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rosto e falso rosto

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rosto e falso rosto
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crŽdito.fm Page 4 Monday, December 15, 2008 11:02 AM

ISBN — 85-225-0322-2

Copyright © Clarice Ehlers Peixoto

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1ª edição — 2000

REVISÃO DE ORIGINAIS: Talita Arantes Guimarães Corrêa


EDITORAÇÃO ELETRÔNICA: Domus
REVISÃO: Sandra Pássaro

PRODUÇÃO GRÁFICA: Helio Lourenço Netto

CAPA: Visiva Comunicação e Design

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca


Mario Henrique Simonsen/FGV

Família e individualização / Organizadores


Clarice Ehlers Peixoto, François de Singly e Vincenzo Cicchelli;
tradução de Angela Xavier de Brito. — Rio de Janeiro : Edito-
ra FGV, 2000.
200p.

Trabalhos apresentados no colóquio internacional Famille et In-


dividualisation, na França, em outrubro de 1999.
Inclui bibliografia.

1. Família — Aspectos sociais. I. Peixoto, Clarice Ehlers. II. Sin-


gly, François de. III. Cicchelli, Vincenzo. IV. Fundação Getulio
Vargas.

CDD — 301.421
sumário

Apresentação
SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA DA VIDA PRIVADA NA EUROPA E NO BRASIL.
OS PARADOXOS DA MUDANÇA, 7
Clarice Ehlers Peixoto e Vincenzo Cicchelli

Prefácio
O NASCIMENTO DO “INDIVÍDUO INDIVIDUALIZADO” E SEUS EFEITOS
NA VIDA CONJUGAL E FAMILIAR, 13
François de Singly

PARTE I
SOCIALIZAÇÃO DOS JOVENS E SITUAÇÕES DE MARGINALIZAÇÃO
Capítulo 1
O individualismo na cultura sueca: a recuperação da dimensão
privada pela esfera pública, 23
Magdalena Jarvin
Capítulo 2
A família ambígua. O caso dos moradores dos subúrbios populares de Bordeaux, 33
Cyprien Avenel
Capítulo 3
Tempo familiar e tempo individual entre desempregados, 49
Cécile Beaujouan

PARTE II
RELAÇÕES ENTRE GERAÇÕES: INDIVIDUALIZAÇÃO E SOLIDARIEDADE FAMILIAR
Capítulo 4
Mulheres francesas de origem argelina. Conquista de autonomia e reelaboração
dos modelos familiares tradicionais, 63
Marnia Belhadj

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Capítulo 5
O que os objetos tecnológicos dizem sobre as relações familiares:
o caso dos aposentados, 79
Vincent Caradec
Capítulo 6
Avós e netos na França e no Brasil: a individualização das transmissões
afetivas e materiais, 95
Clarice Ehlers Peixoto
Capítulo 7
Individualismo e formas de apoio: entre lógica incondicional
e personalização da parceria intergeracional, 113
Vincenzo Cicchelli

PARTE III
FORMAS CONTEMPORÂNEAS DE PARENTESCO E DE AFINIDADE
Capítulo 8
A individualização no feminino, o casamento e o amor, 135
Anália Torres
Capítulo 9
Formas de expressão pessoais e conjugais através das conversas telefônicas, 157
Claire-Anne Boukaïa
Capítulo 10
O parentesco por aliança, um parentesco desejado? Formas e conteúdos das
relações entre noras e sogros na sociedade francesa contemporânea, 167
Clotilde Lemarchant
Capítulo 11
Irmãos na idade adulta: um laço de parentesco por afinidade?, 177
Jean-Hugues Déchaux

SOBRE OS AUTORES, 195

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apresentação

SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA DA
VIDA PRIVADA NA EUROPA E NO
BRASIL. OS PARADOXOS DA MUDANÇA
CLARICE EHLERS PEIXOTO E VINCENZO CICCHELLI

Q UA N D O N O S D E B R U Ç A M O S N O E S T U D O D A V I D A P R I VA D A na Europa
em geral e na França em particular, notamos quanto é difícil acompanhar a natureza
das mudanças em curso, visto que parecem contraditórias, paradoxais e mesmo in-
completas. As transformações, muitas vezes, cruzam as permanências e tomam cami-
nhos inesperados.
Em um primeiro nível, podemos constatar que ao longo do século XX, e princi-
palmente na sua segunda metade, as famílias mudaram muito na Europa, como
1
testemunham todos os indicadores clássicos da demografia. O funcionamento in-
terno das famílias mudou muito, abrindo um espaço maior para a expressão pessoal
e para a autonomia de cada um de seus membros. Um novo quadro de vida familiar
foi progressivamente sendo elaborado, seguindo modalidades diferentes em cada
país. Entretanto, resta uma base comum na medida em que ela ainda permite às
relações intrafamiliares sustentar a construção identitária das crianças e dos adultos.
A individualização crescente das sociedades ocidentais se inscreve na família na
forma de uma busca de uma sustentação identitária assegurada pelos próximos. De
todo modo, contrariamente às aparências de desordem, apontadas na variação dos

1
Roussel, 1987, 1992; Bégeot & Fernandez-Cordon, 1997.

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8 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

indicadores demográficos, as famílias continuam a contribuir para a reprodução


biológica e social da sociedade, função que podemos considerar do ponto de vista
socioantropológico como universal. A mobilidade social entre as gerações pouco
aumentou, sinal de que o estatuto social da família se transmite de pai e mãe para
filho e filha, hoje como ontem. De uma geração para outra, a continuidade prevale-
ce sobre a descontinuidade: as crianças nascidas nas famílias com formação univer-
sitária não têm muito mais chances de obter um diploma universitário do que as
crianças nascidas nas famílias com nível de estudos primário? A modernidade da
família européia, que se manifesta através da concessão de um lugar maior aos indi-
víduos – aos pequenos como aos grandes, às mulheres como aos homens –, parece se
conciliar com o papel que a família desempenha para que uma certa ordem social,
desigual, se perpetue.
Em um segundo nível, notamos que nunca a vida privada apresentou tanta
porosidade vis-à-vis a vida pública. Isto se manifesta pelo fato de que a primeira é
cada vez mais atravessada por mecanismos de funcionamento próprios da segunda.
Os ideais democráticos levam a tratar o Outro como um indivíduo cuja identidade é
dupla, como um alter-ego, para usar a expressão de Sylvie Mesure e Alain Renaut
(1999). Para que a esfera privada se alinhe aos valores propagados pela sociedade
civil, um duplo reconhecimento é necessário: cada um quer ser considerado como
um indivíduo dotado dos mesmos direitos de seu cônjuge, sem que suas diferenças
específicas sejam ignoradas. Tanto no nível familiar quanto no societal, uma das
tarefas do humanismo contemporâneo consiste em integrar essas duas exigências
aparentemente contraditórias. O individualismo democrático, que se manifesta em
uma igualdade jurídica de todos os membros da sociedade e o individualismo ro-
mântico, que, ao contrário, se manifesta no reconhecimento das especificidades dos
grupos sociais que reclamam essa mesma igualdade. Como propõe Charles Taylor
(1996), ambos devem ser pensados juntos, tanto na esfera pública quanto na priva-
da. A difusão progressiva da retórica democrática não simplificou a vida familiar,
mas tornou-a historicamente mais complexa. Apesar dos avanços, o discurso políti-
co parece, freqüentemente, em descompasso com as práticas que ele inspira. Tudo
se passa como se os atores sociais fizessem a distinção entre uma mise en scène moder-
nista de si mesmo e uma vivência cotidiana mais tradicional, tudo se passa como se
eles traíssem as esperanças criadas pela modernidade democrática, remetendo a
igualdade ao domínio da esfera pública e excluindo-a da esfera privada. Por exem-
plo, todas as pesquisas feitas pelos sociólogos e antropólogos da família, como as de
Andrée Michel e Christine Delphy, não apontaram a que ponto a simetria conjugal
é uma utopia?
Mas a complexidade da sociologia e da antropologia históricas dos fatos fami-
liares se deve a que, como toda disciplina, elas são historicamente situadas. De um
lado, a família nem sempre foi um objeto de estudo caro a esses pesquisadores,
exceção aos estudos antropológicos de parentesco. Ainda que os fundadores do

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Clarice Ehlers Peixoto e Vincenzo Cicchelli 9

pensamento sociológico tenham se debruçado sobre o estudo da família e a torna-


ram um dos objetos a serem observados na amplitude das variações decorrentes da
revolução política e industrial, foi preciso esperar os anos 1960 para que os pensa-
dores contemporâneos recomeçassem a se interessar por ela.2 De outro lado, as
teorias e os métodos evoluíram consideravelmente ao longo das últimas décadas, o
que muda muito nossa percepção dos fatos familiares e fica difícil detectar, ao
mesmo tempo, qual a medida real da mudança, pois não se sabe bem se é o objeto
ou o olhar que se modificou, e o acúmulo de resultados, em comparação com as
aquisições.
Nas últimas décadas, muito se discutiu sobre a “crise” da família, em decorrência
da baixa taxa de fecundidade, do aumento da esperança de vida e, conseqüente-
mente, da crescente proporção da população de mais de 60 anos, mas também do
declínio da instituição do casamento e da banalização do divórcio. De fato, o que
observamos não foi exatamente o enfraquecimento da instituição família, mas o sur-
gimento de novos modelos familiares, construídos a partir desses fenômenos sociais
mas, principalmente, das transformações nas relações entre os sexos, vistas de uma
perspectiva igualitária, mediante maior controle da natalidade, a inserção massiva
da mulher no mercado de trabalho etc. Tais fenômenos não são tipicamente euro-
peus nem franceses, estão também presentes no Brasil.
As pesquisas brasileiras sobre família têm sido marcadas, em geral, por estudos
voltados para a história da família no Brasil e sua variedade de modelos familiares,
desde a formulação clássica da família patriarcal elaborada por Gilberto Freyre e os
estudos mais específicos sobre família e organização sociopolítica da sociedade de
Oliveira Vianna, Antônio Cândido e Alcântara Machado às pesquisas mais recentes
sobre família, tradição e moral. A partir dos anos 1970, as pesquisas sobre a “família
moderna” brasileira adotaram perspectivas teóricas diversas, assim como se dividi-
ram entre os estudos de comunidade, de dinâmica social e força de trabalho e estudos
sobre mudança social.3 Analisando as famílias a partir da teoria da modernização,
esses trabalhos elaboraram tipos distintos de “família”, com base na tese da
nuclearização da unidade familiar. Para uns, família nuclear e relações de parentesco
constituem o lócus da análise; para outros, a família é considerada grupo doméstico,
englobando parentesco e relações de afinidade. Grande parte dessas pesquisas procu-
ra dialogar com outras esferas sociais, como trabalho, educação, consumo e mobilida-
de social etc. O que se percebe nessas investigações é, de um lado, a caracterização de
aspectos da vida familiar nas diferentes classes sociais brasileiras ou nos setores pro-
dutivos (família favelada, família de classe média, família camponesa, família operá-
ria...) e, de outro, uma forte tendência a tratar a “família” tanto como uma instituição
social, muitas vezes individualizada, quanto como e, principalmente, um valor.

2
Sobre esse ponto ver Cicchelli-Pugeault & Cicchelli, 1998.
3
Ver resenha bibliográfica de Fukui, 1980.

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10 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Do ponto de vista metodológico, no Brasil, a sociologia e a antropologia da famí-


lia têm-se apoiado fundamentalmente em estudos monográficos, na construção de
tipologias e na análise das representações e pouco investigado as relações familiares
e geracionais a partir de suas práticas e comportamentos cotidianos: relações entre
irmãos, entre pais e filhos adolescentes, entre noras e sogras, avós e netos, repercus-
sões do desemprego nas relações conjugais e familiares, influência do meio sócio-
habitacional nas relações familiares etc.
Este livro não trata especificamente da “família brasileira”, pois é composto de
estudos que analisam situações familiares européias, embora um deles estude, com-
parativamente, as relações entre avós e netos na França e no Brasil. Mas as situações
familiares investigadas pelos autores europeus podem ser consideradas próximas
àquelas encontradas na sociedade brasileira. Além disso, as principais questões des-
se campo de estudo são analisadas à luz do processo de individualização da família
contemporânea, tema que tem atraído o interesse de muitos pesquisadores.
Uma outra particularidade deste livro é o fato de que os textos utilizam aborda-
gens metodológicas diversas (quantitativas, qualitativas, bibliográficas...) e mesmo
complementares, apresentando um leque de possibilidades de análise para a inves-
tigação dessa temática.
Sob o eixo temático “família” podemos distinguir três enfoques do processo de
individualização: o estatuto da família na socialização dos jovens e nas situações
de marginalização, as relações familiares intergeracionais e, finalmente, as formas
contemporâneas dos laços de parentesco e de afinidade.
Os capítulos que compõem este livro foram apresentados no colóquio internacio-
nal Famille et Individualisation, organizado pelo Centre de Recherches sur les Liens
Sociaux/CNRS e a Universidade Paris V-René Descartes, em outubro de 1999. Agra-
decemos aos seus organizadores4 e autores a autorização para publicá-lo no Brasil,
assim como a Angela Xavier de Brito, socióloga e pesquisadora do Cerlis, pela tradu-
ção dos textos.

R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bégeot & Fernandez-Cordon, “La convergence démographique au-delà des différences


nationales”, in J. Commaille, F. de Singly (eds.), La question familiale en Europe, Paris,
L’Harmattan, 1997, p. 33-60.
Ciccheli-Pugeault & Ciccheli, V. Les théories sociologiques de la famille. Paris, La Decouverte,
1998. (Coll. Repères.)

4
Comissão organizadora do colóquio internacional Famille et Individualisation; coordenação geral:
Benoît Ceroux e Marie-Laetitia des Robert; organização: Vincenzo Cicchelli, Karim Gacem, Alejandra
Gaviria, Christophe Giraud, Muriel Letrait, Isabelle Mallon, Elsa Ramos.

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Clarice Ehlers Peixoto e Vincenzo Cicchelli 11

Fukui, Lia. Estudos e pesquisas sobre família no Brasil. BIB (10):13-23, 1980.
Mesure, Sylvie & Renault, Alain. Alter Ego. Les paradoxes de l’identité démocratique, Paris, Aubier,
1999.
Roussel, Louis. La famille en Europe Occidentale: divergences et convergences. Population
(1), 1992, p. 133-152.
———. Les décennies de mutations démographiques (1965-1985) dans les pays
industrialisés. Population (3), 1965/1985. p. 429-462.
Taylor, Charles. De l’anthropologie philosophique à la politique de la reconaissance. Le
Débat (89), mars/avr. 1996.

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prefácio

O NASCIMENTO DO “ INDIVÍDUO
INDIVIDUALIZADO ” E SEUS EFEITOS
NA VIDA CONJUGAL E FAMILIAR *

FRANÇOIS DE SINGLY

P ENSAR AS MUDANÇAS DA FAMÍLIA

A sociologia e a antropologia não têm por objetivo único escrever sobre o mun-
do tal como ele é. Elas devem, também, propor uma interpretação. Esse princípio
epistemológico se aplica igualmente à sociologia da família: não podemos nos con-
tentar em observar as mudanças que essa instituição conheceu e conhece ao longo
da segunda metade do século XX – sobretudo nos países ocidentais: o decréscimo
dos casamentos, das famílias numerosas, o crescimento das concubinagens, dos
divórcios, das “famílias pequenas”, das famílias monoparentais, recompostas, do
trabalho assalariado das mulheres –, é também necessário delas dar conta através de
uma orientação teórica.1 Foi a partir dessa ótica que organizei, com a ajuda de um
grupo de jovens doutorandos ou doutores do Centre de Recherches sur les Liens
Sociaux (Centre National de la Recherche Scientifique et Université de Paris V), um
colóquio internacional sobre “Família e individualização”, em outubro de 1999,
na Sorbonne. Foi a partir dessa manifestação, que reuniu uma centena de sociólo-
gos durante três dias, que se elaborou este livro, uma iniciativa de Clarice Ehlers

*
Tradução de Clarice Ehlers Peixoto.
1
Singly, 2000a:185-97.

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14 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Peixoto com a ajuda de Vincenzo Chiccelli, reagrupando algumas das comunica-


ções ali apresentadas.2
O título desse colóquio já o anuncia de maneira explícita: trata-se de compreen-
der o funcionamento das famílias contemporâneas na França e nos países ocidentais
com respeito a uma nova concepção dos indivíduos em relação aos seus grupos de
pertencimento e, particularmente, em relação à família. Inversamente às aparências,
os indivíduos que compõem as sociedades contemporâneas (ocidentais) não se pare-
cem com os indivíduos das gerações precedentes. Por diversas razões, ao mesmo
tempo ideológicas e objetivas, as sociedades contemporâneas foram imperativas,3
impondo o surgimento do indivíduo original, ou seja, respeitando sua verdadeira
natureza. Acreditar que se esconde, no fundo de si mesmo, uma identidade pessoal,
um “verdadeiro eu” – esse mito da interioridade – se constituiu de forma lenta no
4
Ocidente, até tornar-se uma evidência normativa para cada um de nós, à qual se
juntou um outro imperativo, o de ser autônomo. Essa procura de si não se traduz,
prioritariamente, em um narcisismo. Ela exige, ao contrário, uma atenção do olhar
dos outros. O romancista Christian Bobin5 descreve bem esse processo: “na vida, só
se tem a aprender a si mesmo. Nada mais há a conhecer”, acrescentando em segui-
da, “é claro que não se aprende sozinho. É preciso passar por uma outra pessoa para
chegar às profundezas de si. Por um amor, uma palavra, um rosto”. Assim, aparece
a função central assumida – ou que deveria ser assegurada – pela vida privada. Hoje,
é no espaço onde circula o amor que se constrói uma grande parte da identidade
pessoal dos indivíduos. Nas sociedades individualistas, “a família” (qualquer que
seja a forma ou a estrutura) toma para si a função de (tentar) consolidar em perma-
nência o “eu” dos adultos e das crianças. Inversamente ao que o termo individualis-
mo pode levar a crer, o indivíduo precisa assim, para tornar-se ele mesmo, do olhar
das pessoas a que ele atribui importância e sentido. Esses outros significativos são,
freqüentemente, o cônjuge ou o parceiro para um homem ou uma mulher, os pais
para os filhos (e reciprocamente), ainda que outros próximos possam preencher tal
função.
Conseqüentemente, a família mudou para produzir esses indivíduos. Na França,
a “revolução” não começou em 1968, ainda que esse período esteja associado a
grandes transformações, como o desenvolvimento do trabalho assalariado das mães,
o controle da fecundidade com a contracepção, a diminuição do casamento, o au-

2
Na França, na coleção Logiques Sociales de L’Harmattan, estão sendo publicados sob minha direção dois
tomos desse colóquio: Individualisation et liens intergénérationnels e l’individualisation de l’adulte au sein des
collectifs. Neste prefácio são citados apenas os textos que não fazem parte do presente volume.
3
Taylor, 1992.
4
Id., 1998.
5
Bobin, 1996.
François de Singly 15

mento da coabitação, principalmente do divórcio. Esquematicamente, o período do


final dos anos 1960, no qual ainda vivemos, corresponde à instauração de um com-
promisso entre as reivindicações dos indivíduos em se tornarem autônomos e seus
desejos de continuar a viver, na esfera privada, com uma ou várias pessoas próximas.
É a família que chamo de “individualista e relacional”. O período precedente –
aquele que vai do início do século XX até os anos 60 – caracterizou-se sobretudo
pela construção de uma lógica de grupo, centrada no amor e na afeição. Essa família
– quase sempre tomada como referência nos discursos sobre a idade de ouro da
família – é um grupo, regulado pelo amor, no qual os adultos estão a serviço do
grupo e principalmente das crianças. O homem deve ir ao trabalho e a ele se consa-
grar o mais que possa. É sua missão de “pai”. A mulher deve ficar em casa para tornar
o interior aprazível, ocupar-se das crianças e do marido, assegurar a felicidade de
cada um. A “família feliz” permite a cada um dos membros ser feliz. A instituição do
casamento é valorizada, uma vez que ela é concebida como o melhor quadro para
garantir esses objetivos.
As famílias atuais – que designo pelo termo de “modernas 2” – não estão em
ruptura completa com essa família “moderna 1” na medida em que a lógica do
amor se impôs ainda mais: os cônjuges só ficam juntos sob a condição de se ama-
rem; os pais devem ainda dar mais atenção aos seus filhos. A família “moderna 2”
se distingue da precedente pelo peso maior dado ao processo de individualização.
O elemento central não é mais o grupo reunido, são os membros que a compõem.
A família se transforma em um espaço privado a serviço dos indivíduos. Isso é
perceptível através de numerosos indicadores do nível da relação conjugal, com a
maior independência das mulheres, a possibilidade do divórcio por consentimen-
to mútuo (na França, em 1975), a lei de 1970 que dá fim à autoridade paternal etc.;
e, no nível da relação pedagógica, com o desenvolvimento da negociação das
necessidades da criança, de novas formas de pedagogia pelas quais a natureza da
criança deve ser respeitada mais do que modificada (no período precedente, a
educação moral deveria retificar a natureza imperfeita da criança). Cada criança é
única.6
Essa família “moderna 2” compõe-se com a individualização. Sua permanência
se dá a esse preço, sua instabilidade também. Por isso, paradoxalmente, a família
pode parecer frágil e forte: frágil, pois poucos casais conhecem antecipadamente a
duração de sua existência, e forte porque a vida privada com uma ou várias pessoas
próximas é desejada pela grande maioria das pessoas (sob certas condições, ou seja,
se a família não é percebida como sufocante). A família deve ser designada, para
nós, pelo termo de “relacional e individualista”. E é nessa tensão entre os dois pólos
que se constroem e se desfazem as famílias contemporâneas.

6
Darmon, no prelo.
16 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

UM EXEMPLO DE AFIRMAÇÃO DO EU INDIVIDUALIZADO

O «eu» reclama cada vez mais o primeiro papel. Isso obrigou os homens e as
mulheres a mudarem sua maneira de conceber a vida comum. Essa se tornou atraen-
te, pois permite o reconhecimento de uma pessoa enquanto pessoa. A relação amo-
rosa ou afetiva é vista como um espaço favorável à revelação progressiva da identida-
de pessoal,7 não devendo assim sufocar. Cada um busca a fórmula mágica que lhe
possibilite ser “livre junto”.8
Um romance9 de Katherine Pancol revela como uma jovem mulher transforma
sua identidade, tornando-se um “indivíduo individualizado”, segundo a expres-
são de Charles Taylor, e a contragolpe tem novas expectativas em face da vida a
dois. Nas gerações anteriores, com o modelo da mulher dona de casa, ela se reali-
za de uma forma mediada, através do sucesso do marido e dos filhos, para o qual
ela contribui na sombra.10 Hoje, muitas mulheres reivindicam um sucesso pessoal,
sem mediador. O amor, conjugal ou maternal, não justifica mais (ou, para ser mais
exato, justifica menos) o retraimento da mulher da cena social e pública. Ele não
deve mais transformar o laço de dependência afetiva em um elo de dependência
social e econômica. A mulher quer poder conciliar, ao mesmo tempo, a atenção
aos outros, ao companheiro e aos filhos, e o cuidado de si, sua vida conjugal,
parental e pessoal.
A história de Sophie contada por Katherine Pancol retraça o percurso que leva,
com dificuldades, à esperança de tal conciliação. É uma mulher jovem de 20 anos,
que só se define em relação aos seus próximos, às expectativas de sua mãe, de seus
amigos e dos homens que a atraem. Ela quer mudar, sem o conseguir logo na primei-
ra tentativa. Assim, ela fica noiva de um homem, Patrick, que a faz descobrir o
prazer físico e ela se deixa levar pelo charme da vida a dois. O período de encanta-
mento amoroso termina, ela se conscientiza do custo que essa vida implica para ela.
Ela sente uma defasagem entre sua vida e aquilo que quer ser. Ela decide viajar
sozinha de férias, antes de seu casamento, e encontra um outro homem, Antoine,
que a seduz. Ela decide viver com ele: “Eu me arrisco. Eu faço uma escolha: eu”. Mas
ela não consegue seguir esse programa, apesar dos conselhos de uma tia, uma mu-
lher livre que a aconselha a “não se deixar engolir”, a “se construir por dentro”. De
fato, Sophie recomeça novamente a ser “dócil, na forma de uma noivinha de grande
coração”. Eles vão viver juntos. Mas, ao mesmo tempo, ela tem dúvidas: “esta dona

7
Singly, 1996.
8
Id., 2000b.
9
Moi d’abord. Paris, Points, Seuil, 1980. O romance, como o filme, constitui uma referência importante para
o sociólogo, atento na descoberta do imaginário contemporâneo, interiorizado pelas mulheres e os
homens.
10
Singly, 1987.
François de Singly 17

de casa simples não era exatamente eu, esta mulher que girava em torno de seus
metros quadrados. Eu me sentia um pouco limitada no meu pequeno conforto imo-
biliário”. Ela salva as aparências, fazendo de conta até o dia em que decide “não
mais desempenhar esse papel e começa seus exercícios de autenticidade”. Seu amor
por Antoine diminui: “Era Antoine Nescafé, Antoine do final de mês difícil, Antoine
‘lavo-suas-meias-e-reclamo’. Estávamos muito acostumados”.
Um acontecimento transforma sua existência, ela recebe uma proposta para se
tornar jornalista, seu sonho. Sophie se entrega inteiramente ao trabalho. Ela decide
não acompanhar Antoine, que parte para os Estados Unidos. Ela lhe diz que a vida
que ele está lhe propondo não lhe convém: “Eu quero, sozinha, fazer coisas para
mim. Não quero existir atrás de meu marido, dos filhos. No momento, me tornar eu
mesma é ficar no jornal”. Antoine não entende. Sophie justifica dessa forma sua
decisão: “Não quero mais me deixar levar pelas coisas que me acontecem. Decidi
pôr ordem no meu interior: primeiro eu e estou feliz, pois tenho certeza de não me
enganar. Vou me prender aos meus fantasmas para extrair a parte de mim que me
fará entrar na realidade. Minha realidade. Até o fim. Desfazendo todas as conven-
ções, apostei tudo, como me ensinaram, e não agüento mais. Me equilibro sobre
pedaços que se esticam de toda forma, quero recuperá-los para me recolar”. Ela
compreende, enfim, que sua busca tem um nome: “Eu. Quero, sozinha, seguir a
viagem ao fundo da minha liberdade. Só, sem pai nem mãe, sem amante tutelar”.
Sophie prefere viver sozinha a viver acompanhada, uma vez que essa vida não
lhe permite ser ela mesma. No entanto, ela não recusa a forma de vida em comum,
simplesmente viver com alguém está condicionado a guardar sua independência.
Ela deseja uma vida a dois que permita também uma vida para si. Ela quer, depois de
proclamar “primeiro eu”, viver com alguém se isso não exigir muitos sacrifícios
pessoais. Sua demanda se transforma, tornando-se “eu também”, suscetível de ser
conjugada a uma demanda idêntica do parceiro. Uma das mulheres interrogadas
em La femme seule et le prince charmant,11 desenha o perfil do homem que sonha:
“Não quero um cara de passagem para uma noite de sexo selvagem e perigoso. Não
quero um marido. Nem uma presença episódica, simpática, terna, tampouco me
satisfaria. Quero um cara com o qual possa novamente trocar, falar, viver”. O casa-
mento e a vida só são rejeitados em troca de uma vida a dois que permita satisfazer
as necessidades relacionais mas respeite a autonomia de cada um.
Do lado da vida privada, o ideal é a alternância entre um “eu sozinho” e um “eu
com”:12 nem o fechamento egoísta sobre si nem a dedicação excessiva ao outro. De
certa maneira, um “entre-dois” que autorize a satisfação de si em certos momentos,
com momentos para atividades separadas e outros para compartilhar práticas co-
muns.

11
Kaufmann, 1999.
12
Singly, 2000b.
18 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

O PROCESSO DE INDIVIDUALIZAÇÃO

A história de Sophie reflete algumas etapas do processo de individualização. Ela


revela as duas dimensões: a autonomia e a independência, analisadas por Karine
Chaland.13 A independência, e principalmente a independência econômica, é a
maneira pela qual o indivíduo pode, graças aos seus recursos pessoais retirados
diretamente de sua atividade, depender menos dos próximos; a autonomia é o co-
nhecimento do mundo no qual essa pessoa vive: mundo definido pela elaboração
tanto de regras pessoais quanto, no caso de vida em comum, de regras construídas
na negociação entre várias pessoas. Quando essas duas dimensões estão reunidas –
independência e autonomia – então, o indivíduo moderno tem o sentimento de
estar livre, pelo menos na sua vida privada.
Essa dupla individualização resulta de um longo trabalho, de uma socialização
efetuada principalmente durante a infância e a adolescência. Nesse nível, o ro-
mance de Katherine Pancol é mais representativo para o início da família “moder-
na 2”: ele representa a geração das mulheres jovens que foram ainda socializadas
como suas mães, ou seja, em um modelo de mulheres dependentes e heterônomas.
Essas mulheres, as que detinham uma certa educação, só podiam se liberar no
momento da passagem para a idade adulta e tiveram que aprender a ser elas mes-
mas de uma maneira bastante abrupta. Hoje, a educação familiar se transformou,
depreciando a obediência e valorizando a iniciativa, a autonomia e a satisfação
pessoal. Contrariamente à representação comum, a criança aprende a ser um ser
individualizado no seio de sua família de origem. Ela pode fazê-lo porque seus
pais o diferenciam de seus irmãos e irmãs e porque, freqüentemente, ele dispõe de
um território para si, seu quarto,14 no interior do qual ele faz suas próprias regras
(que podem parecer anárquicas ao olhar dos outros). Ele torna-se autônomo em
uma relação de dependência.
Essa distância entre as duas dimensões do processo de individualização – auto-
nomia e independência – é o que hoje diferencia cada vez mais os jovens e os
adultos.15 Assinalo a importância do momento em que os jovens adultos vivem ain-
da essa distância pelo prolongamento da escolaridade e pelas dificuldades em obter
um primeiro trabalho estável, enquanto as gerações precedentes (ao menos para os
homens, já que a maioria das mulheres eram inativas profissionalmente) tinham
16
acesso a essa independência econômica muito mais rapidamente. Tudo se passa

13
Chaland, no prelo.
14
Singly & Ramos, 2000:155-76.
15
Singly, 2000c.
16
Alguns jovens raramente podem entrar no circuito do trabalho profissional estável. Assim, são excluídos
não somente desse universo mas também de um certo modo de construção identitária. A modernidade
produz novas desigualdades.
François de Singly 19

como se, nas sociedades contemporâneas, o modelo de identidade pessoal, comple-


ta, só pudesse ser elaborado muito tardiamente e os jovens adultos sofressem por
não conseguir chegar a essa conjunção entre autonomia e independência.

R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bobin, C. Une petite robe de fête. Paris, Folio, Gallimard, 1996.


Chaland, Karine. Pour un usage sociologique de la double généalogie philosophique de
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In: Singly, F. de (dir.). Individualisme et liens intergénérationnels; famille et individualisme.
Paris, L’Harmattan, no prelo. t. 1.
Darmon, M. Devenir sans pareil? La construction de la différence dans la fratrie géméllaire.
Colloque International Famille et Individualisation. In: Singly, F. de (dir.). Individualisation
et liens intergénérationnels; famille et individualisme. Paris, L’Harmattan, no prelo. t. 1.
Kaufmann, J.-C. La femme seule et le prince charmant. Paris, Nathan, 1999.
Singly, François de. Fortune et infortune de la femme mariée. Paris, PUF, 1987.
———. Le soi, le couple et la famille. Paris, Nathan, 1996.
———. Le changement de la famille et ses interpretations théoriques. In: Berthelot, J.-M.
(dir.). La sociologie française contemporaine. Paris, PUF, 2000a. p. 185-97.
——— (dir.). Libres ensemble. L’individualisme dans la vie commune. Paris, Nathan, 2000b.
———. Penser autrement la jeunesse. Lien Social et Politique: Sur la Jeunesse (43), printemps
2000c.
——— & Ramos, E. La défense d’un “petit monde” pour un jeune adulte vivant chez ses
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Nathan, 2000. p. 155-76.
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———. Les sources du moi. Paris, Seuil, 1998.
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parte I

S OCIALIZAÇÃO DOS JOVENS E


SITUAÇÕES DE MARGINALIZAÇÃO

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CAPÍTULO 1

O individualismo na cultura sueca: a


recuperação da dimensão privada pela
esfera pública*
MAGDALENA JARVIN

HÁ DUAS IMAGENS CORRENTES DA S U É C I A : uma, que apresenta um povo


solidário, dotado de um forte espírito coletivista; outra, que se refere a um espírito
individualista e a uma sociedade com poucas interações sociais.
A primeira representação mostra a Suécia próxima de um “coletivismo soviético”,
ilustrado pela obediência, pelo conformismo e pelo respeito dos cidadãos ao Estado.
O direito deste de se apropriar das tarefas antes exercidas pela família ou por outras
redes informais teria como conseqüência uma diminuição dos sentimentos de respon-
sabilidade pessoal. Na segunda imagem da cultura sueca, considera-se o indivíduo
como obrigado a refletir sozinho, a prosseguir sua carreira e a realizar seus interesses
pessoais a qualquer custo – e essa forma de individualismo pode ser chamada de
“americanização”.1
Neste texto, não tentaremos saber qual das duas representações é a mais correta
ou a mais próxima da realidade, pois as duas fazem sentido na medida em que
aportam elementos de compreensão da ação dos indivíduos. Preferimos nos interes-
sar mais particularmente pelo aspecto individualista dessa cultura, para estudar os
processos de emancipação e de autonomização dos jovens com relação à casa pater-
na. Essa curta apresentação do espírito individualista nos permitirá ver que a

*
Tradução de Angela Xavier de Brito.
1
Ehn, 1990.

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24 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

autonomização do jovem começa desde a mais tenra idade. Com efeito, os princí-
pios de responsabilidade e de autonomia estão integrados na educação recebida
no meio familiar, bem como no ensino e na educação cívica ministrados no con-
texto escolar. Para compreender melhor os valores que regem esse espírito indivi-
dualista, abordaremos a definição de Estado-providência e da família moderna no
modelo cultural sueco.
Os elementos aqui apresentados se apóiam em pesquisa bibliográfica e em traba-
lho de campo de um ano em Estocolmo, capital da Suécia.

D EFINIÇÃO DA NOÇÃO DE E STADO - PROVIDÊNCIA

Esta parte se limitará à descrição do Estado-providência segundo o modelo


sueco, abordando assim somente os tópicos relevantes para o tema estudado.

O apoio financeiro
Em uma sociedade na qual os recursos são desigualmente distribuídos, a liberdade
de ação dos indivíduos pode ser extremamente limitada. O papel de “Estado
remediador” (the caring State) é assim de prevenir e de regulamentar tais injustiças.
Essa visão contribui para esclarecer os princípios de redistribuição e os conflitos
objetivos entre os grupos: reconhece uma certa diminuição da liberdade de ação
individual (não dispor da totalidade de sua renda) em prol da satisfação das necessi-
dades primárias dos indivíduos que se encontram em uma situação de escassez. Dessa
forma, a idéia fundamental de uma política de bem-estar (welfare) é que a redistribui-
ção das riquezas não pode ser obtida nem através de uma regulação do mercado, nem
pela contribuição voluntária dos indivíduos privilegiados. A redistribuição das rique-
zas reveste-se assim de uma obrigação, ainda que a maioria a considere legítima.2
Na Suécia, um grande número das alocações é atribuído às famílias cuja renda é
considerada insuficiente (alocações para as crianças, moradia, viagens). Essa ajuda
financeira tem como objetivo contribuir para a economia familiar durante os estudos
secundários dos jovens, o que elimina a responsabilidade de mantê-los, uma vez
terminada a escolaridade obrigatória. A busca de liberdade na escolha da atividade
profissional ulterior foi concretizada pela decisão política de oferecer uma formação
de base geral, que pode ser prolongada através dos estudos superiores e de cursos
para adultos. Assim, o ensino é gratuito e todo estudante recebe bolsas de estudo,
sem que a atribuição dessa ajuda financeira seja baseada em critérios sociais. Os
estudantes podem igualmente obter empréstimos a taxas muito interessantes. Tais
medidas visam à supressão dos obstáculos materiais à formação, aplicando-se essen-

2
Czaplicka, 1993.

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Magdalena Jarvin 25

cialmente àqueles indivíduos cujos pais não dispõem mais de recursos econômicos
para mantê-los.
Nesse ponto, pode-se observar uma primeira invasão da esfera familiar pela
esfera social. Com efeito, inúmeros suecos lutam contra sua dependência dos pa-
rentes próximos, situação que o Estado-providência busca igualmente suprimir.
Os parentes próximos nem sempre podem estar presentes cada vez que um indi-
víduo atravessa uma fase difícil; somente as instituições têm condições de aportar
os mesmos cuidados para todos, em nome do princípio da igualdade.3
Nas situações de dificuldades financeiras, por exemplo, alguns indivíduos pre-
ferem não recorrer aos seus pais:

Não me sinto bem quando peço a meus pais um empréstimo para o verão, mesmo se
vou reembolsá-los no início do ano; só faço isso quando a necessidade é realmente
imperiosa (Daniel, 25 anos).

