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Dos processos de colonização e subalternização do

saber à marginalidade urbana: porquê necessitamos


olhar a América Latina como produtora de um novo
urbanismo
Carolina Frasson Sebalhos
Mestranda em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal de
Pelotas.
carolsebalhos@gmail.com
Daniela Cristien Silveira Mairesse Coelho
Mestranda em Direito na Universidade Federal de Pelotas. Bolsista da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior -
CAPES.
danielacristien@gmail.com
Eduardo Rocha
Doutor em Arquitetura; Professor na Universidade Federal de Pelotas.
amigodudu@yahoo.com.br

Eixo: A cidade sul-americana contemporânea sob a perspectiva


do Sul Global.

Introdução

Este trabalho tem como objetivo estudar um novo urbanismo, sob o viés decolonial, evidenciando o
impacto do colonialismo no processo de fazer cidade. O problema de pesquisa, busca responder se
as relações entre a dominação dos povos e as explorações que moldaram as cidades latino
americanas, proporcionaram e agravaram os processos de segregação da população.

Sendo assim, analisa-se num primeiro momento qual a origem da hegemonia do pensamento
europeu, a partir do processo de colonização e, consequentemente, o apagamento das culturas e
saberes preexistentes. O resultado desse processo, ocasionou a troca gradativa de nossas próprias
culturas e histórias de ancestralidade, por uma cultura e epistemologia ocidental. Em seguida, trata-
se de como a colonização moldou as cidades com base na exploração de matéria-prima, de terra, de
pessoas. Essa exploração – nada velada – por parte dos colonizadores, levou à segregação da

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população a partir de diferenças étnico/raciais e de classe, resultando na marginalização da
população mais pobre.

Revelada essa face da colonização, o estudo evolui para a demonstração da colonialidade ainda
existente em nossas realidades. Assim, para o surgimento de um Urbanismo decolonial é necessário
romper com essa influência europeia sobre o fazer cidade, para banir/conter os modelos importados
da Europa, a fim de pensar em um urbanismo desde o Sul e para o Sul.

Por fim, aborda-se o caso do Urbanismo Social, aplicado em Medellín, como uma forma de pensar o
urbanismo para o Sul. Analisam-se as afinidade deste urbanismo com os pensamentos decoloniais,
sem invalidar seu contexto como novo urbanismo. No trabalho utilizou-se o método dedutivo, em
investigação qualitativa e revisão bibliográfica.

1 Do “descobrimento” ao “encobrimento”: 1492 e o mito da modernidade

A história do “descobrimento” da América, com a chegada dos colonizadores europeus em 1492,


também é um processo de encobrimento dos saberes e culturas dos povos colonizados. Dussel
(1994) denomina Cristóvão Colombo como o início da história do homem moderno que, embora
tenha compreendido a terra avistada como uma parte desconhecida da Ásia, foi o primeiro a navegar
oficialmente e traçar as rotas para o descobrimento do “Novo Mundo”. O fracasso das primeiras
expedições de Colombo – que prometiam a descoberta de um paraíso, mas ocasionaram a morte de
grande parte da tripulação – resultou na substituição do comando das navegações por Américo
Vespúcio.

Seguindo as mesmas rotas descritas por Colombo, Vespúcio percebe diferenças na extensão
territorial entre a Ásia e as terras “desconhecidas”, denominando-as como uma Quarta Parte da
Terra, o homem moderno e descobridor produz, então, a transição entre a Idade Média
renascentista e a Idade Moderna (DUSSEL, 1994). Ou seja, a colonização de terras da América é o
marco inicial da Modernidade, transformando a Europa no Centro do Mundo. Nesse contexto:

La Modernidad se originó en las ciudades europeas medievales, libres, centros de enorme


creatividad. Pero "nació" cuando Europa pudo confrontarse con "el Otro" y controlarlo,
vencerlo, violentarlo; cuando pudo definirse como un "ego" descubridor, conquistador,
colonizador de la Alteridad constitutiva de la misma Modernidad. De todas maneras, ese
Otro no fue "des-cubierto" como Otro, sino que fue "en -cubierto" como "lo Mismo" que
Europa ya era desde siempre. De manera que 1492 será el momento del "nacimiento" de

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la Modernidad como concepto, el momento concreto del "origen" de un "mito" de
violencia sacrificial muy particular y, al mismo tiempo, un proceso de "en-cubrimiento" de
lo no-europeo. (DUSSEL, 1994, p. 08)

A visão eurocêntrica sobre o processo de colonização, naturalizou a exploração das terras e dos
povos originários e o apagamento de seus saberes e sua cultura. Para melhor manipular e controlar
as mentes e corpos indígenas1, foi necessário alcançar o imaginário desses povos, impondo a
existência de um mundo sobrenatural do desejado (céu) e do temido (inferno). Para isso, o
colonizador destruiu as aldeias e templos, reprimindo as crenças e pinturas indígenas. Dessa forma,
aniquilando a visão de mundo anterior, substitui pela visão de mundo europeia (VAINER, 2014).

