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Rev. Cient. Avic. Suin., v. 2, n. 2, p.

043-054, 2016

Desconstrução do mito sobre a utilização de hormônios exógenos na produção avícola

Deconstruction of the myth about the use of exogenous hormones in poultry production

RUFINO, João Paulo Ferreira1,*; CRUZ, Frank George Guimarães2;

SILVA, André Ferreira1; COSTA, Valcely da Rocha1;

CRUZ COSTA, Ana Paula Guimarães3; BEZERRA, Natalia dos Santos3

1
UFAM, Faculdade de Ciências Agrárias, Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal, Manaus, Amazonas,
Brasil.
2
UFAM, Faculdade de Ciências Agrárias, Depart. de Produção Animal e Vegetal, Manaus, Amazonas, Brasil.
3
UFAM, Faculdade de Ciências Agrárias, Curso de Zootecnia, Manaus, Amazonas, Brasil.
*E-mail para correspondência: joaopaulorufino@live.com

RESUMO ABSTRACT

O objetivo deste artigo foi contribuir para o The objective of this paper was to contribute for the
esclarecimento acerca da não utilização de hormônios elucidation of the not using of exogenous hormones in
exógenos na produção de frangos, a fim de auxiliar os poultry production in order to help the consumers with
consumidores com informações adequadas sobre os appropriate information about the food produced. The
alimentos estão sendo produzidos. A revisão da literatura literature review was performed from the papers and
foi realizada a partir da investigação de artigos e material technical-scientific materials related to the topic. The
técnico-cientifico relacionados ao tema. Os estudos evaluated studies show the inexistence of positive effect
avaliados evidenciam a inexistência de efeito positivo da of hormones use on the growth poultry, didn’t indicate
utilização exógena de hormônios no crescimento das aves, technical advantages and exceptional growth performance
ou seja, não constatou-se vantagem técnica ou to justify its application in the poultry industry. In this
desempenho zootécnico excepcional que justifique sua context, the used of these substances it would be
aplicação na indústria avícola. Neste contexto, a utilização economically unfeasible due the high cost and difficulty
destas substâncias seria inviável produtivo e of individual handling of the birds, besides the fact that
economicamente em função de custos elevados e the Brazil have strict laws prohibiting the use of hormones
dificuldade de manejo individual das aves, além do fato for promoting the poultry growth. It’s concluded,
que no Brasil há uma rígida legislação que proíbe a therefore, that was possible clear questions about the use
utilização de hormônios para fins de promoção do of exogenous hormones in poultry, observing that these
crescimento das aves, independente da aptidão. Conclui- don’t promote productivity advantages, and, there is a
se, portanto, que foi possível esclarecer questões acerca da practical and economical unfeasibility for its application
utilização de hormônios exógenos em aves, constatando- in poultry industry. But, was observed that the fasted
se que estes não possibilitam a obtenção de vantagens development of the birds from modern lineages was due,
zootécnicas, e que há uma inviabilidade prática e mainly, the technification of the production systems and
econômica para sua aplicação na indústria. Todavia, genetic improvement programs of these.
verifica-se que o acelerado desenvolvimento das aves
oriundas das linhagens modernas deve-se, principalmente,
a tecnificação dos sistemas de produção e dos programas
de melhoramento genético destas.
Palavras-chave: Custo de produção, hormônios Keywords: Production costs, exogenous hormones,
exógenos, indústria avícola, produção animal. poultry industry, animal production.

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INTRODUÇÃO melhora no índice de conversão alimentar, ou