Além disso, essa vontade de se virar sozinho é acentuada quando as relações


familiares não são boas:

Eu tinha 14 anos quando meus pais se separaram e foi ao mesmo tempo, ou talvez por
causa disso, que me revoltei e busquei minha independência. Creio que perdi o respei-
to por eles e também a confiança quando se divorciaram e não respeitava mais sua
autoridade. No entanto, a independência tem várias facetas: a gente decide sozinho
mas deve também assumir mais responsabilidades. Talvez tenha sido eu mesmo quem
colocou muitas exigências. Mas é preciso realmente que seja algo muito importante
para que eu solicite a ajuda de meus pais (Markus, 25 anos).

Esses dois trechos de entrevista ilustram bem a idéia de que, para alguns jo-
vens, o fato de ter de recorrer à ajuda familiar é percebido como uma “derrota”
pessoal, como uma falta de responsabilidade e de autonomia.
Aqui, é necessário ressaltar uma noção fundamental à cultura sueca, ou seja, o
fato de que ela se funda em uma ideologia centrada na noção de indivíduo. Annick
Sjögren (1993), etnóloga francesa que trabalha há uns 30 anos na Suécia, fez vários
estudos sobre as diferenças culturais; ela descreve a noção de ideologia centrada no
indivíduo da seguinte maneira: “Em uma ideologia centrada no indivíduo, a fron-
teira da integridade pessoal é traçada ao redor de cada indivíduo. Ele se torna assim
a unidade primária do grupo. Essa ideologia existe raramente em estado puro em
uma cultura. Cada mentalidade – quer dizer, as estruturas de normas e de pensa-
mento que são internalizadas através do tempo nas instituições e nos esquemas de
ação – inclui tendências ao mesmo tempo individualistas e grupais”.

3
Sjögren, 1993.

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26 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

A sociedade sueca é individualista no sentido de que o indivíduo constitui a


unidade de base da sociedade. Cada indivíduo, enquanto unidade independente
do restante, pode fazer parte de diferentes grupos sociais, como uma família, uma
associação, um grupo étnico ou religioso, uma nação. A ideologia sueca enfatiza a
subordinação das configurações sociais ao indivíduo e não há laços tradicionais
que limitem sua liberdade.4
O recurso involuntário à ajuda familiar, no caso de problemas financeiros, fornece
um exemplo de uma das formas de aplicação da ideologia fundada no indivíduo:
tentar manter sua independência do grupo familiar e se virar por si mesmo. No entan-
to, isso significa, na verdade, recorrer à ajuda proposta pelo Estado, o que se poderia
interpretar como uma recuperação da esfera privada pela esfera pública.

O estímulo à independência
Na cultura sueca, a idéia de integridade pessoal constitui um elemento funda-
mental da vida pública e da vida privada. Ela pode ser definida da seguinte ma-
neira: o direito inviolável de ser seu próprio juiz. “Personal integrity is the feeling
of being a human being in its totality, and with definite limits”.5
Quando estudamos a educação dada às crianças suecas, esses princípios de inte-
gridade pessoal são encontrados em fatos precisos. Assim, existe uma política cons-
ciente que tem por objetivo reforçar o sentimento de integridade pessoal. Por exem-
plo, no nível familiar, uma criança de mais de 12 anos tem o direito de escolher se
quer viver com o pai ou com a mãe, em caso de divórcio. Na esfera escolar, podemos
observar o direito dos alunos a assistir às reuniões de pais e mestres na escola. Além
disso, os pátios de recreio geralmente não são rodeados de grades. Uma professora
primária, entrevistada por Annick Sjögren (1990), explicou que tinha o hábito de
levar seus alunos até os limites do pátio, dizendo-lhes que ali havia uma fronteira
invisível que não se devia ultrapassar. Essa prática ilustra bem o encorajamento
dado às crianças no sentido de desenvolverem um sentimento de responsabilidade.
Considera-se que elas nem sempre podem esperar que os adultos as ajudem, ne-
nhum limite sensível é imposto e devem aprender a criar seus próprios limites.
Ao crescer, a criança já integrou essas noções de responsabilidade e de autonomia
através da educação familiar e do ensino transmitido pela escola. No entanto, esse
espírito individualista pode afastar a família. Léonie Bernardini-Sjöstedt, citada por
Annick Sjögren (1993), escrevia já no princípio do século que, na Suécia, não se
consideram as crianças como pertencendo à família, mas é o Estado que detém a
responsabilidade última por elas. Se os pais não são considerados convenientes, as
crianças podem lhes ser retiradas, o que os franceses da época julgavam inaceitável.

4
Sjögren, 1993.
5
Ibid.

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Magdalena Jarvin 27

Ainda hoje os municípios6 assumem cada vez mais a responsabilidade das crian-
ças, das pessoas idosas e dos doentes, tendência que encoraja cada membro da famí-
lia a desfrutar de uma maior independência. Assim, todo adulto deve responsabili-
zar-se por si mesmo da maneira mais cabal, tanto econômica quanto moralmente.7
Voltando à problemática do ensino, cada criança é, para o sistema sueco, um
indivíduo dotado de direitos e uma pessoa responsável. Os pontos levantados no
Programa Escolar do Primário em 1980 lançam luz sobre os objetivos da educação
nacional: a criança deve ser educada como um cidadão responsável que, através do
desenvolvimento de suas capacidades pessoais, possa participar plenamente do de-
senvolvimento da sociedade. A família e o lar são apenas ajudas, mas não constitu-
em finalidades em si mesmas e estão colocados no mesmo nível que a escola. A
especificidade de cada indivíduo deve ser respeitada, o que subentende o respeito
ao outro, para que cada um possa se desenvolver como indivíduo. Além disso, a
escola deve zelar pela herança cultural da criança. O termo “família” não é nem
citado. Ao contrário, é o desenvolvimento do indivíduo e da coletividade que deve
ser estimulado. E se o lar não pode trazer os elementos necessários a esse desenvol-
vimento, uma lei de assistência social sugere que a criança deve morar em um outro
lugar que lhe dê melhores condições.8 Aqui trata-se bem da integridade pessoal da
criança.

D EFINIÇÃO DA FAMÍLIA

Vimos que a esfera pública se encarrega dos indivíduos com o objetivo de torná-los
independentes do grupo familiar. A questão que se coloca então é saber qual o papel
exercido pela família na vida do indivíduo e, particularmente, na vida da criança.

Os princípios da educação e do ensino


Ao observar a evolução dos princípios que regem a educação e o ensino suecos,
notamos uma mudança considerável das mentalidades a partir da II Guerra Mun-
dial. Citaremos aqui três valores fundamentais:9
• a introdução, na escola, de leis contra os castigos corporais e a concepção de que
a recompensa é o melhor estímulo à aprendizagem;

6
N. do T.: no original, a palavra utilizada é “commune”, cuja tradução literal seria “comuna”. No entanto,
na língua portuguesa, a idéia de uma unidade territorial semelhante encontra mais eco na noção de
município.
7
Sjögren, 1990.
8
Id., 1993.
9
Dahlström, 1993.

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28 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

• o desenvolvimento individual e autônomo foi fortemente enfatizado, tanto na


educação quanto no ensino. Os recursos pessoais devem ser valorizados, daí a
necessidade de adaptar o ensino e a avaliação dos desempenhos individuais a esse
princípio;

• a “democracia” se tornou a nova palavra de ordem; assim, a autonomia e a


participação nas tomadas de decisão são consideradas essenciais para a emer-
gência de um ser democrático, que poderá, a partir daí, levar uma vida respon-
sável.

A autoridade e a hierarquia são assim valores fora de moda. Herbert Hendin


(1964), em um estudo psicanalítico da cultura e dos caracteres, define a busca da
independência como um valor sueco típico, que o autor interpreta como conseqüên-
cia de uma educação específica, e não como aplicação de uma pedagogia tradicio-
nal. Ele seria antes resultante de um esquema inconsciente de ações na relação com
a criança. Assim, esse autor apresenta a idéia de que as mães suecas encorajam, mais
do que as mães dinamarquesas ou americanas, por exemplo, a autonomia e a inde-
pendência de seus filhos. Essas crianças serão estimuladas a deixar mais cedo suas
mães, a operar uma separação social e psicológica com relação a elas.
Marianne Cederblad (1984), psiquiatra de crianças, também constatou essa atitu-
de, específica aos suecos, de querer tornar suas crianças independentes desde a mais
tenra idade: “Na Suécia, temos (...) expectativas extremas com relação à indepen-
dência das crianças desde muito cedo, e os pais consideram que a idade de revolta
de seus filhos é algo positivo e desejável, uma expressão de força e de coragem”.
Tomemos como exemplo o hábito de deixar as crianças voltarem sozinhas da escola
e, eventualmente, de preparar sozinhas suas refeições, quando os pais trabalham e
não podem vir buscá-los à saída da escola. Da mesma forma, os pais interferem
pouco no trabalho escolar dos filhos e deixam a cargo deles a escolha de seus estu-
dos secundários. Poucos pais declaram “tomar a decisão” sobre o futuro de seus
filhos, porque são estes que devem escolher o caminho que desejam seguir – o que
não os impede de pedir conselhos aos mais velhos.
Vimos que os jovens suecos têm uma relativa liberdade de ação com relação ao
grupo familiar, o que pode se basear na ideologia centrada no indivíduo e na noção
de integridade pessoal. Mas parece que há um terceiro elemento na compreensão
dessa responsabilização do indivíduo, ou seja, o sentimento de culpa.
O sentimento de culpa é um valor fundamental em uma cultura individualista,
sendo a integridade pessoal “um sentimento de se sentir um ser humano em sua
integralidade”, o que enfatiza um movimento em direção ao interior da pessoa.
Com efeito, trata-se de um valor experimentado no nível individual e não com
relação a um grupo social externo (o que seria mais ligado a um sentido de honra).
No caso da integridade pessoal, a culpa é um sentimento centrado no indivíduo,
experimentado por ele e que emana dele mesmo. Assim, em uma sociedade de
culpa, cada indivíduo deve ser capaz de assumir a inteira responsabilidade de sua

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Magdalena Jarvin 29

vida.10 Isso presume, por outro lado, que cada indivíduo seja considerado igual ao
outro e a noção de hierarquia tem uma significação menor, como já havíamos
constatado.
Para ilustrar o sentimento de culpa na cultura sueca, tomemos o exemplo da
atitude dos indivíduos diante do fato de dirigir embriagado. Quando se pergunta a
um sueco se ele dirigiria depois de beber álcool, a resposta é sistematicamente
negativa. A razão pela qual ninguém dirigiria depois de ter tomado vinho durante
um jantar, por exemplo, é o risco de provocar um acidente. Mas tal risco não se
refere ao próprio chofer, mas antes a eventuais passageiros, um outro chofer ou um
pedestre: “Eu jamais dirigiria se estivesse bêbada, porque jamais poderia viver com
a morte de outra pessoa na consciência” (Tova, 25 anos). Isso não significa, no
entanto, que uma pessoa de uma outra cultura não tenha problemas de consciência
em uma situação similar, mas que as respostas dadas durante as entrevistas na Sué-
cia eram fortemente marcadas pelo sentimento de culpa. Esse exemplo mostra até
que ponto a mentalidade sueca é impregnada pelos valores de responsabilidade
individual diante da coletividade.
Assim, a idéia subjacente à cultura sueca é que a criança vai, mais tarde, assumir
“seu lugar na coletividade” e, enquanto esperam tornar-se adultos e integrar a
autodisciplina, os jovens suecos apresentam um problema de comportamento em
sociedade. Apesar da evidência do princípio de autonomização e de responsabilização
das crianças com relação à casa paterna e à geração de adultos, o paradoxo dessa
liberação é reconhecido e discutido. A busca de independência das crianças contri-
bui para a existência de problemas de disciplina, torna difícil a integração das
normas adultas, influi no desejo precoce de fundar um lar e conduz, de maneira
geral, a uma fraca solidariedade entre gerações.11

A privatização das relações familiares


A revolução introduzida pelos anticoncepcionais e pelo aborto legal aumentou a
liberdade de escolha na construção de um casal e de uma família. Hoje em dia pode-
se escolher ter ou não um filho, o que estendeu a margem de liberdade das mulhe-
res. Os adultos encaram o concubinato como um contrato que pode ser rompido a
qualquer momento, disso resultando uma nova forma de relação entre a criança e
seus pais. Com efeito, a família biológica nem sempre corresponde mais ao casal no
seio do qual a criança vive.
A Suécia conta com uma taxa elevada de divórcios e de separações de pais que
vivem em concubinato. Desde a metade dos anos 1970, estima-se em 25-30% o
número de crianças que viveram uma ruptura em seu lar. Assim, o aumento das

10
Sjögren, 1990.
11
Daun, 1994.

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30 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

famílias dispersas e das coabitações não-formalizadas (concubinato), o aumento da


esperança de vida, a maior instabilidade na formação dos casais, a maior freqüência
de famílias recompostas e de pessoas que moram sozinhas tiveram por conseqüência
uma correlação menor entre as relações no seio de um casal e os membros de uma
família biológica. De fato, os indivíduos com laços familiares próximos (pais dire-
tos) habitam cada vez com menor freqüência o mesmo lar, e os membros da família
estão dispersos.12
A individualização dos jovens suecos evidenciada ao longo deste texto não sig-
nifica necessariamente uma dissolução da solidariedade familiar. Na verdade, os
membros de uma família conservam entre si numerosos laços, ainda que ela esteja
dispersa geograficamente. Trata-se de laços emocionais, de contatos, de interações,
de trocas de serviços, de apoio, de visões do mundo e de práticas semelhantes:

Nós quatro somos uma família muito unida, eu conheço muito bem meus pais e suas
reações. Não somos o tipo de família que se encontra para comer todas as noites, mas
nos falamos com uma relativa freqüência, talvez duas ou três vezes por semana. Nós
não nos vemos muito, mas, de qualquer maneira, tenho a impressão de que somos bem
próximos (Elisabet, 25 anos).

Os encontros entre os membros de uma família não se fazem sempre em fun-


ção de uma refeição ou de uma festa, mas podem ter como objetivo uma simples
troca de serviços:

A gente se vê sobretudo quando há um jantar de família, pelo menos uma vez a cada 15
dias. Mas a gente também pode se encontrar por razões práticas, se devo ajudá-los a
fazer qualquer coisa ou pegar o carro emprestado (Mans, 22 anos).

Dessa maneira, o indivíduo escolhe os momentos de encontro com sua família e


os contatos familiares se tornam relações privilegiadas, no contexto da rede mais
extensa de relações sociais. Assim, pode-se falar de privatização das relações fami-
liares; elas não são mais vividas como obrigatórias e impostas, mas pertencem antes
à ordem das escolhas voluntárias. Os indivíduos dizem assim escolher o grau de
implicação dos pais em sua vida cotidiana:

Ontem à noite, a gente estava justamente falando, entre amigos, do grau de implicação
dos pais em nossas vidas, até que ponto devíamos informá-los do que a gente faz. Eles
perguntam coisas mas a gente sempre pode escolher o que quer contar a eles. Acho que
meus pais têm uma idéia bastante correta do que faço, porque eu quis que as coisas se
passassem dessa maneira (Andreas, 26 anos).

12
Dahlström, 1993.

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Magdalena Jarvin 31

C ONCLUSÃO

As entrevistas e as observações feitas com os jovens suecos permitem notar que


esses indivíduos dispõem de uma relativa liberdade de ação com relação a suas
famílias. De fato, ninguém falou de relações obrigatórias, no sentido de se sentir
forçado a visitar os pais: as ocasiões dos encontros são escolhidas. A única obrigação
que pudemos constatar foi de ordem prática como, por exemplo, a necessidade de
pedir o carro emprestado ou de discutir problemas financeiros.
Podemos assim pensar que os indivíduos criados em uma cultura que valoriza o
individualismo mantêm relações mais livres e voluntárias com as pessoas que os
cercam, na medida em que poucas relações sociais lhes são impostas. Se a família
se entende bem, talvez os filhos se sintam próximos de seus pais por um tempo
maior, ao passo que outros sentirão necessidade de romper esse laço. Tal constata-
ção não é válida apenas para os jovens suecos, mas parece que o relaxamento dos
laços familiares provoca menos espanto e é socialmente mais bem admitido entre
os suecos do que no contexto de uma cultura que valoriza fortemente a unidade
familiar.
Finalmente, existe ainda a questão do paradoxo aparente do modelo sueco: de
que maneira duas noções aparentemente contraditórias como a de espírito
coletivista e a de individualismo podem se conjugar? Propomos assim a idéia de
que, apesar desse contexto em que as obrigações são fortes, o Estado-providência
oferece aos indivíduos a possibilidade de se emanciparem do grupo familiar, gra-
ças ao apoio financeiro que propõe. Em troca, porém, o indivíduo se torna mais
dependente do Estado e é justamente essa recuperação da esfera privada pela
esfera pública que é característica do modelo sueco.

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32 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

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CAPÍTULO 2

A família ambígua. O caso dos


moradores dos subúrbios populares
de Bordeaux*
CYPRIEN AVENEL

A P R I N C I PA L Q U E S T Ã O A B O R D A D A N E S T E T E X T O refere-se ao estatuto da
família nos subúrbios classificados como “difíceis”, na medida em que, nesse con-
texto, ela constitui uma dimensão essencial do cotidiano.1 Essa interrogação nasce
da constatação de que a sociedade francesa veicula, de maneira bastante geral, uma
visão negativa dos habitantes dos grandes conjuntos populares: a de que a crise se
centra na figura genérica da exclusão. A visibilidade dessas pessoas resume-se ao
acúmulo de problemas que apresentam: desemprego, desestruturação familiar, aban-
dono parental, incivilidades, anomia etc. No entanto, a marginalidade é a pior
maneira de definir os moradores desses bairros. Qualquer que seja a diversidade dos
percursos ou das situações, eles estão, com efeito, amplamente integrados aos cânones
do modelo cultural dominante das classes médias, apesar de estarem sempre subme-
tidos a formas de rejeição. Tanto o estilo de vida almejado quanto as imagens de si
são modelados por normas similares, dominadas pelo investimento na esfera priva-
da, pela preocupação consigo mesmo e pela busca da autonomia. Eles sonham com

*
Tradução de Angela Xavier de Brito.
1
Apóio-me aqui no estudo de Avenel (1999) sobre um bairro ZFU (zona franca urbana) situado na periferia
da aglomeração de Bordeaux. O termo “zona franca urbana” define os bairros desfavorecidos que são objeto
de uma intervenção específica do Estado e das coletividades territoriais, a exemplo da política urbana e social.

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34 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

uma vida “banal” (seria ordinária, simples?), apesar de a escassez de recursos tornar tal
projeto bastante incerto e de o estigma transmitido pelo bairro não permitir uma
vida normal. Desse ponto de vista, o investimento na esfera privada familiar não é
apenas o “negativo” da integração, mas constitui-se igualmente em um ponto de
apoio essencial para a construção de si mesmo, ordenado pelo valor organizador do
reconhecimento pessoal. O princípio da individualidade traduz a exigência moral
dos atores. Ele indica ainda a constituição de uma norma social de autonomia como
modo de ação coerente no seio de uma sociedade na qual comportar-se como “indi-
víduo” significa ser autor de sua própria vida.2 Mas aqueles que aspiram à felicidade
privada de uma família, a uma vida profissional estável, ao sucesso da vida pessoal
são, ao mesmo tempo, excluídos pelo desemprego estrutural, pela segregação social
e pelos estigmas. Essas pessoas que se abriram inteiramente ao mundo e se encon-
tram diante de portas fechadas são simultaneamente absorvidas e rejeitadas pela
sociedade. Por um lado, os moradores aderem e aspiram ao modelo cultural da
sociedade de massa, no centro da qual se encontram as classes médias, cujas normas
e valores eles partilham; por outro lado, situados nos limites inferiores das classes de
renda, a privação econômica os impede de realizar ou satisfazer essas aspirações,
tornando-os dominados pela angústia obsessiva do fracasso.
As camadas populares do subúrbio vivem o conflito dessa experiência dual entre as
condições de vida e as aspirações culturais. A família está, precisamente, no coração
dessa situação paradoxal e carrega tais contradições. Ela se desenha, assim, de forma
ambígua entre dois princípios de orientação opostos. De um lado, a esfera familiar
privada é um ponto de apoio essencial que preserva uma imagem aceitável e o lugar no
qual se pode ainda exercer algum poder. Mas, de outro, ela marca também uma linha
de ruptura na qual se está o tempo todo ameaçado de fracassar. Desse modo, a família
torna-se ambígua: ela não é somente “desafiliação”, mas também reafiliação, ponto de
apoio e linha de ruptura, objeto de proteção e ainda o lugar de reclusão.
Após explorar as duas lógicas contraditórias que caracterizam essa experiência e
o conseqüente sentimento de ambigüidade, interroga-se sobre a natureza dessa
individualização submetida aos mecanismos do desemprego e da precariedade.

A FAMÍLIA ENQUANTO “ REAFILIAÇÃO ”

Os fundamentos
Nos bairros populares fortemente estigmatizados, a família é o campo de um
mecanismo central de demarcação no qual os indivíduos vivem através de relações
de diferenciação auto-alimentadas. Nenhum deles deseja assimilar-se ao seu meio,

2
Ehrenberg, 1995.

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Cyprien Avenel 35

estabelecendo uma distância do vizinho mais próximo, no qual ele vê o sinal de sua
própria infelicidade e do declínio coletivo.3 A família é o centro de uma clivagem
que separa drasticamente a esfera privada da habitação, em torno da qual se erigem
verdadeiras barricadas afetivas, e o espaço público do bairro, percebido como hostil
ou até mesmo perigoso. A esfera privada, definida como o campo fechado das rela-
ções íntimas, deve ser preservada, contrapondo-se ao espaço público do bairro,
percebido como facilmente invasor. Na medida do possível, os contatos exteriores
não devem sobrepor-se aos limites do lar. A vida privada se opõe à vida pública.4
A família permanece como o espaço privilegiado das relações de felicidade ínti-
ma. Ela constitui não apenas o suporte essencial da estabilidade afetiva, mas também
o lugar que permite resistir à decadência. Nela, os indivíduos se definem “positiva-
mente” como pessoas, enquanto o bairro os remete a uma imagem negativa. É na
esfera privada, sobretudo através do mundo do consumo que inclui a televisão e os
belos objetos de decoração, que os moradores “praticam” seu “pertencimento”5 ao
mundo social, defendem sua identidade e se afiliam ao modelo das classes médias.
Se o bairro é apresentado como o lugar da ausência, a esfera privada é concebida
como um lugar de presença permanente. Os apartamentos são cuidadosamente
mantidos e tanto quanto possível embelezados e decorados com detalhes e marcas
pessoais. A escassez de recursos não impede que eles sejam com freqüência repintados
ou redecorados, enquanto o espaço público do bairro parece relegado ao abandono.
Pouco importam os meios de que se dispõe, a morada é sempre individualizada e é
freqüentemente o lugar onde se pode fazer uma pequena cena teatral. Desligados
pelo estigma que os coloca do “lado ruim” da existência, assim os moradores se
“unem” do lado bom, no interior da casa, pois sabe-se que a aquisição de objetos
materiais serve de suporte aos discursos de distinção, suscita invejas, alimenta fofo-
cas e veicula uma lógica de demarcação. Na medida em que o sentimento dominan-
te é o de não viverem no lugar onde legitimamente deveriam, a distância social que
os separa do meio ambiente se reduz e sobretudo, como mostrou Schwartz (1990),
verifica-se praticamente sua “permeabilidade ao desejo” no seio daquilo que consti-
tui um verdadeiro “santuário familiar”. A afirmação da adesão aos valores e ao modo
de vida das classes médias é aí tanto mais forte e explícita quanto ela é desmentida de
maneira permanente pelo contexto imediato.
O recuo para dentro da esfera privada não deve assim ser apenas apreendido de
maneira negativa. Ele o é apenas parcialmente, na medida em que traduz uma atitude
voluntária e geral de privatização da existência. “A única coisa à qual eu me apego é
a família”, diz a maior parte dos moradores. Ela funciona como um mundo em si

2
Dubet, 1997.
3
Ainda que essa lógica não proíba a formação de relações de vizinhança e de ajuda mútua, que são tecidas
mais segundo afinidades eletivas do que segundo um registro comunitário (Avenel, 1997).
4
N. do T.: tradução literal do termo francês appartenance, para o qual não há tradução exata em português.

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36 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

mesmo, e sabe-se que os trabalhos históricos e sociológicos remetem à profundidade


de uma transformação cultural das atitudes desenvolvidas com relação a ela.6 Com
efeito, as funções verdadeiramente socializadoras da família, teorizadas por T. Parsons
nos anos 1960, que contribuem para a correspondência entre a felicidade privada e a
integração na sociedade, se separaram e se transformaram: por um lado, ela se tornou
um espaço de relações afetivas e íntimas e, por outro lado, um espaço de recursos de
mobilidade social ou não. Eis por que a estrutura e a organização interna da família se
declinam no plural, deixando aparecer “modelos” de arranjos sucessivos e aleatórios
destinados à gestão de um certo equilíbrio entre essas duas dimensões.7 Isso não quer
dizer que a família esteja em “crise” ou não exerça mais um papel de socialização, mas
que este último não é mais verdadeiramente o efeito direto de uma instituição, mas o
produto das trocas entre os atores. Ela se constrói como um espaço privado onde a
própria qualidade das relações entre o homem e a mulher, entre pais e filhos, alimen-
ta “o espírito de família”.8 Se a estrutura dessa experiência define amplamente o
modelo das classes médias, ela permanece um dado observável para os moradores do
bairro, mesmo que os termos dessa experiência se revistam de um conteúdo específi-
co. A ligação à esfera privada como espaço de construção da individualidade provoca
a emergência de um pólo familiar como lugar de investimento fundamental da exis-
tência cotidiana. Ela se opõe voluntariamente à vida do bairro muito mais do que se
constitui sobre o suposto desmoronamento das relações sociais coletivas.
O espaço privado é o mundo do “eu íntimo” e da revelação de si.9 Como diz um
10
beneficiário da Renda Mínima de Inserção: “Eu estou bem no meu apartamento, é
meu pequeno espaço, eu me sinto bem aí”. Ele funciona como um espelho que reflete
a imagem, no qual se pode contemplar a “própria verdade”. É aí que o indivíduo
pode ser reconhecido e se reconhece enquanto pessoa. A família aparece claramente
como o contrário da “obrigação”, e se experimenta menos pelo princípio do
“pertencimento” do que pelo jogo das afinidades eletivas ou das afiliações subjetivas.

6
A separação entre as esferas pública e privada, ou antes, a emergência da esfera privada como uma esfera
autônoma, é o resultado de uma longa história de diferenciação (Cicchelli-Pugeault & Cicchelli, 1998).
7
Kaufmann, 1992; Roussel, 1989.
8
Singly, 1987 e 1996.
9
Id., 1996.
10
Essa lei, votada em dezembro de 1988, visa a garantir a cada cidadão uma renda mínima de existência:
“Toda pessoa que, em razão de sua condição física ou mental, da conjuntura econômica ou da situação de
emprego, se veja impossibilitada de trabalhar tem o direito de se ver outorgar pela coletividade meios
adequados à sua subsistência”. O teto da alocação difere segundo a composição da unidade familiar e do
número de dependentes. Em 1o de janeiro de 2000, o montante da RMI era de 2.552F para as pessoas que
vivem sozinhas, 3.828F para os casais sem filhos, 4.594F para os casais com um filho. Por fim, essa lei vincula
o pagamento da alocação à assinatura de um “contrato individual” cuja finalidade é envolver o beneficiário
em um processo de inserção social ou profissional.

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Cyprien Avenel 37

De todos os pontos de vista, a comunidade familiar desenvolve a sociabilidade mais


intensiva e encarna uma certa imagem idealizada da felicidade. Uma moradora, en-
tre outras, sublinha as virtudes desse estar entre si: “Eu me sinto muito bem em minha
casa: eu, meu marido e meus filhos. Isso é o mais importante”. Nada disso é muito
original. Mas estar “entre si” parece o melhor meio de manter sua coerência pessoal.
Os moradores se definem como “indivíduos” no interior da família através da perma-
nência dos laços com seus próximos. Eis por que, menos como instituição do que
como foco das relações afetivas, a família é o centro da construção das identidades
individuais. Ela se define cada vez mais como um ponto de apoio psicológico e como
um princípio de identificação que com freqüência se impõe bem mais nitidamente
que os próprios critérios profissionais. Obviamente, o emprego é o critério essencial
de constituição de si enquanto indivíduo autônomo mas, fora da construção de uma
relação familiar ou conjugal, é um recurso ao qual parece sempre faltar alguma coisa.
O indivíduo tem necessidade de alguém que possa reconhecer nele algo mais do que
sua posição estatutária, sobretudo quando ele está desempregado. Da mesma forma, o
emprego em si não contribui verdadeiramente para um reconhecimento social que
permita a afirmação de sua personalidade individual. Nesse bairro, ele é muitas vezes
um emprego precário, penoso e malpago, sobretudo no caso das mulheres vincula-
das ao setor de serviços prestados a particulares. A preocupação consigo mesmo
torna-se bem mais visível na recusa a um trabalho instrumentalizado, podendo-se
observar por ela, de maneira muito aguda, o desejo de não sacrificar a vida privada ao
trabalho. Mas, ao contrário, a ligação à família que não é apoiada em uma atividade
profissional torna-se um tesouro suportável na medida em que manifesta uma inser-
ção limitada, na qual o indivíduo não se sente sufocado. Paradoxalmente, a impor-
tância da lógica filial aparece tanto no “superinvestimento” forçado no seio da ativi-
dade profissional, que leva a “sacrificar” a vida privada, quanto no desemprego.

A importância dos acontecimentos familiares


Não é por acaso que os acontecimentos marcantes da vida são acontecimentos
estritamente familiares ou pessoais, como nascimentos ou mortes, encontros amoro-
sos ou separações. Mas os acontecimentos relacionados ao emprego nunca são dire-
tamente mencionados, mesmo quando os moradores do bairro são diretamente atin-
gidos pelo desemprego ou pelas dificuldades financeiras.11 Da mesma forma, os

11
Pode-se verificar estatisticamente tal fato. Uma parte dos questionários aplicados na pesquisa do Instituto
Nacional de Estatística e de Estudos Econômicos (Insee), intitulada “Étude des conditions de vie des
ménages” (1994), realizada em 10 bairros desfavorecidos, se referia aos acontecimentos marcantes da vida.
Três quartos das repostas se referiam à vida familiar: mais de metade aos nascimentos e mortes, 1/5 aos
reencontros ou separações, enquanto os acontecimentos relacionados ao trabalho (emprego ou demissão)
constituíam apenas 5% das citações (cf. Duprez; Leclerc-Olive & Pinet, 1996).

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38 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

jovens definem o desemprego como a privação das possibilidades de fundar um lar,


pois sua maior aspiração é o desejo de felicidade conjugal. A principal porta de
saída da “marginalidade”12 é, com muita freqüência, definida pela “seriedade” de
uma relação amorosa, que pode marcar o contexto de um percurso de reafiliação
“social” através da dimensão conjugal. O encontro afetivo pode transformar um
percurso de destruição em uma situação de construção de si. É dentro do lar que o
desejo de vida e de realização de uma existência parece concretizar-se. A esfera
privada permanece o ponto de fixação da identidade e dos projetos. Por essa razão,
o lar exerce o papel de um amortecedor central do desemprego.
Os acontecimentos biográficos pessoais são tão determinantes na maneira de se
definir quanto os critérios de integração socioprofissionais. O desemprego parece
apenas imbricar-se aí. A formação do casal, o casamento, o concubinato, o nascimen-
to de um filho constituem eventos fundadores cruciais não apenas em sua qualidade
de marcadores “banais” da existência mas, sobretudo, porque eles encarnam critérios
essenciais de definição de si. Tanto para os homens quanto para as mulheres, o filho
cristaliza o principal pólo afetivo e consagra as fundações do recurso identitário mais
intensamente investido, no qual se cristaliza um desejo de apropriação e de realiza-
ção. Isso não é privilégio dos moradores de subúrbio, mas o filho reforça em seus pais
o gozo mais seguro dos valores privados e, em um movimento de decadência, ele
pode tornar-se o último meio para preservar uma identidade de pai diante das obri-
gações atuais. Da mesma forma, o divórcio é um critério essencial na maneira de
perceber-se a si mesmo, ainda que as conseqüências financeiras não sejam as mesmas
em função do gênero e do estatuto. Sabe-se que as rupturas conjugais precipitam os
riscos de precarização, sobretudo entre as mulheres sozinhas sem uma atividade pro-
fissional inicial.13 Além disso, a ruptura conjugal produz, com muita freqüência, duas
situações diferentes para os ex-cônjuges, na medida em que várias pesquisas demons-
tram que, em situação de igualdade estatutária, há uma redução da renda da mulher,
enquanto a renda masculina permanece estável, ou até mesmo aumenta.14 O divórcio
é uma síntese exemplar das transformações sociais contemporâneas. Nos Estados
Unidos, W. J. Wilson (1987) explicava, no contexto do gueto, o aumento das famílias
monoparentais pelo desemprego dos jovens de sexo masculino. Os estudos do Cerc
(Centro de Estudos sobre as Rendas e os Custos, 1993) constatam o mesmo mecanis-
mo na França e estabelecem correlações marcantes entre a precariedade profissional e
a dificuldade de constituir um casal. Existem fortes relações entre a pobreza econômi-
ca e o celibato, como ilustra o perfil dominante – sem emprego e sem cônjuge – dos
beneficiários da Renda Mínima de Inserção, mesmo se for complexa a análise dos
processos que orientam a combinação entre o desemprego, a estrutura familiar e o

12
N. do T.: o termo usado na versão francesa é galère, que faz referência a um trabalho de F. Dubet.
13
Martin, 1997; Lefaucheur, 1993.
14
Townsend, 1987.

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Cyprien Avenel 39

isolamento.15 Mas a monoparentalidade se explica igualmente por razões não-econô-


micas. Hoje em dia, o casal só parece perdurar se responde ao imperativo dos senti-
mentos amorosos que são nele investidos.16 Há também uma certa precariedade do
sentimento conjugal submetido à prova da “verdade” e também, por vezes, do desa-
mor. Tudo se passa como se o preço do bilhete de entrada para a esfera da “autentici-
dade” fosse muito caro. Encontra-se assim um número elevado de homens e de mu-
lheres divorciados ou separados que, seja qual for sua situação profissional, se defi-
nem em termos idênticos, de fazer de uma transição pessoal de suas vidas uma dinâ-
mica de transformação de si mesmos. Certas mulheres que fugiram do inferno conju-
gal e iniciaram um processo de divórcio desenvolvem uma visão positiva de si mes-
mas e definem sua situação como a vitória de uma liberdade pessoal, com freqüência
arrancada depois de longa luta dentro de um conflito sem saída, mesmo quando a
situação financeira se prova desastrosa. Durante a experiência conjugal, os moradores
podem acabar vindo para esse bairro, deixando atrás de si uma situação material bem
mais confortável ou estável, mas podem igualmente definir-se como atravessando um
período de reconstrução pessoal e não como vítimas de uma experiência de destrui-
ção social. Ora, esse tipo de trajetória não pode ser reduzido à desafiliação econômi-
ca, na medida em que define um continuum exclusivamente feminino ou masculino
que atravessa todas as categorias sociais e que é essencial à percepção de si mesmo.
Ao contrário, a infelicidade privada representa logicamente a infelicidade abso-
luta. Os moradores centrados em si mesmos depois de um acontecimento biográfico
doloroso são bastante numerosos. O divórcio cristaliza também os ressentimentos
mais agudos quando o problema da guarda das crianças resulta em conflitos violen-
tos.17 Poder-se-ia extensamente retraçar biografias familiares pontuadas das mais
brutais rupturas e violências, simbólicas ou reais. Os dramas familiares retornam
com uma constância pouco comum na descrição que os moradores fazem de seus
percursos. As trajetórias deixam entrever vidas bastante caóticas, afetadas por divór-
cios brutais, várias mortes, conflitos por demais confusos, internamento em institui-
ções especializadas de assistência social, acontecimentos que minaram os pontos
de apoio familiares e que constituíram marcos relevantes da existência. As situa-
ções de pobreza econômica se encontram por vezes imbricadas em uma longa his-
tória. V. de Gaulejac foi quem mostrou muito bem como os problemas afetivos das
famílias podem estar associados a um mecanismo de desinserção.18 Não convém
pintar o quadro mais sombrio do que ele é na realidade. Mas, com muita freqüên-
cia, retraçar um percurso pessoal durante as entrevistas significa contar uma série
de acontecimentos infelizes. Em suma, é bem difícil fazer sua essa história.

