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A

psicanálise é o pulmão artificial do mundo.


Texto da entrevista dada por Lacan à rádio France Culture em 1973 e publicado no Le
Coq-Herón1, 1974, nº 46/47, p.3-8.

Tradução Carolina Marcondes2 e Daniela Menaged3, revisão de Patrícia Sá4.

Tradução não comercial disponível aos membros e participantes da Escola Letra


Freudiana.

Agradecimentos especiais a Gilda Gomes Carneiro

Breve comentário inicial.

A Live5 de Antônio Quinet6, no dia sete de junho de 2020, após


praticamente quatro meses de quarentena no Brasil, teve como
convidada a psicanalista francesa Colette Soler7. Em meio à sua
exposição, Soler trouxe o recorte de uma fala de Lacan: “a
psicanálise é o pulmão artificial do mundo”; essa frase dita em
meio a uma pandemia viral e política chamou a atenção dos


1
Revista: www.lecoqheron.asso.fr
Revista científica de orientação psicanalítica fundada em 1969 por um pequeno núcleo de trabalho do
Centro Médico Psicopedagógico Etienne Marcelle, retirado do site www.wikipedia.com.br, acessado em
19 de junho de 2020.
2
Psicanalista participante da formação na Escola Letra Freudiana no Rio de Janeiro.
3
Psicanalista membro da Escola Letra Freudiana no Rio de Janeiro.
4
Psicanalista membro da Escola Letra Freudiana no Rio de Janeiro.
5
Disponível na plataforma YOU TUBE com o título “Psicanálise e Urgências da época- Colette Soler e
Antonio Quinet-Análise on-line.”
6
Psicanalista brasileiro filiado à Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano.
7
Psicanalista francesa e ex-docente da École Normale Supérieure e das Universidades de Paris VII e VIII.
Foi membro da École freudienne de Paris, dissolvida por Jacques Lacan em 1980; após a cisão da AMP,
em 1998, Soler esteve na origem do movimento dos Fóruns do Campo Lacaniano. Texto retirado do site
www.zahar.com.br/autor/colette-soler, acessado em 01/07/2020.

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colegas psicanalistas que a escutavam. Em busca da frase,


encontramos no site de Patrick Valas8 o áudio da entrevista que
continha o recorte trazido na Live por Soler, bem como a
transcrição da entrevista em francês. Durante o trabalho com o
texto optamos por seguir o áudio de Lacan em lugar da
transcrição de Alain Didier-Weill. Essa tradução tem como
finalidade fazer circular a frase de Lacan para, quem sabe,
reverberar o sopro de ar que a escuta psicanalítica significa para
aqueles que dela se servem.

Colocamos a transcrição do texto em francês seguido da


tradução para o português.

No site de Patrick Valas encontramos o breve comentário


introdutório:
À l’occasion du 28e congrès de l’IPA à Paris, Lacan accepte de
répondre à une interview de France-Culture.
J’avais confié à Alain Didier-Weill l’enregistrement que j’avais fait
de cette interview.
La chose était rare à l’époque et France-Culture ne donnait pas
accès à ses archives sonores.
Avec la permission de Lacan, A. D.-W. a fait transcrire ce texte qui
a été publié pour la première fois dans la Revue du Coq-Héron.
Je pense que nous lui devons cette juste nomination d’être
une « Déclaration ».
Patrick Valas

Por ocasião do 28º Congresso da IPA9 em Paris, Lacan aceita
responder a uma entrevista da France Culture (rádio).


8
www.valas.fr
9
International Psychoanalitical Association(IPA).

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Eu havia confiado a Alain Didier-Weill o registro sonoro que eu


havia feito dessa entrevista. A coisa era rara nessa época e a
France Culture não dava acesso aos seus arquivos sonoros.

Com a permissão de Lacan, Alain Didier-Weill fez com que fosse


transcrito o texto que foi publicado pela primeira vez na Revista
Le Coq-Héron.

Eu penso que lhe devemos essa justa nominação por tratar-se de


uma “Declaração”.

Patrick Valas.

A entrevista ou a “declaração’’.

France-Culture10 – Docteur Lacan, en ce moment se tient à Paris


le 28e Congrès International de Psychanalyse, vous n’êtes pas
invité, vous n’en êtes pas.

