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História da criança

Antes de iniciarmos, gostaríamos de ressaltar que todo histórico da criança é


realizado pela ótica de um adulto, não sendo fiel a percepção da criança, por isso,
acreditamos que não podemos apenas crer nessa versão, é necessário compreender seu
universo através do olhar das próprias crianças.

“Ou seja, a concepção de criança é vivida e apreendida a partir das construções feitas
pelos adultos, nas quais, muitas vezes, a criança não pode discursar, defender-se ou falar
sobre si mesma. Se pudéssemos dar voz às crianças que estão nas casas, ruas,
instituições, buscando a construção de sua própria história, é possível que elas nos
relatem situações que envolvem sentimentos e sensações diferentes da perspectiva do
adulto.” (ROCHA, 2002)

A concepção de infância compartilhada nos dias atuais era desconhecida no


século XII. Acreditava-se que a criança fosse naturalmente corrompida (pecadora),
tratavam-na como um adulto em miniatura, não havia, por exemplo, uma discriminação
entre o que poderia ou não ser dito em sua presença, todos os assuntos vulgares ou não
eram compartilhados tanto por adultos quanto crianças.

“Os adultos se relacionavam com as crianças sem discriminações, falavam vulgaridades,


realizavam brincadeiras grosseiras, todos os tipos de assuntos eram discutidos na sua
frente, inclusive a participação em jogos sexuais. Isto ocorria porque não acreditavam
na possibilidade da existência de uma inocência pueril, ou na diferença de aracterísticas
entre adultos e crianças.” (ROCHA, 2002)

Os pais queriam alcançar a cria perfeita, saudável, compatível com o esperado


por eles e pelo grupo do qual pertenciam, por isso, a mortalidade infantil, bem como o
infanticídio, era aceito com naturalidade (ausência de sentimentos), a criança perdida
poderia ser facilmente substituída. “... a passagem da criança pela família e pela
sociedade era muito breve e muito insignificante para que tivesse tempo ou razão de
forçar a memória e tocar a sensibilidade...” (ARIÉS, 1981, p. 10).

O hábito dessa época era entregar seus filhos a outros que seriam responsáveis
por assegurar sua educação até que completassem sete anos de idade. A partir dessa
fase, elas eram inseridas na vida adulta, começavam a contribuir com a renda familiar,
aprendendo o ofício de seus pais.

A infância equiparava-se à velhice, ambas eram desvalorizadas. A primeira


porque lhe faltava a razão, diferentemente dos adultos que eram detentores da
racionalidade, e o segundo, devido a senilidade.

No século XVII, a idéia de infância, progressivamente, obteve um novo


significado, por causa da preocupação da Igreja e a interferência dos poderes públicos.
Em razão dessa intervenção, foram desenvolvidas formas de se garantir a saúde da
criança: as condições de higiene foram melhoradas, contribuindo com a diminuição da
mortalidade infantil; o papel de cuidador desses indivíduos foi destinado única e
exclusivamente às mulheres (amas e parteiras); a educação era responsabilidade da
própria família, proporcionando um contato maior com seus filhos e estabelecendo
vínculos entre eles.
Devido a cristianização, a sociedade passou a associar a criança com o menino
Jesus, obtendo a concepção clara de que ela seria naturalmente inocente, ou seja,
despojada de pecados. E, sua perda era interpretada como a vontade de Deus, os pais
não mais aceitavam perdê-las espontaneamente.

De acordo com Philippe Áries esse momento se caracteriza pelo surgimento do


sentimento de infância, o qual é constituído por duas etapas: paparicação e apego. Na
primeira, a criança é vista pela sociedade como sinônimo de ingenuidade, beleza,
meiguice. “... ela fala de um modo engraçado: e titota, tetita y totata... e (...) “eu a amo
muito” (...) ela faz cem pequenas coisinhas: faz carinhos, bate, faz o sinal da cruz, pede
desculpas, faz reverência, beija a mão, sacode os ombros, dança, agrada, segura o
queixo: enfim, ela é bonita em tudo o que faz. Distraio-me com ela horas a fio...”

Contudo, essa nova forma de tratá-las não era aceita por todos; o apelo surge no século
XVII como a manifestação contra a paparicação. “... não posso conceber essa paixão
que faz com as pessoas beijem as crianças recém-nascidas, que não têm ainda
movimento na alma, nem forma reconhecível no corpo pela qual se possam tornar
amáveis, e nunca permiti de boa vontade que elas fossem alimentadas na minha
frente...” (MONTAIGNE, apud ARIÈS,1981, p.159).

Por causa dessa nova concepção de ser criança, os pais foram responsabilizados
pela sua educação, marcando cada vez mais a relação dos pais com seus filhos. Devido
a essa nova sociedade que estava sendo constituída, houve a necessidade de impor
normas e regras para que as crianças acompanhassem as exigências do grupo social, por
isso, paulatinamente, surgiram as instituições de ensino adaptadas para essa parcela da
população (atendendo as suas particularidades).

“A nova percepção e organização social fizeram com que os laços entre adultos
e crianças, pais e filhos, fossem fortalecidos. A partir deste momento, a criança começa
a ser vista como indivíduo social, dentro da coletividade, e a família tem grande
preocupação com sua saúde e sua educação.” (ROCHA, 2002)

Observamos que ao estar inserido em uma sociedade capitalista, a constante


valorização no valor produtivo das pessoas (freqüente atualização dos profissionais
devido a competitividade do mercado de trabalho) é o principal fator do
desaparecimento da infância, do brincar, do ser criança.
Desde pequenos, seus pais os colocam para realizar diversas atividades tais
como curso de inglês, dança, judô, natação, teatro, entre outros, preenchendo assim todo
o seu dia, restando pouco tempo para brincarem e estimularem sua criatividade.