15
Kaufmann, 1994.
16
Singly, 1988.
17
Théry, 1993.
18
Gauléjac & Taboada-Leonetti, 1994.

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40 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

A FAMÍLIA ENQUANTO “ DESAFILIAÇÃO ” 19

Se o desemprego não destrói a interação familiar, provoca, no entanto, um certo


retraimento. A “fixação” familiar da sociabilidade não é sempre voluntária, mas se
faz amplamente em função das condições econômicas. O espaço de sociabilidade,
medido pelo número de relações extrafamiliares, é significativamente mais reduzido
para os desempregados do que para os indivíduos desfrutando de um emprego
estável.20 Os indivíduos mais pobres ou em situação mais precária têm menos ami-
gos, saem menos e praticamente não participam das formas institucionalizadas de
vida social, como associações ou sindicatos. O desemprego não acarreta apenas uma
diminuição da intensidade das relações familiares, mas ele tende a priorizá-las em
detrimento das relações de amizade ou sociais. Como enfatiza R. Castel, a débil
integração no mercado de trabalho é acompanhada de um enfraquecimento da in-
serção relacional. Essa combinação constitui mesmo uma espiral, na medida em que
reduz as oportunidades de ajudas materiais decisivas da família ou dos parentes, nos
casos de “golpes duros”. Em outras palavras, o desemprego produz uma restrição
dos contatos sociais que, por sua vez, vai privar o desempregado dos recursos neces-
sários para voltar a encontrar um emprego. No final, o mundo privado descrito
pelos moradores é, sobretudo, um mundo privado de experiências.

Experiência privada mas, sobretudo, privada de experiência


Os problemas de emprego, a falta de dinheiro e a debilidade da participação
social são efetivamente temas constantes. A privação econômica mantém a pessoa no
bairro e impede a participação em qualquer atividade de lazer, ainda que sejam ima-
ginadas e almejadas. De fato, as famílias têm uma situação financeira tão precária que
elas são, antes de tudo, confrontadas com o problema cotidiano do controle dos
recursos. Se a pobreza é relativa, ela é de qualquer forma vivida de maneira brutal,
porque obriga a consagrar o essencial de sua renda e de seu tempo às necessidades e
aos encargos mais elementares da vida cotidiana. Ela gera o sentimento de viver uma
luta diária, o núcleo familiar unido contra todos para garantir o mínimo. É comum
ocorrerem finais de meses praticamente impossíveis, com contas que não podem
mais ser assumidas, dívidas que se acumulam. Poucos são aqueles que dispõem de
meios suficientes para garantir a gestão das necessidades primordiais sem apelar para
a ajuda social. A falta de dinheiro invade assim a vida cotidiana, corrói o corpo e o
espírito, engendra um humor agressivo. “Tudo isso mina psicologicamente, não in-
cita a uma abertura aos outros.” Tudo concorre para um fechamento sobre si mesmo,
seus problemas e a esfera privada familiar, quando o essencial é preservá-la.

19
Esse termo foi cunhado por Castel (1991).
20
En marge de la ville..., 1997.

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Cyprien Avenel 41

Tal situação não é específica aos desempregados. Os casais que trabalham e que
dispõem de uma renda reduzida conseguem se manter, mas raramente têm certeza
de que sua situação será estabilizada. Eles se sentem ameaçados, vivem a angústia
latente da decadência e, se chegam a evitar o pior, não podem garantir o melhor.
Por exemplo, eles nunca tiram férias. Eles se definem como “trabalhadores pobres”
que mal conseguem, no final das contas, “se virar”. Certamente, eles se encontram
em uma situação social mais favorável que os seus vizinhos, quase sempre desempre-
gados, mas, ao situar-se apenas acima dessa linha, não podem, na verdade, se ofere-
cer os pequenos prazeres da vida. O investimento financeiro nos encargos mínimos
da moradia, do carro e das crianças engole o orçamento e elimina qualquer veleida-
de de consumo. Pode-se observar, com freqüência, casais fazendo compras com uma
máquina de calcular na mão, recorrendo a um grande número de lojas para assegu-
rar o consumo mais barato de bens. O desequilíbrio é evitado a tal preço. Esses
casais deixam entrever uma certa exasperação, pois os sacrifícios ascéticos nunca são
acompanhados de repouso e prazer. A sobrevivência econômica só é possível caso se
priorize a estabilidade interna do lar, mas ao preço da renúncia de qualquer outro
consumo. Igualmente, a experiência dos “trabalhadores pobres” define aqueles que
gastam tempo e energia em “apertar o cinto” e em “calcular tudo”, mas com um
sentimento agudo de privação, apesar de terem um emprego. Da mesma maneira
que os desempregados, eles se definem como “reduzidos” a viver o dia-a-dia em
função de um orçamento que restringe a existência e proíbe qualquer projeção séria
em direção ao futuro. No final das contas, a instalação durável dos casais em um
contexto de precariedade reintroduz a velha obrigação popular de uma vida funda-
da no presente e nos vemos compelidos a seguir o raciocínio de R. Castel (1995)
quando enfatiza claramente a emergência do que se pode chamar de “neopauperismo”.
É preciso então compreender que os moradores se sentem interiormente humi-
lhados ao não poderem participar da vida social “normal”, ao terem que consumir
apenas da maneira mais banal, ainda mais que, durante as interações ordinárias da
vida cotidiana, eles têm o sentimento de que os indivíduos em situação mais favorá-
vel ignoram a “realidade” de um modo de vida marcado pela precariedade. Ou seja,
que os “outros” nem imaginam que, nesses momentos difíceis, até mesmo a compra
de alguns selos não é garantida ou que tomar um ônibus para o outro lado da cidade
é ainda menos possível. A precariedade estabelece uma relação com o mundo social
secretamente dominada por um sentimento de humilhação e de injustiça porque o
desafogo, a liberdade e, finalmente, a arrogância dos demais estão muito distantes
de sua própria experiência. As famílias podem “se agarrar” e “resistir”, mas têm
sempre o sentimento de nunca poder viver “normalmente”. Na medida em que a
sociedade de consumo engendrou uma norma média de comportamento de referên-
cia, não poder se conformar a ela de forma corrente, ter de empregar diariamente
uma energia considerável para conseguir chegar ou tentar manter-se em um mínimo de
conformidade, provoca a sensação de ser rejeitado pelo modelo dominante. Resulta

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42 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

então um sentimento agudo de segregação relacional, na medida em que os cons-


trangimentos vividos levam sempre a uma maior redução do espaço. Os moradores
vivem como se estivessem encerrados em um quadro de vida compartimentado. A
principal conseqüência é um sentimento de fracasso.

O sentimento de fracasso
Escolher seu bairro em razão de dificuldades financeiras é vivido menos como
conseqüência de um destino coletivo do que como a experiência de uma injustiça
sofrida pessoalmente. Cada indivíduo define a si mesmo como possuidor de dispo-
sitivos que pedem para realizar-se:

Eu sou como todo mundo. Tenho o direito de viver minha vida, de realizar meus dese-
jos, de reivindicar meus gostos, de mobilizar meus talentos, minhas aspirações e as
qualidades que me são próprias.

O essencial é ser bem-sucedido na vida pessoal.21 Ora, a experiência que se vive


é a de fechamento, de privação, de desgaste. O estigma, as dificuldades financeiras
e o desemprego impedem tais pessoas de viver suas vidas. O sentimento que domi-
na é o de efetivamente não estarem onde deveriam se encontrar, de serem privados
das possibilidades de traçar o próprio caminho, de tal maneira que os problemas
econômicos são vividos insidiosamente como um problema “pessoal” que dá “dor
de estômago”. “A gente pensa, rumina, e termina dizendo que é a gente mesmo
que é ruim.” De fato, o desemprego não permite, no bairro, a construção de uma
linguagem coletiva que poderia engendrar uma ação de protesto. Ao contrário, o
fracasso é vivido como uma espécie de desprezo e de degradação da auto-imagem.
Se a questão do emprego é onipresente, é porque a privação relativa é um efeito
direto do desemprego. Claro, o trabalho assegura um estatuto, reforça a personali-
dade, permite desenvolver relações fora do lar e, dessa forma, autoriza o jogo com
o mundo social. Mas o emprego aparece, principalmente, como um meio de obter
a renda necessária para desfrutar suas aspirações. Idealmente, ele pode ser um
meio de desenvolvimento pessoal, mas ele não fixa uma identidade coletiva e não
tem significação fora da vida familiar: ele é totalmente exterior ao bairro. Em suma,
as capacidades de cada indivíduo para participar da sociedade de consumo são
estruturadas por uma questão pessoal, inscrita na separação entre vida privada e
vida pública. Por isso, quando as injunções ligadas à resolução dos problemas
financeiros tornam impossível o acesso a essa sociedade, o desejo de conformidade
social e os ressentimentos se vêem reforçados. O consumo não tem por única con-
seqüência a integração segundo uma sutil hierarquia de níveis de vida. Ele produz

21
Lapeyronnie, 1996.

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Cyprien Avenel 43

igualmente um sentimento de fracasso, mas um fracasso vivido de uma maneira


extremamente personalizada.

A ESFERA PRIVADA ENTRE PONTO DE APOIO


E LINHA DE RUPTURA

Quando os filhos se tornam o centro do emprego do tempo


Diante das dificuldades da inserção profissional, o núcleo central da identida-
de parental pode tornar-se a categoria social de referência e os filhos acabam sendo
a medida de todas as coisas. Esse é sobretudo o caso das mulheres sozinhas, sem
atividade profissional, cujo investimento na relação educativa pode ser tão intenso
quanto as experiências de fracasso no mercado de trabalho que a maioria delas já
atravessou. Pode-se então investir positivamente no lar, na criança e nas tarefas
domésticas, cumpridas com prazer, como uma espécie de atividade ritual, na medi-
da em que constituem o último ponto de apoio. O mais importante é que as crian-
ças tenham um bom desempenho na escola; dessa forma, tenta-se dar-lhes o máxi-
mo de vantagens e de proteção.22 Por isso mesmo, as experiências ligadas à comu-
nidade educativa dão um certo equilíbrio, um certo desenvolvimento de si. Muitas
mulheres e casais desempregados definem a vida da família e a educação dos filhos
como uma verdadeira “pequena empresa” que se deve tocar adiante. “Meu bebê é
minha empresa.” Fala-se disso como se fosse um ofício em si, como um emprego
preciso do tempo, que não deixa espaço ao aborrecimento. De fato, os filhos se
tornam o centro do emprego do tempo. Acontece que essa sociabilidade é uma
forma de inserção muito limitada. É uma retirada em direção à família que padece
da fraqueza das relações sociais sem que os indivíduos disponham dos recursos
para remediar esse fator. Tanto as mulheres como os homens dizem experimentar
um sentimento de satisfação e de tranqüilidade pacífica quando estão sós, no calor
íntimo do lar; mas de toda maneira, essa solidão é sempre vivida de maneira
ambivalente. Ela é percebida como uma forma de aprisionamento, mas também
como uma ilha de proteção que estabiliza a existência. O desejo de estabelecer laços
no exterior e o de retrair-se ao seio da família com as crianças coexistem. Enfim,
isso produz um sentimento de que a escolha não é bem voluntária, a impressão de
fechar-se em um casulo. A esfera privada funciona como uma armadilha e se torna
ambígua. Muito afastado da esfera do emprego, o indivíduo se retira para dentro
do seu lar, apossando-se de seus mínimos recantos, e termina por fabricar a própria
solidão, como um tesouro sofrido.

22
Lahire (1995) faz uma crítica do tema da demissão parental enquanto mito.

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44 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

O medo do declínio
A autonomia progressiva das crianças na passagem para a adolescência deixa os
moradores ainda mais sozinhos. Não apenas esses indivíduos acumulam problemas
de emprego e de finanças que os colocam à margem das modalidades “normais” de
participação social, como eles se transformam em “pessoas isoladas” no próprio
bairro. Enquanto a maior parte dos moradores “se agarra” e mobiliza toda a sua
energia para manter uma situação mais ou menos estável, uma importante minoria
ainda mais afastada do mundo do trabalho se deixa “abandonar” e tende a se retirar
cada vez mais do contexto em que vive, na medida em que a lógica da “desafiliação”
é acompanhada de dificuldades psicológicas que se imbricam inextricavelmente aos
problemas econômicos e sociais. Quando a situação de desemprego se eterniza, ela
provoca o sentimento difuso de se afundar em uma vida que se afasta progressiva-
mente da normalidade, na qual a inatividade instala um tempo cotidiano sombrio.
O mundo se retrai em uma totalidade – a esfera privada – que se transforma em um
“gueto” pessoal, na medida em que ele se torna o avesso da sociabilidade. A famí-
lia fechada sobre si mesma passa a ser a causa e a conseqüência das escassas possi-
bilidades de lidar com o mundo social: ela se torna ambígua. Se alguém pode
chegar a gostar de sua prisão, deve-se constatar que, por vezes, ela pode transfor-
mar-se em um verdadeiro inferno, pois não se dispõe de recursos econômicos e
sociais. A imagem mórbida da experiência descrita pelos próprios atores é a de uma
forma de cilada, um sentimento de estar fora do jogo, de não mais poder nem
querer jogar. Os indivíduos se preocupam mais em se proteger do que em elaborar
novas relações. Privado de ação, o indivíduo tende a proibir-se qualquer compro-
misso, mesmo ao preço de um recuo permanente sobre si mesmo como um mal
menor. A retração sobre si toma a dimensão observável do aniquilamento pessoal.
Os indivíduos não se definem mais por seus projetos, mas por estarem à espera de
interações. A infelicidade privada assinala então a infelicidade absoluta, o fracasso
mais completo – um fracasso vivido como inteiramente pessoal.
Resta ainda que, inversamente, a maioria dos moradores se sente aprisionada ao
domicílio sem tomar uma decisão nesse sentido. Eles ainda “resistem”, na medida
em que aspiram a um futuro melhor. Os atores manifestam então a vontade de se
reconstruir enquanto fonte de autoridade no interior da esfera familiar.

C ONCLUSÃO : O S “ PÉS ” NA PRECARIEDADE ECONÔMICA ,


A “ CABEÇA ” NO UNIVERSO CULTURAL DAS CLASSES MÉDIAS

Somos obrigados a reconhecer que o calor íntimo da família é constantemente


ameaçado pela frieza dos mecanismos da precariedade. Submetida às dificuldades
financeiras, a experiência cotidiana é, com freqüência, uma experiência de segrega-

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ção, que se traduz, no final das contas, em um recuo forçado para dentro da esfera
privada: uma experiência certamente privada, mas privada sobretudo pela priva-
ção. Tudo transcorre como se o bilhete de entrada na sociedade fosse comprado
em moeda forte. O cocooning23 – esse “envelope” familiar que isola do mundo
exterior, percebido como decepcionante ou até mesmo hostil, e que permite respi-
rar um ar de autenticidade onde se realiza a busca da intimidade – tem um preço
elevado. A vida privada só adquire conteúdo e sentido quando é uma vida separada
do trabalho ou que se opõe a uma situação profissional. Enquanto, para as classes
médias, a esfera privada é um ponto de apoio que permite fazer abortar do interior
os constrangimentos externos, ou que traz um aumento de satisfação e de proteção
para melhor afrontar ou dominar a vida pública, para os moradores dos subúrbios,
ela se transforma em uma retirada simultaneamente forçada e voluntária, em que
predomina a ambivalência. A ligação à família é sempre ameaçada pelo sentimento
de declínio, na medida em que a esfera privada não é senão o espelho do desem-
prego. A vida privada só é suportável quando se dispõe dos meios ou das relações
que permitam um afastamento. Presos nas piores dificuldades financeiras, os mora-
dores desses bairros são, de certa forma, os grandes “perdedores” de nossa socieda-
de. A exemplo do ator de E. Goffman (1991), criador de suas diversas “faces”, as
classes médias se definem pela capacidade de tirar proveito de uma pluralidade de
papéis sociais – os indivíduos são simultaneamente pais, amigos, vizinhos, colegas,
membros de uma associação – mediante o engajamento múltiplo mais ou menos
controlado de sua pessoa segundo os lugares e as situações. Já a identidade dos
moradores desses bairros tende a reduzir-se a uma “totalidade” única, a esfera priva-
da familiar, circunscrita pelo papel de pai ou de mãe, na qual a ligação com os filhos
é a medida de todas as funções. A capacidade de ampliar eficazmente a rede de
relações para além do círculo mais próximo fornece uma quantidade de recursos
indispensáveis, que não apenas dão acesso ao emprego, mas também preservam os
meios de se constituir enquanto indivíduo. Como diz F. de Singly, o mundo do “eu
íntimo” se opõe ao mundo do “eu estatutário” ao mesmo tempo em que se apóia
nele. O que distingue os moradores desses bairros não são as disposições subjetivas
quanto a esse modelo, mas os recursos econômicos e sociais para poder colocá-lo em
prática, sem o que a esfera de integração adquire um conteúdo essencialmente fami-
liar. Quando as raras relações sociais desaparecem, essa esfera se transforma em
solidão, por vezes bem profunda. A família é um ponto de apoio moral essencial,
mas constitui igualmente uma armadilha que traça a linha de oscilação. Ela não está
em crise, mas funciona tendo os “pés” na precariedade econômica e a “cabeça” no
universo cultural das classes médias.
É lícito assim perguntar se a única visão possível dessa experiência é a de ser
apenas um “simples” problema de desvio entre os recursos e as aspirações, no mo-

23
Cocooning – literalmente, “fechar-se em um casulo”; é o fechamento sobre a esfera familiar.

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46 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

mento em que a cultura integra e a economia exclui. Talvez seja preciso dar mais um
passo nessa análise. Tudo leva a crer que não se trata tão-somente de um conformis-
mo familiar frustrado, porém, de forma ainda mais profunda, de uma “tensão
identitária”, expressa pelos atores, entre sua experiência pessoal e as expectativas
sociais. Em outras palavras, o problema vivido remete menos à experiência da priva-
ção econômica que à privação da própria experiência. O problema é mais “o que eu
não sou” do que “o que eu não tenho”. A principal característica dos moradores
desses bairros é que eles vivem de maneira extremamente personalizada os proble-
mas da vida familiar e, de maneira mais geral, sua situação social. No final, eles são
levados a interiorizar a responsabilidade de seus problemas. A infelicidade privada
se identifica com o estigma e confirma o fracasso, mas um fracasso vivido de maneira
totalmente pessoal, como um “ódio” a si mesmo. De certa forma, estamos aqui dian-
te da parte maldita da individualização. Os indivíduos são projetados diante da
cena e devem colocar-se na frente, revelar-se e implicar-se pessoalmente. Eles são
“obrigados” a ser livres e autônomos em todos os níveis da estratificação social. Seja
na busca de um emprego, no trabalho escolar, na vida conjugal, na educação das
crianças, na implicação em um trabalho, na saúde, são incitados a assumir a plena
responsabilidade de si mesmos. Isso é simultaneamente um desejo pessoal e um
imperativo social.24 Esse processo é amplamente sustentado e reivindicado pelas
classes médias, ou seja, por aqueles que dispõem dos recursos econômicos e sociais
para levar a cabo esse ideal de vida. Mas esse modelo se transforma em uma história
trágica, ou até mesmo mórbida, para aqueles que não têm segurança de sua posição.
Ele suscita um temível sentimento de culpabilidade e de destruição da personalida-
de para quem se encontra em situação de fracasso. Os atores são invadidos por um
sentimento de desprezo. Eles parecem então menos dominados do exterior, pela
ausência de um emprego, que do “interior”, quanto à forma de se perceber. A esfera
privada se torna insidiosamente o próprio lugar da dominação na medida em que os
indivíduos, impossibilitados de identificar o responsável por sua situação, deixam
seus ressentimentos se diluir em direção a uma entidade neutra e impessoal, a socieda-
de global, ou seja: ao mesmo tempo, todo mundo e ninguém. Não há inimigo. No
máximo, o próprio ator se torna seu próprio “adversário” e o sentimento de estar
prisioneiro das quatro paredes de uma habitação se transforma no sentimento de
não mais ser ele mesmo, como se as “grades” da prisão se instalassem no interior
mesmo do indivíduo. O que é ainda mais importante: esses moradores se vêem
pelos olhos dos outros, pelos olhos das classes médias, desses atores que se dizem
integrados – ou seja, através das categorias do estigma e do fracasso, que eles acabam
por interiorizar. A relação consigo mesmo é determinada pela imagem negativa
enviada pelas classes médias. Os moradores experimentam então grandes dificulda-
des para se definir sem utilizar uma linguagem que os anule. Eles se vêem impossi-

24
Martuccelli, 1995.

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Cyprien Avenel 47

bilitados de falar da própria experiência sem tomar como suas as palavras e as ima-
gens de quem os destrói. Eles não são privados apenas de emprego, mas sobretudo
de definição autônoma de si mesmos. Acaso não haverá neste relato matéria sufici-
ente para pensar a relação de dominação social, não tanto do ponto de vista estrita-
mente econômico, mas antes do ponto de vista identitário?

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CAPÍTULO 3

Tempo familiar e tempo individual


entre desempregados*

CÉCILE BEAUJOUAN

DURANTE OS ANOS 1990, O DESEMPREGO AFETOU, na França, um entre


cada quatro casais. Esse fenômeno mantém, assim, relações bastante estreitas com a
família, e mais particularmente com os casais. Observa-se uma correlação bastante
forte entre a instabilidade profissional e o momento de formação de um casal, a
conjugalidade, a nupcialidade, a probabilidade de uma ruptura conjugal. Dessa
forma, seria interessante questionar o que se passa exatamente no interior das
relações conjugais durante essa experiência, examinando a maneira pela qual o
casal atravessa a “prova do desemprego”, como ele é afetado pela interrupção não
desejada da atividade de um dos cônjuges.

O DESEMPREGO COMO CHOQUE IDENTITÁRIO

Um momento crítico

A maioria dos trabalhos sociológicos que tratam do desemprego descreve essa


experiência como uma vivência dramática. Ao situar sua análise em uma perspectiva
bastante diferente, Sébastien Schehr (1999) mostrou, de maneira magistral, que uma

*
Tradução de Angela Xavier de Brito.

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50 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

grande parte das pesquisas acaba por apreender o desemprego em termos de carên-
cias e desvantagens, terminando por representar a pessoa desempregada como des-
tituída de tudo, como uma espécie de negativo do trabalhador assalariado.
Sem considerar o grupo formado pelas pessoas que procuram emprego como uma
população confrontada com experiências homogêneas, sejam quais forem as condi-
ções históricas e sociais dentro das quais evoluem,1 o desemprego parece, com efeito,
constituir hoje em dia, na França, um “momento crítico”, no sentido atribuído por
Anselm Strauss: o período de desemprego é comparado com freqüência a uma fase
da vida em que as pessoas colocam brutalmente em questão sua identidade. Na
tipologia proposta por Strauss (1992:101-2), esses choques biográficos podem ser
produzidos, por exemplo, quando certas instituições impõem a seus membros uma
prova ou um desafio, dando-lhes a impressão, nesse momento, de ter ou não supe-
rado uma etapa de sua vida ou de sua carreira, de ter evoluído, progredido, muda-
do: “Por exemplo, é preciso que toda aluna de enfermagem, no início de sua forma-
ção, atravesse a prova de ver um doente morrer em seus braços. Algumas pessoas
pensam que isso é um momento decisivo na concepção de si”. Nessa lógica, o cho-
que identitário que se segue ao desemprego derivaria do fracasso de uma prova,
forjada pelo conjunto da sociedade, que consiste em exercer uma função social
específica e colocar-se na pele do trabalhador assalariado.

Balanço crítico e questionamento das aptidões individuais


A não-adesão à figura típica do trabalhador assalariado que, de fato, se aparenta
freqüentemente a uma forma de desvio,2 assim como os discursos veiculados pelos
meios de comunicação de massa e pelos atores institucionais, que tomam freqüente-
mente a forma de uma lista de etiquetas estigmatizantes (excluídos, precários,
RMIstas,3 desempregados há muito tempo, desempregados desencorajados, pessoas
não-empregáveis etc.),4 contribuem para a emergência de um questionamento pro-

1
Ao estudar a emergência da categoria “desemprego”, Robert Salais (1986) sublinhou como a cessação
involuntária das atividades pode remeter a significações subjetivas das mais diversas ordens.
2
“O trabalhador acabou sendo promovido a um estatuto que nem sempre desfrutou e (…) poderíamos
dizer que um tal estatuto se encontra hoje em dia situado na vertente do normal (lembremo-nos das “classes
perigosas”), senão na vertente moralizadora (desempregados = malandros). Paralelamente a essa constitui-
ção do “modelo”, é preciso perguntar se aqui não se poderia transpor a análise de Y. Barel sobre o papel
social desempenhado pela denominação dos desviantes” (Schehr, 1999:13).
3
N. do T.: esse é o nome atribuído às pessoas que recebem o RMI (renda mínima de inserção), uma pensão
do Estado francês para as pessoas desempregadas há muito tempo.
4
Em seu livro Le chômage en crise, D. Demazière mostra que as categorizações propostas pelos funcionários
da Agência Nacional do Emprego (Anpe) desempenham um papel fundamental na construção de formas
identitárias negociadas entre as atribuições institucionais e as reivindicações das pessoas desempregadas.

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fundo do eu, ainda que a massificação do desemprego e o prolongamento de sua


duração mínima possam levar a crer em uma banalização dessa experiência. Durante
as entrevistas, pudemos constatar que as pessoas que procuram emprego, mesmo que
se recusem a considerar-se responsáveis por sua situação, consagram-se sempre ao
exercício de fazer um balanço crítico de sua trajetória escolar e profissional e de
colocar em questão suas competências individuais. Elas freqüentemente lamentam
sua orientação escolar e deixam entrever velhos sonhos com outras profissões:

Foi porque não assumi a tempo a responsabilidade para com meus estudos (…) se
tivesse feito as coisas a tempo, como me aconselhavam, creio que não estaria passando
por estas dificuldades aqui e agora (Francine).

Eu teria seguido medicina (Mourad).

Eu sempre sonhei em fazer veterinária (Elise).5

Podem também emergir julgamentos bastante severos sobre o conjunto da traje-


tória dos entrevistados, questionamentos por vezes brutais acerca de suas aptidões e
capacidades pessoais:

Não posso dizer que minha trajetória foi brilhante (Marcel).

O problema se situa mais no nível das relações (Said).

U MARECOMPOSIÇÃO IDENTITÁRIA EM UM TEMPO


E UM ESPAÇO NOVOS

A redescoberta do domicílio familiar


A prova do desemprego freqüentemente propicia um trabalho de recomposi-
ção identitária indispensável à retomada da atividade profissional, objetivo da
maioria dos desempregados. Preferimos aqui “recomposição” a “reconstrução”,
pois a descaracterização provocada pela experiência do desemprego faz com que
“reconstrução” tenha uma conotação por demais positiva. Mas o termo “recompo-
sição” apresenta alguns inconvenientes, na medida em que deixa subentendido
que os elementos utilizados nesse processo já estariam todos presentes, como se
todas as peças do quebra-cabeças identitário estivessem lá, faltando apenas o esfor-

5
A maioria dos trechos citados provém de entrevistas realizadas na Agência Local do Emprego de
Aubervilliers.

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52 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

ço de encaixá-las corretamente. Pode-se sem dúvida discutir a presença desses


elementos identitários, porém mostraremos mais adiante que ela é coerente com
nossa concepção de identidade.
O desempregado crê que sua busca resultará em uma volta ao trabalho. Ele pode
achar que seu eu atual é adequado a esse objetivo, quer dizer, que seu “eu estatutário”
não se alterou.6 Se tal não for o caso, ou seja, se o fato de ser posto na rua afetou
efetivamente seu edifício identitário, ele pode ser levado a rediscutir essa identidade.
Na verdade, consideramos o processo de construção identitária como um encontro –
por vezes dilacerado – entre as caracterizações estatutárias apresentadas pelo outro e
os atos de identificação, propostos pelo próprio ator, que definem sua “identidade
para si”. Retomando os termos utilizados por Goffman em Estigma (1975), a identida-
de aparece como o produto frágil da negociação entre a “identidade virtual”, ou seja,
a identidade socialmente atribuída, e a “identidade real”, reflexo de um eu autêntico
que se constrói para além das situações encontradas e sob o peso de uma coerência, na
intimidade de uma história pessoal. Claude Dubar (1991) chama de “transação subje-
tiva” esse trabalho de adequação das diferentes experiências vividas pelo indivíduo.
A renegociação identitária que se segue ao desemprego é elaborada no contexto
de uma volta ao domicílio conjugal. Com efeito, todas as pessoas em busca de
emprego que entrevistamos dizem passar muito mais tempo em casa quando estão
desempregados. O desempregado deve assim operar essa recomposição dentro de
um espaço que só ocupava antes em circunstâncias muito codificadas e que, por
vezes, requer ser redescoberto. Nesse contexto, ele não poderá evitar o julgamento
favorável ou crítico de seus familiares, sobretudo de seu cônjuge que, enquanto o
outro de referência, vai exercer na sua ação cotidiana um papel absolutamente
central de espelho, de reflexo da imagem da pessoa em busca de emprego. Em
razão dessa proximidade nova com o cônjuge e/ou os filhos, o espaço conjugal que
se pensava conhecer pode revelar facetas inéditas.

A reapropriação de um dia sem as referências temporais tradicionais


Da mesma forma, para levar a cabo essa obra de recomposição identitária, o de-
sempregado deve reapropriar-se de um tempo com novas cadências. Ele deve inscre-
ver-se em uma temporalidade diferente da temporalidade dominante dos ritmos so-
ciais próprios à sociedade do trabalho. Dominar o novo fluxo do tempo liberado
pela ausência de trabalho, não se afundar em um dia sem as referências temporais
habituais, sobretudo quando não se dispõe de um estatuto de substituição.7 Em resu-

6
Singly, 1996
7
É evidente que o emprego não é o único fator que fornece referências temporais. Por exemplo, todas as
atividades relativas às crianças – levá-las à escola, ajudá-las a fazer os deveres de casa, brincar com elas –
permitem que os atores organizem seu cotidiano em torno de referências sociais estáveis.

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Cécile Beaujouan 53

mo, não se entediar, eis o que está em jogo no processo de adaptação à nova situação
para a pessoa em busca de emprego. Podemos, de fato, levantar a hipótese de que há
coincidência entre estruturação pessoal e estruturação temporal e que as condições de
uma recomposição identitária que revalorize o eu profissional dependem da nova
organização temporal. Empregamos a expressão “tempo liberado” em vez de “tempo
livre”, noção sujeita a discussão, pois, como mostram alguns trabalhos, é importante
lembrar que a atividade do desempregado é em grande parte dedicada à procura de
trabalho, uma busca cotidiana e rigorosa. Ainda que o desempregado esteja momen-
taneamente liberado do trabalho, não é por isso que o seu tempo é livre; ao contrário,
é um tempo preenchido com obrigações.8 Mas o fato de o desempregado despender
seu tempo principalmente na busca de emprego não impede que o tédio apareça.
Pois, se para ser eficaz, a pessoa em busca de emprego deve organizar seu tempo em
função dessa procura, isso não impede que essa estruturação temporal seja, antes de
mais nada, uma reestruturação que exige um esforço que nem todos podem ou dese-
jam realizar. Como escreve Dominique Schnapper (1994:136), “a desorganização do
tempo acarreta o tédio e, ao mesmo tempo, torna impossível se dispor do tempo para
empreender atividades organizadas”. Ou seja, é o conjunto da existência, em todas
as suas dimensões, que pode ser profundamente afetado pela ausência de marcos
temporais, pela vertigem de um tempo vazio. Para que a pessoa em busca de emprego
possa forjar uma identidade social adequada a seus objetivos, ela deve reencontrar
uma temporalidade própria à experiência da vida cotidiana, para além de sua
recorrência, para além da não-evidência do mundo.

O DESEMPREGO COMO ORIGEM DE DUAS EXIGÊNCIAS


CONTRADITÓRIAS

As formas de participação do parceiro no processo


de recomposição identitária
A necessidade de ser apoiado na busca do seu eu é consubstancial à modernidade.
Nada mais natural do que incumbir ao cônjuge, enquanto outro significativo, a mis-
são de ajudar o parceiro a revelar sua identidade, confirmando ou negando a nova
identidade em descoberta.9 É através da função de revelação e de validação do outro,
exercida mutuamente pelos cônjuges, que se pode captar a importância do papel do
parceiro para o cônjuge no contexto de volta ao lar provocado pelo desemprego e nas

8
Ver, por exemplo, Zarifian, 1996.
9
Na concepção de François de Singly (1996), nos casais contemporâneos, um dos cônjuges assume os traços
ideal-típicos de Pigmalião, por seu paciente trabalho de revelação da identidade íntima e da confirmação
do mundo de seu parceiro.

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54 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

situações de crise que afetam as identidades. Pudemos constatar durante as entrevis-


tas que, na medida em que o desemprego é freqüentemente vivido como um choque,
nesse “momento crítico” ele suscita entre suas vítimas fortes expectativas de apoio de
seus familiares. A ajuda legítima é a que emana do parceiro. Para o desempregado,
trata-se principalmente de buscar fortalecer seu eu profissional e de encontrar ocu-
pações que lhe permitam “passar o tempo” liberado, ocupações possivelmente coe-
rentes com uma lógica de integração no mundo do emprego. As modalidades de
intervenção do parceiro na recomposição identitária do cônjuge são de ordem di-
versa. Pudemos identificar três tipos de participação direta do parceiro durante essa
negociação que conjuga a relação a si mesmo e a atribuição pelo outro de uma
identidade: o apoio discreto, o apoio ativo e a contestação identitária. É preciso
notar que esses três tipos de contribuição ao trabalho sobre si mesmo feito pela
pessoa que procura um novo emprego parece que podem ser mobilizados pelo mes-
mo parceiro durante diferentes momentos.
Em primeiro lugar, identificamos o que chamamos de “apoio discreto”, que con-
juga um leque de atitudes sem contornos claros, o que torna difícil diferenciá-las.
Essas atitudes podem ser desde comportamentos tão evidentes que são difíceis de
exprimir a encorajamentos mais precisos, passando pela simples presença, pela
escuta e pela compreensão. Não é de se espantar que essa forma de participação seja
difícil de perceber, pois uma das particularidades das relações conjugais é a sua
dificuldade de enunciação. As palavras mais simples, os hábitos corporais, as práti-
cas gestuais e verbais entre cônjuges são, por vezes, quase imperceptíveis e não se
enunciam com facilidade, simplesmente porque estão submergidos no cotidiano, na
duração, em estados de consciência que se sucedem e se fundem uns com os outros.
Seu caráter de evidência provém do fato de que passam pouco pela dimensão cons-
ciente. Dessa maneira, as frases recolhidas durante as entrevistas são, com freqüên-
cia, “breves, alusivas, banais”.10 Como uma parte das relações conjugais pertence ao
registro do indizível e do infra-reflexivo, não é surpreendente que, ao serem interro-
gados sobre as formas de apoio que recebem de seu parceiro, alguns entrevistados
tenham achado estranho ter que explicitar o que é evidente:

Bom, ela reagiu normalmente, né? (Bruno).

Afinal, quando o apoio se expressa, a primeira forma mínima de ajuda é a


simples presença silenciosa do cônjuge. O fato de estar presente, fazendo de con-
ta que nada aconteceu e sobretudo calando as censuras não é, para os entrevista-
dos, a marca de uma indiferença por parte do parceiro, mas sim uma manifestação
de pudor, um desejo de não oprimir o cônjuge pela lembrança incessante da
experiência dolorosa:

10
Kaufmann, 1996:91.

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Cécile Beaujouan 55

Antes de mais nada, sua presença física a meu lado, isso já significa alguma coisa, já é
algo positivo (Mourad).

De maneira geral, os termos empregados para descrever as modalidades desse


tipo de apoio são bastante vagos:

“me ajudar”, “me escutar”, “ela aceita minha situação”, “ela compreende minha vida”
(Maurice),

“levantar o moral” (Bruno e Mourad),

“ela compreendeu bem a situação”, “ela me compreendeu muito bem”, “ela compreen-
de, ora!”, “ela é compreensiva, francamente, ela é compreensiva, ela me ajuda na vida
cotidiana” (Mourad).

