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Como Escrever Histórias

Como Escrever
Tramas
O Método Floco de Neve.
de Raoni Marqs

Ok, imagina um triângulo. Aí dos lados desse triângulo surgem outros


triângulos. Aí dos lados desses triângulos, surgem outros triângulos e isso
continua pra sempre até o fim dos tempos, parecendo um lindo floquinho
de neve. A gente chama isso de "Curva de Koch", é uma curva geométrica
em que a pira é que como uma forma vai ganhando mais e mais
segmentos, o comprimento desse negócio é infinito, porque ele só vai
aumentando, mas a área permanece quase igual. Guarda isso na sua
cabeça.

Ok? Ok.

Existe esse cara chamado Randy Ingermanson. Ele tem um método em


que você tem uma ideia bem básica pra uma história e vai desenvolvendo
essa ideia adicionando mais detalhes, depois mais detalhes e depois mais
detalhes. Como se você esculpisse um bloco até virar uma estátua; como
um desenho que começa com um esboço e vai ganhando definição; ou
como o perímetro de um triângulo que vai ganhando mais triângulos e
mais triângulos e mais triângulos, até parecer um floco de neve único e
especial.
O Método Floco de Neve do Ingermanson tem 10 estágios e funciona
assim:

1- Em uma hora, crie uma sinopse de uma frase sobre a sua história. A
gente chama isso de logline – basicamente a gente descreve um
personagem central e conta o que acontece com ele, tipo: "o jovem
herdeiro de uma fortuna vê seus pais serem assassinados e decide
combater o crime". Isso vai servir como um pitch de 10 segundos sobre a
sua história – se você tiver que explicar pra alguém qual é a história que
você está tentando contar, use essa frase, mas lembre-se de algumas
coisas:
• Quanto menor, melhor – tente usar menos de 15 palavras.


• Nada de nomes nos seus personagens: se ninguém conhece seus


personagens ainda, é melhor dizer que é o herdeiro de uma fortuna
do que dizer "Bruce Wayne".


• Junte a história externa e a interna – qual personagem tem mais a


perder nessa história? Agora diga o que ele quer ganhar.


2- Use mais uma hora e expanda essa frase em um parágrafo, descrevendo


a premissa, os maiores desastres e o fim. Ele pede pra descrever 3
desastres, porque, segundo ele próprio, o Ingermanson vê histórias como
sendo "3 desastres e um final":

"Se você acredita na estrutura de 3 atos, o primeiro


desastre corresponde ao final do primeiro ato. O segundo
desastre é o meio do segundo ato (ou o meio de toda a
história) e o terceiro desastre é o fim do segundo ato, que
força o terceiro ato, resolvendo tudo.”

"Tudo bem se o primeiro desastre for causado por


circunstâncias externas, mas (...) o segundo e terceiro
desastres devem ser causados pelas tentativas do
protagonista de "consertar as coisas". Tudo fica pior e
pior."

Segundo ele, esse parágrafo deve ter umas 5 frases – um para dar uma
noção do mundo e a premissa. Uma para cada um dos seus 3 desastres. e
mais uma para contar o fim.

"Não confunda esse parágrafo com a sinopse no verso do


seu livro. Esse deve resumir só o primeiro quarto da sua
história."

3- Agora que você tem uma boa visão da sua história, você vai fazer a
mesma coisa com os seus personagens.

"Personagens são a parte mais importante de uma


história e o tempo que você investir desenvolvendo eles
previamente vai valer 10 vezes mais quando você
começar a escrever."

Para cada personagem importante, use uma hora para escrever uma página
que conte:

• O nome do personagem


• Uma frase que descreva o arco desse personagem na história


• O objetivo desse personagem (o que ele quer?)


• A motivação desse personagem (do que ele precisa?)


• O conflito desse personagem (o que o impede de conseguir o que


quer?)

• A epifania desse personagem (o que ele aprende e como ele muda?)


• Um parágrafo que descreva o arco desse personagem na história.


Se, depois de escrever essas "fichas de personagem", você sentir que


precisa voltar e mudar o que você escreveu antes sobre a sua história, volte
e faça isso! O objetivo de tudo isso é preparar a sua história para quando
você for realmente escrevê-la, então a hora pra editar, rever, repensar e
desenvolver qual e como é a história que você quer contar é agora!