Nesse contexto, Mignolo (2017), constata que a colonialidade é um elemento constitutivo da


Modernidade e não derivada desta. A problematização daqui decorrente pode ser encontrada em
Dussel (1977), para o qual existem dois lados da dominação dos europeus sobre suas colônias: a
morte do outro e a servidão. Por esse motivo, falar em dominação também implica uma inversão,
que faz parte do projeto decolonial: olhar desde o Sul e para o Sul.

No plano filosófico, Dussel (1977) explica que antes do ego cogito de Descartes, o “eu penso” da
filosofia moderna europeia, está o ego conquiro. Ou seja, o ego conquiro é o fundamento prático do
eu penso. Em outras palavras, o estudo da natureza do ser surge da dominação sobre os outros
periféricos. Esses periféricos são aqueles que não se encontram espacialmente no centro, lugar este
que pertence à Europa, o Centro do Mundo. É na opressão do Outro que emerge o questionamento
da racionalidade do índio, inculto, um selvagem que não detém a cultura do centro (DUSSEL, 1977).
Assim, o Ego conquiro - “conquisto, logo existo” - é a condição de existência do Ego cogito - “penso,
logo existo” - que, pautada na expansão colonial, subalterniza o corpo, a existência e os
conhecimentos dos colonizados. Nesse sentido, Castro-Gomez explica:

Dussel identificó dos modernidades: la primera se habría consolidado durante los siglos
XVI y XVII y correspondió al ethos cristiano, humanista y renacentista que floreció en Italia,
Portugal, España y en sus colonias americanas. Esta modernidad fue administrada
globalmente por la primera potencia hegemónica del sistema-mundo (España) y no sólo
generó una primera teoría crítica de la modernidad sino, también, una primera forma de
subjetividad moderno-colonial. Dussel conceptualiza esta subjetividad en términos

1
É importante, acrescentar, que não se desconhece o apagamento da população em situação de escravidão, que aqui chegando,
também foi submetida e subvertida à imposição da religião europeia e forte repreensão ao uso de imagens e verbalização das
crenças de matrizes africanas, de uma forma tão violenta quanto aos indígenas.

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filosóficos (tomados del pensamiento de Levinas) y la describe como un “yo
conquistador”, guerrero y aristocrático, que entabla frente al “otro” (el indio, el negro, el
mestizo americano) una relación excluyente de dominio. El ego conquiro de la primera
modernidad constituyó la protohistoria del ego cogito desplegado por la segunda
modernidad (Dussel 1992:67); esta última, que se auto-representó ideológicamente como
la única modernidad, comenzó apenas a finales del siglo XVII con el colapso geopolítico de
España y el surgimiento de nuevas potencias hegemónicas (Holanda, Inglaterra, Francia).
(CASTRO-GOMEZ, 2005, p. 48-49)

Em outras palavras, Dussel acredita que existem duas modernidades, a primeira é a do ego conquiro:
a face oculta da conquista, exploração e do genocídio dos povos colonizados e; a segunda, a
modernidade amparada no ego cogito, a face declarada da história, onde já dominados os povos do
sul, implementa a ideia de que o Europeu é o centro do mundo, o desenvolvido, o perfeito, ideal. Ou
seja, a história não contada pelos europeus - da conquista violenta e opressora - é o cerne do
levantamento das críticas feitas por Dussel e pelos pensadores decoloniais.

A Europa, portanto, não é o “contêiner” da modernidade, dos traços positivos de evolução ou se


torna o Centro do mundo por suas próprias forças, saberes e capital. Essa perspectiva é um
paradigma alternativo, de modo que os fenômenos intraeuropeus como a reforma protestante, o
surgimento da ciência e a revolução francesa, não seriam capazes de produzir a modernidade. A
conquista da América, portanto, é constitutiva da modernidade (CASTRO-GOMEZ, 2005;
BERNADINO-COSTA E GROSFOGUEL, 2016).

