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CARTA ABERTA AO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

Eu, Gleeciany Souza Santos, graduanda do curso de Pedagogia da Universidade Federal


da Paraíba, venho por meio dessa carta aberta, tornar público meu posicionamento a respeito
da necessidade do debate e integração, no âmbito educacional, das demandas postas em pauta
pelos movimentos sociais que se referem as questões étnicas, de gênero e sexualidade.

Em virtude das transformações que a sociedade contemporânea vem atravessando, a


partir dos adventos da tecnologia que proporcionaram a globalização em seus diversos âmbitos,
entre eles as redes sociais por exemplo, de forma a aproximar vozes que antes não se
encontravam e não encontravam espaço de fala, observa-se a união de sujeitos que integram
minorias, mas que agora se formam em coletivos e demanda da sociedade não somente em
espaço para existirem, mas para serem ouvidos e integrarem a nova realidade. Uma realidade
que abarque a diversidade presente na realidade social, a pluralidade de ideias, a equidade de
direitos e acessos, a garantia de efetivação desses direitos dentro da constitucionalidade que
rege o mundo atual.

Posto isso, partindo da realidade social do Brasil, encontra-se diversos obstáculos que
impedem os sujeitos de vivenciarem a igualdade de direitos, de se enxergarem nos processos
sociais da pátria mãe. Mediante a um governo que prega a necessidade do patriotismo, que
segundo definição em dicionário pressupõe o sujeito que ama sua pátria e têm devoção por ela
(AURÉLIO, 2020), há que se refletir: como um sujeito poderá amar e ter devoção por seu país
quando sua pátria o excluí? Quando sua pátria o silencia? Quando sua pátria tira a sua vida e de
seus iguais por não aceitar suas singularidades? Quando o governo desse país assiste a tais
mazelas e violências e se cala?

Os Movimentos Sociais, hoje criminalizados através de uma narrativa desumana que


parte daqueles que deveriam liderar os cidadãos e ecoa entre indivíduos dominados por uma
visão segregacionista e homogeneizante no que se refere o ideal de sociedade, têm há muitos
anos representado a forma de organização dos excluídos sociais em busca de seu espaço e luta
por seus direitos. Ao longo dos anos, as diversas lutas empreendidas coletivamente resultaram
em avanços em pautas humanizantes importantes, ainda longe de chegar um ideal, esbarram
nos retrocessos promovidos atualmente pelos representantes do governo federal.

Na Constituição Federal Brasileira (BRASIL, 1988) em seu artigo 205 determina que
“a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com
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a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o


exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

Não é possível dialogar sobre o desenvolvimento pleno de uma pessoa, como referido
acima do artigo 205 da Constituição Federal, sem considerar a pluralidade dos sujeitos e suas
singularidades. Nessa direção, a sexualidade é uma dimensão constitutiva do indivíduo, na qual
são expressas suas emoções, sua afetividade, seu reconhecimento enquanto sujeito histórico e
cultural. Seu gênero e sua orientação sexual integra essa dimensão. A forma como cada
indivíduo se expressa e relaciona com o mundo irá espelhar o contexto e as variáveis as quais
é exposto em sua formação no âmbito familiar, educacional e social.

Ao olhar o atual cenário brasileiro, de acordo com o Atlas da Violência, documento


produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (IPEA), em sua edição de 2019 aponta que enquanto a taxa de homicídios gerais no
Brasil aumentou em 4,2% em relação a 2017, no mesmo período o feminicídio teve aumento
de 5,4%. Esse aumento se torna mais grave quando comparado a 2007, sendo a maior taxa
desde 2007, o que evidencia que o trabalho acerca das pautas dos coletivos feministas vinha
causando efeitos em nossa sociedade e tiveram regressão, justamente, no momento que a
narrativa da violência tem sido disseminada e relativizada por expoentes do governo.

Mulheres lutam diariamente por segurança e seus direitos sociais. Direitos relativos ao
corpo, ao não serem objetificadas, diminuídas, silenciadas. O direito primário ao próprio corpo,
de vestir-se como desejam e não serem assediadas; o direito a ter filhos quando e se quiserem
e não como matrizes reprodutivas para seus companheiros; o direito ao trabalho e equiparação
salarial, sendo reconhecidas por suas competências sem influência do seu gênero como
justificativa para menores salários nos mesmos cargos que os homens; o direito de vivência de
sua sexualidade sem ataques; o direito de, assim como os homens, poderem trabalhar fora e
nesse contexto a obrigação do Estado em prover creche para seus filhos.

Retomando mais uma vez o Atlas da Violência de 2019, segundo o IPEA, 2019 foi o
primeiro ano em que dados sobre a comunidade LGBTQIA+ foram incluídos, demonstram a
invisibilidade dos dados relativos à violência que a comunidade sofre. E se agravam pois em
sua inserção, os dados apresentados constatam o aumento das denúncias, através do serviço de
denúncia disque 100, de 5 homicídios em 2011 para 193 em 2017. Observa-se nos dados que o
advento da misoginia está presente também nos dados de violência contra a comunidade
LGBTQIA+ quando constatado pelo Ministério da Saúde que entre 2015 e 2016, houve
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aumento nos casos de violência física, psicológica e tortura contra bissexuais e homossexuais
e que a maioria dos casos foram contra mulheres e os autores das violências, identificado em
70% dos casos, são homens.