Nada disso precisa estar perfeito. Lembre-se: você está fazendo o esboço
da sua história e, nesse momento, você ainda está só fazendo uns traços
soltos e livres – você ainda vai editar tudo isso em breve, então coloque as
suas ideias da forma que elas existem agora na sua cabeça. Não edite. Só
coloque no papel.

4- Agora você tem uma noção ótima da estrutura geral da sua história e se
você acha que a história que você imaginou está um lixo: parabéns! É pra
isso que você está escrevendo desse jeito – pra descobrir problemas depois
de algumas páginas de texto, ao invés de depois de gastar mil horas
escrevendo uma primeira versão da sua história.

Pegue o parágrafo que você escreveu sobre a sua história – aquelas cinco
frases que você expandiu daquela primeira única frase – e expanda cada
frase em um parágrafo inteiro.

"Isso é bem divertido, e ao final, você vai ter um ótimo


esqueleto (...) da sua história."

5- Citando o Ingermanson:

"Use um dia ou dois e escreva uma descrição de uma


página de cada personagem importante e um de meia
página para os outros personagens relevantes. Essas
descrições devem contar a história do ponto de vista de
cada personagem."

Pra mim, parece que aqui ele diz pra fazer duas coisas diferentes – é pra
fazer uma longa descrição do personagem ou contar a história do ponto de
vista dele? Provavelmente existe um meio termo entre essas duas tarefas –
que é o que ele quer que você faça – mas, na dúvida, faça um dos dois.
Mas faça. Desenvolva o que os seus personagens querem, como eles se
comportam, quem eles são, do que eles gostam, o que acontece com eles,
como eles reagem, porque eles reagem assim, o que eles aprendem e como
eles mudam no decorrer da sua história.

"Ultimamente eu tenho usado os resultados dessa etapa


nas minhas propostas [para editoras] ao invés de uma
sinopse com base na estrutura da história. Editores
adoram sinopses de personagens, porque editores
adoram ficção baseada em personagens."

6- "Pegue a sua sinopse do estágio 4 e expanda cada parágrafo para uma


página inteira!" Quando eu li esse método pela primeira vez, chegando
nesse estágio eu tava pensando "tá, é pra escrever uma versão micro da sua
história e dos seus personagens e expandindo isso cada vez mais,
alternando de um pro outro. Entendi. Acho que uma página só já tá bom.
expandir de uma frase pra um parágrafo faz sentido, mas disso pra várias
páginas, aí já começa a ficar meio redundante..." Mas aí ele me pegou com
a seguinte frase:

"Isso é bem divertido...--“

Ele sempre acha que fazer isso é divertido – e é mesmo. Escrever é bem
legal quando você tá resolvendo os problemas um pouquinho de cada vez,
mas a frase é essa aqui:

"Isso é bem divertido porque você está desenvolvendo a


lógica da história e fazendo decisões estratégicas.”
E isso pra mim define o conceito mais interessante pra justificar esse
método: se você tenta pensar na história toda de uma vez, você perde
coisas de vista e usa certas coisas maiores pra justificar coisas menores e
vice-versa, num processo que acaba perdendo de vista um pouco da lógica
na sua história.

Mas se você olha os problemas no desenvolvimento da sua história um


pedacinho de cada vez, você não perde de foco a história que você quer
contar e consegue se concentrar melhor em cada parte do
desenvolvimento, sem ficar perdido na ansiedade das questões de como
escrever a história que você quer contar.

O estágio 6 pra mim ilustra porque a Jornada do Herói não pode engessar
a sua criatividade. Porque desenvolver a lógica por trás da história e tomar
decisões estratégicas vai ser o que separa "Avatar" de "Pocahontas" de
"Dança com Lobos" – eles tem a mesma premissa, desenvolvimento e
temas, mas cada um lida com isso em gêneros, símbolos e elementos
completamente diferentes. O estágio 6 é um momento pra trabalhar essas
minúcias, esses detalhes que fazem a história fazer sentido dentro do
universo que você criou.