seja, a ave utiliza quantidade sempre menor
Dentro da produção comercial avícola de ração por unidade de peso de carcaça
brasileira existem questões que sempre produzida (VENTURINI et al., 2007). Este
requerem aos profissionais explicações e desempenho expressivo é fator determinante
respostas técnicas, geralmente relacionadas para a disseminação e perpetuação do grande
aos famosos “mitos da produção animal”. mito que ronda a avicultura brasileira, com
Dentre estes, um dos clássicos é a associação, suposições de que a carne de frango é
em geral pela parte leiga da sociedade, da prejudicial à saúde humana, associando este
relação entre o rápido crescimento e a fato à utilização de substâncias ilícitas,
precocidade observados em frangos como principalmente hormônios, para acelerar o
resultantes do uso de hormônios exógenos. desenvolvimento fisiológico dos frangos.
É comum a veiculação por parte dos Assim, cria-se uma gama de
mais variados meios de comunicação, mesmo questionamentos tanto na população leiga,
através de profissionais ligados à saúde como em diversos integrantes do próprio setor
humana, de que algo prejudicial está sendo avícola, tais como: Existe alguma verdade
utilizado de forma ilegal e clandestina na nestas suposições? Há hormônios envolvidos
produção avícola. Todavia, percebe-se que na produção avícola? Existe alguma
existem dúvidas pertinentes no próprio setor justificativa técnica para a utilização de
avícola, onde muitos profissionais apresentam hormônios exógenos? O que faz com que os
formação não relacionada á áreas do frangos apresentem desenvolvimento tão
agronegócio (MENDES, 2014). acelerado? (SCHEUERMANN et al., 2015),
A produção da carne de frango é dentre outras.
dependente da utilização de tecnologia, sendo Diante do exposto, o objetivo deste
que diversas instituições nacionais e artigo foi, por meio de revisão bibliográfica,
internacionais contribuíram para os avanços contribuir para o esclarecimento acerca da não
tecnológicos que se observaram nas áreas de utilização de hormônios exógenos na
genética, nutrição, sanidade, instalações e produção de frangos, a fim de auxiliar os
manejo que possibilitaram o êxito da consumidores com informações adequadas
avicultura de uma forma geral sobre os alimentos estão sendo produzidos.
(SCHEUERMANN et al., 2015).
Neste contexto, a cada ano foi-se PAPEL DO BRASIL NA AVICULTURA
reduzindo a idade de abate das aves e, ao MUNDIAL
mesmo tempo, elevando o peso vivo na idade
de abate. Associado a isso, é contínua a Nas ultimas décadas a evolução da
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avicultura brasileira posicionou este segmento financiamentos, a assistência técnica


como um dos mais fortes da agroindústria especializada, e cadeias produtivas e
nacional. Assimilando tecnologia avançada, a mercadológicas estáveis (IPARDES; 2002;
produção de frango no Brasil cresceu em OCEPAR, 2007; DOLIVEIRA; 2012; ABPA,
qualidade e produtividade, oferecendo 2015).
anualmente em torno de seis milhões de Neste contexto, considerando-se as
toneladas de carne ao mercado interno e três principais atividades de produção de
gerando um excedente de quatro milhões de proteína animal desenvolvidas no Brasil, a
toneladas para exportação a 155 países partir de 1991, a avicultura de corte foi a que
(MENDES, 2014; ABPA, 2015). apresentou maior dinamismo. A produção de
O reconhecimento da qualidade do carne de frango passou de 2.628 mil toneladas
produto brasileiro por parte dos mais de equivalente carcaça, para 5.700 mil
exigentes mercados mundiais como a União toneladas, (OCEPAR, 2007; UBABEF,
Europeia e o Japão é fruto principalmente da 2011), o que representa uma variação de 116,
sensibilidade das empresas privadas a 89% ou uma taxa de crescimento anual de
evolução tecnológica (SCHEUERMANN et 8,98%.
al., 2015). Este dinamismo fez com que a
Segundo Garcia (2004), o excelente importância socioeconômica da avicultura de
desempenho da cadeia produtiva do frango de corte brasileira aumentasse
corte no Brasil é reflexo do processo de significativamente, visto que o incremento
reestruturação industrial (adoção de novas apresentado na produção teve uma parcela
formas de organização industrial em larga absorvida pelo mercado interno, onde o
escala), de mudanças tecnológicas e de consumo per capita passou de 15,8
melhorias nas técnicas de manejo, nutrição e kg/habitante, em 1991 para aproximadamente
sanidade das aves, ocorridos no Brasil a partir 29 kg/habitante em 2000.
dos anos de 1970 e intensificados nos anos de Desde 2004, o Brasil é o maior
1990. exportador mundial de carne de frango, e esta
Além disso, outros fatores atividade continua ganhando grande força no
determinantes para esta eficiência produtiva mercado, pois a carne de frango está entre as
do setor avícola brasileiro são a sua mais consumidas no mundo, sendo que o
excepcional produção de grãos, com destaque consumo per capita médio no Brasil encontra-
para milho e soja (principais componentes de se em aproximadamente 45,0 kg/ano
ração para frangos de corte), e a organização atualmente (UBABEF, 2014; ABPA, 2015).
do setor produtivo em sistemas que Com algumas variações de demanda
possibilitam ao produtor condições desde mercadológica, atualmente os frangos de corte
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são tecnicamente produzidos para alcançarem regulação, biossíntese e metabolismo das