Essas expressões vagas designam, de maneira confusa, qualidades como a escuta,


a compreensão, a atenção, que os entrevistados têm certa dificuldade em evocar,
talvez porque eles mesmos não percebam concretamente como se materializam no
cotidiano, pois os sinais de apoio se confundem com os hábitos. Enfim, classificar
tais formas de encorajamento – enquanto valorização do “eu estatutário” do cônjuge
– na categoria do “apoio discreto” é sem dúvida arbitrário, na medida em que não se
distinguem muito claramente do que chamamos “ajuda ativa”. No entanto, pareceu-
nos que seu aspecto, sobretudo retórico, não compromete tanto o parceiro como os
outros tipos de apoio.
Distinguimos, a seguir, uma outra forma de consolidação identitária, que denomi-
namos “apoio ativo”. Por “ajuda ativa”, compreendemos o conjunto de ações concre-
tas realizadas pelo parceiro com o objetivo de facilitar a busca de emprego do cônju-
ge e de tornar seus dias mais agradáveis. Na maior parte do tempo, essas ajudas
tomam a forma de conselhos profissionais e de proposições de atividades que exijam
do parceiro uma forte implicação no empenho de confirmação identitária. Os conse-
lhos profissionais são uma forma voluntarista de acompanhar o cônjuge em sua busca
de emprego e, assim, uma forma de consolidação identitária. Na maior parte das
vezes, esse tipo de participação se dá quando o parceiro aproveita as ocasiões e per-
manece vigilante, à espreita dos contextos propícios à troca de informações:

Eles vão perguntar a todo mundo, “bom, será que alguém aí sabe o que é, eu tenho
alguém que está procurando um emprego, será que ninguém aí conhece uma empresa
que esteja recrutando gente?” Eles estão sempre perguntando para mim (Maurice).

Ao lado dessa lógica de difusão de informações, existe uma forma que exige um
maior investimento pessoal, na medida em que mobiliza o corpo e a atenção de

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56 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

maneira mais concreta. Ela consiste, por exemplo, em comprar e ler jornais e selecio-
nar ofertas de empregos para o cônjuge. Da mesma forma, a proposição de novas
atividades, cujo objetivo é tornar mais agradável a vida para o cônjuge durante o
período de desemprego, pode ser percebida como integrando uma lógica de valida-
ção identitária. O parceiro procura fazer com que o cônjuge “esqueça o estresse da
vida” de desempregado, ocupando seu dia com atividades (jardinagem, bricolagem,
leitura, lavagem da louça, passeios etc.), opondo-se ao tédio que o ronda. Tais pro-
posições não se destinam apenas a reafirmar a identidade, mas também a permitir
que a pessoa à procura de emprego realize sua busca em melhores condições e
atravesse de maneira mais amena um momento considerado difícil.

Às vezes, a gente vai pra fora de casa, nós temos um jardinzinho. Ela tenta fazer com
que eu trabalhe para esquecer um pouco as preocupações do cotidiano. Ela tenta
fazer isso, o jardim, a bricolagem. Às vezes, ela me traz – há uma biblioteca justo ao
lado de casa –, ela me traz uns livros para passar o tempo, né? Às vezes, eu a ajudo na
cozinha. Ela me diz: “Ei, você bem que poderia me ajudar a fazer isso, a lavar a louça,
não é?” Ela tenta de todo o jeito (Mourad).

A lógica aplicada nos casos que acabamos de mencionar – tanto de apoio discre-
to quanto de ajuda ativa – é a da validação mais ou menos intensa do eu do desem-
pregado. No segundo caso, valoriza-se sobretudo a “identidade estatutária”. O argu-
mento de que um dos tipos de ajuda é “discreto” e o outro “ativo” não basta para
hierarquizá-los, para considerar que um deles produz mais efeitos do que o outro.
Na verdade, pode-se considerar que a primeira forma de apoio é tanto mais forte
quanto ela é tácita, reiterada, fundada no cotidiano e inscrita em um procedimento
tido como natural, que se dirige, por essência, ao “eu íntimo”.
Identificamos igualmente alguns casos em que o parceiro contesta a identidade
do cônjuge, na maior parte das vezes através de censuras. Da mesma maneira que no
caso do apoio discreto, essa questão das censuras é freqüentemente expressa de
maneira confusa. Provavelmente, alguns entrevistados não retêm de forma clara o
conteúdo de censuras às vezes difusas e sem objeto preciso. É igualmente possível
que não queiram lembrar-se com precisão daquilo que é doloroso ou, caso se lem-
brem, que não queiram comunicar facilmente o que pensam ser necessário dissimu-
lar. Constatamos que essas censuras abstratas são freqüentemente ligadas a um de-
sentendimento anterior ao desemprego:

o desemprego só fez exacerbar conflitos que já existiam, né, simplesmente dando argu-
mentos complementares ou suplementares (Salim).

Dessa forma, as “críticas”, os “ataques sistemáticos”, os “golpes” com referência


ao desemprego de um dos entrevistados irrompem com regularidade a partir de um

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Cécile Beaujouan 57

“absurdo” ou de uma “besteira” (Salim). Por outro lado, as críticas dirigidas a alguns
desempregados parecem, pura e simplesmente, querer colocar em questão um certo
número de traços de sua identidade, com o objetivo de corrigi-los. Alguns parceiros
se entregam a uma verdadeira empresa de invalidação da personalidade do cônjuge,
como atestam as censuras particularmente duras que teve de suportar Elise, que diz
“ter-se enganado inteiramente”:

Eles te espezinharam, você tem uns horários de trabalho impossíveis (…) Você é sempre
boa demais, sempre de cara boa, sempre séria, sempre “bom, tá bem, deixa comigo”.

Tais censuras parecem afetar a essência dessa moça em busca de emprego, pois
ela mesma se define como “maníaca”, “atenta”, “ansiosa”, “conscienciosa”, e tantos
outros adjetivos que revelam uma grande aplicação, um verdadeiro desejo de dar o
melhor de si, que, para seu parceiro, parecem embebidos de muita ingenuidade, de
uma ignorância da dureza das relações humanas.

R ESERVAR ALGUNS MOMENTOS PARA SI MESMO

Como acabamos de ver, a presença do cônjuge pode algumas vezes revelar-se


reconfortante, e em outras difícil de suportar. Mas, de toda maneira, ela é primordi-
al, dado o lugar que as sociedades ocidentais contemporâneas atribuem ao cônjuge
no trabalho cotidiano de definição do mundo e de si mesmo, ainda mais em situa-
ção de crise. Ao mesmo tempo, porém, o desejo de autonomia pessoal com relação
à família, igualmente característico das sociedades contemporâneas, é manifestado
no cotidiano e se reveste de momentos de isolamento propícios ao diálogo interior
e à reconstituição identitária. François de Singly (1993) ilustra essa temática da auto-
nomia como construção cotidiana através da aspiração a apropriar-se do que ele
chama de “zonas pessoais” ou “territórios pessoais”, em oposição às “zonas comuni-
tárias”. Segundo Olivier Schwartz (1990), essa tendência à solidão, o recuo na esfera
familiar, encontram uma tradução específica nos meios operários do norte da Fran-
ça: as atividades desses homens dentro da esfera privada se caracterizam por um
desejo de “desenclausuramento” físico e simbólico. Ao descrever tais práticas, ele
fornece também uma definição original da vida privada que difere do significado
habitualmente dado a essa expressão e está relacionado à atração masculina pelo
exterior: a dimensão privada “remete (…) ao processo através do qual uma pessoa se
isola, toma posse de um espaço próprio e o subtrai – subtraindo-se simultaneamente
a si mesmo – das obrigações da socialização.11 Esse termo não é equivalente ao de
família, que pressupõe, ao contrário, a existência de laços, e levanta a questão das
esferas de autonomia que o indivíduo tenta investir no espaço intersticial deixado

11
Schwartz, 1990:21.

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58 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

pela vida familiar e pela vida profissional. Para Olivier Schwartz, esse desejo mascu-
lino de retirada e de fuga se explica pela vontade de escapar à impotência social
inerente à heteronomia própria ao trabalho operário e ao controle da esposa sobre a
esfera doméstica. Contestamos, no entanto, a concepção de que os valores centrífu-
gos sejam essencialmente masculinos. As entrevistas que realizamos mostram, com
efeito, que as mulheres têm uma vontade de “pertencer-se” que as faz igualmente
buscar uma porta de saída com relação à dependência tanto no “lá fora” quanto no
“lá longe”, para retomar os termos utilizados por Schwartz.12 Já Caradec, em seu
livro sobre o casal aposentado, utiliza a expressão metaforicamente expressiva de
“recantos próprios” para designar a apropriação de “zonas individuais” de recom-
posição dentro do domicílio conjugal. O escritório exerce com freqüência, segundo
Schwartz, o papel de “recanto”. Retirar-se para o escritório permite contornar o
veredicto social e ultrapassar as barreiras levantadas pela sociedade: as atividades de
natureza intelectual aí desenvolvidas dão ao desempregado a sensação de dispor das
capacidades necessárias para reintegrar o mundo do trabalho, mesmo se este último
lhe negou momentaneamente a identidade profissional que ele acredita estar confir-
mada. O desejo de escapar ao controle do grupo familiar para se refugiar em “terri-
tórios pessoais”, escapando desse modo ao seu “eu estatutário” de “marido”, é as-
sim, paradoxalmente, apenas uma condição para a reconstituição de um outro “eu
estatutário”, o profissional. Fizemos aqui alusão ao processo de construção social da
autonomia pessoal, mas poderíamos igualmente evocar os momentos solitários, opostos
aos momentos conjugais, na medida em que a repartição do tempo está em jogo
tanto na recomposição identitária quanto na divisão do espaço. Os diversos momen-
tos de reconstituição pessoal tomam assim a forma de várias atividades de
“desenclausuramento”. Algumas delas são claramente orientadas para o lazer e a
evasão – como a prática de um esporte, as pescarias, o café, o jardim, os passeios –
que derivam de uma busca do “lá fora”, enquanto outras – como a leitura, a música,
a decoração, a bricolagem, os bordados – derivam antes do “além”. Nas entrevistas
que fizemos, é a prática de um esporte que melhor representa as primeiras: ela visa
a “fazer esquecer de tudo”, “respirar” (Mourad), “liberar o espírito” e se “esvaziar
fisicamente” (Salim), “relaxar” (Maurice). Já as atividades do segundo tipo, quando
aplicadas às coisas, dão provas de um controle sobre o mundo próximo, abrem a
possibilidade de criar um universo encantado graças ao exercício de um savoir-faire,
de habilidades e de um sentido quase demiúrgico de modelamento das matérias e
das formas. Isso é o que Olivier Schwartz (1990:416) chama de “uma poética dos
objetos”, quando designa o artesanato dos operários do Norte, coisa que encontra-
mos igualmente em certas atividades femininas, como a decoração ou os bordados.
Da mesma maneira, certas atividades domésticas podem paradoxalmente constituir

12
Schwartz, 1990:345. A dimensão “exterior (fora)” se refere ao movimento de saída do espaço das obriga-
ções (família e trabalho), enquanto a dimensão “além” traduz as fugas poéticas e os devaneios.

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Cécile Beaujouan 59

atividades para “desaferrolhar”, como, por exemplo, passar roupa. Elas permitem
um encontro consigo mesmo e, dessa forma, tornam-se atividades cujo traço domi-
nante é “si mesmo-eu”, nas quais o “eu íntimo” ultrapassa o “eu estatutário”, mesmo
quando se fundam sobre o “si mesmo-nós”,13 ou seja, quando sua realização atesta a
primazia da célula familiar como princípio de identificação.

D ESEJO
DE ESTAR JUNTO E NECESSIDADE DE ESTAR SÓ :
A NEGOCIAÇÃO DE UMA “ BOA DISTÂNCIA CONJUGAL ” 14

Entre as duas exigências evocadas, a nova co-presença do cônjuge e dos filhos


pode tornar-se rapidamente problemática se, no contexto da volta a casa que caracte-
riza a experiência do desemprego, os momentos de proximidade e de separação não
são corretamente geridos. Ainda que se exija o apoio do parceiro, o desemprego pode
ameaçar a existência dos espaços de solidão necessários ao diálogo consigo mesmo,
indispensáveis a qualquer pessoa. Com efeito, a cessação de atividade pode constituir
uma ruptura na ordem frágil entre separação, afastamento, fusão e partilha que preva-
lecia anteriormente no seio do casal. Ao levantar o problema de uma presença simul-
tânea não habitual, ela pode levar a perturbações entre os cônjuges. Os primeiros
tempos do desemprego podem conter fases de incerteza e de hesitação quanto à
escolha dos momentos a passar juntos e à ocupação do espaço recentemente incorpo-
rado. O desempregado e seu parceiro devem se esforçar por construir um equilíbrio
entre momentos de vida conjunta e momentos de diálogo interior, devem negociar
uma “boa distância conjugal”, como atestam os dois trechos da entrevista abaixo:

Era outra coisa, eu ficava contente de voltar pra casa. Antes, eu quase não via minha
mulher e meus filhos durante o dia. Eu saía de manhã cedinho sem vê-los e voltava bem
tarde, à noite. Eu só os via à noite. Evidentemente, a necessidade não era a mesma.
Agora, bem, agora, a necessidade não é a mesma porque eu estou (…) eu a vejo regular-
mente. Então, não há nenhuma satisfação particular quando eu a vejo de noite (Salim).

Já Laura sofre com a atmosfera que se instaura em sua casa ao cair da noite. Ela
tem dificuldade em viver a transição entre a calma da tarde, quando a casa lhe
pertence, e a agitação noturna, que lhe dá o sentimento de que lhe estão roubando
seu universo íntimo:

À noitinha, eu me refugio no meu quarto (…) então, de noite, as coisas se passam assim.
Há o banho, o jantar e, depois do jantar, quer dizer, há o jornal na televisão e todo

13
Singly, 1993:100.
14
Caradec, 1996:95.

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mundo discute tudo. Meu filho pequeno faz a maior bagunça, os maiores lhe dão uns
bons gritos, eles brigam. Meu marido também grita porque não consegue fazer com
que se calem. Pra mim, este é o momento mais penoso, na verdade, entre oito e nove
horas. Depois, é como as coisas se passam… Eu subo pra botar a mais velha para dormir,
depois o menorzinho, e então só desço quando eles se acalmaram. Meu marido fica
vendo televisão, assim que o jornal termina, vem o filme. Geralmente, meu filho maior
fica com ele. E daí, bom, há um momento em que meus nervos cedem um pouquinho
(…) Eu me refugio no meu quarto, pego um livro mas não consigo dormir não (…)
(Laura).

A situação de desemprego requer assim, na maior parte das vezes, um acordo entre
os cônjuges quanto a uma organização que satisfaça a ambos, no que se refere às duas
exigências contraditórias acima evocadas. Nesse contexto em que ao mesmo tempo
prevalecem a busca de autonomia, ou seja, a necessidade de encontrar momentos para
si mesmo, e o desejo de estar com o outro, desfrutando de sua afeição e apoio em um
momento crítico, o sucesso do esforço de recomposição de si e, conseqüentemente, a
possibilidade de voltar a trabalhar dependem da articulação entre a apropriação de
“zonas individuais” de reconstituição e momentos de vida em comum.

R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Caradec, V. Le couple à l’heure de la retraite. Rennes, PUR, 1996.


Demazière, D. Le chômage en crise. Lille, PUL, 1992.
Dubar, C. La socialisation. Paris, Armand Colin, 1991.
Goffman, E. Stigma. Prentice-Hall, 1963. Trad. francesa: Stigmate. Les usages sociaux des
handicaps. Paris, Minuit, 1975.
Kaufmann, J.C. L’entretien compréhensif. Paris, Nathan, 1996.
Salais, R.; Baverez, N. & Reynaud, B. L’invention du chômage. Histoire et transformations de la
catégorie en France des années 1890 aux années 1980. Paris, PUF, 1986.
Schehr, S. La vie quotidienne des jeunes chômeurs. Paris, PUF, 1999.
Schnapper, D. L’épreuve du chômage [1981]. Paris, Gallimard, 1994.
Schwartz, O. Le monde privé des ouvriers. Hommes et femmes du Nord. Paris, PUF, 1990.
Singly, F. de. Sociologie de la famille contemporaine. Paris, Nathan, 1993. (Col. 128.)
———. Le soi, le couple et la famille. Paris, Nathan, 1996.
Strauss, A. Miroirs et masques. Paris, Métailié, 1992.
Zarifian, P. La notion de “temps libre” et les rapports sociaux de sexe dans les débats sur la
réduction du temps de travail. In: Hirata, H. & Senotier, D. Femmes et partage du travail.
Paris, Syros, 1996. p. 25-38.

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parte II

R ELAÇÕES ENTRE GERAÇÕES :


INDIVIDUALIZAÇÃO E
SOLIDARIEDADE FAMILIAR

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CAPÍTULO 4

Mulheres francesas de origem argelina.


Conquista da autonomia e reelaboração
dos modelos familiares tradicionais*
MARNIA BELHADJ

UMA D A S R E V O LU Ç Õ E S M A I S M A R C A N T E S D O S É C U L O X X foi certamente


a progressiva escolaridade das mulheres e a possibilidade de elas obterem os mais
diversos diplomas e especializações. O acesso das mulheres à instrução afetou o
conjunto de seus comportamentos. Apesar de persistirem importantes desigualda-
des profissionais e familiares entre os gêneros, a escolarização das mulheres contri-
buiu para atenuar os efeitos desses fenômenos, autorizando-as a utilizar estratégias
que colocam em questão a ordem vigente. Cada vez mais diplomadas, as mulheres
participam ativa e maciçamente da vida profissional e têm acesso a empregos mais
qualificados do que no período precedente. Tais mutações são acompanhadas de
profundas transformações pessoais e familiares, que se traduzem sobretudo em um
aumento do número de mulheres solteiras e em uma reinterpretação dos modelos
conjugais e familiares.
Qual seria então a situação das filhas de pais magrebinos1 cujo desempenho
escolar é por vezes superior ao dos jovens da mesma origem social? Quais as conse-
qüências do sucesso escolar sobre suas estratégias individuais e familiares? Tal ques-
tão é de suma importância na medida em que essa dinâmica põe em jogo situações
*
Tradução de Angela Xavier de Brito.
1
N. do T.: na França, os países do norte da África (Argélia, Tunísia e Marrocos) são denominados de
Maghreb. Daí o adjetivo maghrébin, em português magrebino.

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64 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

capitais, tanto para elas mesmas quanto para o conjunto do grupo familiar do qual
são originárias. Ao favorecer o acesso aos empregos qualificados, a obtenção de
diplomas reconhecidos contribui igualmente para uma evolução acelerada das men-
talidades no interior da célula familiar, através de uma elaboração dos modelos
familiares tradicionais.
Com efeito, esses modelos sofreram várias fases de transformação. A primeira
delas se deu com a imigração dos pais e a conseqüente passagem da família extensa
à família nuclear. Isso acarretou importantes mudanças, sobretudo para as mulheres,
que viram sua posição e seu papel reforçados e ampliados no próprio seio da famí-
lia. Mas essa passagem marca principalmente uma importante distância e uma rup-
tura com os modos de funcionamento familiar da sociedade de origem. A segunda
fase surgiu com o advento das jovens gerações socializadas e escolarizadas na Fran-
ça, que contribuem para a penetração dos valores franceses no seio da família.
Com as jovens, as famílias experimentam mudanças de maior amplitude, visto
que elas atingem os próprios fundamentos da organização familiar e do modo de
regulação das práticas e das relações familiares magrebinas. Desde muito cedo con-
frontadas com as obrigações familiares e domésticas, as jovens mulheres se mostram
mais dispostas do que os rapazes a questionar a ordem familiar tradicional. A fre-
qüência à escola assim como a participação em diferentes atividades sociais e profis-
sionais acentuam seu processo de aculturação e de distanciamento das normas e
concepções familiares.
As transformações que as jovens e suas estratégias provocam no seio das famílias
argelinas são muito importantes, mas dificilmente é possível medi-las ou quantificá-
las, uma vez que elas acontecem dentro do microcosmo familiar. As lutas domésti-
cas, aparentemente minúsculas mas altamente simbólicas e eficazes, que essas jovens
mulheres travam graças ao seu sucesso escolar permitem-lhes conquistar a autono-
mia, sem que por isso tenham que romper relações com pais aos quais são estreita-
mente ligadas. Através dessas disputas pela autonomia, a ordem familiar tradicional
é abalada e posta em questão. Essas transformações afetam todas as camadas sociais,
inclusive as mais modestas e, portanto, mais sujeitas a permanecerem tradicionais
justamente em razão das formas de reagrupamento que elas são obrigadas a suportar
no interior de suas moradias precárias.
Tudo isso pode ser constatado através das estratégias de um grupo de jovens
mulheres de origem argelina nascidas e socializadas na França, com uma trajetória
de sucesso escolar e profissional, cujos pais chegaram à França no início dos anos
1960 (antes da independência da Argélia) e se instalaram nas favelas de Nanterre.2

2
Este estudo foi realizado durante minha tese de doutorado (Belhadj, 1998), defendida em 30-11-1998, sob
a direção de Dominique Schnapper, diretora de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales de
Paris. Este trabalho se apóia em entrevistas biográficas realizadas com 90 jovens nascidas na França de pais
argelinos.

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Marnia Belhadj 65

Essa cidade operária do noroeste de Paris abrigava, naquela época, uma das maiores
favelas da região parisiense, habitada essencialmente por argelinos que, devido à
grave crise de habitação, não encontravam outros lugares onde morar. Os pais de
condições modestas eram, em sua grande maioria, operários não-qualificados e a
única fonte de renda de famílias com uma média de seis ou sete crianças. Tais
famílias viveram uns 10 anos nessas favelas antes que o governo as realojasse em
“cidades de trânsito”, construídas com material pré-fabricado e habitadas, em sua
maioria, por famílias de origem magrebina e portuguesa. Permaneceram nessas ci-
dades de trânsito durante uns 15 anos, antes de ter acesso a um apartamento em
HLM.3 Todas essas jovens de origem operária compartilharam da mesma experiên-
cia e suas trajetórias sociais e familiares são bastante semelhantes. A presença, no
conjunto pesquisado, de um grupo de controle constituído de 20 jovens do sexo
feminino de origem argelina cujas famílias têm uma trajetória diversa ilustra tanto a
diversidade das experiências e dos percursos migratórios, sociais e familiares no
seio da população argelina vivendo na França, quanto seus efeitos diferenciais sobre
os comportamentos individuais e familiares.

M ANTER A COESÃO FAMILIAR : UM MEIO DE CONCILIAR


OS PROJETOS PESSOAIS E OS LAÇOS FAMILIARES

A maioria das estratégias praticadas por essas jovens converge para um mesmo
objetivo: manter uma coesão familiar que lhes permita conciliar uma participação
ativa na vida social e profissional e a ligação afetiva e simbólica que mantêm com
suas famílias de origem. As duas coisas não são necessariamente incompatíveis,
mas, para tanto, faz-se necessário um esforço de conciliação, na medida em que as
ações se desenrolam no interior de dois espaços diferentes – o espaço social e o
espaço familiar (onde as referências culturais não são as mesmas) – e se desenvol-
vem sob o efeito de um duplo processo de socialização familiar e de aculturação aos
valores da sociedade francesa. Embora a ação familiar não se oponha sistematica-
mente à da sociedade, e vice-versa, não há uma harmonia preestabelecida entre as
concepções e as práticas familiares e os valores transmitidos pelas outras instâncias
de socialização. Assim, as famílias podem ao mesmo tempo prolongar e comple-
mentar o papel dessas instâncias, enviando os filhos à escola e estimulando-os a
adquirir um estatuto social e profissional, enquanto moderam as influências exter-
nas que, segundo eles, podem exercer um papel nefasto sobre seus comportamen-
tos. No caso das jovens, isso se manifesta por uma vigilância e por uma restrição às
saídas de casa, o que reduz consideravelmente sua autonomia pessoal.

3
N. do T.: os HLMs (habitações de baixo aluguel) são conjuntos habitacionais de propriedade do governo
francês, alugados a pessoas de baixa renda.

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66 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

As estratégias elaboradas pelas jovens entrevistadas consistem assim em encon-


trar um princípio de regulação e de unificação entre os dois marcos cotidianos de
suas vidas. Em outras palavras, elas buscam estabelecer uma coesão entre, por um
lado, as expectativas dos pais e a ligação afetiva e simbólica com a família e, por
outro lado, suas aspirações pessoais e a realização de projetos fora do ambiente
familiar. Manter uma coesão entre esses dois espaços de vida é tarefa muito difícil,
na medida em que é preciso conciliar duas forças bastante contraditórias. E isso
passa pela busca de coerência, de tal maneira que uma não interfira na ação da outra
ou que elas não corram o risco de se fundir – risco particularmente grande quando
os indivíduos estão ligados por laços de filiação e laços afetivos que implicam uma
adesão ao grupo. A coesão familiar requer assim esforços permanentes no sentido de
manter um equilíbrio dinâmico entre as diferentes forças em ação, ou seja, as neces-
sidades de individualização e de autonomia (as duas estimuladas pela cultura das
sociedades ocidentais), por um lado, e as necessidades de afiliação e de identifica-
ção, por outro lado.
Essa coesão nunca é perfeita ou harmoniosa. Surgem tensões entre as filhas e seus
pais e se estabelecem relações de força que ameaçam romper o equilíbrio familiar.
Nesse caso, faz-se necessário aceitar acordos e concessões, com o objetivo de regula-
mentar os conflitos e de evitar os riscos de uma ruptura definitiva.
Para compreender em que consistem as estratégias de coesão familiar, é necessá-
rio analisar as relações que essas jovens entretêm em seu contexto familiar e a ligação
que mantêm com ele.

O apego à família
Esse apego se manifesta tanto em relação aos pais quanto em relação a certos
valores familiares transmitidos na infância. Trata-se de normas de comportamento,
de conduta ou de hábitos como o respeito às gerações mais velhas, a ajuda mútua e
a solidariedade familiares, a convivibilidade, a hospitalidade, as atitudes à mesa ou
ainda um conjunto de saberes e de crenças que constituem, para essas jovens, um
legado familiar.

Solidariedade familiar e sentido do dever


Para muitas dessas jovens, a família constitui o núcleo central, a célula de base em
direção à qual tudo converge. Se algumas a julgam constrangedora, por vezes “sufo-
cante”, para a maioria, ela permanece uma fonte de equilíbrio. A família ocupa um
lugar central, apesar de as relações que elas mantêm com essa instituição serem muitas
vezes difíceis. A concepção da família como pilar fundamental da organização da
existência dos indivíduos revela simultaneamente a intensidade dos laços que as unem
ao ambiente familiar e a sua singularidade, implicando uma forte solidariedade entre

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Marnia Belhadj 67

seus membros. Esta é ainda mais forte na medida em que a emigração separou os pais
do resto do grupo familiar e reforçou os laços em torno do casal e dos filhos. As
conseqüências disso, sobretudo para as populações imigrantes originárias da bacia do
Mediterrâneo, são a existência de formas específicas de vida familiar, a consolidação
dos laços familiares e uma ajuda mútua que os franceses do mesmo meio social fre-
qüentemente desconhecem. Mais do que um valor transmitido durante sucessivas
gerações, a solidariedade familiar representa, nesse contexto, um dever que se impõe
a todos. Essa concepção solidária da família foi bastante interiorizada pelas jovens
entrevistadas e faz parte integrante de seu modo de representação e de sua personali-
dade. O apoio familiar não é apenas uma obrigação, representa um princípio de vida
e um elemento fundador das relações familiares. A ligação com a família se confunde
assim com a solidariedade e a ajuda mútua familiares. Para essas jovens, ela se traduz
concretamente no apoio moral e financeiro que elas devem aos pais, irmãos e irmãs
em idade escolar ou desempregados, mas também na responsabilidade que assumem
pelas questões administrativas e pelo acompanhamento do processo de escolarização
dos membros da fratria. Essa ajuda mútua engloba ainda o acompanhamento e a
responsabilidade pelos pais enfermos ou idosos, cujo internamento em asilos de ve-
lhos não é nem mesmo evocado. Tal prática – comportamento corrente nas socieda-
des modernas mas ignorado em muitas sociedades não-ocidentais, sobretudo nos
países árabo-muçulmanos – é percebida pelas jovens entrevistadas como contrária aos
valores de solidariedade transmitidos por seus pais, que elas adotaram.
O forte apego à família implica igualmente a aceitação de certas regras de condu-
ta necessárias à manutenção dos laços familiares, como aquelas que regem as práticas
matrimoniais que proíbem as mulheres de se casarem com homens de origem não-
muçulmana ou ainda de deixar o lar sem se casarem. Tais normas, abordadas adian-
te mais detalhadamente, as obriga com freqüência a desenvolver estratégias visando
a conciliar as próprias aspirações com as de sua família.

Preservar uma herança cultural


O apego à família se manifesta igualmente pela vontade de preservar uma heran-
ça cultural, através da manutenção de hábitos culinários e da celebração de certas
festas culturais e/ou religiosas, mas também por uma identificação com a “comuni-
dade” muçulmana e pela solidariedade ao país de origem de seus pais. A prática do
jejum durante o Ramadã e a abstinência de carne de porco são as principais prescri-
ções alimentares observadas em sua vida cotidiana.4 Além dessa adesão à religião
4
A observação do jejum do Ramadã constitui, com a profissão de fé, as preces, a peregrinação a Meca e a
esmola, um dos cinco pilares do Islã. Para os muçulmanos, essa prática consiste em se privar de todo
alimento ou bebida, e também de relações sexuais, no período que vai do nascimento ao pôr-do-sol
durante 30 dias completos. No mês de Ramadã, a pessoa que observa o jejum deve ter uma conduta
exemplar para com os outros, evitar palavras que possam ferir e destratar, ajudar os mais fracos e os mais

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68 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

herdada, sua atitude expressa um vínculo a um modo de vida caracterizado por um


contexto e uma convivibilidade particulares, que remetem à própria família. Dessa
forma, a observação do jejum do Ramadã não é concebível sem o ambiente e o calor
familiares, no momento em que todos os membros da família se reúnem em torno da
mesa para compartilhar a única refeição do dia. A dimensão familiar da relação com
esse sistema de valores dos pais é aqui manifesta e é igualmente encontrada entre os
judeus praticantes e o judaísmo.5
A fidelidade à herança familiar passa igualmente pela transmissão da língua – o
árabe, ou o cabila, que várias dessas jovens aprenderam com os pais – e de uma his-
tória familiar – a de seus pais, de sua migração para a França, mas também a história
da própria migração. Esse legado é, ao mesmo tempo, elemento constitutivo do
patrimônio familiar e de sua própria identidade. Por isso, elas desejam transmiti-lo
mais tarde aos filhos.
Essa maneira de manifestar o apego à família é ainda mais evidente quando elas
se conscientizam da intensidade do processo de aculturação aos valores transmiti-
dos por outras instâncias de socialização e da necessidade de conservar algo da
herança familiar. Esta se combina com outras normas e valores transmitidos no pro-
cesso de escolarização e nas atividades sociais e profissionais a partir dos quais elas
elaboram o próprio sistema de valores. Sua herança cultural é assim o resultado da
seleção efetuada no interior de um conjunto de valores transmitidos pelos pais,
entre os quais elas só conservam aqueles que julgam adequados ao seu sistema de
referências e representações, reinterpretados em função do contexto cultural em que
vivem e de suas próprias expectativas.

Lógica profissional e coesão familiar


Os laços particulares tecidos entre essas jovens e a família as conduzem a gerir
socialmente a ligação familiar, combinando-a com a necessidade de participar ativa-
mente da vida profissional. O fato de exercer uma atividade profissional não é
incompatível com o apego à família. Há algum tempo seus pais integraram a idéia
de que as mulheres trabalham, mas eles ainda têm certa dificuldade em aceitar as
obrigações decorrentes desse trabalho, como o afastamento do domicílio familiar.
Tal atitude freqüentemente revela seus medos com relação ao exterior e sua recusa a
ver a filha deixar um dia a casa paterna sem ter-se casado. Essa é uma das inúmeras
preocupações que essas jovens interiorizaram e que tentam conciliar com a vida
profissional.

vulneráveis em suas tarefas cotidianas. Esse mês é igualmente o período de reconciliação, de meditação e
de reflexão sobre si mesmo. O término do jejum do Ramadã, decretado pelas autoridades religiosas, é
celebrado com uma festa chamada Aïd el fitr (festa da refeição) e com uma prece solene na mesquita.
5
Schnapper, 1980.

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Marnia Belhadj 69

Assim, o espaço profissional é, na medida do possível, cuidadosamente limitado:


de preferência, elas escolhem um emprego próximo ao domicílio familiar. A maior
parte delas trabalha no município onde residem com os pais ou em um município
vizinho. Esse é sobretudo o caso das que exercem uma atividade no setor hospitalar,
em que as ofertas são em geral mais abundantes e o leque de possibilidades de
emprego mais amplo. Mas essas escolhas respondem igualmente a suas próprias
necessidades, na medida em que as vantagens em termos de repouso e ganho de
tempo não devem ser desprezadas. Tal atitude reduz consideravelmente a mobilida-
de profissional e exclui uma mudança eventual, que as obrigaria a deixar o meio
social e familiar, ainda que em detrimento de uma promoção. O fato de a maior
parte delas ser solteira e não ter filhos não muda nada. A manutenção dos laços
familiares é, desse ponto de vista, prioritária.
Um outro aspecto importante dessa conciliação é a vontade de respeitar a prática
do jejum do Ramadã mesmo quando trabalham. Apesar de muitas delas terem cons-
ciência das dificuldades que isso acarreta, esforçam-se por observá-lo, ainda que de
maneira parcial. Estão nesse caso principalmente as jovens que exercem uma ativi-
dade no setor hospitalar, no qual é possível adequar mais facilmente os horários em
função do período de jejum.
A preocupação com a coesão familiar se traduz ainda em evitar-se cuidadosamen-
te qualquer risco de ruptura com os pais em razão da saída precipitada do domicílio
familiar. Dessa forma, apesar do exercício de uma atividade profissional estável e
remunerada que lhes permitiria o acesso a uma verdadeira independência, a maior
parte delas prefere continuar vivendo com os pais. Essa atitude contrasta com a que
em geral se observa entre jovens francesas da mesma idade, para quem a obtenção de
um emprego e de um salário estáveis é freqüentemente sinônimo de emancipação
familiar.6 Tal não é, de maneira alguma, o caso desse grupo de jovens, que manifesta
assim sua vontade de manter intactos os laços familiares. Para os pais, deixar o
domicílio parental sem se casar equivale a uma ruptura definitiva com a família. Essa
forma de intransigência basta, com muita freqüência, para dissuadir as jovens de
partir, apesar de suas aspirações à autonomia. Por outro lado, adquirir independên-
cia com a perspectiva de viver sozinha, quando elas sempre conheceram uma vida
familiar muito intensa, não responde também às suas necessidades, pelo menos não
no plano imediato. A coabitação familiar é percebida por enquanto como um mal
menor, por vezes mesmo como uma escolha pessoal, ainda que se inscreva em uma
lógica familiar.

6
Segundo a pesquisa Emprego 1990 do Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos sobre o Emprego
(Insee), a maioria das jovens entre 25 e 29 anos titulares de um emprego estável não mora mais com os pais.
Nessa faixa de idade, elas deixam a casa dos pais com mais freqüência do que os homens. A coabitação com
os pais é sobretudo observada entre os estudantes, os desempregados ou as pessoas em situação precária.

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70 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Escolhas matrimoniais: um ajuste entre aspirações pessoais


e expectativas familiares
A vontade de preservar os laços familiares e de manter a coesão da família se
manifesta, de maneira ainda mais flagrante, em suas estratégias matrimoniais. Desse
ponto de vista, a escolha do cônjuge é bastante reveladora. Ela resulta, com efeito,
de um ajuste entre suas próprias aspirações e as exigências familiares. Se tal escolha
é percebida como estritamente pessoal, ela é ainda tributária de certas condições
impostas pelos pais, como o fato de que o futuro cônjuge deve pertencer à popula-
ção muçulmana e magrebina.7 É bem verdade que, em todas as épocas e em quase
todas as sociedades, as famílias exerceram uma influência capital sobre os projetos
de casamento dos filhos, com maior razão quando esses projetos implicavam os
interesses do grupo familiar. Hoje em dia, tais práticas desapareceram, pelo menos
nas sociedades modernas, mas a escolha do cônjuge continua a obedecer, de manei-
ra consciente ou inconsciente, a certos tipos de determinismos sociais, culturais e
religiosos que contribuem para reduzir a liberdade individual. No que se refere à
população estudada, a intransigência dos pais com relação ao casamento exogâmico,
isto é, com um cônjuge que não pertence ao grupo de origem, é de tal ordem que é
difícil de superar. Enquanto algumas delas consideram incontornável a união com
um homem de origem magrebina, outras, mais dispostas a realizar uma união fora
do grupo de origem, não chegam a dar esse passo por medo de romper a relação
com os pais. Para a maioria delas, a escolha do cônjuge se fará então no interior da
população magrebina, ainda que isso nem sempre corresponda às suas próprias
expectativas. Apesar de não oporem nenhuma restrição às suas escolhas e contesta-
rem com firmeza a proibição imposta às mulheres de se casar com um não-muçul-
mano, elas terminam, no entanto, por optar pela manutenção dos laços familiares.8
A maioria das mulheres solteiras que se recusam a casar com um jovem de origem
magrebina parece conceber o celibato como uma forma de resistência ao casamento
tradicional magrebino e como uma transição à espera de encontrar o marido ideal,
que responda simultaneamente às suas aspirações e às de seus pais. Esse compasso
de espera lhes permitiria igualmente encontrar outros arranjos, e até mesmo dobrar
as posições familiares. As jovens universitárias são, em geral, mais seletivas em suas
escolhas matrimoniais e dispõem de meios de ação mais eficazes com relação às
atitudes parentais.