7- Use quanto tempo você quiser pra fazer a mesma coisa de novo:
expanda as fichas dos seus personagens. Escreva tudo o que há pra saber
sobre eles e sobre como eles se desenvolvem na história. Aqui, e em todos
os estágios, na verdade, sinta-se livre pra voltar e alterar coisas que você
escreveu em outros estágios. Você está descobrindo a sua história e
descobrindo os seus personagens, então use o processo pra ver a sua
história se transformando conforme você toma "decisões estratégicas". Eu
adorei essa definição.

8- Faça uma lista de todas as cenas na sua sinopse da história. E o melhor


jeito de fazer isso é numa planilha. Aparentemente muitos escritores têm
medo de planilhas, mas é realmente a melhor forma de lidar com listas. Se
você não sabe mexer com planilhas, vá ver um vídeo no Youtube. É bem
fácil.

Ok?
Ok.

Primeira coluna: liste todas as suas cenas. Segunda coluna: descreva a


cena do Ponto de Vista do personagem principal dessa cena – se for o
mesmo, use o mesmo. Se quiser ser malandro e profissional, use as outras
colunas como quiser: uma coluna para definir o conflito da cena, uma
coluna para lembrar onde está algum objeto importante, uma coluna para a
situação de um personagem específico em cada cena… enfim, use a
planilha como você achar melhor e quanto mais você usar essa técnica,
mais você vai encontrar jeitos novos e interessantes de usá-la ao seu favor.

9- Pegue cada linha das sinopses das cenas na sua planilha e expanda para
um ou vários parágrafos. É importante notar que, no site onde ele publicou
o artigo explicando o método dele, o Ingermanson diz que não faz mais
esse estágio – ele pula e vai direto pro último estágio, o de escrever a
história (finalmente). Mas, se você quiser:

"eu costumava escrever uma ou duas páginas por


capítulo e começava cada capítulo numa nova página. aí
eu imprimia tudo e colocava num fichário, pra que eu
pudesse ir de um capítulo pro outro facilmente e, mais
tarde, revisar capítulos sem mexer nos outros. é [um
estágio] bem divertido de desenvolver, se você completou
os estágios 1 a 8 antes."

"eu nunca mostrava essa sinopse pra ninguém, muito


menos pro meu editor – era só pra mim. eu gostava de
pensar nela como um protótipo da minha história."
10- Senta e escreve a história. Como você imaginou. Isso não é um teste.
Agora a parada é real. Senta lá e escreve. Ele diz uma coisa interessante
aqui:

"essa deve ser a parte divertida, porque existem alguns


pequenos problemas de lógica a serem resolvidos aqui.
Como o herói escapa daquela árvore cercada de jacarés
e salva a heroína de um barco em chamas? Essa é a hora
de descobrir!"

Olha… eu considero a forma como o protagonista foge de jacarés e


resgata alguém de um barco em chamas um problema de lógica BEM
GRANDE. Pra mim esse é o tipo de coisa que ele disse que eu ia resolver
no estágio 6. Pessoalmente, na hora de escrever de verdade você tem pelo
menos uma noção de como essas coisas acontecem e os "pequenos
problemas de lógica" pra resolver são as palavras nos diálogos, os olhares,
as descrições, as premonições e tal… coisas PEQUENAS. Enfim, siga o
seu coração aí.

Com isso a gente termina os estágios do método do Floco de Neve.


Basicamente, o negócio funciona escrevendo a menor descrição possível
da sua história e dos seus personagens e expandindo os dois,
alternadamente, até você ter descoberto o bastante sobre a sua história pra
conseguir sentar e escrever uma versão dela que seja o mais próximo
possível do potencial que ela tem – eliminando inconsistências e
problemas de continuidade que você não teria previsto se simplesmente
sentasse pra escrever igual um desesperado – um desesperado que depois
ia ter que voltar e reescrever um MONTE de coisas que você não viu que
estavam erradas.

Eu espero que o método realmente ajude você e, mesmo que você não siga
à risca, eu acho um conceito bem interessante pra trabalhar e eu uso partes
dele pra escrever as minhas histórias super sérias sobre samurais que
jogam tênis e cachorros que lutam boxe.
É isso. Agora vai lá escrever.

conteúdo da campanha do Apoia-se


"Como Escrever Histórias" – Raoni Marqs, 2018.
bendaora.com

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