um peso médio de 2,5 kg em 42 dias, sendo proteínas musculares. Assim, os fatores
que no passado para atingirem o mesmo peso endócrinos são veículos que canalizam a
o abate era mais tardio (ALBINO & velocidade do processo de crescimento
TAVERNARI, 2014; MENDES, 2014; conforme os limites do potencial genético e a
ABPA, 2015). sustentação propiciada por fatores ambientais
como nutrição e manejo (LAWRENCE et al.,
RELAÇÃO ENTRE O CRESCIMENTO 2012; SCHEUERMANN et al., 2015).
FISIOLÓGICO DOS FRANGOS E OS Na produção animal, os hormônios
HORMÔNIOS EXÓGENOS mais estudados visando uso para promoção do
crescimento foram os esteroides, os
O acelerado crescimento dos frangos hormônios da tireoide, os peptídeos
de corte, bem como a contínua redução na somatotrópicos e os hormônios de
idade de abate com o passar dos anos, tem crescimento. As substâncias esteroides
induzido a população a questionar os apresentam estrutura química baseada no
produtores e técnicos quanto à utilização de núcleo esterol, similar ao colesterol e em
práticas ilícita no processo produtivo, general derivado do mesmo. Neste grupo de
geralmente associando este desempenho com substâncias estão os hormônios gonadais
à pratica de aplicação ou utilização de como testosterona, estrogênio e progesterona.
hormônios exógenos. Já os hormônios da tireoide são derivados da
Mesmo não havendo justificativa tirosina (tiroxina-T4 e triodotiroxina-T3),
técnica para o uso exógeno de hormônios em enquanto o grupo dos peptídeos
frangos, surgem reiteradas suposições de que, somatotrópicos é composto pelo hormônio de
devido ao rápido crescimento destas aves e crescimento (GH) e seus fatores relacionados
por sua alimentação ser rica em oleaginosas como os fatores de crescimento semelhantes à
que contém fitoestrógenos, a carne de frango insulina IGF-I e IGF-II (do inglês: Insulin-
conteria níveis elevados especialmente de like Growth Factors) e o fator de liberação do
hormônios esteroides, representando um risco hormônio de crescimento - GHRF (do inglês:
à saúde humana (HARTMANN et al., 1998). Growth Hormone Releasing Factor)
Convém salientar que os hormônios (COGBURN et al., 1989; DEAN et al., 1993;
são substâncias químicas naturalmente ANDERSON & GERNAT, 2004).
secretadas nos fluidos orgânicos, com a A grande maioria dos estudos
função de controlar os processos fisiológicos avaliando a utilização de hormônios exógenos
de células ou órgãos. São, portanto, visando melhora no desempenho em
substâncias endógenas essenciais para a galináceos focou nas substâncias do eixo
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somatotrópico. A presença do hormônio do como crista e barbela (DUBE &


