395, I1I, CPP).
É o fumus commissi delicti (fumaça da prá tica do delito) para o exercício da açã o penal.
Como a instauraçã o do processo já atenta contra o status dignitatis do demandado, nã o se
pode permitir que a açã o seja uma aventura irresponsá vel, lançando-se no polo passivo,
sem nenhum critério, qualquer pessoa. Nos dizeres de Afrâ nio Silva Jardim, "torna-se
necessá rio ao regular exercício da açã o penal a demonstraçã o, prima focie, de que a
acusaçã o nã o é temerá ria ou leviana, por isso que lastreada em um mínimo de prova. Este
suporte probató rio mínimo se relaciona com os indícios de autoria, existência material de
uma conduta típica e alguma prova de sua antijuridicidade e culpabilidade”. (TAVORA,
Nestor. Curso de Direito Processual Penal, 8ª Ediçã o, Editora Jus Podivm, Bahia, 2013).

B) DA INEXISTÊNCIA DE MATERIALIDADE - AUSÊNCIA DE CORPO DE DELITO


Dispõ e o Art. 158 do CPP que:
" Quando a infraçã o deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de delito,
direto ou indireto, nã o podendo supri-lo a confissã o do acusado ".
Nota-se que, segundo consta na peça informativa do inquérito policial, a vítima, logo apó s a
ocorrência do fato alegado, Não foi encaminhada ao IML, oportunidade em que deveria ser
feito o exame de corpo de delito, caso existisse uma situaçã o real.
Excelência, é imperioso levantar que, em tese, existem dúvidas razoáveis em relação às
supostas ameaças, posto que, a falta do resultado de exame de corpo e delito, traz
prejuízos ao réu, acarretando consequente cerceamento ao exercício da ampla defesa.
C) DA INÉPCIA DA DENÚNCIA

Tratando-se da apreciaçã o de esqualidez da denú ncia, dois sã o os parâ metros objetivos que
devem orientar o exame da questã o, quais sejam, o artigo 41, que detalha o fato criminoso
com todas as suas circunstâ ncias, e o artigo 395, que avalia as condiçõ es da açã o e os
pressupostos processuais descritos, ambos do CPP.
Da simples leitura da denú ncia oferecida, verifica-se que foi imputado ao cidadã o acusado,
o crime acima mencionado onde constata-se que denuncia é arbitraria. Senã o vejamos:
Pretende o i. Parquet consubstanciar a exordial acusató ria, com uma tese que difere dos
documentos acostados aos autos, eivada, portanto, de vícios que impedem a instauraçã o da
relaçã o processual.
Neste sentido pronunciou-se o E. STJ, nos autos do HC 214.862/SC, 5º T, Rel. Min. Laurita
Vaz, DJ-E 07/03/2012:
“A ausência absoluta de elementos individualizados que apontem a relação entre os fatos
delituosos e a autoria ofende o princípio constitucional da ampla defesa, assim inepta a
denúncia.”
E, quanto ao momento processual para se admitir a inépcia da Denú ncia, transcrevemos o
também posicionamento do E. STJ, no sentido de que é absolutamente cabível o presente
momento processual para a rejeiçã o da peça acusató ria, conforme pronunciamento no
Recurso Especial nº 1.318.180 STJ, 6º Turma, Rel. Min. Sebastiã o Reis Junior, julgado em
16/05/2013, publicado no DJ em 29/05/2013, discorre:
(...) O fato de a denúncia já ter sido recebida não impede o Juízo de primeiro grau de, logo
após o oferecimento da resposta do acusado, prevista nos arts. 396 e 396-A do Código de
Processo Penal, reconsiderar a anterior decisão e rejeitar a peça acusatória, ao constatar a
presença de uma das hipóteses elencadas nos incisos do art. 395 do Código de Processo Penal
suscitada pela defesa. (...)
Assim, requer-se a rejeiçã o da exordial acusató ria, vez que a mesma é inepta nos termos do
art. 395, inciso I do CPP.
Com a devida vênia, o processo estava arquivado, pelo 1º Juizado Especializado da
Violência Doméstica (Maria da Penha), extinguiu o processo número:
0xxxxxxxx.8.04.0001, anexo (doc.03)
Porém Salientado pela magistrada, que a presente decisã o nã o implica no arquivamento do
inquérito policial e nem influencia em eventual Açã o Penal, .Ora aqui instalada.
Posteriormente aportou-se neste juízo outro número iniciando com:
0xxxxxxxxxxxxxxxxx.0001 (fls. 01 e 05) e xxxxxxxxxxxxxxxxxx, porém mesma causa com
recebimento de denú ncia. (fls.37)
D) - DA AUSÊNCIA DE DOLO
Nobre Julgador, a suposta vítima se esqueceu de contar como realmente ocorreram os fatos
e em que momento se deram. Foi esclarecido pelo denunciado, que houve uma discussã o
entre eles, pois sempre a suposta vítima chantageia o denunciado em relaçã o a pensã o
alimentícia e visita de seu filho, que sabe ela ser o valor acordado em juízo e o intenso
ciú mes da suposta vitima de nã o aceitar que o acusado tenha outro relacionamento, anexo
(doc.02).
