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Revista Políticas Públicas & Cidades – ISSN: 2359 -1552

Boletim Semanal: Cidade e Pandemia – (junho,2020).


Ensaio teórico, conceitual e provocativo

Pandemia: (mesmos) modos de morar e trabalhar?


Suzana Maria Loureiro Silveira
Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas/São Paulo, Brasil. E-mail:
suzana.mls@puccampinas.edu.br
Renan Alarcon Rossi
Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas/São Paulo, Brasil. E-mail:
renan.ar3@puccampinas.edu.br
Gabriel Dib Daud De Vuono
Universidade de São Paulo, São Paulo/SP, Brasil. E-mail:gabriel.devuono@usp.br

Objetivo: Refletir criticamente acerca da transformação social, espacial e temporal da moradia e do trabalho
como conceitos da vida humana, que estava em curso, mas que foi acelerada e acentuada pelo contexto da
pandemia. A necessidade de isolamento social ensejou a naturalização do trabalho remoto em alguns postos
de trabalho, o que reduz os custos e riscos dos empregadores e, mais importante, rompe com a dicotomia
entre jornada de trabalho versus horário de descanso ou lazer, permitindo um aumento de produção como
resposta a mais uma crise do capital. Em tempos de pandemia e isolamento social, o desempenho da
atividade laboral foi transferido para a casa, transformando não apenas o modo de trabalhar, mas também
a experiência de vida na (e a relação com a) moradia.
Palavras-chaves: modos de morar; modos de trabalhar; pandemia; trabalho remoto, home-office.

Introdução e justificativa
O desenvolvimento histórico da cidade tem sido marcado sob uma perspectiva de alteração na maneira como
percebemos a vida no ambiente urbano, sobretudo pelo advento de recursos tecnológicos desenvolvidos
com a finalidade precípua de comprimir cada vez mais o tempo e as distâncias (e, portanto, o espaço),
ferramental indispensável para o aumento irracional da produção e do consumo.
Partindo-se dessa conformação histórica do espaço para atendimento das necessidades do sistema
econômico, o contexto de pandemia decorrente da COVID 191 implicou transformação acelerada e abrupta da
própria experiência de vida na cidade, da relação do indivíduo com a moradia e, especialmente, uma
transmutação no significado desses aspectos quando transversalizada pela relação capital-trabalho.
Para fins deste ensaio ou deste breve texto, é indispensável a reflexão crítica acerca das relações de trabalho
e suas diferentes implicações quando o local de moradia é contextualizado em uma pandemia em que o
isolamento social é imposto como regra (de sobrevivência) e não exceção. Isto porque, nos parece expresso
que alguns postos de trabalho específicos e determinadas demandas da produção são pautadas como
necessidades econômicas em detrimento das necessidades sociais.
A percepção crítica em tempos de pandemia permite inúmeras indagações possíveis no contexto de um
isolamento social imposto. Isto porque, a pandemia se impôs em um momento de transformação da
sociabilidade e, portanto, da própria experiência de vida urbana. Não há apenas a necessidade da
permanência em casa (ambiente privado), mas também a privação da convivência na cidade (espaço público),
o que denota a possibilidade de se questionar de qual cidade nos encontramos privados.
A partir dessa primeira reflexão, observa-se que na vida atual praticamente não há convívio social e público.
As moradias são muradas e os espaços de interação social pura e simples (sem o consumo como
impulsionador), escassos. Desde suas respectivas casas cada pessoa se relaciona com as demais. Por
intermédio das tecnologias e meios digitais os seres humanos se relacionam uns com os outros numa
constante em que todos encerram-se em um espaço territorialmente certo e predeterminado pelos limites
da residência de cada um. A casa é simultaneamente, o local de encontro e desencontro mediado por
aparelhos digitais (como telas de computador, tablets e celulares). Há um movimento constante para o
aprimoramento dos espaços privados, com a construção de complexos que atendam a todas as necessidades
sem que haja contato social para além do particular.