crescimento (GH) é necessária para que TREMBLEY, 1974; FENNEL & SCANES,
ocorra o crescimento normal no período pós- 1992).
eclosão, uma vez que a ausência do mesmo
via hipofisectomia implica em queda drástica HORMÔNIOS DA TIREOIDE
do crescimento de galináceos, enquanto que
sua reposição nestas aves restaura o Com relação aos hormônios da
crescimento em grande parte (KING et al., tireoide, sua atuação no desenvolvimento
1986). muscular já foi verificada há algumas décadas
por meio da indução do hipotireoidismo
HORMÔNIOS ESTEROIDES produzido pela injeção de propilthioracil
(KING & KING, 1973), ou pela remoção
Estudos avaliando o uso de hormônios física da tireoide em frangos (MOORE et al.,
sexuais em aves são escassos se comparados 1984). Neste sentido, o crescimento muscular
com os mamíferos, além de apresentarem foi influenciado por hipotireoidismo severo,
efeito bem menos representativo. Todavia, sendo recuperado a um nível normal por meio
Fennell e Scanes (1992), estudando a do uso exógeno de hormônios da tireoide
utilização de três tipos de substâncias (KING & KING, 1973). Entretanto, as
andrógenas (testosterona, 5α- vantagens no crescimento não ocorreram
dihydrotestosterona e 19-nortestosterona) via quando as avaliações foram realizadas em
implante subcutâneo em aves leghorn aves intactas. Autores como Decuypere et al.
(machos, fêmeas, e machos castrados) (1987), verificaram ainda que a utilização
verificou redução do ganho de peso corporal, destes resultou em efeito negativo, ou seja,
não observando, naturalmente, estímulo ao reduzindo o crescimento de frangos de corte.
crescimento por qualquer das substâncias
avaliadas. HORMÔNIOS SOMATOTRÓPICOS
Desde 1948 já havia sido constatado
que o androgênio, seja na forma natural ou Os denominados hormônios
sintética, inibe o crescimento de frangos somatotrópicos são peptídeos específicos,
(TURNER, 1948), o que foi confirmado em portanto não podem ser fornecidos por via
por outros autores, tais como Visco (1973) e, oral, pois seriam degradados na digestão
Harvey e Scanes (1978). Outrora, o que gastrintestinal. Além disso, necessitam de
verificou-se a partir do uso de substâncias atenção especial ao procedimento de injeção
andrógenas, foi acentuado desenvolvimento ou infusão, uma vez que, de acordo com as
de características masculinas secundárias, tais recomendações técnicas, deveria ocorrer com
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frequência pulsátil, visando imitar o processo exógeno foram realizados tanto com
natural (VASILATOS-YOUNKEN et al., peptídeos naturais, quanto com substâncias
1988). Este fato, naturalmente, já causaria recombinantes. Inicialmente, o GH utilizado
dificuldades de aplicação prática destas foi proveniente de fonte natural, no caso,
substâncias, considerando que no Brasil são oriundo de bovinos, e conforme descrito por
criados anualmente mais de seis bilhões de Scanes (2009), o efeito do GH bovino no
frangos. Entretanto, a principal limitação em crescimento de frangos, perus ou patos foi
relação ao uso exógeno destes hormônios profundamente avaliado e, embora efetivo em
reside na falta de evidências quanto as suas aves com hipofisectomia, não estimulou o
vantagens no desempenho das aves. crescimento pós-eclosão destas quando
Para aplicações regulares de intactas (sem remoção da hipófise).
hormônios no período pós-eclosão, existem E considerando a possibilidade de
algumas limitações de ordem prática que intervir no período pré-eclosão, e contando
devem ser mencionadas. E no caso dos com à prática já usual de inoculação de
hormônios somatotrópicos, por serem substâncias in ovo, foi avaliada (DEAN et al.,
peptídeos, não poderiam ser fornecidos por 1993), esta via utilizando o GH recombinante
via oral para evitar sua degradação pela de origem bovina em ovos aos 11 dias de
digestão gastrintestinal. Estas substâncias incubação. Os resultados levaram a conclusão
requerem ainda cuidado adicional quanto ao dos autores de que o GH não estaria
procedimento de injeção ou infusão que diretamente envolvido no crescimento
deveria ocorrer com frequência pulsátil, somático de frangos de crescimento rápido.
visando imitar o processo natural Foi realizada também a injeção in ovo de
(VASILATOS-YOUNKEN et al., 1988). IGF-I recombinante de origem humana,
observando-se algum resultado promissor, o
HORMÔNIOS DE CRESCIMENTO que, entretanto, não foi explorado a posteriori
(KOCAMIS et al., 1998).
Os hormônios do crescimento (GH), Ainda neste contexto, o uso de GH
fisiologicamente, são necessários para que oriundo de galinhas, tanto de origem natural
ocorra o crescimento normal no período pós- quanto recombinante, em frangos intactos foi
eclosão, uma vez que a ausência do mesmo estudado por Cogburn et al. (1989), onde
via hipofisectomia implica em queda estes confirmaram a atividade dos compostos
acentuada do crescimento das aves, enquanto previamente em animais hipofisectomizados.
que sua reposição restaura o crescimento As substâncias foram injetadas diariamente
natural (KING & SCANES, 1986). Estudos pela via subcutânea por 14 dias, iniciando aos
publicados com suplementação de GH 21 dias de idade e usando doses de 100 ou
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200 µg/kg peso vivo. Todavia, o estudo estimula a liberação do GH, elevando o nível
demonstrou não haver efeito nos indicadores deste hormônio no plasma. Estudos similares
metabólicos (nível plasmático de IGF-I, foram conduzidos com IGF-I, cuja síntese e
hormônios da tireoide, insulina, glucagon e secreção é estreitamente relacionada ao
glucose), nem no peso corporal, mas com padrão pulsátil do GH circulante. Os
algum aumento na gordura corporal. Após resultados, outrora, demonstraram não haver
análise dos dados, os autores concluíram que efeito deste fator de crescimento na promoção
o estudo in vivo claramente mostrou que do crescimento pós-eclosão em frangos de
injeções diárias de GH em frangos não têm corte de pituitária intacta (BUYSE &
efeito benéfico no peso corporal ou sobre o DECUYPERE, 1999). Neste contexto,
rendimento de carcaça (COGBURN et al., McMurtry et al. (1997), Vasilatos-Younken
1989). (1999) e Scanes (2009), também abordando
E a fim de elucidar ainda mais em seus trabalhos fatores de crescimento,
tecnicamente esta questão, Vasilatos- chegaram a conclusões similares, ou seja,
Younken et al. (1988) estudando frangas de ausência de efeito destes como promotor de
postura de 8 semanas, submetidas a GH de crescimento no período pós-eclosão em aves
galinhas a cada intervalo de 90 minutos por intactas.
21 dias consecutivos, observaram resultados
significativas com efeito positivo na FATOR ECONÔMICO
eficiência alimentar, no crescimento
longitudinal e peso dos ossos e na redução de Na maioria dos países produtores de
gordura. Entretanto, com base nestes frangos, ou aves em geral, há legislações
resultados e revisão da literatura, estes específicas que regulamentam a utilização de
concluíram que a administração exógena de hormônios nesta atividade. No Brasil, há uma
GH, tanto de origem natural quanto Instrução Normativa do Ministério da
recombinante, falha quanto ao objetivo de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Nº
melhorar o crescimento somático e, em 17, de 18 de junho de 2004) que em seu Art.
particular, a deposição de músculo 1º (BRASIL, 2004), proíbe a administração,
esquelético, em aves domésticas de pituitária por qualquer meio, na alimentação e produção
intacta. de aves, de substâncias com efeitos
Também foram realizadas tentativas tireostáticos, androgênicos, estrogênicos ou
com outros fatores de crescimento gestagênicos, bem como de substâncias ß-
relacionados ao eixo somatotrófico. Moellers agonistas, com a finalidade de estimular o
e Cogburn (1994) avaliaram a infusão pulsátil crescimento e a eficiência alimentar.
do GHRF, que é um fator que ocasiona ou
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E diante do que foi exposto nos permanece questionamentos quanto ao


