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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 23: 63-78 NOV.

2004

ELEMENTOS ESTÁTICOS DA TEORIA POLÍTICA DE


AUGUSTO COMTE:
1
AS PÁTRIAS E O PODER TEMPORAL

Gustavo Biscaia de Lacerda

RESUMO
O presente artigo apresenta alguns dos elementos da teoria política de Augusto Comte, dentro da sua Sociologia
Estática, como componentes do que se poderia denominar sua teoria do Estado. Assim, após apresentar
alguns dos pressupostos teóricos e metodológicos do fundador do Positivismo, o artigo concentra-se na
exposição de suas teorias das pátrias e do Poder Temporal. Enquanto as pátrias constituem a base física da
organização política, como resultante da união das famílias, nelas dando-se as relações de classe, o Poder
Temporal é a própria função governativa, cujo âmbito de atuação é a ordem material da sociedade.
Complementarmente ao Poder Temporal há o Poder Espiritual, responsável pela ordem intelectual e moral
da sociedade, o que inclui a fiscalização e a legitimação do outro poder.
PALAVRAS-CHAVE: Augusto Comte; Positivismo; teoria política; pátrias; Poder Temporal; Poder Espiritual.

I. INTRODUÇÃO Kremer Marietti (2003). Ocorre que, filósofo das


ciências, tinha como preocupação também consti-
Autor mais conhecido por suas elaborações
tuir a nascente Sociologia do mesmo estatuto epis-
filosóficas na área da ciência, Augusto Comte –
temológico e “científico” que as demais ciências
nascido Isidoro Augusto Maria Francisco Xavier
previamente constituídas, isto é, conjunto de pro-
Comte, em 1798 – pesquisou extensamente em
posições abstratas baseadas na observação de um
Sociologia, inclusive no que atualmente
tipo de fenômeno; além disso, exigia que fosse
denominamos Ciência Política. De modo mais
uma ciência geral da sociedade, isto é, aplicável a
específico, se considerarmos que “teoria do
todas as sociedades, independentemente de local
Estado” significa uma elaboração intelectual
ou época – o que, por outro lado, impunha que
definindo os principais atributos do poder político
todas as sociedades então conhecidas estivessem
em uma sociedade, estabelecendo suas relações
abrangidas por suas teorias. A conseqüência foi o
com os diversos grupos sociais, suas funções e
caráter geral e “holístico” de suas observações,
formas de atuação e de legitimação, além de sua
como condição para sua coerência teórica e sua
de sua evolução ao longo do tempo – então, sem
eficácia prática. Nesse sentido, pode-se dizer que
dúvida, Augusto Comte possui uma “teoria do
ele tem uma teoria geral sobre o Estado, talvez
Estado”.
emulada apenas pela de Max Weber.
Como outros autores clássicos da Ciência Polí-
Dessa forma, o objetivo deste artigo é bastante
tica ou da Sociologia, desde sempre Augusto Com-
simples: apresentar as concepções de Augusto
te preocupou-se com a aplicação prática de suas
Comte sobre o Estado; como veremos, todavia,
elaborações, como recentemente lembrou Angèle
para isso é necessária uma exposição prévia de
alguns de seus pressupostos epistemológicos e teó-
ricos. Embora, evidentemente, o interesse sempre
1 Agradeço aos pareceristas anônimos da Revista de seja o de apresentar com rapidez apenas os míni-
Sociologia e Política por seus comentários e sugestões, mos elementos necessários, face ao desconheci-
assim como ao amigo Ângelo Torres, pelos extensos mento geral da obra de Comte requer-se que não
comentários que fez sobre este texto. Como de praxe, os
eventuais problemas do artigo são de responsabilidade do
sejam apenas “alguns” de seus pressupostos, mas
autor. “vários”: “o pensamento de Augusto Comte tem

Recebido em 30 de abril de 2004


Aprovado em 26 de julho de 2004
Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 23, p. 63-78, nov. 2004
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ELEMENTOS ESTÁTICOS DA TEORIA POLÍTICA DE AUGUSTO COMTE

uma forma tão sistemática que é praticamente Sistema de política positiva, publicados entre 1851
impossível estudar com atenção um elemento se e 1854. Não nos interessa, portanto, realizar uma
se ignora inteiramente a construção do conjunto”2 investigação sobre a evolução do pensamento do
(LAUBIER, 1957, p. IX). Além disso, cumpre autor ao longo do tempo, isto é, uma pesquisa
notar que seu estilo não é de fácil compreensão, arqueológica.
pois mantinha seus escritos necessariamente
II. PRELIMINARES TEÓRICO-METODOLÓ-
abstratos, com uma linguagem característica e,
GICAS
preocupado com as aplicações práticas, a todo
instante avaliava instituições, soluções propostas II.1. A lei dos três estados e a classificação das
ao longo da história e alternativas3. ciências
A perspectiva que adotamos aqui refere-se ao A “lei dos três estados” é a base de todo o sis-
conjunto da obra de Augusto Comte, tema, pedra angular sem a qual não é possível
especialmente sobre as chamadas “obras de compreender nem sua lógica nem seus objetivos.
maturidade”4, na etapa final da vida do pensador, Seu enunciado final é o seguinte: “Cada enten-
considerando-as integrantes de um sistema dimento oferece a sucessão dos três estados, fictí-
intelectual. Esses livros – justamente os menos cio, abstrato e positivo, em relação às nossas con-
conhecidos do público universitário e os mais cepções quaisquer, mas com uma velocidade pro-
importantes no conjunto da obra do autor – são os porcional à generalidade dos fenômenos corres-
que reúnem o grosso de suas elaborações políticas, pondentes” (COMTE, 1934, p. 479). Em outras
uma série dos quais não por acaso chama-se palavras, o ser humano pensa cada concepção e
cada fenômeno de três formas sucessivas: primei-
ramente, fazendo referência a vontades exteriores
ao fenômeno em questão. Essas vontades têm
2 Todas as citações cujos originais estão em língua sedes muito claras, muito determinadas: em um
estrangeira foram traduzidas livremente pelo autor. processo de antropomorfização da realidade, o ser
3 Dessa forma, é importante que fique claro: humano considera que seres dotados de senti-
apresentaremos aqui apenas as elaborações teóricas (isto mentos, pensamentos e atos semelhantes aos seus
é, abstratas) de Comte mais diretamente relacionadas ao próprios atuam na realidade, provocando os
que hoje chamaríamos de Estado; não pretendemos, fenômenos: são os deuses, e o modo de pensar é o
portanto, sugerir uma “Ciência Política” a extrair-se de uma teológico5. No enunciado acima, seria o modo
especialização do pensamento comteano. Da mesma forma,
fictício de pensar, por motivos evidentes.
não pretendemos realizar uma comparação mais ou menos
sistemática dessa obra com as elaborações mais recentes Em seguida, o ser humano apela a abstrações,
em Sociologia ou na Ciência Política: não por descurar que, consideradas conscientemente como abstra-
desse tipo de investigação, mas porque não seriam cabíveis
nos limites deste texto. A esse respeito, em todo caso, pode-
ções, são dotadas ainda de vontade: é a metafísica.
se consultar com grande proveito Lopes (1946), Fletcher Um autor que, sem se filiar ao Positivismo,
(1981), Torres (1997), Destefanis (2003), Lacerda Neto percebeu com clareza o caráter da metafísica foi
(2003) e Lacroix (2003). o historiador das relações internacionais Jean-
4 As obras de Augusto Comte organizam-se em três séries Baptiste Duroselle, como se percebe na citação
de escritos, além de vários opúsculos e o conjunto de sua abaixo: “Em nenhum campo, a reificação dos
correspondência e os chamados Opúsculos de filosofia conceitos se passa tão facilmente quanto no
social, de sua juventude. As séries de escritos são: Sistema domínio das forças, precisamente porque estas são
de filosofia positiva, publicado entre 1830 e 1842, em seis visíveis apenas em seus efeitos. São designadas
volumes, avaliando filosoficamente o conjunto das ciências
então por um nome anteriormente personalizado
como constituíram-se até então, com vistas à fundação de
uma nova, a Sociologia; Sistema de política positiva, (Zeus para explicar o raio, Posídon para as ondas,
publicado entre 1851 e 1854, em quatro volumes, em que, Éolo para os ventos). Esse nome, em períodos mais
fundada a Sociologia, procura aplicar os princípios
anteriormente descobertos para a solução dos problemas
sociais; Síntese subjetiva, que, prevista para ser em quatro
volumes, acabou tendo apenas um, de 1856, em virtude 5 Na verdade, a teologia subdivide-se em outras quatro
do falecimento do autor; a meta da Síntese seria aplicar a etapas, variando em função da quantidade e da generalidade
algumas questões específicas, mas de altíssima importância das vontades na natureza, bem como da abstração dos
(educação, organização econômica da sociedade), os raciocínios: o fetichismo, a astrolatria, o politeísmo e o
princípios sociológicos. monoteísmo.

