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Fisiologia

do Sistema Respiratório
Prof. Dr. Tiago Breve da Silva
2º Termo Medicina Unifadra – 2021
UC IV
Sumário
 Papel do Sistema Respiratório na Homeostase

 Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica

 Trocas gasosas e transporte de gases sanguíneos

 Curva de saturação da hemoglobina

 Ação dos Broncodilatadores

 DPOC, Enfisema e complicações


Papel do Sistema Respiratório na Homeostase

 A homeostase ou homeostasia é o processo pelo qual o organismo mantém constantes as


condições internas necessárias para a vida.

 O termo é aplicado ao conjunto de processos que previnem variações na fisiologia de um


organismo.

 Embora as condições externas estejam sujeitas as variações, os mecanismos homeostáticos


garantem que os efeitos destas mudanças sejam mínimos para os organismos.

 Quais fatores afetam a homeostase?


Papel do Sistema Respiratório na Homeostase
A capacidade de sustentar a vida depende da constância dos fluidos do corpo humano e pode ser
afetada por diversos fatores, como:

Temperatura; Salinidade; pH; Concentrações de nutrientes, como a glicose, de gases como o


oxigênio e de resíduos, como o dióxido de carbono e a ureia.

Se esses fatores estiverem em desequilíbrio, eles podem afetar a ocorrência de reações químicas
essenciais para a manutenção do corpo vivo. Por isso é preciso manter todas esses fatores dentro dos
limites desejáveis para manter os mecanismos fisiológicos.
Sistema Respiratório
Imagine-se cobrindo a superfície de uma quadra de squash (aproximadamente 75 m2) com
um filme plástico fino e, então, amassando-o e colocando-o dentro de uma garrafa de refrigerante
de 3 litros.

Impossível? Talvez, se você usar uma cobertura de plástico e uma garrafa de refrigerante.

Contudo, os pulmões de um homem de 70 kg possuem uma superfície de trocas gasosas do


tamanho dessa cobertura de plástico, comprimida em um volume que é menor do que o da
garrafa.

Essa enorme área de superfície de troca gasosa é necessária para suprir as trilhões de células
do corpo com quantidade adequada de oxigênio.
Sistema Respiratório
As quatro funções primárias do sistema respiratório são:

1. Troca de gases entre a atmosfera e o sangue. O corpo traz o O2 e o distribui para os tecidos,
eliminando o CO2 produzido pelo metabolismo.

2. Regulação homeostática do pH do corpo. Os pulmões podem alterar o pH corporal retendo ou


eliminando seletivamente o CO2.

3. Proteção contra patógenos e substâncias irritantes inalados. Assim como todos os outros
epitélios que tem contato com o meio externo, o epitélio respiratório e bem suprido com
mecanismos de defesa que aprisionam e destroem substâncias potencialmente nocivas antes
que elas possam entrar no corpo.

4. Vocalização. O ar move-se através das pregas vocais, criando vibrações usadas para falar,
cantar e outras formas de comunicação.
Sistema Respiratório
Além de desempenhar essas funções, o sistema respiratório também é uma fonte significativa
de perda de água e de calor do corpo. Essas perdas devem ser balanceadas com o uso de
compensações homeostáticas.

Aprenderemos aqui como o sistema respiratório realiza essas funções, trocando ar entre o
meio externo e os espaços aéreos do interior dos pulmões. Essa troca e o fluxo global* de ar e
segue muitos dos mesmos princípios que governam o fluxo global (de massa) de sangue no
sistema circulatório:

1. O fluxo ocorre a partir de regiões de pressão mais alta para regiões de pressão mais baixa.

2. Uma bomba muscular cria gradientes de pressão.

3. A resistência ao fluxo de ar é influenciada principalmente pelo diâmetro dos tubos pelos quais
o ar esta fluindo.
Sistema Respiratório
A palavra respiração apresenta muitos significados na
fisiologia.

