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DANO MORAL COLETIVO

CAPÍTULO I

Responsabilidade Civil

A noção de responsabilidade civil pode ser conceituada como a forma e


o anseio de reparar um dano. Ao ocorrer um prejuízo material ou moral
ocasionado pela conduta de um agente, argui-se a necessidade do
restabelecimento da vítima à situação anterior à lesão. Desta ofensa nasce a
tutela jurídica para a reparação do dano, ou seja a obrigação de reparar um
prejuízo causado pela conduta de um agente provém da violação de um dever
jurídico preexistente, onde se advém a responsabilidade
civil, surgindo uma obrigação de indenizar.
Segundo o doutrinador Sérgio Cavalieri Filho:
Entende-se, assim, por dever jurídico a conduta externa
de uma pessoa imposta pelo Direito Positivo por exigência da
convivência social. Não se trata de simples conselho,
advertência ou recomendação, mas de uma ordem ou comando
dirigido à inteligência e à vontade dos indivíduos, de sorte que
impor deveres jurídicos importa criar obrigações. (CAVALIERI
FILHO, 2008, p. 01)

De acordo com o doutrinador a compreensão da conduta causadora de


dano e da consequente obrigação de indenizar é a própria responsabilidade
civil.
O próprio Sérgio Cavalieri Filho também aponta as principais conclusões
sobre a relação do dever jurídico com a responsabilidade civil:

Primeira: não há responsabilidade, em qualquer


modalidade, sem violação de dever jurídico preexistente, uma
vez que responsabilidade pressupõe o descumprimento de uma
obrigação. Segunda: para se identificar o responsável é
necessário precisar o dever jurídico violado e quem o
descumpriu. (CAVALIERI FILHO, 2008, p. 05)

O art. 186 do Código Civil, nos traz o conceito estrito de ato ilícito:
“Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência,
violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete
ato ilícito”.

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Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito


que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites
impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé
ou pelos bons costumes.

Os pressupostos comuns da responsabilidade civil, tanto


na modalidade subjetiva como na objetiva, são: a conduta, nexo
causal e dano.
Em consonância com essa evolução da responsabilidade civil e seus
pressupostos, a CRFB/88 vigente lembra sobre a reparação por dano moral no
art. 5º, incisos
V e X , que tem especial importância para este trabalho.
O dano moral, de acordo com a Súmula 37 do Superior Tribunal de
Justiça, é cumulável com a indenização por dano material, proveniente do
mesmo fato. (STJ, DJ 17.03.1992)
A tutela desses interesses difusos e coletivos, está no art. 6º, inc. VI do
Código de Defesa do Consumidor:
“Art. 6º São direitos básicos do consumidor: VI – a efetiva
prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais,
individuais, coletivos difusos”.

Como regra geral, a exceção, prevista no art. 6º, inc. VIII do Código de
Direito do Consumidor, dispõe sobre a possibilidade de inversão do ônus da
prova “quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiência”.
O art. 81 do Código de Defesa do Consumidor, em que a própria lei
estabelece a conceituação de direitos individuais homogêneos, direitos difusos
e direitos coletivos.
Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos
consumidores e das vítimas poderá ser exercida em juízo
individualmente, ou a título coletivo. Parágrafo único. A defesa
coletiva será exercida quando se tratar de:

I – interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos


deste código, os transindividuais, de natureza indivisível, de que
sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por
circunstâncias de fato;

II – interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para


efeitos deste código, os transindividuais, de natureza indivisível
de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas
entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base;

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III – interesses ou direitos individuais homogêneos, assim


entendidos os decorrentes de origem comum.

O informativo 418 do STJ, traz à colação discussão onde se afirmou a


possibilidade de extensão das normas de direito consumidor para a
responsabilidade civil ambiental. Veja-se:

DANO. MEIO AMBIENTE. PROVA. INVERSÃO.