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recentes, deixa de ser de uma pessoa mítica e torna- Ora, o quadro apresentado acima corresponde
se abstrato. Porém, antes que se encontre a apenas à sucessão dos três estados, o teológico, o
explicação científica, o nome abstrato não é mais metafísico e o positivo: resta comentar o “[...] com
real que os deuses do Parnaso. E, portanto, dá-se uma velocidade proporcional à generalidade dos
a ele uma espécie de vida”. E mais adiante: “E os fenômenos correspondentes” (COMTE, 1934, p.
que me dirão: realmente, o ‘grande capital’ não 479). Esse enunciado indica que, quando mais
existe concretamente, porém ‘tudo se passa como simples for o fenômeno considerado, mais rapida-
se’ ele existisse, eu responderia que ‘tudo se passa mente ele passará da teologia à metafísica; inversa-
como se’ é a própria fórmula pela qual se reificam mente, quando mais complicado for, mais demora-
os conceitos” (DUROSELLE, 2000, p. 34-35; damente seguirá esse percurso. Daí Comte ter
grifos no original). enunciado sua lei da classificação das ciências,
complementar à dos três estados: em número de
A citação acima indica com clareza como a
sete, as ciências são: a Matemática, a Astronomia,
metafísica surge da decomposição da teologia: são
a Física, a Química, a Biologia, a Sociologia e a
as mesmas preocupações, ao pesquisar os temas
Moral. Essa seqüência indica um aumento de com-
absolutos, e o mesmo método de raciocinar: apenas
plexidade teórica, isto é, maiores dificuldades para
se substituem os deuses pelas abstrações. Por outro
apreenderem-se as variáveis intervenientes rele-
lado, é uma forma intermediária, pois conduz à
vantes, relativas a cada um fenômenos específi-
positividade: assim, a metafísica, se trata dos mes-
cos. Em outras palavras, para estudarmos a Astro-
mos problemas que a teologia e compartilha sua
nomia, necessitamos de um instrumental matemá-
preocupação com o absoluto, já começa a investi-
tico; a Física pressupõe o estudo da situação do
gar a realidade, lançando mão da observação direta
planeta Terra no Universo; a Química pressupõe
dos fenômenos.
o conhecimento das propriedades da matéria, além
Finalmente, o estado positivo é aquele em que de sua posição universal, para determinar a consti-
o ser humano abandona as pretensões absolutas, tuição dessa matéria; na seqüência, a Biologia
rendendo-se à evidência de que apenas percebe o supõe todas essas variáveis para avançar sobre os
relativo, da mesma forma que passa a subordinar corpos vivos e, por sua vez, a Sociologia deve
a imaginação à observação dos fenômenos. considerar todos os fenômenos anteriores para
pesquisar como organiza-se um ser vivo em parti-
“Porque vinculava estreitamente a vida intelec-
cular, cuja característica, aliás, é a associação. Por
tual à vida social, Augusto Comte não podia sepa-
fim, a Moral pesquisa o ser humano individual-
rar seu projeto de sociedade de uma epistemologia
mente6, pressupostos todos os conhecimentos
fundamental. E, se projetou e realizou uma obra
anteriores. Essa seqüência, ao mesmo tempo que
enciclopédica, é porque considerava os problemas
lógica, é, portanto, também histórica, pois indica
políticos, sociais e culturais como estreitamente
a ordem em que as diversas ciências (isto é, os
ligados à nossa capacidade de resolvê-los – sendo
vários corpos de teorias abstratas a respeito de
que essa capacidade era, ela mesma, política, social
fenômenos específicos) constituíram-se ao longo
e cultural” (MARIETTI, 2003).
da história.
Assim, o modo de pensar, isto é, de perceber a
Vê-se, portanto, como a pesquisa da sociedade
realidade do mundo e do ser humano, determina e
é uma das mais complexas, pois exige uma série
é determinado pela sociedade em questão. Relati-
imensa de conhecimentos prévios (que importam
vamente ao modo positivo de pensar, essa íntima
na forma das inúmeras variáveis cosmológicas),
relação com a sociedade implica também que o
além, é claro, da observação dos próprios fenôme-
objeto de preocupação do ser humano muda, das
nos humanos, sujeitos a leis próprias, observadas
questões absolutas e teológicas no modo fictício
com instrumentos específicos da Sociologia.
de pensar, para o próprio ser humano e a realidade
que o cerca, atento à relatividade do conhecimento: Dessa forma, a constituição da Sociologia
é dessa forma que a emancipação intelectual con- como ciência coroa um trajeto percorrido pelo ser
duz o ser humano à preocupação consciente com humano, de preocupações externas à sua própria
os assuntos sociais, permitindo, além disso, um
vigoroso humanismo (em um sentido forte dessa 6 No que seria denominada atualmente, portanto,
expressão).
simplesmente de “Psicologia”.

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ELEMENTOS ESTÁTICOS DA TEORIA POLÍTICA DE AUGUSTO COMTE

realidade a si mesmo. A Sociologia representa, até ainda hoje – sem ser substituída por outro
portanto, um projeto intelectual e político, pois sistema social; na verdade, a unidade fundamental
representa o ser humano chegando, afinal, à de análise em Sociologia deve ser a família. Além
maturidade e assumindo sua própria vida7. de indicar a anarquia mental, a ascensão do
individualismo como suposta origem da sociedade
II.2. Outros elementos teórico-metodológicos
– por exemplo, nas diversas obras contratualistas
Vistas as duas formulações fundamentais de (Hobbes, Locke, Rousseau) – revela um desenvol-
toda a obra comteana, podemos passar a algumas vimento sistemático do egoísmo, erigido em pa-
outras considerações preliminares, que aliás drão moral e intelectual, a despeito de preocu-
indicam o caráter de suas elaborações e sugerem pações com a sociedade como um todo. “Pegando
algumas perspectivas que adiante apresentaremos. o contrapé da ideologia metafísica própria aos
philosophes das Luzes e inspirador das negações
A teoria sociológica comteana, ainda que for-
revolucionárias, Augusto Comte recusa-se a consi-
mando um sistema coerente, do ponto de vista
derar o indivíduo como a unidade humana de base.
lógico divide-se em duas partes: a Sociologia Está-
Esse princípio egoísta parece-lhe igualmente errô-
tica e a Sociologia Dinâmica. A primeira analisa
neo em Biologia, em que o indivíduo não existe
os elementos permanentes da sociedade, aquelas
senão por e para a espécie, e em Sociologia, em
instituições e aqueles fatos que em todas as socie-
que a célula fundamental é a família” (ARNAUD,
dades existem, por mais variados que sejam ou
1965, p. 125).
pareçam. Os elementos da “ordem” são em núme-
ro de cinco: a religião, o governo, a linguagem, a Para nós o fato de Comte perceber a família
família e a propriedade. Por outro lado, a Socio- como a verdadeira “célula social” é secundário;
logia Dinâmica concentra-se nas formas como as importa mais notar a negação do indivíduo como
sociedades evoluem ao longo do tempo, ou seja, base lógica e real da sociedade, ao mesmo tempo
como os cinco elementos da Sociologia Estática em que a própria sociedade como um todo, em
desenvolvem-se. Aliás, a lei dos três estados, nesse seus diversos níveis (família, pátria, Humanidade)
sentido, é claramente uma lei da Sociologia Dinâ- ou não, é estudada. Na verdade, essa consideração
mica, sua fundadora e seu primeiro resultado siste- pode ser generalizada como sendo, sempre, a
mático. Para nossos propósitos apenas a Socio- primazia do espírito de conjunto sobre o de partes;
logia Estática será considerada: a evolução do no caso da sociologia, o espírito de conjunto não
“governo” com o passar do tempo não terá nossa se refere apenas à percepção sincrônica, estática
atenção aqui. da sociedade: não importa somente perceber a
sociedade como perfazendo um todo em um ins-
Por outro lado, a metodologia de Augusto
tante dado qualquer. Muito mais importante, por-
Comte, como indicado acima, seria hoje denomi-
que definidor da própria sociedade humana – por
nada de “holística”, por tomar o conjunto da
ser sua característica específica –, é a consideração
sociedade como unidade analítica. Para ele, o
da historicidade humana: o que nos faz humanos
indivíduo como unidade social é uma abstração
é a possibilidade de uma geração somar-se a outra,
sofística, “tão irracional quanto imoral”, surgida
desenvolvendo continuamente suas característi-
com a desagregação do sistema social católico-
cas. Assim, portanto, “[...] na pesquisa das leis
feudal e até o momento em que escrevia – talvez
sociais, o espírito deve indispensavelmente proce-
der do geral para o particular, isto é, começar por
7 Eis uma declaração muito característica dessa vocação conceber, em seu conjunto, o desenvolvimento
social de seu projeto, como indicado acima: “‘Em nome total da espécie humana, não distinguindo nele, a
do passado e do futuro, os servidores teóricos e os princípio, mais do que um número muito pequeno
servidores práticos da Humanidade vêm tomar dignamente de estados sucessivos” (COMTE, 1972, p. 153).
a direção geral dos negócios terrestres, para constituírem
enfim a verdadeira providência, moral, intelectual e É em virtude de sua historicidade que o ser
material, excluindo irrevogavelmente da supremacia humano pode, ao longo de sua evolução, desenvol-
política os diversos escravos de deus, católicos, protestantes ver-se; é por esse motivo que a Sociologia Dinâ-
ou deístas, como sendo, ao mesmo tempo, atrasados e
perturbadores’. Tal foi a declaração decisiva com que
mica não pesquisa apenas as condições do movi-
terminei, no Palais Cardinal, no domingo 19 de outubro mento e o próprio movimento das sociedades,
de 1851, meu terceiro Curso filosófico sobre a história como também, e talvez principalmente, a direção
geral da Humanidade” (COMTE, 1934, p. 1). que a sociedade toma em seu desenvolvimento.