7
O casamento dos homens muçulmanos com uma mulher não-muçulmana é, em geral, mais aceito e mais
bem tolerado, na medida em que ele não acarreta as mesmas conseqüências e que se considera que os
homens têm maior poder que as mulheres no sentido de propiciar a conversão do outro cônjuge.
8
Essa atitude não é específica das populações de origem muçulmana; ela é igualmente observada entre os
judeus praticantes, aos quais são proibidos os casamentos com pessoas de outra origem, em nome da
manutenção e da perpetuação da identidade judia (Schnapper, 1980:156-7).

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O mesmo acontece com as escolhas conjugais e o modo de vida. Contrariamen-


te aos seus pais, para quem o casamento permanece a única união legal e legítima,
essas jovens se mostram muito mais reticentes a essa forma de união e têm dela
uma concepção diferente. De fato, o casamento é encarado como a consagração e
a concretização de um verdadeiro projeto concebido e elaborado a dois, não como
um ato de conformismo social. Isso requer não apenas a fiabilidade dos laços
amorosos mas também sua estabilidade, coisas que só podem ser medidas progres-
sivamente, através da experiência da vida de casal. Assim, em um primeiro mo-
mento, elas aceitam viver com o cônjuge sem serem casadas. Ora, a coabitação fora
do casamento, tal como praticada atualmente por muitos casais, é freqüentemente
reprovada por seus pais, hostis a qualquer forma de união informal. Essa reprova-
ção pode levar as jovens a conceber estratégias para tentar resolver esse dilema
satisfazendo as duas partes. As soluções encontradas consistem, muitas vezes, em
uma combinação astuciosa do casamento legal com o concubinato. Essa forma de
união – também chamada de casamento religioso ou casamento hallal (lícito) – é
acompanhada por uma cerimônia tradicional na presença das famílias e dos ami-
gos, cujo objetivo é legitimá-la social e publicamente, sem ter nenhum caráter
legal. Oficialmente, a união assim reconhecida e legitimada pelos pais e pelo
entorno familiar não passa de um concubinato. Essa forma tradicional de legitimação
é um arranjo com os pais que, ao serem associados ao projeto matrimonial de sua
filha, lhe oferecem a ocasião de experimentar outros modos de vida mais confor-
mes a suas expectativas.
A vontade de manter a coesão familiar é com freqüência acompanhada, como
nesse caso, de uma reinterpretação e de um questionamento dos modelos familia-
res tradicionais. Nesse sentido, seus comportamentos são também reveladores de
uma forte aculturação e de um distanciamento das concepções familiares tradicio-
nais.

C ONQUISTA DA AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA


DOS PROJETOS DE VIDA

Como vimos, as estratégias elaboradas por esse grupo de jovens não consistem
apenas em manter a coesão familiar; mas constituem, igualmente, o espaço de uma
negociação permanente entre as normas que regem o funcionamento familiar e seus
pais, abonadores dessas normas. O que está em jogo no seio dessa dupla negociação
é, principalmente, a conquista da autonomia pessoal e a realização dos projetos de
vida, através da participação nas atividades sociais e da apropriação de todos os
espaços de liberdade possíveis. Esses projetos lhes permitem ampliar seu círculo de
relações e viver outras experiências, longe do olhar dos pais.

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72 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

O processo de individualização
A busca da autonomia é a resultante do processo de individualização e de
autonomização que teve início com a freqüência à escola e o grupo de pares e se
acentuou com o exercício de uma atividade profissional. O papel da socialização
escolar e profissional9 é freqüentemente determinante nos mecanismos de aculturação
e de distanciamento das normas e valores familiares. Enquanto a escola lhes permi-
tiu desenvolver um senso crítico e ampliar as perspectivas de futuro, o exercício de
uma atividade profissional deu-lhes os meios de serem autônomas financeiramente e
de elaborarem seus projetos de vida. O próprio fato de trabalhar e ter acesso a um
estatuto social representa, para essas jovens, uma maneira de se diferenciarem do
conjunto de mulheres que não trabalham fora, e particularmente da mãe, que por
falta de meios e de instrução teve de se consagrar inteiramente à família e às tarefas
domésticas. Elas exprimem assim a recusa a reproduzir os esquemas tradicionais.
Essa vontade participa igualmente do processo de individualização que é acompa-
nhado, nesse caso, de uma regulação interna e externa dos comportamentos, na
medida em que permite ao indivíduo emergir enquanto pessoa autônoma (sabendo-
se que tal autonomia é sempre relativa), integrada e diferenciada do grupo a que
pertence – no caso, a família.

Elaboração e prática dos projetos pessoais


A conquista da autonomia passa então pela prática de projetos pessoais distin-
tos dos da família e por uma abertura maior em direção ao exterior, graças à parti-
cipação em atividades extrafamiliares (associativas, culturais, esportivas). As jo-
vens manifestam assim a necessidade de ampliar seus horizontes, de abrir-se a
idéias novas, de elaborar projetos coletivos ou participar deles. Graças a essas
atividades, elas podem sair ao mesmo tempo do quadro familiar e do quadro pro-
fissional10 que formavam seu contexto de vida, multiplicando as trocas e abrindo-
se a outros meios. Isso, para elas, é uma maneira de ser mais independentes, ainda
que a independência se inscreva dentro da família, com tudo o que isso implica de
obrigações e de restrições. Para o conjunto dessas jovens, ser autônomas tanto em
suas decisões quanto em seus atos é um imperativo que tentam convencer os pais a
admitir.

9
A socialização pelo trabalho não se realiza unicamente através do aprendizado de valores profissionais e
de um savoir-faire específico, mas igualmente das interações e de todas as formas de sociabilidade existentes
no contexto profissional, do qual emergirão novas relações e uma outra abordagem da sociedade.
10
Se a atividade profissional constitui, para essas jovens, um meio de se realizar pelo exercício de uma
atividade autônoma e de adquirir estatuto social e independência financeira, no entanto ela responde
apenas parcialmente às suas necessidades de autonomia e de auto-afirmação.

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Duas concepções divergentes do indivíduo


Mesmo conscientes das responsabilidades envolvidas no exercício de uma ati-
vidade profissional, os pais têm a maior dificuldade em admitir a existência de
projetos individuais. Essa atitude ilustra a contradição em relação às filhas e a
dificuldade em aceitá-las como indivíduos autônomos. Apesar de reconhecer-lhes
a faculdade e a capacidade de exercer uma atividade profissional e de gerir as
questões administrativas e materiais da família, eles em geral se opõem a qualquer
forma de participação social. Esse paradoxo se origina da própria representação da
família, em que o indivíduo não existe enquanto tal, mas apenas como membro de
um grupo – o que implica interesses e objetivos em grande parte comuns. A própria
noção de maioridade nem sempre é bem percebida pelos pais enquanto os filhos
são solteiros e ainda vivem com eles. Ser adulto não é uma questão de idade nem
de estatuto social. A maior parte dos pais desenvolve uma concepção bastante fusional
da família, considerando que os membros formam verdadeiramente corpo com ela e
só se tornam adultos quando se casam e fundam a própria família. A internalização
dos valores da sociedade francesa nesses meios não alterou muito essa concepção,
da qual não compartilhava a maioria das jovens entrevistadas. Mais impregnadas
pelos valores do individualismo, elas reivindicam o direito de serem consideradas
indivíduos e adultos integrais. Para afirmar sua personalidade e realizar seus pro-
jetos, elas são com freqüência obrigadas a modificar o sistema familiar de represen-
tações e de concepções. Desse ponto de vista, a elaboração de projetos pessoais é
um meio de se diferenciar, de maneira crítica e objetiva, do grupo familiar e de
desenvolver seus potenciais, ampliando o campo das possibilidades. Assim, elas
introduzem no seio da família novas normas de funcionamento derivadas dos valo-
res do individualismo. Isso implica que os pais devam aceitar, ou pelo menos levar
em conta, outros sistemas de valores e outras maneiras de ser adultos fora do casa-
mento.

Necessidade de liberdade e de evasão


Tais estratégias visam igualmente a ampliar a liberdade de movimentos com rela-
ção à família. Isso pressupõe a possibilidade de escolher o momento e a hora das
saídas ou a permanência em casa de amigos sem ter de solicitar permissão aos pais.
É ainda para elas uma maneira de delimitar o campo da negociação, impondo logo
suas condições, mesmo que muitas tenham consciência dos limites impostos a essa
liberdade. Possuir carro é com freqüência um dos meios mais eficazes para tranqüi-
lizar os pais, tanto para ir ao trabalho quanto para sair à noite ou passar o fim de
semana fora. Isso permite ainda ampliar a autonomia e a mobilidade necessárias ao
cultivo das relações de amizade, sobretudo quando os amigos moram longe do do-
micílio familiar.

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74 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

A possibilidade de dispor de seu tempo livre para consagrá-lo a projetos pessoais


constitui, por vezes, um verdadeiro desafio, pois é extremamente difícil convencer
os pais a admitirem a existência de outros centros de interesse fora do grupo famili-
ar. Isso é particularmente visível nos períodos de férias e organização de viagens ou
de estadas fora de casa, que marcam com freqüência uma etapa importante no pro-
cesso de emancipação da família. Elas só obtêm sucesso nessas empreitadas com a
cumplicidade e a participação de outros membros da família. Quando tais projetos
são elaborados conjuntamente com os irmãos ou caucionados pela mãe, o pai, em
geral mais reticente, termina por ceder e se alinhar à decisão familiar.
Mas a autonomia se adquire igualmente no seio familiar, através da apropriação
de um espaço de liberdade e de evasão. Depois de terem sido durante muito tempo
obrigadas a compartilhar o espaço reduzido de que dispunham com um ou vários
membros da família, a possibilidade de ter um lugar próprio, decorado a seu gosto,
constitui uma vantagem apreciável. O fato de morar em um grande apartamento ou
numa casa lhes permite, com freqüência, ter um quarto e um banheiro privativos.
Conforme as dimensões, esse espaço pode comportar um ambiente de trabalho com
uma escrivaninha e um ambiente de lazer, com aparelho de som, rádio e até mesmo
televisão. Para torná-lo mais funcional e assim adquirir maior autonomia com rela-
ção à família, algumas delas instalaram sua própria linha telefônica e uma secretária
eletrônica para receber seus chamados. Dessa forma, elas podem gerir suas relações
pessoais, receber os amigos e dedicar-se a suas atividades preferidas. Isso representa
ainda um meio de serem responsáveis pelas próprias comunicações. É bem possível
que, com a utilização maciça do telefone celular, algumas delas já tenham substituí-
do as linhas pessoais por um aparelho portátil que permite maior autonomia.
Preservar a independência supõe, por outro lado, a possibilidade de ter uma
vida sentimental. Ora, esta parece com freqüência afetada pelos constrangimentos
que a coabitação familiar impõe, ainda mais que a relação amorosa é, na maior parte
das vezes, escondida dos pais – sobretudo do pai, evidentemente mais hostil do que
a mãe à idéia de que as filhas possam ter um namorado sem a intenção de casar-se
com ele. Essa dissimulação é sobremaneira complicada quando se trata de conciliar
a vida sentimental e a vida de família, forçando-as a criar um forte sistema de orga-
nização para gerir e preservar da melhor forma possível a vida privada. A autonomia
restrita de que dispõem e os deveres familiares aos quais elas continuam a consagrar
uma parte do tempo as obrigam muitas vezes a ter de escolher entre a vida social e
sua vida sentimental.

A ampliação da margem de liberdade


Para ampliar a autonomia pessoal e realizar seus projetos de vida, essas jovens
devem mobilizar simultaneamente as vantagens materiais e simbólicas que lhes con-
fere seu estatuto profissional, os recursos derivados do próprio ambiente familiar,

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Marnia Belhadj 75

através dos apoios naturais que elas encontram nessa esfera e, enfim, sua própria
adesão à lógica familiar. Ao apostar na manutenção da coesão familiar, elas conse-
guem com freqüência conquistar uma margem de manobra e de liberdade para
renegociar as normas familiares. Além disso, sua participação nos encargos familia-
res lhes fornece, de fato, um lugar central e amplia seu papel no grupo familiar. Da
mesma forma, a cumplicidade que as une às irmãs e à mãe lhes permite inverter as
relações de força e dobrar mais facilmente a atitude do pai para aumentar sua auto-
nomia. Essa solidariedade familiar às vezes pode até mesmo ajudar algumas delas a
conquistar uma verdadeira independência, que se traduz na compra ou aluguel de
um apartamento situado nas proximidades do domicílio familiar.

Gestão e regulação dos conflitos


Essas estratégias não excluem tensões ou relações de força com os pais, que pare-
cem controladas e moduladas em função das circunstâncias e das prioridades do
momento. Quando as resistências familiares se tornam muito rígidas e todo arranjo
parece impossível, muitas delas se vêem obrigadas a recorrer a meios mais ou menos
ofensivos para que seus projetos de autonomia sejam bem-sucedidos. É o caso dos
compromissos noturnos, das noitadas em discoteca, do fato de fumar ou de ter um
namorado. O recurso à mentira ou ao não-dito pode variar segundo a atitude dos
pais com relação a seu comportamento. No entanto, tal estratégia tem seus limites e
requer muita habilidade e tato, sem o que elas correm o risco de perder a confiança
dos pais. Quando o risco é grande demais, muitas delas preferem renunciar tempo-
rariamente a tais projetos e retomar mais tarde as negociações com os pais – sobretu-
do quando se trata de fazê-los admitir a perspectiva de uma viagem local ou ao
exterior. Ainda que traduzam atitudes diferentes, o não-dito e a renúncia temporária
respondem a uma mesma vontade: a de realizar inteira ou parcialmente seus proje-
tos evitando, na medida do possível, um conflito aberto com os pais. A dissuasão e
a chantagem, outras estratégias possíveis, têm o mesmo objetivo e visam a canalizar
o conflito e a delimitá-lo no interior de um campo de ação. Conhecendo o medo
dos pais diante de uma eventual partida de casa, algumas delas não hesitam em
brandir essa ameaça para realizar seus projetos. Elas apostam assim na importância
que os pais atribuem à manutenção da coesão familiar para alterar em seu favor o
sentido das normas. A mesma atitude é encontrada na estratégia de utilizar e explo-
rar os eventos familiares, situações passadas no seio da família ou à sua volta e que
marcaram bastante a memória do grupo, como o divórcio da irmã mais velha, a fuga
da prima-irmã ou ainda o casamento da vizinha com um francês de origem não-
magrebina. Esses casos podem influenciar os pais e levá-los a modificar seu compor-
tamento com relação às filhas.
Para além das prescrições ditadas pelas normas familiares, essas normas podem
conferir um verdadeiro poder precisamente àqueles e àquelas a quem se destinam.

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76 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Tal poder reside sobretudo nas possibilidades de negociação que as jovens criam,
ainda que sejam limitadas e que a outra parte não seja destituída de meios de ação.

E STRATÉGIAS
COMO CAUSA DE PROFUNDAS
TRANSFORMAÇÕES FAMILIARES

As estratégias elaboradas por essas jovens acarretam profundas transformações


no seio da família. A aquisição de um estatuto profissional exerce aqui um papel
preponderante. Graças a ele, elas conquistaram uma autonomia que amplia seu
círculo de relações, rompe o confinamento do meio familiar e permite o acesso a
outras esferas de socialização. Essa conquista traduz uma maior consciência, por
parte de seus pais, da necessidade de uma realização individual através da elabo-
ração de projetos pessoais.
Elas conquistaram igualmente um verdadeiro poder de decisão dentro da famí-
lia, que reforça a posição de todas as mulheres nessa esfera. A nova distribuição
das cartas introduzida por sua participação nos encargos familiares contribuiu
para mudar profundamente a natureza das relações entre os sexos e colocou em
questão a supremacia dos homens, os únicos habilitados até então a atender às
necessidades familiares.
Progressiva mas eficazmente, a ordem familiar tradicional é assim contestada em
suas características essenciais, através da instalação de um modelo mais negociado e
mais equilibrado de redefinição dos papéis de cada sexo e da invenção de novos
meios de troca e de comunicação.
O estatuto profissional lhes confere igualmente uma legitimidade familiar e um
reconhecimento fora do casamento. O que era impensável para seus pais há alguns
anos torna-se hoje em dia quase banal. Sem perder o valor, o casamento, para essas
jovens, parece não mais constituir a única fonte de legitimidade social. Os compor-
tamentos manifestados tanto do ponto de vista de suas escolhas matrimoniais quan-
to das estratégias visando a implantar novos modos de vida traduzem uma ruptura
bem nítida com os modelos e as concepções familiares. A adoção do celibato ou de
uniões como o concubinato implantou outros modos de escolha e outras práticas
matrimoniais que respondem melhor às suas preocupações atuais.
Frutos de uma negociação simultânea com as normas familiares e com os pais,
essas transformações resultam igualmente de uma dinâmica familiar, da qual estes
últimos participaram de maneira direta ou indireta, sobretudo através da
reinterpretação de seu próprio sistema de valores. Mede-se, através desses comporta-
mentos, a capacidade de os indivíduos reinterpretarem as normas coletivas: eles não
são simples produto, mas também os atores de sua socialização e de sua história
familiar. Tanto essas jovens quanto seus pais participaram dessa empreitada, da qual
as famílias deram outras provas durante as últimas décadas.

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Marnia Belhadj 77

Na medida em que visa a modificar as mentalidades, toda estratégia implica,


com maior razão, concessões sem as quais as tentativas de mudança estariam con-
denadas ao fracasso. Elas são tanto mais necessárias quanto permitem a regulação
das mudanças, preservando a identidade profunda dos indivíduos. Para realizar
seus projetos de vida e manter ao mesmo tempo os laços familiares, essas jovens
tiveram de aceitar certos arranjos que muitas vezes as constrangem, suscitando
uma forma de inibição amorosa que as impede de conquistar uma verdadeira in-
dependência. Esses são alguns dos limites de suas estratégias e o preço a pagar por
essa “revolução” tranqüila, que se processa sem ruído nem furor, mas cujas conse-
qüências sobre os comportamentos e as mentalidades são profundas e irreversíveis.
Tudo leva a crer que essas transformações irão repercutir também nas suas vidas
pessoais. Sua capacidade de invenção e de reinterpretação só pode resultar em
evoluções rápidas nesse campo.
Pode-se já constatar que suas irmãs mais jovens tiram pleno proveito dos benefí-
cios dessa dinâmica familiar e do caminho traçado pelas irmãs mais velhas. Estas
últimas plantaram os marcos para as novas gerações que, graças a elas, conhecerão
perspectivas de vida bem mais amplas. Assim, é muito provável que ultrapassem
mais rapidamente e sem percalços os limites que essa geração pioneira não pôde ou
não quis ultrapassar, para preservar os laços familiares.
Tratamos aqui apenas de alguns aspectos de uma realidade humana ao mesmo
tempo rica, complexa e em perpétua mutação. No entanto, eles permitiram lançar
luz sobre problemas apaixonantes, freqüentemente ocultos ou silenciosos, dos quais
não teríamos sequer tomado conhecimento se não nos tivéssemos debruçado sobre
eles para dar-lhes toda a atenção que merecem.

R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CAPÍTULO 5

O que os objetos tecnológicos dizem


sobre as relações familiares:
o caso dos aposentados*
VINCENT C ARADEC

VIVER E M FA M Í L I A É V I V E R C E R C A D O D E O B J E T O S . Os sociólogos da famí-


lia negligenciaram durante muito tempo essa evidência, ilustrada magistralmente
por Georges Perec nos anos 1960. Jean Kellerhals (1995:105) já lamentava o “viés
idealista” assumido pelas ciências sociais, que fez com que os sociólogos da família
tivessem “apreendido, na sua grande maioria, o grupo familiar independentemente
do seu meio material”. Eric Hirsch (1992:210-2) fez constatação análoga com rela-
ção aos trabalhos anglo-saxões.
Esse desinteresse parece hoje em dia superado. De fato, assistimos a uma reabili-
tação dos objetos nas ciências humanas e sociais, nas quais o sociólogo vê, cada vez
mais claramente, que viver em sociedade não é apenas coabitar com outros seres
humanos, mas igualmente com objetos materiais. O renovar desse interesse é devido
em boa parte à sociologia das ciências e das técnicas de M. Callon e Bruno Latour,
mas outras perspectivas e outros campos de pesquisa concorreram igualmente para
esse movimento. Nessa linha, podemos citar os trabalhos anglo-saxões em psicolo-
gia sobre o papel dos objetos no desenvolvimento do eu,1 a antropologia do consu-

*
Tradução de Angela Xavier de Brito.
1
Sobre a apresentação de alguns desses trabalhos, ver Caradec, 1997.

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mo (na América do Norte mas também na França, com os trabalhos de D. Desjeux),


a etnologia da “cultura material”2 e, no campo da família, os trabalhos de Jean-
Claude Kaufmann (1992a, 1992b, 1997). De um ponto de vista mais teórico, Desjeux
distingue quatro maneiras de apreender os objetos: como atuantes, como signos,
como matéria, como analisadores da passagem ao ato.3
Entre os objetos que compõem o ambiente doméstico contemporâneo, aqueles
que podemos qualificar de “tecnológicos” contribuíram para transformar profunda-
mente os modos de vida e as relações familiares. Por objetos “tecnológicos” (ou
aparelhos técnicos), entendemos todo um conjunto de objetos que apareceram ou
foram difundidos durante os últimos 50 anos: aparelhos eletrodomésticos (refrigera-
dores, máquinas de lavar roupa ou de lavar louça, fogão, forno de microondas);
“aparelhos de comunicação” (rádio, televisão, telefone e aparelhos anexos, compu-
tadores); aparelhos de lazer (aparelhos de som, máquinas fotográficas, câmeras de
vídeo); ferramentas de bricolagem ou de jardinagem (furadeira e cortador de grama
elétricos); objetos utilizados fora do espaço doméstico ou acessíveis no espaço públi-
co (carro, cartão bancário, caixa eletrônico).
Tais objetos tecnológicos são o centro de uma pesquisa que acabamos de fazer,4
sobre a qual nos apoiaremos ao tratar do tema da individualização. Desejamos abordá-
la aqui sob um duplo ângulo. Primeiro, indagaremos qual é a importância dos obje-
tos tecnológicos na tensão entre individualismo e “pertencimento” que caracteriza as
relações familiares. Tentaremos, em seguida, descrever a maior ou menor especializa-
ção das formas de uso observadas no seio dos casais aposentados5 e veremos que é
possível estabelecer uma relação entre essa especialização dos usos e o fenômeno da
individualização (compreendida como a preocupação de definir por si próprio quem
se é e de agir enquanto indivíduo autônomo).

2
Segalen & Bromberger, 1996; Julien & Warnier, 1999.
3
Desjeux; Monjaret & Taponier, 1998.
4
Essa pesquisa foi realizada no contexto do programa “Evoluções tecnológicas, dinâmica das faixas etárias
e envelhecimento da população”, animada pela Missão Pesquisa da Direção de Pesquisa, de Estudos, da
Avaliação e de Estatísticas do Ministério do Emprego e da Solidariedade (MiRe-Drees) e a Caixa Nacional
de Seguro-Velhice (Cnav). Esse projeto compunha-se de duas pesquisas: uma bibliográfica (Caradec, 1997)
e outra empírica (Caradec, 2000).
5
Apoiamo-nos aqui em umas 20 entrevistas realizadas com aposentados sexagenários vivendo maritalmen-
te (os dois cônjuges foram entrevistados juntos), assim como em algumas entrevistas realizadas com
pessoas viúvas. O objetivo desse trabalho era ultrapassar o discurso clássico da “inadaptação” das pessoas
idosas às tecnologias – pouco satisfatório devido a seu nível de generalidade –, buscando mostrar os
diversos usos que as pessoas de mais de 60 anos fazem dos objetos tecnológicos.

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O S OBJETOS TECNOLÓGICOS NA TENSÃO ENTRE


INDIVIDUALISMO E “ PERTENCIMENTO ”

A família contemporânea está marcada pela tensão entre individualismo e


“pertencimento” ao coletivo familiar.6 Ora, essa tensão atravessa as pesquisas so-
bre as formas de uso dos aparelhos técnicos. Além disso, certos objetos tecnológi-
cos se encontram imbricados nessa tensão, como mostra o caso particular dos
aposentados.

O impacto dos aparelhos técnicos nas relações familiares


Uma das questões levantadas pelos pesquisadores interessados nas formas de
uso dos aparelhos técnicos foi a do seu impacto sobre as relações familiares (fre-
qüentemente, nos casais com filhos), em particular sobre o equilíbrio anteriormente
construído entre individualismo e “pertencimento”: o objeto tecnológico exacerba
as individualidades ou reforça o grupo familiar? Ele cria ou destrói as relações
familiares? Podemos tirar várias lições desses trabalhos.
As conseqüências da introdução de um objeto tecnológico são, primeiramente,
variáveis segundo o objeto em questão: certas tecnologias parecem estar a serviço do
individualismo, enquanto outras parecem favorecer a vida familiar. Assim, em uma
pesquisa qualitativa realizada em Quebec, Gilles Pronovost opõe as formas de uso
centrífugas ligadas ao computador às utilizações mais “familiares” da televisão e do
videocassete. No que se refere ao primeiro, “assistimos com freqüência a um fenôme-
no inicial de forte entusiasmo, percebido como destrutor da sociabilidade familiar.
Temos aqui um caso típico de objeto perturbador”. Já a televisão e o videocassete
parecem favoráveis à vida familiar, por uma dupla razão: seu uso é negociado dentro
da família – “nossos informantes passam a imagem de uma espécie de ‘democracia
familiar’, o tempo passado diante da televisão aparece como ‘uma oportunidade de
interação familiar’”.7
Na verdade, as coisas são mais ambivalentes. Seria um erro pensar que um apare-
lho, por suas características técnicas, está destinado a favorecer tendências “indivi-
dualistas” ou “familiaristas”. Assim, retomando o exemplo da televisão, é interessan-
te notar que, se os discursos que acompanharam sua difusão insistem sobre sua
capacidade de reunir a família, eles também indicam os seus efeitos desastrosos na
vida do casal ou sobre a autoridade paterna.8 Um outro exemplo de ambivalência: o
videocassete tem um papel pacificador na vida familiar – ele serve de “instrumento
para a reconquista da harmonia perdida”, para a “harmonização das relações fami-

6
Déchaux, 1998.
7
Pronovost, 1994.
8
Spigel, 1996.

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liares que a televisão torna conflituais” – mas contribui, também, para um aumento
da individualização – pois permite viver juntos mas separadamente.9
Além disso, os usos “individualistas” ou “familiaristas” de um aparelho técnico
podem variar com o tempo. Isso é o que aconteceu com o rádio, que foi um meio de
comunicação familiar no início e que, com a invenção do rádio portátil e a multipli-
cação dos receptores, tornou-se um aparelho individual.10 A televisão parece passar
atualmente por uma evolução comparável, como mostra a pesquisa européia sobre os
jovens e a televisão,11 que também indica que essa tendência é mais acentuada na
Inglaterra do que nos outros países europeus.12
As conseqüências da introdução de um aparelho técnico dependem igualmente
de que modo a família funciona. Segundo observou Heidrun Mollenkopf (1992,
1995), a posse de uma segunda televisão ou de um videocassete atenuava os conflitos
relativos à escolha dos programas somente entre as famílias que valorizavam a auto-
nomia dos seus membros. O mesmo não acontece nas famílias que privilegiam a
fusão e o estar juntos em volta da televisão: nesses casos, “a presença de uma segun-
da televisão ou de um videocassete, que poderia oferecer uma outra solução, não
contribui para a resolução desses conflitos”.

OS APARELHOS TÉCNICOS NAS RELAÇÕES FAMILIARES


DOS APOSENTADOS

A tensão entre individualismo e “pertencimento” se manifesta igualmente nas


relações familiares das “pessoas idosas”. Certos objetos tecnológicos se encontram
“presos” nessa tensão, ao mesmo tempo como “atores” e como analisadores. Essa
tensão pode ser percebida através de duas questões: a primeira sobre a “boa distân-
cia” conjugal, e a segunda sobre a dialética entre autonomia e dependência que
caracteriza as relações entre as gerações.
A questão da “boa distância” conjugal refere-se ao equilíbrio, no seio do casal,
entre as atividades individuais e as atividades em comum, entre momentos pessoais
e momentos conjugais. Em uma pesquisa anterior, estudamos como o momento da
aposentadoria acarreta a negociação de uma nova distância conjugal, às vezes com
muita dificuldade, quando os desejos dos cônjuges não coincidem.13 Assim, parece
que certos objetos tecnológicos podem se constituir, nessa negociação, em um risco
ou em uma solução.

9
Baboulin; Gaudin & Mallein, 1983.
10
Flichy, 1997.
11
Réseaux, 1999.
12
Livingstone, 1999.
13
Caradec, 1994 e 1996.

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Examinemos primeiro as situações de risco. Isso acontece quando um dos cônju-


ges investe uma parcela importante de seu tempo em uma atividade ligada a um objeto
tecnológico e é censurado por esse investimento muito exclusivo. Esse tipo de desa-
cordo pode emergir a propósito da televisão, não apenas porque ela é uma devoradora
do tempo, mas também porque parece atualmente simbolizar um estilo de vida ligado
à aposentadoria – a busca de uma aposentadoria “inativa”, voltada sobre si mesmo e
sobre o lar – denunciada em nome do novo ideal de uma aposentadoria “ativa”.
Em outros casos, o recurso a um objeto tecnológico constitui uma solução e con-
tribui para o ajustamento da distância conjugal. Desse modo, a instalação de uma
segunda televisão, depois da aposentadoria, pode ser um elemento de pacificação
conjugal (sobretudo na hora dos programas esportivos). Em um dos casais que en-
contramos, o marido – que tinha a sensação de que a esposa monopolizava as con-
versas telefônicas com os filhos e com isso se sentia um pouco marginalizado –
comprou um telefone com alto-falante, que lhe permite escutar tudo o que se diz.
Ainda um último exemplo, no qual as definições divergentes entre os cônjuges sobre
a vida de aposentado acabam se conciliando graças a um objeto tecnológico: o sr. X
é um antigo artesão que, desde que se aposentou, passa longas horas a trabalhar em
sua oficina. Sua mulher considera que isso “não é normal”: ela desejaria que ele
“encontrasse uma atividade”. Ele parece muito feliz, mas a infelicidade da mulher
torna o ambiente ainda mais sombrio. Quando o filho lhe dá de presente uma
máquina fotográfica, parece surgir uma solução: sua esposa acha uma grande idéia e
o incentiva a se inscrever em um clube. Ele acaba aceitando e, depois de um começo
difícil, parece plenamente satisfeito com sua nova atividade.
Examinemos agora as relações entre as gerações. A figura da “complementaridade
dialética” entre autonomia e dependência é com freqüência mobilizada para apre-
ender as relações entre pais idosos e filhos adultos. Ela também permite lançar luz
sobre o uso de certos aparelhos técnicos. Vejamos, por exemplo, o telefone. Apesar
de manter contato regular com seus filhos adultos, os pais idosos devem respeitar o
princípio de independência desses casais. Eles estabelecem, então, normas de cha-
madas telefônicas, diferentes conforme as famílias, que podem também variar no
interior de uma mesma família, segundo os filhos a que se destinam: “todos os dias,
bom, eles dirão que somos estraga-festa”, declara uma aposentada que liga para os
filhos, “em princípio, uma vez por semana”, os telefonemas mais freqüentes se jus-
tificam somente “quando a gente sabe que alguém está doente”. Essas normas, nego-
ciadas entre pais e filhos, podem evoluir: a freqüência dos contatos parece assim
aumentar com o nascimento do primeiro filho/neto.
Para as pessoas mais velhas, o que está em jogo nas relações com os filhos (às
vezes aposentados também) é sua autonomia ou sua “situação de dependência”.14
Certos objetos estão particularmente implicados nessa tensão.

14
Clément; Mantovani & Membrado, 1996.

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Em primeiro lugar, o automóvel. Ter carro assegura uma autonomia de desloca-


mento. Mas o envelhecimento é marcado por um processo de “desmotorização”,
cujo resultado é não mais usar o carro (o que pode se produzir quando a pessoa
idosa pára de dirigir ou quando enviúva). A pessoa idosa torna-se então dependente
de alguém para seus deslocamentos – com muita freqüência, de seus filhos – e essa
dependência pode ser vivida com dificuldade: “Eu não tenho carteira, então tenho
de ficar sempre dependendo de todo mundo. Isso é coisa que não me agrada. Pre-
firo ir a pé a ter de pedir”, declara, por exemplo, uma mulher de 65 anos, viúva há
três anos. Além disso, os filhos exercem muitas vezes um papel ativo nessa
desmotorização, pressionando o ascendente idoso a parar de dirigir.15
Outros objetos são ambivalentes, como o telealarme,16 que favorece a autonomia
da pessoa idosa na medida em que elas permanecem em suas casas, mesmo que
muitas vezes o aparelho seja uma imposição dos filhos, receosos de um possível
acidente. Dessa forma, o telealarme constitui um compromisso nas relações fami-
liares, pois, além de tranqüilizar os filhos – que temem um acidente –, possibilita
à pessoa idosa continuar a viver em sua casa, sabendo que os filhos estão despreo-
cupados.17

F ORMAS DE USO ESPECIALIZADAS E INDIFERENCIADAS


DOS CASAIS DE APOSENTADOS

Um dos objetivos da pesquisa realizada com cerca de 20 casais aposentados era


identificar se os objetos tecnológicos eram utilizados exclusivamente (ou priorita-
riamente) por um dos cônjuges ou de forma indistinta por um e por outro. Trata-se
de estabelecer se as formas de uso eram especializadas ou, ao contrário,
indiferenciadas. A esse respeito, pode-se fazer duas observações: 1. por um lado,
certos casais têm formas de uso bastante especializadas, sendo a maior parte dos
objetos tecnológicos da competência exclusiva de um dos cônjuges; em outros,
essas formas são mais indiferenciadas; 2. por outro lado, ao observarmos o que
acontece com cada tipo de objeto tecnológico, notamos que as mulheres se especia-
lizam nas máquinas de lavar roupa e de lavar louça, enquanto os homens são os
utilizadores exclusivos dos instrumentos de jardinagem, das ferramentas de
bricolagem, da câmera de vídeo e do computador. Mas a situação é menos clara no

15
Clément; Montovani & Membrado, 1996.
16
O telealarme é um dispositivo de chamada de urgência constituído de uma pequena caixa que contém
um botão. A pessoa idosa deve pendurá-lo ao pescoço, como um colar, o que lhe permite alertar uma
central de escuta.
17
N. do E.: a alternativa seria encaminhar os idosos dependentes às inúmeras casas de repouso mantidas
pelo Estado e/ou pelas caixas de aposentadoria.

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caso de outros objetos tecnológicos, para os quais as formas de uso, conforme os


casais, podem ser indiferenciadas ou da competência de um ou de outro – como o
Minitel,18 o videocassete, a máquina fotográfica, o forno de microondas, o cartão
bancário e até mesmo o carro.
Retomemos estas duas observações.

Formas de uso indiferenciadas e modo de funcionamento “independente”


Em pesquisa anterior, enfatizamos a diversidade dos modos de funcionamento
dos casais após a aposentadoria. Tomando como base o indicador das saídas de
casa, foi possível opor os casais que têm um modo de funcionamento “independen-
te” – exercendo cada cônjuge atividades exteriores que lhe são próprias – aos casais
mais “fusionais” – constituídos de cônjuges que raramente saem sozinhos.19 O modo
de vida “independente” marca assim uma maior individualização das relações con-
jugais, pois cada cônjuge desenvolve atividades que lhe são próprias. Na pesquisa
mais recente, esse modo de vida corresponde a uma maior indiferenciação nas for-
mas de uso dos objetos tecnológicos que caracteriza alguns dos casais encontrados
(situados com maior freqüência nas classes médias ou superiores): os dois cônjuges
dirigem (às vezes, cada um tem seu carro), cada um dispõe de um cartão bancário,
utilizam indistintamente o videocassete e o Minitel. Precisemos agora essa afinidade
entre indiferenciação das formas de uso e modo de funcionamento “independente”.
Em primeiro lugar, os cônjuges “independentes” não se vêem somente como
membros de uma equipe conjugal. Eles se preocupam em existir enquanto indiví-
duos e querem se servir sozinhos dos aparelhos técnicos: é difícil vê-los falar sobre
o videocassete como a sra. T17, que diz não encontrar razão para aprender a utilizá-
lo já que “ele o faz, então…”
Em segundo lugar, os cônjuges com um modo de funcionamento mais indepen-
dente se encontram, com maior freqüência, confrontados com um aparelho técnico
na ausência do outro cônjuge. Por exemplo, a sra. T10, que sabia programar o
videocassete antigo mas ainda não utilizou o que foi comprado recentemente, expli-
ca que logo terá ocasião de fazê-lo:

Enfim, bom, é porque eu ainda não me empenhei pra valer. Porque você está sempre
presente e daí eu digo: “Então você faz”. Mas quando eu estiver sozinha (seu marido vai
partir para a casa de campo durante três semanas), claro que eu vou fazê-lo.

