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TANTO TEMPO DIRIGINDO


SEM NINGUÉM NO RETROVISOR
(Contos da Era Bolsonaro)

Fabio Shiva

320 Dwapara
(2020)

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Copyright © 2020 by Fabio Lopes Barretto
Capa: Fabrício Barretto
Photo by Jonathan Borba from Pexels
Edição: Bia Machado
ASIN: B085185THH

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Om Aim Saraswati Namaha

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ÍNDICE

TANTO TEMPO DIRIGINDO SEM NINGUÉM NO RETROVISOR


A ESPERA
O ÓDIO QUE VEIO DO ESPAÇO
A ARMA
NOTÍCIAS DA DEMOCRACIA
VERDADE E CONSEQUÊNCIA
A REDESCOBERTA DO BRASIL
ACIMA DE TODOS

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TANTO TEMPO DIRIGINDO
SEM NINGUÉM NO RETROVISOR

Rio de Janeiro, 7 de outubro de 2018

Sérgio, meu irmão,

Retomo essas nossas conversas empurrado pelo vendaval que sacode


o país. Lembro de você dizendo que “não existe nada tão bizarro que não
tenha algum precedente no Brasil”. Você costumava iniciar ou encerrar com
essa frase quando me contava algum dos casos pitorescos que ouvia na
redação. Como o da mulher que justificou a gravidez de seis meses para o
marido que não via há quase um ano afirmando ter engravidado após assistir
um filme pornô com umas amigas. Ou o do pastor evangélico que narrava
seus encontros pessoais com Jesus Cristo, finalizando sempre com o mote:
“Eu vi Jesus, e ele é baixinho”.
Como eu dava risada ao ouvir esses casos! Hoje, no entanto, essa frase
sua não me sai da cabeça, sem que eu sinta a menor vontade de sorrir.
Hoje tivemos eleições para presidente do Brasil. E quem quase levou
já no primeiro turno, com 46% dos votos válidos, foi o Jair Bolsonaro. Sei
que conhece a figura, pois comentou quando ele deu uma entrevista
declarando ser a favor da tortura. “E veja você, Sandrinho”, você disse
naquele seu tom costumeiro, entre a seriedade e a zombaria, “que um sujeito
desses chega a deputado no Brasil”.
Imagino o que você diria agora, que esse mesmo sujeito está perigando
virar Presidente da República. Só de pensar nisso me vem uma secura na
boca, uma sensação de irrealidade. A mente simplesmente se recusa a aceitar

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o que está acontecendo. Acho que muitas pessoas estão sentindo o mesmo
hoje, como se estivessem dentro de um sonho do qual não conseguem
acordar, e que lentamente vai se transformando em um pesadelo medonho.
Eu mesmo nunca acreditei que Bolsonaro tivesse alguma chance
verdadeira. Para mim ele era o maluco da vez, que tem em toda eleição. Tipo
o Enéas, ou o Tiririca. Se bem que Tiririca foi eleito hoje para seu terceiro
mandato como deputado federal.
Isso me faz sentir também um pouco culpado. Eu deveria ter me
interessado mais por política, como você insistia tanto. Mas sempre me senti
mais à vontade escrevendo sobre discos, filmes e livros. Apesar de toda a
expectativa de que eu fosse seguir os seus passos no jornalismo, nunca
escondi minha satisfação ao ser designado para o caderno de cultura. Você
sabe muito bem que, em minha opinião, só dois tipos de pessoas se
interessam genuinamente pela política. Alguns poucos heróis, como você. E
uma multidão de canalhas.
Mas agora não se trata de política. Pode muito bem se tornar uma
questão de sobrevivência. O que está acontecendo no Brasil? Gostaria muito
de saber a sua opinião.
Um abraço de seu mano,
Sandro

Rio, 13 de outubro de 2018

Sérgio,

Nem eu estou acreditando no quanto a minha vida mudou em apenas


uma semana. Será que você ficaria feliz ao ver o seu irmão caçula assim tão
engajado em uma campanha política? Quero crer que sim, mas não consigo

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deixar de ver você com aquele meio sorriso que precedia alguma tirada
demolidora, como “até a vitória final ou a primeira pedra no caminho, o que
vier antes”, ou então “toda causa nobre esconde o desejo de impressionar
alguma garota”. Especialmente porque, não posso negar, realmente houve
uma mulher nessa história: Maria Clara. É minha colega de jornal, que
trabalha no caderno de cidades. E antes que você pergunte, não está rolando
nada entre nós. Por enquanto.
Não vou falar muito sobre ela, pois sei o quanto você sempre achou
ridículas essas “babujices românticas”. Basta dizer que a Maria Clara, ao
contrário de mim, é muito politizada, sempre às voltas com o que você não
hesitaria em chamar de “causas fofinhas”: direitos dos animais, preservação
da mata atlântica, proibição de agrotóxicos cancerígenos etc.
No dia seguinte ao primeiro turno, encontrei Maria Clara na
lanchonete onde o pessoal costuma fazer uma boquinha. Óbvio que falamos
sobre as eleições. Não havia outro assunto. Ela havia votado na Marina, e eu
no Ciro. Gastamos algum tempo considerando as chances de Haddad. Com
29% dos votos válidos no primeiro turno, as perspectivas do petista não
chegam a ser desesperadoras, mas também estão longe de serem animadoras.
Maria Clara, contudo, mostrou-se otimista: “Tudo o que precisamos fazer é
virar os votos brancos e nulos”, ela disse. “Tem muita gente que não acredita
mais em nenhum político, seja de que partido for. Junto com as abstenções,
os brancos e nulos somaram mais de 30% do total. Estamos falando de 42
milhões de pessoas. Pense nisso. Temos que encontrar um meio de
convencer essas pessoas a votarem não em Haddad, mas contra Bolsonaro.
Não por uma questão de política, mas pela causa humanitária. Porque esse
cara é um monstro. Só temos que fazer o povo ver isso.”
Nesse momento, impulsivamente, entreguei para ela uma lauda e meia
que eu havia rascunhado na noite anterior, depois de escrever para você. Era
uma espécie de desabafo contra tudo o que eu via de errado no país e que

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acabou levando a um Bolsonaro quase eleito presidente no primeiro turno.
Está bem, eu confesso (mas só para você): a minha intenção ao passar aquele
texto para a Maria Clara era, basicamente, mostrar como eu sou um cara
sensível, interessante, que vale a pena conhecer mais a fundo. Só que eu não
esperava que a reação dela fosse tão intensa. “Você tem que publicar isso”,
ela disse.
E foi o que eu fiz. Além de minha coluna semanal e das matérias
aleatórias no caderno de cultura, eu gosto de exercitar minha escrita em um
blog pessoal, onde jogo minhas elucubrações sobre cinema, música e
literatura. Foi nesse blog que postei o texto que havia encantado Maria Clara.
Ela não foi a única: muitas pessoas compartilharam o meu artigo nas redes
sociais. Mas muitas mesmo, Sérgio: 257.314 até o momento, para ser exato.
Nada mal para um blog que até então tinha pouco mais de 10 mil seguidores.
Não vou negar que fiquei envaidecido com tanta gente lendo meu
texto. Lógico que nem todos gostaram. Muita gente odiou, e bastante.
Cheguei a sentir um mal-estar físico com alguns comentários que postaram
no blog. Era uma carga negativa tão intensa que chegava a ser quase
palpável. De onde será que saiu tanto ódio?
Seja como for, tanto os compartilhamentos quanto os xingamentos me
deixaram mais que motivado. Decidi postar um texto por dia sobre
Bolsonaro. E a cada dia as reações contra e a favor foram mais exaltadas, e
foi assim que em menos de uma semana o Blog do Sandro Lopes tornou-se
um dos bastiões da resistência antifascista no Brasil.
Pena que esses louros todos não me valeram de muita coisa com a
Maria Clara. Justo quando eu imaginei que a hora era propícia para o passo
seguinte, ela veio me falar que tem um namorado. Ou algo parecido, um
lance complicado aí, que ela preferiu não comentar. Enfim, a luta continua!
Saudades de você, cara!
Seu mano, Sandro

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Rio, 16 de outubro de 2018

Sérgio,

Você não faz ideia da loucura que está isso aqui. Bota precedente de
bizarrice nisso! Meu irmão, as pessoas estão simplesmente surtando. Não
tem outra palavra para descrever o que está acontecendo.
Seria até engraçado, se não fosse assustador ver tanta gente exibindo
os mesmos sintomas de loucura. O pior é que todos repetem argumentos
iguais, às vezes até com as palavras exatas. É como se da noite para o dia
alguma inteligência alienígena insectoide dominasse metade da população,
no melhor estilo dos “Invasores de Corpos”. Lembra desse filme? Eu teria
considerado apenas um banal exercício de ficção científica e horror, se você
não me tivesse feito atentar para as metáforas ocultas.
Enquanto isso, no Brasil, metade da população surta... e a outra metade
fica assistindo de boca aberta, em choque. Uma amiga minha sintetizou bem
esse estarrecimento em uma pergunta postada no Twitter: “Onde você estava
quando distribuíram a pílula zumbi?” Gostei tanto que utilizei como título
de meu panfleto diário no blog. Viralizou, como tudo que tenho postado por
esses dias. E atraiu, do mesmo modo, inúmeras manifestações de ódio
explícito, às quais, infelizmente, começo a me acostumar. Mas ainda dói
quando essas agressões partem de amigos queridos e até de pessoas da
família.
Sabe o tio Elpídio? Pois é, lamento dizer, mas ele entrou no mínimo
umas três vezes na fila da pílula zumbi. Não posso postar nem bom dia no
blog, que ele vem com duzentas frases feitas, do tipo copia e cola. No
começo, até tentei refutar educadamente. Teve um comentário dele, imenso,

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com meia dúzia de acusações terríveis contra o PT. Esse, aliás, é um dos
pontos intrigantes dessa insanidade coletiva: nunca vi nenhum eleitor de
Bolsonaro citando uma única boa qualidade dele. Só sabem espumar de raiva
contra o comunismo em geral e o PT em particular.
Bom, você sabe melhor do que ninguém que já vão longe meus dias
de encantamento com o PT. Foi por isso que, ao ver acusações tão graves
contra o Partido dos Trabalhadores, ainda mais sendo proferidas por alguém
tão querido quanto o tio Elpídio, fiz questão de verificar. Você acredita que
das cinco ou sete seríssimas acusações (uma delas verdadeiramente
assombrosa: a de que Haddad tinha publicado um livro incentivando a
pedofilia), nenhuma tinha o menor fundamento? Não passavam de Fake
News, torpes invenções da propaganda política de nossos tempos modernos.
Tentei fazer tio Elpídio ver isso, carinhosamente, com minuciosos
argumentos que me gastaram boa meia hora de serviço. Ele não disse nada
em resposta, nem sei se chegou a ler. Mas quando postei meu artigo no dia
seguinte, lá estava o tio Elpídio como um dos primeiros a comentar, babando
as mesmas sandices hidrofóbicas.
Confesso a você, meu irmão, que meu primeiro impulso foi mandar
solenemente o tio Elpídio tomar no olho do cu. Depois pensei melhor,
considerei parentesco e carinho acumulado, relevei. Tentei uma abordagem
pessoal. Escrevi um e-mail para o tio, lembrando de tantas coisas boas que
vivemos, eu e você ainda moleques, na casa de praia dele em Saquarema.
Falei de minha gratidão e de meu amor, pedindo uma trégua em nome do
sangue de família que nos une. Note que não exigi de tio Elpídio que
abjurasse de seu credo nazifascista. Pedi simplesmente que ele parasse de
colar em meu blog aquelas postagens odiosas, certamente copiadas de
alguma matriz robótica de propaganda bolsonarista. Pois em termos de
campanha política, não fazia a menor diferença a postagem dele em meio a
dezenas de outras iguaizinhas. Mas me feria pessoalmente, vê-lo vibrando