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Aliás, Comte seguia o passo de outros filósofos, III. PRIMEIRA APROXIMAÇÃO: AS PÁTRIAS
pois, como: “Pascal e Fontenelle, como Comênio
Ao tratarmos do tema “Estado”, freqüente-
e Leibniz, insistiram sobre um tema de importância
mente confundimos duas realidades que, a des-
central: o sujeito cognoscitivo não é o indivíduo
peito de atualmente estarem estreitamente vin-
isolado, mas a humanidade inteira que progride
culadas, são, de fato, diferentes: o Estado-nação,
no tempo. A humanidade, não esse ou aquele
ou seja, a forma de “Estado” que possui suas
homem, tornou-se o protagonista efetivo do
fronteiras bem definidas (pelo menos aspira a tal),
processo da história” (ROSSI, 1996, p. 74).
exercendo, como diria Weber, o “monopólio do
Outro elemento que cumpre uma função uso legítimo da violência física” sobre uma popu-
importante nas obras de Augusto Comte é sua lação que se mantém unida, em princípio, por um
concepção de natureza humana. Sendo a sentimento de comunidade étnica, religiosa, cultu-
Humanidade um todo, tem ela, todavia, órgãos ral ou uma mistura desses elementos. Assim, há
individuais, cuja base física tem uma tríplice dois elementos considerados: a associação das
característica, de sentimentos, de pensamentos e pessoas em um determinado território e o poder
de atitudes práticas. Todas as instituições humanas que sobre elas exerce o Estado. Para Augusto
visam a satisfazer, de alguma forma, essas Comte essas são duas questões muitos diversas,
características, mais ou menos isoladas umas das embora, evidentemente, relacionadas, constituin-
outras ou combinadas entre si. Além disso, por do, por um lado, a teoria das pátrias e, por outro, a
meio de uma refinada análise fisiológica, ele teoria do Poder Temporal. Nesta seção examina-
chegou à conclusão de que os sentimentos têm a remos apenas as pátrias e na seguinte, o Poder
primazia nas ações humanas, ou seja, os homens Temporal.
agem movidos por seus instintos afetivos; para
Cada indivíduo nasce no seio de uma família.
tanto, a inteligência desperta-se, a fim de
Essa pequena unidade social, composta pelo casal,
determinar os meios mais adequados para realizar
por seus filhos, por seus pais (isto é, pelos avós) e
os desideratos; com isso, evidentemente, o ser
pelos agregados, tem como fundamento os senti-
humano põe-se em ação, seja para investigar, seja
mentos. Seu objetivo não é realizar nada de prático
para direta e propriamente agir: esse mecanismo
nem de filosofar ou de conhecer a realidade, mas,
foi sintetizado na frase: “Agir por afeição e pensar
muito simplesmente, de manter juntas pessoas que
para agir”, em que a “afeição” representa todos
mantêm diversos laços de afeto entre si, sendo um
os sentimentos, altruístas e egoístas.
primeiro locus de socialização para cada um.
Para Augusto Comte, o ser humano possui dez
Ora, as diversas famílias reúnem-se com o
instintos afetivos, sete egoístas e três altruístas,
objetivo de manterem-se materialmente: começa
isto é, uns voltados para a conservação direta do
aí a pátria. Mesmo seu nome – “pátrias ” – já indica
próprio indivíduo e outros relativos ao relacio-
a origem estreitamente vinculada às famílias. A
namento com outros: instintos nutritivo, sexual,
pátria “[...] oferece um caráter essencial, que se
materno, destruidor, construtivo, orgulho e vaida-
desenvolve à medida que a instituição cresce”
de, por um lado, e apego, veneração e bondade,
(COMTE, 1890b, p. 362): ela estabelece uma
por outro. Do primeiro para o último, a intensidade
ligação entre o homem e seu meio ambiente
diminui, o que equivale a dizer que o ser humano
natural, por intermédio da cooperação entre as
é tanto “bom” quanto “mal”, mas, principalmente,
diversas famílias.
que o egoísmo é naturalmente mais forte, é natu-
ralmente preponderante no ser humano. Em outras As sociedades humanas têm uma característica
palavras: ainda que a humanidade seja principal- importantíssima, mesmo fundamental: seus diver-
mente a obra sucessiva das diversas gerações umas sos órgãos, seus agentes variados podem escolher
após as outras, os indivíduos entregues a si mesmos seus destinos, suas ações, optando ou não pelo con-
tendem (frise-se: tendem) a ser egoístas, isto é, a curso entre si, embora seja claro, por outro lado,
desconsiderar os demais. As instituições sociais, que a sociedade como tal apenas pode existir na
nesse sentido, existem, por um lado, para satisfazer medida em que há, de fato, esse concurso: “[...] O
as necessidades humanas e, por outro, para regular caráter fundamental do grande organismo, como
o egoísmo dos indivíduos. (Aliás: esse é, composto de seres suscetíveis de existir
precisamente, o papel do governo nas sociedades.) separadamente, mas concorrendo, mais ou menos