1
SARS-CoV-2
Revista Políticas Públicas & Cidades, Belo Horizonte, 2020, abril/dezembro, Volume Especial, p.1-5.
DOI: https://doi.org/10.23900/2359-1552v1n1-5-2020
Revista Políticas Públicas & Cidades – ISSN: 2359 -1552
Boletim Semanal: Cidade e Pandemia – (junho,2020).
A casa, a moradia, o lar, seguem o mesmo caminho transformado, tornando-se local que limita a percepção
do real, e que condiciona a compreensão do tempo e do espaço. Os critérios de escolha se alternaram: a
localização (próxima – e diluída no- ao local de trabalho, sempre) e o aparato de segurança (e assim, a
separação física do que está dentro e do que está fora) se impuseram como determinantes. O lar recebeu a
função quase instrumental de abrigar os moradores temporariamente entre uma e outra jornada de trabalho.
Dentro dessa perspectiva, a transformação abrupta da vida obrigou o exercício do trabalho em casa, e,
portanto, a extinção (temporária?) da separação entre os modos de morar e de trabalhar, de forma que a
simbologia do isolamento social e do home office na própria moradia é pano de fundo do estudo.
A partir dessas reflexões iniciais e questionamentos críticos possíveis, pela limitação deste ensaio, define-
se como ponto principal de indagação: há alguma razão para pensarmos que diante da configuração do
trabalho remoto (home office) as pessoas que possuem uma moradia “mais adequada” (entendendo-se aqui,
não apenas um teto, energia elétrica ou saneamento básico, mas condições econômicas de criar, em casa,
uma extensão do ambiente empresarial, com internet de alta velocidade, computador/notebook, etc.) se
alocam ou ocupam postos de trabalho com um grau de proteção social maior o do que o restante da
população?

Homogeneidades entre o viver e o trabalhar.