18
O Minitel é um terminal de computador colocado à disposição dos casais por France Télécom (a companhia
telefônica francesa) mediante um aluguel módico que permite o acesso a bancos de dados (como o Guia
eletrônico, sua conta bancária ou ainda informações diversas). Lançado em 1983, o Minitel faz hoje em dia
parte do equipamento de 22% dos casais franceses.
19
Caradec, 1994.

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Ao contrário, sobre o cartão de crédito, o sr. T13 declara que eles têm “um para
os dois. A gente poderia ter dois, mas não vale a pena. A gente está sempre juntos,
então…”.
Por fim, se a independência conjugal favorece as formas de uso individualizadas,
certos objetos tecnológicos a facilitam. Este é o caso do carro, quando a esposa sabe
dirigir e o utiliza para atividades exteriores que lhe são próprias; é também o caso do
forno de microondas, que aparece, em uma pesquisa realizada entre as mulheres
parisienses com aproximadamente 60 anos, como “o aparelho que mais seduz essa
geração. Com ele, as mulheres não têm mais que estar em casa para preparar a
refeição do marido”.20

Os mecanismos da especialização conjugal das formas de uso


Tentemos agora explicar por que um dos cônjuges mais do que o outro se torna
o utilizador exclusivo de certos bens tecnológicos. Três fenômenos vêm à mente de
imediato:
• a divisão das tarefas domésticas, que continua a ser fortemente feita em
função do sexo, particularmente entre as gerações mais velhas: assim, tudo
que se refere à roupa incumbe à mulher, enquanto a bricolagem é de res-
ponsabilidade masculina.
Não é de se espantar então se, em nossa amostra,
• a utilização das máquinas de lavar ou de secar roupa ou das ferramentas de
bricolagem seja evidente. A afinidade natural entre o gênero masculino e a
técnica: os objetos considerados mais técnicos e mais complexos – com a
exceção notável do videocassete – são sobretudo utilizados pelos homens.
Em nossa amostra, nos casais equipados com computador (três casos em 20)
ou videocassete (nove casos em 20), são exclusivamente os homens que os
utilizam.
• Os problemas de saúde enfrentados por um dos cônjuges conduzem a uma
redistribuição das formas de uso comuns ao casal: em nosso corpus, algumas
mulheres terminaram utilizando o cortador de grama ou dirigindo sozi-
nhas o carro.
Essas três chaves explicativas não abrangem, no entanto, todas as formas de uso
sexuadas observadas em nossa amostra, em particular um certo número de formas

20
Coutras & Lacascade, 1997. O uso do microondas é, no entanto, menos freqüente na nossa amostra:
raramente as atividades exteriores que as esposas realizam sem os maridos levam-nas a fazer a refeição fora
da casa.

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Vincent Caradec 87

femininas de utilização. Como explicar que mulheres possam mostrar-se particular-


mente interessadas em outros aparelhos técnicos que não somente os eletrodomésti-
cos? Como se explica, por exemplo, o fato de que várias delas utilizam o videocasse-
te e são muitas vezes o único membro do casal a saber programá-lo?
A análise mostra que há duas maneiras de as mulheres terem acesso aos objetos
tecnológicos não percebidos imediatamente como femininos: no contexto dos pa-
péis sociais que são levadas a desempenhar; ou enquanto indivíduo que busca
existir como sujeito autônomo. Em outras palavras, e para retomar a distinção de
F. de Singly (1996), a forma de uso pode remeter ao “eu estatutário” ou ao “eu
íntimo”.

Papéis sociais das mulheres e acesso às tecnologias


O acesso às tecnologias modernas segue, muitas vezes, estranhos caminhos: dife-
rentes papéis sociais tradicionalmente assumidos pelas mulheres as levam a utilizar
certos aparelhos técnicos e mesmo a tornar-se, na vida conjugal, as utilizadoras
principais ou até mesmo exclusivas desses aparelhos. Entre esses papéis, ressaltamos
o de responsável pela comunicação familiar, o de avó, o de responsável pelo orça-
mento doméstico e, enfim, o de mulher de um homem doente.
Como as mulheres são, antes de mais nada, encarregadas de garantir a relação
com a família e, em particular, com os filhos, é a elas que se atribui o papel de
“telefonista e secretária da célula familiar”.21 Elas são também as utilizadoras privile-
giadas do telefone, que é concebido, mais por elas do que pelos homens, como um
aparelho não apenas funcional mas com uma função relacional.22 Aqui, parece emergir
uma clivagem entre as categorias sociais: os homens de meio popular, muito reticen-
tes quanto ao telefone, muitas vezes delegam o seu uso completamente à esposa,
enquanto essa utilização parece ser mais diferenciada entre as categorias superiores,
nas quais a esposa garante o contato telefônico com os filhos e o marido, os contatos
administrativos.
Em seguida, é na condição de avós que várias mulheres aposentadas que entrevis-
tamos foram levadas a utilizar o videocassete. Assim, a sra. T1 tomou “a iniciativa”
de comprar um aparelho para ocupar seus netos, dos quais ela cuida com freqüên-
cia: ela aprendeu a programá-lo bem antes de seu filho e do marido e foi “comprar
cassetes. E continuo a comprar, ainda na semana passada comprei um para meus
netinhos”. Do mesmo modo, a sra. T5 utiliza o videocassete para passar filmes para
os netos. Eles lhe ensinaram a programá-lo, o que lhe permite gravar os programas
que eles solicitam:

21
Claisse & Rowe, 1993.
22
Livingstone, 1996.

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88 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

A verdade é que, se eles estão na escola, não podem ver, então eles gravam o que está
passando em um canal e me pedem pra gravar outra coisa em outro. Assim, eles têm
duas coisas a ver mais tarde, então eles assistem aqui, quando eles vêm. Eu tenho um
monte de cassetes.

Essa atividade parece interessar menos o sr. T5, que declara que nunca teria com-
prado videocassete se não lhe tivessem oferecido um como presente de aposentado-
ria; contrariamente à sua esposa, que pensa que ela teria se equipado “de qualquer
forma, para os meus netos”. Essa lógica “familiar” que conduz as avós ao uso do
videocassete não é incompatível com a lógica “técnica” masculina, pois certos avôs
ajudam as mulheres a cuidar dos netos.23 Daí surge, muitas vezes, uma sábia reparti-
ção das formas de uso, como a que anuncia o seguinte diálogo entre o sr. e a sra. T20:

Q.: Então, quem utiliza o videocassete?

Sr.: Bom, para passar o filmes, tanto um como o outro.

Sra.: Quando o menino (5 anos de idade) vem, ele traz seus cassetes ou então sou eu
quem passo, né?

Sr.: Mas para gravar, é verdade que isso é mais técnico, daí sou eu quem me ocupo.

Sra: É verdade, é verdade, pra gravar(…)

Agora, no que se refere ao cartão bancário, em certos casais algumas mulheres


chegam a utilizá-lo mais do que os homens, em função de sua responsabilidade pela
gestão das contas domésticas e pelas compras. Essa especialização das formas de uso
aparece sobretudo nos meios populares, em que as mulheres são, com maior freqüên-
cia do que os homens, responsáveis pela gestão do orçamento familiar.24 “Bem, com
relação a isso (o cartão bancário), é a madame”, declara, por exemplo, o sr. T19, antes
de explicar que “eu sou o ministro do Trabalho e minha mulher, o ministro da Fazen-
da”. Já o sr. T17 “não tem nenhum problema, porque eu não vou nunca, mas nunca
mesmo, ao banco”: é sua mulher quem gere as finanças do casal, detém o cartão
bancário e retira o dinheiro no caixa automático do banco. O sr. e a sra. T17 usam o
cartão bancário de maneira um pouco mais indiferenciada, mas é a sra. T17 quem
mais o utiliza: seu marido se serve dele “quando enche o tanque do carro (ela não
gosta de fazer isso) e quando faz as compras no sábado, quando você compra a carne
e tudo o mais, daí é você… e eu lhe dou o cartão de crédito”.

23
Attias-Donfut & Segalen, 1998.
24
Glaude & Singly, 1987, fig. 4.

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Vincent Caradec 89

Evoquemos ainda a utilização feminina do Minitel através das encomendas


feitas aos organismos de venda por correspondência – utilização para a qual as
filhas adultas serviram muitas vezes de iniciadoras – e notemos enfim que elas se
tornam usuárias de objetos tecnológicos como o carro ou os aparelhos médicos
quando assumem o papel de mulher de um homem enfermo. A sra. TV2 aprendeu
assim a dirigir aos 60 anos – um carro muito pequeno que não necessita de carteira
– para poder levar o marido ao hospital, aonde ele deve ir com certa freqüência:
“Eu dirigi durante alguns anos, para o meu marido, para levá-lo a passear. Mas
depois que ele morreu, eu vendi o carro”. Da mesma forma, a sra. T9 “não gosta
muito de dirigir”, e seu carro (que ela herdou do pai) só lhe serve “quando sou
obrigada. Assim, por exemplo, meu marido tinha de ir ao hospital, bom, … e
utilizei o carro todos os dias”.
Já a sra. TV11 conta que:

Quando papai [ela se refere ao marido] esteve doente, eu não conseguia mexer em seus
aparelhos, (…) Veja só! Mas acabei por saber como fazer. Você vê, quando foi preciso
(…) A bomba dele, veja só! No hospital, as enfermeiras não sabiam usá-la e fui eu quem
lhes mostrou (…). No fundo, quando é preciso, eu posso fazer, ora.

Como nota A.-J. Berg (1997), o que caracteriza o uso feminino dos objetos técni-
cos é justamente a negação do seu caráter técnico: assim, ao longo da entrevista a
sra. TV11 parece descobrir, quando evoca o exemplo dos aparelhos médicos, que
ela não é tão incompetente quanto acreditava ser e até fazia com que acreditassem.

Individualização e acesso às tecnologias


Assim, ao imprimir variação em um papel tradicional, as mulheres aposentadas
têm acesso a certo número de tecnologias modernas e chegam a contornar o obstá-
culo da construção cultural que considera a feminilidade incompatível com a técni-
ca. No entanto, o indivíduo contemporâneo não se define apenas por seus papéis
sociais: ele busca também existir enquanto pessoa autônoma, segundo a moral da
autenticidade que caracteriza a modernidade.25 Para F. de Singly (1996:223), “a
identidade pessoal se constrói no cruzamento entre estes dois princípios: o dos
papéis, posições e estatutos e o do ideal do subjetivismo”. É provável que esse ideal
do subjetivismo se afirme com maior força entre os jovens, mas não é por isso que
ele é estranho às pessoas idosas – como atesta a difusão da representação da aposen-
tadoria como momento de realização e de desenvolvimento de si. Desse modo, as
mulheres aposentadas fazem uso de certas tecnologias não enquanto esposas ou
avós, mas para afirmar-se como sujeito.

25
Taylor, 1998.

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90 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Em primeiro lugar, apesar da codificação “masculina” dos objetos técnicos, há


mulheres que se interessam mais do que seus maridos pelas novidades tecnológicas.
Esse é o caso da sra. T2: ela não afasta a possibilidade de se munir de um computa-
dor (já teve até algumas aulas), enquanto o marido se mostra bem menos entusiasta;
ela comprou uma agenda eletrônica porque sentiu vontade; conta que “hesitou em
comprar um telefone-fax-secretária eletrônica, porque o marido lhe dizia: “ora, isso
não vale a pena”; declara utilizar as máquinas automáticas existentes no correio, em
vez de se dirigir aos guichês (ainda aqui ao contrário de seu marido); e é exclusiva-
mente ela quem utiliza o videocassete e o Minitel.
Em outros casos, por razões pessoais, um objeto preciso, cuja utilização permite
um avanço na realização do eu, adquire um significado particular. Isso é o que
acontece no caso do órgão eletrônico da sra. T7. Quando seu marido, que trabalhava
no setor de pesca, se aposentou, ela comprou um teclado eletrônico. Ela explica a
razão do seu gesto.

Então, há muito tempo atrás, (...) enfim, já quando eu era pequena, eu sonhava em tocar
piano. Bom, na minha época não se tocava piano com tanta facilidade como agora, além
disso, meus pais também não tinham meios de (...) eles não tinham como me pagar aulas
de piano ou de me comprar um piano. Então, quando eu me aposentei, a primeira coisa
foi comprar um teclado eletrônico.

Mas os recursos desse instrumento se revelaram rapidamente limitados e a sra.


T7 continuava tendo “essa vontade de tocar” que a obcecava. A salvação veio através
de uma pequena herança que recebeu dos pais e que lhe permitiu comprar o órgão
com que sonhava. Hoje em dia ela toca “diariamente, todo dia eu toco, ainda que
seja por 10 minutos”, e quando seu marido afirma que “o objeto mais importante
para ela é o piano”, ela responde com um sorriso: “É, eu poderia até mesmo dizer
que abandonaria meu marido pelo piano!”
Uma das formas femininas da subjetivação consiste em conquistar uma certa
independência com relação ao marido. Certos objetos tecnológicos podem contri-
buir para essa independência, como ilustra o exemplo da sra. T12. Ela e o marido
possuem poucos objetos tecnológicos recentes (eles não têm videocassete nem má-
quina de lavar louça), porque pensam que tais objetos não lhes são úteis na condi-
ção de aposentados. No entanto, no decurso da entrevista, a sra. T12 afirmou que
“se tivesse oportunidade de escrever em um computador, eu bem que gostaria”, e
que recentemente tinha tomado um trem sozinha (a última vez foi há uns 40 anos)
e comprado a passagem na bilheteria automática. Além disso, está pensando em
voltar a dirigir (ela tirou carteira há 20 anos, mas pouco praticou). Através dessas
formas de uso (efetivas ou projetadas), a sra. T12 procura testar-se, buscando exis-
tir enquanto indivíduo, uma vez que na vida doméstica nunca pôde realizar-se
plenamente.

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Vincent Caradec 91

Foi talvez por isso que eu quis pegar o trem sozinha novamente, porque eu nunca mais
tinha tomado um trem sozinha desde aquela data… há 40 anos. Daí, fui buscar minha
passagem no guichê e depois eu quis pegá-la na bilheteria automática (…) Isso é toda
uma história, é como o carro, tenho a impressão (…). Tem toda uma história por detrás
disso(…) sei lá, uma história de independência (…) de querer reencontrar uma (…) de
poder me virar sozinha, né?

Notemos enfim que a “subjetivação” não é necessariamente contraditória com o


fato de desempenhar papéis sociais: estes não são forçosamente exteriores a si mes-
mo, pode-se perfeitamente exercê-los e se realizar enquanto indivíduo nos marcos
definidos por eles. Basta citar aqui a sra. T1, cujo orgulho por ter chegado a com-
prar um videocassete e a programá-lo para seus netos, no papel de avó, é extrema-
mente evidente:

O videocassete, isso sou eu, por mim mesma, que fui comprar (…) sem dizer nada a
ninguém. Então, eles ficaram espantados, e ainda mais quando comecei logo a programá-
lo. Laurent (seu filho mais jovem, que vive ainda com os pais) ficava nervoso me vendo
tocar em todos esses botõezinhos e falava: “não é possível, você não conhece nada”. Daí
eu disse: “não se preocupe!” E consegui fazer tudo direitinho, sim, sim.

A partir do caso das pessoas idosas – e em particular dos casais aposentados –


tentamos mostrar que os objetos tecnológicos constituem analisadores preciosos das
relações familiares e da individualização. Por um lado, eles se encontram “presos”
na tensão entre individualismo e “pertencimento”: o surgimento de um novo objeto
tecnológico no espaço doméstico (uma televisão, um computador) pode fazer com
que o equilíbrio anterior evolua; e os aparelhos técnicos podem constituir compro-
missos ou apostas nas relações conjugais ou entre as gerações. Por outro lado, seu
uso pode ser “íntimo” ou “estatutário”, eles podem adquirir sentido em si mesmos
ou receber sua significação em um contexto familiar (ou ainda, para as pessoas mais
jovens, em um contexto profissional): podemos levantar a hipótese de que esse é um
ponto essencial para compreender a evolução dos usos no momento em que se
produz esta forma brutal de individualização, a viuvez.

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CAPÍTULO 6

Avós e netos na França e no Brasil:


a individualização das transmissões
afetivas e materiais
CLARICE EHLERS PEIXOTO

AO LONGO DESTE SÉCULO, a família conheceu profundas mudanças sociais:


baixa da fecundidade, declínio da instituição do casamento, banalização do divór-
cio. Estas, por sua vez, estão vinculadas às transformações, no sentido igualitário,
das relações de gênero. O prolongamento da vida, decorrente do aumento da espe-
rança de vida e de melhores condições de saúde, favorece o crescimento do número
de famílias nas quais coexistem três e mesmo quatro gerações. A mobilidade social
intergeracional e as recomposições familiares contribuem para individualizar ainda
mais os percursos de vida dos indivíduos e suas relações familiares.
Esses fenômenos não são tipicamente europeus nem franceses. Em um estudo
comparativo, realizado anteriormente entre a França e o Brasil,1 a comparação entre
os modos de vida e as formas de sociabilidade das pessoas aposentadas desses dois
países nos permitiu analisar alguns deles. Assim, o crescimento da mobilidade pro-
fissional e o aumento dos divórcios e das recomposições familiares multiplicam as
mudanças geográficas, favorecendo a distância entre as gerações e, algumas vezes,
um afastamento afetivo. Inversamente, as melhores condições de vida das pessoas

1
A la rencontre du petit paradis: une étude sur le rôle des espaces publics dans la sociabilité des retraités à
Paris et à Rio de Janeiro. Paris, EHESS, 1993. (Tese de Doutorado) Foi publicada esta versão reduzida:
Envelhecimento e imagem: entre França e Brasil. São Paulo, Annablume, 2000.

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96 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

envelhecidas tornam possível sua crescente participação no mundo associativo e


uma melhor integração na rede familiar, pois, se os encontros são menos freqüen-
tes, as conversas telefônicas são muito intensas. Entretanto, que papel ainda de-
sempenham os avós no seio da família? São eles os transmissores das histórias
familiares, dos comportamentos e dos saberes? Existem ainda os direitos de
primogenitura ou uma forma de transmissão individual? As relações de gênero
desempenham um papel importante no relacionamento entre avós e netos? Como
essas questões foram pouco analisadas no estudo anterior, decidimos mergulhar
mais profundamente no processo das preferências e transmissões entre gerações,
comparando Paris e Rio de Janeiro.
A importância de estudar essas duas sociedades de características tão distintas do
ponto de vista econômico e social é analisar as relações entre as gerações naquilo que
apresentam de similar e/ou diferente de modo a ressaltar os aspectos ainda não
percebidos ou desvendados. Ao contrário da França, no Brasil o processo de enve-
lhecimento da população está no início e os problemas relativos ao envelhecimento
ainda não constituem pauta importante das políticas sociais: as pensões de aposen-
tadorias são muito baixas, a saúde pública é precária e não existe nenhum tipo de
assistência social nem casas geriátricas fundadas pelo Estado do tipo das maisons de
retraite francesas.2 Esse é um dos fatores que favorecem a coabitação mais freqüente
das gerações mais velhas com as mais jovens – filhos e netos. Esse fenômeno é quase
inexistente na França, pois as políticas sociais, principalmente aquelas criadas a
partir dos anos 1960, permitem às pessoas envelhecidas uma assistência médica
sistemática até os seus últimos dias assim como uma maior autonomia residencial, na
medida em que põem à disposição uma gama variada de casas de repouso/geriátricas
ou foyers-logement,3 praticamente não disponíveis no Brasil. Mas a diversidade dos
modos de vida encontrados nesses dois países – coabitação entre gerações ou não,
proximidade ou distância geográfica – não significa que as trocas intergeracionais
tenham aumentado ou diminuído e sim que as relações adquiriram uma outra forma.
Esta pesquisa comparativa baseou-se em entrevistas realizadas com pessoas de 60
anos e mais, pertencentes às camadas populares. Tanto em Paris como no Rio de
Janeiro foram realizadas 45 entrevistas, totalizando 90 depoimentos. As pessoas
entrevistadas foram selecionadas entre aquelas que freqüentam os clubes de terceira
idade e/ou que moram em casas geriátricas, principalmente no caso francês (ne-

2
Em geral, os asilos e a maioria das casas geriátricas subvencionadas pelo Estado/SUS apresentam péssimas
condições de habitação e alimentação e a maioria dos funcionários não é especializada.
3
Foyers-logement são instituições não-médicas, reservadas às pessoas independentes ou autônomas de mais
de 60 anos. Cada uma tem seu apartamento individual, equipado com sistema de alarme, telefone etc. Há
lavanderia coletiva, camareiras para limpar os apartamentos, acompanhante para fazer compras e restau-
rante para aqueles que não querem cozinhar. Liberdade para ir e vir e diversas atividades socioculturais são
oferecidas durante a semana.

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Clarice Ehlers Peixoto 97

nhum brasileiro entrevistado vive nesse tipo de instituição). O mesmo roteiro de


entrevista foi usado nas duas cidades, e evidentemente foram levadas em conta suas
diferenças sociais e culturais.
Há mais mulheres do que homens entre as pessoas entrevistadas, um reflexo da
mortalidade precoce dos homens de mais idade. As mulheres entrevistadas exerce-
ram profissões diversas, como vendedoras, costureiras, faxineiras, secretárias, e muitas
foram donas de casa (sobretudo no Brasil). Entre os homens aposentados, alguns
trabalharam no comércio (como empregados), enquanto outros exerceram diferen-
ciadas funções subalternas no setor público.
Sendo a expectativa de vida no Brasil4 mais baixa do que na França, o número de
viúvos(as) brasileiros(as) entrevistados(das) é mais alto, embora eles sejam mais jo-
vens do que os franceses. No entanto, a maioria dos homens viúvos brasileiros não
vive só, alguns se casam novamente e outros vivem uma terceira união conjugal.
Mesmo apresentando grandes diferenças nos sistemas de proteção social (mais
desenvolvidos na França e quase inexistentes no Brasil), encontramos entre esses
dois países semelhanças nas práticas relacionais entre as gerações. O estudo compa-
rativo, ao interrogar sobre aquilo que nos parece natural na construção das relações
entre gerações, faz surgir certos fundamentos imperceptíveis e diferenciais das rela-
ções familiares e do processo de individualização nessas duas sociedades.

A INDIVIDUALIZAÇÃO DO AFETO

A história da família evoca o princípio da primogenitura, segundo o qual o


primeiro filho é o herdeiro único do patrimônio material, social e simbólico da
família, sendo assim o responsável pela reprodução familiar, mas também pelos seus
ascendentes. Somente através dele a linhagem poderia ser perpetuada.5 A Revolu-
ção Francesa questionou esse princípio e, na sociedade contemporânea, essa ideolo-
gia da desigualdade foi substituída pela ideologia da solidariedade e da igualdade
familiar. No entanto, o princípio de igualdade absoluta entre os indivíduos nas
relações intergeracionais não corresponde à realidade das práticas familiares, e nas
novas relações entre as gerações as preferências são sempre muito marcadas e o
afetivo é fundamentalmente individualizante. Há sempre laços preferenciais entre
avós e netos, mesmo que muitas vezes os avós sejam reticientes a declarar.
Sabemos que as noções de avô e de avó são relativamente recentes. Na Europa,
até o século XVIII, a imagem da grand-parentalité6 estava vinculada à velhice, à deca-
dência e à morte. Ao longo dos anos, observa-se a transformação do papel dos avós,

4
Sessenta e sete anos para os homens e 72 anos para as mulheres.
5
Attias-Donfut & Segalen, 1998.
6
Termo usado em francês para caracterizar o estatuto dos avós — grands-parents.

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98 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

conseqüência do aumento da esperança de vida e do recuo do modelo patriarcal até


então assimilado a uma autoridade forte da geração mais velha e, assim, a uma
distância afetiva. As relações afetivas entre avós e netos emergem nos anos 1930,
quando os primeiros se tornam auxiliares dos pais na socialização das crianças.7 Os
laços entre avós e netos se tecem pouco a pouco e surgem as preferências, como,
aliás, nas relações entre pais e filhos.
Na França como no Brasil, as predileções dos avós são raramente confessadas e
eles não as admitem facilmente:

Não, amo os três (...) O do meio é mais, assim, acessível e acabo gostando mais dele
porque é mais bonzinho. O mais velho é arredio. Mas eu gosto de todos da mesma
maneira (Iná, brasileira, 70 anos, dona de casa, três netos).

Mesmo afirmando amar todos os netos igualmente, no final das contas tem sem-
pre um que é mais querido do que os outros. Em geral, a eleição afetiva se constrói ao
longo da infância dos netos e raros são os avós que escolheram seu preferido a partir
da adolescência, fase da vida caracterizada por uma redefinição das relações familia-
res. A passagem dessa etapa à vida adulta é acompanhada de perto por muitos dos
avós entrevistados, uma vez que essa transição pode levar a uma aproximação ou a
uma perturbação nas relações entre essas duas gerações.
Assim, para Simone, que observa a passagem do tempo e as mudanças de com-
portamento de sua neta mais velha,

em função da idade, a atitude muda. Tenho uma neta que vai fazer 18 anos, um neto com
15 anos e uma neta com 8 anos, com cada um é diferente, nada é parecido (...). A de 18
anos mudou repentinamente de comportamento (...), conversava com ela sobre diversos
problemas com mais facilidade há dois anos, três anos atrás. Agora, é difícil até encontrá-
la, pois ela vive a sua liberdade (francesa, 75 anos, dama de companhia, três netos).

Raros são os avós que não reclamam de certo distanciamento afetivo quando os
netos entram na adolescência, apesar de alguns deles se declararem prestes a rom-
per a relação se seus jovens adolescentes não seguirem as normas familiares e sociais.
Jeanne, por exemplo, mesmo não conseguindo abordar certos temas com suas duas
netas jovens, vive cheia de preocupações:

Eu as mimo bastante, mas ai delas se derem um mau passo, corto tudo! Eu sou assim, se
elas consumirem drogas, coisas desse tipo, corto logo. Posso ajudá-las mas de outro
modo, sem dar nenhum dinheiro (...) boto logo no caminho certo, tento redirigir o tiro!
(72 anos, secretária do serviço público, duas netas).

7
Ver a respeito, Attias-Donfut & Segalen, 1998.

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Clarice Ehlers Peixoto 99

Deste lado do oceano Atlântico, uma situação semelhante é vivida por Lídia, que
criou os dois netos e, depois que eles entraram na adolescência, sofre com o distan-
ciamento e mesmo com o desprezo:

Eu adoro encontrá-los! Na hora em que os vejo, tenho uma grande alegria, mas 10 ou
15 minutos depois eu já me afasto deles, fico triste. Eles me xingam de vó antiquada, vó
chata. Eles nem vêm mais na minha casa, não me visitam. Não telefonam para saber
como vou indo (...) e quando me procuram é porque querem dinheiro. E, depois que
dou, me arrependo porque eles desaparecem (60 anos, comerciária, quatro netos).

Entretanto, os vínculos entre as duas gerações podem também se consolidar quan-


do as relações entre pais e filhos adolescentes são tensas e os avós são chamados a
interferir. Vivendo perto dos dois filhos, Michèle viu sua casa se transformar, pouco
a pouco, em refúgio dos netos adolescentes em crise:

Ela [neta de 13 anos] chegou aqui às 9 horas da noite. Abro a porta, ela estava com três
mochilas e me disse: “briguei com meu pai e Gilbert [irmão], e vim para cá e vou ficar
aqui”. Ela ficou três meses! (67 anos, aide ménagère,8 nove netos).

Como já dissemos, a coabitação com a geração mais velha é um fenômeno


banal nas camadas populares brasileiras. As pensões de aposentadoria são muito
baixas e o sistema de assistência social – assistência médica e serviços hospitalares
– é precário, incapaz de assistir adequadamente essa população. Assim, após a
aposentaria ou a viuvez, em geral os avós passam a viver na casa de um dos filhos ou,
se são proprietários, um dos filhos adultos vem com a família morar com eles. Além
disso, muitos dos filhos(as) divorciados(as) retornam à casa dos pais, solicitando
uma ajuda para criar seus filhos, pois no Brasil não existe nenhum tipo de prestação
social (allocation sociale) nem um amplo sistema de assistência social de creches e/ou
babás credenciadas pelo setor público, como na França. As escolas públicas e
privadas funcionam somente meio expediente, o que obriga os pais das camadas
populares que trabalham a solicitar aos avós que cuidem dos netos, na outra meta-
de do dia. Nessas horas de guarda, eles ajudam as crianças nos trabalhos escolares,
prática também observada nas famílias francesas, nas quais os avós “cuidam”9 dos
netos na saída da escola ou nas férias de curta duração.10 Entre as pessoas entrevis-
8
Aide ménagère, empregadas(os) da municipalidade contratada(os) para dar assistência (cozinhar, passar
roupa e limpar a casa, acompanhar às compras ou fazer as compras etc.) às pessoas idosas, deficientes ou
momentaneamente doentes.
9
“Guardar”, “cuidar”, são os termos mais usados pelos avós brasileiros para descrever essa situação.
10
Na França, como as aulas são em horário integral, o ano escolar é entrecortado por quatro curtos
períodos de férias (entre 10 e 15 dias): férias de inverno (fevereiro), de Páscoa, de Finados e de Natal e final
de ano. As grandes férias são em julho e agosto, no verão europeu.

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100 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

tadas no Brasil, aproximadamente um terço vive com um dos filhos(as) e os netos


na mesma casa ou apartamento, senão no mesmo prédio. E, para vários deles, esse
convívio pode favorecer a preferência.

A formação da preferência
As predileções não se criam espontaneamente. A eleição dos avós e dos netos
está ligada a diversos fatores que possuem significados diferentes entre si: a assi-
duidade dos encontros (visitas ou telefonemas) e o “cuidado” ou a “guarda” (tem-
porária ou definitiva) são os mais freqüentes. Intervêm igualmente a primogenitura,
as afinidades, as trocas de presentes e de serviços que traduzem a atenção para
com o outro e alimentam a afeição. Nas relações familiares verticais, é impossível
não se proceder a uma escolha mesmo quando não existem relações tensas ou
conflitos familiares. Assim, num primeiro momento, todos os avós expressam a
imparcialidade de seus sentimentos; diante da pergunta “a senhora mantém rela-
ções mais próximas com um ou outro dos seus netos?”, Odette responde imediata-
mente: “não, mas... quem sabe com Camille” (francesa, 84 anos, dona de casa,
quatro netos). No entanto, quando eles descrevem detalhadamente as relações que
mantêm com os netos, uma preferência sempre aparece. Entre os brasileiros entre-
vistados, observamos que existe uma tendência mais forte do que entre os franceses
para a escolha do neto(a) mais velho(a). Afora a primogenitura, essa predileção
não se manifesta logo nos primeiros contatos, ela progride ao longo do ciclo da
vida familiar e depende da evolução das relações que eles mantêm com os filhos,
assim como da distância geográfica que os separa dos netos. Guardar/cuidar ou
criar os netos é um fator que contribui de modo decisivo para a eleição, em geral
alimentada pela convivência. Um certo número de avós procura justificar sua esco-
lha pela freqüência dos encontros:

Não tenho preferência, mas um costume. Estou mais habituada com Alice e Pierre, eles
vão me fazer mais falta [quando crescerem]. Não é uma preferência afetiva (...) talvez
seja uma preferência, mas não tenho a impressão de ter uma preferência. Só que sinto
mais falta daqueles que vejo todo o tempo. Os outros também me fazem falta, mas já
estou habituada com esta falta e não ligo tanto (Germaine, 65 anos, funcionária da
companhia estatal de eletricidade, quatro netos e relações conflituosas com a nora, mãe
dos netos que vê esporadicamente).

Cuidar ou criar é uma tarefa das avós. Nem todas cuidam dos netos diariamente,
mas a maioria é solicitada a fazê-lo ocasionalmente. A natureza dessas duas situações
é diferente. A “guarda” ou o “cuidado” pode ser por um longo período, mas não é
contínua: diariamente, para os netos que ainda não vão à escola, ou nas quartas-

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Clarice Ehlers Peixoto 101

feiras,11 para aqueles em idade escolar, ou ainda nos finais de semana e/ou nas
férias12. Muitos dos avós entrevistados gostam de guardar/cuidar dos netos em uma
ou outra dessas situações, afirmando que elas se traduzem em alegres encontros. Em
compensação, existem aqueles que consideram a guarda dos netos uma obrigação,
uma verdadeira prestação de serviço; é o que sente Paulette quando fala do seu papel
de “babá”: “não sou uma avó ideal, confesso que cuido deles por dever, mas não é
meu prato preferido”. Diante da pergunta sobre o que faz com os netos nos dois dias
da semana em que os guarda, ela responde:

Nada, me esforço para que façam os deveres escolares e é difícil. Aliás, minha filha contra-
tou uma pessoa para ajudar o mais novo nos deveres. Então, vou à casa deles e fico lá até
que minha filha chegue e é só isso (francesa, 72 anos, funcionária pública, três netos).

Tanto no Brasil quanto na França, poucos foram os avós que nunca guardaram/
cuidaram dos netos. Mesmo entre os mais resistentes, alguns o fazem de tempos em
tempos para “quebrar um galho” para os filhos, outros ficam com os netos somente
alguns dias nas férias escolares. É o caso de Monique, avó de oito netos:

Digo que não quero concorrer com minhas filhas. Sou uma avó quebra-galho no caso de
algum problema, uma avó afetuosa e pronto-socorro carinhosa quando precisam, mas
não sou babá, isso não! (65 anos, dona de casa e bibliotecária voluntária).

Inversamente, “criar” possibilita a construção de uma relação permanente, pois


trata-se de manter e educar os netos, em suma, de substituir um dos pais ou os dois
se as circunstâncias exigirem e durante o tempo que for necessário. É o caso de
Maria, cujo filho divorciado voltou para sua casa, trazendo consigo os dois filhos:
“eu os criei como se fosse a mãe deles” (68 anos, pequena comerciante, seis netos).
Essa situação é mais freqüente no Brasil, onde se encontra um elevado número de
filhos divorciados. Entretanto, não é o divórcio em si que faz a diferença, já que ele
também existe entre os filhos de alguns franceses entrevistados, mas o fato de que
boa parte desses filhos(as) divorciados(as) retornam à casa dos pais com sua prole.
Esse fenômeno, comum entre as mulheres divorciadas das camadas populares brasi-
leiras, tem múltiplas razões: os salários são baixos e os aluguéis, altos; as pensões
alimentares acertadas pelos ex-maridos são também baixas ou inexistentes13 e a im-

11
As escolas maternais e primárias francesas não funcionam nas quarta-feiras. Isso obriga os pais que
trabalham a recorrer às baby-sitters, aos centros de recreação das prefeituras ou aos avós. Tudo depende das
suas possibilidades financeiras e das relações que mantêm com suas famílias.
12
Ver a respeito Attias-Donfut & Segalen, 1998.
13
Os processos judiciais são longos e seu custo nem sempre é acessível aos mais pobres. Além disso, há um
alto índice de trabalho informal, o que dificulta provar o recebimento de uma remuneração.

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102 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

possibilidade, para as que trabalham, de pagar uma babá para cuidar dos filhos
durante o dia. Enfim, são os avós que vêm em socorro de seus filhos(as), recomeçan-
do assim uma segunda carreira de pais. Não é por acaso que alguns dos brasileiros
entrevistados se dizem muito mais apegados aos netos que criaram. A participação
dos avós franceses no divórcio de seus filhos, principalmente das filhas, também se
traduz em um sentimento de forte afeição para com os netos que cuidaram, embora
a coabitação seja rara.14
Estas duas situações – cuidar e criar – permitem, assim, a construção de verdadei-
ros laços entre avós e netos. Elas favorecem também o desenvolvimento de múltiplas
trocas, em todos os domínios – presentinhos, conselhos, passeios, ajudas, confidên-
cias, entre outras. Se a relação é bem cuidada até a idade adulta, um forte vínculo se
estabelece entre essas duas gerações, senão as relações podem se dissipar e a freqüên-
cia dos encontros se tornar rara. De todo modo, em qualquer das situações, confor-
me os netos crescem, menos os avós são solicitados e mais as relações entre as gera-
ções mudam de natureza: eles não são mais os avós em disponibilidade permanente,
passando a ser solicitados para “quebrar um galho” financeiro ou para participar
das festas familiares, levando consigo presentes ou envelopes com um “dinheiri-
nho” para distribuir entre seus descendentes.

