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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!

27/8/2015

INDEX o Marcador
de PaSSOS

BOOKS
GROUPS

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Thales Brito

INDEX o Marcador
Passos de

BOOKS
GROUPS
ESETec
2008

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Copyright O desta edição:


ESETec Editores Associados, Santo André, 2008.
Todos os direi los reservados

INDEX
Revisão técnica: Dra. Regina Christina Wieienska

Capa: Enrico Mistero

BOOKS
ilustração: Edson Ferreira de Lima

Colaboradores:
Dr. Edson Amâncio
Dra. Sbirlei Lizaki Zolfan
Raquel Brito
Ronaldo Ferreira
Tatiana Bertoni
GROUPS
Solicitação de exemplares: comercial@uol.com.br

Tel. (11) 4990 56 83 (editorial) ! 4438 GÖ 66 (vendas)


www.esetec.com.br

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

INDEX
BOOKS
GROUPS
,
Dedico esse livro a Raquel. Brito
Sandra R. Russo Brilo e
Sérgio Brito (in niemorian)

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INDEX
BOOKS
GROUPS

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


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Sumário

INDEX
Introdução........................................................................ 9
O marcador de passos.......................... .......................12
Não fale com estranhos................................................ 16
Histórico..........................................................................18
Muito prazer, sou o TOC: o diagnóstico..................... 22
O “O” do TOC: obsessões...........................................30

BOOKS
O “C” do TOC: compulsões.......................... ..............33
Fenômenos sensoriais.................................................. 36
Guardiões x Invasores.................................................. 39
Pausa..............................................................................44
Atenção seletiva............................................................ 45
Experiência (A.S. Atenção Seletiva)..........................49

GROUPS
Os dois lados da moeda: ansiedade e depressão....,51
Tensão pré-ataque obsessivo.......................................54
Lentidão obsessiva....................................................... 56
Adoção de novos rituais..................... ...........................58
Contemplando as formas: geometria intrigante........ 60
Pausa..............................................................................62
TOC - atual e passado................................................. 64
O mundo numa grande roda gigante ............................65

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Mudança: o velho e o novo............................................67


Pausa.............................................................................. 71
Evitação......................................................................... 72
Fantasmas de carne e o s s o .........................................76
Pausa..............................................................................78
Abstinência - um vazio ilim itado.... .............. ...............79
Pausa.............................................................................. 81
Genética - dos frutos, os g e ne s.................................. 82
Palavras cruzadas, imagens roíulantes.................... 85
Impulsos - traídos pelos pensam entos.......................87

INDEX
O comportamento da crença e TOC desenvolvido ...90
Congelado no tem po..................................................... 92
Dormindo no te m p o ...................................................... 94
Pausa..............................................................................93
Em nome do tempo, da crença e da direção.............. 96
Síndrome de Tourette....................................................99
Quebra de tabus .........................................................103

BOOKS
Passos marcados, outras histórias...... .................... 104
Passos marcados 2 ..................................................... 111
Batalhas.............................................. ......................... 117
Passos à frente............................................................ 119
O sonho fin a l................................................................ 122

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Introdução

INDEX Escolhi este título em alusão às obsessões,


que são aquelas mensagens errôneas, pensamentos
que vêm à cabeça, causando literalmente transtorno, em
qualquer momento e lugar. A cada situação, em cada
passo do cotidiano, as obsessões permanecem mar­
cando os passos, induzindo ao estado de compulsões
sem limites.

BOOKS
Após tomar ciência de que era portador de
Transtorno Obsessivo-Compuisivo (TQC) e dar início ao
tratamento, passei a compreender muitos dos sintomas
que me perturbavam com ajuda de Dra. Shírlei Lizak
Zolfan, minha psicóloga. Compreendi o TOC e seus sin­
tomas de tal forma, ao ponto em que parte da própria
terapia se fez em ter que parar de me aprofundar no
assunto. Embora desautorizado, me engajei no aprofun­

GROUPS
damento com objetivo social, queria esclarecer o público
em gera! por meio das questões abordadas neste livro.
Como aconteceu comigo, a maioria dos porta­
dores de TOC só reconhece sua condição ao ter acesso
na mídia eletrônica ou impressa a informações sobre a
doença. Optei por escrever um livro, sem a pressão de
ter que ser breve. Espero não só colaborar com a for­
mação dos profissionais de psicologia, psiquiatria,

0 matradur <7<> j m , 9

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neurologia, mas também com os próprios portadores


de TOC e seus familiares. Gostaria que os mais leigos
ao assunto compreendessem do que se trata, sem pré-
julgamentos ao comportamento alheio.
Ao longo do livro descrevo meu histórico e os
sintomas que caracterizaram o agravamento do meu
caso. Acrescento conclusões pessoais, teorias, o ponto
de vista médico, estatísticas e o que aprendi em terapia.
Minha intenção é oferecer leitura agradável e
instrutiva, apesar da complexidade e redundância do
próprio TOC. Gostaria que muitas das crianças hoje, por­
tadoras de TOC, não cheguem à adolescência com

INDEX
seus conflitos desnecessariamente agravados Que pes­
soas de qualquer idade possam reconhecer em si mes­
mas ou em alguém próximo, a sombra deste “marcador
de passos”.

“O Transtorno Obsessivo Compulsivo é um problema


caracterizado por idéias recorrentes e intrusivas, geral ­

BOOKS
mente acompanhadas de desconforto emocional e de
comportamentos ritualizados irresistíveis. Até o início dos
anos 80, pensava-se tratar de um quadro psiquiátrico
relativamente raro, com incidência muito pequena.
Os sintomas começam tipicamente durante a puber­
dade, afetando tanto homens quanto mulheres de todos
os grupos étnicos, e também podem ter inicio na infân­
cia. o que ocorre em um terço de todos os casos. Atinge
igualmente todas as classes sociais.

GROUPS
Existem vários quadros psiquiátricos que costumam
estar relacionados com o TOC: Tricotilomania, Transtorno
Dismórfico do Corpo, Transtorno de Tiques, Transtorno
de Déficit de Atenção e Hiperatividade, e Hipocon­
dria.Também é frequentemente acompanhado por
depressão (em torno de 75% dos casos), Transtornos
Alimentares, abuso de substâncias e transtornos de per­
sonalidade. "

Titules Unn,

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INDEX
BOOKS "O TOC é considerado uma doença mental grave por
vários motivos: Está entre as dez maiores causas de

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incapacitação de acordo com a Organização Mundial da
Saúde; acomete preferencialmente indivíduos jovens ao
final da adolescência e muitas vezes começa ainda na
infância; geralmente é crônico e se não tratado, pode se
manter por toda a vida. Seus sintomas raramente
desaparecem por completo e, em cerca de 10 % dos
casos, tendem a um agravamento progressivo. "(Revista
psique ciência e vida, vol. 9 , Editora Scala)

O m n r a t d n r cic [ ta s s o s a

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O marcador de
passos

INDEX Todos nós temos hábitos e preferências. Um


hábito de alinhar o quadro na parede não parece algo
exuberante. Trata-se apenas de zelar pela disposição
de um objeto, organizar uma parede. Mas pode se tornar
um ato caracterizado pela extrema necessidade de
alinhar o quadro sem que o mesmo esteja fora do prumo.
O mesmo pode acontecer com outras escolhas, refe­

BOOKS
rentes à música, cor, perfume, prato predileto. Preci­
samos escolher entre a ruiva, a loira e a morena. São
preferências normais construídas desde a infância. Con­
tudo ao preferir determinada cor: necessariamente rejeito
outra. E se ao escolher entre a calçada preta e branca,
sentir que há um local “ideal” para pisar e que escolher
“errado” fará com eu me sinta tomado por intenso
desconforto? Nestes casos, provavelmente alguma

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obsessão pode estar se estabelecendo. Ao andarmos
pela cidade, vemos que cada rua ou calçada ê de um
jeito, algumas são elevadas, coloridas, rebocadas, incli­
nadas, irregulares, ou acinzentadas. Em São Paulo, até
recentemente, as calçadas seguiam o padrão do
mosaico português, pedras pretas e brancas formavam
desenhos e cercavam os arranha-céus. No interior
destes, encontramos outros tantos estilos de pavimento.
Agora, imaginem sentir que seria catastrófico não poder
/ h a h 's liriti:

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escolher um loca! pré-determinado para pisar e dar


seqüência aos passos, apenas porque somos impedidos
por um buraco logo à frente? Honesta e racionalmente,
isto não parece sensato; entretanto, no papel de um
marcador de passos, haveria controvérsia...
A melhor forma de ilustrar o assunto talvez fosse
com o seguinte conto:

Era uma tarde cinzenta, típica de São Paulo.


O vento forte, somado ao fluxo dos carros da Avenida
Paulista, parecia cortar o rosto. Os letreiros com

INDEX
termômetros marcavam treze graus, isto faltando dez
para a$ quatro da tarde. Caminhava sem pressa, em
direção ao Metrô, & parei numa banca de jornais pra
espiar rapidamente os lançamentos da semana. Não
queria encarar o horário do “rush", das dezessete
horas em diante. A dois passos da banca, passou
por mim um homem relativamente apressado, emi­
tindo um “urro" de irritação, o qual disfarçou simu­
lando, a seguir, um pigarro. Sua fisionomia não era

BOOKS
das melhores: barba por fazer, óculos precariamente
remendados com adesivos, face oleosa e suada
(apesar do frio). Com olhar sisudo, parecia, ao mes­
mo tempo, vulnerável e preocupado. Aparentava uns
55 anos. Vestia um terno até que alinhado, com a
mão esquerda ocupada por uma pasta e um guarda-
chuva de aparência pré-histórica. Com a mão direita
livre, mexia sistematicamente os dedos numa se­

GROUPS
qüência que dava a impressão de fazer uma espécie
de cálculo, mesmo com o balançar do braço. Movi­
mentava a boca como se resmungasse ou estivesse
rezando.
Coincidentemente, caminhávamos na mes­
ma direção. Estava uns cinco metros à minha frente.
Me rendi à curiosidade, ainda mais quando observei
que estava a passear sobre o relevo branco da
calçada e que cerrava o punho direito da mão vazia,

O rn tu v id o r dt' ffisso s

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caso pisasse minimamente nas partes pretas. Em


certos momentos, quando pisava sobre os blocos
negros, erguia os calcanhares, como se o chão lhe
queimasse a planta dos pés. Não tolerava um deslize
sequer, e eu, curioso, mantinha a mesma distância,
à sua espreita.
Mais próximo do metrô, neste trajeto que
beirava uns dez minutos, ele parou à frente de um
dos edifícios. Sua penúltima manobra sobre o branco
relevo da calçada, o fez antever que a última passada
teria que ser sobre o extenso retângulo negro, para
atingir os dois degraus da recepção, igualmente
negros, antecedendo o capacho instalado logo na

INDEX
entrada, com o slogan da corporação sediada no
edifício. Sem que ele percebesse, notei que parou
sobre o relevo branco da calçada. Foi quando me
perguntei. Como será sua reação ante os degraus
pretos, considerando que ele parece evitar ferozmente
esta cor? Cada vez mais intrigado, diminui meus pas­
sos para assistir o desenrolar da história daquele
homem que marcava seus passos. O fluxo de popu­
lares na região era reduzido, mas à medida que alguns

BOOKS
se aproximaram, o homem olhou brevemente para
os lados, como quem respira fundo e toma coragem.
Saltou diretamente para o primeiro degrau do edifício,
e retomou o equilíbrio. Aumentou a quantidade de
pessoas que passavam e compreendi que o homem
receava ter seu comportamento observado por ter­
ceiros. Então escalou os próximos degraus e chegou
ao capacho do edifício. O homem transpirava irritação

GROUPS
em pleno frio, abaixou a cabeça levemente e bateu
forte o pé direito por duas vezes, dando a impressão
de que estivesse descolando um detrito grudenío da
sola do sapato. Objetivo e notavelmente irritado, olhou
em direção da recepção.
Queria testemunhar o “Grand Finale” deste
percurso, fingi que procurava o número de um ponto
comercial na fachada ao lado. Pela porta de vidro
que separava o hall de entrada da rua, localizei o
protagonista da história. O chão era composto de

1 flüli's H riu,

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grandes quadrados que lembravam um enorme


tabuleiro de damas feito de mármore nas cores
branca e preta, igual aos obstáculos impostos na
avenida. Agora não poderia perder o desfecho do
trajeto daquele homem já cansado. Os quadrados do
chão eram enormes, não haveria como saltar sobre
eles, por mais que se esforçasse Pisou na parte
branca, mas não teve jeito, e precisava encarar os
quadrados negros, aqueles que pareciam queirnar-
ihe os pés. Passou apressadamente por todos, até
que enfim aproximou-se da moça recepcionista,
justamente cercada um último bloco preto. Identificou-
se e aguardou impacientemente que o anunciassem.
Tamborilava com os dedos da mão direita, enquanto

INDEX
olhava perplexo para os lados, quase subindo pelas
paredes. Enfim, fora anunciado, agradeceu à moça
e rumou direto á escadaria, talvez por não querer
usar ou não suportar a espera dc elevador. Logo após
iniciar a *prova ” da escadaria, vi que voltou ao primeiro
degrau, a caçar alguma coisa que poderia ter deixado
cair, e como não encontrou, deu um sorriso à
recepcionista, que abordou-lhe com os olhos tentando

BOOKS
entender o motivo que o fizera voltar. Tornou a iniciar
sua escalada pelos degraus e novamente retornou,
agora com gestos de quem pergunta as horas à
mesma moça. Depois da informação, subiu com
pressa e não o vi voltar mais. Ao término deste com­
plexo circuito, retomei meu rumo a caminho do metrô.

GROUPS

() marcador de paxsox

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Não fale com


estranhos

INDEX Veja só, rapaz! Então você me detectou! Depois


de tanto tempo, você descobriu a mim e a minha função.
Sabe que sou sua mente, não sabe? Tudo o que você
aprendeu até agora me pertence. Tudo o que você faz,
gosta ou sente também é meu. Eu dito as regras. Se
você pensa que seus gostos, vontades, prazeres e
projetos são seus, enganou-se. Seus pensamentos,

BOOKS
aliás, são meus. Você escuta minhas ordens, obedece
aos meus mandamentos. Sempre interagi com o seu
corpo para processar informações, isto lhe causa repul­
sa? Você reluta e se opõe? Não me importo. Sou o dono
do pedaço e decido quem faz o que. Seu corpo, sua
essência rejeita meu papet de comando. Você me
detectou e por isso tem seu mérito. Mas não imagine
que conseguirá se desfazer da minha companhia tão

GROUPS
facilmente. O que você imagina está sob meu controle.
Não se esqueça das noites mal dormidas, dos seus in­
sucessos, do odor do seu corpo e do cansaço que sen­
tia, além do sangue escorrendo entre seus dedos en­
quanto escrevia neste papel. Eu o prejudiquei ao máximo;
basta recordar-se dos inúmeros com portam entos
compulsivos aos quais o induzi. Tenho certeza que
apenas citá-los seria motivo de enorme vergonha! Desde
cedo dei tanto trabalho a você. Seu corpo ficou tão
Thal cs Hri'v

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exausto que quase apodreceu. Você mal conseguia


dormir e, quando conseguia, não queria mais levantar.
Não me desculpo pelos transtornos que causei! Apenas
me mostrei eficiente no que faço; trabalho bem, não
acha? Você me parece um tanto obstinado e curioso,
certo? Eu o conheço. Dispus as armadilhas nas horas
certas, e você caiu. Tudo que o favorece, contraria meus
objetivos. Luto por aquilo a que você se opõe. Sou o seu
avesso. Sou você de ponta-cabeça, você ordinário e
destruído, destituído. Minha única falha: você ouviu o eco
dos meus passos. Já que me encontrou, vou mo apre­
sentar. Nem considere me vencer! Muito prazer, sou o
Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Sou mais conhecido

INDEX
por TOC, prefiro este apelido. TOC. Agora, sente-se e
relaxe... Aceita uma sugestão? Que tal o suicídio?

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GROUPS

O marcador d? pasâos 17

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Histórico

INDEX Para um bom entendimento, conto parte da


minha vida: os primeiros sintomas e suas terríveis decor­
rências. Tudo começou cedo em torno dos seis ou sete
anos. Um menino tímido, bem comportado, mas de certa
forma detalhista. Era criativo, brincava como toda
criança. Já demonstrava o sintoma de piscar repetitiva­
mente os olhos, mas não sabia explicar as razoes deste

BOOKS
comportamento. Hoje sei que isso pode ocorrer com
relativa freqüência na infância. Esse primeiro sintoma,
piscar, faz parte da Síndrome de Tourette (ST), carac­
terizada por tiques incontroláveis.
Havia, também, uma tendência perfeccionista:
isto culminava, por exemplo, em sistematicamente
organizar meus chinelos em determinada posição,
simetricamente. Se alguém, por acaso, esbarrasse ou

GROUPS
tropeçasse neles, eu ficava irritado porque me sentia
obrigado a reorganizá-los. Meus pais percebiam essa
preocupação com a simetria, mas como isto ocorria só
em casa, não oferecia maior problema. Por outro lado,
o comportamento de piscar, sintoma do Tourette, ocorria
em qualquer lugar. Na década de 80, oTO C já era objeto
de estudo científico, mas permanecia pouco conhecido
por pessoas leigas. Meus pais, por exemplo, quando

T h t t i : ’.s H n f o

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comentavam sobre o assunto, diziam, com certa ternura:


“Olha! Ele tem essa mania! ’. Se, ainda hoje há quem se
surpreenda com o nome do transtorno e seus sintomas,
naquela época nem sequer imaginavam a existência do
TOC e Tourette. É comum, mesmo em nossos dias,
que muitos portadores continuem a sofrer com a falta
de divulgação. Se não houver identificação dos sintomas,
muitos danos atingem adultos e crianças. Estas últimas
podem crescer sob o fardo dos sintomas, alé encontrar
um sem número de obstáculos na vida adulta.
Meus pais certamente não tiveram culpa. Meu
quadro não aparentava ser grave e não havia espaço na

INDEX
mídia para melhor divulgação. Hoje em dia, as informa­
ções são incomparavelmente mais acessíveis do que
eram há dez ou vinte anos.
Tive um desenvolvimento relativamente normal,
até que, por volta dos nove ou dez anos, outros
comportamentos repetitivos surgiram. Eram como um
tipo de “visita chata” , que demorava a ir embora.
Tornaram-se mais complexos, vieram acompanhados

BOOKS
de obsessões: eu era acometido por pensamentos
desagradáveis dos quais queria me livrar. Quando
pessoas não pertencentes à minha família me cumpri­
mentavam com um aperto de mão ou me abraçavam,
eu "limpava” a área de contato, como se estivesse
tirando o pó da roupa ou a sujeira das mãos. Era como
se o contato físico me transmitisse alguma essência

GROUPS
nociva, inerente a quem que me tocava. E, para me iivrar
do desconforto, precisava fazer uma espécie de ritua!
de limpeza. Tudo era ainda tolerável porque resultava
num mínimo de constrangimento. Mas certas pessoas
diziam que eu era nojento ou fresco.
Os tiques desapareceram por algum tempo,
fenômeno comum nos casos de ST. Os rituais de
limpeza também foram desaparecendo. Mais tarde, na
adolescência, surgiram outros sintomas, bastante

( ) im ir c n d o r d c /x is s o * 19

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envolventes e com diferentes temas. Eu estava com 15


ou 16 anos quando surgiu a necessidade compulsiva de
acender e apagar a luz de um dos dormitórios da casa,
incansavelmente. A luz do lado de fora da casa penetrava
diretamente pelas frestas da janela do meu quarto, o que
dificultava para que eu pegasse no sono. Eu não hesitava
em apagá-la pelo interruptor do quarto ao lado. Pas­
saram-se meses, até que destruí o interruptor, desgas­
tado pelo uso. Passado algum tempo, o TOC me fez
migrar de foco. Desenvolvi outro ritual. Eu tinha que tocar
a TV da sala, e nos intervalos eu rodeava a mesa de
centro por uma quantidade significativa de vezes antes
de me retirar para dormir.

INDEX
Os sintomas ganharam mais voracidade e trou­
xeram conseqüentes conflitos na minha cabeça. Os
tiques de piscar voltaram, na companhia de contrações
musculares de regiões específicas. Mas estes tiques
nunca foram constrangedores. Eu segurava tão bem os
impulsos para as ações, que quase ninguém notava.
Frequentemente, quando meu pai, mãe ou irmã saía de

BOOKS
casa, um pensamento ruim se apoderava de mim. Surgia
em minha mente uma idéia como: “Essa é a última vez”,
o que parecia prenunciar uma tragédia que estivesse
por vir, eu acreditava que não os veria mais. Então,
imediatamente interrompia o que estava fazendo e repetia
tudo desde o começo, até controlar, Impedir a ocorrência
do pensamento ruim. Muitas vezes, os pensamentos me
abordavam de novo. Eu precisava repetir o que estava

GROUPS
fazendo na hora que o pensamento ruim apareceu,
visava substituir os pensamentos intrusos por outros
bons, era uma forma de anular o perigo.
Infelizmente, perdi uma pessoa da família. Eu
me lembro claramente das invasões de frases imagina­
riamente escritas, acompanhadas por imagens mentais,
que me lembravam da despedida. Essas imagens me
atormentavam impunemente, sem avisar quando viriam..