A escola deveria ser o lugar onde as crianças tem a oportunidade de vivenciar a


socialização para além do âmbito individual e familiar, mas para crianças LGBTQIA+ a escola
pode se tornar um ambiente potencialmente de sofrimento com o bullying, que
comprovadamente gera traumas psicológicos, pois o preconceito que está arraigado
historicamente na nossa sociedade começa a ser perpassado justamente na escola com tais
violências. Demandas de reconhecimento do nome social, da identidade de gênero vem sendo
amplamente confrontadas por órgãos governamentais, na tentativa de silenciamento e opressão
dos sujeitos LGBTQIA+, através de discursos moralizantes religiosos que ferem o princípio
constitucional da laicidade por parte dos dirigentes nacionais.

Os dados apresentam também que, em 2017 a taxa de homicídios entre a população


negra alcançou os números de 43,1 em cada 100 mil habitantes, um aumento de 33,1% em
relação ao período de 2007. O que denuncia o crescimento da violência baseada por questões
étnico-raciais. O que evidencia a partir de tais constatações é que passados seus 130 anos da
abolição da escravatura, após quase 4 séculos de escravidão no Brasil, o desencadeamento da
Leia Aurea que não se colocou como uma lei de reparação a perversão contra a dignidade para
todos/as os/as negros/as.

A sociedade passa por uma grande crise vivendo um caminho do negacionismo


histórico, sobretudo com a população negra. O período colonial fez a população negra ser vítima
de segregação, violência, opressão e exclusão. Em meio a tantas lutas, os avanços conquistados
não foram capazes de garantir plenamente o direito à cidadania. No contexto social mais
recente, pode-se denunciar as péssimas condições de vida da população negra, sem acesso à
educação de qualidade e submetida a exploração do trabalho, péssimas condições de moradia e
mortes diárias nas periferias.

Ao longo dos anos, não se pode deixar de destacar as contribuições da luta do


movimento negro, na implementação da lei 1390/51, conhecida como a Lei Afonso Arinos, que
proibia qualquer tipo de discriminação racial no país; Lei 7.716/89, que define os crimes de
preconceito de raça ou de cor; Lei 12. 711/12 que determina a criação das cotas em
universidades públicas para a população negra; Lei 12.990/14 que determina 20% das vagas
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oferecidas nos concursos para negros; Lei 10.639/2003 que insere o ensino de conteúdos a
história e a cultura afro-brasileira.

Assim, me coloco junto aos Movimentos Sociais dos coletivos negros, feministas e
LGBTQIA+ na luta por uma educação que não vise somente o acesso, pois não basta que todos
estejam na escola, é preciso que a escola seja um espaço de transformação social. Espaço de
debate, da pluralidade, de formação plena que vise a desconstrução dos princípios estruturais
de preconceito e racismo que vem reafirmando comportamentos, atitudes e valores que negam
as mulheres, os negros e LGBTs, os segregando e discriminando por não se permitirem ser
absorvidos por um processo de homogeneização em que os sujeitos negam suas subjetividades
e se adequam a princípios moralizantes religiosos que não condizem com a democracia.

Reconheço o MEC, como a instância pública capaz de agir para a melhoria dos
currículos na formação docente em nível superior e também na formação continuada com a
proposição de formar profissionais capazes de atuar no ensino-aprendizagem a partir de uma
concepção inclusiva em vistas aos Direitos Humanos, de maneira a impactar na formação plena,
definida na Constituição Federal, nos sujeitos para uma cidadania em que cada sujeito seja
respeitado independente de sua etnia, gênero e sexualidade. Assim como, alterar as propostas
curriculares para que os alunos, em todas as partes do país, possam ter acesso a um conteúdo
plural. Não basta falar sobre África, é preciso refletir sobre os impactos das ações escravagistas
sobre os negros de forma contextualizada a realidade, de maneira que a reparação histórica ao
qual a população negra demanda, comece na alteração estrutural racista presente em nosso país.

Nesse contexto antidemocrático e com perdas de diversos direitos, me coloco junto a


luta na defesa das políticas de ações afirmativas que visa a reparação as mulheres, população
negra e LGBTQIA+, através da garantia plena de seus direitos. E na escola, precisamos
encontrar o contexto educacional, como o âmbito capaz de debater e alcançar tais direitos, na
superação dos preconceitos que começam a ser desenvolvidos a partir de concepções sociais
conservadoras e violentas.

Atenciosamente,
Gleeciany Souza Santos (graduanda em Pedagogia, UFPB)

REFERÊNCIAS
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BITTENCOURT, N. A. Movimentos Feministas. Revista InSURgência, Brasília, v. 1, n.1, p.


198-211, jan./jun. 2015.
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BRASIL. Ministério da Educação. Extinção da Secretaria de Educação Continuada,
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Santa Catarina, v. 2, n. 1, p. 75-91, jan. 2015.