France Culture: Doutor Lacan, nesse momento realiza-se em


Paris o 28º Congresso Internacional de Psicanálise, o senhor não
foi convidado, o senhor não está lá.

LACAN – Que je n’y sois pas invité ne veut pas dire que j’en sois
absent, pour autant que mon sentiment a la moindre importance
là-dessus, je peux dire que mon absence m’y met en situation
privilégiée. Ceci, en raison du poids de mon enseignement, qui,
avec retard, sans doute, fait son chemin parmi ceux-là mêmes qui
m’excluent car ils ne se privent pas d’y faire le plus large
emprunt.

L´enseignement que je reçois de mon expérience, à savoir


de l’analyse qui est une expérience très suffisamment définie et

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Utilizaremos as iniciais F.C. para denominar a radio France Culture.

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limitée pour permettre qu’on la qualifie comme telle. Seulement


pour pouvoir en parler, il faut au moins y être entré, ce qui
n’exclut pas que dans certaines conditions ce soit difficile de s’en
sortir. C’est pourquoi il est préférable que l’analyste qui,
heureusement, n’y a pas toute la part d’action, sache ce qu’il fait.
Savoir ce qu’il fait ça veut dire savoir dans quel discours il est pris
car c’est cela qui conditionne l’ordre du faire dont il est capable.
J’ai prononcé le mot discours, c’est une notion très élaborée, je
l´ai élaborée, sans doute, à partir de cette expérience ; il faut
quand même bien admettre que vingt ans où je me suis laissé
enseigner par l’expérience et où je me suis efforcé d´en extraire
quelque chose, vingt ans, ça permet d’élaborer, ce qui ne veut
absolument pas dire que de cela je...ce tire une conception du
monde. Ce que je définis c’est ce qui peut se dire à partir de cette
expérience, de cette expérience nouvellement introduite dans le
champ des discours humains, c’est-à-dire de ce qui constitue un
mode de lien social.

LACAN- Que eu não tenha sido convidado, não quer dizer que eu
esteja ausente, na medida em que, o meu sentimento sobre isso
tem alguma importância, eu posso dizer que a minha ausência,
ali, me coloca em uma situação privilegiada. Isso em razão do
peso do meu ensino que, com atraso, com certeza, segue seu
caminho entre aqueles mesmos que me excluem, pois eles não
se privam de fazer o mais amplo uso do meu ensino.

O ensino que eu recebo de minha experiência, a saber, da


análise que é uma experiência suficientemente definida e
limitada para permitir que nós a qualifiquemos como tal. Apenas
para poder falar disso é preciso pelo menos ter entrado aí, o que

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não exclui que em certas condições seja difícil sair disso. É por
isso que é preferível que o analista, que felizmente não faz parte
de toda a ação, saiba o que ele faz. Saber o que ele faz, isso quer
dizer, saber em qual discurso ele está tomado porque é isso que
condiciona a ordem do fazer de que ele é capaz. Eu pronunciei a
palavra discurso, é uma noção muito elaborada, e eu a elaborei,
possivelmente, a partir dessa experiência. É preciso assim
mesmo admitir que, vinte anos em que eu me deixei ensinar pela
experiência, e nos quais eu me esforcei por extrair daí qualquer
coisa, vinte anos, isso me permite elaborar, o que não quer
absolutamente dizer que disso eu...extraia uma concepção de
mundo. Isso que eu defino é o que se pode dizer a partir dessa
experiência, dessa experiência novamente introduzida no campo
dos discursos humanos, quer dizer, disso que constitui um modo
de laço social.

France Culture. – Vous n’êtes pourtant pas le seul à vous être


intéressé au discours. Est-ce que ce n’est pas le fait des
psychanalystes qui se penchent plus particulièrement justement
sur le formalisme de l’analyse ?

F.C_ O senhor não é, entretanto, o único a estar interessado no


discurso. Não se trata do fato do psicanalista debruçar-se mais
particularmente, justamente, sobre o formalismo da análise?

LACAN – On peut poser la question en ces termes n’est-ce pas?


