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Conheça as cidades fantasmas

pelo mundo
A expansão contínua dos grandes centros urbanos eclipsa um movimento que vai
muito além do êxodo rural: o encolhimento ou até mesmo desaparecimento de
cidades. Um fenômeno antigo, mas com diferentes causas

N° Edição: 531
Texto: Ana Carolina Nunes
07/02/2020

Cenário de abandono em Detroit (EUA): a capital da indústria


automobilística luta para sobreviver (Foto: iStockphoto)

O futuro é urbano. Segundo uma projeção da ONU, até 2050, dois terços
da população mundial viverão nas cidades. No Brasil, esse índice deve
atingir 90% já na próxima década. Enquanto muitas cidades incham,
pequenos centros urbanos e povoações rurais veem sua população cair a
zero, ou quase isso.

O fenômeno não atinge apenas povoados. A americana Detroit, berço da


General Motors, hoje é o retrato mais famoso da decadência de uma
cidade. No auge da indústria automobilística, ali moravam 2 milhões de
pessoas. Atualmente, apenas 700 mil habitantes resistem lá em meio à
penúria econômica, que derruba o mercado imobiliário e infla as taxas de
violência. A vizinha Flint passou pelo mesmo drama ao ver sua população
diminuir mais de 65%.

As mudanças causadas pelo encolhimento representam não só um desafio


econômico (reduzem a arrecadação de impostos e os repasses federais),
mas um problema social. “Não é só a perda econômica, há uma perda
moral”, explica o urbanista Nestor Razente, professor da Universidade
Estadual de Londrina. “Ao ver notícias sobre o tema, os próprios
empresários deixam de investir naquele local. Cria-se um estado de ânimo
geral coletivo de abatimento, especialmente para os jovens, que precisam
de uma expectativa.”

Restos de Fordlândia, o empreendimento (Foto: Alex Albino)

Estudioso de casos de cidades fantasmas no mundo, Razente acaba de


lançar o livro Povoações Abandonadas no Brasil (Editora Eduel), no qual
conta a história de nove centros urbanos brasileiros que desapareceram.
“A academia ainda tenta entender o fenômeno das cidades fantasmas; no
Brasil há pouca literatura sobre o tema”, afirma.
Fordlândia, no Pará, um dos casos brasileiros relatados no livro, já foi
símbolo do poder da indústria e do crescimento que ela impulsiona. O
empresário americano Henry Ford pensou no local como um polo
agroindustrial de exploração de látex para a produção de borracha
destinada aos pneus. Erros crassos de projeto levaram ao fracasso da
ideia e o local hoje acumula ruínas e história. Só restou o nome famoso,
do qual a vizinha Aveiro se apropriou.

Casos como os de Fordlândia, Detroit e outras cidades afetadas pelo


declínio econômico podem deflagrar a reavaliação do urbanismo hoje.
Estudiosos do tema habituaram-se a pensar as cidades apenas crescendo
e nunca encolhendo, e o fenômeno talvez leve a academia e os governos
a rever padrões de infraestrutura urbana e ações de políticas públicas.

Fenômeno antigo

Nem sempre a economia explica o declínio populacional. Esse


encolhimento e desaparecimento de cidades existe há muito tempo, em
especial na Europa. A peste negra no século 14, por exemplo, não só
matou um terço da população do Velho Continente, mas levou outros
milhares a migrar. As muitas guerras também ora mataram, ora forçaram
populações a mudar-se.

Até o fim de conflitos foi fator motivador. Logo após a dissolução da União
Soviética e a queda do Muro de Berlim, houve uma corrida de habitantes
do leste europeu e da Alemanha Oriental para áreas então do lado
ocidental, até mesmo por conta de uma curiosidade represada. Partes da
Polônia e o sul da Bósnia são as áreas mais emblemáticas disso. Os
maiores exemplos europeus da tendência de encolhimento urbano
atualmente são aldeias portuguesas, pueblos espanhóis e vilarejos
italianos.
A destruída Epecuén, na Argentina, depois da inundação sofrida em 1985
(Foto: iStockphoto)

Em Portugal, a explosão do turismo no Algarve (sul do país) e a eliminação


de barreiras no continente com a consolidação da União Europeia atraíram
boa parte dos jovens do norte do país. Os mais velhos ficam, mas por
tempo limitado. Na Espanha, calcula-se que, desde o pós-guerra, cerca
de 3.500 povoados foram abandonados. É um processo de décadas,
iniciado com a fuga das áreas rurais para zonas urbanas e reforçado por
outros fatores ao longo dos anos.