A respiração celular refere-se a reação intracelular do


oxigênio com moléculas orgânicas para produzir dióxido de
carbono, água e energia na forma de ATP.

A respiração externa, o tema desta conferência, é o


movimento de gases entre o meio externo e as células do
corpo. A respiração externa pode ser subdividida em quatro
processos integrados, ilustrados na figura ao lado.
Sistema Respiratório
A respiração externa necessita da cooperação entre os sistemas respiratório e circulatório. O
sistema respiratório e formado pelas estruturas envolvidas com a ventilação e com as trocas
gasosas:

1. O sistema condutor, ou vias aéreas, que conduz ar do meio externo para a superfície de troca
dos pulmões.

2. Os alvéolos são uma serie de sacos interconectados e associados aos seus respectivos
capilares pulmonares. Essas estruturas formam a superfície de troca, onde o oxigênio se move
do ar inalado para o sangue, e o dióxido de carbono move-se do sangue para o ar que será
exalado.

3. Os ossos e os músculos do tórax (cavidade torácica) e do abdome que auxiliam a ventilação.


Sistema Respiratório
O sistema respiratório pode ser dividido em duas partes:

 O trato respiratório superior, que consiste em boca, cavidade nasal, faringe e laringe;

 O trato respiratório inferior, que e formado pela traqueia, pelos dois brônquios principais, suas
ramificações e pelos pulmões.

O trato inferior também e conhecido como a porção torácica do sistema respiratório, devido a sua
inclusão anatômica no tórax.
Anatomia do Sistema Respiratório e sua Mecânica
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
Funcionalmente, o tórax e um recipiente fechado preenchido com três sacos membranosos, ou
bolsas. Um, o saco pericárdico, contem o coração. Os outros dois são os sacos pleurais, cada um
cercando um pulmão. O esôfago, os nervos e os vasos sanguíneos torácicos passam entre os sacos
pleurais.

Cada pulmão e rodeado por um saco pleural de parede dupla, cujas membranas forram o
interior do tórax e cobrem a superfície externa dos pulmões. Cada membrana pleural, ou pleura, e
formada por muitas camadas de tecido conectivo elástico e um grande numero de capilares. As
camadas opostas da membrana pleural são mantidas unidas por uma fina camada de líquido
pleural, cujo volume total e de somente cerca de 25 a 30 mL em um homem de 70 kg.

O resultado é parecido com um balão cheio de ar (o pulmão) circundado por um balão cheio de agua
(o saco pleural).
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica

O liquido pleural tem vários propósitos. Primeiro, ele cria uma superfície úmida e escorregadia
para que as membranas opostas possam deslizar uma sobre a outra enquanto os pulmões se
movem dentro do tórax. Segundo, ele mantem os pulmões aderidos a parede torácica.
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
O ar entra no trato respiratório superior através da boca e do nariz e passa pela faringe, uma
passagem comum para os alimentos, para os líquidos e para o ar. Da faringe, o ar flui através da
laringe para a traqueia. A laringe contem as pregas vocais, faixas de tecido conectivo que são
tensionadas e vibram para criar o som quando o ar passa por elas.

A traqueia é um tubo semiflexível mantido aberto por 15 a 20 anéis cartilaginosos em forma de


C. Esses anéis se estendem para dentro do tórax, onde se ramificam (divisão 1) em um par de
brônquios primários, um brônquio para cada pulmão. Nos pulmões, os brônquios ramificam-se
repetidamente (divisões 2-11) em brônquios progressivamente menores. Como a traqueia, os
brônquios são tubos semirrígidos sustentados por cartilagem.