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ideias tão lamentáveis. Tudo o que pedi foi que ele colocasse nosso vínculo
familiar acima dessa divergência. Afinal, eu não ia no Facebook criticar as
postagens dele. Pois respondeu você ao meu e-mail? Muito menos tio
Elpídio. Mas no dia seguinte já estava ele a postos, na primeira fileira,
pontual e infalível, pronto para dar o seu Crtl + V de mentiras.
Sabe o que mais me entristece nessa comédia familiar? O tio Elpídio
sempre foi tão cético, lembra? Avesso a toda crendice religiosa (acho até que
você puxou um pouco a ele nesse quesito), sempre colocando em questão as
motivações até de ilustres como Chico Xavier, Irmã Dulce, Gandhi... E
quando resolveu crer cegamente em alguém, escolheu logo Bolsonaro!
Estou citando apenas um exemplo, entre tantos. O que aconteceu com
essas pessoas tão queridas que eu admirava, hoje irreconhecíveis em sua
adesão fanática e barulhenta a desumanidades?
Cheguei a pensar, não poucas vezes, que era eu o errado, o torto, o
cego. Não é possível tantos parentes e amigos bradando aos quatro ventos
que Bolsonaro é o bem supremo, a cura de todos os males, a salvação do
Brasil, e estejam todos tão irremediavelmente errados, iludidos,
ensandecidos. Ou será que é possível?
Pois basta assistir a qualquer declaração pública de Bolsonaro.
Acredita que nunca vi o sujeito defendendo a construção de nada? Ele é
sempre contra, o candidato da aniquilação e destruição de tudo que, aos seus
olhos, não é digno de existir: o criminoso, o comunista, o homossexual, o
indígena, o quilombola, o pobre miserável.
Como é possível que existam pessoas que não sintam esse horror
imediato, esse nojo irresistível que eu sinto, só de ouvir esse cara falando?
Como pode haver tanta gente acreditando em histórias tão absurdas como a
da mamadeira de piroca? Essa, aliás, precisa entrar para o seu rol da fama
de bizarrices brasileiras. Imagine você que quase todos os eleitores de
Bolsonaro creem piamente em um plano maquiavélico de “petistas

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comunistas homossexuais”, que consiste em uma mamadeira com o bico em
formato de pênis, de forma a aliciar os bebês masculinos para o
homossexualismo e, assim, garantir uma reserva de futuros parceiros
sexuais!!!... Acredite se quiser, meu irmão: dentre tantas acusações sérias
que se poderia fazer contra o PT, por aqui só se ouve falar em mamadeira de
piroca!
Desculpe, Sérgio, essa emotividade tão pouco afeita ao espírito de
isenção jornalística que você sempre considerou seu mais sagrado dever. É
que está foda de aturar tanta loucura.
De seu irmão,
Sandro

Rio, 18 de outubro de 2018

Sérgio, que bomba!

Não sei como deixei escapar isso por tanto tempo. Aposto que seria
um dos primeiros tópicos que você iria atacar, se estivesse escrevendo a
respeito. É que tudo parece tão incrível, fantástico, coisa de filme. Por isso a
ficha demorou a cair. Mas quanto mais eu penso no assunto, mais faz sentido.
Estou falando da facada. Em 6 de setembro, a um mês das eleições,
Bolsonaro sofreu um atentado quando fazia campanha pelas ruas de Juiz de
Fora. O agressor, Adélio Bispo, foi capturado sem resistência imediatamente
após o ataque. Em seguida ventilou-se que ele foi durante sete anos filiado
ao PSOL.
Essa, ao menos, foi a versão oficial da história. E o resultado dessa
facada mal dada foi que Bolsonaro, elevado ao status de quase mártir,

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disparou nas intenções de voto. E quase papou a presidência já no primeiro
turno.
Contudo outra versão tem circulado, com cada vez mais insistência.
De acordo com essa versão, o atentado foi uma farsa montada para encobrir
a cirurgia que Bolsonaro precisava fazer, por conta de um câncer na região
abdominal. Pois ninguém votaria em um candidato canceroso, mas coisa bem
diversa é o heroico sobrevivente de uma tentativa de assassinato.
Logo que soube dessa história, não dei o menor crédito. Achei que era
pura teoria da conspiração, sem nenhum fundamento. Só que começaram a
pipocar, aqui e ali, algumas informações verdadeiramente desconcertantes.
Primeiro de tudo, a completa ausência de sangue no suposto ferimento.
Esse foi um fato que chamou bastante a atenção, ainda mais depois que dois
batalhões contrários de médicos, estudantes de medicina e palpiteiros em
geral passaram a argumentar que era perfeitamente normal não haver
sangramento, de um lado e, do outro, que era completamente impossível não
sair sangue da facada. A princípio não conferi muita importância a esse
detalhe, até que a imagem forjada de uma camisa igual à que Bolsonaro
estava usando no momento do atentado, rasgada de faca e manchada de
sangue, começou a ser exaustivamente utilizada na campanha eleitoral do
candidato.
Então vieram à tona várias evidências de que Bolsonaro realmente
vinha sofrendo com alguma doença na região do abdômen. Muito misteriosa
foi a visita que ele fez, assim que chegou a Juiz de Fora, a um hospital
especializado em oncologia. Totalmente fora do contexto de uma campanha
eleitoral, essa visita foi feita a portas cerradas, e não apenas a imprensa, como
outros pacientes e até mesmo os correligionários mais próximos de
Bolsonaro, como o presidente do PSL, Gustavo Bebianno, foram mantidos
fora. Uma consulta de preparação para a cirurgia que seria realizada horas
depois explicaria perfeitamente a insólita visita.

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Por fim, a improvável figura do agressor, Adélio Bispo. Seus sete anos
de filiação ao PSOL, de 2007 a 2014, forneciam um background conveniente
de “louco assassino esquerdopata”. Contudo ninguém parece ter notado um
detalhe significativo: Adélio está desligado do PSOL há quatro anos. Quando
uma pessoa rompe sua filiação partidária, isso geralmente sinaliza para
alguma decepção ou mágoa. Não é incomum que a pessoa que sai de um
partido adote uma ideologia diametralmente oposta, da mesma forma que ex-
candomblecistas muitas vezes se tornam os mais ferrenhos e intransigentes
evangélicos. Não seria de se espantar, portanto, se depois de sete anos de
esquerda radical Adélio tivesse abraçado a extrema direita.
Isso, por si só, representaria um frágil argumento, não fosse por três
enigmáticos incidentes. Isolados, esses incidentes gerariam dúvidas e
estranheza. Colocados em sequência, sugerem fortemente que há algo de
podre no reino de Brasilândia, além da bolsinha de colostomia do Bolsonaro.
Primeiro incidente: Adélio Bispo treinou, em Florianópolis, no mesmo
stand de tiro que era frequentado por dois filhos de Bolsonaro: Eduardo e
Carlos. Como mera coincidência, é simplesmente esdrúxula. É forçoso
admitir alguma ligação entre a ida de Adélio ao stand em Florianópolis e o
atentado em Juiz de Fora. Além de trazer à tona ao menos uma conexão entre
Adélio e o clã Bolsonaro, esse incidente dá margem a um incômodo
questionamento: por que uma faca foi escolhida como instrumento para o
atentado, ao invés de uma arma de fogo? É muito difícil responder a essa
pergunta, sobretudo quando se tenta defender a hipótese de que Adélio estava
a serviço de uma poderosa conspiração comunista para assassinar Bolsonaro,
como foi afirmado abertamente na intensa campanha de Fake News que se
seguiu, colocando como mandante do crime ora Manuela d’Ávila, vice de
Haddad, ora Jean Wyllys, deputado eleito pelo PSOL.
Os dois incidentes seguintes estão intimamente relacionados, e foram
os que acabaram me convencendo de que há realmente algo muito mal

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contado nessa história toda. O atentado ocorreu em 6 de setembro. Duas
semanas depois, morre Aparecida Maria da Costa, dona da pensão em Juiz
de Fora onde Adélio Bispo havia se hospedado, enquanto se preparava para
o atentado. A causa da morte foi atribuída ao câncer (o que não deixa de ser
de uma ironia macabra, caso ela tenha mesmo sido silenciada para ajudar a
esconder do povo o câncer de Bolsonaro). Detalhe: dona Aparecida faleceu
pouco depois de prestar seu primeiro depoimento à Polícia Federal.
E ontem, 17 de outubro, um novo cadáver foi encontrado na pensão
que havia abrigado Adélio. O corpo de Rogério Inácio Villas apresentava
inegáveis sinais de morte violenta. Por que ele foi assassinado? A resposta
para essa pergunta pode valer nada menos que a Presidência da República.
Realmente me empolguei dessa vez, né? Nem preciso dizer que
aproveitei que estava escrevendo essa carta para ir rascunhando o meu
próximo artigo para o blog. Aposto que vai pegar fogo. Essa história da
facada, se investigada direito, é o que pode derrubar Bolsonaro.
Pois uma triste lição aprendi nesses dias de militância forçada: os
eleitores de Bolsonaro não se incomodam nem um pouco com racismo,
sexismo, homofobia, intolerância religiosa, celebração da tortura e da
ditadura, discurso de ódio. Muito pelo contrário: estou cada vez mais
convencido de que tantas pessoas idolatram Bolsonaro e o consideram um
“Mito” exatamente por esses mesmos motivos que me causam tanta
indignação e repugnância. Não consigo entender como isso é possível, meu
irmão, mas a cada dia tenho menos dúvidas de que infelizmente essa seja
mesmo a verdade.
Contudo ainda tenho uma esperança: essas pessoas, que não se
importam em apoiar tantas maldades, não vão tolerar descobrir que foram
feitas de bobas. O que me faz lembrar de outra de suas tiradas: “Nenhum
cidadão de bem se ofende ao ser acusado de crueldade. Mas experimente
chamá-lo de burro, para você ver...”

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Sinto muito a sua falta, meu irmão. Seria ótimo se pudesse me passar
algumas dicas. Jornalismo investigativo nunca foi a minha praia. Você, por
outro lado, sempre teve um tino especial para desencavar os segredinhos
sujos dos poderosos. Toda vez que alguém descobre que sou seu irmão, a
primeira reação é elogiar o grande Sérgio Lopes, incomparável jornalista,
excelente amigo e notório gozador. Eu até gostaria de ouvir esses elogios, se
logo em seguida, invariavelmente, não se impusesse um silêncio
constrangido e cheio de piedade. E então os tapinhas consoladores no ombro
ou, pior ainda, a compungida pergunta: “Nenhuma novidade ainda?”
Desculpe. Nem sei como foi que entrei nesse assunto. Bom, melhor eu
ir nessa. Quero postar esse texto sobre a facada ainda hoje, sem contar que
estou devendo minha coluna para o jornal.
Te amo, cara.
Sandro

20 de outubro de 2018

Sérgio, meu irmão!