C’est vraiment un point de départ, c’est d’ailleurs de là qu’est
parti ce que je me trouve appeller(...) ce qui se trouve situé
comme mon enseignement. L’analyste reconnaît-il ou pas, ceci
que j’enseigne, que l’inconscient est structuré comme un
langage? C’est la formule clé n’est-ce pas, par laquelle j’ai cru
devoir introduire la question ; la question est celle-ci : ce que
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Freud a découvert et qu’il a épinglé comme il a pu du terme


d’inconscient ça ne peut, en aucun cas, rejoindre d’aucune façon
[enfin] ce que lui-même se trouve avoir mis en avant [n´est-ce
pas?] : les tendances de vie, par exemple, ou les pulsions de
mort ; ça ne peut, en aucun cas y être identifié ; ce que Freud a
découvert c’est ceci : c’est que l’être parlant ne sait pas les
pensées, il a employé ce terme, les pensées même qui le
guident[n´est-ce pas?] : il insiste sur ce que ce sont des pensées
et, quand on lit, on s’aperçoit [n´est-ce pas?], que ces pensées,
comme toutes les autres, se caractérisent par ceci qu’il n’y a pas
de pensées qui ne fonctionnent comme la parole, qui
n’appartiennent au champ du langage. La façon dont Freud
opère, part de la forme articulée que son Sujet donne à des
éléments comme le rêve, le lapsus, le mot d’esprit ; s´il met en
avant ces éléments-là, il faut lire ces ouvrages de départ qui sont
La Science des Rêves, la Psychopathologie de la vie quotidienne
ou justement ce qu’il a écrit sur le mot d’esprit, pour s’apercevoir
que, il n’y a pas un seul de ces éléments, qu’il ne prenne comme
articulé par le Sujet, et c’est sur cette articulation elle-même que
porte son interprétation [n´est-ce pas?].

La nouvelle forme qu’il lui substitue par l’interprétation est


je dirai de l’ordre de la traduction, et la traduction, chacun sait ce
que c’est que la traduction commence à s’y intéresser peut-être
un petit peu à cause de moi, mais qu’importe, c’est toujours une
réduction et il y a toujours une perte dans la traduction ; et bien
ce dont il s’agit, c’est en effet, qu´ une perte; on touche, n’est-ce
pas, que cette perte c’est le réel lui-même de l’inconscient, le réel
même tout court. Le réel pour l’être parlant c’est qu’il se perd
quelque part, et où ? C’est là que Freud a mis l’accent, il se perd
dans le rapport sexuel.

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Il est absolument fabuleux que personne n’ait articulé ça

avant Freud alors que c’est la vie même des êtres parlants ;
qu’on se perde dans le rapport sexuel, c’est évident, c’est massif,
c’est là depuis toujours et, après tout, jusqu’à un certain point on
pourrait dire ça ne fait que continuer. Si Freud a centré les choses
sur la sexualité, c’est dans la mesure où dans la sexualité l’être
parlant bafouille. Pendant longtemps ça n’a pas empêché qu’on
aille imaginer la connaissance sur le modèle de ce rapport en tant
qu’il est rêvé et, comme je viens de le dire, rêvé veut dire là :
bafouillé, mais bafouillé en mots(...) Un professeur a écrit en
marge de mon enseignement a cru faire une découverte en
disant que le rêve ne pense pas. C’est vrai, il ne pense pas comme
un professeur. Trompe-t-il ou se trompe-t-il le rêve ? Le
professeur ne veut pas poser la question au rêve, pour que le rêve
ne la renvoie pas au professeur. C’est ce qui éclaire maintenant
que pendant la plus grande partie de l’histoire l’être parlant s’est
cru en droit de rêver, il n’a pas su qu’il se laissait porter par le
rêve dans son droit fil. L’ennuyeux est qu’il en reste des choses
totalement fallacieuses mais qui gardent apparence et la
psychologie au premier plan.