I In/l i Uniu

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surgiam nos momentos de raiva, alegria, prazer, tranqüi­


lidade e até nas horas mais inusitadas como as de
refeição, enquanto me servia ou estivesse comendo As
frases e imagens insinuavam, erroneamente, que teria
sentido prazer com a perda daquela pessoa, o que me
deixava transtornado pelo seu teor agressivo. Sem
dúvida, eu não podia aceitar que um pensamento tão
horrendo partisse de mim, ainda mais se tratando de
uma pessoa da família.
Os rituais (também chamados de compulsões)
eram cada vez mais intensos e impositivos, à medida
que os sintomas obsessivos (os pensamentos atormen­

INDEX
tadores) evoluíam. O ritual serve como válvula de escape.
É um tipo de fuga, destinado a produzir um pouco de
alívio, a mínima sensação de leveza sobre os ombros.
Progressivamente, despendia mais atenção tempo para
desempenhá-los. Um desgaste físico e psicológico sem
limites. Já estava mais do que na hora de procurar ajuda,
sabia que algo estava errado, mas não tinha idéia do
que era. Por vezes, busquei por fim nisso tudo e fracas­

BOOKS
sei. Eu não tinha realmente idéia de estar sofrendo as
conseqüências do TOC, os sintomas surgiam nas horas
em que menos se esperava, agregando mais ansiedade
e, por fim, depressão.

GROUPS

0 marcador c/e ptissos 21

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Muito prazer,
sou o TOC:
o diagnóstico

INDEX
Identifiquei o TOC em mim assistindo a um pro­
grama de televisão. Estava bastante decepcionado,
irritado e estressado pela ocorrência dos pensamentos
invasores, as obsessões. O programa era desses sen­
sacionalistas, que se promovem em cima da desgraça
alheia. Uma das pautas do dia era sobre TOC e celebri­
dades que assumiram sofrer de seus sintomas, como
o cantor Roberto Carlos e a atriz Luciana Vendramini.

BOOKS
No decorrer da matéria foram exemplificados em parte,
alguns dos conflitos destas pessoas. Mencionaram a
“impossibilidade de exercer controle sobre os pensa­
mentos obsessivos”, o que prendeu minha atenção:
— Péra aí! Eu faço essas coisas!
Na seqüência do programa, com outros exem­
plos dos sintomas, me identifiquei ainda mais. Motivado,

GROUPS
pesquisei na internet para me aprofundar no assunto. Nos
sites que visitei, tudo bateu. Eu apresentava pelo menos
de 75% a 80% dos sintomas descritos. Não fiquei em
pânico, senti-me aliviado, pois achava que definiti-vamente
estaria enlouquecendo, vivia experiências negativas que
se convertiam, digamos, em pequenos traumas. Nessas
pesquisas soube da existência de tratamentos adequados,
que eu não era o único a sofrer com TOC, e resoivi buscar
ajuda. Até aí, somente eu mesmo tinha conhecimento da

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existência do TOC em mim, o que abriu caminho para


uma nova série de obstáculos. Devo falar para alguém?
Se eu falar, vão acreditar? Corro risco de acharem que
seja uma justi-ficativa barata para minha falta de interesse
por certas atividades? Vou ter apoio? Então percebi que
teria de me arriscar para conseguir apoio e maior
compreensão, e expliquei à minha família como eram os
sintomas. Ganhei algum apoio. Saber mais sobre o que
seria o TOC fez com que eu ganhasse compreensão
sobre as reações que sofria. A essa altura da vida, eu já
havia feito muitas coisas, boas e más, cometi erros e
acertos, term inei meu bacharelado e estava
desempregado, meu relacionamento social e familiar

INDEX
sucumbindo pelo agrava-mento de meu estado. Irritado
com certas coisas e pes-soas, eu me dispunha
exclusivamente à prática de exercí-cios físicos, naqueia
fase já quase intoleráveis pois até nesta hora os rituais
emergiam. Eu não tinha quase nada e perdia o pouco que
tinha, dia após dia. Estava desa-nimado, triste, agitado,
irritado, com olheiras profundas. D esgastado e

BOOKS
extremamente cansado, mas com uma energia e fúria
maiores que eu, vivia entre a inatividade e a execução
impositiva dos rituais. As oscilações de humor eram muito
freqüentes, principalm ente entre a ansiedade e a
depressão, em curto espaço de tempo e em graus
extremos.

"Me sinto um primata. Olho para os lados, sinto

GROUPS
cheiro, escuto, e minhas ações são controladas como
puro instinto: sede, fome, necessidades e um vigor
incontrolável que não me deixava pararem um lugar fixo."
“A maioria dos portadores de TOC, só reconhecem
a sua condição ao ler ou ouvir na mídia algo sobre a
doença, com uma média de mais de 8 anos desde o
aparecimento dos sintomas, até ser diagnosticado por
algum profissional. " (Revista Psique: Ciência & Vida,
Vol. 9)

O marcador <(<• fxinsos

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Em meio ao meu interesse pelo tratamento,


soube da existência de alguns centros especializados,
entre eles o PROTOC, no Instituto de Psiquiatria do
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Teria, primeiramente, que me inscrever para ser atendido,
um caminho burocrático: passar por uma avaliação em
qualquer posto de saúde, e conseguir o encaminhamento
para o HC. Felizmente, com a ajuda do meu convênio
médico, um psiquiatra me diagnosticou, e consegui elimi­
nar alguns obstáculos. Com o diagnóstico médico, con­
segui me inscrever para a triagem do PROTOC, e
enquanto aguardava, consegui o número de telefone de

INDEX
uma psicóloga que teria sido professora de um colega.
Liguei quase de imediato e fui muito bem atendido.
S h irle i Lizak Zolfan, é uma p ro fissio n a l
atenciosa, recebeu título de Mestre em Educação e
Psicopedagogia, e mostrou ser bastante competente.
Convidou-me a uma consulta, para que me orientasse
de alguma maneira. Sem mesmo saber dos meus recur­
sos, abriu-me as portas do seu consultório e abraçou o

BOOKS
meu caso. Com certeza, jamais alguém me estendeu a
mão da forma como ela o fez, e só lhe bastou saber
como eu estava, a partir do que eu lhe contei e aparen­
tava. Essa pessoa, tão especial daí em diante, teve papel
fundamental em meu tratamento. Aderi à terapia, mas
teria que dar uma parada na vida, para poder recomeçar.
Com intenção de que os outros não me vissem com
maus olhos, comuniquei à minha própria família e a

GROUPS
alguns colegas, pedindo simplesmente para entenderem
o que se passava. Continuei evitando determinadas
situações e algumas pessoas se afastaram de mim,
gradativamente, mas isto não me fez falta. A psiquiatra
que me atendeu no convênio receitou, de início, um medi­
camento, a paroxetina, que foi mantido no início do trata­
mento psiquiátrico no HC. A terapia medicamentosa e
psicológica foram iniciadas em conjunto.

Titules H rilc

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Entre os meus sintomas, muitos são conside­


rados graves e outros mais simples, porém todos geram
sofrimento. A medicação com a terapia serve exatamente
para controlar a ansiedade e depressão. Em paralelo, a
terapia cognitivo-comportamental (TCC) interagia com
o medicamento, me auxiliando nas tentativas de resistir
bravamente às demandas impostas pelas compulsões
e obsessões.
Para que o leitor compreenda o quanto essas
obsessões poderiam ser perigosas, vou contar um
episódio que aconteceu antes do início do meu
tratam ento: “ Certa vez, quando m anuseava uma

INDEX
tesoura, sofri um pequeno corte em uma das mãos. No
momento do corte, invadido por uma das famosas
obsessões (que daqui por diante chamarei de invasões)
me propus a me ferir de novo, submeter-me a outra
incisão, para que esta fosse combinada a um bom
pensamento, oposto ao teor da obsessão. Eu sabia que
dificilmente conseguiria ter sucesso na primeira tentativa
de alívio, e minha mão poderia acabar dilacerada pelos

BOOKS
cortes, além do risco de infecções. Então fiz um esforço
de contorcionista para conter esta compulsão. Senti
grande angústia, mas me contive, evitei um grande
ferimento. (Essa situação aconteceu antes do diag­
nóstico, próximo à data que rememora a perda do familiar
a que me referi.)
Até pouco tempo atrás, não existia tratamento
específico para o TOC; e felizmente nos últimos 20 anos

GROUPS
foram desenvolvidas terapias que conseguem melhorar
a vida de mais de 80% dos pacientes e, muitas vezes,
eliminar os sintomas por completo.
Os recursos de tratamento rnais eficazes foram
combinados: a terapia cognitivo-comportamental e a
medicação com um inibidor de recaptação de serotonina.
A proposta do medicamento é aumentar a concentração

<) m a m u lo r de fytssos

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

de serotonina, um importante neurotransmissor. No


entanto, em casos específicos, não produz o efeito espe­
rado ou podem surgir muitos efeitos colaterais. Por
ocasião do corte com a tesoura, eu nem imaginava o
que era TOC, e muito menos fazia uso de qualquer
medicação, mas se estivesse com um tratamento bem
sucedido, a ação farmacológica do medicamento, a
princípio, regularia meu humor e minha ansiedade (para
encarar o dia com mais tranqüilidade), reduzindo a
sensação de angústia. O problema é que, de início, nem
sempre as coisas acontecem como se espera. As
substâncias utilizadas no tratamento podem agir de

INDEX
forma inesperada; cada organismo responde de forma
diferenciada. Isto significa que os efeitos colaterais
comuns em medicamentos que atuam no sistema
nervoso central podem ser aceitos por um organismo.,
mas não ser tolerados por outro.
Não respondi ao primeiro medicamento durante
alguns meses. Sem qualquer melhora dos sintomas,
meu humor piorou. Os efeitos colaterais eram quase

BOOKS
todos os descritos pela bula, mas continuei tomando até
que fosse constatado que a paroxetina não serviria para
mim. No entanto, me mantive em psicoterapia uma vez
por semana. Trocamos o medicamento, aumentamos
as doses, e este foi mais tolerado, causando menos
efeitos colaterais e melhora do humor, o que pareceu
ser uma ótima troca. Com a combinação das duas
formas de tratamento, consegui certo bem-estar. Houve

GROUPS
mudança também na dosagem administrada. Em geral,
o tratamento não se dá a curto prazo, dependendo da
gravidade dos sintomas apresentados. Meu sintoma mais
grave era a evitação. Para não precisar repetir compor­
tamentos a cada obsessão, passei apenas a evitar
situações habituais, como as que me remetiam às
lembranças traumáticas e a novas idéias negativas.
Comecei a depender da família até para a execução de

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

atividades como, por exemplo, pegar um copo. Era como


se eu fosse uma máquina, paralisada por excesso de
informação. Relatei à minha psicóloga como eu me
sentia nessas horas: “— Essa doença é como um
programa de computador, tudo nela é virtuai, recebo
mensagens que não são verdadeiramente reais, sou
alertado sobre perigos inexistentes. Os comandos do
sistema são capazes de enviar informações destruido­
ras, que paralisam a máquina, programa por programa,
ação por ação, imagem por imagem, até que reste
apenas um recurso antes que tudo seja perdido; o botão
reiniciar.”

INDEX
Os ataques do TOC me travavam funcional e
psicologicamente, enquanto desgostos e outras inú­
meras sensações atordoantes aproveitavam-se da situa­
ção. Lembrei-me da fase em que manifestei sérios
distúrbios no aparelho digestivo. Foi no período que ante­
cedeu a perda do meu familiar, que já estava internado
em estado grave. Nesta época, o TOC já mostrava sua
densidade, e eu não tinha idéia disso.

BOOKS
Meu familiar acabava de safar-se de um estado
de coma, mas quando recebeu alta e retornou para casa,
fui fazer uma consulta para desvendar o que significavam
aquelas dores que eu sentia no estômago e o ruído que
elas causavam. Fiquei surpreso pala decisão do médico,
que propôs internação imediata Diagnóstico: hemorragia
digestiva causada por duas úlceras. Relutei e argumentei
contra a hospitalização, pois sentia apenas certos incô­

GROUPS
modos na altura do abdome Mas a avaliação médica
constatou que minha face estava pálida e inchada, e que
eu corria sérios riscos. Fiquei por alguns dias na UTI até
realizarem uma segunda tentativa de cauterização, e se
esta não resolvesse o sangramento, o caso seria de
cirurgia.
Felizmente, não foi necessário que eu fosse
operado: a cauterização das duas úlceras foi bem

O m a m u io r de pttxsus

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

sucedida. Três anos mais tarde, este meu familiar,


infelizmente, se foi, o que acabou por me induzir
preocupações excessivas, e com isso surgiram duas
novas úlceras, aíém de esofagite e gastrite. Fui tratado
com medicamentos, até que as lesões cicatrizassem.
Segundo os médicos, uma alimentação irregular e ou
algum fator emocional explicavam as duas primeiras
úlceras. Considerando que na recorrência eu já praticava
restrições alimentares, pude deduzir que as causas
foram exclusivamente emocionais. Hoje percebo que a
alimentação imprópria pode sim causar sérios danos,
mas, também, acredito no papel desempenhado pelo
estado emocional. Eu sofria intensa e inconscien­

INDEX
temente, e me esforçava para não parecer abalado ou
transtornado.
Daí a importância de identificar o transtorno
precocem ente, para reduzir as chances de este
prejudicar outras partes do organismo.
M uitas vezes ficam os presos a velhos
conceitos, tal como “quem vai ao psicólogo ou ao

BOOKS
psiquiatra é louco” ou “psiquiatra é pra demente”. É como
diz minha psicóloga: “Será que louco não é aquele que
não freqüenta?”, uma perspectiva com a qual concordo
completamente.
Cheguei bastante debilitado ao tratamento,
muito ansioso para me recuperar logo, mesmo sabendo
que não se trata de um processo a curto prazo. É impor­
tante saber que a duração desse tipo de tratamento pode

GROUPS
variar, dependendo do caso, e não só das técnicas utiliza­
das pela equipe. Os resultados também dependem da
nossa resposta. O profissional nos avalia em termos de
histórico de vida, comportamento, vida familiar, entre
outros aspectosi para escolher o tratamento adequado
a cada um. Embora exista preconceito por parte das
pessoas em relação aos “profissionais da mente”, que
fique claro que os bons fazem uso da ética e da eficiência
com quaiidade.

Thntes Hn!<.

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


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O paciente e o médico devem estabeíecer um


vínculo de confiança mútua, desde que o médico
responsável ofereça confiança e atenção. Não encon­
tramos atenção e ética similares em amigos ou pa­
rentes. Somos, muitas vezes, atingidos por comentários
satíricos, constrangim entos, sentimos que somos
inferiores. Com o psicóiogo ou com o psiquiatra, é
preciso ser franco nas consultas e contar o que nos
afiige, sem pudores e expor o drama que nos atinge.
Com estas info rm a çõ e s, certam ente eles terão
condições de restituir a estabilidade aos seus pacientes.
Como eles mesmos dizem: “O que é ser normal? Cada

INDEX
um tem sua própria normalidade. O que existe são os
padrões."

BOOKS
GROUPS

O niarçüdor <U- passo s

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

O “O” do TOC:
obsessões

INDEX
No livro A vida em outras cores (Zamignani e
Labate, 2002), há um relato sobre o sofnrnento de uma
paciente, acometida por obsessões cujo conteúdo se
constituía por imagens mentais dos órgáos genitais da
sua mãe.
Com este exemplo, ilustrativo para os que
desconhecem o TOC, pode-se ter maior idéia do que se

BOOKS
passa. Sem dúvida conseguimos imaginar o sofrimento
desta paciente, e o que seria dela sem um acompanha­
mento específico. Quanto mais a pessoa tenta não
pensar no conteúdo obsessivo, mais os pensamentos
terríveis insistem em permanecer. Outro exemplo comum
de obsessões: preocupações excessivas com aciden­
tes, doenças, mortes, com imagens que de um carro
capotado, ou de um funeral. Muitas obsessões caracte-

GROUPS
rizam-se por impulsos egodistônicos (conteúdos contrá­
rios ao ego e aos valores do indivíduo) sugerindo ações
como empurrar, agredir ou até jogar algo de valor de
algum lugar alto, por exemplo.
Os impulsos, como medo de ferir a si mesmo
(por exemplo, se esfaquear) ou desconhecidos e
familiares, fazem o portador de TOC, que apresentam
essas obsessões, evitar o contato com o que lhe pareça

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

uma situação de risco. Por exemplo: se a pessoa tem


algum temor sobre acordar de madrugada e apanhar
uma faca para ferir a si mesmo, ela tenta evitar o contato
com o objeto, passa fita adesiva nas gavetas de talheres,
pede que os outros escondam objetos cortantes etc.
Quem sente o impulso de dizer palavras obscenas em
uma missa, evitará ir a cerimônias religiosas, e assim
por diante.
Não é difíci! imaginar o tamanho do desgosto e
da angústia causados pelas invasões, e as nefastas
consequências para a auto-estima. Cada vez que a
pessoa com o TOC reage às obsessões - como se eias

INDEX
fossem re a is- a tendência é que estas aumentem
ferozmente, dando início ao que se tornará uma grande
“bola de neve” com o passar do tempo .
O medo, a vergonha e a angústia causados por
esses impulsos, falsamente reais, se convertem em
estratégias repetitivas para neutralizar os supostos
riscos. Essas estratégias são as compulsões ou os
chamados rituais compulsivos, destinados a minimi­

BOOKS
zar, contornar ou eliminar as obsessões.
Diante da preocupação de não ter verificado se
o gás foi desligado, a maneira que a pessoa com TOC
encontra, para aliviar os riscos sugeridos pelos rnaus
pensamentos, é verificar, múltiplas vezes, se realmente
desligou o gás. Estipula, arbitrariamente, o número de
vezes que deve checar, ou permanece conferindo até

GROUPS
que a obsessão desapareça.
Voltando às obsessões, as mais comuns se
relacionam aos seguintes aspectos:
• Simetria (perfeição, exatidão, alinhamento)
• Impulsos (ferir, insultar ou agredir)
• Religião (pecados, blasfêmia, sacrilégios, culpa,
escrúpulos)
• Sujeira (contaminação ou nojo)

() marcador de /x/.íay-í

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

• Sexo (obscenidades)
• Dúvidas (quanto aos próprios valores e decisões
a tomar)
• Preocupações com doenças ou com o corpo
(estéticas)
• Pensamentos mágicos (números especiais são
escolhidos ou evitados, ou cores, datas, horários,
letras etc.)
• Colecionismo (armazenar, poupar, guardar inutili­
dades, sem conseguir se desfazer do que é inútil)

INDEX
As pessoas com TOC rejeitam seus
pensamentos porque eles não condizem com suas
próprias realidades, sentem-se importunadas e angus­
tiadas. Existem relatos em que o portador do TOC teme
a possibilidade de lhe perguntarem as horas: pois seu
relógio poderia estar errado, o levando a, involuntaria­
mente, mentir, o que seria um pecado.

BOOKS
O conteúdo obsessivo varia de pessoa a pes­
soa. Um indivíduo teme cometer o “pecado”, outro pode
temer um acidente, por exemplo. Apesar de listar algumas
das obsessões mais populares, inúmeras outras podem
ocorrer e igualmente interferir sobre a qualidade de vida
do portador.

GROUPS

7 h u ic s U n i o

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

O “C” do
TOC:
compulsões

INDEX
Recentem ente a im prensa de São Pauto
publicou uma história de uma senhora de posses, que
resgatava coisas pela rua e colecionava objetos inúteis,
e que vivia, não se sabe como, em meio a toneladas de
lixo. Obviamente, esta senhora não tinha o intuito de
provocar a ira da vizinhança pelo mal cheiro exalado por
sua coleção, e nem pretendia causar algum dano. Ela

BOOKS
não se desfazia de todo o lixo porque achava que um dia
iria precisar de alguma daquelas tralhas. A vigilância
sanitária foi acionada após protestos da vizinhança e
foram necessários caminhões para retirar toneladas de
lixo. Descobriram até um veículo sob o lixo! Nada do
que aquela senhora colecionou compuisivamente durante
anos teve qualquer utilidade real, apenas serviu de abrigo
para ratos enormes, atraiu insetos, produziu insuportável

GROUPS
ma! cheiro, com risco de contaminações. Seu filho sofria
do mesmo problema, mas até então em proporções
menores, provavelmente uma contribuição dos genes
maternos.
Outros rituais, estes mais freqüentes, são os
de limpeza. Diante da idéia obsessiva de ser contami­
nado por algum objeto considerado suspeito, o indivíduo
percebe que ao se lavar insistentemente (principalmente

O nturixuto! <•/■' j-xuisos 33

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

na área de contato) ganharia algum alívio, de forma que


sempre quando as invasões obsessivas ocorrem, a
pessoa passa s se lavar compulsivamente como forma
de neutralizar o medo.
Muitas pessoas com este rituai específico
acabam infectando ou ferindo o local de lavagem em
excesso, pois esfre.gam e desinfetam essas regiões do
próprio corpo até a pele ser, em alguma medida, lesada.
Nenhum desses ritua:s são prazerosos, o alívio que
proporcionam é breve. Costumam ser desgastantes, leva
tempo até que o objetivo ds aliviar seja temporariamente
atingido. A maioria das pessoas com TOC não apresenta

INDEX
somente um tipo de sintoma, mas vários ao mesmo
tempo. Temem determinada’ contaminação e, por isso,
se lava em excesso. Também pode desenvolver a
compulsão de simetria ou contagem. Os sintomas flu­
tuam em intensidade ou tema conforme as fases da
vida, tendendo a piorar em momentos difíceis. Uma das
conseqüências adversas atribuídas ao TOC é o impacto
negativo na auto-estima do portador.