Constatada a relação interdisciplinar entre as normas de
proteção ao consumidor e as de defesa dos direitos
coletivos nas ações civis por danos ambientais, o caráter
público e coletivo do bem jurídico tutelado (e não a
hipossuficiência do autor da demanda em relação ao réu)
impõe a extensão de algumas regras de proteção dos
direitos do consumidor ao autor daquela ação, pois ao final
busca-se resguardar (e muitas vezes reparar) patrimônio
público de uso coletivo. Dessa forma, a aplicação do
princípio da precaução pressupõe a inversão do ônus
probatório: compete a quem se imputa a pecha de ser,
supostamente, o promotor do dano ambiental a
comprovação de que não o causou ou de que não é
potencialmente lesiva a substância lançada no ambiente.
(...). (Informativo 418/STJ. Resp 1.060.753-SP, Rel. Min.
Eliana Calmon, julgado em 01/12/2009)
No âmbito do Direito Internacional, a Declaração do Rio de Janeiro de
1992 prevê, de acordo com o Princípio 13, que os Estados deverão
desenvolver legislação nacional relativa à responsabilidade e à indenização
das vítimas da poluição e outros danos ambientais. Os Estados deverão, ainda,
cooperar de maneira rápida e mais decidida na elaboração de normas
internacionais sobre a responsabilidade e a indenização por efeitos adversos
advindos dos danos ambientais causados por atividades realizadas dentro de
sua jurisdição, ou seu controle, em zonas fora de sua jurisdição.
O artigo 543-C do Código de Processo Civil: a) a responsabilidade por
dano ambiental é objetiva, informada pela teoria do risco integral, sendo o nexo
de causalidade o fator aglutinante que permite que o risco se integre na
unidade do ato, sendo descabida a invocação, pela empresa responsável
pelo dano ambiental, de excludentes ..
Uma das mais recentes inovações da jurisprudência do Superior
Tribunal de Justiça (STJ) em direito ambiental, o princípio in dubio pro
natura tem sido usado como fundamento na solução de conflitos e na
interpretação das leis que regem a matéria no Brasil. Em alguns casos, o

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enfoque dado pelo tribunal é na precaução; em outros, o preceito é aplicado


como ferramenta de facilitação do acesso à Justiça, ou ainda como técnica de
proteção do vulnerável na produção de provas.
No dano ambiental, assim exposto, a regra é a responsabilidade
civil objetiva, na qual aquele que através de sua atividade cria um risco
de dano para terceiro deve ser obrigado a repará-lo, ainda que sua atividade e
seu comportamento sejam isentos de culpa.

CAPÍTULO II

Dano moral ambiental

Também amparada pelo princípio in dubio pro natura, em 2013, a


Segunda Turma do STJ estabeleceu que é possível condenar o responsável
pela degradação ambiental ao pagamento de indenização relativa ao dano
extrapatrimonial ou dano moral coletivo. Em um julgamento, o colegiado
confirmou acórdão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que condenou três
empresas em R$ 500 mil por dano moral ambiental em razão do
armazenamento inadequado de produtos danificados confeccionados em
amianto.
Ao STJ, as empresas alegaram que, em matéria de responsabilidade
objetiva, tal qual a ambiental, a presença do dano é condição indispensável
para gerar o dever de indenizar. Para elas, os danos morais coletivos e difusos
devem estar fundados não só no sentido moral individual, mas nos efetivos
prejuízos à coletividade, desde que demonstrados.
A Constituição federal prevê art. 225 caput "todos têm direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial
à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o
dever
de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações" e em seu
parágrafo 3º "as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente
sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e
administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos
causados".

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Além da Constituição Federal que prevê a proteção do meio ambiente,


existe a possibilidade do pedido de indenização por dano moral coletivo de
acordo com a Lei nº 7.347\85 - Disciplina a ação civil pública de
responsabilidade por danos causados ao meio-ambiente, ao consumidor, a
bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico
(VETADO) e dá outras providências; e da Lei nº. 8.078\90 - Código de Defesa
do Consumidor.

A Ação Civil Pública tem sido o principal instrumento para a apuração


da responsabilidade civil ambiental e um dos remédios processuais mais
importantes do ordenamento jurídico de proteção jurisdicional dos interesses
coletivos, em sentido latu sensu “sentido amplo”.

Conforme dispõe o artigo 1º da norma estabelece que, as ações de


responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados ao meio ambiente;
ao consumidor; a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e
paisagístico; a qualquer outro interesse difuso ou coletivo; por infração da
ordem econômica; à ordem urbanística; à honra e à dignidade de grupos
raciais, étnicos ou religiosos e ao patrimônio público e social serão protegidos
pela lei e ainda conforme artigo 3º poderá ter por objeto a condenação em
dinheiro ou o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer.