Assim, afirma-se que o colonialismo é o contêiner da modernidade, controlando o Estado, o trabalho


e a produção do conhecimento, bem como a raça e o racismo são os princípios que organizam a
acumulação de capital e as relações de poder desse sistema-mundo (BERNARDINO-COSTA E
GROSFOGUEL, 2016). A partir disso, o apagamento e a exploração dos povos originários, bem como a
substituição de seus saberes pelos saberes europeus é a prática da modernidade.

1.1 As relações entre dominação e urbanização: o crescimento periférico das cidades

Para que se possa tratar dos impactos da colonização e da dominação dos povos, emerge a
necessidade de estabelecer algumas conclusões acerca do tópico anterior. Do ponto de vista da
decolonialidade, o colonialismo consiste em uma estrutura de exploração, estabelecida a partir do
controle político, de modo que os recursos de produção e o trabalho são comandados por uma
população de outra identidade, podendo a sede central estar localizada fora dos limites territoriais

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explorados. Este termo, “colonialismo”, se difere do termo “colonialidade”, uma vez que o segundo
implica uma relação racista de poder2 (QUIJANO, 2017, p. 84).

Essa relação racista é, indubitavelmente, fruto do colonialismo e, por essa razão, diz-se que
colonialismo e colonialidade são termos distintos, porém interligados, um condiciona a existência do
outro: tal qual a modernidade e a colonialidade (QUIJANO, 2017; MIGNOLO, 2017).

A invenção da Modernidade, causa do colonialismo, é repassada nas enciclopédias como uma dádiva
dos Europeus. Para além desse mito da modernidade, os efeitos do colonialismo não terminaram
após as explorações, nem mesmo com o genocídio operado pelos colonizadores. Por conseguinte, da
destruição exercida pelos dominantes, alguns dos povos colonizados foram reduzidos e aqueles que
resistiram foram relegados aos porões da história. Esses povos, aos olhos do Centro do Mundo, são
subdesenvolvidos, atrasados, seres que não conseguiram acompanhar a “evolução” do mundo
moderno, agora contemporâneo.

Nesse ponto, ainda que encerrado o processo de colonização - tornando o colonialismo um processo
mais antigo - surge a colonialidade. Assim, estrutura-se a relação entre dominantes e dominados:
existe um não-lugar ao Outro, nem no Centro do Mundo e nem fora deste. É a própria exterioridade.

Assim, ousa-se trazer o conceito de exterioridade pelas próprias palavras de Dussel, não por não
compreendê-las ou não conseguir explicá-las, mas pela insuficiência que surge ao modificá-las,
transpondo seu pensamento e significado:

Entre os entes ou coisas que aparecem no mundo, que se manifestam no sistema


juntamente com os instrumentos, há um absolutamente sui generis, diferente de todos os
outros. Junto às montanhas, vales e rios; Junto às mesas, martelos e máquinas, irrompe
diariamente em torno de nós o rosto de outros homens. Afastados da proximidade, na
distância, sua presença torna a recordar-nos a proximidade postergada. Todavia,
habitualmente, o rosto de outro homem se apresenta em torno de nós como uma simples
coisa-sentido a mais. O chofer do táxi dá a impressão de ser um prolongamento mecânico
do carro; a dona de casa como um momento a mais da limpeza e da arte culinária; o
professor como um ornamento da escola; o soldado como membro do exército… Parece
que é difícil isolar o outro homem de seu sistema de onde se encontra inserido. É então
um ente; é parte de sistemas. Todavia, há momento em que se nos apresenta, se nos
revela em toda sua exterioridade. Como quando de repente o chofer do táxi se apresenta
como amigo e nos diz: - como vais? A pergunta inesperada surgida de um horizonte de
entes, causa impacto em nós: Alguém parece no mundo! Muito mais quando se nos diz: -
“Uma ajuda, por favor!” ou -“Estou com fome; Dê-me de comer!”. O rosto do homem se

2
Consiste em uma classificação racial/étnica como pedra angular do poder capitalista (QUIJANO, 2017, p. 84).

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revela como outro quando se apresenta em nosso sistema de instrumentos como exterior,
como alguém, como uma liberdade que interpela, que provoca, que aparece como aquele
que resiste à totalização instrumental. Não é algo; é alguém. Exterioridade [...] quer
indicar o âmbito onde o outro homem, como livre e incondicionado por meu sistema e
não como parte de meu mundo, se revela. (DUSSEL, 1977, p. 46-47).