BOOKS
Eis uma lista das compulsões mais comuns:

• Verificação e controle;
• Lavagem e limpeza;
• Busca de confirmação e reasseguramento;
• Contagem;


GROUPS
• Simetria (ordem, seqüência, alinhamento,arranjo);
• Colecionar;
Rituais mentais (rezar, contar números, palavras,
letras ou frases, im aginar figuras, relem brar
eventos nos mínimos detalhes etc.);
• Repetição de comportamentos (tocar, olhar, falar,
pedir que repitam etc.).

IIK ilr s l ir iio

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Os primeiros sintomas, com o passar do tem­


po, podem abrir espaço para outros, ainda mais comple­
xos e diversificados. Pelo fato, que, em muitas vezes,
contrariam os valores e anseios do portador, criando
grande confusão. Historicamente, o primeiro nome dado
para o TOC foi, em francês, “follie de la doute”, a loucura
da dúvida.
Obsessões e compulsões nos aterrorizam,
mesmo em momentos mais serenos. Ao longo do
tratamento, consegui entender muitos dos aspectos que
mais me incomodavam. Precisei buscar calma, sensi­
bilidade e serenidade em alguns momentos, recursos

INDEX
raros para mim.
Tinha a necessidade de explicar os meus sinto­
mas, responder a questões como: “— É uma tentativa
de tapar o Sol com a peneira?”. Para melhor enten­
dimento do leitor, conto com sua interatividade no capítulo
seguinte.

BOOKS
GROUPS

(J rnnrcm.hr de fxtssos ■15

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Fenômenos
sensoríais

INDEX
Imagine ou apenas se lembre de algo que lhe
faça sentir repúdio, ódio, nojo, raiva, ou coisa semelhan­
te. Em outros termos, um somatório de sentimentos
repulsivos e indesejáveis. Perceba o quanto isso incomo­
da. Estou certo? Meu TOC funciona assim, como para
outros portadores.
Se você estivesse sob minha pele, prova­

BOOKS
velmente estaria com arrepios, ofegante, ansioso,
enojado e com os batimentos cardíacos mais fortes e
rápidos. Mas tente se acalmar. Recorde-se daquilo que
você mais gosta e que pode lhe oferecer prazer. Neste
caso, também é possível ter arrepios, sentir-se mais
ansioso, ofegante e com o batimento cardíaco acelerado
Note que nas duas situações as reações são parecidas,
tanto para aversão quanto para o prazer.

GROUPS
Para ilustrar mais claramente o significado deste
primeiro exercício, proponho ao leitor um segundo, para
entender o que se passa dentro do próprio TOC. Imagine
você se servindo do prato que mais lhe agrada. Só de
imaginar você sente aquela famosa “água na boca” .
Imagine, também, algo muito nojento, como um pulmão
de um cadáver em decomposição, talvez de alguém
próximo e querido. O pulmão está disposto sobre seu

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

alimento predileto, aquele prato suculento que antes


despertou seu apetite. Qual foi sua reação? Sentiu a
água na boca, mas com vontade de cuspir, enojado, com
ânsia de vômito? Finalmente, imagine que estas imagens
e sensações sobrepostas surjam, realmente, a cada
refeição, todos os dias. Imagine o tamanho do transtorno
que se segue: dá para este prato altamente suculento
ser encarado com naturalidade?
De modo semelhante ao que ocorre com outros
portadores de TOC, eu me sentia obrigado a neutralizar
compulsivamente as imagens mentais repulsivas. No
mínimo, precisava explicitar algum desagrado por meio

INDEX
da minha expressão facial. Cada vez mais, eu me encon­
trava confuso, desorientado. Em uma consulta, me
queixei dessas ocorrências para minha psicóloga, que
respondeu: “— Calma, respire e pense. Você não precisa
ir até o fim, isto é, não precisa buscar uma prova conclu­
siva do teor da obsessão. Pense em coisas boas, no
prazer do que você quer. Pense nas suas necessidades".
Saindo da consulta, eu já queria colocar este

BOOKS
aprendizado em prática, mas só conseguia, ern raras
situações, lutar contra as obsessões. O TOC parecia
sugar as técnicas que Shirlei ensinava, ficava ainda mais
forte.
É fácil perceber quando estes pensamentos
incomodam. Entretanto, lutar não é tão fácil assim. Ainda
existem os hábitos, e mesmo que não ocorram, um mau

GROUPS
pensamento ocorria, e sem que eu me desse conta, as
compulsões já estavam presentes. Por outro lado, existia
a brutal necessidade de afastar o desconforto, sentir
novamente que eu estava em segurança. Os pensa­
mentos com função de ritual compulsivo serviriam para
combater a aflição gerada pelas obsessões. Assim, se
o indivíduo sofre com obsessões (como imagens de um
acidente), ele deve buscar substituir essa imagem pela
cena de uma festa comemorativa.

() marcador de [xissus

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

A princípio, apesar de as invasões surpre­


enderem, saber que tenho possibilidade de usar um
perfeito pensamento neutralizador, deliberadamente
produzido, já garantia um pouco de tranqüilidade na
minha rotina. Embora sua eficácia não fosse completa,
continuavan a neutralizar o sofrimento gerado pelas
invasões, com o desempenho efetivo das compulsões,
aos quais considerei como guardiões. Isto abria espaço
para um grande campo de batalhas.
Por meio de várias consultas e conversas sobre
o jogo de forças entre guardiões e invasores, tornei-me
consciente daquilo que antes me era pouco acessível

INDEX
ao entendimento, e pude me satisfazer com as conclu­
sões que apresentarei no capítulo seguinte.

BOOKS
GROUPS

7 iítíte .s B r i t o

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Guardiões
X
Invasores

INDEX
BOOKS
GROUPS
Em meio à minha aflição para entender o que
se passava comigo, cheguei a construir um diagrama,
que certamente parecerá de difícil compreensão aos
leitores. De qualquer maneira, preferi mantê-lo neste livro
para que o leitor tenha idéia do grau das dificuldades
envolvidas. No entanto, reconheço que nem eu mesmo
conseguiria transpor em palavras esta minha complexa

f) m arav.hr de pa.t so.s

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

concepção, o retrato de uma verdadeira aflição particular.


O que espero tenha ficado claro, neste gráfico, bastante
intrincado, é que ele representa de maneira absoluta a
forma como todo este transtorno me conduz.
Agimos movidos por necessidades que procu­
ramos preencher. Como vimos, meu caminho tornou-
se cheio de obstáculos, eu me congelei no tempo, por
um longo período. No entanto, não se trata apenas de
sofrer invasões e executar os respectivos rituais. O
processo é tão intenso e desgastante que eu deixava de
fazer qualquer outra coisa, não via saída para lidar com
minhas necessidades reais e naturais.

INDEX Pela minha experiência, dois ou mais fatores


agravantes não costumam atuar simultaneamente, isto
significa que a obsessão ocorre com um únicc tema, o
que não impede ocorrer outro a seguir. Isso acontece

BOOKS
quando obsessões freqüentes são substituídas por
outras mais fortes ou inusitadas. Isto me pega despreve­
nido. Com a ajuda da terapia, consegui afastar os sinto­
mas mais fracos, até que eles, praticamente, deixaram
de influenciar minhas ações. São os sintomas que
nomeei como “TOC passado”.
Antigas obsessões, às vezes, parecem voitar
à tona, entretanto estou mais apto a ignorá-las. Nem

GROUPS
todas as associações referentes ao “TOC passado"
(eventos, contextos, lembranças, ações) são facilmente
superadas, mas alcançar essa meta é um grande passo
rumo à salvação.
Determinadas obsessões não me paralisam
mais. Este é o caminho a seguir com todos os outros
obstáculos. Nesta fase, recorro a contrapesos. Se o prato
da balança pender ainda mais para o lado do mais forte,

Th a (es Uri to

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

continuo lutando com pertinácia, para que a carga


diminua, até que desapareça por completo
Mesmo longe dos 100% de rem issão dos
sintomas, continuei a desvendar os que me cercavam.
Quando paralisado, eu me perguntava: “— Como isto é
possível, se meu corpo permanece saudável? Tenho
mãos, braços, pernas e pés, mas não controlo meus
atos?”. O TOC me paralisava. Dependia dos familiares
para que fizessem coisas por mim, dar conta de neces­
sidades básicas, não me enroscar com o que aparen­
temente é simples e muito importante. Não bebia água
porque tinha o receio de ficar ali, grudado no copo ou, de

INDEX
ter de enchê-lo e esvaziá-lo, ou mesmo de me obrigar a
beber mais do que precisava, um excesso que poderia
até me fazer algum mal. Não usava determinadas peças
de roupa e até evitava me trocar. Não saia de casa em
função das dificuldades; não dava telefonemas para
manter longe a possibilidade de ter que refazer a ligação.
Entre tantas evitações, cheguei ao ponto de me asseme­
lhar a um mendigo, visto que alguns hábitos de higiene

BOOKS
também acabaram ficando de lado.
Com a terapia, aos poucos, retomei algumas
das atividades. Vagarosamente me pegava fazendo
coisas que evocavam alguma lembrança ruim. Era um
tanto complicado, tinha que cum prir meu compro­
misso com a terapia, apesar de quase tudo, principal­
mente em casa, me remeter a essas lembranças ruins.

GROUPS
Se, por exemplo, tivesse a preocupação de que algo
fosse acontecer quanto à minha saúde, e estivesse
usando a camisa da cor “x”, esta peça de roupa passaria
a ser evitada. Não minto ao dizer que se tratava do grande
esforço, pois era o que eu fazia, para não acabar impedido
de usar todas as minhas roupas.
A partir de tudo que já expus não deve ser difícil
perceber que nós, portadores de TOC, nos deparamos
com grandes dificuldades, pois às vezes náo temos

! > iuurrn(Ji>r tti > ptiss<

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

noção de onde termina uma obsessão e começa outra.


Comumente os sintomas vêm, arrebentam tudo e
deixam marcas. E retornam depois, com maior poder
de devastação. Quando aprendemos a identificar as
nuances do processo, podemos entender, em meie à
desordem, aquilo que nos aflige.
Por algum tempo sofri de outra obsessão, que
inicialmente me incomodou muito. Estava sentado em
meu quarto pela manhã, ouvindo música, e ievsntei para
mudar o CD. Ignorei o pensamento invasor, agindo “como
se deve”, mas queria repetir o meu trajeto desde o ato
de levantar até a troca do CD. Não ceder à compulsão

INDEX
fazia com que eu me sentisse um cúmplice do conteúdo
repulsivo expresso pela obsessão, então cedi novamente.
O conteúdo da obsessão, como de costume, não era
condizente comigo, e progressivamente consegui algum
poder, aturando ou ignorando cada obsessão. Senti que
ignorá-las seria possível, ainda que o medo ou descon­
forto subsistisse. Naquele dia não repeti a ação de
levantar-me e trocar novamente o CD. Minutos depois,

BOOKS
ainda lutando por conter a compulsão, algo extrema­
mente difícil, entendi o que realmente acontecia. Consta-
tei que se eu deixasse de repetir compulsivamente os
rituais de neutralização, a despeito do sofrimento envolvi­
do, não mais compactuaria com as terríveis obsessões.
Não gosto delas e tenho que ignorá-las até que sumam
de vez. Não preciso voltar e repetir tudo, bastando ignorá-
ias e segurar a compulsão. Estranho é que Shirlei já havia

GROUPS
me dito isso, com outras palavras, mas conseguir isso,
na prática, foi um grande progresso. Assimilei o signifi­
cado da luta, talvez semanas após aprender a técnica,
e realmente senti considerável alívio, o qual não imagina­
va ter a capacidade de alcançar. Não é fácii pensar e
discernir, ser calmo e cauteloso, quando o transtorno
ocupa mais espaço do que se pode suportar, mas tive
ímpeto para realizar este importante feito. Sou firme ao

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

salientara importância da informação, para entendermos


que, mesmo entre tanta baderna, podemos aturar e
ignorar coisas, não importando quão resistentes e
nojentas elas sejam.
Proponho, agora, um raciocínio similar ao do
“prato suculento” para falar de fenômenos sensoriais:
às vezes, quando estamos postos a dormir, pernilongos
insistem em zumbir em nossos ouvidos. Apenas uma
vez, hipoteticamente faiando, um se aproxima, zum­
bindo, e então o espantamos. Não se aproximou mais,
mas não temos certeza se ele desistiu mesmo de nos
importunar, se fugiu peia fresta da janela, ou se ainda

INDEX
ronda à nossa espreita. Sacudimos uma vez o braço,
achando que o pernilongo voltou, e em seguida, sentimos
coceira no outro braço. De repente, ela passa a ser mani­
festar por baixo da roupa, ainda que até o momento,
tenha sido ouvido apenas um único zumbido. Para
afastar, então, qualquer suspeita ou incômodo, resol­
vemos que se nos cobrirmos por completo afastaríamos
qualquer risco hipotético. Em seguida, mesmo sob as

BOOKS
cobertas e com base na remota hipótese da presença
de um inseto, passamos a ter a sensação do pernilongo,
sobre a pele, a despeito da proteção exercida pelo
cobertor e pelo pijama. Muitas pessoas já tiveram uma
experiência como esta. Penso que a existência de algo
que talvez possa incomodar, mesmo que pareça insigni­
ficante, faz com que nossos circuitos sensoriais traba­
lhem de forma a intensificar nossa sensibilidade. Nos

GROUPS
sentimos perturbados mesmo na ausência do agente
da perturbação. Nosso corpo é preparado para se
defender, mas na situação do TOC, permanecemos
sempre em guarda, registrando qualquer evento, e
distorcendo interpretações, que tendem para coisas
negativas, que não nos favorecem.

Omcirrador c;’e Ci

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


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Pausa
Quero, não só quero, mas
tenho o sonho cie acordar am anhã,
leve. sem culpas, ou distorções e deso­
brigado de, cumprir qualquer ritual, p en ­
sando que tudo isso foi um grande pesade­
lo. Quero abrir os olhos normalmente. sair
da cam a, tom ar meu caje, acender o

INDEX
cigarro, ligai a 77. abrir a janela, organizar
a bagunça, me lavar, fazer exercício, almoçar e
não me ver forçado a minimizar as tensões das
invasões.
F melhor, que isso não seja um sonho,
mas a pura realidade. Quero acordar como se estivesse
saindo de um coma prolongado. Quero sair, viver.:
ver, sentir gostos, cheiros, texturas, quero o u vir e não

BOOKS
mais sofrer, não mais rne lim itar ter que manobrar
amarguras e ruídos (lesctmfortáveis.
Quero continuar gostando do que gosto, seguir
meu nimo de acordo com minhas reais necessidades, Fpouco
assim. F indo isso. Quero que minha rida seja simples,
mais prazerosa, menos tortuosa, menos traumático. Quero
me conter quando isso for o melhor. Quero um fazer não
movido por hábitos, quero passar longe de qualquer ritual.

GROUPS
Quero não ter medo do medo. Quero lutar por
m inhas metas e me desfazer do que não quero. Desejo
aprender mais e desaprender o que n ã o me serve, não presta
e não me interessa. Sou homem e não máquina. embora às
rezes eu me confunda. Quero não ter tanto impulso. c sim
pulso para me administmr. Fu tenho coragem e já venci
mudas vezes. Sou guerreiro e já destruí muitos fantasmas
que me assombraram durante anos.

4 4 t'fiafv.t Uri

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Atenção seletiva

INDEX Desde muito cedo tenho pavor de aranhas. Aos


quatro anos de idade, observei uma pequena aranha
sobre meu pé, enquanto brincava distraído no quintaj.
Fiquei assustado com ela e a chutei para bem longe, o
mais que pude. Quando cresci, o medo já não era tão
grande assim, no entanto me queixava de que, em todo
lugar aonde ia, lá estavam estes bichos. Lembro-me de

BOOKS
um dia no qual cheguei a matar 17 aranhas. Em outra
ocasião, eu trabalhava junto com um colega e na volta
do almoço tínhamos o costume de passar pela sua casa,
a caminho do trabalho. Enquanto esperava, uma aranha
descia pela teia à minha frente, quase sobre o meu rosto,
quando o colega voltou , comentei que havia a matado
ou espantado o animal. Aí ele respondeu: “— É mesmo?!
E esta que está no seu ombro?”. A princípio desconfiei,

GROUPS
achando que se tratava de uma brincadeira, mas logo
percebi o movimento de um ponto preto sobre o meu
ombro, o que deu fé ao seu comentário. Então a expulsei
e reclamei indignado: “— Tá vendo? Essa coisa me
persegue!”. Chegando ao trabalho, me sentei à cadeira
próxima da parede e fui surpreendido com um movimento
semelhante no meu ombro. Olhei para o lado e confirmei:
“— Outra aranha!”. Esta era bem maior que as comuns,

O marrxt.fi/ir de passo*

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e parecia querer se alimentar da minha carne, pelos


movimentos e maneira como me sondava. Desta vez
virei motivo de piada, porque pedi ajuda para me desfazer
do “anima!” e quando a esmagamos, deixou um rastro
marrom na parede. Para mim, as aparições das aranhas
eram algo substancialmente anormal. Por que motivo
elas não rondavam e nem escalavam as outras pessoas,
por que era só comigo que isso acontecia? Por que eu
tinha medo? Para ter que enfrentá-las, como se fosse
meu carma? Seria porque eu prestava extrema atenção
a estes seres com oito patas? Ou pura e simplesmente
porque estaria freqüentando lugares mais favoráveis ao
desenvolvimento das aranhas? Pensando bem, fico com

INDEX
as duas últimas hipóteses. Eu estava realmente muito
atento às aranhas, involuntariamente. O resuitado, no
final das contas, assumia proporções homéricas. E,
certamente, os ambientes que freqüentava, favoreciam
a preservação dessa espécie. Eu me dava conta da
onipresença das aranhas porque tinha medo delas e
prestava mais atenção aos sinais de sua presença.

BOOKS
Se gostamos de certo modelo de carro, na cor
vermelha, pode ocorrer de o carro desejado aparecer
num sonho, e identificamos dezenas deles rodando
diariamente pela cidade. E a pessoa pode pensar “é um
sinal, eu tenho que comprar este carro!”. Ao chegar em
casa, liga a televisão e naquele instante vê o comerciai
do mesmo carro vermelho. Você já passou por isso?
Isto é a atenção seletiva: capturamos aspectos do

GROUPS
ambiente que sequer seriam notados por quem não tem
fobias ou TOC. A ssociando as obsessões aos
mecanismos de atenção seletiva, passamos a evitar
números, letras, cores, uma infinidades de coisas e
situações, pois queremos nos poupar do desgaste
provocado pelos pensamentos invasores. Em um curto
espaço de tempo, passamos a perder o controle sobre
as invasões obsessivas. Quanto maior o cansaço, maior

Thafrs tírih)

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a incidência das obsessões e o descontrole. Uma vez


que os rituais compulsivos acompanham as obsessões,
torna-se difícil contê-los. Por mais que se tente relaxar,
de algum jeito, parece que o corpo divide-se em duas
partes: uma que resiste e outra que se engaja na compul­
são. A respiração trava os músculos, ficamos tensos e
irritados. Tal como se fosse uma superstição, cada
instante é como se recebêssemos a visita de um oráculo
que diz: “Se não fizer x, vai acontecer y”. E bastante
incomodados, desconfiássemos, constantemente, de
nossa sanidade mentaí. Mesmo que saibamos que nada
acontecerá, volta e meia cedemos aos rituais. A questão
da loucura aparece ainda mais quando a ansiedade é

INDEX
extrema: falo baixo, como se estivesse em oração, e
sacudo a cabeça ao mesmo tempo em que pisco os
oihos e caminho de um lado para outro, sem reparar no
que faço, apenas sob influência do desconforto e nojo
gerado pelas horríveis obsessões. São gestos atípicos,
esquisitos ou ridículos, que nos fazem questionar a
própria racionalidade. Fazem crer que se está perdendo
a razão. Vale lembrar que as obsessões do TCC se des­

BOOKS
tacam pelo esforço extremo para que os pensamentos
normais voltem a prevalecer.
A parceria entre atenção seletiva e contextos
associados ao TOC é constante. Exemplificando, eu
evito o número 4 porque ele me causa o maior incômodo.
Mas o mecanismo de atenção seletiva daria a impressão
de que este número estaria me perseguindo, o que invia­

GROUPS
bilizaria o resto do meu dia. Apenas um algarismo torna-
se capaz de trazer à lembrança todos os passos que fiz
em um dia ruim: o que usei, com quem me relacionei,
daí em diante, Se nesta ocasião vestisse camiseta azul,
desse momento em diante passaria a não mais usá-la.
Ou, se houvesse falado com a pessoa “x", tivesse dito
determinada coisa, bebido num determinado copo, tudo
passaria a ser evitado, e meu campo funcional diminuiria
consideravelmente.