Nos pulmões, os menores brônquios formam os bronquíolos, pequenas passagens flexíveis com
uma parede formada por musculo liso. Os bronquíolos continuam ramificando-se (divisões 12-23)
ate que os bronquíolos respiratórios formem uma transição entre as vias aéreas e o epitélio de troca
do pulmão.
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica

Durante a respiração, as vias aéreas superiores e os brônquios fazem mais do que simplesmente
servirem de passagem para o ar. Eles desempenham um papel importante no condicionamento do
ar antes que ele alcance os alvéolos. O condicionamento possui três componentes:

1. Aquecimento do ar a temperatura do corpo (37°C), de modo que a temperatura corporal não


mude e os alvéolos não sejam danificados pelo ar frio.

2. Adiciona vapor de água ate o ar atingir a umidade de 100%, de modo que o epitélio de troca
úmido não seque.

3. Filtra material estranho, de modo que vírus, bactérias e partículas inorgânicas não alcançam os
alvéolos.
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
A respiração pela boca não é tão eficaz em aquecer e umedecer o ar como a respiração pelo
nariz. Se você se exercita ao ar livre em um clima muito frio, pode sentir uma dor em seu peito, que
resulta de respirar ar frio pela boca.

A filtração do ar ocorre na traqueia e nos brônquios. Tanto a traqueia quanto os brônquios são
revestidos com um epitélio ciliado, cujos cílios são banhados por uma camada de solução salina.

Os cílios batem com um movimento ascendente que move o muco continuamente em direção a
faringe, criando o que e chamado de movimento mucociliar (“escada rolante” mucociliar). O muco
contem imunoglobulinas que podem atuar sobre muitos patógenos. Uma vez que o muco chega até
a faringe, ele pode ser expelido (expectorado) ou deglutido. No muco deglutido, o ácido do
estômago e as enzimas destroem os microrganismos restantes.
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica

E se o muco não se movimentar, e se acumular?


Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
Os alvéolos, agrupados nas extremidades dos bronquíolos terminais, constituem a maior parte
do tecido pulmonar (Fig. 17.2 f, g). A sua função primaria e a troca gasosa entre eles e o sangue.
Cada pequeno alvéolo e composto de uma única camada de epitélio (Fig. 17.2g).

Dois tipos de células epiteliais são encontrados nos alvéolos. Cerca de 95% da área superficial
alveolar e utilizada para a troca de gases e é formada por células alveolares tipo I. Essas células são
muito delgadas, então os gases se difundem rapidamente através delas (Fig. 17.2h).

Na maior parte da área de troca, uma camada de membrana basal funde o epitélio alveolar ao
endotélio do capilar. Na área restante, somente uma pequena quantidade de líquido intersticial esta
presente.
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
A célula alveolar tipo II, menor e mais espessa, sintetiza e secreta uma substancia química
conhecida como surfactante. O surfactante mistura-se com o liquido fino que reveste o alvéolo para
ajudar os pulmões quando eles se expandem durante a respiração, como você vera posteriormente
neste capitulo.

As células tipo II também ajudam a minimizar a quantidade de liquido presente nos alvéolos,
transportando solutos e agua para fora do espaço aéreo alveolar.

As paredes finas do alvéolo não contem musculo, uma vez que as fibras musculares poderiam
bloquear a rápida troca gasosa. Como resultado, o próprio tecido pulmonar não pode se contrair.

Entretanto, o tecido conectivo entre as células epiteliais alveolares contem muitas fibras de
colágeno e de elastina que criam a energia potencial elástica quando o tecido pulmonar e estirado.
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
O ar é uma mistura de gases
A atmosfera que circunda a Terra e uma mistura de gases e de vapor de agua. A lei de Dalton
afirma que a pressão total exercida por uma mistura de gases e a soma das pressões exercidas pelos
gases individualmente. Por exemplo, no ar seco a uma pressão atmosférica de 760 mmHg, 78% da
pressão total e devida ao N2, 21% ao O2, e assim por diante.

Na fisiologia respiratória, não estamos interessados somente na pressão atmosférica total, mas
também na pressão individual do oxigênio e do dióxido de carbono. A pressão de um único gás em
uma mistura e conhecida como pressão parcial (Pgás). A pressão exercida por um gás individual é
determinada somente por sua abundancia relativa na mistura e é independente do tamanho ou da
massa molecular do gás.