Que chacun fasse référence à sa vie parmi ceux qui


m´écoutent... Est-ce qu’il a, ou non, le sentiment qu’il y a quelque
chose qui se répète dans sa vie, toujours la même, et que c’est ça
qui est le plus lui. Qu’est-ce que c´est que ce quelque chose qui se
répète ? Un certain mode du Jouir. Le Jouir de l’être parlant, que
vous êtes tous qui me écoutez s’articule, c’est même pour ça qu’il
va au stéréotype, mais un stéréotype qui est bien le stéréotype de
chacun. Il y a quelque chose qui témoigne d’un manque vraiment
essentiel. Même les philosophes, il est vrai que c’est sur le tard
avec Spinoza, étaient arrivés à ça, que l’essence de l’homme est le

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désir Il est vrai qu’ils ne mesuraient pas bien à quel manque le


désir répond. À quelque chose, il faut bien le dire, de fou. À quoi,
pendant longtemps on a substitué la perfection attribuée à l’Être
Suprême. Cet accent sur l’Être, c’est ce qu’il y a de fou là-dedans ;
l’Être se mesure au manque propre à la norme. Il y a des normes
sociales faute de toute norme sexuelle, voilà ce que dit Freud.

La façon de saisir l’ambiguïté, le glissement de toute


approche de la sexualité favorise que lá pour meubler on se rue
avec tout sorte de notations qui se pretend cientifique et on croit
que ça éclaire la question ; c’est très remarquable ce double jeu
de la publication analytique entre ce que peuvent chez les
animaux, détecter les biologistes et d’autre part, ceci, qui est tout
à fait tangible dans la vie de chacun, à savoir que chacun se
débrouille très mal sur sa vie sexuelle. Les deux termes n’ont
aucun rapport : d’un côté c’est l’inconscient, de l’autre c’est une
approche scientifiquement valable celui de la biologie. Mais ce
que nous donne l’analyse c’est que la question est personnelle
pour chacun des êtres parlants qu’on ferait mieux de dire des
êtres parlés montre bien que c’est dans le langage que se joue
l’affaire pour chacun. Bien sûr que comme on me le fait
remarquer il y a des affects, mais c’est du discours qui l’habite
que procède l’appréciation juste de chaque affect majeur chez
chacun, et ceci d’ailleurs, se démontre três bien du progrès
obtenu dans le champ analytique sur un affect aussi important
que l’angoisse.

Bon, disons quelque chose de plus : l’analyse n’est pas une


science, c’est un discours sans lequel le discours dit de la science
n’est pas tenable par l’être qui y a accédé depuis pas plus de trois
siècles ; d’ailleurs le discours de la science a des conséquences
irrespirables pour ce qu’on appelle l’humanité. L’analyse c’est le

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poumon artificiel grâce à quoi on essaie d’assurer ce qu’il faut


trouver de jouissance dans le parler pour que l’histoire continue.
On ne s’en est pas encore aperçu et c’est heureux parce que dans
l’état d’insuffisance et de confusion où sont les analystes le
pouvoir politique aurait déjà mis la main dessus. Pauvres
analystes, ce qui leur aurait ôté toute chance d’être ce qu’ils
doivent être : compensatoires ; en fait c’est un pari, c’est aussi un
défi que j’ai soutenu, je le laisse livré aux plus extrêmes aléas.
Mais, dans tout ce que j’ai pu dire, quelques formules heureuses,
peut-être, surnageront, tout est livré dans l’être humain, à la
fortune.


LACAN_ Podemos colocar a questão nesses termos, não é? É
verdadeiramente um ponto de partida, aliás, foi daí que saiu o
que estou chamando (...) o que está situado como meu ensino.

O analista reconhece-o ou não, o que eu ensino: que o


inconsciente é estruturado como uma linguagem. É a fórmula
chave, não é? Pela qual eu acreditei dever introduzir a questão; a
questão é esta: o que Freud descobriu e que ele destacou como
pôde do termo inconsciente”. Isso não pode, de modo algum, ir
ao encontro, de maneira nenhuma, disso que ele acreditou ter
destacado antes: as tendências de vida, por exemplo, ou as
pulsões de morte. Isso não pode, de jeito nenhum, ser aí
identificado. O que Freud descobriu é isto: é que o ser falante
não sabe os pensamentos, ele empregou esse termo, os
pensamentos mesmos que o guiam. Ele (Freud) insiste sobre o
que são os pensamentos e, quando o lemos, nos apercebemos
que esses pensamentos, como todos os outros, se caracterizam
pelo fato de que não há pensamentos que não funcionem como
a palavra que não pertençam ao campo da linguagem.