P ROXIMIDADES E DISTÂNCIAS

Grande parte dos estudos sobre as relações familiares considera que a proximidade
geográfica é um elemento fundamental para a solidariedade familiar e a criação de
laços afetivos, como já assinalado. Mas isso não é regra absoluta, uma vez que encon-
tramos situações bem diferenciadas. Por exemplo, alguns avós vivem próximos fisica-
mente de seus filhos e netos mas estão afetivamente distantes, como Conceição, que
vive com a filha divorciada e suas duas netas. Elas moram no subúrbio do Rio de
Janeiro e dividem o mesmo terreno, cada uma em sua casa. Encarregada de criar as
netas para que sua filha trabalhasse, hoje ela se queixa da indiferença das netas depois
que se tornaram jovens adultas:

Hoje, os jovens preferem os outros jovens. A avó é só quando precisam de alguma coisa,
aí elas vêm procurar a avó. Eu gostaria que elas viessem mais para perto de mim. Elas já
foram assim, mas hoje em dia não são. Só vêm mesmo quando precisam, vivemos uma
pra lá outra pra cá. A gente se encontra, se vê, se fala, mas não tem aquela amizade de
antes (69 anos, dona de casa, duas netas).

14
Attias-Donfut, no artigo “En France: corésidence et transmission patrimoniale” (1995), analisou os efeitos
do divórcio e da coabitação entre pais e filhos franceses.

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Clarice Ehlers Peixoto 103

Em um país como no outro, se os avós e os netos moram na mesma cidade ou no


mesmo bairro, as visitas podem ser mais regulares. Mas trata-se de que regularidade?
Freqüentemente, esporadicamente, de tempos em tempos? Essas noções são muito
tênues e, nesses dois grupos sociais tão distintos culturalmente, elas não têm o mes-
mo sentido. Para os avós franceses, encontrar freqüentemente seus netos significa
que eles os vêem a cada 15 dias ou pelo menos uma vez ao mês. Já para os avós
brasileiros, freqüentemente corresponde a pelos menos uma vez por semana, às
vezes mais. A segunda noção – esporadicamente – também não designa a mesma
assiduidade dos contatos familiares: os avós franceses encontram seus netos no má-
ximo três ou quatro vezes ao ano (principalmente nas festas de Natal, Páscoa e
aniversários), enquanto, para os brasileiros, encontrar esporadicamente os netos sig-
nifica vê-los duas ou três vezes ao mês e não ao ano. Essas representações refletem o
ritmo dos encontros e, conseqüentemente, as apreciações que os avós fazem deles:
satisfatórios, insatisfatórios, insuficientes. Alguns lamentam o ritmo esporádico dos
encontros, considerando que não os vêem como gostariam e que a falta de contatos
pessoais os impede de acompanhar o crescimento e a evolução dos netos, principal-
mente daqueles que consideram mais próximos afetivamente. Paul acha que

Nunca é demais (…). Mesmo se os vejo com freqüência não é suficiente, porque é
maravilhoso vê-los crescer” (69 anos, empregado de uma agência de turismo, quatro
netos).

René (85 anos) não tem a mesma opinião. Ele mora com sua mulher em Paris, na
região administrativa 19, tem 11 netos, entre 32 e 18 anos, que moram na região
parisiense e/ou em cidades próximas. Seus encontros acontecem nas reuniões de
família ou em algumas visitas de tempos em tempos:

Eu acho que os vejo da forma certa, de maneira a manter sempre uma boa relação.
Porque quando a gente se vê muito, cada um com sua personalidade, então (…) É melhor
deixar, e quando eles aparecem é porque querem, é de bom coração.

Na verdade, distância espacial nem sempre é sinônimo de distanciamento afetivo.


Se por vezes ela esfria as relações entre avós e netos, estas podem ser logo reaquecidas
pelos telefonemas freqüentes.15 Tanto em Paris como no Rio, os avós usam muito o
telefone para falar com os netos, morando perto ou longe deles. Eles dificilmente
aceitam a existência de um distanciamento afetivo em razão de uma distância geo-
gráfica; as relações telefônicas permitem que enfrentem o déficit das visitas e a assi-

15
Várias pesquisas realizadas na França sobre os níveis de consumo dos aposentados mostram que suas
despesas telefônicas são bem altas. Ver, por exemplo, as pesquisas do Credoc, de Pochet (1997), de Attias-
Donfut & Segalen (1998).

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104 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

duidade das conversas impede que os laços se afrouxem, ainda que falem mais fre-
qüentemente ao telefone com seus filhos e que as conversas telefônicas com os netos
sejam sempre mais rápidas. Este é o caso de Maria Helena, cujos netos não moram
no Rio:

As três meninas moram em São Paulo, as menores. A mais velha mora sozinha em
Brasília, ela é advogada, e tem o mais velho, que mora com os pais em Belém. Mas
estão sempre em contato comigo, eu vou muito lá, eles vêm aqui, telefonam toda
semana. Eles não deixam de telefonar (...) Se de repente dá saudade, eu vou me
embora (67 anos, cinco netos).

Para Ana José, avó de 10 netos, dois dos quais moram em Brasília e um vive em
Florianópolis, a distância que a separa deste último, seu neto preferido, não é uma
barreira para as visitas:

Eu morro de saudades dele. Eu estava muito apegada a ele [antes da filha morar em
Florianópolis] e agora a gente se telefona toda semana. Às vezes, eu vou para lá e fico
um mês. Mas agora eles vêm para o Natal e talvez eu volte com eles para passar uns dois
meses lá. Eu morro de saudades dele! (72 anos, dona de casa, viúva).

Os avós brasileiros fazem suas malas com mais freqüência que os avós franceses
para irem ao encontro dos netos, ainda que as distâncias sejam mais longas e que os
meios de transporte sejam mais precários e difíceis (em geral, viajam de ônibus).
Trata-se, evidentemente, de um “efeito de idade”,16 já que são majoritariamente
mais jovens do que os franceses. Além disso, são mais livres, uma vez que muitos
deles são viúvos. Mas há um outro elemento ainda mais importante que estimula os
avós brasileiros a viajarem: é o desejo de fortalecer o vínculo familiar com seus
descendentes e a certeza de que essa vontade é recíproca. Sendo a sociedade brasi-
leira hierarquizada e relacional, os laços familiares e as relações pessoais são valores
estruturantes. A coabitação entre gerações é valorizada pela troca que representa.
Mesmo efêmera, essa co-residência implica uma relação de proximidade e até de
intimidade – normalmente não nos hospedamos em casa de quem não somos próxi-
mos ou com quem mantemos relações tensas. Tal atitude já é um indicador de uma
eleição afetiva, e não é por acaso que Ana José viaja menos para Brasília do que para
Florianópolis, onde vive seu neto preferido.

16
“Efeito de idade”, variável composta da conjugação de três fatores: envelhecimento, posição no ciclo de vida
e duração da vida. O modelo de ciclo de vida tem sido desenvolvido há décadas em psicologia do desenvol-
vimento e é amplamente utilizado por outras áreas de conhecimento. Expressando a evolução dos compor-
tamentos, dele fazem parte três tempos interdependentes: efeito de idade, efeito de coorte ou de geração e
efeito de período. Como todos os modelos, ele tem seus limites e dificuldades (Attias-Donfut, 1992).

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Clarice Ehlers Peixoto 105

Quanto aos avós franceses, seus deslocamentos são comparativamente mais raros.
São relativamente freqüentes, se avós e netos moram perto; as médias e longas distân-
cias em geral são percorridas nas férias. Raros são aqueles que viajam fora do calendá-
rio escolar para ver os netos e, na representação dos franceses entrevistados, viver
junto durante as férias não tem o mesmo sentido de uma coabitação, embora o tempo
de convivência seja equivalente àquele dos avós brasileiros. Nas férias, os avós france-
ses viajam muitas vezes com seus netos ou os recebem em casa. Trata-se, portanto, de
uma visita prolongada na qual as desvantagens da vida cotidiana são menores, as
relações de intimidade mais tênues e o sentimento de desconforto ou de incômodo
está ausente. Assinalamos que no Brasil as viagens de férias não constituem um hábi-
to e nem são institucionalizadas como na França.17 São iniciativas individuais que
não têm caráter ritual ou regular. Isso porque nem sempre viajamos nas férias, as
distâncias são longas e os meios de transporte e hospedagem caros. Assim, o caráter
banal da palavra partir na França se opõe ao caráter excepcional da palavra viajar no
Brasil. De todo modo, tanto no Brasil como na França, os deslocamentos se fazem
em função da idade dos avós e do custo das viagens.
Nessas famílias multigeracionais, a proximidade afetiva entre avós e netos está
ligada à natureza da relação que os primeiros mantêm com seus filhos e respectivos
cônjuges. As relações não-conflituosas favorecem a formação de uma preferência por
tal ou qual neto que não são necessariamente filhos de seus filhos preferidos. Mas há
ainda aqueles, como Maria do Carmo, que se referem ao inesquecível sentimento de
se tornar avó:

A Adriana eu adoro, é uma maravilha! Foi ela quem me fez avó! [é a neta mais velha]
(70 anos, costureira, seis netos).

Mas outros, como Ludovino, admitem a existência de um favoritismo pelo mais


velho:

Gosto dos três. Só tem uma coisa: o primeiro é sempre o primeiro (Ludovino, 67 anos,
divorciado, desenhista, três netos).

17
Prendre des vacances, noção que designa não somente “tirar férias”, mas sobretudo “viajar de férias”. Na
sociedade francesa, prendre des vacances é um direito social de todo cidadão desde 1936 e, por isso, está
profundamente arraigado aos hábitos familiares. “Tirar férias” significa mudar de ares, fugir do cotidiano,
viajar. Impossível ficar no mesmo lugar, na mesma cidade. Assim, para as famílias que têm filhos menores
de 18 anos, o Estado põe à disposição colônias de férias espalhadas pelo país inteiro e a preços relativamen-
te reduzidos. Mas nem todos recorrem a essa estrutura, preferindo viajar em família. De fato, somente as
famílias em situação muito precária não viajam de férias, o que vem se tornando um “problema social”,
principalmente para os jovens, pois ficam desocupados nos seus bairros periféricos e quando retornam ao
trabalho ou às aulas têm de suportar os relatos dos colegas sobre suas aventuras de férias. Partir e voltar das
férias é sempre manchete nos jornais franceses.

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106 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

É verdade que a relação com o primogênito(a) é resultado de uma história mais


longa de convivência, mas também podemos pensar na hipótese de que é a expres-
são de uma forma de preservação do princípio da primogenitura, segundo o qual as
transferências materiais se transformam em transmissões afetivas. Entretanto, a pre-
ferência pelo mais velho(a) não significa que ele(a) vá herdar mais bens materiais que
os outros netos.
Como assinalamos anteriormente, em algumas famílias, a formação da preferên-
cia é produzida ao longo do ciclo familiar logo que os avós começam a perceber
traços de semelhança entre seus netos e eles mesmos; ocorrem manifestações de
carinho e se estabelecem trocas entre eles. Em geral, no conjunto das relações fami-
liares, seja no Brasil ou na França, garantir um vínculo com os netos é fundamental.
Assim, as respostas à questão “o que espera dos netos?” são reveladoras desse desejo
de manter os laços e de nunca se separar dos netos: atenção, carinho, amor. Mas,
também, “que eles não me abandonem”, “que a relação não se rompa”, “que eles me
ajudem”. Para não serem esquecidos, os avós reservam pequenas lembranças para
transmitir assim como sua própria imagem fixa no papel: fotos diversas. Assim,
Juliette deixou para o neto mais velho a foto do avô que ele nunca conheceu e
Valdice tirou uma foto sua em um estúdio fotográfico para dar a cada um dos netos
“para que eles coloquem no quarto deles”.

T RANSMISSÃO DE BENS , DE VALORES E DE SABERES

Em Paris como no Rio, a primeira pergunta sobre transmissão – “existe alguma


coisa que gostaria de transmitir?” – deixou as pessoas perplexas, invariavelmente
acreditavam que se tratava da transmissão de algum bem material – propriedades
ou dinheiro.18 Assim, as respostas espontâneas como “nada” ou “ainda não pensei
nisso” foram as mais freqüentes. Raras foram as situações em que não fomos obri-
gados a dar exemplos de transmissões não-materiais para obter aquelas referentes
aos valores sociais, culturais e morais, assim como as histórias, os saberes e conhe-
cimentos. Essas transmissões estão muito ligadas às relações de gênero: as avós
conversam mais com as netas sobre hábitos e comportamentos, sobre receitas e
canções, sobre religião, assim como fazem confidências diversas; os avós, por sua
vez, conversam com os netos sobre esportes, trabalho e o futuro deles, evocando os
franceses também as histórias de guerra. Em compensação, todos os avós mencio-
nam a importância dos estudos e de uma formação profissional para “progredir na
vida”.

18
Não podemos esquecer que se trata de pessoas de origem popular, cujo patrimônio é reduzido.

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Clarice Ehlers Peixoto 107

Valores e saberes
A educação e a formação profissional dos netos constituem a maior preocupação
dos avós brasileiros e franceses. E, se isso corresponde ao que esperávamos encon-
trar nas famílias francesas, pois elas atribuem um valor enorme aos estudos, ficamos
surpresos com o fato de que os avós brasileiros também dão grande importância à
vida escolar dos netos. Alguns deles chegam mesmo a vender seu pequeno aparta-
mento ou objetos de valor para pagar os estudos dos netos.19 Na França,20 a ajuda
dos avós entrevistados se dá principalmente através da compra de livros, do paga-
mento de cursos suplementares e de atividades culturais, além de viagens e colônias
de férias. Em geral, aqueles que cuidam dos netos diariamente, após o horário da
escola, têm a tarefa de supervisionar os deveres escolares, mas isso se resume muitas
vezes no controle do tempo que as crianças dedicam à elaboração das tarefas escola-
res. Nas camadas populares, tanto no Brasil como na França, a maioria dos avós tem
um nível de instrução baixo, o que leva a uma grande defasagem entre seu nível de
estudos e o dos netos. Além disso, alguns deles consideram que educar é dever dos
pais: “compete aos pais, os avós não estão aí para os dirigir, isso não!” (Denise, 69
anos, francesa, secretária, dois netos). Isso não impede que a preocupação maior
seja com o futuro dos netos. Nessas horas de guarda, de visita ou nos telefonemas, o
principal assunto de conversa entre essas duas gerações é o estudo. Eles aproveitam
também para transmitir alguns valores morais e sociais (respeito aos outros, sobretu-
do aos mais velhos; honestidade; importância dos laços familiares; o valor do traba-
lho; as histórias de família...), pois muitos deles acham que os pais de hoje são
muito negligentes nessas questões:

Ela vem passar 15 dias aqui comigo, vou aproveitar para lhe inculcar melhores princí-
pios (...) é engraçado porque comigo tem coisas que ela gosta de conversar (Raymonde,
75 anos, dama de companhia).

Se é verdade que a passagem à adolescência e à idade adulta pode resultar em um


distanciamento entre pais e filhos e tornar difícil a discussão sobre certas questões,
essa distância não parece ser tão grande entre avós e netos: eles continuam a fazer
pequenas confidências entre si. Entre os brasileiros, essas conversas invadem a inti-

19
Dado que a qualidade do ensino público brasileiro caiu muito com as reformas educacionais implantadas
durante a ditadura e com a ausência de uma política educacional nos governos democráticos que se
seguiram, as famílias que possuem melhores condições financeiras matriculam os filhos nas escolas priva-
das que oferecem melhor qualidade de ensino, mas que são extremamente caras.
20
Na França, o ensino é inteiramente gratuito (da escola maternal à universidade) e todos têm direito à
inscrição nas escolas do bairro. Os pais que não mantêm os filhos nas escolas perdem o direito às allocations
familiales.

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108 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

midade, uma vez que eles falam também de comportamento sexual: os(as)
primeiros(as) namorados(as), a contracepção e a prevenção contra a Aids, a virgin-
dade, que é ainda um valor cultural em certas camadas sociais brasileiras.21 O dis-
curso de Edith resume bem as representações da geração mais velha sobre a preser-
vação da virgindade até o casamento:

Minha neta está namorando, ela começou a namorar no colégio e o menino tem a
mesma idade dela. Então, eu sempre digo que ela deve se conservar para o casamento,
porque quando eu comecei a namorar o meu marido, eu tinha a mesma idade que ela
tem. Eu tinha 16 anos e ele 19; namoramos 10 anos e casamos direitinho. Então, eu
digo isso para ela porque eu acho isso muito importante para a mulher (78 anos,
operária, quatro netos).

Inversamente, na França, a sexualidade nunca é um tema de conversa entre avós


e netas, embora as avós se preocupem bastante com a escolha dos namorados e com
a transmissão da Aids.
Nessas confidências entre mulheres, elas falam sobre os “problemas da vida” e as
“experiências de vida”, e as avós aproveitam para transmitir os valores que consideram
importantes a serem reproduzidos no grupo familiar, mesmo se, como diz Simone:

alguns jovens pensam que não temos nada a lhes transmitir. Todos querem viver suas
próprias experiências, a experiência dos mais velhos não serve para nada... Mas eu acho
que é preciso manter um mínimo de tradição, senão a família desaparece!

Ao contrário das conversas femininas, as discussões masculinas raramente tocam


nos assuntos amorosos, que parecem ser tabu entre os avós e os netos, tanto no Brasil
quanto na França. Eles falam sobre as escolhas profissionais, o valor do dinheiro e
do custo de vida etc. Como já assinalado, entre os brasileiros não existem histórias
de guerra para contar, mas fatos políticos e muitas conversas em torno do futebol: o
campeonato nacional dos clubes, a copa da América e as diversas copas do mundo.
Esses assuntos gerais são muitas vezes um mote ou uma porta de entrada para discu-
tir outros mais delicados, como o consumo de drogas, por exemplo. Independente-
mente das preferências, essas transmissões são individualizadas e muito marcadas
pela divisão sexual dos temas a tratar: “coisas de homem e coisas de mulher”.
Os avós têm muito a transmitir. Às memórias individuais se conjugam as memó-
rias coletivas e as lembranças não se limitam às suas trajetórias pessoais nem à vida
familiar; seus relatos falam de acontecimentos políticos e sociais assim como das
transformações do bairro e da cidade e da evolução dos costumes.22

21
Essa questão é analisada por Bozon & Heilborn, 1996.
22
Essas questões são analisadas por Attias-Donfut, 1992; Barros, 1997; e Muxel, 1996.

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Clarice Ehlers Peixoto 109

Fotos, jóias, medalhas...


Pertencendo às camadas populares, as pessoas entrevistadas praticamente não
possuem uma herança patrimonial a transmitir. Algumas são proprietárias do imó-
vel onde moram ou possuem um carro, outras fizeram pequenas economias ao longo
dos anos. Esses bens são considerados o patrimônio mais importante e em geral são
reservados aos filhos, os netos são os herdeiros indiretos, principalmente na França.
São os objetos pessoais que compõem a herança dos netos, e sua transmissão é
freqüentemente individualizada, marcando uma distinção sexual. Desse modo, as
avós têm sempre uma jóia ou um anel reservado para a neta mais velha ou para a
preferida, sobretudo se elas não tiveram filhas. Entre os objetos de estimação a serem
transmitidos, há o caderno de receitas para aquela que gosta de cozinhar, os diários
ou escritos sobre a família, o caderno de poesias para aquela que gosta de ler ou
ainda, e cada vez mais raramente, um pequeno enxoval preparado para cada uma
das netas. Os avós deixam ao neto mais velho o relógio e as medalhas de guerra; os
livros e os quadros ou os instrumentos de bricolagem (martelos, furadeira etc.) são
distribuídos somente entre aqueles que se interessam. As fotos e os objetos da casa
(móveis, louças, lençóis/toalhas, bibelôs etc.) nem sempre têm um destino preciso,
eles são oferecidos àqueles que manifestam interesse em guardá-los. O relato de
Maria do Carmo revela o desejo de deixar uma lembrança de sua existência para
seus descendentes:

Vou deixar um santinho e atrás do santinho vou escrever um conselho para cada um.
Para cada neto vou deixar um conselho e quero fazer um testamento. Não tenho muita
coisa para deixar, só este apartamento onde moramos e uma casinha em Araruama, mas
o testamento é a última gentileza de uma pessoa. É como se fosse o seu último cartão de
visita (já citada, seis netos).

Tanto num país como no outro, os avós entrevistados consideram que as doações
e os empréstimos de dinheiro, ou mesmo os presentes caros (videocassete, computa-
dor, bicicleta etc.) solicitados pelos netos no aniversário e no Natal, constituem uma
herança dada em vida, uma vez que a soma despendida os transforma em presentes
memoráveis, embora não representem uma transmissão familiar. Vários são aqueles
que consideram não ter grande coisa para transmitir, nem objetos nem histórias de
família, pois acreditam que eles não interessam a ninguém. Guardam para si, até o
final da vida, suas histórias de infância pobre e seus objetos preferidos que não
encontram destinatários.
As transmissões se transformam em trocas, na medida em que os netos também
transmitem alguma coisa aos avós. Para além dos pequenos serviços, os avós dizem
encontrar nos mais jovens a “alegria de viver”, que lhes dá “força para continuar”,
aprendendo as “novidades da vida atual” e mantendo assim a “a cabeça jovem”. As

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110 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

avós brasileiras são mais abertas às mudanças da vida moderna do que seus cônjuges,
pois elas aprendem com os netos pequenos, e principalmente com as netas, a dan-
çar e a cantar os novos ritmos musicais (pagode, tchan!). Na França, as avós também
cantam com os netos pequeninos, mas raras são aquelas que o fazem com os adoles-
centes. Igualmente nos dois países, alguns avós aprendem informática e se associam
às locadoras de vídeo para estar mais próximos aos interesses dos netos e poder
acompanhá-los no seu crescimento, impedindo assim que o vínculo se desfaça.

C ONSIDERAÇÕES FINAIS

Transmissões materiais, transmissões afetivas e apoios diversos formam o circuito


das solidariedades e das transmissões entre as gerações e constituem elementos de
base da reprodução familiar. Os avós são o apoio com que os netos podem contar,
ainda que não compartilhem concepções de vida semelhantes.
Essas transmissões, em geral individualizadas, revelam a natureza da relação en-
tre a avó e o avô com os netos(as), pois não somente eles escolhem seus herdeiros e
preferidos, mas também aqueles com quem querem passear/viajar ou mesmo se dis-
trair. No Brasil, país em que as políticas sociais são precárias, a família desempenha
um papel social muito importante e a assiduidade dos contatos propicia uma relação
de intimidade mais imediata; a aversão às distâncias parece ser um traço particular
do caráter do brasileiro e praticamente todas as formas de relação passam pelo pes-
soal. O contraponto francês é o respeito à individualidade do outro, que se exprime
pelo estabelecimento de uma proximidade respeitosa, sem forçar as portas da inti-
midade: on ne raconte pas sa vie, fato banal no Brasil. Assim, a comparação entre esses
dois países revela, por exemplo, que os avós brasileiros participam intensamente da
vida dos netos, uma vez que coabitam com muito mais freqüência do que os france-
ses. Revela também que eles fazem as malas mais rapidamente logo que a saudade
bate, apesar das distâncias geográficas. Na França, mesmo sentindo falta dos netos,
as distâncias só são percorridas pelos avós esporadicamente. O resto do tempo, elas
são atravessadas pelos telefonemas constantes.
As preferências são bilaterais, já que os netos também fazem as próprias escolhas:
a avó ou o avô preferido do lado paterno ou materno. Assim, eles podem rejeitar
toda forma de relação com a linhagem da qual desejam se afastar por um motivo ou
outro. Individualizadas, as transmissões são inscritas nas relações de gênero, pois as
avós e os avós desejam deixar a cada um dos netos, em função de seu sexo, uma
lembrança particular ou um traço de sua passagem. Mesmo que se apóiem na
primogenitura, em uma preferência por um ou outro e no carinho por todos, as
relações entre avós e netos são sempre individualizadas.

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Clarice Ehlers Peixoto 111

R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CAPÍTULO 7

Individualismo e formas de apoio: entre


lógica incondicional e personalização da
parceria intergeracional*
VINCENZO CICCHELLI

“Estranhamente, o que me agradou, entre outras coisas, nesta pequena carta (uma
pequena folha de papel de pequeno formato) é que ele (meu pai) não dizia uma palavra
da universidade, não me pedia para repensar minha decisão, não me censurava por ter-
me recusado a prosseguir meus estudos – em resumo, ele não me oferecia nenhum dos
blablablás próprios aos pais, como é o hábito, e era justamente isso que estava errado
de sua parte, no sentido de que era um sinal ainda mais grave de sua falta de preocupa-
ção comigo.”
DOSTOIEVSKI, L’ADOLESCENT

OS FUNDADORES DA SOCIOLOGIA se apropriaram da problemática do indivi-


dualismo com o objetivo de compreender as transformações ocorridas na família
durante o século XIX e a contribuição dessa instituição para a manutenção e a
estabilidade dos laços sociais. Embora nem todos possam ser classificados dentro
do mesmo paradigma, suas interrogações sobre o lugar do afetivo no seio da insti-
tuição foram transmitidas a seus sucessores contemporâneos.1 Essa questão, que se

*
Tradução de Angela Xavier de Brito.
1
Cicchelli-Pugeault & Cicchelli, 1998.

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114 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

tornou o principal analisador do objeto “família” desde suas origens, traz desafios
teóricos de tal monta que, um século mais tarde, continuamos a refletir sobre os
instrumentos necessários à compreensão dos movimentos históricos considerados
freqüentemente antinômicos. Como conciliar a igualização dos estatutos dos indi-
víduos com a necessidade, ressentida por cada um deles, de atingir um reconheci-
mento de suas características pessoais?2 Será possível ser simultaneamente fiel a si
mesmo e compartilhar horizontes de senso comum, perseguir objetivos próprios
visando a construir, a preservar sua autonomia, e cultivar a preocupação com o
Outro?

O APOIO ENTRE GERAÇÕES : OS ESTUDANTES E SEUS PAIS

Para não considerar irredutíveis essas dimensões da modernidade familiar, opondo


o indivíduo ao grupo, o íntimo ao estatutário, este texto se inscreve em uma aborda-
gem construtivista das interdependências visando à compreensão do que ao mesmo
tempo liga e separa os atores do laço de filiação. Defendo a tese de que, por um
lado, a produção de indivíduos autônomos não é de maneira alguma feita em detri-
mento da construção do laço familiar e, por outro lado, essas duas dimensões devem
ser tratadas conjuntamente pelo pesquisador, na medida em que os atores sociais
contemporâneos estão indissociavelmente ligados às preocupações consigo mesmo
e com os outros.3 Um dos corolários dessa proposição é que uma maior sensibilida-
de ao desenvolvimento pessoal não exclui uma demanda de apoio à identidade,
podendo mesmo reforçá-la. Ora, esse apelo a um apoio ao desenvolvimento pessoal
assume, com freqüência, o tom de uma injunção.
Para mostrar como essa dupla exigência de personalização e de obrigação se
combina e/ou se exclui nas formas contemporâneas do care familiar, este texto

2
Tal distinção remete, por um lado, ao pensamento do século das luzes e, por outro lado, ao romantismo
alemão. Por essa razão, Charles Taylor (1996) intitula a primeira dimensão de “individualismo igualitário”
e a segunda de “individualismo romântico”. Sendo ambas constitutivas da modernidade, devem, segundo
ele, ser pensadas conjuntamente.
3
Cicchelli, 1999. A responsabilidade de si mesmo e a preocupação para com o outro são “exigências
próprias ao ideal ocidental da pessoa moral” (Piron, 1996:123). Sobre a importância do eu moral esponta-
neamente preocupado com o outro e não indiferente ao seu sofrimento, ver Bauman (1993; 1995). Sobre o
papel exercido pelo capital humanitário na valorização das dimensões não-utilitárias da relação com o
outro, ver Singly, 1990.
4
N. do T.: propositalmente, não utilizei a expressão “estudos universitários”, pois a universidade não cobre
todo o campo dos estudos superiores na França.

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Vincenzo Cicchelli 115

tratará a maneira pela qual os pais seguem os estudos superiores4 de seus filhos.
Tomar por objeto os estudantes, população bastante dependente das famílias de
origem em termos de recursos, de bens e de serviços,5 permite mostrar que a
individualização de suas trajetórias biográficas6 – que inicia desde a adolescência
nos liceus e continua durante o ciclo de estudos superiores – não se reduz apenas
à longa busca por uma emancipação familiar que desembocaria na dissolução ine-
lutável do vínculo. Um dos principais fatores aqui em jogo se refere à conciliação
dos estudos com o desenvolvimento da vida extra-escolar, das relações de amiza-
de e sentimentais. Isso é caracterizado por duas dimensões que se encaixam. De
um lado, os jovens desejam escolher por si mesmos as modalidades de seu inves-
timento em um e/ou outro campo de experiências, escolha que é tanto mais
possível quanto mais eles dão provas de espírito de autonomia no trabalho esco-
lar. De outro, um bom desempenho nos estudos faz sentido quando se refere ao
tipo de apoio que os estudantes esperam e o que efetivamente receberam de seus
pais.7 O fato de um estudante investir mais em seus estudos do que em atividades
próprias da juventude (e vice-versa) é, com freqüência, visto como uma escolha
individual, como o resultado de um longo processo de aprendizagem da discipli-
na e da afiliação à instituição. Mas esse tríptico implica um quadro que não é
suficientemente posto em evidência na sociologia do mundo estudantil, ou seja, o
quadro das interações familiares. Essas formas individuais da relação com os estu-
dos devem ser lidas paralelamente aos processos que conduzem a um apoio, por
vezes solicitado, por vezes imposto, por vezes terapêutico, por vezes patológico.
Em resumo, a maneira pela qual os estudantes julgam satisfatória e pertinente a
ajuda recebida da parte dos pais – seja quando eles reivindicam abertamente suas
necessidades, seja quando eles as formulam ex post facto8 – só pode ser apreciada
quando se estabelecem ligações entre essas duas dimensões.

5
Eicher & Gruel, 1997.
6
Erlich, 1998.
7
Este estudo se apóia em um corpus de 45 entrevistas-piloto realizadas pelos estudantes de Deug (Diplôme
d’Études Supérieures Générales), que corresponde ao primeiro ciclo de estudos superiores (os dois
primeiros anos do curso universitário) de sociologia da Universidade de Paris V, no contexto do módulo
de métodos quantitativos animado por F. de Singly, P. Bidet, O. Martin, C. Pugeault e V. Cicchelli. A fim
de tirar o melhor partido da leitura dessas entrevistas, neutralizou-se uma variável parasita (o ramo de
estudos), o que permitiu compreender a relação com o investimento mais no sentido de uma experiência
produzida pelo cruzamento dos desejos expressos pelos indivíduos e pelas famílias do que como o
produto de variáveis externas clássicas – sintetizadas no ramo de estudos seguido pelo estudante. Por essa
razão, foram entrevistados estudantes universitários e alunos das classes preparatórias às disciplinas
científicas.
8
N. do T.: as expressões latinas e inglesas presentes neste texto são do autor.

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116 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

F ORMAS INDIVIDUAIS DE INVESTIMENTO NOS ESTUDOS

Ao expor sobre a relação com o trabalho institucionalmente exigido, os estudan-


tes enfatizam o tempo de trabalho efetivamente realizado, indicador não apenas do
grau de investimento nos estudos – e simetricamente, da vida extra-escolar9 – mas
também de sua capacidade efetiva para interiorizar a obrigação do trabalho. O tipo
e a natureza do investimento nos estudos oscilam entre dois pólos extremos: de um
lado, o ascetismo, que se caracteriza por um superinvestimento; de outro, a negli-
gência, que remete a um subinvestimento.10 Em razão mesmo de suas posições extre-
mas, essas duas figuras ideal-típicas da relação com os estudos lançam luz sobre a
existência de uma terceira via, que tende ao equilíbrio. Sendo, por hipótese, menos
freqüentes em termos de distribuição, esses dois casos permanecem exemplares da
forma como os entrevistados se situam em relação a esses dois marcos. Não respeitar
uma dessas duas injunções, desenvolver-se enquanto pessoa, vencer socialmente
superinvestindo uma ou outra delas, pode ser fonte de mal-estar. O que está verda-
deiramente em jogo na relação dos indivíduos com o mundo dos estudos é, assim, o
fato de atingir uma justa medida na conciliação dessas duas formas de investimento.

Duas definições da autonomia no trabalho: integração


contra distanciamento
A autonomia escolar é uma qualidade própria do indivíduo que é capaz de organi-
zar seu trabalho e que se considera responsável por ele, tanto em seus atos imediatos
quanto em seus projetos futuros.11 É autônomo o estudante que é responsável por
seu investimento e que responde por seus deveres sem que os pais tenham de obrigá-
lo a isso. Seu objetivo é menos o de procurar o reconhecimento daqueles que o
financiam do que o de obter satisfações pessoais. Desse ponto de vista, é heterônomo
o estudante que não consegue chegar a essa forma de autocontrole, de controle de si.
O indivíduo autônomo é capaz de dosar seu investimento, de super ou subinvestir. Os
ascetas são autônomos assim como os negligentes, na medida em que compreenderam
perfeitamente as regras do jogo e souberam adaptar seu comportamento com mar-
gens de manobra e de sucesso variáveis. Graças ao conhecimento das engrenagens

9
Lahire, 1997.
10
Denominamos ascetismo escolar as formas de superinvestimento dos estudantes em seu trabalho escolar,
típicas dos inscritos nas classes preparatórias para as Grandes Écoles, institutos altamente seletivos do
ensino superior francês, cujo acesso se dá por concurso, após um período de formação adquirida em classes
preparatórias específicas. Entre elas destacam-se a Escola Normal Superior, a Escola Politécnica e a Escola
Nacional de Administração.
11
Lahire, 1995.

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Vincenzo Cicchelli 117

do sistema, que aceitam ou rejeitam, eles podem controlar a natureza e o grau de seu
investimento. Ao contrário, os que vivem mal o ascetismo e a negligência, que os
adotaram porque não tinham outro jeito, sem uma verdadeira reconstrução identitária,
possuem pouco domínio das regras de funcionamento da instituição. Eles chegam a
verbalizar a regra, mas não a dominá-la. Heterônomos em seu trabalho, eles vivem
uma fase de desencantamento.
Pode mesmo acontecer que o estudante que não se ache capaz de se aplicar nos
estudos jogue a carta do desinvestimento, tentando conquistar uma outra autono-
mia, conseqüência do aprendizado das experiências de sua juventude e do afrouxa-
mento das obrigações ligadas à continuação dos estudos, id est, do imperativo do
sucesso. Neste segundo caso, os sentimentos de autonomia e de heteronomia são
compreendidos a partir da tentativa de estabelecer uma distância da definição insti-
tucional e/ou familiar dos estudos. Do ponto de vista do sistema, o indivíduo não
chega a se conformar, mas do ponto de vista do ator, o distanciamento permite
afastar-se da influência institucional.

O APOIO ENQUANTO DEMANDA PARADOXAL

A extensão desse quadro de análise às relações entre pais e filhos visa a mostrar
que a ponderação das duas dimensões da identidade estudantil compromete os
atores nessa associação entre gerações e os estudos superiores. Trata-se então de
analisar que meios os pais utilizam para responder às expectativas formuladas pelos
filhos, de maneira mais ou menos explícita, ajudando-os a viver melhor sua relação
com os estudos e sua vida não-escolar (ou, no caso contrário, negligenciando essa
tarefa). Os jovens respondem à lógica legislativa parental12 através de um duplo
apelo, solicitando simultaneamente que eles intervenham – e assim exerçam seu
dever de pais, lógica incondicional – e que eles interpretem suas aspirações profun-
das, respondendo positivamente a elas.13
Essa demanda paradoxal é bastante forte no grupo dos estudantes.14 Em seu dis-
curso, a família toma a aparência de um pano de fundo do qual emana o apoio. Ao
lado dos recursos fornecidos, discerníveis e quantificáveis, como os recursos monetá-
rios, os jovens podem recorrer a uma segunda ordem de meios fornecidos por seus
pais para garantir um bom prosseguimento dos estudos: com efeito, por suas atitudes
e comportamentos, os pais podem constituir-se em apoio importante aos olhos dos

12
Cicchelli, 1997a e 1997b.
13
Cicchelli, 1999.
14
E isso independentemente do fato de que são eles que escolhem seus estudos (Galland; Clémençon; Le
Galès & Oberti, 1995), de que o estatuto de estudante seja eminentemente temporário (Bourdieu & Passeron,
1964) e o processo de afiliação à instituição, ao quadro da interação, seja feito fora da família (Coulon, 1997).