Apesar da dominação de ser, saber e conhecer do colonizador, a decolonialidade surge no momento


em que o primeiro sujeito colonial do sistema-mundo moderno/colonial reagiu contra os desígnios
imperiais iniciados em 1492. Mostra-se como um modo de pensar a partir da perspectiva do
colonizado, uma prática de oposição e intervenção.

Parte-se do pressuposto que, com a conquista da América, as imagens do Novo Mundo foram
reconstruídas à semelhança do mundo ideal do Centro. À medida que os territórios (e corpos)
passavam a ser conquistados, eram submetidos ao apagamento de suas origens e refeitos como uma
réplica da Europa. Assim, nossas cidades e territórios foram concebidos e projetados conforme
modelos importados. O poder colonial construía as cidades como imagem e semelhança das cidades
européias, ou em novos assentamentos, ou com a promessa que seriam cidades melhores que as
existentes. Ainda presente, essa colonialidade persiste nas noções e práticas contemporâneas de
fazer cidade (VAINER, 2014).

Para melhor compreensão e demonstração desse domínio praticado pelos europeus no fazer cidade
e devido a extensão do trabalho aqui proposto, delimitou-se a pesquisa aos processos de
urbanização no Brasil3.

Não se pode pensar na urbanização brasileira, sem mencionar a industrialização, sendo esta última, a
responsável pelo crescimento exacerbado e descontrolado das cidades. Na década de 40, a
população urbana brasileira era de 12,8 milhões. Apenas quarenta anos depois, a população que
residia na cidade transpõe o marco de 80,5 milhões (RIBEIRO, 1995, p. 198). E derivado deste
significativo aumento da população urbana, começam a surgir as falhas dos processos urbanos
importados da Europa, afinal, nenhuma cidade (brasileira ou europeia) havia recebido tamanho
contingente populacional.

Como consequência da carência de planejamento, a população urbana encontra soluções por si


mesma: constrói suas casas em grandes morros íngremes, como no Rio de Janeiro e fora do

3
País sede do encontro.

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regulamento urbanístico, como em áreas de propriedade contestadas em São Paulo. As
denominadas favelas permitem que essa população mantenha-se integrada à estrutura social regular
da cidade, embora excluídas do sistema básico de infraestrutura urbana provida pelo Estado
(RIBEIRO, 1995).

Se no século XIX, as missões francesas tiveram o encargo de embelezar4 o Rio de Janeiro. No final do
século, o “Plano Diretor” das cidades surge para substituir essa função e remodelar as cidades para o
mercado imobiliário, novamente escolhendo esquecer a população pobre neste planejamento
(MARICATO, 2002). Neste sentido:

A relação entre habitat e violência é dada pela segregação territorial. Regiões inteiras são
ocupadas ilegalmente. Ilegalidade urbanística convive com a ilegalidade na resolução de
conflitos: não há lei, não há julgamentos formais, não há Estado. Há dificuldade de acesso
aos serviços de infra-estrutura urbana (transporte precário, saneamento deficiente,
drenagem inexistente, difícil acesso aos serviços de saúde, educação, cultura e creches,
maior exposição à ocorrência de enchentes e desabamentos) somam-se menores
oportunidades de emprego, maior exposição à violência (marginal ou policial), difícil
acesso à justiça oficial, difícil acesso ao lazer, discriminação racial. A exclusão é um todo:
social, econômica, ambiental, jurídica e cultural (MARICATO, 2003, p.79).

Dessa forma, a classe dominante da sociedade controla, além da produção, o consumo do espaço
urbano, de forma que a cidade se desloca conforme interesse dessa classe. Ou seja, num primeiro
movimento, os centros crescem em direção a classe alta, o que ocasiona a decadência do centro
principal e surgem outros centros metropolitanos (VILLAÇA, 1999). A exclusão dos mais pobres e sua
transferência para as periferias da cidade é resultado desse processo de segregação, produzindo
‘cidades ilegais’, excluídas e invisibilizadas, também, nos estudos urbanísticos históricos e atuais
(MARICATO, 2002).