O marcador c/f [ kis .v i .s

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Caminho cautelosamente em meio a um cam­


po minado, e muitas vezes minas explodiram, causando
insatisfação, desânimo, lentidão e mais ansiedade.
Quando dispensava ajuda para executar atividades
cotidianas (por exemplo, tomar um simples copo d’água);
me encontrava tão agitado que, ao encher o copo, na
pressa, acabava derramando tudo, ou deixava o copo
tombar, tudo para que não desse tempo de as obses­
sões chegarem. Shiriei não aprovava o uso desta técni­
ca, e afirmava não ser nada benéfica. Segundo ela, por
mais duro que fosse, nessas horas eu deveria pensar
na necessidade do momento (beber água), de modo a
alcançar meu objetivo.

INDEX
BOOKS
GROUPS

T h a l e s H r ;to

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Experiência
(A.S. Atenção Seletiva)

INDEX
“Nesta fase. parece que o mundo gira ao meu redor.
Parece, que todas as palavras servem para mim, que tudo
que vejo é para mim, que os objetos e seus movimentos são
símbolos e que tudo vai me ensinar uma lição. Como rwer
achando que tudo é uma mensagem, alguma coisa mágica,
mística, significativa, algo além do meu alcance, que preciso
apreender e aprender}' Ihrece que uma única escolha trá

BOOKS
influenciar todas as outras c repentinamente tudo mudará,
e as pessoas em volta também. Mas c um sinal de que nimha
cabeça não anda bem. Essa c a simples explicação para
tudo isso: Transtorno Obsessivo Compulsivo.

Por essas e outras razões, tinha o cuidado de


ocultar obsessões e rituais na presença dos outros.
Perante pessoas de fora da família nunca deixei que

GROUPS
ocorressem, ou, pelo menos, disfarçava muito bem os
rituais, tanto que quando comuniquei o meu estado a
algumas pessoas, elas demonstraram uma certa des­
crença sobre o que eu dizia. Eu, geralmente, lhes trans­
mitia muita inquietação. O receio de “se expor” existe
mesmo. Eu poderia ser motivo de piadas, apontado como
louco, ser desrespeitado ou excluído e, quem sabe, até
perder a cabeça em um momento de fúria. Tudo pela
falta de informação. As pessoas desconhecem o que se
O mnrrador rfc

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passa a cada crise, e não têm a mínima idéia de que


sentimos.
As pessoas pensam que as compulsões mais
populares, como lavar as mãos ou fazer contagem são
apenas hábitos e nada mais. Ao explicara alguém como
funcionam as obsessões e compulsões, com freqüência
maior do que se espera, ouço em resposta: “Ah! Eu
também tenho isso!”, soando como se fosse um sinal
de fraqueza nossa reclamar deste sintoma. Parece que
as pessoas pensam: “Nossa! Como ele se abate por
tão pouco!”. Diante desta última hipótese, fica claro o
quão pouco meu interlocutor entendeu, pois há diferen­

INDEX
ças incalculáveis entre meras “manias” e sintomas
incapacitantes do TOC. Somente quem sofre de TOC
tem idéia destas proporções.
Manias são simplesmente hábitos que comu-
mente as pessoas têm ou adquirem por meio de um
grupo de convivência. Por exemplo: você prefere ouvir
música em determinado volume de som, mas se não
estiver nesta altura, não terá sentirá uma obrigação

BOOKS
incontrolável de “ter que” posicionar o volume no ponto
exato da sua preferência. Ou você pode ter o hábito de
dormir de meias, o que não lhe impedirá de dormir
estando sem elas. Hábitos como estes são conside­
rados comuns e, se praticados sem excessos, são até
saudáveis. Pode-se, por exemplo, esquecer de verificar
a válvula do gás antes de uma viagem, mas seria
adequado conferir, para prevenir alguma catástrofe. Se

GROUPS
o TOC fosse apenas isso, sem dúvida que não teríamos
problemas.

T h n l c s H r iit.

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Os dois lados
da moeda:
ansiedade e depressão

INDEX
Após eu apresentar uma pasta recheada de
anotações sobre minhas vivências cotidianas, um
psiquiatra do Hospital das Clínicas comentou, com certa
ironia: “— Você gosta de explicar as coisas, não?”.
Respondi: “— Parece que sim...”. Ele me orientou a
trabalhar em cima do que vale a pena, e, afinai, parece
que ele tinha razão, pois explicar tudo pode mesmo ser

BOOKS
muito bom. Se, por um lado, posso perder muito tempo
com futilidades, por outro foi o que me ajudou a compre­
ender uma série de coisas sobre as quais ansiava por
explicações.
É fato que o TOC sempre é surpreendente. É
só baixar um pouco a guarda e POW! Quando seu
“tema” obsessivo parece a ponto de se resolver, ele
encontra um novo caminho para constranger você,

GROUPS
outras incursões. O transtorno de ansiedade se tornou
implacável, atropelou meu percurso, gerou sentimentos
tortuosos, fui maciçamente oprimido e deprirni.
Entendo esse processo como um círculo.
Quando a ansiedade atingia o topo, eu vislumbrava o
horizonte da depressão. A ansiedade me levava a tomar
decisões que julgo pouco tolerantes, meu comporta­
mento era hiperativo o suficiente para desempenhar

() iimrrcuior th' p<i.s.vo.v J/

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compulsões nada agradáveis e gerar mais angústia, peta


tentativa frustrada de executar um ritual malsucedido.
Após atingir o outro lado - a depressão sentia
ao mesmo tempo um marasmo e uma fúria, o que
implicava novamente em sentir ansiedade. O humor
oscilava; bastava qualquer detalhe para m odificar
repentinamente minha disposição e humor.
Em muitos casos, essas mudanças rápidas de
humor podem ser confundidas como diagnóstico de
transtorno bipolar do humor, antes conhecido por psicose
maníaco-depressiva. Alguém pode mesmo ser acome­
tido por dois ou mais transtornos psiquiátricos, de modo

INDEX
alternado ou simultâneo (dá-se o nome de comorbidade
a este fenômeno). Assim, a pessoa que sofre do trans­
torno bipolar e de TOC, pode ter obsessões, compulsões
e alterações graves de humor. Há, também, comorbidade
com tricotilomania (arrancar fios de cabelo), transtorno
dismórfico corporal (forte crença numa feiúra ou imper­
feição acerca de um ou mais aspectos físicos, seja a
partir de um defeito inexistente ou praticamente imper­

BOOKS
ceptível), transtornos de hábito (como roer as unhas ou
beliscar a pele) etc. Segundo dados divulgados pela
ASTOC (Associação de Portadores de Síndrome de
Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo Compulsivo),
a depressão e o TOC, em geral, ocorrem conjuntamente
no indivíduo adulto, e mais raramente em crianças
e adolescentes. Um dado curioso é que, se o portador de
TOC apresentar um quadro depressivo, geralmente não

GROUPS
fica desprovido da capacidade de sentir prazer, diferen­
temente das pessoas apenas com depressão, e estas,
por sua vez, raramente têm os pensamentos intrusivos
característicos do TOC.
Em função destes ’’picos*’ de ansiedade, já
me esqueci de apagar as luzes antes de sair de casa,
deixei eletrodomésticos ligados, larguei o gás aberto e o
vidro do carro abaixado, entre outros descuidos deriva-

7 ha/c.t ftrito

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dos do estado ansioso. Conheço outro portador que, ao


parar o carro numa ladeira, esqueceu de puxar o freio
de mão e o carro espatifou-se ladeira abaixo. Pensamos
muito “no depois” e ficamos desconectados do presente.
No TOC, os pormenores viram enormes obstáculos.
Depois das obsessões e compulsões, marcas
da ansiedade no TOC, a depressão é parceira que mar­
ca impiedosamente sua presença em diversas fases do
transtorno. A depressão pode decorrer do emaranhado
do TOC.

INDEX
BOOKS
GROUPS
“/ alo de am a roleta russa. A força
que me fez arrastar um Irem vem à tona,
espon tan eam ente . Uma reação quím ica
e x p lo s iv a , c a u s a d a p elo a u m en to d a
ansiedade ”

I ) m arcador de pousos

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Tensão
pré-ataque
obsessivo

INDEX Destaquei do livro O homem que fazia chover,


escrito peto neuroiogista e pesquisador Edson Amâncio,
um trecho no qual ele descreve a complexa neurofisio-
patologia do TOC;

“Recentemente, alguns autores (pesquisadores) vêm


postulando que os sintomas do TOC ocorrem quando
se desenvolve feedback excitatório nas interligações

BOOKS
recíprocas entre o lobo frontal e o tálamo e quando,
concomitantemente, a porção ventromedial (limbica) do
estriato exerce inibição inadequada. Esses autores
sugerem que tal hiperatividade frontotalâmica seja o
resultado da dispursão seletiva da região órbito-frontai
responsável pela origem dos impulsos interoceptivos e
am bientais(A m âncio, p112.)

GROUPS
A grosso modo, eu consigo entender que os
comportamentos repetitivos e agitados do TOC resultam
de sofisticados processos biológicos. Minhas obsessões
surgem velozmente, sem que eu me aperceba. Nos estados
de evitação, cultivava com zelo um pensamento “guar­
dião”, a ser utilizado em caso de necessidade. Eu tentava
emparelhar um pensamento agradável aos comporta­
mentos que precisasse desempenhar, de forma a dar

M a l e s ttrtir,

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

conta de minhas necessidades. Só assim eu me sentiria


motivado a cuidar de mim, fazer o que meu cotidiano
exigia. Apesar da dificuldade imensa de perceber quando
um pensamento normal saia para ceder sua vez à inva­
são, eu só tomava conhecimento de que estava nova­
mente obsessivo quando sentia o impacto desta mudan­
ça. Tais transformações eram freqüentes, e só mais tarde
pude interpretá-las da seguinte forma: imagine uma roleta
com a maioria dos números em vermelho, representando
as invasões, e apenas um ou dois números azuis, per­
meados entre os vermelhos, representando meus reais
pensamentos. Pela estatística, é obviamente maior a
probabilidade de rodadas com resultados vermelhos. Eu

INDEX
continuava a rodar infinitamente a roleta até obter um
azul e recuperar minha relativa serenidade. Eram minutos
ou horas desgastantes., e ocorriam mais rituais para con­
tornar tão aversivo processo.
Após uma sessão de terapia, na qual colocamos
alguns “pingos nos is", construí um raciocínio senão
filosófico, talvez teórico. Entendi que, antes da ansiedade

BOOKS
manifestar-se de modo agudo, bem evidente, eu já vivia
em um estado de grande tensão: eu tinha medo de ter
medo, era refém das situações que potencialmente pode­
riam gerar problemas. Por mais que estivesse exausto,
eu não me poupava e enfrentava as situações, de ma-
neira que passei a questionar o suposto medo. Com mais
calma, notei que não se tratava de medo de realizar
ações. Pela tensão corpora! que observei em mim (om­

GROUPS
bros encolhidos, rigidez na nuca, punhos cerrados, uma
espécie de postura de contenção de impulsos), cheguei
à conclusão de que substitui o suposto “medo” por um
constante estado de tensão., ao qual nomeei Tensão Pré-
Ataque Obsessivo. Penso que esta tensão contínua não
só antecederia os estados de lentidão obsessivos, mas,
sobretudo, os sustentariam.

O ninraiditr rfr ptissot.

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Lentidão
obsessiva

INDEX Nas fases de exuberância sintomatológica do


TOC, precisava me esforçar em dobro para que outras
pessoas não notassem meu problema. Agindo em prol
da auto-preservação, para que terceiros não me
considerassem um descontrolado ou coitado, mantinha
um pensamento agradável (um dos guardiões) como
escudo, e lutava para que minhas ações fossem acom­

BOOKS
panhadas por esse pensamento bom.
Embora estivesse armado rumo à batalha, ainda
assim poderiam ocorrer invasões. Não queria ter que
repetir comportamentos porque isto me ievava à para­
lisação. Eu parecia uma estátua congelada, preparando-
me lentamente para o próximo movimento. Buscava
desempenhos “perfeitos”, desprovidos de obsessões. A
título de preparação para cada movimento, permanecia

GROUPS
imóvel e altamente concentrado, às vezes por minutos,
lutava e me esquivava contra os maus pensamentos,
ansiando agir rapidamente, impedindo o surgimento de
obsessões. A premência de agir com perfeição e em
alta velocidade, ou a presença de alguém a me apressar
aumentava minha ansiedade, como se meu corpo explo­
disse, refletindo a tempestade de movimentos, tão
velozes, que podia tropeçar, derrubar coisas, esquecer

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

outras portas abertas, e muito mais. Às vezes, mesmo


depois de tanto preparo, me rendia à realização do ritual,
repetindo cada ação ao menos uma vez mais. Com
estas atitudes, entre outros objetos, quebrei pratos e
copos,

“Um sintom a raro é conhecido como “lentidão


obsessiva” em que não há repetições das ações, mas
grande demora em todas as tarefas diárias. Considera-
se que indecisões, ruminações e rituais encobertos,
provavelmente por medo de errar ou causar problemas,
sejam responsáveis pela lentidão manifesta".

INDEX
(Zamignani e Labate, A vida em outras cores, p. 28)

Ao menos no meu caso, a lentidão se manifesta


mais quando não se pode errar ou em atividades que
identifico como envolvendo algum risco. Por exemplo,
mexer em um ferimento ou remover um fio de cabelo
que entrou no olho são considerados comportamentos
de risco, porque seria prejudicial ceder à compulsão de

BOOKS
refazê-los. Por isso, a lentidão ao executar cada ato.
Em algumas fases, fico paralisado cerca de
vinte minutos a cada passo que compõe uma ação maior.
Faço cerca de quinze repetições, em média, até arrema­
tar a tarefa. Assim, diria que me esforço fisicamente, no
mínimo quinze vezes mais do que as pessoas conside­
radas sem TOC. Se, num dia, tenho cerca de 20 tarefas,

GROUPS
levo cerca de quatro horas para resolvê-las, sem contar
o esforço e a média de quinze repetições nas etapas
menores, com tempo médio de três minutos em cada
uma.

O março dor c/r passos

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Adoção de
novos rituais

INDEX Na procura de alívio por meio de rituais, o indiví­


duo tende a aprender novas compulsões. As veihas solu­
ções já não bastam para oferecer bem-estar. Em certa
época criei o hábito de varrer meu quarto pelo menos
umas oito vezes ao dia, o que servia como distração
dos pensamentos obsessivos. Quanto mais eu varresse
o quarto, mais longe a sujeira ficaria, tanto a literal quanto
as sujeiras das obsessões. Foi quando fiz uso de um

BOOKS
único símbolo para substituir a prática de varrer, o que
implicava em posicionar a vassoura na porta do meu
quarto, do lado de fora, e isto aparentemente reduziu a
minha compulsão por varrer. Isso me remeteu à lem­
brança de rituais de bruxaria que usam um princípio
similar, vassouras são penduradas atrás da porta, ou
participam da limpeza do local onde ocorrem as práticas
mágicas. Eu diria que reinventei o princípio do seu simbo­

GROUPS
lismo, o que me fez perguntar: por acaso, em algumas
práticas religiosas ou superstições, a pessoa ou grupo
que os teria desenvolvido poderia ter sofrido de algum
transtorno parecido com o meu? Foi uma descoberta
tranqüila, e o que favoreceu esta compreensão foi o fato
de já estar em tratamento e saber com o que estava
lidando. Se as condições não tivessem sido favoráveis,
a idéia da vassoura na porta poderia ser o portal de
entrada para uma série de novas obsessões.
■> "> T h a l .- s l i r i h ,

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

A “adoção” de comportamentos compulsivos se


dá nos casos em que o portador observa ou ouve histó­
rias de terceiros com o mesmo transtorno, mas com
diferentes rituais. Se o novo conteúdo for compatível com
as necessidades de quem é suscetível, é possível que
este seja incorporado ao conjunto de comportamentos
de TOC de quem o adota. Para quem tem TOC como
eu, é um risco saber de outros rituais.
Muitos hábitos são frequentemente imiiados em
qualquer lugar. Um ator que tem o hábito de entrar no
palco sempre com o pé direito é considerado supers­
ticioso, mas seu sucesso ou insucesso não se deve a

INDEX
como pisa, e sim ao seu talento. Alguém do seu grupo,
por exemplo, ao observar que o colega de profissão obte­
ve um bom desempenho ao agir de modo supersticioso,
passa a adotar o mesmo comportamento, em busca de
similar sucesso. Se a pessoa com o ritual obtiver o
resultado esperado, é provável que repita o comporta­
mento supersticioso, que no final das contas, não deixa
de ser um modo de fuga.

BOOKS
GROUPS

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Contemplando
as formas:
geometria intrigante

INDEX Em que a forma das coisas que me rodeiam


poderia me ajudar nos sintomas de TOC? Em nada,
exceto a produzir mais distorção. Era comum ter a
sensação de que eu era um grande sábio que a tudo
conhecia. Achava que minha aprendizagem já era o
suficiente para toda a vida. Certas coisas eu não
entendia, e não admitia isso facilmente. Declarei, numa

BOOKS
ocasião, a dificuldade de entender e conviver com o
sistema e fui humilde ao declarar isso. Mas o fato é que
realmente queria entender por que as coisas são como
são, eu me interessava pela origem e determinação das
coisas.
O que realm ente me paralisava eram as
observações sobre determinados objetos. Suas formas,
estruturas, materiais, cores e funcionamento faziam-me

GROUPS
perguntar o porquê de sua existência. Contemplava o
design e questionava a funcionalidade das coisas como
se seus inventores não houvessem me informado sobre
suas criações e utilidades. Sentia grande necessidade
de entender. Uma vez até propus uma nova anatomia
para os pés! Tudo não passou de uma “viagem”, um
tanto esquisita. Conversando com Shirlei sobre ficar
estático perante as diversas formas de objetos, ela me

1 ha les tinir.

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

explicou que este comportamento era um jeito de me


distrair. Mesmo sem consciência dos motivos para agir
assim, minha mente habilidosa divagava sobre diferentes
objetos, e assim as obsessões eram esquecidas por
um tempo. Isto costuma ser mais freqüente do que
imaginamos e não se aplica somente aos sintomas do
TOC. De vez em quando, podemos perceber que a lem­
brança de um som ou uma música podem ser repro­
duzidos pela nossa mente, mas a grande diferença é
que no transtorno obsessivo compulsivo as músicas
costumam ser tão insistentes e desagradáveis como
qualquer outra obsessão. Buscava, através do fascínio
pelas formas, um assunto para me entreter e escapar

INDEX
das habituais obsessões.

BOOKS
GROUPS

0 marcador <iV passos

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Pausa
Ao momento em que escrevo
atravesso mais apuros. São 0-íh23 da
madrugada de sábado para domingo.
Meu dia começou péssimo, com barulho
c desordem na m inha casa. Estou em
guarda a té agora. Xão sa i. não fu>
convidado... l.sei praticamente o dia todo
p ara fa ze r rituais. E stou estressa d o ,

INDEX
desapontado, co/n picos de atenção seletiva. I ire
que fa zer lição de casa terapêutica, atividade
proposta, pela Slurlei. Xão cumpri cem por cento
delas, mas f i z boa parte. Regredi. Fico m al por
regredir Não sei a causa exata: o aumento do
medicamento? Aão porque a dose já foi reduzida de
not'o. Sena a ocorrência de outros fatores ambientais?

BOOKS
Estou exausto e até me deitar terei uma grande
batalha, mas am anhã, espero cumprir outras tarefas
combinadas. Sinceramente, não sei se vou conseguir, mas
vou tentar ao máximo, lái ser difícil, pois fora de casa se
vê iie tudo e como quase tudo está associado ao l ()( \ Aqui
em casa só o que vejo são os velhos fantasmas: nas roupas.
paredes. objetos e lembranças que me atormentam. Então.
digo que a escolha não c fácil, se ê que me cabe uma escolha,

cabeça. GROUPS
como se não bastassem as invasões obsessivas na minha

lenho o hábito de mutilar as bordas dos dedos


a lodo instante. Quando estou menos agitado e estressado,
o hábito permanece, e quando fico intranqüilo, só paro
quandi) sangro. Talvez essa dor seja uma espécie de antí­
doto. que me fa z esquecei; ainda, que em pequena parte. a
intensidade dos pensamentos.