Recebi um telefonema. A chamada veio de um celular não


identificado. Gostaria de saber como descobriram o meu número, que não
divulgo nos textos e que só o pessoal do trabalho e os amigos conhecem.
Mas pensando bem, não deve ter sido tão difícil.
O curioso é que senti uma comichãozinha estranha quando o telefone
tocou. Talvez tenha sido alguma espécie de presságio. Hesitei um pouco,
mas a curiosidade acabou sendo mais forte.
“É o Sandro Lopes que está falando?” Disse uma voz feminina depois
que atendi. Era a voz de uma mulher jovem, voz de mulher bonita. Mas havia

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uma nota estridente, transmitindo de imediato a tensão de minha
interlocutora, que não perdeu tempo com preâmbulos: “Sei de umas coisas
sobre o Adélio Bispo. Quero contar tudo para você.”
Acabei só postando ontem o meu artigo sobre a facada. A repercussão
está sendo colossal. Quando ouvi as palavras “Adélio Bispo” serem
pronunciadas, voltei a sentir a comichão, só que mais forte. Limpei a
garganta e tentei soar o mais casual possível: “Pode falar. Sou todo ouvidos.”
“Pelo telefone, não”, ela cortou, nervosa. “Tem que ser pessoalmente.
Você pode vir a Juiz de Fora?”
O fato de ela estar falando da cidade onde ocorreu o suposto atentado
aumentava as chances de que realmente houvesse algo importante que
pudesse me dizer. Por outro lado, são quase 200 km daqui até Juiz de Fora.
É muito chão para percorrer atrás de uma notícia vaga oferecida por uma
desconhecida. Disse isso a ela.
“Você é quem sabe”, ela respondeu, seca. “Já me arrisquei o suficiente
ao dar esse telefonema. Agora é com você, dizer se está disposto a pagar o
preço para ir ao fundo dessa história e descobrir a verdade.”
Nesse momento recuei, alarmado: “Escute aqui, moça. Não sei o que
você acha que sabe, mas estou postando esses artigos no blog por conta
própria. Não tem ninguém me bancando. Se você está atrás de dinheiro...”
“Não quero seu dinheiro”, atalhou ela, com desprezo. “Quer saber de
uma coisa? Deixa para lá. Foi uma perda de tempo ligar para você.”
“Espere”, pedi antes que ela desligasse. “Por que eu? Por que você não
procurou algum jornalista aí de Juiz de Fora? Teria sido mais fácil.”
“Os jornais daqui não falam nada sobre isso. Pelo menos não do jeito
que você está falando. Você tem coragem.” Por um momento a voz dela
fraquejou, como se estivesse a ponto de chorar. “Não dá para confiar em
ninguém aqui.”

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Depois de um instante ela endureceu novamente a voz: “E aí? Você
vem ou não?”
“Sim”, respondi, tomado por um súbito impulso. “Mas tem que ser
amanhã. Domingo é o meu único dia livre no jornal.”
Eu tinha outro motivo para a urgência. As eleições do segundo turno
serão daqui a uma semana. Se é para jogar alguma merda de Bolsonaro no
ventilador, tem que ser agora.
“Amanhã está bem”, ela disse. “Sabe onde fica o Parque Halfeld?”
“Eu descubro, pode deixar.”
“Me encontre lá à uma da tarde, na ponte do riacho.”
“E como eu vou saber quem é você?”
“Eu vou até você, não se preocupe.”
Senti que ela ia desligar, então me apressei em dizer: “Mas eu nem sei
o seu nome.”
“Deixe meu nome fora disso”, ela rosnou. “Meu nome não pode
aparecer, de jeito nenhum.”
“Tudo bem, sem problema”, assegurei, tranquilizador. “É que eu
gostaria de chamar você por um nome qualquer. Não precisa ser seu nome
verdadeiro.”
“Pode me chamar como quiser”, ela retrucou com indiferença.
“Vou te chamar de Maria Clara, tudo bem?”
“Pode ser”, e ela desligou.
O que será que me deu, para insistir nessa coisa do nome? Mas parece
apropriado chamar a minha fonte misteriosa de Maria Clara. Afinal, ela foi
uma das grandes responsáveis por eu me meter nessa confusão.
Cara, daria qualquer coisa agora para poder conversar com você
pessoalmente, de verdade, ao invés de fingir que converso através dessas
cartas. Seria muito bom saber o que você diria disso tudo.

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Bom, vou tentar dormir um pouco, porque o dia foi longo e amanhã
promete ser bem movimentado.
Abração,
Sandro

21 de outubro (madrugada)

Tive um sonho esquisito. Eu estava dirigindo aquele seu Monza


branco por uma planície deserta. Não havia estrada, apenas uma terra árida
e interminável, que se estendia até os confins do horizonte.
Os pneus do Monza deixavam para trás uma nuvem de poeira, que eu
tentava romper olhando insistentemente pelo retrovisor. Eu estava ansioso,
tentando descobrir algum outro carro vindo atrás de mim. Mas não havia
ninguém.
Até o momento em que vi meus próprios olhos refletidos no retrovisor.
E não eram meus olhos. Era você, Sérgio, quem estava dirigindo seu velho
Monza branco. E foi então que percebi que era eu quem você tanto esperava
que aparecesse em seu retrovisor.
E acordei. Vim logo escrever, antes que o sonho se apagasse da
memória.
E agora vou tentar dormir de novo.
Boa noite, mano.
Sandrinho

21 de outubro (manhã)

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Demorei muito para pegar no sono e dormi mal. Pelo menos não
sonhei novamente. O despertador, lembrando-me do insólito compromisso
de hoje, trouxe uma outra recordação bem mais pungente: fazem quase dez
anos que você sumiu, meu irmão.
Na época você estava investigando a máfia da madeira na Amazônia.
Um belo dia você embarcou em uma viagem para Manaus e ninguém nunca
mais soube de Sérgio Lopes. E também, por outro lado, as pessoas nunca
ouviram falar tanto de Sérgio Lopes. Manchetes sobre seu sumiço ocuparam
as páginas dos jornais por semanas a fio.
E aí veio aquela história do desfalque no Sindicato dos Jornalistas.
Mas logo foi contestada como uma cortina de fumaça para ocultar os
verdadeiros motivos de seu desaparecimento. Eu, mais do que todos, não
tinha como acreditar nessa lorota cretina do desfalque. Lembro do dia em
que você fez questão de voltar e devolver à caixa do supermercado um troco
errado de dois reais, quando já estávamos quase na esquina de casa. Você
seria incapaz de roubar uma pessoa, meu irmão, muito menos colegas de
profissão. Eu sei disso.
Mas aceitar a alternativa é muito pior: que você esteja esquecido em
uma cova anônima, no meio do mato.
Imagino se antes de desaparecer você recebeu um telefonema de
alguém oferecendo informações cruciais para sua reportagem. Imagino se
essa pessoa que ligou para você parecia ser uma mulher atraente e
desprotegida, indefesa, precisando do seu amparo. Imagino se tiveram a
finesse de pesquisar o seu perfil psicológico, antes de atrair você para uma
armadilha. Imagino se você foi simplesmente apanhado em uma rede
grosseira, em uma tocaia qualquer em uma dessas esquinas da vida.
Acho que isso é o mais difícil para nossa condição humana: não saber.
É por isso, meu irmão, que tenho certeza de que você, ao menos, me
entenderia. Eu preciso saber. E é por isso que vou encontrar Maria Clara no

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Parque Halfeld em Juiz de Fora. Sim, pode ser uma armadilha. Mas eu
preciso saber.
Decidi tomar algumas precauções. Já estou com o envelope pronto e
endereçado para o Baiano, aquele seu colega de faculdade que acabou
virando escritor. Vira e mexe tenho falado com ele. É o único que não
pergunta se eu tenho alguma novidade. Antes de sair para Juiz de Fora, vou
colocar esse diário de cartas dentro do envelope e deixar com o porteiro daqui
do prédio, com a orientação de que coloque no correio amanhã pela manhã.
Daí é só pegar de volta quando eu voltar à noite. Caso eu não volte, já está
dentro do envelope um bilhete para o Baiano com o pedido de que encontre
um jeito de tornar público o conteúdo dessas cartas. Ele saberá o que fazer.
Já está na hora de partir, irmão.
Talvez eu apareça no seu retrovisor.

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A ESPERA

Eles chegam de manhã cedo, escurecendo ainda mais os céus


cinzentos da cidade. São monumentais em sua exorbitante quantidade:
centenas e centenas de milhares de aladas criaturas negras, planando em
silêncio e sem esforço acima dos prédios, ruas e praças.
Como que contagiados pela solenidade daquele aéreo balé fúnebre, os
cidadãos contemplam o céu em muda expectativa. Poucos são os que ousam
apontar para cima e olhar em angustiosa interrogação para as pessoas ao
redor, como a perguntar se alguém pode explicar o que está acontecendo.
Por um tempo que parece muito longo, nada ocorre. As aves limitam-
se a sobrevoar a cidade em círculos concêntricos, coletivamente causando a
impressão de uma noite gelatinosa e ondulante que paira sobre as cabeças de
todos. Diante da escuridão antecipada, alguém na administração pública se
lembra de mandar que voltem a acender as luzes dos postes.
Então os pássaros começam a descer, lentamente a princípio, em uma
massiva chuva negra, que cresce em intensidade até evocar, por breves
instantes, uma apocalíptica tempestade de trevas. As pessoas nas ruas saem
de seu mutismo e gritam de pavor, correndo em busca de abrigo. Mas logo
cessa toda a agitação: os pássaros pousaram, trazendo o dia de volta e
transferindo a noite para os telhados das casas e prédios, postes e ocasionais
árvores.
Em poucos minutos cobrem de irrequieto negrume o topo dos arranha-
céus, dos shopping centers e igrejas, das escolas e hospitais, dos condomínios
de luxo e casebres nas favelas. Vistos de perto, os bichos são ainda mais
assustadores, com suas penas de preto fosco, com suas imensas garras, feitas
para arrancar com facilidade a carniça dos ossos, com seus pelancudos e

23
tortuosos pescoços depenados, seus bicos aduncos, de aparência sinistra,
seus olhos malévolos fitando em fria avaliação.
Algumas pessoas, mais apavoradas, partem para cima com paus e
pedras. As aves apenas batem suas poderosas asas e vão pousar logo adiante.
Mas há aqueles que, armados de maior medo e poderio bélico, conseguem
abater um ou dois pássaros a tiro de fuzil ou revólver. São tentativas escassas,
intimidadas pela avassaladora superioridade numérica dos animais e,
sobretudo, por um visceral terror supersticioso, que é expressado à boca
miúda:
– Matar urubu dá azar.
Alguns velhos eruditos lembram de um antigo filme de suspense,
agora alçado ao cunho de revelação profética, em que os pássaros se
rebelavam e atacavam a humanidade. Mas não é isso o que acontece.
Empoleirados em seus postos de observação, nossos algozes limitam-se a
olhar para nós. E esperam.