Para Maricato (2003, p.188): “A crise do planejamento urbano e a busca de uma nova matriz teórica
constitui um momento importante para uma produção intelectual comprometida com a democracia
no Brasil. A oportunidade é a de ‘replantear’ a questão em novas bases”. Sempre atento às
artimanhas do colonizador em ressignificar as práticas de permanência da dominação e exploração.

4
O embelezamento das cidades brasileiras deram origem à construção de mansões, jardins, mas também residências domésticas
para os ricos, donos de plantações de café e donos de escravos. Em seguida, os ideais de Haussmann, promovem a higienização da
cidade e controle da população (pobre), com a abertura de grandes avenidas, construindo grandes jardins para os mais abastados
e estratificando a população por determinações racial/étnicas e de classe ... Essas práticas foram importadas da Europa para a
América como solução para as cidades industrializadas que mostravam seus primeiros problemas: a crescente classe de operários
e sua periferização. Em seguida, as cidades da europa e da américa do norte se tornaram modelos universais, exportando os
modelos de urbanização que planejavam e praticavam a produção e o consumo (VAINER, 2014).

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“Trata-se também de ousar apontar caminhos, mesmo em meio à tormenta... e por isso mesmo.”
(MARICATO, 2003, p.188). Neste mesmo sentido, Darcy Ribeiro (1995, p.204) relembra:

A história nos fez, pelo esforço de nossos antepassados, detentores de um território


prodigiosamente rico e de uma massa humana metida no atraso mas sedenta de
modernidade e de progresso, que não podemos entregar ao espontaneísmo do mercado
mundial. A tarefa das novas gerações de brasileiros é tomar este país em suas mãos para
fazer dele o que há de ser, uma das nações mais progressistas, justas e prósperas da terra.

Desse modo, a dominação que sempre estará presente em nossa história, como América e povo
latino americano, não deve fazer parte da idealização para nosso futuro. Dessa forma, desprender-
nos das amarras da colonialidade e perceber o verdadeiro processo de urbanização decorrente da
exploração territorial e humana, para enfim, propor um novo urbanismo.

2 Urbanismo decolonial

Evidencia-se neste capítulo, uma breve contextualização sobre os caminhos para um pensamento
epistemológico decolonial aplicado ao urbanismo. Porém, não se pretende definir e/ou determinar
como devem ser as diretrizes para esse urbanismo decolonial.

Antes de propor um pensamento epistemológico decolonial, precisa-se romper com as normas


estabelecidas pela colonização, assumindo nossa posição como periféricos e “aprender a
desaprender”. Isso significa, reconhecer nossa identidade política frente à identidade imperial que
nos é posta (sujeito homem, branco, heterossexual, cristão). Para melhor compreensão dessa
identidade em política, vale a citação de Fausto Reinaga nos anos 60: “Danem-se, eu não sou um
índio, sou um aymara. Mas você me fez um índio e como índio lutarei pela minha libertação”
(MIGNOLO, 2008, p. 290).

Igualmente, não se pode reproduzir a dominação exercida pela colonialidade e pressupor que um
conhecimento ou teoria estabelecida no sul é, de alguma forma, modelo para outras regiões. Vale
ressaltar, que o exemplo a seguir de Medellín, não é, de forma alguma, uma solução universal para
as cidades violentas. Medellín é um caso, em parte bem sucedido, de caminhos para soluções de
problemas como desigualdade social, marginalidade e violência urbana, a partir da ideia de
rompimento com os modelos produzidos nos países colonizadores.

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Ou seja, uma teoria, conceito, método é sempre criado em algum lugar, contextualizado histórica,
geográfica e economicamente... Assim, embora o conhecimento não seja algo material, ele sempre
estará georreferenciado e consequentemente, compreendido em algum contexto (VAINER, 2014).

Por esta razão, o urbanismo decolonial não tem uma fórmula certa com diretrizes definidas, como se
fez no modernismo, por exemplo. A questão central é ser crítico ao que nos prende e explora, a fim
de interromper essa dominação e propor novos sentidos (de direção e significado) para nossas
cidades e modos de viver. Da mesma forma, não existe uma proposta certa ou errada, agora basta
oferecer para cada localidade5 algo pensado especificamente para ela, recusando os modelos
universais. Afinal "a globalização é um fato. Mas é tudo, menos global" (FIORI apud MARICATO, 2003,
p.129). Assim:

Apesar dos desafios e dificuldades, devemos acreditar nas possibilidades de uma


epistemologia plural e na decolonização do conhecimento urbano. Para isso, as chamadas
“best practice” devem ser jogadas no caixote do lixo da história e substituídas por
múltiplos diálogos abertos: diálogos entre pesquisadores, é claro, mas também entre
professores e planejadores de estudos urbanos e, talvez acima de tudo, entre cidadãos.
Estes últimos, melhor do que ninguém, estão em condições de transmitir a sua
experiência, não para que seja copiada, mas para que se torne uma inspiração para os
outros, para os incitar a inventar novas urbanidades e novas formas de estudar as cidades
(tradução nossa) (VAINER, 2014, p.54).