A norma consumerista, quando foi sancionada, em 1990, alterou


alguns dispositivos da Lei da Ação Civil Pública. O Código de Defesa do
Consumidor em seu artigo 117, dispõe que “acrescente-se à lei nº 7.347, de 24
de julho de 1985, o seguinte dispositivo, renumerando-se os seguintes: Art. 21.
Aplicam-se à defesa dos direitos e interesses difusos, coletivos e individuais,
no que for cabível, os dispositivos do Título III da lei que instituiu o Código de
Defesa do Consumidor".

No que concerne à responsabilidade civil, prevê a Lei da Política


Nacional do Meio Ambiente, em seu 14, § 1º, que “o poluidor é obrigado,
independentemente de existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos
causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade”.

Para a ocorrência do dano moral coletivo é necessário que haja


efetiva percepção deste dano, tanto na doutrina como na jurisprudência, tem
sido firmado o entendimento de que não é todo o dano coletivo que dá ensejo a
indenização por danos morais coletivo. É preciso que o fato tenha razoável
significância e que ultrapasse os limites toleráveis, causando uma sensação de
perda e de sofrimento a coletividade, não basta somente o dano ambiental
patrimonial, uma vez que este é reparado através da esfera civil e penal e
administrativa para o poluidor, mas a indenização por danos morais coletivos
vai mais além do dano, são os sentimentos extrapatrimoniais que se refletiram.

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Capitulo III

Doutrina e Jurisprudência

A Lei de Ação Civil Pública a tutela dos danos morais e patrimoniais ao


meio ambiente, dirimindo possíveis controvérsias sobre seu reconhecimento,
sendo a atual redação do caput do art. 1º:
Art. 1º – Regem-se pelas disposições desta Lei, sem
prejuízo da ação popular, as ações de responsabilidade por
danos morais e patrimoniais causados:
l – ao meio-ambiente;
ll – ao consumidor;
III – a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico,
turístico
e paisagístico;
IV – a qualquer outro interesse difuso ou coletivo.
V – por infração da ordem econômica;
VI – à ordem urbanística.

A definição do doutrinador Rubens Limongi França sobre danos


extrapatrimoniais subjetivos e objetivos abarca de forma precisa o seu
significado, ensinando de forma concisa a diferença entre dano moral individual
e dano moral coletivo.

Os danos extrapatrimoniais podem ser subdivididos em


danos subjetivos e objetivos. Os primeiros estão
diretamente ligados à esfera íntima da vítima, às suas
dores e sofrimentos internos. Já os danos
extrapatrimoniais objetivos representam a repercussão
do fato danoso no meio social da pessoa atingida, não
dependendo, portanto, de qualquer padecimento íntimo.

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Pode-se dizer que foi essa ampliação da concepção de


dano extrapatrimonial que permitiu a construção da ideia
de que também a pessoa jurídica, assim como a
coletividade, pode ser sujeito passivo de dano
extrapatrimonial.

Nesse sentido, define R. Limongi França dano moral como aquele que,
direta ou indiretamente, a pessoa física ou jurídica, bem assim a coletividade,
sofre no aspecto não econômico dos seus bens jurídicos. (apud MORATO
LEITE; MOREIRA, 2010, p. 120)
A natureza do dano extrapatrimonial coletivo é objetiva, pois
desvinculada dos sentimentos típicos do ser humano. Vê-se que esta
concepção foi tomando força e seu reconhecimento era imprescindível
para a efetiva tutela de direitos metaindividuais.
A doutrinadora Rafaele Monteiro Melo diferencia com propriedade:

A verdade é que o dano extrapatrimonial coletivo não se


confunde com o dano moral individual. Se para este não
há mais a exigência da vinculação obrigatória à noção de
dor, sofrimento ou qualquer afetação à integridade
psíquica da pessoa, no que se refere ao dano
extrapatrimonial coletivo esta exigência é ainda mais
imprópria.
(MELO, 2012, p. 04)

Os impactos destrutivos sofridos pelo meio ambiente, na realidade atinge a um


grande número de pessoas. A incoerência está em não reparar a um dano, que
tem capacidade de lesionar toda a sociedade, não somente esta geração como
das próximas gerações.
Assim, ofensas a esses valores trazem consequências para todos,
caracterizando-se o verdadeiro transindividualismo.
Sobre o tema, Carlos Alberto Bittar Filho reconhece:

Na órbita social existem valores, aceitos e compartilhados


pela coletividade, considerados de extrema relevância no
seio comunitário, cujo respeito passou a ser reivindicado
e exigido. Nesse panorama, não se pode deixar de
reconhecer que da mesma forma que o indivíduo tem sua
carga de valores, também a comunidade tem sua
dimensão ética, desatrelada das pessoas que integram o
grupo social quando consideradas individualmente,
tratam-se de valores indivisíveis, que não se confunde