7 7 ; «/<*,< U r i to

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... (no dia seguinte). Dormi, acordei e cumpri


minha tarefa. Houve dificuldades e agora, no fim do dia,
estou novamente cansado. Deitado, assisto "( oração
Valentx' ". ( 'ma perna dobrada, barriga para cima e o caderno
apoiado entre o abdômen e a perna, com a caneta na mão...
Ocorre outra invasão, de/a não consegui desviar. () que
fazer '1() pensamento é errado, mus não pára e estou cansado
demais para neutralizar essa male.volêncui. h.ntão exa­
m ino-m e do peito ao abdômen. F. a caneta na mão.
pontiaguda...
0 quarto está zoneado. lenho que penar as
bitucas espalhadas pelo chão, mas ainda não o fiz , porque

INDEX
na última vou travar. Já fa z tempo que as jogo na privada
para não ter chance de pegá-las novamente. O 1 ()(
e.rige um desfecho, além do mais, eu teria (jue levantar paro
recolher as bitucas, e até o “levantarv requer preparação.
Volto a comparar meu estado com dependência, química; às
vezes minha cabeça está razia quando faço alguma coisa
e, para garantir.; repito tudo. Verdadeiras dejtendências, t
o último e o primeiro gole do alcoólatra, ou a desesperada

BOOKS
tentativa de ganhar do jogador. Nunca é o bastante. Só
mais um, só mais um. Porra nenhuma/ K comprecnsível
que não se, pode dar o primeiro gole e nem jogar mais uma
v.izY Respondo. “é compreensível''.

GROUPS

0 marcador ck fxis w s

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TOC —atual e
passado

INDEX
Como já mencionei, classifico como 'TOC
Passado1’, as obsessões que, ao menos aparentemente,
já não me influenciam tanto e quase não despertam o
desejo de desempenhar compulsões. Obviamente, uma
obsessão passada abriu caminho para que minha
condição se agravasse, um efeito do tipo bola de neve.
No momento em que resolvi buscar tratamento, tinha
em mente que meu “TOC Atual” (os sintomas vigentes

BOOKS
naquele momento) era o limite de minha paciência. Minha
estratégia foi tentar me afastar das situações evocadoras
de “TOCs Passados”, para que não ressurgissem. Meu
esforço foi tanto que, qualquer lembrança relacionada,
não podia vir à mente. Nesta época, desejava sofrer um
apagão que me livrasse definitivamente das obsessões
e assuntos correlatos, nem que me custasse perder por

GROUPS
completo qualquer recordação, e começar tudo do zero,
com objetivo de criar ou manter o foco sempre no tema
atual, poderia conseguir melhores resultados, por mais
que causassem terríveis desgostos.

ihrtles

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O mundo numa
grande roda

INDEX Observe uma roda gigante em pleno funciona­


mento. Ela continua girando sem parar e até que você
estabeleça um ponto fixo, ela não possui inicio ou fim. Então,
marque um ponto e perceba que, ao estabelecê-lo, ele
marcará cada volta, o tempo exato para completar um giro.
Neste exemplo, não importa saber o tempo de cada volta,
mas apenas que levará um tempo sempre igual. É o que

BOOKS
representa o meu dia-a-dia com TOC. Um ritual inicial no
começo do dia e outro no fechamento, ambos com a
mesma importância, pois seriam eles os pontos fixos, como
na roda gigante, mas não necessito saber exatamente o
tempo, basta o ponto fixo que sinaliza uma volta.
Aparentemente a frustração logo ao despertar é o pior, visto
que o planejado é não ceder novamente, igual ao “primeiro
gole do alcoólatra”, ‘amanhã vou conseguir parar”, com

GROUPS
esperança e ansiedade depositadas.
O mesmo conceito da roda gigante é utilizado
não apenas para marcar início e fim, mas no recheio dos
dias: às vezes, o dia seguinte se arrasta por conta de
rituais pendurados do dia anterior, dos quais não consegui
me livrar. Deixam resíduos que se fundem: angustia,
frustração, ódio, euforia, ansiedade e depressão. Não há
duvidas de que essa carga de sentimentos possa se
descarregar a qualquer m omento em outro ritual

O m w xnd o r dv pos.ws

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

compulsivo, que tende a ser mais difícil pela repetição


das obsessões. Não é de se espantar que a carga
desmorone subitamente, pois o acúmulo das obsessões
se torna incessante e difícii de lidar. Nessas horas é como
retroceder no tempo, como se tudo fosse novidade.
São muitos sintomas, um leva ao outro, como
nas cadeiras da roda gigante, girando sem parar,
balançando a cada rajada de vento e sem visão sobre
quem ocupa as cadeiras da frente cu de trás.
Durante uma consulta, resolvi perguntar a
Shirlei como reagi a essas marcações de tempo com
rituais:

INDEX
“— Qual a melhor hora de parar, de ignorar essa
coisa? Depois de um ritual bem feito, ou depois de um
ritual mal feito? O bem feito trará mais tarde a neces­
sidade de repetições. Já o mal feito, permite ver o quanto
é inútil tentar responder, por mais que incomodem. Faz
olhar a realidade, dá confiança de que nada vai mudar/’
“— A melhor hora é simplesmente a de parar.
As invasões como você diz, não chegam sem avisar?

BOOKS
Então, olhe para a realidade, o que você é, o que você
quer e como as coisas realmente são, e responda da
mesma forma, no exato momento em que ocorrer a
invasão.”, respondeu Shirlei.

GROUPS

I hltJes Hn !■,

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Mudança:
o velho e o novo

INDEX
Cada caso é um caso, mas sabemos que a
frieza e falsa m aestria impostas pelos conteúdos
apresentados nas obsessões exigem muito de nossa
versatilidade.
Quando nos desfazemos de algo velho,
estamos em contato com uma nova situação. Geral­
mente, aos portadores, mudanças de hábitos podem ser
um evento de extremo incômodo, mesmo que fossem

BOOKS
mudanças hipotéticas. A impressão que dá é que dese­
jamos permanecer intactos, para que não haja evolução
dos sintomas, ou para que não se criem mais dificul­
dades. O excesso de informações propicia frases, pala­
vras, imagens que se associam aos temas passados.
Criei uma bolha protetora, para que o mundo exterior
não interfira sobre mim. Esta bolha pode ser um quarto
ou algum outro ambiente qualquer, onde o indivíduo sente-

GROUPS
se mais à vontade. Contudo, as mudanças sempre
serão contínuas, por mais que se preserve o estado pre­
sente das coisas. Mudamos esporadicamente a dispo­
sição dos objetos, após usá-los; adquirimos alguns
novos, eliminamos outros, mesmo vivendo dentro da
“bolha’. A constante modificação das coisas que nos
rodeiam implica conseqüentemente nos rituais compul­
sivos, repetições atrás de repetições, até chegar num
ponto em que viver seria principalmente esquivar-se das

O m arcador dc jxiísos 67

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

atividades estressantes, deixando-as de ladc. Como


eliminar o velho e arriscar o novo? Seria mais fácil ceder
às compulsões, ou ao sedentarismo total.
Pela rede de lembranças interconectadas, pas­
sei a descartar diversos objetos, bem como deixei de
freqüentar determinados lugares. Meu guarda-roupa, por
exemplo, servia de depósito das roupas que evocavam
aquelas lembranças. Muitas camisetas foram deixadas
de lado e antes de adquirir outras, precisava fazer minu­
ciosa preparação mental, de modo que seu primeiro uso
fosse associado a um dos pensamentos guardiões,
aquelas idéias reconfortantes, positivas. Pra compre­

INDEX
ender essas reações, basta que o leitor identifique o que
cada íocal incita em termos de lembranças: na cozinha,
a mãe ou a avó cozinhando; na sala, as visitas chegando;
no quarto; quintal; garagem... Estes ambientes podem
evocar diferentes memórias, recentes ou remotas. No
TOC, esta situação fica um pouco diferenciada, as
obsessões freqüentes produzem as lembranças mais
terríveis, em curtíssimo espaço de tempo. É dificílimo

BOOKS
freá-las. Confinavam-me às repetições. Toda atividade
se torna insuportável, das mais simples às mais com­
plexas.
Imagine o leitor, que a cada coisa que faça, por
mais habitual que seja, surja sempre um pensamento
obsessivo insuportável. Uma atividade corriqueira como
beber água transforma-se no seguinte: levantar; sentar;
levantar; sentar; levantar; sentar e levantar. Pegar o copo;

GROUPS
devolver o copo; pegar o copo; devofver o copo; pegar o
copo; devolver o copo e pegar o copo. Encher com água;
esvaziá-lo; encher; esvaziar; encher com água. Beber;
parar; beber; parar; beber. Encher novamente; esvaziar;
encher; esvaziar; encher e beber, até que venha a última
gota (a última, como a primeira, também é mudança) e
o copo posicionado na boca, até cair a última gota. Des­
prender do copo: soltá-lo; pegá-lo; soltar; pegar; soltar;

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

pegar, até que a ansiedade faça com que desta vez não
seja mais soltar sim, e sim lançar o copo ao chão. Isto
tudo sem contar o que é fechar o filtro, caminhar de um
ambiente para o outro, entrar no quarto, fechar a porta,
ligar a TV e descansar. É lamentável passar por coisas
assim, ainda mais quando já foi estabelecida tal depen­
dência, pela prática sistemática durante anos. Muitas
vezes deitei-me tão cansado que ao acordar sentia-me
ainda mais exausto.
O que pensa a família ao ver um membro agindo
desta maneira e precisando de ajuda para executar qual­
quer tarefa aparentemente simples? Acho injusto pres­

INDEX
supor o que a família pensa, e por mais que pergunte,
acredito que não serão cem por cento sinceros. Na mi-
rtha história, inicialmente, fui encarado como preguiçoso,
desatento, desastrado, desinteressado e tudo mais, e
mesmo depois da família entender mais sobre o TOC,
não fiquei tão distante de olhares cansados de minha
mãe e irmã, que colaboravam, mas também eram víti­
mas da minha constante solicitação de favores. Hora ou

BOOKS
outra, até me questionavam por não tentar arriscar certas
tarefas, Muitas vezes me senti paralisado, ao mesmo
tempo em que me frustrava com minha incapacidade
de realizar um mínimo feito. Em outras palavras, me
sentia um peso morto.

GROUPS

O marcador dc ptissox

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INDEX
BOOKS “O TOC é frequentemente acompanhado de muita
irritação de familiares que se queixam de que o filho

GROUPS
está com “frescura”, é muito "preguiçoso”, além de
causar sentimento de culpa no paciente. É importante
ressaltar que o TOC é uma doença neuropsiquiátríca e
que não há um fator único responsável por tê-lo causado.
Cabe enfatizar que problemas familiares não causam o
TOC, porém a maneira como a família reage aos
sintomas pode afetar e intensificara doença, assim como
esta pode afetar as relações familiares. ”
(Zamignani e Labate, A vida em outras cores, p. 28)

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Pausa
M uita gente cruza nosso
caminho. Entre e/as. pessoas toleráveis,
intoleráveis, algumas ornáreis ou am is­
tosas, outras rudes ou distantes. Cada qual
com o seu caráter; podre, indigno ou
a p r a z ív e l. Entretanto, wir/a t/o <^/<? rm? fifc

INDEX
fora pode alterar o que somos de fato. Suas
faces podem ser as mais amáveis. A nossa é
sempre a mesma. Seus comportamentos são muitas
vezes incompre-cnsíveis. Os nossos só dizem
respeito a nós mesmos. Suas identidades, muitas
vezes eles m esm os desco-nhecem. i nossa, nós
conhecemos (com muita luta., sabemos <juem. somos, e
sempre soubemos), mas u descoberto é que nada dc fato

BOOKS
pode mudar isso. Nem a morte.

GROUPS

O marcador dc passos

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Evitação

INDEX Como já afirmei, nos momentos agudos de


crise, a única saída (quase sem opção) seria evitar as
atividades que produzirão maiores sofrimentos durante
sua execução. Infelizmente, evitar tanta coisa, e por
longos períodos, resulta no impedimento de cumprir um
sem número de atividades, muitas delas essenciais.
Minha vida não caminhava nada bem, e as atividades

BOOKS
rotineiras que costumava executar já haviam sido
interrompidas, em virtude de eu me esquivar de todas
as situ a çõe s evocad o ra s de más lem branças.
Aprofundava minha cova cada vez mais, e percorria um
caminho que cujos destinos mais prováveis eram a
morte ou a loucura. Por meio do tratamento, felizmente
entendi que outro destino melhor poderia ser atingido, e
que consiste em parar e recomeçar.

GROUPS
Dra. Shirlei propôs que eu não evitasse mais
nada (exceto o que eu já evitava), e aos poucos, voltasse
a cumprir as atividades essenciais que havia deixado de
lado. Este período de retomada foi também um dos
períodos mais árduos do TOC, porque ao enfrentar meu
medo e dar conta daquelas tarefas, teria que me expor
ao aterrorizante, fosse um objeto, pessoa ou lugar,
levando-me às associações involuntárias com eventos
traumáticos para mim. Eu teria que ignorar as incursões

1 ' h u h ‘s t t n t u

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das obsessões, mas isto nào era o suficiente. Eu


precisava sentir o quanto o conteúdo invasivo me
incomodava. Como retomar atos como abrir e fechar
uma porta, ligar ou desligar um aparelho, freqüentar
algum lugar, vestir aquela camiseta, comer naquele
prato, beber naquele copo, ouvir aquela música, sentir
aquele cheiro, esquentar ou esfriar-me com o clima, ver
certas pessoas ou imagens e provar o sabor de uma
receita sem que as sensações associadas, dignas de
asco, não mais me perturbassem? Qual seria o primeiro,
ou por qual deveria começar, já que o recomeço também
seria uma nova situação e me exigiria grande preparo?

INDEX
Mesmo nas raras ocasiões sem obsessões, eu estava
amplamente treinado a ritualizar automaticamente (só
para garantir), antes, durante, ou depois de qualquer
atividade. Funcionavam com antídotos, formas de
neutralizar a aflição e a repulsa geradas pelos conteúdos
das obsessões. Outro aspecto, um tanto contraditório,
é a forma perfeccionista com que nós, portadores de
TOC, reagimos diante de diferentes atividades. Posso

BOOKS
muito bem ser extremante detalhista em busca de uam
suposta p e rfe içã o absoluta. E n tretanto, posso
perfeitamente abandonar coisas pela metade ou mesmo
nem sequer iniciar um comportamento, aparentando ser
desleixado ou perfeccionista conforme as circunstancias,
num estilo “oito ou oitenta”, como dizem.
Se o caminho mais prático para não tropeçar
nas atividades seria evitá-ias, porque simplesmente não

GROUPS
parei de fazer tudo completamente? Porque me sobrou
um pequeno estoque de determinação e acima de tudo,
vida e vontade de vencer.

Pensar na morte

Quem sabe se este pensamento um tanto


quanto depressivo possa transmitir alguma força? Com

() utanailúr d f passos

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a vida temos a morte, mas com a morte podemos ter a


vida? Tratar esse assunto equivale a desenvolver uma
verdadeira filosofia, pois de muitas coisas podemos tirar
proveito, uma espécie de reciclagem de idéias. O pensa­
mento de morte permite enxergar a fronteira com o nada.
Nessas horas refletimos sobre o que fizemos, vivemos e
gostaríamos de ter realizado em vida. Em minutos pré-
morte, enxergamos o “tudo” pelo qual passamos e o
“nada” que pensamos atingir. Este pensamento, apesar
de ser um tanto assustador, nos permite ver o que real­
mente fomos até este ponto da vida. Na depressão somos
levados a questionar o sentido da vida, ou quem sabe, a,

INDEX
questionar também a necessidade da aproximação com
o próprio fim. Numa dessas aproximações com o senti­
mento de morte, pensei: “— Se isto é o fim, daqui pra
frente nada mais terei, então, por que insistir?”. Foi um
momento muito triste, pois já estava praticamente entre­
gue á condição de um vegetal ou ser inanimado. Depois
pensei: “— Por que reagir às compulsões se não haverá
o depois, o amanhã?”. E passava a viver mais tranqüi­

BOOKS
lamente. Melhorando o estado depressivo, comecei a me
lembrar de pensar na morte nos tempos de crise, até que
este conceito bastante usado pareceu cair na rotina,
tornando-se um pensamento “escudo” , pensamento
guardião que funcionava como esquiva dos invasores.
Lembro-me que, quando explicava aos leigos
como era o TOC, exemplificava comparando com os

GROUPS
sintomas mais grosseiros que levam à obesidade: “-- É
como se eu comesse algo e o meu cérebro não proces­
sasse a informação de que o alimento chegou ao
estômago, então a fome reapareceria e eu teria que
comer compulsivamente, de novo, como fazem os
obesos". Havia um déficit de atenção ou coisa assim.
Comecei a pensar se teria problemas de aprendizagem,
tanto que me queixei em terapia quando as técnicas lá
aprendidas (todas extremamente fundamentais para me

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


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içarem do buraco) não estavam sendo aplicadas por mim


com empenho suficiente para alcançar bons resultados.
Questionava também, minha inteligência:i;— Sou burro?
As invasões têm fundamento?". Hoje entendo que nada
disso procede. Na verdade, há claras pistas de que no
TOC há alterações nos mecanismos de neurotrans-
missão da serotonina. E os medicamento foram criados
para regular, novamente, o mecanismo.

INDEX
BOOKS
GROUPS

( f m arcador de p w «

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


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Fantasmas de
carne e osso

INDEX Como se não bastassem as constantes sensa­


ções de tragédia e inconformismo, muitos fatores surgem
com papel desmotivador. Havia dito que informei as
pessoas próximas sobre meu diagnóstico de Transtorno
Obsessivo Compulsivo, de modo que não estranhassem
um possível comportamento mais excêntrico. Mas por­
que essas pessoas, que já têm noção do problema, insis­

BOOKS
tem em me questionar e cobrar atitudes, como se
ignorassem minhas explicações? Se essas pessoas
tivessem algum tipo de transtorno, agiriam assim? Pro­
vavelmente não, pois estariam familiarizados com os
diversos tipos de sintomas relevantes.
Por convivermos em grupos, é cabível que aci­
dentalmente tenhamos hábitos parecidos aos de outras
pessoas. Posso evitar um lugar, uma peça ou cor de

GROUPS
roupa, mas e no caso de pessoas? No caso daquelas
que evocam alguma objeção, é comum ao portador de
TOC temer incorporar a personalidade alheia, mesmo
sem contato presente. Exemplo: se eventualmente sinto
ódio ou não concordo com atitudes de certos grupos ou
pessoas, ficarei excessivamente atento em relação ao
meu próprio comportamento, policiando-me para que
jamais copie um jeito de agir similar à personalidade que
não me condiz.

I I ’a l e .s B r i l o

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

O curioso é que nenhum dos sintomas de TOC


têm um tempo de vida exato. Tudo varia de pessoa para
pessoa, no entanto, quanto mais sórdido e repulsivo o
tema das obsessões, mais freqüentes elas s g tornam.

INDEX
BOOKS
GROUPS
“Milhões de formas foram criadas. De adoecer e de ferar
a morte, de recordar alguém que já morreu, de temer que
alguém vivo morra, de temer a própria morte. Pensar
inceiisan temente sobre tantas coisas eformas dá a impressão
de que sou curioso ma 0 tudo isso tem origem no maldito
l OC. As con.ser/i/fricias; m al deito, mal durmo, m al relaxo,
m al levanto, mal resjnro. m al fico em pé. Mal vivo bem. "

() marcador de passos

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Pausa
Duas c meia da madrugada.
Eu não aceito de form a nenhuma
essas invasões do T()C\ nenhum a!
Que merda! E foda ter que fazer luch
preparado, me m alar a todo segundo
para repetir tudo. uma indigestão. Eu não
engulo isso! i\ão é fácil suportar tudo isso.

INDEX
S ã o aceito! São imagens e frases querendo
sc impor. Em um só dia. posso ter me esforçado
mais do que alguém em cem anos. São meteoros
caindo sobre a minha cabeça o dia inteiro, poxa!
lhdo é teste, checagem, avaliação, seja lá o que
for. Já deu pra num. Eaço terapia há algum tempo.
mas os minutos de alicio são raríssimos. O que há.'
Eu sou burro!' A teoria não entrou na minha cabeça?

BOOKS
\ão tenho sair ação!' Eoda-se! 0 que importa é que eu
não aeeilo essas informações horrendas e se tiver que
viver de riluul para continuar me aliviando por um
segundo que seja. que eu então me consuma disso, (ou
cancelar Ioda a minha energia neste único segundo. Se
minha expectativa de vida fosse de cem anos. e gastasse
toda a minha vitalidade em um minuto para provar minhas
verdades, eu o faria. I iro um m ostro neste m inuto.