A partir do exposto, apresenta-se o caso de Medellín, para compreensão prática dos nuances das
históricas mazelas deixadas pela colonização e a herança trazida com ela, através da colonialidade.
Bem como evidenciar a inexistência de fórmulas prontas sobre como pensar o urbanismo decolonial
e o fazer cidade.

2.1 O Caso de Medellín: indagações sobre o Urbanismo Social e a decolonialidade

Por fim, trazemos como exemplo de um novo urbanismo, a cidade colombiana de Medellín, que no
ano de 1991 chegou ao marco de 281 mortos por 100.000 habitantes, tornando-se a cidade mais
violenta do mundo. A partir dessa data, foram implementados inúmeros programas de governo para
tentar reverter a situação que se encontrava Medellín. Surge então, o chamado Urbanismo Social,
usado como estratégia para unir governo e comunidade através da arquitetura e do urbanismo, o
que possibilitou ao governo dar visibilidade aos programas sociais, educacionais e culturais à

5
Local, região, zona, área, parte, povoado, vila, sítio, recinto...

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sociedade, melhorando a autoestima da população, a confiança para com o governo e
transformando a realidade das pessoas que sofriam com a exclusão e a violência (ECHEVERRI, 2017).

Entretanto, a partir disso é necessário se questionar acerca das finalidades defendidas pelo
Urbanismo Social, implantado em Medellín. São finalidades do Urbanismo social:

a) a paz fundamentada na segurança, educação, governabilidade e pacificação dos


territórios; b) a arquitetura posta ao serviço das pessoas, mediante um esquema
participativo de intervenção integral; c) a inclusão socioespacial, mediante o acesso a uma
vida digna, a articulação com a cidade formal, a livre mobilidade urbana; d) e a
apropriação do espaço público, mediante o convívio pacífico, o encontro cidadão e o
reconhecimento da diferença (MAZO, p. 110-111, 2017)

Essas finalidades têm caráter democrático, com o objetivo de promover a participação cidadã e a
ocupação dos espaços públicos. O Urbanismo Social aplicado em Medellín, desde 1990, é um
processo coletivo, de atuação de várias instâncias sociais e políticas, sendo que o discurso publicado
na literatura corriqueira dá às instituições governamentais um papel demasiado importante na
modificação da cidade. Contudo, em uma leitura mais aprofundada, sabe-se que a demanda dos
bairros populares e sua luta pela política urbana local é a principal responsável pelos avanços em
Medellín (MAZO, 2017).

Nesse contexto, afirma-se que o Urbanismo Social não se encaixa em nenhuma escola ou teoria,
orientado tão somente pelas exigências e particularidades da realidade (MAZO, 2017; MARTIN,
2012). Assim, seria uma possibilidade aplicá-lo como estratégia para amenizar os impactos sofridos
pelo colonialismo, de modo que é um modelo local, adaptado conforme o território que o receberia.
Por esse viés, cumpriria um dos requisitos da decolonialidade aplicada ao urbanismo: um saber para
o Sul (mas seria este saber desde o Sul?)

Entretanto, é necessário pontuar que o caso de Medellín, ainda que modelo de redução nas taxas de
violência - parte do motivo pelo qual o Urbanismo Social foi implantado - deve ser problematizado. O
Urbanismo Social, apesar de suas benesses, é colocado em xeque quando confrontado com a
perspectiva econômica. Perdem-se as finalidades sociais. Mazo (2017, p. 111) alerta para as
exigências do mercado global no Urbanismo Social, transportando a lógica neoliberal para a política
urbana, “em metas associadas à competitividade, à nova imagem de cidade, ao investimento
estrangeiro e à atração turística. É possível notar como essas exigências trazidas à política urbana em

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Medellín sugerem, [...] o afastamento social, chegando inclusive ao seu não reconhecimento [das
finalidades sociais]”.