A pressão parcial dos gases no ar varia ligeiramente, dependendo de quanto vapor de água esta
no ar, pois a pressão do vapor de agua “dilui” a contribuição de outros gases para a pressão total. A
tabela na Figura 17.6c compara as pressões parciais de alguns gases no ar seco e no ar úmido
(100%).
Lei dos gases
Trocas gasosas e transporte de gases sanguíneos
Trocas gasosas e transporte de gases sanguíneos
O ar é uma mistura de gases
O fluxo de ar ocorre sempre que houver um gradiente de pressão. O fluxo global de ar, como o
fluxo sanguíneo, ocorre de áreas de maior pressão para áreas de menor pressão. Os meteorologistas
preveem o clima pelo conhecimento de que áreas de alta pressão atmosférica se movem para áreas
de baixa pressão.

Na ventilação, o fluxo global de ar a favor de gradientes de pressão explica por que ocorrem
trocas gasosas entre o meio externo e os pulmões. O movimento do tórax durante a respiração cria,
nos pulmões, condições de pressões alta e baixa alternadas. A difusão de gases a favor dos
gradientes de concentração (pressão parcial) também se aplica aos gases individualmente.

Por exemplo, o oxigênio move-se de áreas de pressão parcial mais elevada para áreas de pressão
parcial menos elevada. A difusão dos gases individuais e importante para a troca de oxigênio e de
dióxido de carbono entre os alvéolos e o sangue e do sangue para as células, como você aprendera
posteriormente.
Ventilação
A troca da massa de ar entre a atmosfera e os alvéolos é denominada ventilação, ou respiração .
Um único ciclo respiratório consiste em uma inspiração seguida por uma expiração.
Ventilação
Capacidades pulmonares
A capacidade vital (CV) é a soma do VRI, VRE e VC. A capacidade vital representa a quantidade
máxima de ar que pode ser voluntariamente movida para dentro ou para fora do sistema
respiratório a cada respiração (ciclo ventilatório). Ela diminui com a idade, quando os músculos
enfraquecem e os pulmões se tornam menos elásticos.

Para medir a capacidade vital, a pessoa que esta sendo testada inspira o máximo de volume
possível e, em seguida, expira tudo o mais rápido que puder. Esse teste de capacidade vital forcada
permite que o medico possa medir o quão rápido o ar deixa as vias aéreas no primeiro segundo da
expiração, uma medida conhecida como VEF1, ou volume expiratório forçado em 1 segundo. O VEF1
diminui em certas doenças pulmonares, como a asma, e também com a idade.

A CV somada ao VR é a capacidade pulmonar total (CPT). Outras capacidades importantes na


medicina pulmonar (pneumologia) são a capacidade inspiratória (VC + VRI) e a capacidade residual
funcional (VRE + VR).
Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica

Ar: Entra Ar: Sai

Pulmões: Expandem Pulmões: Contraem

Diafragma: Contrai Diafragma: Relaxa

Pressão Interna: Diminui Pressão Interna: Aumenta


Anatomia do Sistema Respiratório sua Mecânica
A inspiração ocorre
quando a pressão
alveolar diminui

A expiração ocorre
quando a pressão
alveolar aumenta
Tipos de ventilação
Complacência, Elasticidade e Resistência da via aérea
O pulmão tem tendência natural ao colapso, devido à presença de fibras elásticas em sua
composição histológica.

Lembre que um elástico, por exemplo, permanece contraído e necessita que alguma força seja
aplicada a ele para que ele se distenda.

Da mesma forma, acontece com o pulmão. Outras duas características responsáveis pela
capacidade de expansão e retração do volume são a complacência e a tensão superficial.
Complacência, Elasticidade e Resistência da via aérea

Complacência

A complacência pulmonar é um resultado da presença de fibras elásticas no tecido pulmonar,


bem como da existência da tensão superficial dos líquidos alveolares.