resultados de estudos realizados por inúmeros crescimento acelerado das aves na indústria
pesquisadores no Brasil e no mundo, não há da produção animal, principalmente dos
razões técnicas que demonstrem vantagens frangos de corte.
convincentes para o uso de hormônios Entretanto, não se trata de um fator
exógenos sobre o desempenho de aves de único, uma vez que a alta capacidade para o
produção (intactas quanto às glândulas que desenvolvimento corporal dos frangos é
secretam os hormônios). E, dependendo da resultante de décadas de investimento em
substância, estes requererem procedimentos pesquisa cientifica, que geraram impactos
elaborados e onerosos, tais como injeção pertinentes e melhorias nas diversas subáreas
individual ou por meio de cateter implantado, contidas, tais como nutrição, sanidade,
para possibilitar liberação hormonal em manejo, ambiência e instalações, que
frequência pulsátil, visando imitar o processo propiciam a expressão máxima do potencial
natural. Todavia, novamente considerando genético das aves.
que no Brasil são criados mais de seis bilhões Dentre estas, a área de nutrição talvez
de frangos por ano, a dificuldade ou seja a que mais se tecnificou ao longo dos
inviabilidade prática e econômica é evidente. anos, chegando ao patamar que, atualmente,
Além do fato que hormônios e as aves consomem dietas que satisfazem seu
substâncias promotoras de crescimento, tais metabolismo energético, e que possuem
como o GH, estão disponíveis apenas para balanceamento nutricional completo,
atender demandas especificas e de baixa principalmente de aminoácidos, macro e
quantidade, atendendo principalmente a micro minerais e vitamina.
pesquisa laboratorial (SCHEUERMANN et E ainda visando o status sanitário das
al., 2015). Portanto, estas substâncias são de aves e do consumidor, são adotados
custo elevado, o que não seria compatível procedimentos de higienização das instalações
com as margens de lucro estreitas já e equipamentos, cuidados com higiene
verificadas nas relações comerciais da pessoal dos funcionários, controle ativo de
avicultura industrial moderna, não havendo pragas como insetos e roedores, descarte
produção comercial em alta escala para o GH, adequado de aves mortas e utilização de
nem demanda para este. programas vacinais das aves de acordo com o
histórico da região, buscando assim o bom
RECOMENDAÇÃO TÉCNICA desenvolvimento das aves, lhes e
proporcionado também ambiência adequada,
Apesar de toda a elucidação cientifica sendo realizado controle dos fatores
observada na literatura vigente, ainda temperatura, umidade do ar, renovação do ar,
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iluminação, dentre outros (SCHEUERMANN condições de manejo que possibilitam ou não