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O ÓDIO QUE VEIO DO ESPAÇO

Às 14h45 de um belo domingo, o hemisfério ocidental da Terra foi


atingido por raios cósmicos provenientes da remota Nebulosa Philistheum.
Felizmente boa parte da radioatividade foi filtrada pela atmosfera terrestre,
mas um buraco na camada de ozônio permitiu que uma descarga massiva
atingisse em cheio boa parte do território brasileiro. O bombardeio galáctico
teria sido considerado portentoso, caso os cientistas tivessem tomado
conhecimento do ocorrido e possuíssem instrumentos capazes de captar as
ignotas frequências siderais.
Tal como se deu, o evento cósmico passou totalmente despercebido
pela humanidade. Mas os seus efeitos não tardariam a serem sentidos pelos
brasileiros, os mais afetados pelas invisíveis emanações.
O mais significativo é que o fenômeno teve curtíssima duração. Do
momento em que a chuva radioativa invadiu a atmosfera até se entranhar na
crosta terrestre sem deixar vestígios, menos de meio segundo se passou. Isso
determinou um curioso efeito nas pessoas das regiões atingidas.
Exatamente às 14h45 daquele domingo, aqueles que estavam exalando
o ar dos pulmões não sofreram qualquer influência dos raios cósmicos. Mas
quem estava inspirando nesse exato momento acabou inalando algumas
partículas provenientes da distante nebulosa.
Essas pessoas sentiram, em maior ou menor grau, um estranhamento
devido ao contato com a força alienígena. Algumas chegaram a tossir ou
espirrar, eliminando parte da carga recebida e atenuando os efeitos que logo
começariam a se fazer sentir.
A princípio nada de anormal foi registrado. Alguns esparsos incidentes
aleatórios ganharam o noticiário: o espancamento de artistas de rua em
ônibus e sinais de trânsito, brigas em festas e shows degenerando em morte,

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diversos atos de vandalismo e incêndio criminoso cometidos contra
universidades, bibliotecas e outros espaços culturais. Contudo tais episódios
não chegaram a se destacar, em meio à crescente onda de violência no Brasil.
Tudo mudou drasticamente após as eleições presidenciais. O
candidato eleito, valendo-se de uma intensa campanha de ódio e uma
enxurrada de notícias falsas, teve ascensão meteórica e tomou as urnas de
assalto. No dia de sua vitória, metade da população saiu gritando pelas ruas,
em frenéticas comemorações, enquanto a outra metade assistia em aturdido
silêncio, sem entender nada daquilo que estava acontecendo.
É que o presidente estava entre os que haviam inalado a toxina sideral,
junto com quase todos os que compunham sua equipe. Os poucos imunes
foram logo afastados nos primeiros meses de governo e substituídos por
outros que também haviam sido afetados.
Agora alçada ao patamar da Presidência da República, a doença da
nebulosa não tardou a exibir catastróficos sintomas. Os randômicos
vandalismos da fase inicial da epidemia, ao se institucionalizarem, acabaram
virando decretos, medidas e resoluções desconcertantes:
– Extinção dos cursos de Humanas nas universidades públicas.
– Fechamento de rádios, teatros e salas de arte federais.
– Fim das leis e editais de incentivo à cultura.
– Controle estatal das produções do cinema nacional.
– Rígida orientação ideológica nas escolas de ensino médio e
fundamental.
– Proibição do samba, da capoeira e de todas as manifestações da
cultura popular.
– Criminalização de todas as religiões não oficiais.
– Fechamento das bibliotecas e livrarias e queima de livros em praça
pública.

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O mais estarrecedor, para os não afetados pela virose espacial, era que
cada nova determinação do governo, que lhes causava sempre maior abjeção
e horror, era invariavelmente celebrada pelos que não se sabiam doentes
como um novo ato de pura sabedoria, ditado pela infalível bondade divina.
De tão embasbacados diante dessa bizarra sequência de eventos
aparentemente inexplicáveis, os ainda saudáveis foram ficando cada vez
mais débeis em seus protestos e intimidados em sua oposição. Dia a dia,
diminuíam as vozes da resistência.
Até que um cientista paraibano, verdadeiro gênio da raça, ao estudar
as cartilhas astronômicas se deu conta do fenômeno cósmico ocorrido
naquela fatídica tarde de domingo:
– As radiações da Nebulosa Philistheum provocaram uma espécie de
alergia aguda: uma intolerância severa a toda forma de Arte.
Felizmente o mal não era irreversível:
– Basta prepararmos uma vacina para a população infectada, que tudo
voltará a ser como era antes.
Tarde demais, no entanto: as forças entrópicas que moviam o governo
já estavam além de qualquer controle. A essa altura, a apologia à vacinação
havia sido declarada crime de lesa-majestade, punível com a morte. O
cientista paraibano foi fuzilado no pátio da PE de João Pessoa.

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A ARMA

No dia seguinte ao decreto presidencial, José Gusmão foi logo cedo


comprar sua arma. Fã de Bruce Willis, Chuck Norris e demais heróis da Tela
Quente, José admirava sobretudo o modo de vida americano. Um homem
não podia ser totalmente um homem sem uma arma, era sua firme convicção.
E o sonho acalentado durante tanto tempo estava prestes a se realizar.
Agora José poderia de fato zelar pela segurança da casa e garantir a
integridade física e moral de sua família.
Não que nunca antes tivesse surgido a oportunidade de obter uma arma
por meios ilegais. Mas Zé Gusmão era um homem de princípios, seguidor
fiel das leis de Deus e dos homens. Jeitinho brasileiro não era com ele, não.
Semanas antes de o decreto ser assinado, ele já estava com a papelada
toda em dia, inclusive o laudo psicológico que o considerava são o suficiente
para ser o feliz proprietário de uma arma de fogo. Depois de alguma
deliberação, José optou por uma pistola semiautomática. O vendedor
garantiu que seria o grande sucesso da temporada, por ser fácil de manusear
e limpar e, principalmente, pelo seu alto poder de letalidade. Acabou saindo
bem mais cara que o previsto, mas é para essas coisas que existe o cartão de
crédito.
José só ficou um pouco triste porque teria de adiar por alguns meses o
plano de ter aulas e ingressar em um clube de tiro, o que só seria possível
depois de pagar a última prestação. Mas no caminho de casa, sentindo o peso
e o volume de sua nova posse, recuperou a boa disposição inicial. Sentia-se
o próprio Jason Bourne.
E mais orgulhoso ainda ficou diante dos olhares de admiração da
esposa e do filho. É claro que os dois não tiveram autorização para tocar na
arma: puderam apenas contemplá-la com reverência a uma distância segura.

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José decidiu guardar a pistola na gaveta de cima do criado-mudo, do seu lado
da cama. Assim estaria ao alcance da mão durante a noite, quando os justos
dormem e os malfeitores são mais ativos.
De tanta excitação, nessa primeira noite ele não pregou o olho.
Qualquer pequeno barulho na rua o fazia estremecer de antecipação, com os
ouvidos estalando de tão tesos, à espera do ruído delator que indicaria sem
sombra de dúvida a invasão de um bandido à sua residência.
De olhos abertos na escuridão, enquanto aguardava a inevitável hora
da verdade, imaginava com infinitas variações a cena do confronto: ele
saltando para a gaveta do criado-mudo e sendo alvejado em pleno salto, ou
conseguindo sacar e atirar primeiro, acertando em cheio o ladrão, ou quem
sabe acertando o meliante de raspão ou a parede, dando oportunidade para
um revide do facínora e sendo fulminado por um disparo certeiro, ou vendo
o tiro acertar a esposa ao lado, o que o levaria a se vingar do criminoso com
uma rajada mortífera, ou a ficar frustrado com a pistola que engasgava,
possibilitando ao celerado fugir tranquilamente, depois de matar toda a
família.
De manhã, estava um caco. No trabalho teve uma magra satisfação ao
comentar, como quem não quer nada, sobre sua aquisição. Mas arrependeu-
se quase que imediatamente de ter aberto a boca: logo todos no trabalho
ficariam sabendo de sua arma, e sabe-se lá com quem iriam comentar. Uma
pistola como a sua, além de garantir a segurança da casa, era em si um bem
precioso, que valia bastante dinheiro. E se alguém quisesse roubá-la?
Na rua, novas preocupações o assaltaram. Qualquer um com uma
pochete ou mesmo uma camisa folgada poderia estar carregando uma arma.
José Gusmão, cidadão exemplar, jamais iria desrespeitar a nova lei, que lhe
facultava a posse, mas não o porte. Mas quem lhe garantia que os outros
seriam igualmente respeitadores? Sua pistola, mesmo custando tão caro,
podia ser parcelada em até vinte e quatro vezes. Assim qualquer um podia

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comprar. Na avaliação de José, quase todos que passavam por ele podiam
estar portando. De que lhe adiantaria sua pistola trancada dentro de casa se
ele se visse em meio a um tiroteio em plena rua?
Nessa noite novamente não conseguiu dormir. Travou centenas de
duelos imaginários, na expectativa do segundo fatal. Amaldiçoou cada gato
vagabundo, cada motorista ou pedestre notívago, cada avião roncando seu
motor no céu distante e, principalmente, os diversos pequenos sons
indistintos da madrugada, que não lhe permitiam conciliar o sono.
Levantou na manhã seguinte embrutecido e mal-humorado, e mais
ainda ficou quando, ao sair do banho, flagrou o filho em seu quarto, com a
gaveta do criado-mudo aberta, bulindo na arma. Bateu no moleque até dizer
chega. Por conta disso chegou atrasado ao trabalho. O patrão olhou de cara
feia.
Voltou para casa fitando o chão, para evitar que seu olhar cruzasse
com o de algum estranho armado. Mas ficou o tempo todo vigiando as
movimentações suspeitas com o canto dos olhos.
Temeroso de que a surra não tivesse bastado, guardou a pistola em
cima do armário, fora do alcance da curiosidade do menino. O problema é
que assim a arma ficou inacessível também para ele. Nos devaneios dessa
noite precisou incluir elaborados estratagemas para ludibriar um invasor –
pois precisaria subir na cama e esticar o braço até a arma – antes de
finalmente passar à cena do tiroteio, com todas as suas milimétricas
variações. José afinal adormeceu, de pura exaustão, mas teve pesadelos
medonhos.
O dia e a noite seguintes não foram muito melhores, nem os demais.
Depois de algumas semanas, a esposa, preocupadíssima, aproveitou a
desculpa de um feriadão para convencer José a passarem o fim de semana
prolongado na casa de praia de um parente. O marido aceitou muito a
contragosto: custou a se despedir da arma, mesmo que só por alguns dias.

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Chegando do feriadão, tiveram uma triste surpresa: o portão estava
arrombado. José correu para dentro de casa, oprimido por um pressentimento
irresistível.
A pistola não se encontrava mais sobre o armário. Aliás, não havia
mais armário. Por sorte não levaram também a cama.
Nessa noite, em sua casa depauperada e com as trancas ainda por
consertar, pela primeira vez em muito tempo José Gusmão dormiu em paz,
como um bebê.

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NOTÍCIAS DA DEMOCRACIA

Ao contrário do que se poderia esperar, a proliferação de Fake News


determinará o poderio ainda maior de alguns poucos noticiários autorizados,
em um futuro não muito distante. Na típica residência dos Souza, por
exemplo, o horário das refeições será ditado pela programação do jornal local
e nacional.
– O jantar está esfriando, Carol – avisará a mãe, Eleonor, em tom de
súplica. – O jornal já vai começar.
– Estou indo – responderá a filha, de má vontade.
Na sala, o restante da família estará sentado à mesa, de frente para a
tevê posicionada em local de honra.
– Você mima demais essa menina, Eleonor – resmungará Humberto,
marido e pai, dando uma garfada em seu prato. – Toda noite é essa
aporrinhação.
– Isso é só uma fase passageira, coisa de adolescente – contemporizará
a mãe.
– Posso usar o controle da Carol? – pedirá novamente Ricardinho, o
caçula.
– Não, meu filho – responderá Eleonor, tomando o aparelho das mãos
do menino e devolvendo-o ao seu lugar, junto ao prato de Carol. – Já disse
que só quando você fizer 13 anos.
– Aposto que eu sei votar melhor do que ela – retrucará o menino,
inconformado.
– Disso eu não duvido – falará o pai, mastigando um naco da comida.
– Mas silêncio agora, que o jornal está começando.
A tela da tevê mostrará duas jovens esbeltas apresentando o noticiário.
Uma delas dirá:

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– Boa noite. Dentro de instantes começaremos falando sobre a situação
econômica do país. Os telespectadores que possuem o dispositivo de opinião
remota já podem votar agora.
Em imediata obediência a esse comando, Humberto e Eleonor
apontarão seus controles para a tela da tevê. Cada um apertará com
insistência a tecla colorida, dentre as seis disponíveis, que melhor representa
o seu estado de espírito com relação à notícia que será dada.
– Mas onde está essa menina? – reclamará o pai, irritado. – Toda noite
é a mesma história.
– Carol – implorará a mãe, aflita.
– Pronto, já cheguei – responderá a filha, avançando até o local vago
na mesa. Antes mesmo de se sentar, ela apanhará o seu controle remoto e o
apontará ostensivamente para a tevê. – Resolvido: acabou-se a agonia!
E será bem a tempo. Logo a seguir a outra apresentadora começará a
ler a notícia, que será ilustrada por uma série de imagens pertinentes:
– Os brasileiros podem comemorar boas conquistas na área da
economia. A taxa de desemprego finalmente começa a dar indícios de que
vai diminuir, alavancada pelo aquecimento do comércio, pelo crescimento
da indústria e pelas boas safras registradas no último trimestre. Depois de
uma longa recessão, nosso país finalmente está começando a crescer.
– Até parece – deixará escapar Carol, entre os dentes, enquanto se
serve de comida.
O pai baterá com a mão na mesa, encolerizado:
– Você sabe que esse tipo de atitude não é tolerado nesta casa,
mocinha.
Ao notar o olhar consternado da mãe, Carol dará de ombros, em um
gesto de pouco caso:
– Está bem. Que seja.