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ELEMENTOS ESTÁTICOS DA TEORIA POLÍTICA DE AUGUSTO COMTE

voluntariamente, a um objetivo comum” pátria, composta por elementos de diversas


(COMTE, 1890a, p. 293). procedências, atividades e, é claro, famílias.
A passagem da associação familiar à cívica “Após uma tal definição, a pátria adquire maior
ocorre por meio da constituição das classes sociais extensão à medida que o desenvolvimento humano
(em algumas sociedades são as castas) – “O habitua cada um a relações mais vastas. Tanto
organismo coletivo permanece, então, essencial- quanto dura nossa primeira infância, individual ou
mente composto, primeiro pelas famílias que lhe coletiva, ele permanece limitada à combinação
constituem os verdadeiros elementos, então de entre a família e a casa, além dos quais nenhum
classes ou castas que lhe formam seus próprios vínculo pode ser suficientemente sentido. Essa
tecidos e enfim das cidades ou comunas, que são restrição inicial corresponde à existência direta-
seus verdadeiros órgãos” (ibidem) – a partir do mente fundada sobre a afeição, sobretudo caracte-
princípio aristotélico da “separação dos ofícios e rizada pelo apego propriamente dito. Mas, ainda
convergência dos esforços”, isto é, da divisão do que o nome deva sempre depender dessa fonte, a
trabalho social. A esse respeito, aliás, cumpre frisar instituição não se pode pronunciar senão além de
que, ao contrário dos pensadores materialistas – uma extensão superior, sem a qual se confundiria
que, como indicou Dumont (2000), são todos a pátria com a simples família, espontaneamente
aqueles que assumem um modelo economicista e inseparável do solo correspondente. A esse nível
individualista, ou seja, tanto os herdeiros do libe- permanentemente afetivo deve suceder uma vida
ralismo quanto os marxistas – a concepção essencialmente ativa, que suscite habitualmente
comteana de trabalho extrapola o mero trabalho vínculos mais extensos, bastante restritos, todavia,
físico, incluindo também o trabalho intelectual e para comportar uma suficiente intimidade após
– inovação completa – o trabalho moral e afetivo uma cooperação bastante sentida. Essas duas
(LAGARRIGUE, 1920). condições não são conciliáveis senão na existência
cívica propriamente, a que se refere sempre a
Se a vinculação entre os membros da família
verdadeira instituição da pátria, em que a atividade
baseia-se nos afetos, a que ocorre nas pátrias
combina-se com a veneração em relação a um lar
vincula-se às necessidades comuns de seus mem-
inalterável. Mas, para que a instituição não dege-
bros, ou seja, visa à atividade prática, à modifi-
nere, a vida ativa deve ter um caráter necessaria-
cação do ambiente com vistas à vida humana em
mente coletivo, sem o qual o concurso contínuo
cada sítio. Embora haja uma divisão do trabalho
das famílias tornar-se-ia ilusório8” (COMTE,
no seio das famílias, ela é bastante rudimentar e
1890b, p. 362-363).
refere-se mais aos diferentes afetos que cada
membro oferece aos demais. Nas pátrias – que Realçamos: há a necessidade de uma coope-
Augusto Comte denominava também de “cidades” ração prática entre as famílias, cuja origem é a
(“cités”), em uma clara alusão à Antiguidade e, separação dos ofícios, isto é, a especialização de
até certo ponto, à Idade Média – ocorre plenamente cada uma em gênero de trabalho. É essa coope-
a divisão do trabalho, cada indivíduo responsabi- ração, aliás, que verdadeiramente distingue a
lizado por um aspecto da vida comum – logo, a cidade das famílias, cuja base, como indicamos
especialização é uma das características cívicas. acima, é a afeição comum entre seus membros.
Comte tira uma conseqüência muito interessante
Da mesma forma, essa cooperação toma lugar
e muito importante dessa característica
em um conjunto minimamente grande de famílias,
fundamental das pátrias: “Nada faz sentir melhor
a fim de que a associação resultante não se pareça
com uma simples extensão da unidade familiar. 8 Além disso, o filósofo francês estipulava uma limitação
E, embora a cidade seja essencialmente prática,
no tamanho das diversas pátrias a países com a extensão
evidentemente é necessário que entre seus diversos máxima do que têm, atualmente, Portugal, Bélgica e países
membros deve existir laços afetivos, unindo todos igualmente de pequenas proporções; sua justificativa era
em um destino comum, compartilhado muito mais manter um nível de afetividade mínimo entre os diversos
a partir da convivência em um mesmo solo, cada cidadãos, de modo a desenvolver o sentimento de
qual realizando uma tarefa para o bem comum, cooperação e dependência mútuos. Assim, além dos países
de dimensões continentais – entre os quais se inclui,
que a partir da soma dos interesses particulares.
evidentemente, o Brasil –, a pretensão por séculos
Em outras palavras, há uma extensão dos senti- acalentada de “império universal” é condenada (COMTE,
mentos, que agora se desenvolvem e referem-se à 1934, p. 118, 356).

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como são profundamente anárquicas todas as mente a Humanidade em termos propriamente


teorias dos revolucionários modernos, que não políticos: mas é análise que Augusto Comte
consagram senão o puro individualismo, ao desenvolve sobre o Poder Temporal que reside o
disporem-se a tudo nivelar” (COMTE, 1890a, p. “núcleo duro” de sua teoria política, isto é, de sua
293), isto é, o individualismo moderno, ao negar teoria do poder político. É nela que percebemos
as diferenças entre os grupos sociais, põe em xeque os temas clássicos das diversas teorias do Estado
a própria condição de existência da sociedade. e do poder: o uso da força física, o problema da
Além disso, é evidente que a nivelação a que o legitimação, os limites a que o poder sujeita-se, o
francês refere-se é a “igualdade” por que se batem papel do Estado na sociedade.
os pensadores soi disant progressistas9...
Se as pátrias, ou cidades, constituem por assim
Indicamos no início desta seção que, ao invés dizer a base física da sociabilidade humana, o
de tratarmos de uma versão comteana do conceito espaço em que cada um relacionar-se-á com os
de “Estado-nação”, abordaríamos as noções de demais e desempenhará seu papel como cidadão,
pátria e em seguida da de Poder Temporal. Pois ocorre, por outro lado, um fato importante: conse-
bem: sobre o que se comumente se chama de qüência da especialização contínua e necessária
“estados”, no sentido mesmo de “Estado-nação”, da sociedade, as vistas de conjunto – isto é, de
Augusto Comte observa que ao longo da história destino e de causa comum –, vão-se perdendo: os
percebem-se inúmeras associações assim cha- diversos órgãos da Humanidade preocupam-se
madas (de “Estado”), limitadas por sua duração cada vez menos com os demais e concentram-se
ou por sua extensão. Todavia, como a preocupação cada vez mais em si mesmos e nos seus interesses,
de sua pesquisa é com a história da Humanidade deixando de lado a sociabilidade e o altruísmo e
como um todo e como visa a estabelecer uma tornando-se cada vez mais egoístas.
ciência abstrata geral, essas diversas associações
O resultado é a necessidade de um órgão
particulares não têm lugar, da forma como
coletivo que mantenha a união da sociedade,
apresentam-se empiricamente, podendo perfei-
evitando a desagregação, ao mesmo tempo que
tamente caber nos conceitos de “pátria” (e de
coordenando os esforços parciais: esse órgão é,
“Poder Temporal”, como veremos em seguida).
evidentemente, o governo. Assim como aparece
Além disso, há uma série de instâncias inter-
na obra de divulgação que é o Catecismo positi-
mediárias, cujos nomes, aliás, variam de maneira
vista, no sistema de Comte, o governo exerce uma
“quase arbitrária” – nações, províncias etc. – que
função primordial, não sendo possível nenhuma
dificultam a análise (idem, p. 290-291).
sociedade sem ele: “Com efeito, cada servidor da
Da mesma forma, talvez caiba aqui o Humanidade deve sempre ser apreciado sob dois
esclarecimento, prévio, da relação entre as pátrias aspectos distintos embora simultâneos, primeiro
e o Poder Temporal: enquanto aquelas são os em relação ao seu ofício especial, depois quanto à
órgãos da Humanidade, este realiza uma função, harmonia geral. O primeiro dever de todo órgão
característica desses órgãos em particular – em social consiste, sem dúvida, em bem preencher sua
outras palavras, aquelas são as sedes físicas onde própria função. Mas a boa ordem exige também
opera este atributo (determinado, nesse sentido, que cada um assista, tanto quanto possível, a reali-
abstratamente)10. zação dos outros ofícios quaisquer. Semelhante
atributo torna-se mesmo o caráter principal do
IV. O PODER TEMPORAL
Como dissemos há pouco, as pátrias
constituem a sede física onde opera concreta- tecidos, as cidades são os órgãos, a Humanidade é o
organismo. Levando adiante essa metáfora, ele considerava
9 Augusto Comte não hesita em reconhecer que essa que, havendo cinco graus de organização na Fisiologia, a
especialização é “fonte contínua de diversidade e mesmo Sociologia poderia também adotá-los, faltando aí o nível
de desigualdade” (COMTE, 1890a, p. 294; sem grifo no dos aparelhos e dos sistemas, eventualmente o reservando
original). para as instituições e relações que ligam – e ligarão – entre
si as diversas partes da Humanidade, isto é, as cidades e os
10 Como se viu em citações anteriores, Augusto Comte países entre si: relações econômicas, culturais, intelectuais,
lançava mão de metáforas biológicas para explicar a afetivas etc. De qualquer maneira, o autor tinha bastante
importância relativa das instituições sociais entre si: a claro serem apenas metáforas biológicas, cuja eficácia
família é a célula social, as classes (e as castas) são os teórica não se pode exagerar (COMTE, 1890a, p. 292-293).