Sabe-se que para a conduta descrita se amoldar perfeitamente ao tipo penal, isto é,
ameaçar alguém, por palavra, gesto, ou qualquer outro meio simbó lico, de causar-lhe mal
injusto e grave, nã o sendo necessá ria, para a sua configuraçã o, a prova da intençã o do
agente de realizar o mal prometido; ao revés, basta que a ameaça seja SERIA, IDÔNEA,
CAPAZ DE INTIMIDAR A VÍTIMA, fazendo-a acreditar que algo de mal lhe pode acontecer.
Portanto, a conduta típica é ameaçar, intimidar, prometer castigo ou ação maléfica.
Somente é punido a título de dolo, pois a intenção do agente tem que ser de intimidar,
senão, não haverá crime. No momento da ameaça, o agente tem que estar calmo,
senão o dolo é afastado.
Nesse diapasã o, vejamos já o entendimento cristalizado da Jurisprudência Pá tria:
APELAÇÃ O CRIMINAL. AMEAÇA. ART. 147, DO CÓ DIGO PENAL. AUSÊ NCIA DE DOLO. O
contexto probatório não apresenta certeza quanto à seriedade da ameaça ou
capacidade de atemorizar a vítima, haja vista que ocorrida em meio a uma discussão
generalizada na família, em razão da propriedade de um imóvel. APELAÇÃ O
IMPROVIDA. (Recurso Crime Nº 71004206272, Turma Recursal Criminal, Turmas
Recursais, Relator: Eduardo Ernesto Lucas Almada, Julgado em 13/05/2013). (TJ-RS - RC:
71004206272 RS, Relator: Eduardo Ernesto Lucas Almada, Data de Julgamento:
13/05/2013, Turma Recursal Criminal, Data de Publicaçã o: Diá rio da Justiça do dia
14/05/2013). (Grifo nosso)
Por fim Excelência, quando se tem uma discussã o já instalada, foge do controle das pessoas
envolvidas o “dolo”, nã o merecendo prosperar a denú ncia somente com base nessa
discussã o.

DO MÉRITO
Como na fá bula, abandonando a sensatez do cordeiro, tomou o Representante do
Ministério Pú blico as atitudes de lobo e declarou guerra a todos os princípios de ló gica
judiciá ria, que arrazoou com a força atô mica das suas conjecturas e das suas reticências.
Porquanto, nã o conseguiu o Representante do MP, demonstrar a culpabilidade do acusado,
mas, nã o quer acreditar na INOCÊ NCIA dele. Neste norte, é velho princípio de ló gica
judiciá ria:
“A acusaçã o nã o tem nada de provado se nã o conseguiu estabelecer a certeza da
criminalidade, ao passo que a defesa tem tudo provado se conseguiu abalar aquela certeza,
estabelecendo a simples e racional credibilidade, por mínima que seja, da inocência”.
As obrigaçõ es de quem quer provar a inocência sã o muito mais restritas que as obrigaçõ es
de quem quer provar a criminalidade” (F. MALATESTA – A ló gica das Provas – Trad. De
Alves de Sá – 2ª Ediçã o, pá gs. 123 e 124).
O ministro CELSO DE MELO, um dos mais importantes juristas da atualidade, quando em
um dos seus votos em acó rdã os da sua lavra definiu que o ô nus da prova recai
EXCLUSIVAMENTE ao MP:
“É sempre importante reiterar – na linha do magistério jurisprudencial que o Supremo
Tribunal Federal consagrou na matéria – que nenhuma acusaçã o penal se presume
provada. Nã o compete, ao réu, demonstrar a sua inocência. Cabe ao contrá rio, ao Ministério
Pú blico, comprovar, de forma inequívoca, para além de qualquer dú vida razoá vel, a
culpabilidade do acusado. Já nã o mais prevalecem em nosso sistema de direito positivo, a
regra, que, em dado momento histó rico do processo político brasileiro (Estado novo), criou,
para o réu, com a falta de pudor que caracteriza os regimes autoritá rios, a obrigaçã o de o
acusado provar a sua pró pria inocência (Decreto-lei nº. 88, de 20/12/37, art. 20, nº. 5).
Precedentes.” (HC 83.947/AM, Rel. Min. Celso de Mello).
No mesmo passo o inesquecível Min. ALCIDES CARNEIRO quando integrava o STM
assentou:
“A prova, para autorizar uma condenaçã o, deve ser plena e indiscutível, merecendo dos
julgadores o maior rigor na sua apreciaçã o, mormente quando se trata de testemunhas
marcadas pela dú vida e pela suspeiçã o, geradas pelo interesse em resguardar situaçõ es de
comprometimento pessoal”.