et al., 2015). a expressão deste potencial genético.
Porém, talvez o campo da genética
seja onde se encontra o maior impacto no CONCLUSÕES
crescente desempenho das aves, pois, é a
partir do equilíbrio entre todos as demais Conclui-se, portanto, que foi possível
subáreas, que é possível que as aves esclarecer questões acerca da utilização de
expressem todo seu potencial genético. hormônios exógenos em aves, constatando-se
Essa observação foi constatada de que estes não possibilitam a obtenção de
forma contextualizada em estudo vantagens zootécnicas, e que há uma
desenvolvido por pesquisadores na Carolina inviabilidade prática e econômica para sua
do Norte (HAVENSTEIN et al., 2003), que aplicação na indústria. Todavia, verifica-se
compararam uma linhagem de frangos de que o acelerado desenvolvimento das aves
corte comercial mantida sem seleção no oriundas das linhagens modernas deve-se,
período de 1957 a 2001 (aves controle) com principalmente, a tecnificação dos sistemas de
um grupo de aves da mesma linhagem, mas produção e dos programas de melhoramento
continuamente selecionadas neste período, genético destas.
submetidas a dietas formuladas com contextos Vale ressaltar a importância das
e níveis antigos e modernos. Segundo os iniciativas da própria indústria avícola em
autores, verificou-se melhoras de 320% para externar a qualidade de seus produtos,
ganho de peso, 20% para conversão alimentar, evitando assim equívocos que possam
e 60% para rendimento de peito neste período contribuir para denegrir a própria imagem no
de seleção e melhorando das aves, sendo que que se refere aos mitos que circundam a
os mesmos concluíram que a seleção genética produção animal.
em curso pelas empresas de melhoramento
genético corresponde a 85 a 90% dos avanços REFERÊNCIAS
ocorridos no ganho de peso no período de 45
anos considerado no trabalho, enquanto a ANDERSON, K.E.; GERNAT, A.G. Reasons
nutrição seria responsável por 10 a 15% dos why hormones are not used in the poultry
avanços. industry. North Carolina Poultry Industry
Neste contexto, o desempenho Newsletter, p. 1-3, 2004.
zootécnico de um frango sempre dependerá
do material genético que dita os limites ALBINO, L.F.T.; TAVERNARI, F.C.
genéticos da linhagem, e também das Produção e manejo de frangos de corte. 3ª
Edição. Viçosa: Editora da UFV, 2014. 88p.
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