69
ELEMENTOS ESTÁTICOS DA TEORIA POLÍTICA DE AUGUSTO COMTE

organismo coletivo, em virtude da natureza nham as sociedades unidas, das teorias interpre-
inteligente e livre de todos os seus agentes. tativas e explicativas da realidade e, finalmente,
dos princípios de legitimação da ordem social
Ora, existe espontaneamente uma oposição
existente. Modernamente, por outro lado, a sepa-
cada vez mais pronunciada entre estes dois ofícios,
ração dos dois poderes é tanto inevitável, em
um especial, outro geral, de cada funcionário
virtude do desenvolvimento das capacidades hu-
humano. Porquanto, o primeiro particularizando-
manas e das especialização de funções, quanto
se mais à medida que a cooperação se desenvolve,
indispensável, a fim de garantir as mais diversas
suscita disposições intelectuais e mesmo tendên-
liberdades e permitir o advento do Positivismo
cias morais, que afastam cada vez mais de uma
como força social por meio do livre conven-
apreciação de conjunto, que também vai se tor-
cimento (COMTE, 1890b, p. 199-200; LACER-
nando cada vez mais difícil. Tal é o verdadeiro
DA, 2003; LACERDA NETO, 2003).
ponto de vista elementar da teoria geral do
governo, primeiro temporal, depois espiritual. Também percebidos por Augusto Comte como
os órgãos de reação do conjunto da sociedade
Como nenhuma função, mesmo vital, e
sobre as suas diversas partes, os poderes têm
sobretudo social, pode ser bem preenchida senão
origens diversas e, atuando sobre a sociedade a
por meio de um órgão próprio, o mínimo concurso
partir de diferentes posições, têm funções diversas.
humano exige, pois, uma força especialmente
Como a natureza humana é tríplice, três são os
destinada a chamar de novo às vistas e aos
poderes sociais: o material, o intelectual e o
sentimentos de conjunto agentes que tendem
afetivo. O poder material concentra-se na força
sempre a desviar-se de tais condições. Ela deve
física ou na riqueza; o poder intelectual cabe aos
sem cessar conter as suas divergências e desenvol-
filósofos e aos sacerdotes, enquanto o poder
ver as suas convergências. Por outro lado, este
afetivo cabe às mulheres. Ora, considerando, por
poder indispensável surge naturalmente das desi-
um lado, a eficácia prática do poder material e
gualdades que suscita a evolução humana.
sua preponderância sobre os outros dois, e, por
Apesar da íntima simpatia que constitui a sim- outro, a atuação de aconselhamento e direção que
ples associação doméstica, mesmo reduzida ao par os outros dois têm sobre o primeiro, eles
fundamental, não está ela nunca isenta de seme- constituem-se em dois grandes: o primeiro é o
lhante necessidade. É aí que se pode apreciar Poder Temporal, responsável pela manutenção
melhor este grande axioma: Não existe sociedade física da sociedade, e o Poder Espiritual, que
sem governo” (COMTE, 1934, p. 293-295; grifos mantém os valores sociais e, especialmente,
no original). orienta e aconselha, isto é, modifica o Poder
Temporal (COMTE, 1890a, p. 311).
A análise acima é de teor funcionalista: o gover-
no possui uma função a realizar na sociedade e é Augusto Comte não tinha como preocupação
por esse meio que Augusto Comte explica a definir o que seja o “poder”, ao menos não com o
origem e o propósito do governo. Todavia, não é refinamento que assumiram várias definições no
o preenchimento de sua função que confere século XX, especialmente pela Ciência Política
legitimidade ao governo, cabível a outro órgão, norte-americana a partir da sugestão de Max Weber,
que possui ainda outros papéis: essa é a base da segundo a qual o “poder significa a probabilidade
divisão dos poderes no sistema comteano, o Poder de impor a própria vontade, dentro de uma relação
Temporal e o Poder Espiritual. social, ainda que contra toda resistência e qualquer
que seja o fundamento dessa probabilidade”
Importa desde já notar que a separação dos dois
(WEBER, 1997, p. 43; grifo no original), isto é,
poderes é uma característica moderna, esboçada
como uma relação entre agentes, em que um
na Idade Média. Na Antigüidade o politeísmo
consegue, por quaisquer meios à sua disposição,
confundia o Poder Temporal com o Poder Espi-
fazer que um outro, mesmo a contragosto, aja como
ritual, dominando um ao outro; assim, a sociedade
o primeiro deseja.
era militar – e o chefe guerreiro era também um
sacerdote – ou era sacerdotal – e a atividade tendia No dicionário elaborado por Ângelo Torres,
a ser pacífica. Em tanto um quanto no outro caso, assim, a definição de poder que aparece é a seguin-
o órgão que mantinha a ordem civil também era te: “É o governo, indispensável à sociedade. Há
responsável pela difusão dos valores que manti- sempre o poder teórico ou espiritual e o poder ma-

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 23: 63-78 NOV. 2004

terial, separados ou unidos. Não há sociedade sem tempo ele deve conter aqueles elementos que se
governo” (TORRES, 1997, p. 96); no dicionário afastam do esforço coletivo e dirigir os esforços
de Bourdet (1875) nada aparece. Conforme trans- daqueles que se empenham em prol da sociedade.
parece no resumo de Torres, a ênfase cai no gover- Também fica bastante claro que o poder exige dois
no, seja no material, do Poder Temporal, seja no elementos relacionados para existir, um que aplica
teórico, do Poder Espiritual. Além disso, pelo que e outro sobre quem se aplica. Por fim, embora se
indicamos um pouco mais acima de Augusto pense basicamente no poder político – “material”
Comte, cada classe social tem seu próprio tipo de ou “temporal”, na terminologia de Augusto Comte
poder, cujos campos de atuação já se esboça: o – há claramente a possibilidade de estendê-lo ao
poder material tem eficácia prática, isto é, sobre Poder Espiritual.
as coisas, sobre a realidade material, sobre o mun-
Mais particularmente, o Poder Temporal deve
do, em outras palavras, por uma via direta; o poder
expandir-se por toda a sociedade, isto é, deve ser
espiritual age modificando a conduta do poder
capaz de atingir todas as porções sociais, a fim de
temporal, isto é, atua sobre os indivíduos, aconse-
manter a coesão social e dirigi-la. O meio específi-
lhando, ensinando, sugerindo – indiretamente,
co de atuação é – isso é importante ressaltar – a
portanto.
força: “A obrigação especial e o comando parcial
Uma outra passagem, agora diretamente do não devem, então, senão se generalizarem conve-
Sistema de política positiva, apresenta outras nientemente, para constituir, sem grandes obstá-
noções de interesse: “A necessidade de concurso, culos, uma força de coesão capaz, dentre de todo
inseparável da de independência, exige então, Estado, de conter as divergências e de dirigir as
assim, sua própria satisfação permanente, após convergências.
uma instituição fundamental convenientemente
É assim que o princípio da cooperação apenas,
adaptada a esse fim necessário. Ela torna-se a nós
sobre o qual repousa a sociedade política propria-
tão mais indispensável quanto os instintos que nos
mente dita, suscite naturalmente o governo, que
conduzem ao isolamento ou aos conflitos são natu-
deve mantê-la e dirigi-la. Uma tal potência apre-
ralmente mais enérgicos que os que nos dispõem
senta-se, na verdade, como essencialmente mate-
à concórdia. Ora, tal é a destinação geral própria
rial, pois resulta sempre da grandeza ou da riqueza.
à força de coesão social designada em todos os
Mas importa reconhecer que a ordem social não
lugares sob o nome de governo, que ao mesmo
pode jamais ter outra base imediata. O célebre prin-
tempo conter e dirigir. A admirável concepção de
cípio de Hobbes sobre a dominação espontânea
Aristóteles 11 institui então uma luminosa
da força constitui, no fundo, o único passo capital
combinação entre os dois elementos necessários
que ainda se deu, de Aristóteles até mim, na teoria
de todo pensamento político, a sociedade e o
positiva do governo” (idem, p. 298-299).
governo” (COMTE, 1890a, p. 294-295).
A passagem acima suscita dois comentários.
Por um lado, justifica-se a necessidade do
O primeiro é, evidentemente, relativo ao funda-
governo indicando-se sua origem lógica: como a
mento último do poder, baseado em Hobbes e
sociedade exige a cooperação mas o ser humano
seguindo a tradição realista do pensamento
naturalmente tende ao individualismo, isto é, a
político: o que o mantém é a força, a violência.
cessar a cooperação, é necessário um órgão que
Embora, como notou Raymond Aron (1999, p.
mantenha todos cooperando entre si. Por outro
110), essa observação possa chocar um leitor de
lado, define-se uma função geral para o governo,
Augusto Comte, não é possível ser de outra
dentro de um esquema funcionalista: ao mesmo
maneira, sendo a natureza humana como é – como
veremos mais abaixo. Em todo caso, Comte não
deixou de ironizar aqueles que consideram que o
11 Segundo a qual a essência da sociedade consiste na Poder Temporal não deve ser capaz de agir, isto é,
separação dos ofícios e na convergência dos esforços. que não deve ser, de fato, um “poder”: “Todos
Conforme indica Miguel Lemos em sua tradução do aqueles que se chocam com a proposição de
Catecismo positivista, não há, nas obras do estagirita,
Hobbes achariam estranho, sem dúvida, que em
nenhuma passagem com essa formulação: Augusto Comte,
ao lê-las, concluiu poder extrair esse princípio, lugar de fazer repousar a ordem política sobre a
reconhecendo, de qualquer forma, sua autoria como sendo força, quiséssemos estabelecê-la sobre a fraqueza”
do pensador grego. (COMTE, 1890a, p. 299).