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com cada elemento da coletividade. (BITTAR FILHO,


1994, p. 03)

Os pedidos de indenização por dano moral coletivo, incluindo os


decorrentes de degradação ambiental, tem se tornado cada vez mais comum
nas ações civis públicas.
A previsão de condenação por dano moral coletivo surgiu no Direito
brasileiro principalmente com o Código de Defesa do Consumidor que, no seu
artigo 6º, estabelece que “são direitos básicos do consumidor: (...) VI – a
efetiva reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e
difusos”.
A CF, em seu artigo 5º, inciso V, também prevê a possibilidade de indenização
por dano moral coletivo, quando não faz distinção acerca do dano a ser
compensado.
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade,
à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
V - é assegurado o direito de resposta,
proporcional ao agravo, além da indenização por dano
material, moral ou à imagem;

Amplamente discutida pela doutrina e pela jurisprudência a matéria sobre


danos moral coletivo dentre alguns doutrinadores podemos destacar Carlos
Alberto Bittar Filho, que define como dano moral coletivo:
A injusta lesão da esfera moral de uma dada
comunidade, ou seja, é a violação antijurídica de um
determinado círculo de valores coletivos. Quando se fala
em dano moral coletivo, está-se fazendo menção ao fato
de que o patrimônio valorativo de uma certa comunidade
(maior ou menor), idealmente considerado, foi agredido
de maneira absolutamente injustificável do ponto de vista
jurídico; quer isso dizer, em última instância, que se feriu
a própria cultura, em seu aspecto imaterial. ”

Inúmeros doutrinadores defendem que o dano moral coletivo não deve ser
compreendido apenas como sofrimento ou dor pessoal, mas sim como toda e
qualquer violação aos valores morais e direitos fundamentais compartilhados
por uma coletividade. Porém mudanças históricas e legislativas têm levado a
doutrina e a jurisprudência a entender que, quando são atingidos valores e
interesses fundamentais de um grupo, não há como negar a essa coletividade
a defesa do seu patrimônio imaterial.

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Esse entendimento, teve várias controvérsias e polemicas no STJ. O


questionamento gira em torno da possibilidade da existência do dano moral
coletivo mesmo que nenhum indivíduo sofra, de imediato, prejuízo com o ato
apontado como causador.

No julgamento do REsp 636.021 de 2008, a ministra do STJ, Nancy Andrighi


vê no Código de Defesa do Consumidor um divisor de águas no enfrentamento
do tema. Segundo o julgado a ministra afirmou que o artigo 81 do CDC rompeu
com a tradição jurídica clássica, de que só indivíduos seriam titulares de um
interesse juridicamente tutelado ou de uma vontade protegida pelo
ordenamento. Para a ministra, o reconhecimento de que a lesão a um bem
difuso ou coletivo corresponde a um dano não patrimonial, e esse dano deve
encontrar uma compensação:
“Nosso ordenamento jurídico não exclui a possibilidade
de que um grupo de pessoas venha a ter um interesse
difuso ou coletivo de natureza não patrimonial lesado,
nascendo aí a pretensão de ver tal dano reparado. Nosso
sistema jurídico admite, em poucas palavras, a existência
de danos extrapatrimoniais coletivos, ou, na
denominação mais corriqueira, de danos morais
coletivos”

Apesar disso, esse posicionamento não estava pacificado.


Em 2009, a Primeira Turma negou um recurso em que se discutia a ocorrência
de dano moral coletivo, porque entendeu “necessária sua vinculação com a
noção de dor, sofrimento psíquico e de caráter individual, incompatível, assim,
com a noção de transindividualidade – indeterminabilidade do sujeito passivo,
indivisibilidade da ofensa e de reparação da lesão” (REsp 971.844).

“EMENTA. PROCESSUAL CIVIL E


ADMINISTRATIVO. CONCESSIONÁRIA DE
SERVIÇO DE TELEFONIA. POSTOS
DE ATENDIMENTO. INSTALAÇAO. AUSÊNCIA DE
PREVISAO NO CONTRATO DE CONCESSAO.
DISCRICIONARIEDADE DA ADMINISTRAÇAO
PÚBLICA. FUNDAMENTOS INATACADOS.