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O jantar decorrerá em silêncio durante os comerciais. No retorno do
jornal, a primeira apresentadora dirá:
– Agora vamos falar sobre os índices de criminalidade nos grandes
centros urbanos. Os telespectadores já podem votar.
Então o irmão caçula fará a denúncia:
– Carol não está votando! Ela só está fingindo que aperta os botões!
O pai olhará para ela com estupefação e ultraje. A mãe ficará
totalmente horrorizada. A menina dará de ombros mais uma vez, jogando
com displicência o controle sobre a mesa de jantar:
– Não vejo sentido em ficar assistindo notícias que nós mesmos
decidimos como serão – ela afirmará simplesmente, com indiferença. – Nada
disso está acontecendo de verdade.
Eleonor ainda tentará conciliar:
– Minha filha, quantas vezes nós lhe dissemos que não importa o que
acontece de fato, e sim o que o povo acredita que acontece?
– Ficar repetindo os mandamentos de comunicação não vai me
convencer, mãe – retrucará a menina. – Qual a graça de ver um jornal que só
transmite notícias que nos agradam?
– Não é assim não, mocinha – vociferará o pai, congestionado. – Pois
se a maioria das notícias é terrível, ao ponto de me deixar fervendo de ódio!
– O senhor me desculpe, pai – Carol ousará interromper, fitando o pai
diretamente nos olhos. – Mas não são essas notícias que lhe deixam com
ódio, elas só justificam o ódio que o senhor já sentia antes.
– Agora chega – rugirá o patriarca, trêmulo de indignação. – Você
passou dos limites.
Mas antes que ele tenha tempo de pensar em alguma punição
adequada, a menina já está se levantando da mesa:
– Quer saber de uma coisa? Perdi o apetite.

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Ao ver a filha se encaminhando para a porta da rua, Eleanor
perguntará, alarmada:
– Mas para onde você vai a essa hora, minha filha?
– Vou ver o mundo real, mãe. Quem sabe não descubro alguma
verdadeira novidade?
E a filha baterá a porta atrás de si, deixando o restante da família
assistindo em consternado silêncio às notícias nas quais eles perderam a
oportunidade de votar. Por fim o pai dirá, suspirando, como se encerrasse o
assunto:
– Essa juventude de hoje não tem jeito mesmo: cada dia mais alienada.

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VERDADE E CONSEQUÊNCIA

– Amor, veja isso aqui.


O tom de voz era o que Leninha usava quando encontrava algo
realmente interessante, então levantei a cabeça do travesseiro e espichei o
pescoço para olhar por cima do ombro dela. Não foi difícil ler as letras
garrafais na manchete do site:

O FIM DO MUNDO SERÁ NA PRÓXIMA QUINTA-FEIRA?

– Ah, não! Isso de novo? – reclamei.


– Dessa vez parece que é sério, bem.
– Da última vez você disse a mesma coisa, Leninha. Você precisa
parar de acreditar em qualquer besteira que vê na Internet.
– Não é besteira. Vai mesmo passar um cometa na quinta, eu vi na
tevê. E além do mais, de tanto falarem em fim do mundo, vai que alguma
hora alguém acerta...
Mas eu já havia mergulhado a cabeça de volta no travesseiro.
Durante os dias seguintes, não se falava em outra coisa. O cometa
recebeu a designação oficial de C/2020 F3, mas ficou mais conhecido como
Alétheia, graças a um estúpido concurso televisivo que foi vencido por uma
garotinha de mesmo nome. A previsão dos cientistas é que Alétheia passaria
pelo ponto mais próximo da estratosfera terrestre exatamente às 22:59 da
quinta-feira.
– Vamos assistir, bem? Vão transmitir tudo ao vivo.
Acho que Leninha já estaria fazendo as malas para ir ver a passagem
do cometa de perto, caso fosse em algum lugar menos distante e inóspito que
o oceano Pacífico. Como nesse horário não estaria passando nenhum jogo,

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concordei. Aquela história de cometa me dava um pouco nos nervos. Nem
tanto por conta da histeria toda sobre cataclismas e extinção global nas redes
sociais. O que me inquietava mesmo eram as notícias supostamente
tranquilizadoras da imprensa oficial. É que as autoridades estavam
enfatizando um pouco demais que não havia nada a temer. Os jornais
garantiam que a passagem do cometa seria apenas um belo espetáculo, se
chegasse a tanto. E nada mais que isso.
Mas o fato é que Alétheia era bem grandinho, com um núcleo de mais
de 15 quilômetros... para não falar da cauda com centenas de milhares de
quilômetros! Além do mais, sua órbita não periódica tornava quase tudo a
seu respeito uma perfeita incógnita. Aquela seria a sua primeira passagem
pela Terra – e, com quase toda certeza, também a última.
Na noite de quinta Leninha parecia criança na véspera de Natal. Fez
pipoca e comprou salgadinhos, refrigerante e sorvete. Desde as nove da noite
já estava grudada diante da tevê:
– Vem logo, amor! Já está passando o cometa!
– O que, esse trocinho de nada aí? – desdenhei. – Está na cara que isso
vai ser a maior decepção.
– Que nada, bem. O cometa está muito distante ainda. Só às onze da
noite é que ele vai alcançar a sua aproximação máxima da Terra.
Mas eu não fiquei muito convencido. Enfiando a mão na tigela de
pipoca, retruquei:
– No mínimo vai ser a mesma coisa de quando passou aquele cometa
Halley. Você viu a matéria que eu compartilhei? Fizeram o maior escarcéu,
que nem estão fazendo agora. Mas quando o cometa passou foi só uma
luzinha besta. Só estou avisando para você não ficar frustrada depois.
Nisso eu estava redondamente enganado. Alétheia acabou
proporcionando um show e tanto. A expectativa era de que o cometa apenas
tangenciasse a atmosfera terrestre e depois prosseguisse em sua trajetória

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solitária pelo espaço. Mas não foi isso que aconteceu. Algum sabichão deve
ter errado nos cálculos. Ou então, pensando bem, devem ter divulgado a
história dessa forma para evitar o pânico.
Seja como for, a explicação que os jornais deram no dia seguinte foi
que Alétheia interceptou a órbita da Terra em um ângulo um pouco mais
fechado que o previsto e, assim, acabou penetrando na atmosfera. O que nós
vimos pela tevê foi o pequeno ponto de luz subitamente se transformar em
um imenso clarão amarelo, que tomou conta da tela inteira, quando os gases
congelados no núcleo do cometa foram pulverizados pelo choque.
Foi mesmo algo impressionante. Dizem que o estrondo foi ouvido por
centenas e centenas de quilômetros.
Leninha ainda ficou hipnotizada pela tevê por quase uma hora. Depois
de escutar atentamente o que os comentaristas diziam e se certificar de que,
no final das contas, ninguém saíra ferido com a espetacular explosão de
Alétheia, ela voltou-se para mim, com os olhos lúbricos:
– Amor... ficar vendo esse cometa me deu uma vontade... adivinha o
que?
– Você eu não, sei, mas eu estou é morrendo de sono – respondi entre
dois bocejos. – Amanhã vou trabalhar cedo e já está muito tarde. Boa noite,
Leninha.
No que dependesse de mim, essa história de cometa acabaria por aí.
Mas é claro que o mesmo não poderia ser dito a respeito de Leninha.
– Oi, bem – saudou-me ela certa noite, quando eu estava chegando do
trabalho. Mas antes que eu pudesse dizer algo ela já foi perguntando: – Você
tem reparado no céu ultimamente?
Isso foi mais ou menos uma semana depois da explosão de Alétheia.
Fui para perto da janela espiar.
– O que é que tem o céu? Não estou vendo nada.

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– De noite não dá para perceber. É mais durante o dia, principalmente
no finalzinho da tarde. Reparou que o céu está ficando meio esverdeado? É
algo bem sutil, mas se você olhar com atenção dá para notar.
– Céu verde? Que história é essa, Leninha?
Então ela falou sobre os rumores que estavam circulando na Internet,
segundo os quais os gases resultantes da explosão estariam rapidamente se
dispersando pela atmosfera.
– Parece que algumas das substâncias que vieram no cometa são
totalmente desconhecidas aqui na Terra. E o pior é que ninguém sabe que
efeito essas substâncias podem ter nos seres humanos. Tem gente falando até
em Apocalipse Zumbi, bem. Já pensou?
– Isso não passa de um monte de baboseira, isso sim. Não está vendo
que é só invencionice da Internet? O jornal não falou nada sobre isso.
– Mas é claro. Todo mundo sabe que a tevê só transmite o que interessa
aos patrocinadores. A verdade está na Internet.
Achei melhor não insistir, até porque eu estava com fome e não queria
que o jantar atrasasse por conta daquela discussão maluca. Como Leninha
também não voltou a tocar no assunto, achei que agora sim era o fim da
história.
Ledo engano! A coisa levou um tempo ainda para acontecer, mais uma
ou duas semanas. Mas depois que começou... enfim, nada mais voltou a ser
como era antes.
E quando foi que começou? É difícil precisar um momento exato. Foi
como uma doença silenciosa, que vai tomando conta do corpo aos poucos:
uma pequena coceirinha na garganta, seguida por uma tosse renitente, e
então a febre alta, o catarro impregnado de sangue, o cheiro de pus e morte
se espalhando. Imagino que foi mais ou menos assim que aconteceu com a
terrível doença trazida pelo cometa. Devem ter ocorrido em todo o mundo
diversos sintomas de que algo não estava indo bem, triviais a princípio e

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ficando cada vez mais sérios a cada dia. A diferença foi que os sintomas não
se manifestaram no corpo, mas na mente.
Aqui no Brasil, o evento que deixou absolutamente claro para todos
que havia algo muito estranho acontecendo foi o discurso do Presidente. Foi
cerca de um mês e meio depois da explosão de Alétheia, quando quase
ninguém mais se lembrava da passagem do cometa. O Presidente fez um
pronunciamento ao vivo, logo antes do jornal da noite, transmitido por todos
os canais. O tema do discurso, a princípio, seria o início oficial do PNRR –
Programa Nacional de Recuperação de Rodovias, que, segundo se esperava,
geraria muitos empregos e reaqueceria a economia, em franca recessão há
muitos meses. Mas não foi bem sobre isso que o Presidente falou:
– Graças ao Programa, o populacho vai ficar feliz e satisfeito, achando
que suas vidas miseráveis vão finalmente começar a melhorar. Com essas
obras, e se a seleção não se sair tão mal na Copa do ano que vem, minha
reeleição está praticamente assegurada. Sem contar que, com a comissão que
estou levando das empreiteiras, vou garantir uma aposentadoria de rei até
para os meus tataranetos... Viva o parvo povo brasileiro, abestalhado e bunda
mole!
Nesse ponto a transmissão foi interrompida, sem maiores explicações.
Certamente algum assessor percebeu que nenhuma daquelas sábias palavras
presidenciais estava no plano. Mas aquele dia ainda guardava fortes emoções
para os telespectadores. Pois logo em seguida começou o jornal da noite,
com o âncora afirmando:
– Nós acabamos de receber uma orientação proibindo qualquer
comentário sobre o discurso do Presidente, feito agora há pouco. Em vez
disso, vamos apresentar muitas cenas de guerra, devastação natural e miséria
ao redor do mundo, para mostrar como os brasileiros são sortudos e têm que
dar graças a Deus.