71
ELEMENTOS ESTÁTICOS DA TEORIA POLÍTICA DE AUGUSTO COMTE

A segunda observação é a seguinte. Como já corazón, y fomenta una influencia controladora


indicamos anteriormente, o fundamento do Poder adecuada, para volverla la base durable de la
Temporal pode ser tanto a “grandeza” – a força autoridad política” (COMTE, 1995, p. 218; sem
física, pura e simplesmente – quanto a riqueza, grifos no original). Assim, o Poder Temporal pode,
isto é, o que chamamos atualmente de “poder em casos extremos, obrigar os diversos órgãos a
econômico”. Ao contrário do pensamento político considerar o bem comum: o que importa, porém,
do século XX (BOBBIO, 1997, p. 110), Augusto é que tais órgãos o mais livre e espontaneamente
Comte não separava o poder político do possível assintam com essa consideração. O órgão
econômico: na verdade, considerando que as responsável ao mesmo temo pela fiscalização, pela
sociedades humanas ao longo de suas histórias sanção e pela moderação do Poder Temporal é o
passam de atividades guerreiras, baseadas, por Poder Espiritual, cujo meio de atuação é o acon-
óbvio, na violência, para atividades industriais, selhamento e a sugestão.
pacíficas, ele postulava que tendencialmente o
Indicamos mais acima que o Poder Espiritual
poder político, de mando, deveria ficar nas mãos
atua por via indireta: sua potência refere-se à capa-
de industriais, ou do poder econômico, como
cidade de convencer e mudar o comportamento
diríamos hoje 12. Nesse caso, ainda que sem
dos indivíduos pelo assentimento às suas observa-
descartar o uso da violência física em casos
ções. Nesse sentido, o “Poder Espiritual” não se
extremos (por meio da polícia ou até da pena de
encaixaria na definição weberiana de poder – ao
morte – embora defendendo o fim dos exércitos),
menos não totalmente –, pois é-lhe vedado “[...]
o “poder de coesão” que o conjunto da sociedade
impor a própria vontade [...] ainda que contra toda
exerceria sobre seus diversos órgãos dar-se-ia por
resistência [...]” (WEBER, 1997, p. 43).
via das pressões econômicas13.
A condição de funcionamento de tal exigência
Ora, o mesmo poder que tem por função manter
é uma única, muito simples de enunciar, tanto
a coesão social pode desviar-se de seus fins,
quanto freqüentemente difícil de realizar: nas
tornando-se demasiado ou sendo aplicado em fins
sociedades contemporâneas deve ocorrer a
incorretos. Além disso, a força não pode pura e
completa separação entre os dois poderes. Em
simplesmente ser aplicada, isto é, ainda que a força
outras palavras, o Poder Espiritual não pode
como tal justifique-se como fundamento do Poder
mandar e o Poder Temporal não pode “opinar”.
Temporal, ela apenas não basta, havendo a
Este deve apenas manter a ordem pública –
necessidade de uma sanção emitida por outro
eventualmente auxiliando no desenvolvimento
órgão: em outras palavras, há a necessidade de
material da sociedade – e aquele deve constituir
legitimação do poder. “Pero aunque la fuerza es
as teorias e as doutrinas gerais que orientam a
el fundamento indispensable de toda organización
sociedade, além de – e isto é de central importância
de la sociedad, debemos recordar que por sí misma
–, pela associação entre os filósofos e sacerdotes,
es totalmente insuficiente. La fuerza siempre
por um lado, e os proletários e as mulheres, por
requiere el complemento doble del intelecto y el
outro, constituir uma opinião pública, cujo papel
é, precisamente, fiscalizar a atuação do Poder
Temporal, orientando sua conduta e condenando
12 Lacerda Neto (2003) apresenta detalhadamente o seus excessos (ou faltas).
projeto político de Augusto Comte, após repassar os
fundamentos epistemológicos e históricos de suas Ainda que o objetivo deste artigo seja apenas
concepções, indicando como o filósofo francês pretendia o de comentar os elementos da teoria sociológica
que se organizasse a sociedade em uma época de paz de Augusto Comte que se referem à organização
generalizada, fraternidade universal e um conhecimento estritamente política da sociedade, não é possível
positivo da realidade do mundo e do ser humano. fazer qualquer referência ao Poder Temporal sem
13 Face aos problemas que a “sociedade industrial” indicar suas íntimas e complexas relações com o
notoriamente apresenta, especialmente em termos de Poder Espiritual. A importância que Augusto
conflitos de classe, importa indicar a seguinte observação Comte atribuía ao último e a insistência com que
de Comte: “Mesmo hoje, a vida industrial não suscita senão
assinalou seu papel na sociedade já o distingue da
classes imperfeitamente ligadas entre si, à falta de um
impulso assaz geral para tudo coordenar sem nada maior parte dos pensadores políticos – o que é
atrapalhar; esse é o principal problema da civilização curioso, pois, ao mesmo tempo em que se filia à
moderna” (COMTE, 1890b, p. 363; sem grifos no original). tradição realista do pensamento político, também

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 23: 63-78 NOV. 2004

se filia a uma “tradição” “idealista”, geralmente restrito: “Na ordem cívica, cada concurso de famí-
representada por Immanuel Kant14. Na verdade, lias para um fim determinado faz em breve surgir
como diria nas obras da maturidade, todos seus um chefe prático, cuja autoridade se acha espon-
esforços foram no sentido de constituir um novo taneamente limitada pelo conjunto das operações
Poder Espiritual, substituto da decaída e há muito que ele pode realmente dirigir, quer pela sua
retrógrada Igreja Católica, adequado ao período própria aptidão, quer sobretudo em virtude de seus
crescentemente positivo da Humanidade, capaz de capitais. É aí que reside o verdadeiro poder
“reorganizar a sociedade sem deus nem rei”, como temporal, igualmente capaz de impulsar e de reter,
anunciava desde seus opúsculos de juventude conforme as necessidades. Todo poder mais vasto
(COMTE, 1972). dimana necessariamente de uma fonte espiritual”
(COMTE, 1934, p. 295; sem grifos no original).
O Poder Espiritual, se comparado ao Tempo-
Essa fonte espiritual faria prevalecer as vistas de
ral, seria ao mesmo tempo relativo ao espírito e
conjunto – que, no sistema comteano, assume uma
permanente; seria o poder teórico, em relação ao
perspectiva sincrônica e principalmente diacrôni-
qual o outro seria o prático e seria o poder geral,
ca, ou, em seus próprios termos, a continuidade é
relativo a todos os povos, a partir de uma educação
mais enfatizada que a solidariedade 16 (sem
comum, em contraste com a particularidade do
prejuízo desta, claro está).
outro. Assim, o Poder Espiritual, fundamental-
mente teórico, tem como objetivo elaborar, a partir “Após ter suficientemente oposto a generali-
dos principais resultados científicos, as concep- dade característica do poder espiritual à especifi-
ções gerais sobre a realidade, cosmológica e huma- cidade necessária do Poder Temporal, não falta
na, constituindo uma opinião pública capaz de de- senão completar seu contraste fundamental por
senvolver e apoiar as instituições que essas mes- uma diferença diretamente conexa com a prece-
mas concepções gerais, de teor científico, sugerem. dente. Ela concerne ao seu domínio territorial,
Nesse sentido, o Poder Espiritual consiste tanto universal para o primeiro e sempre parcial relação
em um órgão que elaborará um sistema de edu- ao segundo. Cultivando a arte geral, apenas
cação quanto o aplicará. Para tanto, os conheci- igualmente indispensável em todas as partes, o
mentos parciais e analíticos elaborados pela sacerdote pode e deve espalhar seu ofício a todas
ciência seriam coordenados em uma síntese, as porções do planeta humano, quando sua dou-
caracterizada necessariamente pela perspectiva trina fundamental tornar-se assaz real e assaz
humana e pelas vistas de conjunto15. completa para prevalecer uniformemente. Ao
contrário, o poder material, destinado sobretudo a
O Poder Espiritual ainda possui um âmbito de
regular as operações especiais e locais, não saberá
atuação maior que o Poder Temporal, por si só
dominar sem opressão senão um território
determinado, bem menos estendido mesmo que
14 Continuando com as referências aos filósofos modernos, como cremos hoje. Os diversos vínculos habituais
a combinação originalíssima das idéias de Hobbes e Kant que esses trabalhos parciais estabelecem espon-
lembra a filosofia de Hugo Grócio. Embora não tenha taneamente entre todas as regiões terrestres não
sofrido uma grande influência desse pensador – as comporta mais senão que não exige nenhuma
referências fundamentais do pensamento comteano são concentração sistemática. Não é jamais a força,
Condorcet, David Hume, Diderot e Joseph de Maistre –
Augusto Comte reconheceu-lhe a importância, incluindo-
mas a sabedoria, o que deve por toda parte fazer
o mesmo em seu “Calendário positivista concreto”. Nas prevalecer livremente as instituições práticas sem
teorias de política internacional, a original posição as quais as relações contínuas não adquirirão a
“intermediária” de Augusto Comte em relação a Hobbes
(realismo) e a Kant (idealismo) emparelham-no, não por
acaso, com a tradição grociana, representada no século XX 16 A importância da noção de continuidade histórica não
pelos ingleses Martin Wight e Hedley Bull.
deve ser subestimada. Mesmo com os preconceitos revolu-
15 Aliás, Comte indica que “com a descoberta das leis cionários característicos do marxismo e do comunismo
sociológicas, uma síntese baseada na Ciência torna-se (COMTE, 1957, p. 178; 1997, p. 292), o historiador egípcio
possível, a Ciência agora concentrando-se no estudo da Eric Hobsbawm comentou há alguns anos que “A memória
Humanidade” (COMTE, 1957, p. 366). Como se vê, o pro- histórica já não est[á] viva. [...] Quase todos os jovens de
jeto comteano é um humanismo no sentido forte e rigoroso hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem
da expressão, valorizando profundamente o ser humano e qualquer relação orgânica com o passado público da época
tomando-o de fato como “a medida de todas as coisas”. em que vivem” (HOBSBAWM, 1999, p. 13).