A pandemia da COVID-19 se alastrou rapidamente pelo mundo, em um modelo societal em crise.2 A redução
das taxas de crescimento econômico, crescimento demográfico e retorno do capital era preocupação na
maior parte do globo. Porém, em questão de dias, países que compõem o centro do capitalismo mundial se
viram obrigados a congelar suas pautas político-econômicas e se voltar, um a um, para o enfrentamento da
crise sanitária, com a finalidade última de garantir a manutenção do capitalismo global. Por mais que os
avanços tecnológicos permitam cada vez maiores níveis de produtividade com menores contingentes de
trabalhadores, a exploração da força de trabalho assalariada é elemento fundante do sistema capitalista
(MARICATO, 2015, p.71; CASTELLS, 1995, p.19). Desse modo, as medidas adotadas pelos Estados na contenção
da pandemia visam garantir a sobrevivência da classe trabalhadora e a manutenção do modelo societal
baseado na relação capital-trabalho.
Não demorou muito tempo até as primeiras contaminações serem detectadas no Brasil. Aqui o ambiente se
apresentou ainda mais caótico do que em muitos países que estavam experimentando intensamente os
efeitos da pandemia: a crise não era apenas sanitária, mas política, estrutural, econômica e social. O
aprofundamento de uma política neoliberal como resposta a sucessivos anos de baixo – ou negativo -
desempenho econômico já começava a alterar de forma drástica a vida e as relações sociais dos brasileiros,
especialmente dos mais pobres.
Em um país em crise(s) e dividido, a pandemia acelerou um processo social que se encontrava em curso,
com alterações legislativas que permitiram maior flexibilização das relações e das jornadas de trabalho, o
que expande a crítica quando analisada sob seus efeitos indiretos: é a expressão da crise social que não
para, mas se acentua, na medida em que o modelo econômico sobre o qual vivemos opera justamente tendo
a crise como regra, não como exceção (MASCARO, 2013, p. 18-20). Vivemos uma pandemia não em um
momento de crise do modelo neoliberal, mas de uma crise estrutural do próprio modelo capitalista.
No sentido da indagação relacionando moradia e trabalho, em isolamento social é comum e plausível que
para a realização de trabalho via acesso remoto seja necessário que o trabalhador possua infraestrutura
mínima de habitabilidade, impedindo o acesso à vida econômica daquele que não detêm condição de construir
em sua casa um local compatível ao desempenho da atividade do empregador. À medida em que o trabalho
se desloca do espaço "público" (posto de trabalho) para o "privado" (residência de cada um), a moradia se
2
Aqui nos desdobramos sobre a noção de crise política, jurídica e social e, sob essa perspectiva, ao falarmos da crise em que o Estado
brasileiro está inserido devemos considerar para além de uma conjuntura política e econômica a nível local, de modo que é preciso que
se pontue a existência de um contexto global/mundial que reflete uma (mas não única) crise da sociabilidade presente. O fato é que o
pano de fundo da crise atual parte objetivamente de uma crise social, econômica e financeira oriunda da crise de 2008 cujas
consequências (redução de proteções sociais nos mais diversos aspectos da vida das pessoas) desconsideraram alternativas políticas
coordenadas ou pautadas na representação de efetiva transformação e ruptura. Trata-se, portanto, de uma crise que se expressa em
2008 como uma das crises estruturais do capitalismo, cf. Mascaro (2018, p. 25). Sob essa perspectiva de depuração institucional e
formatação de um modelo de produção que opera na crise, ao tratar de crise e mutação, Novaes (2017, p. 21) aponta como a tecnociência
e a era informacional por volta de 1980 passa a conduzir o que denominou de mutação nos segmentos da vida humana (política, artes,
costume, ética) no sentido de contrapor à ideia de crise. Contudo, para Novaes (2017, p. 21) a transformação carrega o sentido de
transmutação comparada ao que em momentos anteriores se denominava por crise. Ao passo que as transformações continuamente
intervêm nas pessoas, mas também na forma como se relacionam com as coisas, interpessoalmente ou com as instituições de uma
maneira geral. Diante dessa noção de mutação, a indagação sobre o tempo presente e a velocidade de transformação de coisas e da
consciência humana recebem contornos nem sempre em tempos cronológicos coincidentes.
Revista Políticas Públicas & Cidades, Belo Horizonte, 2020, abril/dezembro, Volume Especial, p.1-5.
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transforma em fator de exclusão das pessoas do mercado de trabalho. Ou seja, adequação da moradia3, no
contexto da pandemia, se relaciona com a permanência ou possibilidade de estar inserido no mercado. Se
por um lado, alguns grupos de pessoas já estavam excluídos de postos de trabalho formais, por outro lado,
quando se impõe a obrigatoriedade de trabalho via acesso remoto, opera-se um aprofundamento de uma
exclusão em que a moradia é elemento sem o qual o acesso ao trabalho se torna dificultado ou inviável.
A naturalização do home office e intensificação do trabalho "remoto" se apresenta como uma das muitas
respostas à crise do capital que já antecedia a pandemia. As empregadoras não despendem e reduzem os
custos de produção de mercadorias (por exemplo, com auxílio governamental em resposta às demandas do
capital, diminuindo a proteção social a seu patamar mínimo e transferindo os riscos e custos de manutenção
de equipamentos ao trabalhador)4, de modo que apenas o trabalhador que possuir uma certa estrutura em
casa para tanto (computador, internet e móveis adequados ao exercício laboral) estará apto a integrar uma
relação de trabalho em um mundo em isolamento social e, mesmo após, em um contexto pós-pandemia, em
que muitos dos postos de trabalho (novos ou atuais) seguirão em funcionamento remoto. Tais fatores
implicarão diretamente em uma massiva precarização laboral, que conduzirá a intensificação do trabalho
uberizado (entrega, transporte, personal trainer), do trabalho informal (como aqueles que exigem força física
direta na sua realização, tais como o desempenhado pelos flanelinhas, empregadas domésticas/, e demais
trabalhos informais de outras naturezas), e igualmente as relações de trabalho formal em geral (ANTUNES,
2014, p. 41).
Uma estrutura física compatível com o desempenho das atividades empresariais compreendida como pré-
requisito para ocupação de um posto de trabalho pode, ainda, permitir ao empregador que “financie” o
upgrade na moradia do empregado, descontando o capital despendido dos salários futuros a serem
percebidos, com o empregado que, literalmente, paga para trabalhar.
Nesse sentido parece se intensificar a segregação pelo pertencimento a um determinado estrato social: se
por um lado no trabalho físico -no posto da empresa- a aparência (designada pelo gênero, cor da pele, modo
de vestir) é um fator que determina algumas ocupações, por outro, em contexto que não é possível uma
reunião física para o desempenho do trabalho (ou se opta pela atividade remota), a estrutura que o
empregado dispõe e o local geográfico (e a infraestrutura disponível na localidade) de residência podem ser
significantes para o acesso ou a manutenção no emprego.
A partir dessa perspectiva, em tempos de pandemia e isolamento social o modo de morar se transforma em
modo de trabalhar e vice-e-versa, podendo ser impossível os dissociar. Trata-se de uma significativa
alteração na vida do trabalhador, mas, ainda mais profunda, na dinâmica da produção e reprodução do
capital, pela extinção da dicotomia entre a jornada de trabalho versus horário de lazer ou descanso.
Transforma-se a própria compreensão do tempo, que não mais pode ser dividido e classificado em
momentos distintos (de descanso, de lazer, de trabalho). A homogeneização dos modos de morar e trabalhar
leva a uma (falsa) percepção de ganho de tempo pela ausência de deslocamento físico ou pela reapropriação
do próprio tempo pelo trabalhador. Porém, contraditoriamente, trabalha-se cada vez mais: o trabalhador que
está em seu local de trabalho a todo o tempo, pode produzir o tempo todo (ou ser substituído caso não o
faça).
Com o isolamento e aceleração dessa transformação social, os "modos de morar" e "os modos de trabalhar"
não apenas se confundem (como já pretendia a reorganização econômica) mas, de forma sobremaneira
intensificada, vão se homogeneizando como medida durante e para além da pandemia, permitindo o
rompimento de relações que impediam o aumento da produção (mesmo que sejam direitos, ainda que
fundamentais), desde que criem condições favoráveis para a superação da crise, aumento da capacidade de
acumulação e da extração de um mais valor.
A experiência de cidade que se tem sido produzida, a forma de reprodução das relações sociais são questões
relacionadas desde a questão de grupos de pessoas vivendo em situação de rua, assassinato de pessoas
situadas em identidades específicas (negros, indígenas, comunidade LGBTQI+), saturação de cidades como
ocorre com os grandes eventos ou superação delas quando passam a ser despovoadas ou são incorporadas
umas às outras, assim como as formas pelas quais os modos laborais ocorrem e recebem novas morfologias
(TELLES, 2006, p. 175). Tais problematizações impactam no urbano e nos modos de habitá-lo. Acerca do
fenômeno urbano, importa destacar sobre a relação de implicação entre a industrialização e o crescimento