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A maneira que Freud opera parte da forma articulada que seu


Sujeito dá aos elementos, como o sonho, o lapso, o chiste. Se ele
coloca em destaque esses elementos é preciso ler essas obras do
começo que são A Interpretação dos Sonhos, a Psicopatologia da
vida quotidiana ou mesmo o que ele escreveu sobre os chistes,
para se aperceber que não há aí um só desses elementos, que
ele não tome como articulado pelo Sujeito, e é sobre essa
articulação mesma que ele dá sua interpretação.

A nova forma que ele substitui pela interpretação é, eu diria, da


ordem da tradução, e a tradução, cada um que sabe o que é a
tradução começa a se interessar por ela talvez um pouco mais
por minha causa, mas que importa? É sempre uma redução e há
sempre uma perda na tradução; trata-se de fato de uma perda.
Percebemos que essa perda é o real mesmo do inconsciente, o
real mesmo, simplesmente. O real para o ser falante é que ele se
perde em algum lugar, e onde? É aí que Freud colocou ênfase,
ele se perde na relação sexual.

É absolutamente fabuloso que ninguém tenha articulado isso


antes de Freud, na medida em que é a vida mesma dos seres
falantes que se perca na relação sexual, é evidente, é
importante, está aí desde sempre e depois de tudo, até certo
ponto poderíamos dizer que isso não faz senão continuar. Se
Freud centralizou as coisas na sexualidade, é na medida em que
na sexualidade o ser falante balbucia. Durante muito tempo isso
não impediu que tenhamos imaginado o conhecimento sobre o
modelo dessa relação na medida em que ela é sonhada e, como
acabo de dizer, sonhada quer dizer: balbuciada, mas balbuciada
em palavras.

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Um professor que escreveu à margem do meu ensino acreditou


fazer uma descoberta ao dizer que o sonho não pensa. É
verdade, ele não pensa como um professor. O sonho engana ou
ele se engana? O professor não quer colocar a questão para o
sonho, para que o sonho não a reenvie ao professor. É isso que
esclarece agora que durante a maior parte da história, o ser
falante acreditou-se no direito de sonhar. Ele não sabia que se
deixava levar diretamente pelo sonho. O problema é que restam
coisas totalmente falaciosas, mas que mantêm as aparências, a
psicologia está aí em primeiro plano. Que cada um faça
referência à sua vida, entre os que me escutam(...) Há ou não o
sentimento que alguma coisa se repete em sua vida, sempre a
mesma, e é isso que lhe é mais próprio. O que é este algo que se
repete? Certo modo de gozar. O gozar do ser falante, que são
todos que me escutam, se articula, é mesmo por isso que ele vai
ao estereótipo, mas um estereótipo que é justamente o
estereótipo de cada um. Há algo que testemunha de uma falta
verdadeiramente essencial. Mesmo os filósofos, é verdade que
tardiamente com Spinoza, tinham chegado a isso: que a essência
do homem é o desejo. É verdade que eles não mediram muito
bem a que falta o desejo responde – a alguma coisa, deve-se
dizê-lo, de louco. Pela qual, durante muito tempo, nós
substituímos a perfeição atribuída ao Ser Supremo. Essa ênfase
no Ser é o que há de louco nisso; o Ser se mede pela própria falta
na norma. Há normas sociais por falta de qualquer norma sexual,
eis o que diz Freud. A maneira de apreender a ambiguidade, o
deslizamento de toda aproximação da sexualidade favorece que
aí para adornar, lançamos em todos os tipos de notações que se
pretendem científicas e acreditamos que isso esclarece a
questão. É admirável esse jogo duplo da publicação psicanalítica
entre o que podem detectar os biólogos nos animais e, por outro
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lado, isto que é perfeitamente tangível na vida de cada um, a


saber, que cada um se vira muito mal com sua vida sexual.

Os dois termos não têm nenhuma relação: de um lado é o


inconsciente e do outro a abordagem cientificamente válida da
biologia. Mas o que nos mostra a análise é que a questão é
pessoal para cada um dos seres falantes, que melhor diríamos
seres falados, o que mostra bem que é na linguagem que se dá a
coisa para cada um. Com certeza, como me lembraram, existem
afetos, mas é do discurso que o habita que procede a apreciação
justa de cada afeto maior para cada um e aliás, se demonstra
muito bem pelo progresso obtido no campo analítico sobre um
afeto tão importante como a angústia.