SÚMULA 283/STF. MATÉRIA FÁTICA. SÚMULA


07/STJ. DANO MORAL COLETIVO. EXISTÊNCIA
NEGADA. SÚMULA 07/STJ. ACÓRDAO
COMPATÍVEL COM PRECEDENTES DA 1ª
TURMA. RESP 598.281/MG, MIN. TEORI ALBINO

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ZAVASCKI. DJ DE 01.06.2006; RESP 821891, MIN.


LUIZ FUX, DJ DE 12/05/08. RECURSO ESPECIAL
PARCIALMENTE CONHECIDO E, NESTA PARTE,
DESPROVIDO. (Resp.971.844/RS)”
No caso acima, o Ministério Público Federal fez a averiguação na violação do
direito dos consumidores à prestação de serviços telefônicos com padrões de
qualidade e regularidade adequados à sua natureza.
Em 2006, o ministro Teori Zavascki relatou outro recurso em que debateu a
ocorrência de dano moral coletivo, se tratava de dano ambiental cometido por
empresa imobiliária durante a implantação de um loteamento em Uberlândia
(MG). A Turma reafirmou seu entendimento de que a vítima do dano moral
deve ser, necessariamente, uma pessoa (ser humano). “Não existe ’dano moral
ao meio ambiente’. Muito menos ofensa moral aos mares, rios, à Mata Atlântica
ou mesmo agressão moral a uma coletividade ou a um grupo de pessoas não
identificadas. A ofensa moral sempre se dirige à pessoa enquanto portadora de
individualidade própria; de um vultus singular e único” (REsp 598.281).
Em 2009, a ministra Eliana Calmon, julgou na Segunda Turma um recurso
onde reconheceu que a reparação de dano moral coletivo é tema novo no STJ.
Neste julgado uma concessionária do serviço de transporte público pretendia
condicionar a utilização do benefício do acesso gratuito de idosos no transporte
coletivo (passe livre) ao prévio cadastramento, apesar de o Estatuto do Idoso
exigir apenas a apresentação de documento de identidade. A ministra
ponderou que “as relações jurídicas caminham para uma massificação, e a
lesão aos interesses de massa não pode ficar sem reparação, sob pena de
criar-se litigiosidade contida que levará ao fracasso do direito como forma de
prevenir e reparar os conflitos sociais”. Para Calmon, o dano extrapatrimonial
coletivo prescindiria da prova da dor, sentimento ou abalo psicológico sofridos
pelos indivíduos. (Resp 1.057.274). A Segunda Turma concluiu que o dano
moral coletivo pode ser examinado e mensurado.
Em 2010, a Segunda Turma reafirmou o entendimento de que a necessidade
de reparação integral da lesão causada ao meio ambiente permite a cumulação
de obrigações de fazer e indenizar (Resp 1.180.078).
Em 2013, a 2ª Turma do STJ decidiu que é possível a cumulação de
obrigações de fazer com o pagamento de quantia em dinheiro a título de
compensação por dano moral coletivo (REsp 1269494-MG, Rel. Min. Eliana
Calmon, julgado em 24/9/2013):

“AMBIENTAL, ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL


CIVIL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. PROTEÇÃO E
PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE.
COMPLEXO PARQUE DO SABIÁ. OFENSA AO
ART. 535, II, DO CPC NÃO CONFIGURADA.
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CUMULAÇÃO DE OBRIGAÇÕES DE FAZER COM


INDENIZAÇÃO PECUNIÁRIA. ART. 3º DA LEI
7.347⁄1985. POSSIBILIDADE. DANOS MORAIS
COLETIVOS. CABIMENTO.

1. Não ocorre ofensa ao art. 535 do CPC, se o


Tribunal de origem decide, fundamentadamente, as
questões essenciais ao julgamento da lide.

2. Segundo a jurisprudência do STJ, a logicidade


hermenêutica do art. 3º da Lei 7.347⁄1985 permite a
cumulação das condenações em obrigações de
fazer ou não fazer e indenização pecuniária em sede
de ação civil pública, a fim de possibilitar a concreta
e cabal reparação do dano ambiental pretérito, já
consumado. Microssistema de tutela coletiva.

3. O dano ao meio ambiente, por ser bem público,


gera repercussão geral, impondo conscientização
coletiva à sua reparação, a fim de resguardar o
direito das futuras gerações a um meio ambiente
ecologicamente equilibrado.

4. O dano moral coletivo ambiental atinge direitos de


personalidade do grupo massificado, sendo
desnecessária a demonstração de que a coletividade
sinta a dor, a repulsa, a indignação, tal qual fosse
um indivíduo isolado.