GROUPS
Intocável, feroz e apto ao ataque. Sena mais intolerante
do que o ser mais insano.

s i hn/f.s Hrifi,

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um vazio
ilimitado

INDEX Pe!as razões apresentadas por Shirlei, resolvi


reagir contra os “fantasmas“1. Evidente que a analogia
aos fantasmas é metafórica e não significa que existam
visões ou vozes.
Meus sintomas ganharam força o suficiente
para que ocupassem grande parte do meu tempo,
paciência e vigor físico. Encontrava-me altamente

BOOKS
treinado a atacar sistematicamente as obsessões,
repetindo comportamentos até que o desempenho fosse
acompanhado de pensamentos bons e eu estivesse livre
das ameaças sugeridas pelas obsessões. Logo, os
rituais de repetição obrigatória tornaram-se hábitos
automáticos. Eu sentia uma espécie de abstinência ao
tentar abandonar esses hábitos, como um dependente
de tabaco. Abandonar um hábito de qualquer gênero

GROUPS
implica na necessidade de substituir o hábito por outra
atividade. Os rituais são intempestivos, redundantes,
freqüentes, aparecem tanto nos momentos de calmaria
quanto nos de agitação. Aderir às técnicas de Shirlei não
foi nada fácil, mas consegui enfrentar as compulsões e
subsequentemente diminuir as obsessões. Em alguns
dos meus registros diários, escrevi que quando as
obsessões diminuíam, mesmo que por intervalos míni­
mos de tempo, elas tendiam a voltar com seus conteúdos

() mu nadar de pnssof,

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mais agressivos, sugerindo novas e intermináveis


compulsões.
Por isso, para nós, portadores de TOC, ressalto
a im portância de perm anecerm os dentro desses
paradigmas, para estarmos sempre prontos a responder
a qualquer obsessão incômoda, mesmo que a melhor
maneira seja a compulsão. Pensava: “— Posso fazer
isso sem problemas”. Mas» quando via, estava tão
distraído que voltava aos hábitos compulsivos mecanica­
mente, e com rituais insistentes, incontroláveis, que
rapidamente davam espaço ao estresse e ao descon­
forto. Eu perdia o ritmo e a motivação para seguir as

INDEX
instruções propostas por Shirlei. Nadava, nadava e morria
na praia, pois dependia em demasia do hábito, por mais
que ele causasse mal-estar. Estava programado a ter
uma obsessão e imediatamente tentar neutralizá-la por
meio dos rituais. Cada tentativa fracassada de abandonar
os rituais compulsivos me deixava sem direção e/ou
ação. Eu sofria de obsessões por quanto tempo estivesse

BOOKS
consciente. Também sonhava que repetia ações, exata­
mente como na vida real. Quando substituir um hábito
por outra atividade, se os hábitos me atrapaiham mesmc
dormindo? Essa questão foi uma constante por vários
meses. Pensei em me internar, pensei em me internar
numa clínica só para TOC (não havia), pois nenhuma
atividade alternativa seria o bastante para diminuir os
hábitos, e sempre que me envolvia com qualquer coisa,

GROUPS
iniciavam-se invasões obsessivas.

T h a le s B rito

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Paiisa

Eu quero parar! Eu quero mudar! Eu


mesmo mio me agüento! Mas ninguém, me
dá a porra de. uma chance. Tudo nessa rida
e um teste, todos ficam atentos ao nosso com­
portamento esperando para voar em nossos

INDEX
pescoços. Tudo é uma prova: temos que ser o
comum, o habitual, o convencional num mundo
onde todos insistem em dizer ser exclusivo e úni­
co. O caralho! Todo mundo é convencional e, sc
existirem exceções, são tão pequenas quanto escas­
sas. /is pessoas insistem em pregfir um padrão de com­
portamento grupai Alguns acham que terão de ser bons

BOOKS
na Terra para que depois da morte sejam bem tratados.
Outra vida? Só se for debaixo da lerra, explorados por
todos os tipos de vermes que se possa imaginar
Uns â espreita dos outros, neste, mundo de canibais. Que­
rem se manter limpos, mas são mais sujos do que ratos de
esgoto. Sou a favor de um padrão, mas de urn padrão de
comportamento sociável e não extremo, no qual cada pessoa
possa se expressar dentro de alguns limites Eu me refiro à

GROUPS
criatividade existencial da raça humana.

(> m a n x i d o r d e p m s o s

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Genética —dos
frutos os genes ,

INDEX Para Isaac Newton, saber de qual ramo se


despreendeu a maçã não era necessário para sua teoria.
Importava saber porque a fruta veio ao solo. No entanto,
em alguns casos convém saber exatamente de onde vem
os frutos, qual a sua procedência, qualidade e aspecto,
para então serem consumidos.
Sabe-se que, em alguns casos, a predis­

BOOKS
posição ao TOC é geneticamente transmitida, mas não
importa especular sobre qual dos lados (pai ou mãe)
nos influenciou, exceto para avaliações clínicas ou trata­
mento.
Certo dia, enquanto aguardava a minha
consulta, havia na sala de espera uma mulher que aguar­
dava a consulta do filho, com o mesmo diagnóstico que

GROUPS
o meu. Ela tinha interesse de saber mais e comparar o
comportamento de seu filho ao meu, e então conversa­
mos sobre o assunto. Eis um bom exemplo da influencia
hereditária.
Esta jovem mãe, aparentemente aflita e ansiosa,
contou que, mesmo conhecendo as limitações de seu
filho, não deixava de fazer especulações, de cobrar e
questionar também sobre suas atividades terapêuticas.
Acreditei mais em sua aflição, quando resolveu comentar

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sobre suas relações pessoais e familiares, principalmente


sobre sua convivência com seus três fühos. Durante seu
discurso, captei a verdadeira noção que resumia o proble­
ma do filho. Ela relatou o quanto seu filho a perseguia e
questionava o porque ela havia abandonado o seu quarto
e migrou pra outro. Interpretando o papel do rapaz, a mãe
dizia “— Você deu o seu quarto à bagunça?”. Confessou-
me que, de fato, algumas velharias eram guardadas no
seu dormitório, junto com as lembranças do seu esposo
falecido, mas não desistiu de dizer que o abandono do
cômodo se deu a isso. Tratava-se talvez, de um comporta­
mento típico de suposto portador de TOC, mas a mãe

INDEX
não se apercebia do fato. Ela aproveitou para salientar
que o abandono do quarto se deu não só à bagunça, mas
também às rachaduras espalhadas pelas paredes
completamente mofadas. Neste momento percebi um
possível quadro obsessivo (sem querer parecer psicólogo
ou psiquiatra), junto com elementos ambientais que lhe
favorecem um álibi, ou pano de fundo para suas justifi­
cativas. A mulher não se conteve, e continuou me contando

BOOKS
tudo, numa conversa de quase uma hora, detalhe por
detalhe, o que fazia. Provavelmente, qualquer médico
psiquiatra lhe diagnosticaria o seguinte: Transtorno
Obsessivo Compulsivo. Pedaço por pedaço, descreveu
como foi a morte de sua mãe, e como sua imagem dentro
do caixão a perturbou durante anos. Aquela senhora
parecia ser tão afoita que passava por desorganizada,

GROUPS
irritada e compulsiva, tinha o hábito de se entupir de doces
até sentir-se mal, como acabou me contando com riqueza
de detalhes. Sua atenção também não pareceu ser das
melhores, pois algumas palavras minhas tiveram que ser
repetidas, algumas pelo menos três vezes, pois não é
tão fácil agir serenamente perante essas ocorrências. É
possível que o filho, já diagnosticado, facilmente identifique
os sintomas na mãe e possa alertá-la, mas sua diminuta
aceitação, seu baixo insightacerca da condição patológica
que a acomete, provavelmente não permitirá a adesão
O m arcador dt> passos \3

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ao tratamento, exatamente como ela explicou acerca do


seu filho. Mas, para o garoto de 16 anos, talvez não tivesse
importância investigar sua predisposição genética.
Segundo dados da ASTOC, muitas pessoas
têm traços obsessivos compulsivos a vida inteira, mas
nunca desenvolvem o TOC. Fatores ambientais e gené­
ticos parecem contribuir para o desenvolvimento destes
sintomas e estudos genéticos recentes, associados a
pesquisa de anormalidades neuroquímicas em porta­
dores, têm sugerido que o muitos membros de uma
mesma família podem ser portadores de TOC e de ou
transtornos deste espectro. Diferentes membros de uma

INDEX
família podem apresentar compulsões, ansiedade gene­
ralizada, transtorno do pânico e tiques complexos, moto­
res, vocais como na ST.
Não foram ainda identificados os genes especí­
ficos do TOC, porém, pesquisas sugerem que os genes
têm um papel no desenvolvimento do transtorno em
alguns casos. O surgimento dos sintomas do TOC na

BOOKS
infância tende a ser uma característica familiar. Quando
um dos pais tem TOC, há um risco ligeiramente maior
de que a criança desenvolva TOC. Mesmo que o TOC
aparentemente seja hereditário, os sintomas específicos
podem ser diferentes entre os familiares acometidos.
Desta forma, uma criança poderia ter rituais de verifi­
cação, enquanto que sua mãe se lavaria de maneira
compulsiva.

GROUPS

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Palavras
cruzadas,
imagens
rotulantes
INDEX Normalmente, para lidar com os conteúdos das
obsessões, pensa-se que nada melhor do que outras
palavras e imagens mais agradáveis, ou pelo menos
neutras. Habituei-me a escrever mentalmente quase tudo
o que penso. Depois das primeiras vezes que agi assim,

BOOKS
contra as obsessões, consegui fixar melhor o que real­
mente gostaria de estar pensando na ausência do TOC.
O uso desta técnica tornou-se tão excessivo que as pala­
vras misturam-se com outras, sofrendo metamorfoses
mútuas. Se, por exemplo, imagino a palavra carro, subi­
tamente as duas letras iniciais, “ca”, produziriam uma
infinidade de palavras como carroça, cachorro, caramelo
etc., poderiam ser definidas a partir das letras iniciais
GROUPS
“ca” , Desta forma, se um indivíduo com TOC tem pavor
a doenças, pode imediatamente pensar palavras como
cadáver, câncer, caxumba, cárie, carniça, calvície. A partir
da palavra, busca-se alguma imagem mental, para ilus­
trar o objeto e mesmo quando a palavra mentalmente
escrita já desapareceu, a imagem pode sen/ir de tema
para mais obsessões. Na seqüência, descrevo como
entendo o funcionamento deste confuso processo.

() m arcador de /jtjjssns

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V AnemiA

INDEX
E c a r n iç a
Ruim n
ALZHEi MER
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^ASSOCIAÇOES

BOOKS
V|AGEM/ ESCRITA

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EA\^
A SSO DAA
CIA S/'i ! \ ^paalia
avR
kas

GROUPS
A linguagem produz conteúdos aversivos e
intrusivos, que perturbam os pensamentos neutros.
Muitas pessoas podem entender o que eu quero dizer,
mas podem também achar que se trata de maluquice.
Embora a descrição nos induza a ver o processo como
arquitetado detalhadamente, este não é o caso. Aliás,
noto que essas ocorrências se dão muito rapidamente,
são quase impossíveis de serem freadas, e abrem as
portas para as repetições compulsivas.

l h a t e x tirilt)

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Impulsos —
traídos pelos
pensamentos

INDEX Não defendo o emprego exclusivo da palavra


pensamento no trato das obsessões do TOC. Popular­
mente, entendemos que pensamentos são algo que
controlamos, em termos de intenção, forma e conteúdo.
Por isso, algumas vezes prefiro usar o termo “invasão”,
pois isto caracteriza o pensamento que chega sem avisar,

BOOKS
fenômenos caluniadores e aversivos.
Numa noite de final de semana, saí com amigos.
Na volta, pela madrugada, paramos para conversar como
de costume, próximo de nossas casas. O carro servia-
nos de encosto para os nossos debates. Um dos amigos
precisou se abaixar próximo ao meu joelho para pegar
no ar um objeto que escapou de sua mão. No momento
em que apanhou o objeto, um pensamento invasor me

GROUPS
deixou chateado. Nossa conversa era exatamente sobre
meus problemas, e pude usar um bom exemplo: “— Aí.
Funciona assim!”, exclamei. Seus olhares fixaram-se em
mim, curiosos pela conclusão que seguiria. Expliquei:
quando ele se abaixou para pegar o objeto, a invasão
veio rapidamente, sugerindo que eu o golpeasse com o
joelho em sua cara, e concluí: “— Mas é aí que está, eu
nunca faria isso, primeiro porque seria covardia pegá-lo
desprevenido; segundo, ele não me deu motivo; terceiro,

0 marra d or de fxis fios

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

ele é amigo e talvez não fizesse isso nem se houvesse


provocação”. Ainda comparei:"— Sabem aquela sensa­
ção de quando estamos em um lugar alto, e vem o
impulso de jogar qualquer coisa lá de cima? Então, é
exatamente o que eu quero dizer, tenho alta freqüência
de pensamentos invasores, sugerindo ações impróprias,
que destoam por completo das minhas verdadeiras
intenções, crenças e valores pessoais”. Com olhares
baixos, meus amigos expressaram alguma compre­
ensão. Ainda fiz questão de dissipar qualquer idéia
negativa que pudessem ter a meu respeito. “— Calma!
Não pensem que isso seja indício de loucura ou que seja
fonte de prazer. Aliás, é só desconforto, pois estes

INDEX
impulsos, de agressão ou outros temas, costumam ser
sempre perturbadores”.
Mais uma vez, explico o assunto por meio do
livro A vida em outras cores, da ASTOC. Neste trecho
as definições de impulsos são mais claras:

BOOKS
“Os impulsos obsessivos costumam ser às vezes
mais perturbadores que as outras obsessões mais
comuns: são impulsos de fazer algo que de fato a pessoa
não quer fazer (usa-se o termo egodistônico, que significa
contrário ao ego, aos desejos e valores da pessoa).
Assim, o paciente pode ter o pensamento obsessivo
revertido em sensações de impulso de empurrar, agredir,
esfaquear, matar ou ferir a si próprio, ou pessoas contra
quem não têm nada, muito pelo contrário, pode até gostar

GROUPS
demais em alguns casos. Não que a pessoa venha a
cometer tais atos, mas a idéia, o medo destes impulsos
é extremamente assustador.
Os impulsos podem ser autodirecionados, com medo
de sem querer se ferir, se matar (exemplo: jogar-se na
frente de um carro ou de algum lugar alto); direcionado a
desconhecidos (exemplo: agredir abusar sexualmente
de sobrinhos, de esfaquear a mãe, colocar veneno na
comida ou no filtro). Muitos portadores evitam ficar

Tha/ps Brito

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sozinhos em casa ou perto de crianças, ou manusear


objetos considerados "perigosos”, escondendo de si
mesmos facas, tesouras, agulhas, fósforos etc. Rodem
ainda envolver outros atos proibidos e embaraçosos
como, por exemplo, gritar obscenidades durante a missa
ou roubar alguma coisa em lojas. Não é difícil imaginar
a angustia, o medo e a vergonha dessas pessoas diante
de conteúdos tão alheios ao seu modo de ser, aos seus
valores pessoais mais sagrados.
É então, que podemos passar a atendera ocorrência
de compulsões ou rituais compulsivos. Não tendo podido
evitar o desconforto emocional causado pela ocorrência
das obsessões, o indivíduo passa a lançar mão voluntária
e repetitivamente de estratégias para neutralizar ou pelo

INDEX
menos minimizar temporariamente o mal-estar que
sente. ” . (p. 26 ,)

Então, podemos notar que não é fácil compre­


ender essas intrusões impulsivas, É freqüente que quem
sofre delas se pergunte: “— Puxa! Eu sei que não quero,
nunca quis e jamais vou querer agir ou pensar desta

BOOKS
maneira, mas por que esses pensamentos partem de
mim mesmo?".

GROUPS

O m arcador de passou

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

O comportamento
da crença e TOC
desenvolvido

INDEX Anteriormente, fiz uma comparação entre os


rituais obsessívos-compulsivos e a semelhança com
rituais supersticiosos. Penso que crenças como “não
guardar as roupas do avesso dentro do guarda-roupa,
senão a vida desanda", até que se prove o contrário,
não passam de uma espécie de TOC, adquirido cultural­
mente. Como se formaram essas crenças sem funda­

BOOKS
mentos?
Muitas práticas religiosas prescrevem compor­
tamentos sem admitirem o termo “ritual”. Seus líderes
substituem o emprego da palavra “ritual”, por terços,
bênçãos, purificações, descarregos, trabalhos, mantras
e uma infinidade de outras práticas, com intenção de
adquirir imunidade contra os males da vida. Essas
práticas envolvem as noções de probabilidade e causali­

GROUPS
dade entre eventos: “Se chover, foi um sinal superior”. A
chuva nada mais é do que um evento ocasional, cuja
ocorrência não depende da vontade de algum ser supe­
rior. O que me parece é que a humanidade criou seus
rituais com intenção de dar sentido à vida, pelo medo
da morte. Então, por que pouco se fala sobre o “céu”
dos animais? Talvez porque o conceito não foi criado
por eles próprios, os bichos?

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Edson Am âncio, em O homem que fazia


chover, explica estados psíquicos e fenômenos como o
efeito placebo, os casos de pacientes que sofrem de
lesão nos lobos (epiléticos ou não) e afirmam ter tido
experiências com o além; e o clássico charlatanismo,
no qual pessoas se aproveitam da inocência dos indiví­
duos suscetíveis às crenças. A partir desses três itens
é que deixo minha pergunta; será que os primeiros
rituais, em épocas comprovadamente bárbaras, guer­
reiras e tribais, possam ter sido desenvolvidos pelas
pessoas com lesões ou outros tipos de transtornos,
tendo suas experiências supostamente místicas sido,
na verdade, decorrências de suas respectivas desor­

INDEX
dens? E quanto ao efeito placebo? A ciência estudou
vários casos de pessoas que crêem e têm fé, e afirma
que as crenças influenciam no tratamento de enfermi­
dades. Enfim, pense e responda como quiser.

BOOKS
GROUPS

() rn o m u fo r tle pusM.s 91

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Congelado no
tempo

INDEX Creio que o tempo tem influência nos iimítes do


TOC. Como? Nós, os portadores, nos desesperamos
ao tentarmos nos livrar do sofrimento o quanto antes,
por meio da emissão dos rituais. Assim, se pegarmos
os sintomas de simetria, notamos nossa corrida contra
o tempo, para que determinados objetos estejam perfei­
tamente dispostos, antes de desempenhar qualquer

BOOKS
outro comportamento Enquanto fazemos rituais há mar­
cação de tempo, só existe a pessoa e o ritual em movi-
mento, junto com a vontade imperiosa de “consertar uma
vida”, como se na verdade fosse acontecer alguma coisa
ruim e nosso único dever fosse impedir a tragédia que
se avizinha. Muitas vezes, me peguei tão paralisado e
com os músculos contraídos, que prendia até a respi­
ração. Ao ouvir um CD, repentinamente uma obsessão

GROUPS
se associa a algum refrão. A paralisação do tempo, desta
vez, visa impedir que a música chegue à outra parte
antes que possamos ter um pensamento bom durante
a execução daquele determinado trecho. A título de ritual,
sugere-se que a melhor medida seja dirigir>se ao apare­
lho de som e voltar ao trecho da musica que mais pertur­
bou, para que seja ouvido novamente, mas desta vez na
companhia de um bom pensamento.

T/vi/ra /ir ,lo

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O mundo só volta a funcionar depois da execu­


ção do ritual e o relógio marca o tempo novamente. Do
mesmo rnodo acontece quando sou apressado para ir a
um compromisso. Se alguém me apressa, surgem a
ansiedade e a lentidão obsessiva. Quero que meu íempo
pareça inerte, favorecendo a concentração e força para
executar a ação de uma só vez. O problema é que deposi­
tamos no ritual; apressadamente executado, o falso
poder de nos proteger de perigos, ou de servir de neutra­
lização do teor aversivo expresso pelas invasões obses­
sivas.

INDEX
BOOKS
GROUPS

0 marcador de pastos 9:1

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Dormindo no
tempo

INDEX Seria possível detectar um portador de TOC


apenas pelo fato de um indivíduo considerar que o tempo
só avança na consciência, ou que o dia só comece
depois de acordar, mesmo que o relógio mostre que já
passou das 00 horas? Provavelmente não, mas lariço
esta hipótese para que especialistas estudem até que
ponto isto é válido. Confesso que seria bem conveniente

BOOKS
poder controlar a passagem do tempo apenas com base
na própria necessidade! Lucidamente sei que o tempo
não pára a minha volta, sob controle exclusivo das obses­
sões e compulsões (daí a escolha do título, o marcador
de passos).
Quero, agora, comentar sobre a sensação de
direção. Muitos portadores mostram que após tocar o
braço, a mão ou a perna, de apenas um dos lados, ern
GROUPS
uma parede, por exemplo, sentem alguma forma de
desconforto e precisam encostar o lado oposto também.
Não parece uma doutrina ou norma a ser seguida,
envolvendo questões táteis ou de direção e simetria? O
TOC se apropria de todas nossas formas de interação
com o mundo...

T hvio.s iu.

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


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Pausa

Quem fo i o demente que di-s.se <jue tms.su


única certeza c a morte? Se fosse aplicar isso
ao meu caso. jícarin alé hoje sem diagnostica,
fbrtanto. sem tratamento adequado, e perma­
neceria com dúvidas eternas sobre a minha exis­

INDEX
tência. Aliás, náo só questiono essa afirmativa,
como afirmo, a título de réplica, que saber quem
somos é uma das poucas certezas que po/letuos ter. E
nossa saúde, nosso compromisso e respeito com nós
mesmos, enquanto que a inarle só depende de quem
a credita nela. Espero que. depois da morte eu ainda possa
permanecer vivo na memória de alguém.