A prova carreada aos autos é extremamente frá gil, notadamente pelo depoimento da
vítima, colhidos na fase inquisitorial, que se contradizem de maneira gritante, ou seja,
juridicamente, nã o é preciso mais do que extrair a síntese da tese da acusaçã o ante a
antítese da defesa do contraditó rio elementar.
Contrariando a versã o acusató ria que visa colocar Sueli Andrade como vítima de violência
doméstica, uma aná lise mais aprofundada dos autos evidencia que esta é uma visã o
equivocada na medida em que o réu deveria ser visto como uma provável vítima e
ajudado de igual modo pela justiça.
" Por que é que uma mulher acusaria falsamente um homem de ter sido agredida? "
Esta pergunta deve ter sido feita pela Douta Promotora e talvez até por Vossa Excelência.
A resposta mais direta é:"Por que nã o?”.
Se, como consta dos autos, a vítima mente por qualquer motivo, porque nã o mentiria em
torno da falsa acusaçã o de agressã o?
Mas mesmo assim, eis aqui uma lista de motivos que levaria a vítima a tentear destruir a
vida de ODORICO PARAGUAÇU, acusando-o falsamente de "agressõ es":

da VINGANÇA E RAIVA
Para maior clareza, informa o acusado que a suposta vítima Sra SUELI Andrade tinha um
companheiro (JOAO ), e com esse tiveram um filho.
Separada deste companheiro ( JOAO ), veio morar com o requerido, ao qual também,
tiveram um filho, causa desta demanda, conforme certidã o nascimento anexo (doc.04).
A relaçã o amorosa nã o prosperou entre o acusado e suposta vitima .
A requerente , voltou a morar com (JOAO ), seu (ex- companheiro).
Dai, para frente, a vida , relacionamentos entre todos envolvidos nesta relaçã o amorosa
virou um verdadeiro calvá rio, por conta do ciú mes doentio de seu atual companheiro.
A requerente manteve relacionamento amoroso com ambos ( JOAO e ODORICO
PARAGUAÇU , ora acusado), e com ambos concebeu filhos . Objeto desta demanda.
A vítima encontrou no judiciário, por mais de uma vez, guarida para promover sua
vingança pessoal, ou seja, deu seu testemunho, a sua versã o, do que foi acometida e clama
por justiça.
Excelência, o sentimento de ó dio e vingança injustiça demonstrados pela vítima, que opera
com mentalidade doentia, estã o evidenciados no pró prio comportamento desta.
Data má xima vênia, Excelência, o Pró prio MP nã o sabe informar se SUELI Andrade figura
como vítima ou testemunha, à s (fls. 36).
Nobre julgador, a denú ncia oferecida pela Douta Representante do Ministério Pú blico nã o
merece prosperar, tendo em vista que os fatos nã o se coadunam com a verdade real dos
fatos.
O delito de ameaça nã o restou configurado em suas elementares. Nesse sentido, Guilherme
de Souza Nucci acerca da figura típica em debate:
Elemento subjetivo:
Em uma discussã o, quando os â nimos estã o alterados, é possível que as pessoas troquem
ameaças sem qualquer concretude, isto é, sã o palavras lançadas a esmo, como forma de
desabafo ou bravata, que não correspondem à vontade de preencher o tipo penal.
(...). NUCCI, Guilherme de Souza. Có digo Penal Comentado. 9. Ed. Sã o Paulo: Editora Revista
dos Tribunais, 2008. P. 684. (GRIFO NOSSO).
Excelência, para justificar a condenaçã o pelo crime previsto no artigo 147 do Có digo Penal,
é necessá rio que a ameaça seja idô nea, sem qualquer animosidade entre a vítima e o
acusado, vejamos:
APELAÇÃ O. AMEAÇA. DÚ VIDA QUANTO AO ELEMENTO SUBJETIVO DO TIPO. ABSOLVIÇÃ O.
Ameaça consiste no dito: "a vida é uma só e é fácil de se tirar", desprovida de
seriedade e em contexto conturbado, com animosidade e altercações, não enseja um
substrato probatório sério a dar suporte a um juízo de condenação. Precedentes do
STF. RECURSO PROVIDO. (Apelaçã o Crime Nº 70050576313, Terceira Câ mara Criminal,
Tribunal de Justiça do RS, Relator: Nereu José Giacomolli, Julgado em 22/11/2012) (GRIFO
NOSSO)
Excelência, no momento em que a suposta vítima diz ter sido ameaçada, já havia uma
discussã o previa. A suposta vítima sorrateiramente esconde que também ofende o pai de
seu filho com palavras de baixo calã o.
