Você está na página 1de 2

Preconceito contra os feios ganha nome e pode ser alvo até de

proteção legal
Vários estudos apontam que os mais belos são sempre beneficiados nas notas, nas promoções, até
nas penas de prisão

5.jul.2021 às 14h00

“As muito feias que me perdoem”, escreveu Vinicius de Moraes, “mas a beleza é fundamental”. Anos
atrás, esses versos eram pacíficos, embora cruéis. Hoje? Revelam um “preconceito” que, além de
cruel, talvez mereça uma correção. Que o mesmo é dizer: uma mudança de conduta e, quem sabe, uma
proteção legal.

Porque o preconceito tem nome: “lookism”. Desconhecia o termo, confesso, mas David Brooks
explicou tudo no jornal The New York Times.

Segundo o colunista, “lookism” significa valorizar em excesso os belos e, sobretudo, discriminar


contra os feios. Não apenas em matéria sentimental; em todas as áreas da vida, do ensino à carreira
profissional, sem esquecer as sentenças da Justiça.

São vários os estudos que apontam para a mesma conclusão: os mais belos são sempre beneficiados
nas notas escolares, nas promoções, nos salários, até nas penas de prisão. Os feios, pelo contrário, são
injustamente punidos por suas feições.

Moral da história? É preciso mudar de atitude, aconselha Brooks, e tratar do preconceito contra os
feios como mais um preconceito intolerável. Apesar de tudo, o colunista não recomenda cotas para
feios. Faz bem. Até porque é difícil imaginar como seriam essas cotas.

Para começar, seria necessário estabelecer o que se entende por feiura humana e, depois, era preciso
aplicar esse critério a eventuais candidatos que se reconhecessem como feios. Tarefa espinhosa. Será
que a inteligência artificial poderia dar uma ajuda?

Imagino o cenário: o candidato apresenta-se para uma entrevista de emprego, a máquina analisa as
suas feições e a empresa informa que, segundo a escala de Quasimodo, ele atinge 68% de hediondez.
É, portanto, elegível para a cota respectiva. O candidato, feliz por ter sido declarado horrendo (“eu
sempre soube que esse rosto me levaria longe!”), agradece e aceita o trabalho.

Enquanto esse futuro não chega, mudar de atitude seria um bom começo. Mas também aqui o meu
ceticismo impera: Brooks confunde boas maneiras (com os feios) e naturais inclinações (pelos belos),
como se fossem a mesma coisa.

Não são. Ofender ou prejudicar alguém porque é feio constitui uma grosseria abominável; nenhuma
sociedade civilizada sobrevive se deixar o superego sem freio.

Coisa distinta é ter uma inclinação natural por aquilo que é belo, mesmo sabendo que a palavra
“natural” não se ajusta às modas do tempo. Se tudo que existe é uma construção social, então a beleza
dependerá sempre dos critérios reinantes em particulares sociedades —e, mais especificamente, das
relações de poder que se estabelecem entre os seus membros.

Longe de mim contestar o relativismo de certos gostos. Anos atrás, em almoço de família, lembro-me
de chocar os presentes com a afirmação vigorosa de que Wallis Simpson era um tesão de mulher. O rei
Eduardo 8º fez muitíssimo bem em trocar o trono por ela.
Mas eu falo de beleza, não de gosto (ou desejo). Eu falo do que é objetivo, não subjetivo. E a beleza,
como ensinava Kant, é aquilo que agrada imediatamente, sem precisar de nenhum conceito.

Vinícius de Moraes

Leia Mais
Voltar

Sim, eu sei: a estética procurou encontrar as razões desse fenômeno —na forma, na simetria, na
proporção; ou em certas propriedades inatas que respondem aos estímulos de uma determinada
maneira.

Mas a beleza será sempre uma evidência e um mistério que se impõe e nos desarma,
independentemente das suas causas mais profundas. Até um bebê sabe disso quando contempla um
rosto belo e um rosto medonho. Ou quando prova algo doce e algo amargo.

Negar essa dimensão da nossa natureza, por razões de justiça social, não me parece apenas quimérico;
parece-me abusivo e de um paternalismo arrepiante. Como se os feios precisassem de uma mentira
piedosa para se sentirem menos feios, ou até subitamente belos.

Um dia, o cantor Serge Gainsbourg, que


era feio como a morte e que namorou as
mais belas mulheres da França, disse
preferir a feiura à beleza; a feiura,
acrescentou Gainsbourg, dura mais
tempo.

Ironicamente, Gainsbourg tocou no


essencial: somos vulneráveis à beleza
porque sabemos, inconscientemente que
seja, que ela é efêmera. E não há
nenhuma engenharia social capaz de
remover essa sombra de mortalidade.

O cantor francês Serge Gainsbourg, em


1988 - AFP

Você também pode gostar