Para que seja possível refletir acerca da colocação da autora, é necessário retomar algumas questões
dos tópicos anteriores. Afirmou-se que o colonialismo foi o responsável por possibilitar a existência
da modernidade. Se, por um lado, o colonialismo é um processo mais antigo de
dominação/exploração - notadamente aquele praticado pelos colonizadores em 1492 - a
colonialidade é atual, ressignificando as dominações, através das relações racistas de poder.

Além disso, percebe-se que, com o mito da Modernidade europeia surgem algumas “perspectivas”
de saber, de conhecimento, epistemologias dominantes: a nova ciência, da qual conhecimentos dos
povos originários são considerados irracionais, alheios à razão, à racionalidade europeia. Nem
mesmo o “penso, logo existo” admitia a existência dos povos explorados. É importante pontuar que,
conforme Quijano (2017) toda conjuntura de exploração, produtora da colonialidade/modernidade é
que constrói as bases necessárias para o capitalismo.

O colonialismo, a modernidade, a colonialidade e o capitalismo são faces de uma mesma moeda. A


moeda de troca do pensamento colonizador. Nesse sentido, como pensar que a colonialidade, esse
poder e essa mazela que afeta a todos nós, possa permitir o Urbanismo Social? Assim, percebe-se
que o movimento anterior à construção de um novo modelo de urbanismo deve ser a
decolonialidade e, para além desta, a libertação. A partir da compreensão de nossas exterioridades,
acredita-se que pode existir uma realidade ainda melhor que Medellín: o Urbanismo decolonial deve
ser o fruto da Libertação. Libertação da dominação, da colonialidade e a revitalização de um povo
pelo estado de realidade da história.

Conclusão

Assim, entende-se que a crítica à modernidade sob o viés decolonial, auxilia no reconhecimento das
epistemologias desde o sul e a propagar esses saberes legítimos, situando a América Latina como
produtora de soluções para seus problemas, sobrepondo a importação de soluções europeias não
destinada aos países ditos subdesenvolvidos.

Retomado o contexto histórico da subalternização dos saberes e exploração pelos colonizadores,


desmitifica-se a modernidade como salvadora dos subdesenvolvidos indígenas e africanos. Nessa

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perspectiva, a análise da realidade exploratória revela-se causa da segregação social, e, em razão
disso, a exclusão da população pobre desde a infraestrutura regulamentada da cidade, até aos
processos de estudos urbanísticos e planejamento urbano.

Por esse motivo, é necessário que o fazer cidade esteja livre das amarras do colonialismo, desde o sul
e para o sul. De forma que não estabelece uma verdade para o urbanismo decolonial, e sim, várias
realidades. O caso do Urbanismo Social em Medellín, apesar de ter seus princípios amparados no
pensamento decolonial (ou seja, para o sul) ainda é permeado pela colonialidade. Nesse contexto,
questionou-se a viabilidade desse urbanismo cumprir as finalidades a que se propôs, configurando-se
como uma prática de urbanismo decolonial. Contudo, após a análise realizada, o Urbanismo Social de
Medellín demonstrou a permanência de práticas inerentes ao sustento do capitalismo, ressignificado
pelo neoliberalismo. Assim, corrobora-se a tese de uma necessária libertação, anterior à construção
de qualquer pensamento urbanístico decolonial.

Em síntese, deve-se ter em mente que para reverter o domínio do pensamento europeu, é
necessário assumir nossa história e perceber a presença da colonialidade para que possamos
combatê-la. Para isso, é preciso evitar o apego às epistemologias dos países dominantes, muitas
vezes importadas de forma acrítica pelos nossos teóricos, como suas cidades-modelo e teorias.
Enfim, valorizar nosso território, nossa gente e nosso lugar como Outro, (re)construindo uma
América: Latina, justa e fértil.

Não se pode comprar as nuvens; Não se pode comprar as cores; Não se pode
comprar minha'legria; Não se pode comprar minhas dores; No puedes comprar al
sol; No puedes comprar la lluvia; Vamos caminando; Vamos dibujando el camino;
No puedes comprar mi vida; Mi tierra no se vende [...] Aquí se respira lucha
(Vamos caminando); Yo canto porque se escucha (vamos caminando); (vozes e um
só coração) Aquí estamos de pie; Que viva la América; No puedes comprar mi vida.

Calle 13 - Latinoamerica part. Totó La Momposina, Susana Baca & María Rita

Referências

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