Nesse sentido, restou demonstrada a fragilidade das alegaçõ es feitas pela suposta vítima a
respeito do crime imputado ao denunciado, restando na dú vida sobre tal ocorrência, o que
enseja sua absolviçã o. Vejamos o entendimento do Tribunal de Justiça de Minas Gerais:
APELAÇÃ O CRIMINAL - CRIME DE AMEAÇA - INSUFICIÊ NCIA PROBATÓ RIA - APLICAÇÃO
DO PRINCÍPIO DO 'IN DUBIO PRO REO' - ABSOLVIÇÃO. - Diante da fragilidade da
prova produzida em desfavor do acusado, impõe-se a sua absolvição, em
atendimento ao princípio do 'in dubio pro reo'.(TJ-MG - APR: 10558120018186001 MG,
Relator: Beatriz Pinheiro Caires, Data de Julgamento: 05/06/2014, Câ maras Criminais / 2ª
CÂ MARA CRIMINAL, Data de Publicaçã o: 18/06/2014) (Grifo Nosso)
Portanto, havendo dú vida quanto a prá tica da infraçã o penal, a decisã o mais correta é a
absolviçã o do réu, conforme manda o artigo 386, inciso VI do Có digo de Processo Penal; “o
juiz absolverá o réu se houver fundada dúvida sobre sua existência. ”
Excelência, sobre a ameaça que a suposta vítima alega ter sofrido, ninguém presenciou.
É pacífico o entendimento dos Tribunais no que se refere ao “princípio do in dubio pro reo”.
Vejamos:
APELAÇÃ O CRIME. AMEAÇA. ARTIGO 147 DO CP. INSUFICIÊ NCIA PROBATÓ RIA.
SENTENÇA CONDENATÓ RIA REFORMADA. Ausente prova segura e conclusiva acerca da
efetiva ocorrência do fato descrito na denú ncia e de sua conformaçã o típica, impositiva a
absolviçã o do réu, tudo em observâ ncia ao princípio da prevalência de seu interesse - in
dubio pro reo. A ameaça é delito formal que não exige resultado naturalístico, e sua
comprovação se dá pela prova oral colhida, a qual, na espécie, não é suficiente para
ensejar a condenação. RECURSO PROVIDO. (Recurso Crime Nº 71004640371, Turma
Recursal Criminal, Turmas Recursais, Relator: Cristina Pereira Gonzales, Julgado em
27/01/2014).
Outros julgados mostram perfeita harmonia ao caso sub judice e que impera o princípio em
comento, in verbis:
RECURSO CRIME. AMEAÇA. ART. 147 DO CP. INSUFICIÊ NCIA DE PROVAS. ELEMENTARES
DO TIPO PENAL NÃ O CONFIGURADAS. SENTENÇA CONDENATÓ RIA REFORMADA. Não
resultou claro que o réu, efetivamente, tenha ameaçado a vítima, diante das versões
conflitantes apresentadas, resolvendo-se a dúvida em favor dele. Ademais, não
demonstrada a seriedade da ameaça, que não produziu intimidação penalmente
relevante. A dúvida é ainda agravada pela existência de prévio desentendimento
entre as partes, relacionado com o namoro entre o réu e a filha da vítima. APELAÇÃ O
PROVIDA. (Recurso Crime Nº 71003729654, Turma Recursal Criminal, Turmas Recursais,
Relator: Volcir Antô nio Casal, Julgado em 25/06/2012). Grifo/sublinhado nosso),
“Uma só testemunha contra alguém não se levantará por qualquer iniquidade, ou por
qualquer pecado, seja qual for o pecado que cometeu; pela boca de duas testemunhas, ou pela
boca de três testemunhas, se estabelecerá o fato. “ Deuteronômio 19:15, Sagradas Escrituras.”
V - DOS PEDIDOS
Diante do exposto, Requer desde já a REJEIÇÃO TARDIA da denú ncia, por faltar justa causa
para o exercício da açã o penal, conforme manda o artigo 395, inciso III do Có digo de
Processo Penal.
Nã o sendo caso de rejeiçã o tardia, requer a ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA do denunciado
ODORICO PARAGUAÇU e a TOTAL IMPROCEDÊ NCIA da denú ncia, com fundamento no
artigo 397, inciso III, do Có digo de Processo Penal, visto que o crime imputado padece de
dolo, portanto nã o constituindo crime.
Caso nã o seja este o entendimento deste Douto Juiz, a absolviçã o ainda é medida que se
impõ e conforme o artigo 386, inciso VI, do Có digo de Processo Penal e assim aplicado o
princípio do “in dubio pro reo”.
Protesta provar a inocência do acusado por todos os meios em direito admitidos.
Nesses termos,
pede deferimento
Manaus/AM, 29 de agosto de 2018.
Cairo Cardoso Garcia
Advogado
OAB/AM 12.226