BOOKS
GROUPS

rnnrmdor de pas-sos

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Em nome do
tempo, da crença
e da direção

INDEX A ansiedade e a pressa caracterizam a reação


do indivíduo com TOC perante o tempo. Os portadores,
além de passarem por ansiosos e impuisivos podem,
até, serem rotulados de supersticiosos.
Será que uma pessoa destra pode por preferir,
nos rituais de simetria ou contagem, dar um número exato
de voltas em torno de um determinado objeto ou de si

BOOKS
próprio, no sentido horário, apenas porque desenvolveu
mais o hemisfério cerebral direito ou esquerdo? Será
que, simplesmente, preferiu o sentido horário porque
sentiu maior segurança de se mover no sentido dos
ponteiros do relógio, baseado na crença de que não pode
quebrar esta convenção? O que será que influencia a
execução dos rituais, em termos de sua forma, freqüên­
cia, velocidade etc.?

GROUPS
1) Pensei sobre o nossa relação com o tempo:
conhecemos o funcionamento do relógio, apren­
demos a que horas acontecem os compromissos,
ouvimos que a meia-noite é (para os supers­
ticiosos) uma hora de mistério e terror etc..
2) Em nosso país vigoram um sem número de
lendas, crenças e religiões, e estes conhecimentos
são transmitidos de geração a geração. Quem

7 h a l fi ti B r i t o

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

nunca ouviu frases do tipo ‘‘se andar pra trás os


pais morrem”, “se cair colher, vem mulher, se for
garfo, vem homem, e se cair uma faca, vem briga”,
“nunca coma na frente do espelho porque isto é
ruim”, “não é bom pendurar roupas do avesso no
varal”? Outras crenças e frases envolvem nú­
meros, tais como “a idade de Cristo (33)", “o
número da besta (666)”, “as 12 badaladas da meia-
noite”, “sexta-feira 13", “bater três vezes na ma­
deira”, “rezar um terço tantas vezes’1, “trancado a
sete chaves”, “os 7 pecados capitais”, “trevo de 4
folhas” etc. Desde a infância, somos expostos a

INDEX
estas frases; ao adulto cabe discernir até que ponto
isso afetará seu cotidiano.
3) Será que o fato de um hemisfério cerebral ser mais
desenvolvido do que o outro favoreceu a origem
de frases como “Jesus sentou-se à direita de
Deus” , “Ele é seu braço direito”, “Deus acima,
Diabo abaixo11, “a mão direita (do juramento)”,
“política esquerdista ou de extrema d ire ita ”,

BOOKS
“começar com o pé direito”?
Cientificamente, é sabido que o hemisfério
esquerdo do cérebro controla movimentos e sensações
do lado direito do corpo, e o hemisfério direito, exerce
seu poder sobre o lado esquerdo. Busquei integrar numa
só teoria as noções de tempo, crença e direção e elaborei
uma questão, que enviei para Edson Amâncio:

GROUPS
“— Olá, Dr. Edson! Tem um capítulo que estou
escrevendo, no qual falo de uma reiação próxima entre
três aspectos do TOC: 1) relação entre tempo e ansie­
dade; 2) papel das crendices, contos populares, folclore;
e 3) direção/sentido de nossos movimentos. A questão
é: se em alguns rituais temos o indivíduo que dá voltas
em torno de si próprio ou de algum objeto (por exemplo,

( ) m arcador de

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

uma mesa de centro), eie prefere o sentido horário ou


anti-horário peio fato de ser destro ou canhoto ou prefere
o lado direito pois o esquerdo lhe remete a alguma lem­
brança ou trauma referente a este lado? Resumindo, a
preferência por uma direção é simplesmente ao acaso
ou determinada pela biologia? Esta questão tem a ver
com os hemisférios cerebrais?”
A resposta foi a seguinte:
“— Até onde é do meu conhecimento, não há
uma relação biológica que direcione o ritual do TOC, ou
pelo menos ninguém se interessou por esse aspecto do
ponto de vista cientifico. Os lobos frontais e a represen­

INDEX
tação cortical para os movimentos são realmente cruza­
dos nos seus comandos, mas a sensibilidade também,
isto é: se você tiver uma lesão cerebral na área represen­
tativa da sensibilidade corporal no hemisfério esquerdo,
a repercussão disso será no hipocampo direito. Da mes­
ma forma que lesão nas áreas motoras do hemisfério
esquerdo dará repercussão no hipocampo oposto e vice-
versa.”

BOOKS
Serei coerente em não me aprofundar cientifi­
camente no assunto, já que não sou médico. Entretanto,
apenas fiz o meu papel de soltar no espaço esta questão
que, ao menos para mim, permanece intrigante.

GROUPS

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Síndrome de
Touretle

INDEX
Foi a partir de um programa de televisão que
conheci Edson Amâncio. No programa, ele estava
lançando seu livro O homem que fazia chover, no qua!
explica a relação entre o cérebro e a mente. Um dos
assuntos que me chamou a atenção foi sua referência à
Síndrome de Tourette e um de seus ilustres portadores,
Mozart.

BOOKS
A descoberta do TOC foi uma grande novidade
na minha vida, Embora já soubesse que havia algo errado
comigo, ao ser diagnosticado me foquei no objetivo de
entender o TOC. Os sintomas de ST em mim eram
menos evidentes, mas este quadro poderia ser uma das
bases de sustentação para o TOC. Já havia notado a
presença de seus sintomas, mas apenas incluí seus
sintomas no pacote obsessivo-computsivo. A literatura

GROUPS
médica descreve o primeiro caso de ST em uma mulher,
a Marquesa de Dampiére, que tinha sintomas que
incluíam tiques involuntários em muitas partes do corpo,
com várias vocalizações como coprolalía (emprego de
palavras obscenas) e ecolalia (repetição de palavras que
outra pessoa acabou de dizer). Seu caso foi descrito,
em 1825, pelo neurologista francês Dr. George M. Gilles
de la Tourette que deu o nome à enfermidade. Desde

0 nu tra id o r dc passvs

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

então, ainda são desconhecidas as causas definitivas


da ST., porém estudos recentes consideram a evidencia
de uma desordem química, taí como no TOC, de um
neurotransmissor específico, a dopamina, mas não é
descartado o envolvim ento de outros neurotrans-
missores também.
O diagnóstico de ST é dado apenas pela
observação dos sintomas, sendo os mais freqüentes o
piscar de olhos, caretas, emissão de sons, fungar de
nariz, a contração de determinados grupos musculares,
e outros mais complexos como saltos, gritos, auto-
mutilação (cutucar feridas, roer unhas e arrancar peles),

INDEX
coprolalia e ecolalia. O tratamento da ST geralmente é
feito por medicamentos (nos casos mais graves) ou
apenas com a psicoterapia, sendo esta de grande valia,
da mesma maneira que nos casos de TOC.
Uma das maiores relações existentes entre o
TOC e a ST é que, nos dois quadros, ocorrem obses­
sões e compulsões, sendo que na ST estes fenômenos
ocorrem ocasionalmente. A aproximação com o TOC é

BOOKS
caracterizada pela presença de tiques ~ movimentos
involuntários, rápidos e repentinos, que ocorrem repetiti­
vamente. Não é de se espantar que, no meu caso, o
TOC acabou recebendo maior atenção. E não podemos
esquecer que os sintomas da ST podem sofrem remis­
sões periódicas por semanas ou meses, sem qualquer
manifestação.

GROUPS
Mozart, como mencionei, tinha ST e manifes­
tava um comportamento excêntrico com tiques motores
e verbais, retorcendo certos músculos, principalmente
do rosto, e por vezes miava como um gato. Seu talento
musical se sobressaía de forma singular e exuberante,
mesmo batendo fortemente seus pés contra o chão e
movendo as mãos incessantemente. A viúva de Mozart
afirmou que o marido nunca estava totalmente abstraído
em seu pensamento musical. Segundo Edson Amâncio,.

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

este foi o preço que Mozart pagou pelo seu elevado


talento.
O portador de tiques, por muitas vezes, pode
se sentir deslocado, como se faltasse algo e ou até,
deprimido por não poder ceder aos impulsos na frente
de outras pessoas. Seria melhor que a pessoa tivesse
condição de descarregar seus tiques ocasionalmente,
sem estar sob o crivo alheio.

INDEX
BOOKS
GROUPS

0 m u /c tv h r <k paswA

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INDEX
BOOKS
GROUPS
Superstição: sentimento religioso baseado ao temor
ou na ignorância e que induz a admitir falsos deveres,
recear coisas fantásticas e confiarem coisas ineficazes.
Crença em presságios, tiradas de fatos puramente
fortuitos Apego exagerado e ou infundado a qualquer
coisa. (Dicionário Aurélio, terceira edição)

102 í k n i f s U r i to

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Quebra de
tabus

INDEX
O cantor Roberto Carlos, entrevistado por uma
emissora de televisão acerca de tabus, afirmou que, no
seu caso de TOC: “— Tem coisas que mudam e tem
coisas que não mudam; tem coisas que são e tem
coisas que não são/’
Este é um dos raciocínios mais lógicos que nós,
portadores de TOC, devemos praticar em benefício de
nossa sanidade mental. Desde a infância, somos levados

BOOKS
a conhecer os tabus e proibições.
A realidade é clara, o caminho rurno à cura é o
seguinte: “Nada, a partir deste momento, estará livre das
associações com experiências ruins derivadas do TOC.”
Para ganhar o jogo contra o TOC, precisamos
modificar os antigos passos, quebrar muitos tabus. As
coisas não mudarão para melhor facilmente. No entanto,

GROUPS
dar atenção a aos temores gerados pelas obsessões
TOC será uma tarefa inútil, que prejudica as boas inicia­
tivas. Atualmente, continuo em tratamento e a quebra
desses tabus ou mitos ainda ocorre gradualmente, e
tenho a esperança que um dia, em breve, possa me ver
livre deles por completo. A terapia com porta mental e a
medicamentosa são fundamentais para a recuperação.
Confiar no tratamento e nos terapeutas são sem dúvida,
medidas de grande valia.

O m arcador de / híxso.s

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Passos
marcados,
outras histórias

INDEX
Overdose de shampoo

Hoje foi um dia comum e à noite, surrado pelo


desgaste do dia, entrei debaixo do chuveiro com as
mesmas dificuldades desses últimos tempos. À minha
frente, o sabonete e o shampoo. Comecei pelo sabonete,
desinfetando todo o meu corpo, do pescoço para baixo.

BOOKS
Depois, apanhei o shampoo e despejei a quantidade
necessária para a lavagem dos cabelos. Embora uma
só lavagem bastasse, coloquei em minha mão uma
segunda dose. Nesta hora, ocorreu um pensamento
obsessivo, o qual relevei. Mas a compulsão rapidamente
tomou conta de mim, e ansioso, passei a ser mais leve
na lavagem do que na primeira vez. Todo o meu controie

GROUPS
foi por água abaixo, junto com a sujeira. Parti para a
terceira lavagem, pois o conteúdo da obsessão muito
me afetou, como sempre. Vieram a quarta; a quinta e a
sexta vez, cada vez com mais shampoo, Mais uma ou
duas lavagens e o meu couro cabeludo ardia como que
arranhado, meu corpo rígido e cansado implorava pelo
abandono do ritual, ao qual me impunha a finalizar com
relativo sucesso. Mas que sucesso? O sucesso é
conseguir lavar enquanto mantenho o pensamento

7 I ttt h 'S Br il n

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

contrário à obsessão? Estou atento e me preparo


obsessivamente, como um herói que junta todas forças
para o embate final. Então, percebo que esvaziou-se o
frasco, no meu ritual ilimitado. Com raiva, sentindo-me
no limite, mãos trêmulas de ansiedade, recolho a sobra
de shampoo e lanço o frasco contra o seu suporte.
Distribuo a espuma pela cabeça, enxáguo o cabelo e,
respirando mais leve, concluo a tortura do banho. Lamen­
to o desperdício da água e do shampoo. Dias depois,
tive uma overdose de biscoitos e oihando para trás,
recordo que também tive overdose de água, cigarros e
de muitas outras coisas.

INDEX
Dedos sangrentos

A ansiedade é praticamente inesgotável, tremo


por esse motivo. Há formas de neutralização. Posso me
conter sendo impulsivo, explosivo, posso me concentrar

BOOKS
em formas ou sons, ou também roer meus dedos,
despedaçá-los com um alicate de unha... Ocasio­
nalmente só paro ao ver a cor vermelha do sangue, no
papel em que escrevo. Meu poder de cicatrização é
grande, posso abrir nova incisão sobre um ferimento
cicatrizado com o intervalo de pouco mais de um dia. Se
eu fosse analfabeto, não assinaria com o polegar direito,
pois não tenho digitais. Na confusão das obsessões não

GROUPS
me contenho e devoro meus dedos. Alicates, tesouras,
lâminas e dentes destroem meus próprios dedos. Meus
pés, também não escapam dos diversos tipos de corte.
Minha carne fica exposta e basta a água para queimar
como ácido esses dedos. Uma dor sem volta, porém não
definitiva. Isto dói, mas passa. Eu preciso saber: quantas
dores agüento? Não! Só preciso saber a hora de parar,
mas paro e retomo, paro e retomo, paro e retomo.

O ’nnrmdat ti? passos

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

"Minha rida vai pelo ralo, como água no esgoto. Fxistem


par/v.s do meu corpo que representam exatamente o que eu
quero dizer. Uma delas são as m inhas mãos. 1 cada

INDEX
impulso, unia dentada no canto dos dedos, fatiando-os,
sangrando e mutilando até a dor anunciar que o sangue já
escorre, pelas bordas, ,1o cicatrizar de cada fen d a , removo
a fin a membrana de pele que se formou. Esparadrapos ou
luvas não me impedem. F o maior retrato da minha vida.
(Juando uma ferida cicatriza, trato logo (!<■' abrir outra.
Os meus pés não escapam da tortura. Fm contato com a
água exibo meus m embros cadavéricos, m ãos e pês

BOOKS
destruídos, que retomam sua condição humana em cerca de
uma hora. I água se torna inimiga das minhas feridos, e
quando completamente secas, mostram-se tão cortantes
quanto as pmprias unhas. Neste casa, é possível conhecer
minha vida somente com a leitura das minhas mãos... F
sexta, encapei todos os dedos das mãos com fita isolaute,
mas depois de algumas horas as retirei. I fita não fo i
suficiente, mais uma vez superei a dor e voltei a me ferir

GROUPS
compulsiramente. "

l h o !“ .s f i r i m

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A escadaria sem fim

Todas as noites, antes de me recolher, sustento


um hábito de me pôr à mesa e tomar um café. Junto a
esse hábito é sempre comum a visita de tantas outras
manias e rituais. Pois bem, termino o lanche e me enca­
minho em direção a porta do quintal, onde subirei a esca­
da que me leva ao meu quarto. De frente aoo primeiro
degrau, com extrema concentração, programo a minha
mente para produzir bons pensamentos, os quais enun­
cio em voz baixa, feito um mantra ou reza. O primeiro

INDEX
degrau é alcançado e junto com a ação, ocorre um mau
pensamento, um temido invasor. Desço novamente e
me preparo outra vez diante dos quinze degraus. Numa
tempestade de movimentos salto dois degraus, e desço
ao térreo novamente. A tensão vai aumentando, começo
a transpirar e, novamente, preparo a subida. Preciso
recomeçar tudo. Desta vez, com lentidão obsessiva,
meus músculos contraídos esperam a hora de dar o

BOOKS
primeiro passo. Passam uns dez minutos e, beirando a
exaustão, arrisco subir até o quinto degrau, mas na pas­
sagem do terceiro para o quarto ocorreu outro pensa-
mento obsessivo. Metade do meu corpo deseja continuar
subindo e a outra metade prefere descer e repetir tudo.
Volto ao térreo. Cerro os punhos, respiro fundo como
quem vai atacar, e desta vez subo rapidamente até o fim

GROUPS
das escadas, e desço igualmente veloz ao térreo, muitas
vezes... Sempre volto. Subir escadas havia se tornado
um desafiante e exaustivo exercício físico. Após cinco
minutos de lentidão e várias tentativas sem sucesso
consigo sustentar um bom pensamento até que com­
plete a subida da escada. No final da escada. Pareço
um soldado recém-libertado do campo de prisioneiros,
com a sensação de dever cumprido e sem querer olhar
para trás. Nos outros dias, mal quero descer para não
ter que ritualizar. Mas é inevitável, pois não sáo apenas

(> nunrador jxixsos

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percursos ou degraus, e sim obsessões e compulsões,


compulsória série de repetições.

O elirir sagrado

Extremante abalado e confuso com os graves


ataques obsessivos, sem ter para onde correr, fui força­
do a criar um processo simbólico de fuga, O que tinha
em mente era criar um símbolo de resistência, que pu­
desse me garantir ou representar um eterno bem-estar

INDEX
e equilíbrio biológico. Após um período de amigdalites e
invasões obsessivas, me lancei à prática de um dos
rituais mais excêntricos que tive, para que pudesse me
defender de alguma forma. Eu tinha que conter os surtos
de gripes que supostamente estava tendo, pois estes,
associados aos temas obsessivos, vinham me casti­
gando cruelmente. Usei um frasco vazio de medica­
mentos para o preparo da minha criação. Desenvolvi o

BOOKS
seguinte plano: Preciso colocar aí dentro uma amostra
da minha recuperação, provando que respondi bem ao
tratamento”. E, para finalizar, pensei: A única forma
de captar a interação do medicamento com meu corpo
agora bem recuperado poderia seria através de minha
urina”. Enchi totalmente o frasco e, com caneta de
retroprojetor, anotei no frasco a data e hora do ritual. Guar­
dei aquilo num local não visível a quem entrasse no meu

GROUPS
quarto, mas eu podia percebê-lo facilmente. Vez ou outra:
eu conferia seu conteúdo e com certa satisfação, o fe­
chava, mais tranqüilo por possuir um símbolo tão signifi­
cativo quanto o frasco de urina poderia ser naquele
momento.
Criei um elixir, não bebível, contra tudo que é
ruim: o símbolo da vitalidade. Inventei um ídolo de urina,
num recipiente plástico e o guardei por mais de dois

io\ 1 /ín/f .s l i r i l t j

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

anos. Apesar da descrição detalhada, fiz isso rapida­


mente, sendo um ato quase espontâneo. Nunca passou
pela minha cabeça a obrigação de ter que beber o elixir,
e se isso me ocorresse, honestamente, não saberia
como proceder. Naquela época, em que tudo era mais
obscuro para mim, meus rituais eram fundados apenas
na necessidade de fuga dos pensamentos ainda mais
horríveis e desconexos, e que prejudicavam meu discer­
nimento.

A ânsia pela ânsia

INDEX Pigarrear (um dos meus sintomas) trazia muco


intenso à garganta - sentia leve ânsia- levo em conta o
tabajismo também. Lacrimejavam os olhos, mantinha
os lábios tensos e o abdômen para conter o vômito,
Segundos mais tarde, a pressão diminui, os músculos
relaxam e a respiração torna a ficar mais serena, mais

BOOKS
suave, isso quando não há obsessão. O pensamento
invasor chega nos momentos em que me defronto com
dificuldades maiores, que exigem maior perícia para
resolvê-las. Então, surge nova ânsia de vômito e outra
obsessão... Provocada pelo dedo indicador, a sensação
de vômito torna a emergir garganta acima e o que me
interessa é reproduzir apenas a sensação, para que
agora venha na companhia de um bom pensamento.

GROUPS
Não me interessa vomitar, ao contrário dos pacientes
bulímicos. O indicador se torna visita comum e chega a
ser por outros dedos mais, com o punho mais firme. Na
terceira tentativa, aproximadamente, ainda não obtenho
a exata sensação de ânsia que veio com a referida
mensagem invasiva, então não poupo esforços e tento,
em torno de dez vezes, unir a sensação de regurgita-
mento ao melhor pensamento possível, aquele que serve

O n iu ra u .h r de fiassos

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

de antídoto para o invasor. Muitas tentativas depois, cada


vez mais exuberantes, minhas mãos tremiam, o meu
olhar era objetivo e meu semblante é pura obstinação.
O som do chuveiro e do rádio abafam a ânsia e o vômito.
Tudo isso movido pela necessidade irracional de anular
uma obsessão. O término do ritual é finalmente alcan­
çado, mas subsiste o desgaste da torturante obrigação
de ritualizar inúmeras vezes.

INDEX
BOOKS
GROUPS

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Passos
marcados 2

INDEXContos diários

Já há algum tempo tinha vontade de tomar


algum sedativo para dormir sem pensar e sem me esfor­
çar por pelo menos uma semana. Não compreendia
exatamente essa necessidade na época em que eu não

BOOKS
sabia que tinha TOC. Não sabia se realmente gostaria
de interromper minha vida, mas sem dúvidas suprir
minha necessidade ajudaria a esquecer e reiaxar um
pouco. Seria isto desejar a morte, cometer suicídio?
Talvez. Ou seria a representação do legítimo desejo de
viver sem TOC, com liberdade de pensar e agir?