É a capacidade que o pulmão tem de aumentar seu volume quando há uma variação da pressão
exercida sobre ele.

Um pulmão muito complacente é aquele que, com uma variação pequena na pressão, varia
muito o seu volume.
Já um pulmão pouco complacente é aquele que necessita de grande variação de pressão para
variar pouco em volume.
Complacência, Elasticidade e Resistência da via aérea

Tensão Superficial

Tensão superficial é uma força que atua ao longo de uma linha imaginária de 1cm de
comprimento da superfície de líquidos. Ela surge por que a atração entre as moléculas de líquido é
mais forte do que a atração entre as moléculas de líquido e de gás nos alvéolos, fazendo que a
superfície do líquido tenda a ser a menor possível.

Essa força que as moléculas do líquido que recobre os alvéolos exerce tende a dificultar a
expansão do alvéolo, pois atua no sentido de diminuir o seu volume (e assim diminuir o tamanho da
superfície do líquido).

A tensão superficial influi na complacência: quanto maior a tensão superficial do líquido


pulmonar, menor a complacência do pulmão.
Complacência, Elasticidade e Resistência da via aérea

Surfactante

O pulmão pode ser visto como uma coleção de bolhas, essa condição é inerentemente instável.
Em virtude da tensão superficial do liquido que reveste os alvéolos desenvolvem-se forças
relativamente grandes que tendem a colapsar os alvéolos.

O surfactante pulmonar produzido pela célula alveolar tipo II é um líquido que reduz de forma
significativa a tensão superficial dentro do alvéolo pulmonar, prevenindo o colapso durante a
expiração.

Ela se origina porque as forças de atração entre as moléculas adjacentes do liquido são muito
mais fortes do que aquelas entre o liquido e o gás, resultando em diminuição da superfície liquida,
gerando uma pressão dentro do alvéolo.
Complacência, Elasticidade e Resistência da via aérea

Parede torácica

A parede torácica também é elástica, mas a sua tendência é a de se expandir, ao contrário do


pulmão.

Essas duas tendências estão em equilíbrio dinâmico. Num experimento em que seja colocado no
espaço intra-pleural, o pulmão se colapsa e a parede torácica se expande.

A pressão negativa encontrada no espaço intrapleural impede, portanto, que as pleuras se


“descolem” uma da outra e que o pulmão colapse ao mesmo tempo em que a parede torácica se
expande.
Doença Restritiva Pulmonar
A diminuição da complacência pulmonar afeta a ventilação, visto que mais trabalho deve ser
realizado para estirar um pulmão mais rígido.

Condições patológicas nas quais a complacência está reduzida são chamadas de doenças
pulmonares restritivas. Nessas condições, a energia necessária para estirar os pulmões menos
complacentes pode exceder muito o trabalho respiratório normal.

Duas causas comuns de diminuição da complacência são o tecido cicatricial não elástico formado
em doenças pulmonares fibróticas e a produção alveolar inadequada de surfactante, uma substância
química que facilita a expansão do pulmão.

A fibrose pulmonar é caracterizada pelo desenvolvimento de tecido fibroso cicatricial rígido que
restringe a insuflação pulmonar. Na fibrose idiopática pulmonar, a causa é desconhecida.
Doença Restritiva Pulmonar
Outras formas de doença pulmonar fibrótica resultam da inalação crônica de matéria particulada
fina, como o asbesto e a sílica, que escapam do revestimento de muco das vias aéreas e alcançam os
alvéolos.

Os macrófagos alveolares, então, ingerem a matéria inalada. Se as partículas são orgânicas, os


macrófagos podem digeri-las com as enzimas lisossômicas.

Entretanto, se as partículas não podem ser digeridas ou se elas se acumulam em grande


número, ocorre um processo inflamatório.