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Nisso a apresentadora que fazia par com o jornalista principal
complementou:
– Mas antes vamos mostrar uma reportagem sobre as paralisações de
protesto que ocorreram hoje em diversas cidades do país. Como a posição da
emissora é contrária à greve, vamos enfatizar apenas o quanto as paralisações
estão prejudicando os cidadãos e atrasando a economia.
E o jornal seguiu assim por mais uns dez minutos, com os dois
apresentadores olhando horrorizados um para o outro e para as câmeras, sem
entender como estavam dizendo aquilo tudo e, ao mesmo tempo, incapazes
de dizer outra coisa além da verdade, a partir do momento em que abriam as
bocas. Não tardou para que a transmissão do jornal também fosse
interrompida. A exibição da novela foi antecipada, e depois dela começaram
a passar um enlatado americano após o outro. O jornal da madrugada não foi
exibido nesse dia. E nem nunca mais. Aliás, nenhum jornal ao vivo voltou a
ser transmitido por nenhuma emissora de tevê.
Nessa noite, eu e Leninha assistimos a tudo em um silêncio chocado.
Então ela falou:
– Aposto que o cometa tem algo a ver com isso.
Ela estava certa, mais uma vez. Ao pesquisar na Internet, fomos
descobrindo que Alétheia estava sendo considerado o grande responsável
pelo chamado vírus da verdade. Alguma substância liberada pela explosão,
ao que parece, estava afetando diretamente o cérebro de cada pessoa no
planeta, obrigando-a a dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a
verdade. Era como um surto muito específico da Síndrome de Asperger, em
escala planetária.
A princípio a epidemia foi saudada como uma boa nova. Muitos
celebraram o advento como o início de uma nova era de evolução espiritual
para a humanidade. No Brasil, especificamente, o malfadado discurso do
Presidente foi tomado como símbolo do fim da corrupção na política. Mas

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esse otimismo inicial não durou muito. Pois logo ficou evidente o quanto
cada pequeno aspecto da vida humana estava baseado na mentira.
Nos meses seguintes fomos tirando a prova disso, tanto nos grandes
esquemas quanto nos mínimos detalhes. As relações pessoais e profissionais
tornaram-se palco de inúmeros conflitos, chegando ao ponto de ficarem
insustentáveis, quando as pessoas passaram a dizer, aberta e
impiedosamente, tudo o que pensavam umas das outras.
Muitas profissões foram extintas da noite para o dia. A televisão ao
vivo mesmo, simplesmente deixou de existir, não apenas nos telejornais
como em qualquer tipo de programa. O risco era grande demais.
Atores e atrizes também ficaram desempregados. Aparentemente,
nosso cérebro não consegue discernir entre “representação” e “mentira”, e
isso decretou o fim do teatro, do cinema e das novelas da tevê, quando a
espécie humana se tornou incapaz de declamar uma única fala de
Shakespeare.
Como o impedimento de mentir não se restringia à fala, mas
igualmente à escrita, essa foi a última pá de cal na já moribunda literatura.
Muito poucos lamentaram essa perda, tornada insignificante pelo extermínio
em massa de toda e qualquer espécie de publicidade ou propaganda. As peças
publicitárias já existentes, assim como os velhos filmes e novelas,
continuaram sendo exibidas, mas todos sabiam que isso não poderia
continuar indefinidamente. Era como se estivéssemos em plena Idade Média,
e de repente a Igreja desaparecesse da face da Terra. Privadas de seus guias
morais e espirituais, que determinavam diariamente o que era bom e certo
fazer, e qual o mal a ser evitado, as pessoas começaram a se comportar de
forma cada vez mais errática e aberrante, acelerando o declínio e o caos
social.
Muito menos lamentado, mas igualmente sentido, foi o sumiço dos
políticos. Como não existe político que não precise falar em público, esta

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simples exigência levou a classe a um terrível impasse, que acabou
provocando a sua extinção. Certamente não faltou quem pensasse em
soluções como um projeto de lei que eximisse os políticos da obrigação de
falar em público, mas como apresentar tal projeto sem expor, oralmente e
por escrito, as intenções ocultas que o motivaram? E foi assim que todos os
políticos foram renunciando a seus cargos, desde os presidentes das
potências do primeiro mundo até os vereadores dos mais humildes
municípios do terceiro. E, detalhe curioso, todos simplesmente abandonaram
seus cargos, sem apresentar qualquer tipo de justificativa. Não poderiam
fazê-lo, e nem era necessário.
Abruptamente despojados de nossos valores e lideranças, não é de se
admirar que tenhamos regredido à barbárie em poucas semanas. Todos os
costumes e convenções sociais, cultivados ao longo de séculos de fingimento
e hipocrisia, de uma hora para outra foram arrancados de nós e jogados no
chão, pisoteados como lixo sem valor. E o pior de tudo foi a transformação
individual, tão radical e irreversível quanto as mudanças que chacoalhavam
o tecido social.
Ninguém podia mais contar a menor mentira que fosse para os outros.
Tampouco era possível mentir para si mesmo. O choque de realidade foi
devastador: muitos abandonaram seus empregos e famílias para vagar sem
destino, muitos cometeram suicídio, muitos ainda foram os que mataram
com requintes de crueldade seus entes queridos.
Eu também não escapei incólume. Pois me ouvi dizendo, para meu
horror e espanto, essas duras palavras para Leninha:
– Não sinto mais atração por você. Desde que você largou o emprego,
ficou desleixada, engordou, criou varizes. É um sacrifício toda vez que temos
que transar. Se não fosse pelos cachos que arranjo na rua, não sei como
aguentaria viver com você.
E Leninha não fez por menos:

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– Eu já desconfiava que você tinha outras mulheres. Eu é que nunca
traí você. Mas continuo gostando do Bernardo. Até hoje. É nele que eu penso
quase toda vez que estamos juntos.
E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Só por essas
palavras, dá para entender que Jesus não era casado.
As coisas não podiam piorar muito quando aconteceu a novidade. Em
todos os cantos do mundo começaram a aparecer grupos de pessoas vestidas
como astronautas, com trajes hermeticamente fechados e cilindros de
oxigênio nas costas. Logo elas estavam fazendo pronunciamentos – ao vivo!
– em diversos canais de tevê, e assim a sua história tornou-se rapidamente
conhecida.
Pouco antes da passagem de Alétheia, um seleto grupo formado pelos
mais ricos e poderosos recolheu-se em diversos bunkers estrategicamente
localizados em diversos países. De seus asilos protegidos, foram
acompanhando a rápida deterioração geral que acontecia aqui fora, enquanto
bebiam champanhe e degustavam seus canapés de caviar. Quando acharam
que era seguro, resolveram sair.
Todos somados, não chegavam a vinte mil, a população de uma cidade
pequena. Sua proposta era muito simples e clara: assumir o controle e
conduzir a humanidade na reconstrução do mundo.
E as boas notícias não paravam por aí: havia um bom punhado de
celebridades do cinema no grupo dos Intocados, como passaram a ser
chamados. Havia também uma meia dúzia de autores best-seller, assim como
alguns magnatas da publicidade. Agora seria possível reerguer os pilares da
civilização moderna.
Como seria de se esperar, os Intocados foram recebidos com alguma
desconfiança e muita inveja. Afinal, eles eram os únicos que podiam
continuar fingindo e enganando, em um mundo condenado a dizer sempre a
verdade. Antecipando-se às possíveis críticas, os políticos do grupo

44
avançaram de braços abertos, com o sorriso brilhando por trás do visor do
capacete de astronauta:
– Podem confiar em nós. Tudo o que queremos é ajudar vocês, ajudar
o mundo.
A vontade de acreditar era tanta, que no final não fez diferença se era
verdade ou não. É provável que os Intocados estivessem contando com isso.
Acabaram sendo aclamados como salvadores do mundo, em meio a um
fervor quase religioso.
Nada disso chegou a me interessar muito. Por essa época eu havia
descoberto que a verdade é, de fato, algo totalmente relativo. Pois tudo o que
eu disse para Leninha deixou de ser verdade no momento em que ela bateu
a porta de nosso apartamento atrás de si, para nunca mais voltar.

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A REDESCOBERTA DO BRASIL

inspirado em um sonho de Axel Guedes

No terceiro dia após o Juízo, começou a reconstrução. A Intendente se


fez bastante ocupada, organizando minuciosamente as estruturas causais que
dariam origem aos novos compostos astrais e corpos físicos. Até que chegou
a tarefa mais apreciada, que era conduzir a descida das almas-arquétipo que
forneceriam os moldes para os futuros viventes daquela terra.
A rampa foi montada às margens de uma praia outrora conhecida
como Porto Seguro, lugar simbólico e apropriado para o início do recomeço.
E assim vieram descendo as almas-arquétipo, novinhas em folha, cada qual
representando uma possibilidade de ação ou ocupação humana.
A Intendente assistia, satisfeita, examinando item por item em sua
lista. Foi quando notou uma alma-arquétipo que, tendo descido a rampa, foi
para a beira do mar e lá ficou, isolada das outras, contemplando as ondas
como se nada daquilo lhe dissesse respeito.
– Você está com algum problema? – perguntou a Intendente para a
alma solitária, em tom amoroso. – Por que não está assumindo seu posto
junto com as outras?
– Não sei para onde devo ir – respondeu a alma, acabrunhada. – Acho
que não tem lugar para mim no novo esquema das coisas.
– Espere um pouco – disse a Intendente, consultando seus
apontamentos. – Você é a alma do Político, não é mesmo?
– Sim, essa sou eu – concordou a alma.
A Intendente teve um gesto de comiseração.
– Mas olhe só para você. Não mudou nada desde o último ciclo. Como
espera tomar parte de forma adequada nos dias vindouros?

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– Não entendo – disse a alma, parecendo confusa. – Como eu poderia
mudar?
Pacientemente, a Intendente apontou algumas almas-arquétipo que
ainda desciam a rampa.
– Observe como todas estão transformadas, aprimoradas de alguma
forma. Veja o Médico, por exemplo. Está aprendendo que o ser humano é
uma unidade de energia psicofísica, e que todas as doenças têm sua origem
na alma. Ou então o Professor, que está descendo ao seu lado: já sabe que
ensinar é sobretudo aprender a ensinar e que nenhuma lição é melhor que o
próprio exemplo. Logo atrás vem o Sacerdote, que agora entende que a sua
missão é ajudar as pessoas a buscarem dentro de si mesmas o que é comum
a todas.
Após uma pausa, a Intendente acrescentou, suspirando:
– E você, no entanto...
– O que é que tem?
– Continua do mesmo jeito de antes, interessada apenas em seu próprio
benefício, em tirar vantagem de todas as situações e adquirir poder e
influência sobre os outros.
A alma do Político pareceu refletir por alguns instantes. Então disse,
tristemente:
– Não vejo como eu poderia me modificar.
– Como assim?
– Todos se aprimoraram em suas áreas, é certo. Mas na área que eu
represento não houve progresso. O Político dentro de cada um continua
querendo levar vantagem em tudo. Apesar de seus avanços individuais, o
Médico, o Sacerdote e o Professor, de modo geral, continuam visando a
melhoria de sua própria situação, acima do bem-estar da coletividade. Sendo
assim, como eu poderia evoluir? Continuo sendo quem sou, porque ninguém
transformou minha parcela dentro de si.

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A Intendente fitou em silêncio a alma do Político por um bom tempo.
Por fim, com um sorriso resignado, disse em voz altissonante:
– Todas as almas-arquétipo devem retornar agora mesmo para a
rampa.
Suspirando mais uma vez, falou baixinho, de si para si:
– De volta para a prancheta...