GROUPS
Tenho toda performance de um dependente
químico: comportamento ansioso, olhadelas para os
lados, me sacudo inquietantemente junto com alguns
tiques. Sou um viciado em rituais para neutralizar.

Na fase negra por assim dizer, é quase impos­


sível interpretar muitas coisas, em especial a minha
natureza. Fico fechado nesse mundo cheio de redun-

0 m c r c u tJ o r r k p a s s o s U i

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

dâncias e impurezas, que me impede de entrar em


contato com a realidade, e a faculdade de me mover e
respirar relaxadamente. Tudo tende a ser visto de modo
taxativo e rotulante.

Há milhões de maneiras de morrer, de adoecer,


de lembrar de alguém que já morreu e de temer que
alguém morra. Dá a impressão de que sou curioso para
o que é o mal, aliás, esta é uma interpretação entre tantas
que vêm do maldito transtorno. As conseqüências são:
mal deito, mal durmo, mal relaxo, mal levanto, mal

INDEX
respiro, mal fico em pé. Mal vivo bem. Outro mau pensa­
mento: seria uma boa viver com tantos males? Seria
melhor só ter medo do mal, visto que fisicamente estou
bem?

Hoje, tudo que era de certa forma estável e


habitual, se desestabilizou. A virada do tempo ontem

BOOKS
ofuscou as reações em mim. Verdadeira ventania estre­
mecia portas e janelas à noite. Meu quarto, arrumado,
parecia uma geladeira vazia, um vazio que simbolizava
solidão. Na manhã de hoje, com grande confusão interna
fui tocando meu dia. Tudo foi atarefado. Mas, no final
das contas, as atividades que pareciam tão importantes
podiarn esperar no mínimo por um ano para serem reali­
zadas.

GROUPS
Tenho sensações incômodas de culpa, compro­
misso e dependência quando me desfaço da obrigação
de “ter que fazer”. A compulsão é forte, parece que teria
mesmo que fazer algo ou que fico devendo o cumpri'
mento de uma tarefa.

f12 T h a h . s liríh i

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Sei que nenhum pensamento deveria influenciar


minha vida, por isso o conflito. Tudo rião passa de
impressões distorcidas.

Depois de relatar extensivamente meus sinto­


mas, um profundo desabafo, pensei: ao pensar na morte
(que associo cartas de despedidas, agradecimentos ou
críticas), sinto que recupero minha verdade

Tenho sensações de ser um cão ou primata que


vive mecanicamente. Tudo que faço está em estrita de­

INDEX
pendência com as obsessões. Eu juro que não agüento
mais. Não sei quanto tempo mais agüento. Gostaria de
ser internado e voltar são. Antes fosse viciado em drogas,
assim só teria uma dependência, mas comigo, tudo é
vício, apego e desapego, tudo é dependência. Estando
comprometido, miserável e medíocre com grandes
dificuldades, e que grito: “— Não agüento maisr. É muito
difícil dormir, e muito fácil não querer acordar

BOOKS É hoje, é hoje. Este foi um dos pensamentos


que me seguiram durante o trajeto para a minha casa.
Não parecia eu dirigindo o carro. Me senti manipulado,
ou coisa assim. São os pensamentos que invadem, es­
capam e não passam por avaliações. Quem os deixa
escapar sou eu. Até dá impressão que os pensamentos

GROUPS
são voluntários. Como ter motivação para viver se tenho
pensamentos nos quais todos morrem daqui a pouco?

Eu me sinto fracassado, comprometido por


essa coisa chamada TOC. Meu cérebro não flui mais.
Não sei mais o que estou escrevendo. Não parecer ser
eu, pois quem escreve é apenas o eu físico. Não sei

m arcador dc pa.-i.so,\

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

como as palavras tornam-se frases. Não me sinto racio­


cinar. A medida que escrevo, meu pescoço se curva sem
força alguma em direção ao caderno. Apesar de às vezes
querer entregar os pontos, tenho receio do que pode
acontecer. Não sei quanto mais vou durar. Sinto-me em
transe. Parece que psicografo essas frases e, apesar
das más influências, minhas palavras contraditoriamente
fluem com rapidez... Mas eu raciocínio? Estou confuso:
literalmente tonto. No caminho de casa a tristeza me
visitou. Minha vida acabou, não respondo a ninguém, neste
momento estou inerte. Minha caneta escreve sozinha, não
sei o que acontece. Não quero este tipo de vida.

INDEX Doença misteriosa. Capaz de criar qualquer


outra coisa, tudo o que faz é inventar idéias apavorantes
Suas invenções baratas desaparecem, e quando umas
vão embora, outras surgem automaticamente. Escravi­
zado, luto contra o nada atordoante. Prisão virtual, arti­
ficial, sem grades nem paredes, sem carcereiros ou

BOOKS
amarras.

... É noite de sexta. Estou com um peso insus­


tentável na parte frontal da minha cabeça e não consigo
ver nada ao meu redor. Tenho uma ânsia de vômito quando
penso na quantidade de perturbações que me abalam.
Neste momento, pela TV, um jo rn a lista diz:

GROUPS
“— Dependência é doença”. Sem dúvida, muito animador.

... Acho que o enjôo, além de travar a respiração,


vem das imagens, textos dessa bagunça na minha
cabeça. Tudo é um grande borrão. Sinto como se esti­
vesse na jarra do liquidificador.

m t/u iirs lir a o

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INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

... Do funde da cratera em que me meti, é quase


impossível não perguntar: porque os pensamentos ruins,
obsessivos, formam-se mais fluentemente que os nor­
mais, reais? Shirlei me que explicou que o próprio TOC
é detalhista. Os pensamentos de TOC exigem que sua
reação compulsiva seja sempre perfeita e assim, as
obsessões vêm com força total.

... Ainda continuo sem poder ouvir muito, sem


poder falar muito, e sem fazer ou ver muito. Já há algum
tempo meus sintomas vêm afetando até minha interação
com as pessoas: às vezes, peço que repitam coisas.

INDEX
Meus cinco são recrutados pelo TOC.

... Existem coisas que simplesmente quero


parar de fazer, são as compulsões. Fica um pouco mais
difícil no caso das obsessões pois elas surgem até em
sonho. Quero que essa coisa passe a não fazer parte
da minha vida, já que obviamente são inverdades.

BOOKS ... Devo realmente ser radical parar com todos


os rituais, resistir às compulsões, não importando a dor.
O problema é colocar isso em prática, extremamente
complicado. Não sei se é possível simplesmente parar,
mas sei que quero isso.

GROUPS
... Muitas vezes, quando me livro de uma grande
compulsão e vem todo aquele alívio, e por algum tempo
sinto-me menos dependente, ela é substituída por outra
logo em seguida. Tento agir por algum motivo real, próprio
do eu, mas logo o pensar e o agir impróprios aparecem.

<>tihvrailíi! de /ju.vvt.v

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

... Ouço falar de pessoas com alguns problemas


que dizem matar um leão por dia. Grande coisa! Eu mato
no mínimo uns nove, num dia mais ameno.

... Estou com aquela tontura, parece que vejo


tudo em câmera ienta e associo isso à minha respiração.
São 22h30, não tenho programa nenhum e mais do que
nunca, redundantemente, estou cansado de repetir coisas.

... Ainda tenho que enfrentar pelo menos uma


morte a cada hora. Decido me deitar, paro tudo e me paraliso

INDEX
também, e rapidamente ressuscito. Finalmente derramei
duas lágrimas. Até essas coisas me trazem crises, pois
precisava de mais duas lágrimas para ritualizar..,

... Não sei o que acontece esta noite, estou fora


de mim. Não consigo tirar a expressão de nojo do
semblante; tive impulsos de berrar palavras estrondosas

BOOKS
que possam me firmar na terra de uma vez por todas.

GROUPS

tio Thxile-i

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Batalhem

INDEX Uma guerra, com várias batalhas, dia após dia.


Nada até aqui foi fácil. Ainda sonho com um dia em que
chegarei em casa, me deitarei na cama livremente e dor­
mirei tão profundamente que ao acordar, nada do que
passei voltasse à tona. Tenho compromisso com a tera­
pia comportamenta! e medicamentosa, cumpro com
minhas tarefas e vontade de vencer. Preciso recuperar

BOOKS
minha essência e entrar em contato com minhas
necessidades.
Como seria capaz de mudar a minha persona­
lidade, a dos outros ou exercer poder de responsabilidade
sobre vidas ou ações tão alheias? Não há como! Parti­
cularmente nunca acreditei nessas influências, porém
não foi nada fácil provar isto, pois boa parte desses
últimos tempos foi marcada por obsessões, pensa­

GROUPS
mentos perturbadores. Estou há cerca de um ano em
tratamento, o qual procurei por conta própria. Depois de
atingir um estágio bastante grave e constrangedor para
mim mesmo, tenho agora muito o que trabalhar a respeito.
Minha psicóloga, foi um raro presente que a vida
me deu, sem ter um preço a pagar. Nunca me desapon­
tou, em hipótese alguma e criamos um vínculo tão grande
de confiança que espero preservar ao longo da vida. Ela

0 marcador de p<iss< 117

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

me deu uma base sólida, da qual precisava para rne fir­


mar na realidade, depois de tantas ficções. O TOC
nasceu e cresceu do mesmo modo como o tenho reba­
tido: é possível aprender com as derrotas que sofremos:
mas também é possível nos desenvolvermos sem sofri­
mento, com o próprio empenho e vontade para isso.
Valorizo a família, pelo apoio que recebi. Não estou
plenamente recuperado, tenho sinais da presença do
marcador de passos. No entanto, sei como meu inimigo
funciona e isto é uma grande coisa. Futuramente, espero
vencê-lo de uma vez por todas, para que nunca mais
escute seu eco atormentador. Anos, meses, semanas,

INDEX
dias, horas, minutos e segundos marcados passo a
passo, durante, no mínimo dezesseis anos. Os últimos
foram os mais suados de todos. O TOC é crônico, mas
os sintomas, em alguns casos, somem por completo, e
eu tenho essa esperança, mas ficarei satisfeito se ao
menos conseguir controlá-los completamente, em breve.
Estou dando o sangue, literalmente, e basta que eu
mesmo olhe as minhas mãos para crer.

BOOKS
GROUPS

//s Thu/cs tíritv

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

Passos à jrerite

INDEX Como diz o título deste último capítulo, atual­


mente lido melhor com o TOC, e parte do progresso é
fruto da informação que adquiri. Constantemente penso
no tempo, nos anos perdidos, nas coisas que evitei de
fazer, e nos meus insucessos. A informação correta me
transmite certa segurança e tranqüilidade e me faz
perceber que não sou a única pessoa no mundo a

BOOKS
transitar pelo cenário sombrio e confuso que o TOC
proporciona.
Há pouco mais de um ano, e n con tre i a
estabilidade nos cuidados da Dra. Bernadete Aparecida
Brito, a p siq u iatra que cuida de mim na parte
farmacológica. Quero agradecê-la, pelo empenho com
que luta para que meu quadro se estabilize em patamares

GROUPS
melhores (com os sintomas mais amenos e com uma
menor quantidade de efeitos colaterais). Faço uso, sob
supervisão dela, de medicamentos diferentes, com
função antidepressiva, ansíolítica, antiobsessiva e
estabilizadora de humor. Provavelmente precisarei de
toda esta medicação, ou parte dela, a vida inteira.
Outro fator que contribuiu muito para meu pro­
gresso é a terapia cognitivo-comportarnentaí. Aprendi
com Dra. Shirlei a importância das técnicas de combate

O marcador de passos

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

ao TOC, chamadas de “exposição e prevenção de


respostas”.
Tenho tentado tomar as rédeas “racionalizando’’
as situações, tentando rião cair nos paradoxos da i!usão;
aos quais as obsessões me levam. Não é uma tarefa
muito fácil de ser praticada, o tratamento é baseado na
idéia de que posso aprender a não reagir às obsessões,
preciso me expor às situações que induzem as obses­
sões, mas sem ritualizar, mesmo que eu esteja
compelido a obedecer ao TOC. Aos poucos, vou conse­
guindo me manter, digamos, com os pés na reaiidade,
por períodos mais longos. Deste modo, o TOC deixou

INDEX
de ser grave, estou com um grau moderado de sintomas.
Busco manter o meu pensamento focado em
que não há nada de fantástico permeando as situações,
nada que vá fazer com que alguma desgraça aconteça,
mudando quem sou ou o curso dos acontecimentos.
Ao longo da terapia estou aprendendo que cada
obsessão é apenas um conjunto de im pressões
extremamente negativas que nos invade e que não deve,

BOOKS
em hipótese alguma, ser acompanhado pelos rituais.
Aos portadores ou pessoas que se identifiquem
com os sintomas de TOC, quero sugerir que acreditem
racionalmente no que se é como indivíduo. É importante
não m ergulhar na confusão mental gerada pelas
emoções desagradáveis deflagradas peias obsessões.
Confesso que mantenho certo receio ou pudor

GROUPS
pelo próprio TOC, de compartilhar estas idéias libertárias
com os leitores. Mas devo superá-los aqui e agora, para
poder ajudar mentes confusas como já esteve a minha
e esclarecer algumas de suas dúvidas com o meu livro.

m Thah-s H nt,

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

INDEX
BOOKS Impressionante como a expectativa. de executar um riluai
pode gerar uma detalhada perícia, sobre interpretações. Se
recdízo um ritual com uma intenção, por mais forte que. eu

GROUPS
seja naturalmente, e mesmo que esta execução se baseie em
boas intenções, o T()< ’me sugere milhões de hipóteses, cada
vez mais absurdas, dependendo do grau de estresse. Im ­
pressionante também, c como a boa intenção pode se
distorcer em fração de segundos, resultando coisas (mesmo
as boas) c as transformando cm algo terrível paro se su ­
por lar. Mas... mais uma vez, alego sem medo ou dmidu
que ao último ato, minha intenção fo i a mais pura e. a
melhor.

0 marcador dr pnxst. tf t'2t

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

O sonho final

INDEX
Certa noite tive um sonho que representa minha
jornada ao longo dos meus marcados, e tive o
cuidado de anotá-la, e agora a utilizo para encerrar
este livro.

Numa época remota do antigo oriente, nas

BOOKS
montanhas rochosas do norte, duas arcas descem
misteriosamente a toda velocidade, quase em queda
livre. Mas estavam fixas a barbantes azuisi tanto na popa
e proa das embarcações, quanto nas espadas típicas,
que nós, bárbaros, empunhávamos. Minha embarcação
segue à frente, assistida pela inimiga, encostada na proa
em descida veloz. Os barbantes de sustentação pare­
ciam aqueles que movem os marionetes, não mostram

GROUPS
mas enxergo seus íimites. Enquanto desferia severos
golpes contra os inimigos, encontrava tempo para golpear
os barbantes que estavam presos também à minha
espada afiada. A cada corte que faço, me desprendo um
pouco e sigo mais leve e rápido que o inimigo, até que
novas linhas nos suspendam novamente e ficam ali, para
serem repetidamente desprendidas. Ao terminara des-
cida, ao pé da montanha escarpada, caminho à espreita

122 i h a tes t i n ! o

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

dos mitos, pronto para desmistificá-los. Empunho, agora,


uma lança afiada e certeira, para superar o medo e fazer
o que teria de ser feito. O terror continua. Sorrateiro,
rondo as cavernas, encontro seres pequenos, de índole
inferior. Um se aproxima, pronto para o ataque com fúria,
e aparente intenção de sentir o sabor do meu sangue.
Então, com perícia, atiro minha iança sobre o líder, que
caí fora de combate com a lança encrustada sobre a
artéria do pescoço, responsável pela vida. Assume,
então, a forma de um cão negro, de porte médio, agora
morto e digno de pena. Próximo de despertar, uma
música ressoava suavemente ao longe, até tomar corpo

INDEX
e se fazer em bom som. E sua letra dizia: “Esqueça de
tudo o que aconteceu, amanhã será um novo dia”.

BOOKS
“O GROUPS
TOC atinge um e/n cada quarenta ou
cinqüenta indivíduos. i\o Brasil, é provável
que e.iíst/un entre três e quatro milhões de
portadores. ”
Ei ) \1 E : Revista Psique Ciência e Vida, roí. 9. Editora Sro/a.

O marcndhr de ( hiasus

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Bibliografia
consultada

INDEX
Zamignani, DR e Labate, MC (2002) A vida em outras cores.
Santo André: Esetec
A m ancio, E (2005) O Homem que fazia chover. São
Paulo:Barcarolla.
ASTOC - Associação de Portadores de Síndrome de Toureíte,
Tiques e Transtorno O bsessivo C om pulsivo, w ebsite

BOOKS
Revista Psique Ciência & Vida. n°9, São Pauío: Editora Escala.
Caminha, RM, Wainer, R, Oliveira, M, Picoiotto, NM (2003)
Psicoterapias: Cognitivo-com porta mentais: Teoria e prática, São
Paulo: Casa do Psicólogo.

GROUPS

i íiatex Bt i!>:

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27/8/2015

Resolvi escrever este


livro após ser diagnosticado como
portador de TOC (Transtorno
Obsessivo Compulsivo). Nesta
época eu estava prestes a me for­
mar em Publicidade e Propagan­
da pela Universidade São Judas

INDEX
Tadeu (SP). Como profissional da
área de comunicação, penso que
disseminar informações corretas
pode transform ar sig n ifica ti­
vamente a vida de muitas pes­
soas.
“O Marcador de Passos”
deliberadamente expõe minha
vivência, enquanto portador de

BOOKS
TOC e o resultado do meu empe­
nho pessoal em conhecer melhor
os diferentes aspectos do mal que
me acomete. Não é um tratado
acadêmico, mas visa promover o
reconhecimento precoce dos
sintomas mais evidentes. Narrado
na primeira pessoa, este livro
apresenta aspectos críticos das

GROUPS
diferentes fases da minha vida,
desde o início do transtorno na
infância, até a vida adulta, quando
se estabeleceu grave prejuízo
funcional, pensamentos suicidas
com a exacerbação dos sintomas,
até então sem diagnóstico e
tratamento adequados.

27/8/2015
INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!
INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!27/8/2015

No Brasil, foram publ-


cados poucos depoimentos de
portadores de TOC. Segundo
pesquisas recentes, estima-se
que existam em nosso país
entre três a quatro milhões de
portadores, sofrendo pelas
decorrências de alguns dos
sintomas obsessivos - compul­
sivos.
O título desta obra, o “O

INDEX
Marcador de Passos”, caracte­
riza bem meu cotidiano como
portador de TOC grave, cada
minuto era literalmente marcado
passo a passo, com impacto
negativo em todos os aspectos
de minha vida. Partilho com o
leitor as anotações que fazia
diariamente sobre meu compor­

BOOKS
tamento, no intuito de oferecer
m e l h o r e s d e s c r i ç õ e s aos
profissionais que me tratavam.
Além de portadores e
familiares, acredito que estu­
dantes e jovens profissionais das
áreas da saúde e educação
podem se beneficiar desta leitu­
ra. Escolhi uma linguagem sim­

GROUPS
ples para esta obra em que eu sei
que apenas abro portas ao
conhecimento, a partir de minha
experiência pessoal. Aos que se
interessem em saber mais sobre
minha experiência, informo,
abaixo, meuemail.
Muitíssimo obrigado por toda a
atenção,

Thales Brito

27/8/2015INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!


INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões! 27/8/2015

O livro O Marcador de Passos foi escrilo cm


linguagem simples, voltado não somente para projlssioi iais
de saúde, mas para todos que estejam interessados <ni
entender melhoro Transtorno Obsessivo-Compulsivo. t'sla
obra traz informações e dicas para os que tenham algum
interesse pelo assunto, a partir do relato do autor, um
portador cie TOC.

O TOC está entre os transtornos mentais mais


freqüentes, atinge cerca de 2,5% da população. JVo TOC,
uma pessoa é aprisionada por utn padrão de per isai tiei itos e
comportamentos repetitivos, sem sentido, desagradáveis e

INDEX
extremamente difíceis de evitar.

jfis pessoas, de maneira geral, desconhecem os


sintomas do TOC, e quais são os tratamentos disponíveis.//l
Terapia cognitivo-comportamenlal é urna intervenção
psicológica que visa combater o desconforto e os
comportamentos indesejáveis causados pelos pensamentos

BOOKS
obsessivos que acometem o portador, demonstrou-se, por
meio de estudos, que esta modalidade cle terapia, a cognitivo-
comportamental, funciona bem para o TOC, com resultados
duradouros.

Teia e informe-se, esta pode ser uma arma contra a


doença, ou pelo menos uma forma cle alertar ao portador e
sua família, compreender os sintomas e cooperar com a
GROUPS
recuperação do portador de TOC.

Shirlei fjzaki olfan

27/8/2015 INDEX BOOKS GROUPS: perpetuando impressões!

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