3
Em âmbito internacional, a Organização das Nações Unidas define seu conceito de moradia adequada no General Comment n º 4: The
Right to Adequate Housing. No documento, o órgão internacional define parâmetros mínimos que qualificam a moradia: segurança
jurídica da posse, disponibilidade de serviços e infraestrutura, acessibilidade econômica, acessibilidade social, localização e adequação
cultural.
4
Considerar que a desproteção social já existe, mas se intensifica.
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DOI: https://doi.org/10.23900/2359-1552v1n1-5-2020
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e alterações do urbano e sua relação com o campo, anunciando formas e modos de viver e estabelecer
relações de troca diferente do feudalismo (LEFEBVRE, 1972, 11-14).
Os modos de habitar a cidade ou experimentar e produzir o urbano tem resultado sensações de esgotamento
decorrente da própria crise social/econômica inerente ao modo de produção capitalista. Esse ponto nodal
de que há uma situação crítica, patológica, perpassa a forma pela qual as pessoas circulam e nesse ponto,
diretamente, a ressignificação do ambiente laboral. De tal maneira que, manifestamente a forma social e
espacial da produção em que se revela como o denominado por Castells (1995, p. 19) como ciudad
informacional, a qual expressaria não apenas o potencial produtivo, mas também capacidade de destruição
tal como a condição de tempo e lugar em que estamos inseridos.
Sob o cenário em que o tempo acaba por ser contabilizado abstratamente implica diretamente nas pessoas
valoração ou avaliação das pessoas na medida de seu desempenho (MATOS, 2008), razão pela qual há, por
força da dominação social especificamente determinada no capitalismo (e não em qualquer modo de
produção), de que estruturas sociais configuradas abstratamente por pessoas é que serão determinantes
no domínio, não se tratando, portanto, da dominação social de pessoas por pessoas (POSTONE, 2014, p. 19),
mas na dominação das pessoas por estruturas sociais abstratas constituídas pelas próprias pessoas.