Os macrófagos, então, secretam fatores de crescimento que estimulam fibroblastos no tecido


conectivo pulmonar a produzir colágeno inelástico. A fibrose pulmonar não pode ser revertida.
Complacência, Elasticidade e Resistência da via aérea

Resistência

O outro fator, além da complacência, que influencia o trabalho respiratório é a resistência do


sistema respiratório ao fluxo de ar. A resistência no sistema respiratório é similar de muitas maneiras
à resistência no sistema circulatório.

Três parâmetros contribuem para a resistência (R): o comprimento do sistema (L), a viscosidade
da substância que flui pelo sistema (h) e o raio dos tubos no sistema (r). Assim como no fluxo no
sistema circulatório, a lei de Poiseuille correlaciona esses fatores:
Complacência, Elasticidade e Resistência da via aérea

Cerca de 90% da resistência das vias aéreas, em geral, podem ser atribuídos à traqueia e aos
brônquios, estruturas rígidas com a menor área de secção transversal total.

Devido ao fato de essas estruturas serem sustentadas por cartilagens, o seu diâmetro
normalmente não muda, e a sua resistência ao fluxo de ar é constante.

No entanto, o acúmulo de muco devido a alergias ou a infecções pode aumentar


significativamente a resistência das vias aéreas.

Se você tentar respirar pelo nariz quando está resfriado, pode observar como o estreitamento de
uma via aérea superior limita o fluxo de ar.
Complacência, Elasticidade e Resistência da via aérea

Os bronquíolos normalmente não contribuem de forma significativa para a resistência das vias
aéreas, pois sua área de secção transversal total é cerca de 2 mil vezes a da traqueia.

Entretanto, devido ao fato de os bronquíolos serem tubos colapsáveis, um decréscimo no seu


diâmetro pode torná-los uma fonte significativa de resistência das vias aéreas.

A broncoconstrição aumenta a resistência ao fluxo de ar e diminui a quantidade de ar “novo”


que alcança os alvéolos.

Os bronquíolos, assim como as arteríolas, estão sujeitos ao controle reflexo pelo sistema
nervoso e por hormônios. Entretanto, a maioria das alterações minuto a minuto do diâmetro
bronquiolar ocorrem em resposta a sinais parácrinos.
Complacência, Elasticidade e Resistência da via aérea

A histamina é um sinal parácrino que atua como um broncoconstritor potente. Essa substância
química é liberada pelos mastócitos em resposta a um dano tecidual ou a reações alérgicas.

Em reações alérgicas graves, uma grande quantidade de histamina pode levar à


broncoconstrição generalizada e dificultar a respiração.

O tratamento médico imediato destes pacientes é imperativo.

O controle neural primário dos bronquíolos é feito por neurônios parassimpáticos que causam
broncoconstrição, um reflexo que protege o trato respiratório inferior de irritantes inalados.
Complacência, Elasticidade e Resistência da via aérea

Não existe inervação simpática significativa dos bronquíolos humanos.

Contudo, o músculo liso dos bronquíolos é bem suprido com receptores b2 que respondem à
adrenalina.

A estimulação dos receptores b2 relaxa o músculo liso da via aérea, resultando em


broncodilatação.

Esse reflexo é utilizado terapeuticamente no tratamento da asma e de várias reações alérgicas


caracterizadas por liberação de histamina e broncoconstrição.
Complacência, Elasticidade e Resistência da via aérea
Ação dos Broncodilatadores
Broncodilatadores agem através de seu efeito direto relaxante sobre a célula muscular lisa. Eles
pertencem a três classes farmacológicas: agonistas dos receptores β2-adrenérgicos, metilxantinas e
antagonistas muscarínicos (ou anticolinérgicos inalatórios).

Quando usados pela via inalatória, os β2-agonistas e os antagonistas muscarínicos têm ação
mais rápida com menos efeitos sistêmicos.