5. Recurso especial provido, para reconhecer, em


tese, a possibilidade de cumulação de indenização
pecuniária com as obrigações de fazer, bem como a
condenação em danos morais coletivos, com a
devolução dos autos ao Tribunal de origem para que
verifique se, no caso, há dano indenizável e fixação
do eventual quantum debeatur.”

Assim, apesar de existirem precedentes da 1ª Turma em sentido


contrário, a posição majoritária (não pacífica) é no sentido de ser cabível
a condenação por dano moral coletivo.
Alguns apontamentos a serem destacado:

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 O meio ambiente, mesmo sendo assegurado pela CF o direito


subjetivo, não pode ser entendido sob a perspectiva de ofensa a
patrimônio ou integridade física de sujeitos individualmente
considerados.

 Em se tratando de meio ambiente há um entendimento de que é


um bem jurídico indivisível, de dimensão ampla, englobando o
equilíbrio ecológico de um ecossistema. Atinge toda uma
comunidade e, por sua relevância e pela interdependência dos
bens ambientais, alcançam até mesmo a própria humanidade em
seu conjunto.

 Apesar do dano moral coletivo ser positivado no ordenamento


jurídico brasileiro, mesmo assim, o reconhecimento da
coletividade como detentora de direitos imateriais ainda é assunto
polêmico, há controvérsias de doutrinadores que afirmam que a
coletividade não tem personalidade, o que inviabilizaria a
compensação por dano moral.

 O dano moral coletivo está evoluindo a cada dia, passando da


rejeição ao instituto até o seu reconhecimento, apesar das
controvérsias da possibilidade de responsabilização civil, a título
de dano moral coletivo, das lesões a direitos coletivos ou difusos,
sofridos por coletividade indeterminada ou indeterminável de
pessoas.

REFERÊNCIAS:

BITTAR FILHO, Carlos Alberto. Do dano moral coletivo no atual contexto


jurídico brasileiro. Jus Navigandi, Teresina, ano 10, nº 559, 17 jan. 2005.
Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/6183>. Acesso em: 03/01/2018.
CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. São Paulo:
Atlas, 2008.
MELO, Rafaele Monteiro. O dano extrapatrimonial coletivo ambiental: do
conceito à quantificação. Disponível em:
http://www.egov.ufsc.br/portal/conteudo/o-dano-extrapatrimonial-coletivo-
ambiental-do-conceito-%C3%A0-quantifica%C3%A7%C3%A3o. Acesso
em: 03/01/2018.

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DANO MORAL COLETIVO

BITTAR FILHO, Carlos Alberto. Do Dano Moral Coletivo no Atual Contexto


Jurídico Brasileiro. Revista deDireito do Consumidor n. 12. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 1994, p. 55.
Superior Tribunal de Justiça. REsp 636021/RJ, TV Globo LTDA. e Ministério
Público do Estado do Rio de Janeiro Relatora: Desª. Ministra Nancy Andrighi,
Relator p/ Acórdão Ministro Sidnei Beneti, Terceira Turma, julgado em
02/10/2008, DJ, 06/03/2009. Superior Tribunal de Justiça. REsp 636021/RJ, op.
cit.
Superior Tribunal de Justiça. REsp 971844/RS, Ministério Público Federal e
Brasil Telecom SA. Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado
em 03/12/2009, DJ 12/02/2010.
Superior Tribunal de Justiça REsp 598281/MG, Ministério Público do Estado de
Minas Gerais e Município de Uberlândia. Rel. Ministro Luiz Fux, Rel. p/ Acórdão
Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 02/05/2006, DJ
01/06/2006.
Superior Tribunal de Justiça. REsp 1057274/RS, Ministério Público do Estado
do
Rio Grande do Sul e Empresa Bento Gonçalves de Transporte LTDA., Rel.
Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 01/12/2009, DJe
26/02/2010.
Superior Tribunal de Justiça. Ministério Público do Estado de Minas Gerais e
Rubens de Castro Maia. REsp 1180078/MG, Rel. Ministro Herman Benjamin,
Segunda Turma, julgado em 02/12/2010, DJe 28/02/2012.
Superior Tribunal de Justiça. REsp 1269494/MG, Ministério Público do Estado
de Minas Gerais e Fundação Uberlandense de Turismo, Esporte eLazer-
FUTEL, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 24/09/2013,
DJe 01/10/2013.

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