Considerações finais
Durante a pandemia, a casa torna-se o espaço vital para o trabalhador, o espaço em que se realizam a quase
totalidade das atividades humanas essenciais. Para além do propósito habitacional, a residência converte-
se no local em que o trabalhador desempenha suas atividades laborais e realiza as atividades mais
elementares da vida humana (lazer, pausa, intervalo e descanso, atividades físicas e alimentação).

As consequências de uma homogeneização entre os modos de morar e trabalhar com a naturalização do


trabalho remoto podem ser de diversas ordens. A mais evidente delas, apresenta-se na transferência dos
requisitos mais valorizados no mercado de trabalho: o empregado terá que demonstrar não mais apenas
uma aptidão técnica, mas uma estrutura que faça as vezes da empresa "longa manus" em sua casa.
Nesta nova realidade laboral agudizada pelos efeitos da pandemia, a qual trará implicações para as relações
de trabalho no capitalismo pós-pandêmico, a moradia converte-se em condicionante da possibilidade de
venda de força do trabalho. Contraditoriamente, se o trabalho (venda de mão de obra) é a garantia de
subsistência (moradia, alimentação, saúde, educação e lazer) do trabalhador, como a moradia (e uma
moradia minimamente adequada/estruturada à necessidade da produção) pode preceder o trabalho?
Em última instância, as experiências do “morar” e “trabalhar” se transformam. Os ambientes se confundem,
sobrepondo-se um espaço sobre o outro, os dias se alongam, a produção continua (se enraíza) e a
exploração da classe trabalhadora se perpetua. A “sensação” do fim da jornada se extingue tanto para o
empregado –que apenas troca de cômodos em sua casa- quanto para o empregador –que pode exigir a
produção a qualquer tempo, de forma rápida, fácil e ágil. Nessa perspectiva, tais modos de existir (de morar
e de trabalhar) não apenas se confundem, mas se tornam a mesma coisa: um novo modo de viver a partir da
sociabilidade capitalista, que se reinventa e se transforma sob dissimulações e percepções de liberdade e
autonomia.