Os broncodilatadores de ação rápida são mais usados no tratamento de alívio dos sintomas
agudos enquanto os de ação prolongada são melhor usados no tratamento de manutenção.

Os anticolinérgicos têm início de ação mais lento e menos efeito sobre a função pulmonar,
quando comparados aos β2-agonistas, sendo mais usados no tratamento de portadores de doença
pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

Os β2-agonistas de curta e de longa duração, junto com os corticosteroides inalatórios,


constituem o pilar terapêutico da asma nos doentes com a asma mal controlada com o uso isolado
de corticosteróide inalatório.
Ação dos Broncodilatadores
Mecanismo de ação

A ação broncodilatadora dos β2-agonistas se dá através da ativação do receptor β2-adrenérgico


(Rβ2A) acoplado à proteína G na superfície celular. A ativação desse receptor leva ao aumento da
atividade da adenilciclase, enzima que catalisa a conversão do ATP em AMPc.

Esse último se liga na unidade regulatória da proteína quinase A, promovendo a liberação de sua
unidade catalítica que causa fosforilação de um grande número de proteínas alvo, relaxando o
músculo liso peribrônquico.

O AMPc inibe a liberação de cálcio dos depósitos intracelulares e reduz o influxo de cálcio
através da membrana, auxiliando o relaxamento da musculatura lisa e a broncodilatação.

A ativação do Rβ2A também potencializa a atividade anti-inflamatória dos glicocorticosteroides,


aumentando a translocação do receptor de glicocorticosteroide do citoplasma para o núcleo da
célula.
Ação dos Broncodilatadores
DPOC, Enfisema e complicações
DPOC, Enfisema e complicações
DPOC, Enfisema e complicações
Troca de gases nos pulmões e nos tecidos
No livro No Ar Rarefeito (Into Thin Air), Jon Krakauer relata uma
viagem malfadada ao topo do Monte Everest.

Para alcançar o pico do monte Everest, os alpinistas têm de


atravessar a “zona da morte”, localizada a 8 mil metros.

Das milhares de pessoas que tentaram chegar ao cume, apenas


cerca de 2 mil obtiveram sucesso, e mais de 185 morreram.

Quais são os desafios fisiológicos da escalada do Monte Everest


(8.850 m) e por que levou tantos anos para os homens chegarem com
sucesso ao seu topo?

A falta de oxigênio nas grandes altitudes é parte da resposta.


Troca de gases nos pulmões e nos tecidos
A mecânica da respiração inclui os acontecimentos
que participam da mobilização de grandes quantidades
de fluxo de ar para dentro e para fora dos pulmões.

Focaremos agora em dois gases que são mais


significativos para a fisiologia humana, o O2 e o CO2, e
analisamos como eles se movem entre o espaço aéreo
alveolar e as células do corpo.

O processo pode ser dividido em duas partes:

 a troca de gases entre os compartimentos, processo


que necessita da difusão através das membranas
celulares,

 e o transporte de gases no sangue.


Troca de gases nos pulmões e nos tecidos

Se a difusão dos gases entre os alvéolos e o sangue é significativamente prejudicada, ou se o


transporte de oxigênio no sangue é inadequado, o sujeito entra em hipóxia (estado de muito pouco
oxigênio nos tecidos).

A hipóxia é frequentemente (mas não sempre) acompanhada de hipercapnia, isto é, uma


concentração elevada de dióxido de carbono.

Para evitar a hipóxia e a hipercapnia, o corpo utiliza sensores que monitoram a composição do
sangue arterial. Esses sensores respondem a três variáveis:
Troca de gases nos pulmões e nos tecidos

1. Oxigênio. O fornecimento de oxigênio arterial para as células deve ser adequado para manter a
respiração aeróbia e a produção de ATP.