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ELEMENTOS ESTÁTICOS DA TEORIA POLÍTICA DE AUGUSTO COMTE

uniformidade desejável. Mantém-se a mesma coisa conselho e os do comando nunca são idênticos
para as iniciativas temporárias que demandem um não pode, quiçá, degenerar em qualquer dos
concurso especial entre diversos governos” malefícios da teocracia” (COMTE, 1957, p. 367),
(COMTE, 1890a, p. 319-320). isto é, no imobilismo, na opressão e na falta de
liberdade. Da mesma forma, a verdadeira
O comentário acima, além de realçar o caráter
separação entre os dois poderes é o que garante
potencialmente universal do Poder Espiritual,
ao mesmo tempo que o Poder Espiritual não se
reforça o caráter necessariamente local do Poder
corromperá, tornando-se servil ao Poder Temporal,
Temporal, vedando-lhe extensões territoriais muito
e que o regime político não seja, como geralmente
amplas. Ora, isso é uma outra forma de exprimir a
se pretende a respeito do projeto político do
necessária limitação dos ajuntamentos políticos,
Positivismo, uma tecnocracia.
justificando a extensão das pátrias a tamanhos bem
menores do que hoje acontecem – Comte sugeria Por outro lado, Augusto Comte percebia que a
que os países terão área semelhante à Bélgica, a mais importante garantia que um regime tem para
Portugal, à Holanda etc. –, condenando, no limite, ser livre (“liberal”, como define Sartori (1994, cap.
as pretensões de “império universal”: a única 13)) é a separação entre dois poderes, agora rela-
forma de congregar todos os seres humanos é por tivamente ao Poder Temporal: o Estado não pode
meio do espírito, mantido pelo Poder Espiritual. esposar nem patrocinar qualquer doutrina, deven-
do tão-somente cuidar dos aspectos materiais da
A separação entre os dois poderes corresponde
sociedade. O papel de condução mais geral dos
àquela mais geral, entre a teoria e a prática. Separar
rumos sociais, a partir de uma influência sempre
a teoria da prática tem como objetivo e resultado
indireta, por meio da opinião pública, bem como
principal estabelecer uma classe de homens que
a mais ampla possibilidade de crítica à ação gover-
se dedicam exclusivamente à reflexão e à
namental, cabe ao Poder Espiritual, ou seja, aos
contemplação17 da realidade, ao mesmo tempo
filósofos, pensadores, jornalistas, artistas e todos
cosmológica e humana. Os princípios obtidos pelo
aqueles que se ocupam do “espírito”; de qualquer
Poder Espiritual, baseados na observação
forma, é completamente vedado ao Estado a
científica tanto do mundo em geral quanto da
intromissão nesses assuntos – aí se incluindo, por
sociedade e do ser humano, devem ser vistos como
óbvio, a manipulação dos meios de comunicação.
orientadores da atividade política, não devendo
ser aplicados diretamente – pois não se prestam a Se o Poder Espiritual, ao submeter-se ao Tem-
tal. Assim, da mesma forma que a Astronomia poral, pode tornar-se servil, ou seja, corrupto, ao
auxiliava – e ainda auxilia – a arte da navegação, controlar o comando político torna-se opressor,
ou que a Física auxilia a Engenharia, ou que a pois impassível de crítica. “Assim, voltada a guiar
Biologia ilumina e orienta a Medicina, a somente a atividade, renuncia a ditadura republi-
Sociologia deve iluminar e orientar a atividade cana a qualquer interferência opinativa, quer
política. Insistimos: o Poder Espiritual consiste em impondo convicções, quer coibindo-as. Cabe-lhe
uma categoria de homens especialmente dedicados manter energicamente a ordem material da socie-
à contemplação da realidade: Augusto Comte em dade [...], respeitando escrupulosamente seu
inúmeras vezes deixou claro que simplesmente movimento intelectual – opinativo –, por mais
lhes vedava a participação na política prática, a desregrado que se torne ele. Logo: plena liberdade
fim de assegurar sua independência e, portanto, o de discussão e de exposição, como garantia inarre-
cumprimento de seu papel social. “A primeira dável contra a sempre iminente degeneração da
condição da autoridade espiritual é a exclusão do ditadura em tirania, aquisição a manter-se em cará-
poder político, como uma garantia de que a teoria ter nada menos que definitivo” (LACERDA
e a prática manter-se-ão sistematicamente NETO, 2003, p. 84 et passim; sem grifos no
separadas. Um sistema em que os órgãos do original).
Dessa forma, em se tratando da liberdade de
17 Claro está que “contemplação” não possui aqui um pensamento e de expressão, ou, por outra, do não
sentido quietista, referindo-se, antes, à não “intervenção” cerceamento, da parte do Estado ou do governo,
na realidade com vistas à sua alteração: intervém-se nela, das liberdades civis e também das dos meios de
mas apenas para conhecê-la. comunicação, a elaboração de Augusto Comte ofe-