Referências bibliográficas
ANTUNES, Ricardo. Desenhando a nova morfologia do trabalho no Brasil. Estudos avançados, São Paulo, v.
28, n. 81, p. 39-53, ago. 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-40142014000200004 Acesso em 10
junho 2020.
CASTELLS, Manuel. La ciudad informacional. Tecnologías de la información, estructuración económica y el
proceso urbano-regional. Madrid: Alianza Editorial, 1995.
LEFEBVRE, Henri. Le droit à la ville (1968). Paris: Anthropos, 1972.
MATOS, Olgária. (2014). O mal-estar na contemporaneidade: performance e tempo. Revista Do Serviço
Público, 59 (4), p. 455-468. https://doi.org/10.21874/rsp.v59i4.159
MARICATO, Ermínia. Para entender a crise urbana. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2015.
MASCARO, Alysson Leandro. Crise e Golpe. São Paulo: Editora Boitempo, 2017.
MASCARO, Alysson Leandro. Estado e Forma Social. São Paulo: Editora Boitempo, 2013.
NOVAES, Adauto (org.). Mutações: entre dois mundos. São Paulo: Edições Sesc São Paulo. 2017.

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DOI: https://doi.org/10.23900/2359-1552v1n1-5-2020
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POSTONE, Moishe. Tempo, Trabalho e Dominação Social: uma reinterpretação da teoria crítica de Marx. São
Paulo: Editora Boitempo, 2014.
TELLES, Vera da Silva. Mutações do trabalho e experiência urbana. Tempo Social, Revista de Sociologia da
USP, v. 18, n. 1, 2006, p.173-194. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/ts/article/view/12498/14275>.
Acesso em 02/12/2019.

Pandemia: (mismos) modos de morar y trabajar?


Objetivo: Reflexionar críticamente sobre la transformación social, espacial y temporal de la vivienda y el
trabajo como conceptos de la vida humana, que estaba en marcha, pero que se aceleró y acentuó por el
contexto de la pandemia. La necesidad de aislamiento social dio lugar a la naturalización del trabajo remoto
en algunos puestos de trabajo, lo que reduce los costos y riesgos de los empleadores y, lo que es más
importante, rompe la dicotomía entre jornada de trabajo versus horario de descanso u ocio, lo que permite
un aumento de la producción en respuesta a otra crisis de capital. En tiempos de pandemia y aislamiento
social, el desempeño de la actividad laboral se transfirió al hogar, transformando no solo la forma de trabajar
sino también la experiencia de vivir en (y la relación con) la vivienda.
Palabras clave: modos de morar; maneras de trabajar; pandemia; trabajo remoto, teletrabajo.

Pandemic: (same) ways of living and working?


Objective: This essay has as main objective to critically reflect on the social, spatial and temporal
transformation of living and working as concepts of human life, which was underway, but which was
accelerated and accentuated by the context of the pandemic. The need for social isolation led to the
naturalization of remote work in some jobs, which reduces employers' costs and risks and, more importantly,
breaks the dichotomy between working hours versus hours of rest or leisure, allowing an increase in
production in response to yet another capital crisis. In times of pandemic and social isolation, the
performance of work activity was transferred to the home, transforming not only the way of working but also
the experience of living in (and the relationship with) housing.
Keywords: ways of living; ways of working; pandemic; remote work, home-office

Pandémie: (mêmes) modes de vie et de travail?


Objectif: Réfléchir critiquement sur la transformation sociale, spatiale et temporelle du logement et du travail
comme concepts de la vie humaine, qui était en cours, mais qui a été accélérée et accentuée par le contexte
de la pandémie. La nécessité d'isolement social a donné lieu à la naturalisation du travail en remote dans
certains emplois, ce qui réduit les coûts et les risques des employeurs et, plus important encore, rompt la
dichotomie entre les heures de travail et les heures de repos ou de loisirs, permettant une augmentation des
productión en réponse à une nouvelle crise des capitaux. En période de pandémie et d'isolement social, la
performance de l'activité professionnelle a été transférée au domicile, transformant non seulement la façon
de travailler, mais aussi l'expérience de la vie dans (et la relation avec) le logement.
Mots-clés: modes de vie; façons de travailler; pandémie; travail en remote, télétravail.

Revista Políticas Públicas & Cidades, Belo Horizonte, 2020, abril/dezembro, Volume Especial, p.1-5.
DOI: https://doi.org/10.23900/2359-1552v1n1-5-2020