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ACIMA DE TODOS

Arnaldo Rocha hesita antes de entrar no gabinete, cuja porta


permanece ostensivamente aberta. Era mais do que sabido que o ministro
dispensava toda e qualquer formalidade, até mesmo aquela simples cortesia
de se bater à porta antes de entrar. Arnaldo, contudo, é muito cioso de suas
responsabilidades como secretário do Ministério de Assuntos Terrestres, e
não consegue sentir-se confortável com aquela intimidade. Parece-lhe um
abuso de confiança de sua parte, mesmo sendo Chico um velho e querido
amigo de longa data, desde quando os dois ainda estavam encarnados. Por
isso o secretário estacou indeciso na soleira, esperando ser notado.
Chico Xavier está de costas para a porta, de pé diante da janela
panorâmica. Por humildade, ele conserva a aparência franzina que teve em
sua última encarnação. Por humildade, sim, mas também por praticidade.
Caso se mostrasse em sua verdadeira estatura espiritual, seria difícil para um
interlocutor encará-lo sem ficar ofuscado. O ministro contempla, absorto, os
cambiantes cenários no planeta azul abaixo dele. A Terra permanece visível
da janela unicamente graças à sua vontade. Caso quisesse, o cenário exibido
seria o do céu astral, com suas cores reconfortantes e bem mais estáveis. De
seu gabinete, Chico pode ver ou não a Terra, conforme desejar. Já o
Ministério de Assuntos Terrestres, junto com a gigantesca cidade astral onde
está situado, é completamente indetectável aos olhares humanos ainda
envoltos sob o véu da carne.
Como o ministro não dá mostras de ter percebido sua presença, o
secretário não tem outro jeito além de se fazer notar.
– Dá licença, Chico. Mandou me chamar?

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Chico Xavier tem um leve sobressalto, como se tivesse sido arrancado
de profundas reflexões. Mas no instante seguinte já se dirige de braços
abertos para o visitante, exibindo no rosto o largo sorriso tão famoso:
– Meu querido Arnaldo! É muita gentileza sua ter atendido tão
rapidamente ao meu convite.
– Estou às suas ordens, ministro.
– Ora, deixe dessa cerimônia, ouviu? Eu pedi para falar com meu
amigo Arnaldo, não com o secretário do ministério. Pois é ao amigo que eu
pretendo pedir um favor muito delicado.
– Sabe que pode contar comigo – responde Arnaldo, impressionado
pelo tom grave adotado pelo ministro. – Seja o que for, é só falar.
– Não tenho dúvida disso, Arnaldo – Chico toma o outro pelo braço.
– Peço que me acompanhe até meu posto de observação.
Os dois caminham até o local diante da janela onde Chico estivera
antes. Ele continua:
– Estamos agora diretamente sobre o Brasil. Olhando para essa nossa
terra tão querida, me diga, Arnaldo: o que você vê?
Da altura em que os dois se encontram, muito além da estratosfera, são
particularmente nítidos os contornos da América do Sul, encravada entre o
oceano Pacífico e o Atlântico, em meio às voláteis nuvens que sobrevoam
tanto a terra quanto as águas. Entretanto os olhos do secretário são capazes
de divisar não apenas a matéria grosseira ao refletir a luz do sol, como
também as energias anímicas mais sutis, ao serem banhadas pela
luminescência astral. A região correspondente ao Brasil está tomada por
focos de congestionadas vibrações vermelho-escuras, como se imensas
fogueiras sanguinolentas consumissem o país. Arnaldo olha para Chico,
alarmado:
– O que está acontecendo? Parece que o Brasil está à beira de uma
guerra civil.

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Chico Xavier acena lentamente com a cabeça:
– O momento é mesmo extremamente desafiador. O Brasil acaba de
entrar no ano de 2016, em meio a uma grave crise política e social. Você
sabe como o tempo passa rápido lá embaixo, por isso precisamos escolher
com sabedoria o momento certo de interceder.
A expressão e o tom de voz de Arnaldo revelam sua consternação:
– Então a coisa chegou a esse ponto?
Chico assente novamente:
– Nesse momento, nossa intervenção se faz não apenas necessária,
mas verdadeiramente crucial. A Terra está chegando ao ponto mais crítico
da Transição Planetária. Estamos muito próximos da Data Limite. E o Brasil,
como coração do mundo e pátria do evangelho, tem uma missão
importantíssima a cumprir nos dias que virão. Qualquer tropeço agora pode
acarretar catástrofes incalculáveis, atrasando em milhares de anos o plano
cósmico de elevação espiritual da humanidade.
– Mas qual é a situação, exatamente? – quer saber o secretário, que já
não está mais aguentando o suspense. – E o que é que eu posso fazer para
lhe ajudar nisso, Chico?
O ministro faz sinal para que se sentem. Ele mesmo senta-se à sua
mesa de trabalho, enquanto o amigo ocupa uma das cadeiras defronte. A
parca mobília existente no aposento é simples e funcional. Como tudo por
ali, a materialização ou desmaterialização daqueles objetos depende
unicamente da força de vontade do ocupante do gabinete.
– O Brasil está às voltas com um processo de impeachment da
presidente eleita – diz o ministro. – Esse processo está sendo conduzido de
forma desleal, movido por interesses escusos de antigas oligarquias, que
viram seu poderio momentaneamente enfraquecido e seus privilégios
ameaçados. Agravando por meios artificiais uma recessão que aflige o país,
graças à cumplicidade da maioria esmagadora da classe política e dos meios

51
de comunicação, esse pequeno grupo de senhores feudais conseguiu
fomentar uma intensa animosidade contra a figura da presidente Dilma. E é
por isso que o processo de impeachment, embora seja muito frágil do ponto
de vista jurídico, obteve uma fervorosa adesão popular.
Arnaldo aproveita uma pausa do ministro para indagar:
– Então a nossa meta é impedir o impeachment?
Chico Xavier sorri tristemente:
– Não, meu amigo. Essa sequência de eventos já atingiu a massa
crítica, sendo altamente improvável que qualquer circunstância externa
possa alterar o desenlace dos acontecimentos. Dilma será deposta dentro de
alguns meses.
– Mas então... – balbucia o secretário, aturdido.
– A queda de Dilma não pode ser evitada. Mas o que de fato
precisamos impedir é que a segunda parte dessa conspiração tenha êxito, com
as velhas oligarquias assumindo novamente o controle total sobre o país. Se
isso acontecer, os brasileiros serão jogados em um marasmo de desânimo e
ceticismo, do qual dificilmente conseguirão sair tão cedo. E assim não terão
como desempenhar a contento o papel que lhes reserva a história mundial.
– E como é que nós vamos impedir isso, Chico? – pergunta Arnaldo,
cada vez mais inquieto. – O que você espera que eu faça?
Chico Xavier fita o amigo por uns instantes, em amorosa
consideração. Por fim diz:
– Meu caro amigo. O que vou lhe pedir é simples, mas não será nada
fácil para você atender a esse pedido.
Arnaldo Rocha estufa o peito, a um só tempo enternecido pela
consideração do amigo e com os brios feridos pela aparente falta de
confiança do ministro:
– Pode falar o que você quer que eu faça, Chico. Seja o que for,
considere a missão cumprida.

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– Eu não esperaria nada diferente vindo de você, querido Arnaldo –
devolve Chico, com um sorriso brincando nos lábios. Então suas feições se
endurecem. – Eu quero que você vá à Terra e visite determinados centros
espíritas, já previamente escolhidos.
– Sim – concorda Arnaldo, inclinando-se para a frente da cadeira.
– Chegando lá, você deve transmitir a seguinte mensagem para os
médiuns: a espiritualidade está sugerindo o nome do futuro presidente do
Brasil: Jair Messias Bolsonaro.
– Um messias?
– Não é bem o que você está pensando. Venha – diz Chico, estendendo
as mãos para tocar as mãos do outro. – Vou lhe atualizar a respeito dessa
pessoa.
O contato dura pouco mais de um segundo, e então Arnaldo Rocha
retira bruscamente suas mãos, como se o toque de Chico tivesse lhe
proporcionado o choque de uma intensa dor emocional.
– Não estou entendendo, Chico – gagueja ele. – Esse Jair Bolsonaro,
pelo que captei agora, é um candidato perfeito para o Umbral, não para a
presidência do Brasil! A mente dele parece um covil de escorpiões. Como
você pode querer que uma pessoa nesse estado de ignorância assuma o
governo do país?
– Não sou eu que desejo isso – respondeu o ministro, muito sério. – É
a espiritualidade que está sugerindo. Eu bem lhe disse que a tarefa não seria
fácil. Entenderei perfeitamente se você recusar.
– Ninguém está falando em desistir – apressa-se em retrucar Arnaldo,
ofendido. – Eu disse que iria cumprir a missão, e é o que farei. Só lhe peço
que me ajude a compreender esse enigma, Chico. Como a espiritualidade
pode sugerir algo tão sombrio e sinistro para o Brasil?
Mas o ministro já está se levantando, como se não houvesse escutado
a súplica do outro.

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– Estou um pouco fatigado de permanecer confinado nesse gabinete.
Incomoda-se em me acompanhar durante um pequeno passeio?
Após um tempo de caminhada relativamente curto – e nada é mais
relativo que o tempo em uma cidade astral – os dois chegam a um amplo
salão com diversas fileiras de leitos, a se perder de vista. Cada leito é
ocupado por uma pessoa profundamente adormecida. Com um ar atarefado,
homens e mulheres vestidos de branco circulam pelos corredores formados
pelas camas dos enfermos.
– Como é bonito o trabalho que é feito aqui – diz Chico. – Sempre que
posso, venho me informar do estado dos pacientes, das novas chegadas e das
altas.
– Já eu confesso que esta é a primeira vez que volto à enfermaria desde
que fui liberado pelos médicos – revela Arnaldo, um tanto constrangido.
O ministro faz um sinal com a mão, indicando que aquilo não tem
importância. E então continua:
– Note como cada um dos milhares de pacientes desta enfermaria
parece estar dormindo na mais perfeita paz. É uma visão tranquilizadora, não
é mesmo? Contudo, se interrompêssemos o estado de animação suspensa no
qual se encontram e permitíssemos que dessem vazão às suas emoções
latentes, nos depararíamos com um cenário de horror indizível, repleto de
choro e ranger de dentes.
– É verdade – concordou o secretário. – A maioria das pessoas vem
para cá em condições lastimáveis, tanto as que são encaminhadas do Umbral
quanto as que chegam logo após o desencarne.
– É natural que assim seja. Afinal, todos que estão aqui é porque estão
doentes – apoiando a mão no ombro do amigo, Chico prossegue. – Você
alguma vez já se perguntou por que o bom Deus inventou a doença?
Arnaldo responde cautelosamente, como um estudante pego de
surpresa em uma sabatina:

54
– Pelo que sei, a doença é o resultado de transgressões às leis de Deus
e da Natureza.
– Muito bem colocado, meu amigo – nisso o ministro devolve a
saudação de um médico que o havia reconhecido e vem cumprimentá-lo. –
Além disso, acrescentaria que toda enfermidade traz sempre uma
oportunidade de aprendizado. Por exemplo, uma pessoa com pedra nos rins
aprende que deve passar a beber mais água, enquanto uma pessoa com
gastrite pode descobrir que deve evitar os excessos, tanto de condimentos
como de preocupações.
Então, dando um tapinha amistoso no braço do secretário, ele propõe
que continuem caminhando. Em seguida diz:
– Já faz um bom tempo que o Brasil se assemelha, coletivamente, a
essas pessoas de nossa enfermaria. À primeira vista, parece realmente um
gigante deitado em berço esplêndido. Por baixo da superfície, porém,
agitam-se conflitos e tensões quase insuperáveis. Não se esqueça de que o
Brasil foi fundado a partir do degredo punitivo de celerados portugueses,
seguindo-se a desapropriação e extermínio de indígenas e a violação e
exploração de negros.
– Praticamente todas as nações do mundo carregam histórias
semelhantes, de ódio e violência – arrisca-se a interpor o secretário.
– Isso lá é bem verdade, meu amigo. O que torna o Brasil diferente é
justamente uma vocação inata à conciliação dos opostos, à confraternização
dos diferentes, à mistura generalizada. Essa mesma vocação mestiça, que em
um país de dimensões continentais capacita os brasileiros a desempenharem
seu futuro papel de destaque como guias dos novos tempos, presentemente é
causa do agravamento da enfermidade nacional, cujos sintomas tivemos a
oportunidade de observar agora há pouco, da janela de meu gabinete.
– Não estou bem certo de estar compreendendo, Chico.