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 23: 63-78 NOV. 2004

rece uma importante fundamentação. Mais parti- cerebral à existência corporal, faz prevalecer
cularmente, embora careça de uma investigação sempre a atividade sobre a inteligência e mesmo
específica, parece-nos que o único pensador a sobre o sentimento. É então à cidade, órgão
considerar que a garantia fundamental e principal essencial da cooperação ativa, que se deve
das liberdades em um regime de liberdade é sobretudo voltar-se o homem, mas conservando-
precisamente o caráter intocável dos meios de a sem cessar como preparada pela família e
comunicação pelo governo ou pelo Estado foi completada pela Igreja. Ainda que a sociedade
Augusto Comte18. política seja necessariamente composta por
sociedades domésticas, a primeira determina
Cabem aqui algumas precisões. A primeira é
somente o conjunto da existência própria a cada
que, ao tratar-se da “liberdade de expressão”,
uma das outras, após a repartição geral dos
pressupõe-se a liberdade de pensamento e também
trabalhos humanos, que domina em todos os
a de culto: só faz sentido alguém reivindicar a
lugares seus destinos respectivos. Irrecusável
possibilidade de dizer o que quiser se puder, antes,
desde o primeiro ensaio de nossa civilização, essa
pensar o que quiser; invertendo essa relação,
preponderância normal torna-se cada vez mais
também se pode considerar que quem quer falar
pronunciada, à medida que se desenvolve nossa
alguma coisa já pode, de antemão (ou ao mesmo
solidariedade e nossa continuidade. Assim o
tempo), pensar e acreditar no que quiser.
instinto universal confirma essencialmente uma tal
Em segundo lugar, Comte indica a liberdade subordinação, que em todos os lugares dispõe a
de expressão como uma capacidade ativa: os conceber habitualmente o homem como cidadão.
indivíduos dispõem dela e realmente a utilizam,
Mas essa primeira apreciação parece não deixar
advindo precisamente daí, de seu caráter atual,
nenhuma dúvida sobre a segunda parte da questão
todas as suas virtudes, intelectuais, morais, sociais
precedente. Assim, se o sentimento mesmo
e políticas. Um regime em que haja apenas nomi-
subordina-se à atividade, como a inteligência
nalmente a liberdade de expressão e de
poderia dispensá- la? [...]
pensamento é um regime condenado ao fracasso.
A religião positiva, em virtude de sua plena
Por fim, a questão teórica relativa à prepon-
realidade, decide irrevogavelmente a preponde-
derância de um poder sobre o outro; essa questão,
rância do Estado, ainda que ela possa apenas
aliás, se é teórica e avança para conseqüências
assegurar à Igreja a universalidade que lhe
práticas, também recua, considerando alguns fun-
convém. [...] A sociedade religiosa é sobretudo
damentos epistemológicos do Positivismo: “Nós
destinada a consolidar e desenvolver a sociedade
reconhecemos que todo homem pertence ao mes-
civil, como esta a sociedade doméstica. [...]
mo tempo, pelo sentimento, a uma família deter-
minada, pela atividade, a uma certa cidade, e pela Assim, a sociedade religiosa não deve destinar
inteligência, a alguma Igreja. Estudando simples- sua universalidade característica senão a completar
mente a estrutura, é supérfluo examinar qual des- a sociedade política, ligando entre si as diversas
sas três sociedades simultâneas deva prevalecer. cidades, após sua comum subordinação à Humani-
Mas não saberíamos apreciar claramente a exis- dade. Mas a extensão superior da Igreja não a au-
tência sem ter previamente estabelecido sua subor- toriza jamais a considerar-se como representando
dinação natural. É necessário então decidir agora melhor o verdadeiro Grande Ser que o que fazem
a questão abstrata da preponderância normal entre os estados ou mesmo as famílias” (COMTE,
a sociedade doméstica, a sociedade civil ou política 1890a, p. 341-344; negrito no original; sem itálicos
e a sociedade religiosa. no original).
Ora, essa determinação preliminar resulta O trecho acima, portanto, enseja duas séries
espontaneamente da teoria fundamental da de observações. A primeira relaciona-se à preva-
natureza humana, que, subordinando a existência lência de um poder sobre o outro, ou, como resu-
miu Bobbio (1997, p. 114-116), ao problema da
primazia da política sobre a moral. No pensamento
18 Nesse sentido, sua contribuição para as teorias da de Augusto Comte não há, no sentido por assim
democracia em geral, e relativamente aos meios de dizer clássico, uma efetiva “primazia” de um poder
comunicação (MIGUEL, 2000) em particular, ainda sobre o outro. Como as considerações práticas
completamente inexplorada, seria enorme. guiam o ser humano, mesmo se impondo quando

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ELEMENTOS ESTÁTICOS DA TEORIA POLÍTICA DE AUGUSTO COMTE

são descuradas, é a esfera prática da vida que deve significado geralmente a ele atribuído, foi carac-
preponderar sobre a intelectual e a afetiva: a cidade terizado e discutido pelo pensador de Montpellier
e o Poder Temporal preponderam sobre a Igreja e por meio de duas outras categorias: a pátria e o
a família, isto é, sobre o Poder Espiritual. Contudo, Poder Temporal. A primeira é um “órgão” da
a “preponderância” não é sinônima de “domina- Humanidade, isto é, sua base física, constituída
ção” ou “submissão”: os dois poderes são separa- pela união de diversas famílias, organizadas em
dos para cada um ter sua liberdade e seu campo classes ou castas a partir da divisão social do
de atuação próprio. Assim, se o cidadão – e sob trabalho, com vistas a prover a base material e
esse título devem ser percebidos todos os seres prática da sociedade.
humanos, todos os servidores da Humanidade –
O conceito que vincula as pátrias ao Poder
deve fidelidade à cidade, deve, por outro lado,
Temporal é o princípio de Aristóteles, da separação
ouvir os conselhos e os ensinamentos da Igreja,
dos ofícios e da convergência dos esforços: a
além de seguir os sentimentos desenvolvidos no
divisão do trabalho acarreta naturalmente a
seio familiar. Se considerarmos, também, que o
especialização e, conseqüência também natural
Poder Espiritual tem a função de legitimar o Poder
embora maléfica, o particularismo. A fim de garan-
Temporal, alem de fiscalizá-lo, torna-se claro que
tir a convergência dos esforços é necessário o
a relação entre ambos não é de submissão, mas de
governo – material, para forçar à convergência se
divisão do trabalho. A fórmula comteana para isso
necessário e dirigir a atividade dos órgãos conver-
era: “a política deve submeter-se à moral”.
gentes, e espiritual, que garante as vistas do
A segunda observação é de cunho epistemo- conjunto social, educa os cidadãos e fiscaliza a
lógico: contrariamente ao que uma interpretação atuação do poder material.
estritamente intelectualizante do pensamento com-
A análise dos dois poderes, especialmente de
teano poderia sugerir, a realidade prática – os fato-
suas relações, constitui a parte mais densa e mais
res materiais – têm uma importância marcada no
interessante do pensamento propriamente político
Positivismo e em sua percepção da realidade.
de Augusto Comte, pois é na atuação complemen-
Aliás, como notou há vários anos Rodolfo Paula
tar mas autônoma de um frente ao outro que se
Lopes, “Antes do marxismo, o Positivismo procla-
constituem e instituem as diversas liberdades
ma que a infra-estrutura determina a superestrutu-
sociais.
ra, ou, em sua linguagem, que os fenômenos
intelectuais e sociais subordinam-se às condições A preocupação de Augusto Comte era permitir
materiais e econômicas, mas [...] que é sobretudo que cada capacidade humana se desenvolvesse
pela renovação da super-estrutura que ocorre, no plenamente, dentro de sua esfera de ação; além
fundo, o progresso” (LOPES, 1946, p. XVII). Em dessa esfera, cada instituição torna-se opressiva,
outras palavras, diríamos que se trata apenas de ao invadir o campo de atuação de outras. Cada
condicionamento do econômico sobre o intelectual instituição é complementar às outras, sua harmonia
e o social, ao invés de determinação19. sendo possível a partir daí (ao invés, por exemplo,
da juridicamente decretada “harmonia entre os três
V. CONSIDERAÇÕES FINAIS
poderes” de Montesquieu).
O presente texto teve por objetivo apresentar
Como afirmamos no início deste artigo, as
o que atualmente chamamos de “Estado”, de acor-
elaborações comteanas são bastante abstratas e
do com o pensamento de Augusto Comte. Como
integrantes de uma totalidade teórica e não foi nos-
vimos, esse conceito, bastante contemporâneo no

e de interpretar a realidade (COMTE, 1972b): ao longo da


história, é como se a base material fosse uma pressão cujo
19 Os fatores materiais, ao exercerem uma pressão valor é constante, variando a partir dela os modos de
condicionante sobre o conjunto da sociedade, tanto em um conceber a realidade. Em relação estreita com a lei dos
momento qualquer quanto ao longo da história humana, três estados intelectuais, ainda que a ela subordinada, está
evidentemente não impedem a validade da lei dos três a lei dos três estados da atividade prática: a atividade é
estados, porque, por um lado, os meros fatores materiais primeiramente militar conquistadora (Antigüidade), depois
exercem um papel muito mais limitante que, por assim militar defensiva (Idade Média) e por fim pacífica e
dizer, “propositivo”: a base material não cria modos de industrial (modernidade). (Sobre as diversas relações que
pensar seus; por outro lado, como vimos na seção II.1 deste estabelecem entre si os elementos do sistema comteano,
artigo, os três estados referem-se a métodos de raciocinar há algumas indicações em Marietti (2003).)

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 23: 63-78 NOV. 2004

so objetivo explorar suas conseqüências práticas. social: a separação entre a Igreja e o Estado, a
A despeito disso, não é difícil perceber-se como primazia da moral sobre a política, a necessária
as indicações teóricas de Augusto Comte podem possibilidade de crítica do poder Espiritual sobre
ser instrumentalizadas para a prática científica ou, o Temporal. Esses, porém, são temas para outros
mais simplesmente, para a prática política ou artigos.

Gustavo Biscaia de Lacerda (gustavobiscaia@yahoo.com.br) é Mestre em Sociologia Política pela Universidade


Federal do Paraná (UFPR) e sociólogo da mesma instituição.

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