Assim como em Portugal, os vilarejos espanhóis perderam seus jovens


para regiões mais atrativas econômica e socialmente. A venda desses
povoados virou negócio, com anúncios nos classificados de jornal que vão
de casas a vilas inteiras. As ofertas começam em € 1. Os governos
regionais estão criando programas para manter essas localidades, com a
promoção do comércio entre elas, numa tentativa de preservar aqueles
que ficaram.

Uma área no centro-leste da Espanha foi apelidada de “Lapônia do sul”


por conta de sua baixa densidade demográfica: menos de oito habitantes
por quilômetro quadrado. A taxa de envelhecimento local é uma das mais
altas da Europa, com 32% da população com mais de 65 anos e 7% com
menos de 15, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). O quadro
levou à criação do projeto Serranía Celtibérica, para pressionar por mais
políticas públicas para a região e incentivar a população a ficar ou atrair
pessoas de fora para lá.

A causa desse “desmanche” não pode ser vista apenas como demográfica
(apesar da redução dos núcleos familiares), mas de planejamento, uma
vez que se avalia que faltam perspectivas para os jovens que ficam. Já na
Itália, um projeto incentiva a ida de refugiados que chegam ao litoral sul
do país como uma tentativa de repovoar as vilas. Mas a estratégia pode
ter efeito temporário, já que os refugiados tendem a voltar a seus países
quando – e se – o cenário melhorar.

Fascínio da destruição

Até meados dos anos 1980, Epecuén, ao sul de Buenos Aires, era um
próspero balneário às margens de um lago de águas salgadas com
propriedades terapêuticas. Em 1985, após um raro fenômeno climático, o
lago transbordou e inundou toda a cidade. Por ironia do destino, Epecuén
voltou a ser destino turístico justamente pelo cenário de destruição que
surgiu após a água retroceder, em 2009.

As construções corroídas pelo sal e pela água são a atração agora. O


mesmo se passa em Airão Velho (AM) ou Biribiri (MG), cuja principal
atração turística hoje é a mata crescendo em meio às ruínas da
cidadezinha. “As ruínas estão lá, como testemunha e fragmentos do
passado; não têm um significado histórico, ou um marco, mas as pessoas
vão para ver isso”, relata Nestor Razente.
Ruínas de Airão Velho (AM): a mata crescendo em meio às construções
é o que atrai os turistas (Foto: Nestor Razente)
O turismo, aliás, pode ser uma salvação para as cidades fantasmas.
Muitos dos pueblos espanhóis têm visto a vida voltar por meio de spas,
estâncias naturais ou passeios rurais que agora ocupam a agora
reformada estrutura do local. Kayakoy, na Turquia, viu suas ruínas serem
ocupadas por endinheirados ingleses e hoje é um concorrido destino
turístico.

O interessado em comprar imóveis nos pueblos espanhóis deve ficar


atento, alerta Razente. As ofertas podem ser atrativas, mas há vários
outros investimentos necessários antes de fazer a mudança. “A burocracia
é enorme. Tem de passar por autoridades de conservação histórica, tem
a mão de obra para recuperar as construções.

Você paga € 50 mil, mas, no final, o custo total pode ser dez vezes maior.”
Há esperança para as cidades que estão minguando? Para Razente, a
resposta só virá mesmo com o tempo. “Alguns pesquisadores acham que
isso é um ciclo longo que vai se reverter, mas qual a longevidade desse
ciclo? Outros, como os franceses, acham que é um processo natural e
resta apenas aceitar”, afirma.

Fonte: https://www.revistaplaneta.com.br/cidades-fantasmas/