2. O dióxido de carbono (CO2) é produzido como um produto residual durante o ciclo do ácido
cítrico. A eliminação de CO2 pelos pulmões é importante por duas razões: altos níveis de CO2
atuam como um depressor do sistema nervoso central e provocam um estado de acidose (pH
baixo) através da seguinte reação: CO2 + H2O → H2CO3 → H+ + HCO3-

3. pH. A homeostasia do pH é crítica para impedir a desnaturação de proteínas). O sistema


respiratório monitora o pH plasmático e utiliza as alterações na ventilação para equilibrar o pH.
Discutiremos esse processo adiante, juntamente com as contribuições renais para a homeostasia
do pH.
Troca de gases nos pulmões e nos tecidos
Troca de gases nos pulmões e nos tecidos
Troca de gases nos pulmões e nos tecidos
Troca de gases nos pulmões e nos tecidos
Transporte de gases no sangue
Como vimos como os gases entram e saem dos capilares,
voltaremos nossa atenção para o transporte de oxigênio e de dióxido
de carbono no sangue.

Os gases que entram nos capilares primeiramente se dissolvem no


plasma. Todavia, os gases dissolvidos representam apenas uma
pequena parte do oxigênio que será fornecido às células.

Os glóbulos vermelhos, ou eritrócitos, têm um papel fundamental


em garantir que o transporte de gás entre o pulmão e as células seja
suficiente para atender às necessidades celulares.

Sem a hemoglobina nos eritrócitos, o sangue não seria capaz de


transportar uma quantidade suficiente de oxigênio para sustentar a
vida.
Transporte de gases no sangue
O transporte de oxigênio no sangue tem
dois componentes: o oxigênio que está dissolvido
no plasma (PO2 ) e o oxigênio ligado à hemoglobina
(Hb). Em outras palavras:

O oxigênio é pouco solúvel em soluções


aquosas, e menos de 2% de todo o oxigênio
encontra-se dissolvido no sangue. Isso significa que
a hemoglobina transporta mais do que 98% do
oxigênio
Transporte de gases no sangue
A hemoglobina é uma proteína presente nas hemácias, também chamadas de glóbulos
vermelhos do sangue. Trata-se de uma proteína globular com estrutura quaternária que apresenta
quatro subunidades polipeptídicas. Cada subunidade possui ainda um elemento não polipeptídico
chamado de grupo heme.

O grupo heme possui um


átomo de ferro, ao qual se liga o
oxigênio para que possa ser
transportado até ser liberado nos
tecidos. O grupo heme é o
responsável pela coloração
vermelha da hemoglobina e,
consequentemente, do sangue, já
que essa proteína está presente em
grande quantidade nas hemácias.
Transporte de gases no sangue
Transporte de gases no sangue
Transporte de gases no sangue
Transporte de gases no sangue
O transporte dos gases no sangue inclui a remoção de dióxido e carbono, bem como o
fornecimento de oxigênio às células. O dióxido de carbono é um subproduto da respiração celular e
é potencialmente tóxico, se não for excretado (removido do corpo).

A elevada (hipercapnia) faz o pH diminuir, situação conhecida como acidose. Extremos de pH


interferem com as ligações de hidrogênio das moléculas e podem desnaturar proteínas.

Níveis anormalmente elevados de também deprimem a função do sistema nervoso central,


causando confusão, coma e até mesmo morte.

Por essas razões, o CO2 deve ser removido, tornando a homeostasia do CO2 uma importante função
do sistema respiratório.
Transporte de gases no sangue
O dióxido de carbono é mais solúvel nos
fluidos corporais do que o oxigênio, porém as células
produzem muito mais CO2 do que a capacidade de
solubilização plasmática desse gás.

Apenas cerca de 7% do CO2 está dissolvido no


plasma do sangue venoso.

O restante, aproximadamente 93%, difunde-se para


os eritrócitos, sendo que 23% desse conteúdo se liga à
hemoglobina (HbCO2) e 70% são convertidos em
bicarbonato (HCO3-), como explicado a seguir
Transporte de gases no sangue
Regulação da ventilação

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