Bem, digamos algo mais: a análise não é uma ciência, é um


discurso sem o qual o discurso dito da ciência não é sustentável
pelo ser que aí acede há não mais que três séculos; aliás o
discurso da ciência tem consequências irrespiráveis para o que
que nomeamos humanidade. A análise é o pulmão artificial
graças ao qual tentamos garantir o que deve ser encontrado de
gozo no falar para que a história continue. Ainda não
percebemos e é felizmente, porque no estado de insuficiência e
de confusão em que estão os analistas, o poder político já
haveria colocado aí suas mãos. Pobres analistas, o que lhes
haveria tirado toda chance de ser tudo aquilo que eles devem
ser: compensatórios; de fato é uma aposta, é também um
desafio que eu sustentei e que eu o deixo entregue aos mais
extremos riscos.
Mas, em tudo isso que eu pude dizer, algumas fórmulas felizes,
talvez, flutuarão, tudo é deixado, no ser humano, à sorte.

F.C. – Est-ce que vous recevez en ce moment justement de
congrès la visite de Congressistes ?

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F.C_ O senhor recebe neste momento a visita de Congressistas?


LACAN – Oui, j’en ai reçu, bien sûr quelques unes, comme c’est
l’usage quand je suis à Paris.
LACAN_ Sim, eu recebi, certamente de alguns, como é o costume
quando eu estou em Paris.
F.C. – La psychanalyse est devenue ces dernières années en
France ce que nous appelons un fait de culture, je sais que vous
contestez le terme.
F.C._ A psicanálise se tornou nesses últimos anos na França o
que nós chamamos um fato da cultura, eu sei que o senhor
contesta o termo.
LACAN – Oui je conteste le terme dans toute la mesure où celui
de nature auquel il s’oppose me paraît tout aussi contestable. Ce
qu’on appelle un fait de culture c’est en somme un fait
commercial, on peut dire que l’analyse ça se vend bien. Je parle
de publications, ça n’a absolument rien à faire avec l’analyse, on
peut entasser autant qu’on voudra de ces colones, de ces piles,
de ces entassements de productions diversement littéraires, c’est
d´ailleurs que se fait le travail, c´est dans la pratique analytique,
pour avancer lá, un terme que je regrette n´avoir avanser plutôt
parce qu´il est là tout à fait essensiel. Ce que j’essaie de former à
la lumière d’une expérience suivie dans le quotidien, c’est une
École, celle que j’ai intitulée de freudienne comme telle. C’est une
école pour autant qu’elle serait adéquate à ce que commande la
structure si profondément différente de ce discours, la structure
qui résulte du discours analytique.

LACAN_ Sim, eu contesto o termo na medida em que ele se opõe
ao termo natureza, que me parece também contestável. Isso que
chamamos um fato de cultura é, em suma, um fato comercial,
pode-se dizer que a análise, isso se vende bem. Eu falo de
publicações, isso não tem nada a ver com a análise, podemos
empilhar tanto quanto quisermos nessas colunas, pilhas,
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amontoados de uma produção de uma diversidade literária, é de


outro lugar que se faz o trabalho, é na prática analítica para
avançar aí um termo que eu lamento não ter avançado antes,
porque ele é de fato essencial. Isso que eu tento formar à luz de
uma experiência seguida de um quotidiano... é uma Escola,
aquela que eu intitulei de freudiana como tal. É uma escola na
medida em que ela seria adequada a isso que a estrutura
comanda tão profundamente diferente desse discurso, a
estrutura que resulta do discurso psicanalítico.

Bibliografia:

LACAN, Jacques. Declaration à la Radio France Culture (1973).


Disponível em: http://www.valas.fr/Jacques-Lacan-Declaration-
a-France-Culture-en-1973,083, visto por último em 22/06/2020.

LIVE. “Psicanálise e Urgências da época-Colette Soler e Antônio


Quinet- Análise on-line” Disponível em
https://www.youtube.com/watch?v=O3jMSX4fuPc, visto por
último em 22/06/2020.

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