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– O problema do Brasil é que os conflitos são abafados, mas não
resolvidos. Por exemplo, enquanto que em outros países como os Estados
Unidos as tensões raciais sempre foram explícitas, os brasileiros
alimentavam a ilusão de que no Brasil não existe racismo. E esse mesmo
fenômeno de abafamento das tensões vinha ocorrendo nas questões de
gênero, classe social e em todas as áreas passíveis de conflito. Por um tempo
tudo correu aparentemente bem, enquanto o negro, a mulher, o homossexual
e o pobre resignaram-se à condição de minorias oprimidas. Recentemente,
contudo, o Brasil foi palco de uma revolução de costumes sem precedentes,
que legitimou e empoderou as reinvindicações de igualdade de direitos
desses segmentos, que até então sequer eram consideradas.
– Mas isso foi uma coisa boa, não foi?
– Claro que foi, meu querido. O problema é que toda essa
transformação social não foi acompanhada por uma correspondente
transformação de consciência. Da noite para o dia, as pessoas se viram
obrigadas a respeitar, pela pressão social ou pela força da lei, as expressões
do feminismo, das culturas de matriz africana, dos gays, lésbicas e
transgêneros. Mas toda essa tolerância e liberalidade existiram apenas na
superfície, na fachada. Lá no fundo, no íntimo de seus corações, boa parte
das pessoas continuou sendo machista, racista, homofóbica, elitista. Para
acirrar ainda mais essas tensões internas, houve muitos exageros e
descalabros nas manifestações de liberdade recém-conquistada desses
segmentos. Ativistas do feminismo e do movimento negro incentivaram
expressões movidas pelo puro ódio e ressentimento, enquanto o movimento
GLS transformou-se em LGBT, excluindo os simpatizantes de suas fileiras
e adotando um discurso mais aguerrido e menos inclusivo. Todas essas
manifestações de hostilidade, por compreensíveis que sejam, tiveram como
resultado principalmente fomentar o ódio e a intolerância que já existiam

56
anteriormente, justificando, aos olhos dos preconceituosos, seus
posicionamentos obtusos.
Os dois haviam chegado a um outro salão amplo, semelhante à
enfermaria, com incontáveis fileiras de leitos ocupados por pessoas
adormecidas. De diferente, apenas dois detalhes: a ausência do pessoal
médico e a iluminação ambiente, mais difusa e mortiça.
– Ah! A ala das reencarnações – diz Chico Xavier, deixando-se
permanecer em contemplativo silêncio por alguns instantes. – Também
costumo vir aqui com frequência. Não por gosto, como nas visitas que faço
à enfermaria, mas por um senso de dever. Sempre recebo com alegria aos
que chegam, mas não consigo evitar uma pontada de aflição pelos que estão
prestes a voltar para a Terra.
Dito isso, fita o amigo com tristeza e ternura, antes de acrescentar:
– O que nos traz ao difícil pedido que lhe fiz, meu caro Arnaldo.
– Já disse que pode contar comigo – responde o outro prontamente. –
Tenha certeza de que não vou hesitar ao cumprir o que se espera de mim. Só
não consegui entender ainda como é que esse tal Bolsonaro vai poder ajudar
na confusão pela qual o Brasil está passando. Pelo pouco que você me
mostrou do sujeito, vai ser como usar gasolina para tentar apagar um fogo.
O ministro joga a cabeça para trás, dando uma sonora risada.
– Essa é uma imagem excepcionalmente adequada, Arnaldo.
Intuitivamente, você captou a essência da situação. Talvez saiba que, em
alguns casos excepcionais, os bombeiros combatem um incêndio
aumentando a intensidade das chamas, até que consumam todo o oxigênio
disponível no recinto. É o que se poderia chamar de combater fogo com fogo.
Chico indica ao amigo que deseja retomar o passeio, e diz:
– O Brasil sofre com a intolerância, mas não sabe que é intolerante.
Sofre com o machismo, mas considera normal ser machista. Sofre com o
racismo, mas ignora que é racista. Sofre com a homofobia, mas ainda nem

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entendeu direito o que vem a ser isso. E aí é que entra o Jair Messias
Bolsonaro. Ele foi escolhido pela espiritualidade por possuir um raro talento:
o de ser totalmente inconsciente de sua própria ignorância, preconceito e
mesquinhez. Ao expressar sem restrições o seu lado mais vergonhoso e
sombrio, ele atua como um poderoso agente catalisador no inconsciente
coletivo. A autoridade emanada por ele glamouriza a ignorância, legitima o
preconceito, enobrece a mesquinhez. Com a ajuda de Bolsonaro, as pessoas
vão começar a gritar pelas ruas coisas que até então tinham vergonha sequer
de pensar. E nesse ato de gritar, é a minha esperança, essas pessoas talvez
consigam por fim ouvir a si mesmas, escutar o que elas próprias estão
dizendo. E só a partir daí é que a tão almejada transformação de consciência
será possível. Só somos capazes de transformar aquilo que percebemos como
sendo realidade. O Brasil só vai deixar de ser racista quando reconhecer o
próprio racismo.
Arnaldo Rocha leva a mão ao queixo e, de tão compenetrado,
interrompe seus passos:
– Realmente, Chico, com você explicando assim, até que faz sentido.
Sinto-me quase pronto para a missão. Só não consegui concatenar ainda uma
coisa: por que devo levar essa mensagem de apoio a Bolsonaro apenas para
os centros espíritas? Por que apenas o kardecismo será submetido a essa dura
provação espiritual?
– Mas quem foi que disse isso, Arnaldo? – Chico Xavier balançou a
cabeça repetidas vezes, com veemência. – Você está sendo enviado para
centros espíritas pelo simples motivo de ter sido espírita em sua encarnação
mais recente. Outros agentes estão sendo recrutados para enviar mensagens
semelhantes a cada uma das religiões praticadas no Brasil.
O secretário responde, desconcertado:
– Essa operação é muito maior do que eu imaginava.
– Pode ter certeza disso, meu amigo.

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– Mas qual é o propósito dessa movimentação toda no campo
espiritual? Por que não deixar cada pessoa simplesmente decidir por si
mesma em quem irá votar?
– Muito bem observado, caro Arnaldo. Mais uma vez, você dá mostras
de estar à altura da tarefa que lhe foi assinalada.
Os dois já estão quase deixando a ala da reencarnação. Chico volta a
caminhar e, após um instante, o secretário posta-se ao seu lado.
– A questão central é justamente essa – prossegue o ministro. – Cada
um deve ser responsável por suas próprias escolhas. Na nova era que se
aproxima, não haverá mais lugar para pastores determinando arbitrariamente
o caminho que o rebanho irá seguir. Cada pessoa deve se sentir dona de seus
próprios passos. Contudo a grande maioria ainda está mal-acostumada,
dependente de líderes, viciada em heróis fictícios de sua própria invenção.
Preferem seguir sem pensar a tudo o que diz o pastor, o sacerdote, o general,
o líder sindical, a arcar com o peso de tomar suas próprias decisões.
– Isso acontece mesmo – assente Arnaldo.
– E é isso o que torna necessário esse rude teste proposto pela
espiritualidade. Em cada igreja, templo ou terreiro do Brasil, assim como nas
principais instituições brasileiras, haverá figuras de autoridade proclamando
Bolsonaro como um ungido de Deus, um escolhido pelas forças morais e
espirituais do país. O toque sutil é que isso não deixa de ser verdade, mas
não do jeito que as pessoas esperam. Pois elas serão confrontadas com um
sujeito iletrado, embrutecido e arrogante, que lhes será apresentado como a
personificação da sabedoria, da honradez e da moral. Algumas pessoas,
espero, conseguirão perceber e evitar a armadilha a tempo. Mas a maior parte
delas, é o meu receio, irá abraçar o engodo sem pensar duas vezes. E é assim
que, em nome do patriotismo, serão subservientes a potências estrangeiras.
Em defesa dos bons costumes, defraudarão a cultura e as artes. Na luta contra

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o comunismo, empobrecerão a si mesmas e aos seus vizinhos. E pelo amor
de Cristo, torturarão, mutilarão e cometerão sangrentos assassínios.
– Mas isso é terrível, Chico!
– O caminho da espiritualidade nunca é fácil de ser trilhado.
– Tem razão – e Arnaldo infla o peito, decidido. – Estou pronto para
descer à Terra, Chico. Gratidão por confiar em mim para missão tão
importante.
Não por acaso, os dois acabam de adentrar na área de teletransporte
mediúnico. Pela conveniência das convenções, o dispositivo guarda vaga
semelhança com um elevador terrestre.
– Boa viagem, querido amigo – diz o ministro, à guisa de despedida.
– Meimei ficará muito orgulhosa de você.
– Mas como ela poderia ficar sabendo de minhas andanças? –
questiona o outro, ajustando os equipamentos necessários para o salto. –
Afinal foi você mesmo quem me informou que Meimei está encarnada,
auxiliando o jovem Emmanuel em sua nova etapa.
– Pois do mesmo modo que transmiti a você notícias de sua querida,
darei a ela notícias suas – replica Chico, sorridente. – Ou já esqueceu que
dentro em breve devo apresentar-me a Emmanuel, desta vez estando eu do
lado de cá da vida e ele entre os encarnados?
– É mesmo! Com tanta novidade que você me contou hoje, acabei de
fato esquecendo. Imagino que você deve estar ansioso para reencontrar seu
antigo mentor.
– Deveras, meu amigo. Para ser sincero, já estou um pouco enjoado
desse trabalho burocrático no ministério. Além do mais, cá entre nós, não
vejo a hora de dar o troco a Emmanuel de algumas pegadinhas que ele
aprontou comigo.
Arnaldo ri gostosamente, confirmando:

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– Realmente, Chico! Lembro que sofri junto com você em algumas
delas, como naquelas férias que passamos em Angra dos Reis...
O ministro acena afetuosamente para o amigo, antes que sua imagem
evapore completamente. Então diz de si para si, diante da câmara de
transporte vazia:
– O caminho da espiritualidade não é fácil, mas só vale mesmo a pena
enquanto puder ser trilhado com alegria.

61
Conheça também outras obras do mesmo autor:

FAVELA GÓTICA
https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

O SINCRONICÍDIO
https://caligo.lojaintegrada.com.br/o-sincronicidio-fabio-shiva

DIÁRIO DE UM IMAGO: contos e causos de uma banda underground


https://www.amazon.com.br/dp/B07Z5CBTQ3

ANUNNAKI – Mensageiros do Vento


https://youtu.be/bBkdLzya3B4

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LABIRINTO CIRCULAR
https://www.wattpad.com/story/146687272-labirinto-circular

ISSO TUDO É MUITO RARO


https://www.wattpad.com/story/146683456-isso-tudo-%C3%A9-muito-raro

MANIFESTO – Mensageiros do Vento


http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM


http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

POESIA DE BOTÃO
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