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118 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

filhos, validando suas escolhas, confortando-os em seus propósitos. Essa dinâmica es-
barra, no entanto, em dois tipos de dificuldades que se articulam. Ela pressupõe que os
pais se esforcem em decodificar as expectativas dos filhos,15 dosando, ao mesmo tem-
po, seu apoio. Muito insistente, o apoio pode ser visto como uma ingerência; muito
frouxo, pode ser percebido como uma manifestação de indiferença. A práxis e a
hermenêutica parentais devem oscilar entre estes dois pólos: interpretar para intervir,
intervir para apoiar, eis o apelo, a espécie de double bind,16 que os jovens dirigem a seus
pais para que sua associação se torne vantajosa para o bom desempenho nos estudos.

Apoio de acompanhamento e apoio de recomposição


Da mesma forma que o apoio não se aplica aos mesmos campos, ele pode ser
percebido tanto como um modelo quanto como algo que pode provocar aversão.
Assim, para compreender em que condições ele pode tornar-se um traço positivo no
contexto das trocas familiares, convém partir da natureza da expectativa do estudan-
te, cruzando-a com a forma pela qual ele percebe a natureza da resposta dos pais. Os
estudantes que consideram seus pais um “outro significativo” podem formular dois
tipos de demanda de apoio: de acompanhamento ou de recomposição. No primeiro
caso, o estudante pode esperar de seus pais uma circulação importante de recursos
financeiros e afetivos que lhe garantam um investimento contínuo, com um controle
mais ou menos severo de seu percurso escolar – apoio esse que se limita ao campo
estritamente escolar. No segundo caso, o estudante pode esperar de seus pais não
apenas o reconhecimento de sua seriedade escolar, mas também o de sua maneira de
ser e de existir para além dos estudos. No fundo, tudo o que interessa é validar sua
aspiração a conciliar as exigências da juventude com as exigências dos estudos. Nos
dois casos, o apoio tanto pode convergir em direção à expectativa do jovem – e ser
apreciado – quanto pode divergir – e engendrar assim um mal-entendido. A recep-
ção da ajuda oferece então oportunidade para se sentir compreendido e apoiado
por seus pais ou, ao contrário, para se considerar incompreendido e estorvado.

F IGURAS DO APOIO

Serão aqui expostas as lógicas de apoio ao prosseguimento dos estudos, através


de uma série de figuras que remetem a uma combinação específica do cruzamento de
várias dimensões: o tipo de apoio esperado, o tipo de apoio recebido e a relação

15
O advento da interpretação no seio da família é o resultado da ampliação do modelo psicológico à sociedade
em seu conjunto, de sua interiorização no espaço doméstico escrutado por peritos qualificados, incumbidos de
enunciar a boa definição da interação conjugal e parental (Castel, 1981; Berger & Berger, 1984; Singly, 1996).
16
Sobre o double bind, as injunções paradoxais, ver Watlawick, Helmick-Beavin & Jackson, 1972.

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Vincenzo Cicchelli 119

individual com os estudos, sob a forma do grau de investimento e do tipo de autono-


mia. Para compreender como os estudantes podem ao mesmo tempo se queixar e
apreciar o apoio, é necessário analisar a lógica da queixa ou da apreciação, combi-
nando as três dimensões citadas.17 Dessa maneira, cada uma das figuras ilustra a
maneira pela qual os jovens se consideram satisfeitos com o papel de integração
exercido pela família de origem. Até que ponto a família constitui um recurso que
contribui para viver plena e serenamente a vida de estudante e a vida de jovem
adulto? A intervenção dos pais é considerada uma ajuda ou uma ingerência?

C ONVERGÊNCIAS ENTRE APOIOS ESPERADOS


E APOIOS RECEBIDOS

O primeiro subconjunto de figuras se refere aos estudantes cuja expectativa de


apoio foi satisfeita. Em virtude dessa congruência entre a expectativa e a resposta,
esses entrevistados exprimem uma grande satisfação com relação a seus pais. Estes
últimos se mostram competentes, capazes de estar à altura das expectativas juvenis e
de nunca decepcionar seus filhos. A convergência engendra um reconhecimento,
pois os estudantes fazem questão de exprimir o quanto são gratos aos pais não ape-
nas por lhes fornecerem o tipo de recursos necessários, mas também por terem
compreendido quando e de que maneira deveriam intervir.

O apoio parental, pano de fundo do sucesso escolar


O estudante autônomo em seu trabalho apreciará o apoio dos pais, considerando-
o necessário para a continuação serena dos estudos. O acompanhamento parental
deve então ser discreto, tomar poucas iniciativas e intervir somente a pedido dos
estudantes. Estes preferem os pais que tenham uma boa escuta mas se mantenham
relativamente distantes. Sua presença, conjugada à concessão de certos privilégios, dá
a esses estudantes a sensação de serem apoiados sem que, no entanto, estejam constan-
temente sendo advertidos do dever. Apenas em tais condições o entrevistado pode
achar-se dotado de controle de si e de disciplina suficientes para prosseguir os estu-
dos, sempre desejando que seus pais continuem a encorajá-lo, incitá-lo e estimulá-lo.
O jovem que considera os estudos uma dimensão importante da vida julga-se,
por exemplo, com direito a uma redução de sua participação no funcionamento da
casa, inclusive nas tarefas domésticas. A extensão dessa isenção varia de acordo com
o grau e a natureza do investimento escolar realizado, sendo fruto tanto de uma
reivindicação por parte dos estudantes quanto de uma avaliação por parte dos pais.
Mas sua existência, mesmo parcial, é bastante apreciada, como lembram inúmeros

17
Sobre as queixas como um indicador da construção da identidade conjugal, ver Caradec, 1996.

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120 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

estudantes. O fato de que esse processo tenha sido claramente explicitado ou de que
ele tenha se instalado de maneira silenciosa, através da rotina dos hábitos, não altera
em nada sua apreciação. Sentir-se desobrigado das tarefas domésticas do cotidiano
torna-se um recurso essencial, pois permite estruturar o tempo dos esforços e da
distensão, sem embaraçá-los com interstícios inúteis. David presta muita atenção a
esse aspecto. Ele faz questão de precisar que a suspensão das tarefas domésticas é
temporária, que ela segue o calendário escolar, tanto mais que ele continua, apesar de
tudo, a arrumar seu quarto. Seus pais, diz ele, sempre o habituaram a se ocupar de
seu espaço privado e a tomar parte na vida da casa. Por essa razão, tal suspensão é
outorgada com uma finalidade instrumental:

De qualquer jeito, minha mãe diz com freqüência que fico enclausurado em meu quarto
porque tenho uma enorme quantidade de trabalho escolar (...) se eu tivesse mais tempo,
claro que daria uma mãozinha (...) Bem, é verdade que isso resolve meus problemas,
claro que é apreciável, se tivesse que me ocupar dos outros, seria impossível gerir a
situação (David, 18 anos).

Uma outra razão para apreciar a conformidade entre as expectativas e os apoios


efetivamente concedidos é não somente o fato de poder dispor de um lugar retirado,
isolado do macrocosmo familiar, mas também de poder utilizar esse espaço à vonta-
de. O quarto é o lugar ideal do recesso, onde o estudante passa a maior parte do
tempo a trabalhar, a se relaxar, podendo organizar-se à sua maneira, delegando aos
outros membros da família as tarefas da vida cotidiana.18
Os pais podem apresentar um outro tipo de apoio, quando se colocam à escuta de
seus filhos e manifestam interesse pelo que fazem. O pai de Thierry (19 anos) deixa
ao filho uma inteira autonomia de trabalho e exerce sua vigilância com discrição,
mostrando-se atento a seus progressos, elogiando-o quando é um dos primeiros da
turma. Os jovens podem assim dirigir-se diretamente a seus pais. Philippe (19 anos)
solicita o apoio da mãe quando se sente em dificuldade. Assim, durante o primeiro
concurso para medicina, beneficiou-se de uma presença forte, mas discreta:

Veja você, ela não me angustiava, ela não me dizia: “você tem que passar, senão vou ficar
doente”, isso não, eu teria me sentido culpado e, quando a gente trabalha duro, só isso
já basta, não é preciso mais nada, mas, bom, ela estava lá (...) Antes de ir dormir, ela
passava cinco minutos pra me ver (...) me trazia um chá (...) parece que não é nada, mas
francamente faz muito bem.

Pais e filhos estão juntos no investimento dos estudos, fazendo convergir seus
esforços mútuos.

18
Na França, não existem empregados domésticos, embora as famílias com melhor nível de renda possam
recorrer aos serviços de diaristas remuneradas.

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Vincenzo Cicchelli 121

O apoio parental, um marco de recuperação para


o prosseguimento dos estudos
Mesmo sem se considerar autônomo mas querendo prosseguir seus estudos, o
jovem poderá pensar que o apoio dos pais desempenha um papel de recuperação
importante. Nessa ocasião, o acompanhamento pode ser tão reforçado a ponto de se
metamorfosear em um certo dirigismo. Esses estudantes esperam que seus pais os
chamem à ordem, por exemplo, em caso de distração, seja através de conversas
sobre a vida universitária, ou através de perguntas sobre as notas e os resultados dos
exames. Tomemos o caso de Bernard (20 anos). Seus pais encorajaram bastante a
escolha para se inscrever nas classes preparatórias. Ao distinguir claramente o grau
de investimento do grau de autonomia, Bernard se define como incapaz de prosse-
guir seus estudos sem um controle. Por essa razão, conta com os pais para exercer
uma forma de supervisão. Antes mesmo da entrada nas classes preparatórias, Bernard
sabia que podia confiar no apoio do pai, cujos conselhos são prudentes. Jovem
aluno de liceu, inseguro de suas possibilidades, Bernard se informou, no último
ano, sobre as diferentes possibilidades que se abriam para ele, insistindo particular-
mente sobre o tempo de trabalho necessário para a validação de seus diplomas:

Eu tinha um professor que me disse uma vez “de todo jeito, em prepa,19 são quatro
horas de trabalho por noite e dez no fim de semana”. Honestamente, estes números dão
medo e, quando eu soube, disse que jamais poderia conseguir isso sozinho (...) Por isso
digo que, felizmente, eles me pressionam um pouco quando não faço nada, eles me
empurram a continuar, eles me encorajam e é bom que seja assim porque senão eu não
conseguiria.

Os pais ajudam o filho a construir seu itinerário, a não ficar à margem do cami-
nho, acompanhando-o, encorajando-o permanentemente, mostrando um interesse
manifesto por suas atividades escolares, lembrando-lhe o quanto seu sucesso é uma
razão de orgulho para eles. Essa vigilância constante lhe permite hierarquizar suas
atividades. Esse estudante anotou em uma folha de papel as pessoas que poderiam
contatá-lo por telefone. Sua mãe, com boa vontade, incumbiu-se de atender o telefo-
ne e o encorajou a aplicar esse mesmo princípio seletivo a outras esferas de ativida-
de. Os resultados dessa associação são facilmente verificáveis, segundo esse jovem:
“Quando você se aplica, é recompensado”. No início do ano, ele foi nomeado major
em física e isso provocou no pai, homem distante aos olhos do filho, uma efusão de
orgulho – pois ele também havia sido major em sua juventude. Isso, por sua vez,
encorajou o filho a redobrar os esforços. O dirigismo dos pais de Bernard assume,
aos olhos do filho, um sentido de solicitude.

19
Abreviação de “classes preparatórias”.

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122 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Esse papel de recuperação depende da qualidade do apoio. Quando o jovem


reconhece sua eficácia, pode até mesmo chegar a adotar o diagnóstico parental. Rachid,
jovem de origem árabe, reconhece que o pai o “livrou da marginalidade”. Inscrito em
IUT,20 Rachid (19 anos) vive na casa dos pais em um subúrbio parisiense que ele
gostaria de deixar. Ele fala de sua adolescência vivida perigosamente entre a atração
irresistível da rua e um modelo pouco concorrencial de sucesso escolar através dos
estudos superiores. Durante o liceu, Rachid aplicou-se menos do que poderia – o que
lamenta hoje em dia –, deixando-se levar pelo “bando de amigos”. Nesse momen-
to preciso da entrevista, ele evocou o papel exercido por seu pai, apoiado pela
mãe. O pai, um imigrado argelino sem diplomas, insistiu muito tanto sob a forma de
sanções quanto de incitações, persuasão e astúcia, assim como pela cordura e pela
severidade, e conseguiu colocá-lo “no bom caminho”. Sem sua intervenção, Rachid
estima que teria se tornado, como tantos colegas do bairro, um “marginal”. Através
do olhar do pai, Rachid tomou consciência das razões do fracasso escolar e social dos
colegas de liceu, tentou canalizar sua frustração social para a instituição escolar e
buscou seu grupo de referência em outras camadas sociais. Ele tinha uma forte ambi-
ção de mobilidade social, cultivando secretamente dois sonhos: de um lado, redefinir
a localização geográfica do lugar onde vivia, indo morar em outro bairro; de outro,
banalizar seu sucesso escolar, transferindo-o a seus filhos. De fato, Rachid seria o
homem mais feliz do mundo se visse seu filho “formar-se em Louis Le Grand”.21
Hoje em dia, os pais o exortam a visar ao sucesso social e a conjurar os medos de
fracasso, transformando as duas possibilidades em situações reais: eles comparam, por
exemplo, o filho de imigrante bem-sucedido com seus antigos colegas em situação de
exclusão. Eles o felicitam por seu percurso, o incitam a prosseguir, fazem-no vislumbrar
as vantagens estatutárias de uma boa inserção profissional. De quando em quando, eles
lhe concedem até uma ajuda financeira maior do que a habitual para evitar qualquer
desvio provocado pelo exercício de possíveis atividades remuneradas muito atraentes,
sobretudo durante o ano universitário. Rachid reconhece assim, espontaneamente, que
precisa de apoio para não se desencorajar e não se desviar dos estudos:

Mesmo quando a gente é responsável, ninguém está livre de um escorregão; mesmo


aos 20 anos, você pode sempre cair numa merda (...) a menos que tenha alguém atrás de
você, que o empurre para que você não olhe para os lados, para ir mais longe.

Bernard e Rachid vivem esse acompanhamento de maneira positiva porque a


ingerência só se refere ao campo autorizado: os estudos. Eles protegem ciosamente
os outros territórios, para que os pais não façam do acompanhamento escolar um
meio para invadir o resto de suas vidas.

20 Instituto Universitário de Tecnologia, curso técnico de nível superior na França.


21 N. do E.: Louis Le Grand é uma das melhores e mais prestigiosas escolas de segundo grau de Paris.

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Vincenzo Cicchelli 123

Ser estudante e jovem adulto aos olhos dos pais


Os pais de Emmanuel e de Gabriel sabem ao mesmo tempo encorajá-los na vida
escolar e validar as outras dimensões de sua identidade, consideram-nos bastante
responsáveis para evitar um controle mais assíduo.
Emmanuel aprecia particularmente tal atitude. Há alguns meses ele mantém uma
relação amorosa e recusa o argumento de distração, justificando essa relação de outra
maneira, pois o namoro não pode ser reduzido a um relaxamento do esforço escolar.
A vontade de se perceber de maneira diferente do que prescreve o ascetismo escolar é
menos um indicador das dificuldades de interiorização das coações institucionais do
que um sinal da importância que Emmanuel atribui ao reconhecimento de sua vida
privada. Por essa razão, ele aprecia a atitude de seus pais. Eles não aceitam essa relação
somente porque ela é a menos nociva – sua namorada está no segundo grau e, o que é
mais importante, deseja inscrever-se nas classes preparatórias –, mas se mostram capa-
zes de um esforço de compreensão, de participação profunda nas dificuldades da vida
escolar, que lhes permite prever e prevenir qualquer risco de fechamento do filho no
círculo vicioso do superinvestimento, do ascetismo escolar. Esse trabalho de participa-
ção e de recomposição identitária é “vital” para esse jovem. Como atesta sua entrevista,
Emmanuel, estudante assíduo e brilhante, sente necessidade de ter momentos de tré-
gua – e, na medida em que é ocasional, essa curta pausa deve ser bem vivida, plena-
mente aceita por seus pais e considerada exigência fundamental da pessoa. A ausência
de justificação indica que seus pais, através da valorização de suas memórias de juven-
tude, sabem compreender plenamente a vivência do filho e aceitá-lo como ele é, sem
lhe impor um modelo pré-construído. A entrevista com Emmanuel deixa ver o para-
doxo da condição de estudante que superinveste e que se satisfaz com o apoio recebi-
do. O acompanhamento certamente existe, mas é mantido a distância. O estudante
deve chegar a ser responsável, tendo a sensação de não ser obrigado a prestar contas,
de se subtrair, pelo menos de maneira temporária, ao julgamento dos pais. Sem se
apagar totalmente, o olhar parental deixa mais lugar ao arbítrio do estudante. É esse
reconhecimento sob todos os planos da existência que faz de Emmanuel um jovem
responsável ao mesmo tempo por seus estudos e por sua vida privada.

Se, cada vez que eles me controlam, eles me restringem ou me pedem para argumentar,
para justificar o que faço ou as minhas escolhas etc., eu não poderia me assumir por mim
mesmo, teria sempre que prestar contas e eu não acho que isso poderia me ajudar, ao
contrário, eu poderia dizer que sou sempre o filhinho da mamãe e do papai e que não
posso me assumir. E para os estudos que quero fazer, é absolutamente necessário que chegue a
me assumir, mas tendo meus pais atrás de mim.

Gabriel também obtém de seus pais um apoio de recomposição. Inscrito em uma


área universitária científica, esse jovem valoriza ao mesmo tempo o sucesso escolar e

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124 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

o desenvolvimento de sua juventude. Sempre incitando-o a prosseguir os estudos, os


pais o convidam a aproveitar também do seu tempo de lazer. No início, a escolha do
ramo de estudos contrariava o desejo dos pais. Em uma discussão, Gabriel conse-
guiu impor seus argumentos – contra os desejos do pai, que teria preferido a disci-
plina das classes preparatórias, Gabriel escolheu a universidade, pois seu objetivo
era “claro, poder estudar, mas não me embrutecer...”. Os pais não se limitaram a
concordar com as razões do filho, já que não podiam impor-lhe seu ponto de vista:
mais ainda do que os pais de Emmanuel, eles justificam a escolha de vida de seu
filho, que se manifesta satisfeito com essa atitude.

Por exemplo, quando digo que vou viajar com meus amigos, ou que vou passar o fim de
semana fora, minha mãe me diz: “Claro, claro, vai sim, vai viajar, aproveita enquanto
você é jovem”, diz Gabriel.

Sua mãe pensa que, na medida em que a autonomia no trabalho é uma qualidade
que não pode ser obtida por coerção, cabe ao jovem dosar seu esforço e adotar um
ritmo próprio. Já seu pai, desempregado há muito tempo, baseia-se em sua própria
experiência. O desemprego, que atinge até mesmo pessoas com níveis de instrução
mais elevados, afetou igualmente o pai de Gabriel, antigo aluno da École des Hautes
Études Commerciaux (HEC). Por essa razão, a seus olhos, parece inútil investir ex-
clusivamente nos estudos.

Desenvolver-se “paralelamente em sua vida privada”


Outros estudantes que investem pouco ou quase nada nos estudos decidem
adiar seu investimento ou mesmo renunciar a ele. Mesmo nesse caso, o papel
exercido pelos pais é significativo e consiste em aceitar a decisão dos filhos. Quais-
quer que sejam as razões que os levam a adotar essa atitude indulgente, o que conta
é que os estudantes a apreciam. Se os pais não chegam a encorajá-los a abandonar
os estudos, pelo menos não prejudicam suas aspirações, discernindo outras quali-
dades, aprendendo a olhar os filhos de uma outra forma que não meros portadores
de capital escolar. Dois exemplos serão examinados aqui. O primeiro ilustra um
adiamento do investimento escolar, o segundo um desinvestimento. Os dois estu-
dantes se referem à atitude positiva de seus pais que, uma vez convertidos às razões
apresentadas pelos filhos, mostraram-se mais uma vez à altura das expectativas
destes.
Elizabeth desejaria obter um Deug de biologia em três anos, para consagrar bas-
tante tempo ao seu trabalho de responsável pela disciplina em um liceu, atividade
que lhe traz um salário mensal quase igual ao Smic.22 Elizabeth adotou esse compor-

22 N. do T.: Smic – salário mínimo interprofissional. É o mais baixo salário autorizado por lei.

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Vincenzo Cicchelli 125

tamento a fim de conciliar sua vida universitária com a pessoal. Apaixonada por um
jovem com emprego fixo no Oriente Próximo, seus recursos relativamente elevados
lhe permitem visitá-lo, assumindo as despesas de transporte e permanência. Segun-
do Elizabeth, seus pais se importam com seu sucesso escolar. Ainda que não dispo-
nha de autonomia de trabalho, ela manifesta a intenção de tornar-se professora de
matemática em um liceu. Assim, as razões do adiamento do Deug são complexas,
porque Elizabeth é apegada ao mesmo tempo à sua relação sentimental, à sua vida
de estudante e à sua vida familiar. Seus pais acabaram aceitando quando ela prome-
teu não abandonar os estudos e financiar por si mesma esse subinvestimento tempo-
rário. O arranjo ao qual eles chegaram é vantajoso para Elizabeth, que é profunda-
mente grata a seus pais.

Meus pais foram superlegais comigo (...) eles poderiam ter envenenado minha vida, ah,
claro que podiam, mas não o fizeram, eles compreenderam que o caso com o meu
namorado é sério, que nós tínhamos que nos ver com mais freqüência e que eu não
podia investir apenas nos estudos.

O caso de Robert ilustra um outro exemplo de gratidão. Ele teve uma escolarida-
de difícil. No momento de escolher, no final do segundo grau, sua mãe exprimiu o
desejo de vê-lo fazer um curso técnico e Robert seguiu a sugestão da mãe. Em toda a
sua trajetória escolar, esse é o único caso de acompanhamento explícito de que se
lembra. Desde então, a história da carreira escolar de Robert é uma tentativa de
obter da mãe um apoio de recomposição. Desenvolvendo outras atividades fora as
da universidade (ele trabalha e tem uma vida conjugal), Robert tentou manter a mãe
à distância de seus estudos e de sua vida pessoal.

Minha mãe queria me ajudar (financeiramente) no início, mas eu recusei essa ajuda para
me assumir sozinho. Quando saí de casa, fiz isso para que ela não tivesse mais influência
sobre mim, para que não pudesse julgar minhas ações.

De fato, para Robert, a ajuda financeira o colocaria em uma situação de dívida.


Ter de prestar contas aos pais implica a tácita admissão de seu direito de vigiá-lo,
legitima sua ingerência. Por essa razão, ele insiste no fato de que seus recursos são
próprios e de que é totalmente responsável por seus estudos. “Ela não paga mais
nada, zero francos, nada de nada”, nem as férias, e tampouco as contas de telefone,
tema recorrente de conflito entre a mãe e o filho. A mãe de Robert aceitou exercer o
papel que o filho lhe atribuiu. Dessa forma, não desvalorizou sua escolha de viver
conjugalmente durante os estudos, de trabalhar e de consagrar-lhe assim apenas
uma parte residual de seu tempo. A mãe soube seguir as inclinações do filho, atitude
que Robert aprecia.

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126 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

D IVERGÊNCIASENTRE APOIOS ESPERADOS


E APOIOS RECEBIDOS

O segundo subconjunto de figuras se refere aos entrevistados cuja expectativa de


apoio não foi satisfeita. Esses estudantes expressam uma grande insatisfação com
respeito a seus pais, porque se sentem incompreendidos. Eles se queixam de que os
pais se mostraram incapazes de decodificar seus desiderata e/ou de responder de
maneira mais adequada. Mesmo ditadas pela boa-fé, as respostas dos pais podem
engendrar efeitos desastrosos e cultivar o círculo vicioso de incompreensão. Os pais
tentam decodificar, traduzir e interpretar as expectativas dos filhos-estudantes, so-
bretudo quando são implícitas; eles podem correr o risco de uma falsa interpretação,
que se produz “tanto no que não é dito quanto naquilo que, quando dito, pode ter
mais de um sentido ao mesmo tempo”.23 Essa dinâmica do mal-entendido é acom-
panhada de um outro elemento capaz de minar a relação do estudante com sua
família e seu trabalho. Perguntar por que os pais não conseguem se comportar se-
gundo seus desejos introduz sub-repticiamente a resposta mais perigosa, a que aban-
dona o argumento da incompetência para centrar no caráter, de certa forma volun-
tário, da omissão. A introdução da hermenêutica no seio das relações familiares nem
sempre é evidente, porque pode despertar os fantasmas da suspeita.

Pais indiferentes?
Quando o jovem se considera autônomo e julga estar investindo suficientemente
em seu trabalho, aprecia que seus pais lhe concedam o direito de passear e que
reconheçam a importância das relações de amizade e sentimentais, evitando subor-
dinar a vida extra-escolar à vida escolar. No entanto, onde se esperaria uma ausência
de recriminações, aflora uma censura. Essa atitude da parte dos pais pode ser perce-
bida como indiferença. Se a autonomia no trabalho não implica para Ego uma busca
da aprovação do Outro, ela não deve tampouco significar uma falta de interesse pelo
trabalho escolar. Quando os pais ratificam a autonomia, entregando ao jovem o
direito de tomar conta de si mesmo, isso pode ser percebido como a manifestação de
uma certa indiferença para com seus estudos.
Este é o caso de Anne-Marie, cuja forte insatisfação se manifesta nas declara-
ções de estima e apreço que dirige aos pais. Ela vive há alguns meses em um
colégio interno de segundo grau. Sempre boa aluna, sua partida de casa foi forte-
mente justificada pela distância geográfica do estabelecimento escolar assim como
novos direitos lhe foram consentidos, como as saídas noturnas. Se vários outros
estudantes invejavam o tipo de relação que ela estabeleceu com seus pais, seu
discurso deixa transparecer uma certa perplexidade que tende à polêmica. Anne-

23 Hagège, 1985:253.

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Vincenzo Cicchelli 127

Marie censura aos pais o fato de não prestarem muita atenção ao que ela faz. O
campo escolar é, para ela, fonte de grandes satisfações que gostaria de comparti-
lhar com eles. Além disso, ela desejaria que os pais tivessem uma atitude mais
parecida com a da mãe de Philippe, discreta mas presente. Ela observa que as
conversas entre ela e seus pais são cada vez mais curtas, que eles se ocupam cada
vez menos de sua vida na escola e de suas atividades escolares, no sentido estrito
do termo.

Olha, não sei por que, mas eles não me perguntam mais nada sobre meus deveres, meus
exames, nadinha (...) Nem adianta lhes dizer que me sinto estressada, que estou termi-
nando um dever bem complicado, eu esperava que eles me telefonassem ou me pergun-
tassem na semana seguinte, pelo menos para saber se me dei bem ou não, e nada! Eles
já fizeram a mesma coisa duas vezes (...) Não tenho mais paciência, eu digo a eles, “mas
vocês não dão a menor bola ou o quê?” (risos), daí eles respondem que esqueceram, que
sabem que sou boa aluna, que têm confiança em mim, mas enfim, de qualquer jeito, bem
que poderiam (...)

Ela tomou então uma decisão. Uma vez que eles não usam seu direito de saber,
não cumprindo o dever de reconhecer o valor do trabalho da filha e declinando da
função de validação dessa dimensão de sua identidade, ela vai mantê-los a distância.
Por orgulho, ela evitará qualquer conversa sobre a escola e ocultará toda a sua vida
fora do domicílio familiar.

Uma ajuda insuficiente e inadequada


Mais freqüentes são os casos dos indivíduos que, sendo heterônomos em seu
trabalho, queixam-se não de uma falta de reconhecimento, mas de uma falta de
estímulo, de verificação, ou seja, de acompanhamento. Essa sensação está tanto mais
presente quanto maior é a situação de dificuldade ou de fracasso experimentada
pelo estudante. Estão neste caso Olivier – ainda no primeiro ano de Deug, apesar de
essa ser a terceira inscrição; e Roger, que deseja abandonar as classes preparatórias
para inscrever-se na universidade. Seus pais lhes concedem grande liberdade de
movimento, regulamentando muito pouco suas saídas. Tanto Olivier e Roger como
Anne-Marie simultaneamente apreciam e maldizem essa reserva.
Claro que nenhum desses dois estudantes joga a responsabilidade nas costas dos
pais. “Seria muito redutor”, diz Olivier. “Não posso dizer que é por causa deles que
me dou mal no liceu”, reitera Roger. Durante a entrevista, Olivier não esconde o fato
de que sua aplicação é descontínua e se diz “pouco entusiasmado”. Mas ele dá o
exemplo de outros que se “aferram” aos estudos e que acabam tendo sucesso no final
do ano. No entanto, ao confessar sua falta de disciplina, Olivier deixa escapar um
pedido de apoio que não foi ouvido por seus pais. Ele se queixa de que eles deixa-

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128 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

ram de controlá-lo desde o segundo grau, quando suas notas ainda eram boas. No-
tando que os pais se mostraram mais ou menos desinteressados, ele não lhes confes-
sou seu fracasso na universidade, os pais não sabem que ele está repetindo o primei-
ro ano pela segunda vez.

Eles não sabem de nada, eu tenho a impressão que, se não der o primeiro passo, eles
não me dirão nada. Se tivessem me empurrado mais um pouco, eu lhes diria: “Olha,
papai, olha, mamãe, este ano as coisas não estão fáceis”, eles teriam reclamado ou talvez
dissessem: “bom, veremos no ano que vem”. Mas as coisas não se passaram dessa
maneira (...) Assim, enquanto não me pedirem informações, não digo nada para eles.

Desse modo, certo desinteresse ou negligência pode ser considerado pelo estu-
dante um fator que favorece seu desinvestimento progressivo.
O caso de Roger confirma essa versão. Ele conta como a mãe terminou por não
perguntar mais nada sobre sua vida escolar. Por um lado, ele apreciou essa retração
materna, porque ainda se lembra de que em certa época a mãe o “deixava louco”.
Por outro lado, ele lamenta que essa retração, provocada por seu próprio comporta-
mento intolerante, tenha se manifestado justo no momento em que estava decidindo
se desinvestir.

Desde então, ela não pergunta mais nada, e isso me convém. Mas, por outro lado, eu me
encontro cada vez mais sozinho (...) ainda que isso não seja totalmente ruim, todo
mundo tem de passar por isso.

Roger mostra sua perplexidade quanto ao que percebe como um afastamento da


mãe. Dessa forma, ele se interroga sobre a justeza das mudanças registradas.

Por que colocar limites, se esses limites já foram auto-impostos?


As queixas do estudante que se considera autodisciplinado podem originar-se de
um excesso de controle. Victor, inscrito nas classes preparatórias científicas, estima
bastante sua autonomia de trabalho. Ele considera que todo apoio dos pais no cam-
po escolar deve se limitar aos recursos monetários e à isenção das tarefas domésticas.
Para o resto, ele prefere uma atitude indulgente, mas distante e negligente. Qual-
quer observação da parte dos pais com respeito aos estudos é percebida como uma
ingerência. Victor explica com veemência as razões de sua irritação. Como cursa um
ramo seletivo, sujeito a um modo escolar ascético, ele desejaria que os pais o recon-
fortassem, considerando-o sob um outro ângulo, não apenas aquele valorizado pela
instituição. Se a vida familiar copia demais os valores e os modos de funcionamento
da instituição, o indivíduo experimenta uma dificuldade suplementar em seu esfor-
ço para atingir um equilíbrio entre a concentração e o relaxamento da energia. Os

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Vincenzo Cicchelli 129

pais que têm uma maneira escolar de julgar seus filhos se limitam a reproduzir a
atitude dos professores. Victor afirma:

A gente está numa onda, nas prepa, a gente é julgado o tempo inteiro. Você é julgado
por tudo, você passa mal e você é julgado, você faz um exame e é julgado, você faz um
DS24 e é mais uma vez julgado, sempre julgado. As pessoas não param de te julgar, a
cada vez você é classificado, isso me perturba muito.

Victor se pergunta qual é a especificidade do olhar parental e em que medida


ele permite um outro tipo de reconhecimento. Ele acusa seus pais de serem cegos
quanto às suas necessidades, devolvendo-lhe uma imagem muito impregnada dos
valores da instituição. Assim, regressar para casa não lhe faz tão bem quanto ele
poderia esperar.

Eu volto para casa depois de um dia infernal (...) Bom, eu bem que gostaria que me
deixassem em paz, que me permitissem respirar (...) de qualquer maneira, tomo meu
fôlego em alguns minutos e depois começo a trabalhar sozinho (...) Então por que é que
eles me enchem o saco com essas perguntas idiotas: “então, foi tudo bem?, “E o DS, foi
legal? “E o professor foi simpático?” Eu não agüento (...) Eles se enganam, se pensam
que estão me ajudando (...).

Como forma de corrigir essa atitude deplorável e obrigar os pais a modificar sua
atitude, pelo menos evitando perguntas sobre seu trabalho, Victor tomou uma deci-
são radical. Ele decidiu subtrair os resultados de sua avaliação escolar à curiosidade
dos pais, escondendo suas notas. Os pais só terão notícias no momento do concurso.

Eu não quero que eles sigam meus estudos muito de perto, porque já não agüento mais
ser julgado e não quero que eles façam a mesma coisa. Quer dizer, eles não têm acesso
aos boletins, porque não tenho a menor vontade de ser julgado outra vez por meus
próprios pais (...) já sou suficientemente julgado durante todo o ano no liceu (...) e além
disso, sou perfeitamente capaz de ver se as coisas estão ou não correndo bem.

Acompanhamentos fracassados
Quando o estudante não é autônomo em seu trabalho, mas acha que não são seus
pais que vão ensiná-lo a ser, não concorda que eles façam um esforço de regulamen-
tação. Também nesse caso, o jovem estima que os pais deveriam sobretudo ajudá-lo
a encontrar-se a si mesmo, em vez de recorrer a práticas de estímulo destinadas a
fracassar.

24 Dever sob supervisão.

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130 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Nadine nos dá um exemplo dessa incompreensão. Antes de obter o baccalau-


réat,25 ela conseguia conciliar trabalho escolar e lazeres. O fato de ter conseguido
o baccalauréat a partir de um ritmo próprio não modificou a atitude em geral
desconfiada dos pais. O problema voltou a se apresentar no momento da passa-
gem para as classes preparatórias, pois Nadine se considera incapaz de responder
às expectativas institucionais. Estando em uma situação crítica, ela censura a falta
de ajuda dos pais na recomposição de sua identidade. Ela estima não ter o nível
necessário para integrar uma Grande École e, duvidando de sua resistência, prefe-
re renunciar aos sonhos de carreira em uma grande empresa e imaginar-se profes-
sora em um colégio do sul da França. Na época da entrevista, ela cultivava esse
projeto que tinha tomado forma devido à sua percepção dos estudos: “Em prepa,
a gente vive em função das lembranças e do futuro, jamais em função do presen-
te... porque o presente parece muito sombrio”, afirma ela. Por essa razão, o futuro
deveria tomar a forma de um trabalho menos enquadrado, que lhe oferecesse mais
tempo livre e uma melhor qualidade de vida. É nos momentos mais difíceis que o
projeto de professora do segundo grau se delineia e, evidentemente, não é com-
preendido por seus pais. Há uma defasagem entre os desejos das duas gerações,
defasagem essa que se transforma em uma fratura com esse projeto que está sendo
construído aos poucos por Nadine. Como os pais apostam em uma escola de enge-
nharia e a estimulam até mesmo a repetir o ano, se for preciso, eles acabam per-
dendo o papel de apoio que Nadine espera deles. É o pai quem mais ela critica,
pois deveria compreendê-la, na medida em que também fez uma classe preparató-
ria. Nadine se confessa vencida: “É preciso ter um espírito científico, diz ela, e eu,
eu sei que não o possuo”. Nadine exprime seus rogos ilusórios no momento mes-
mo em que se declara impotente para atingir o nível requerido pela instituição e
preconizado por seus pais. Comparando-se aos colegas de classe, cujo nível ela
estima superior, ela condiciona seu sucesso à colaboração entre pais e filhos e a
uma espécie de transmissão das capacidades de sucesso:

Eu tenho um colega, seu pai é professor de física e ele é uma besta de tanto que estuda
física. Mas eu, meu pai faz exatamente outra coisa, então não pode me ajudar e quando
tenho um problema, bloqueio. E minha mãe, não adianta nem falar, porque ela nem
terminou o segundo grau (...) parou na primeira série (...). Tudo o que a gente faz está
acima de suas capacidades, depois da segunda série, então nem vale a pena falar. Por
exemplo, quando estou trabalhando no meu quarto, ela diz: “Como é que você faz?” Ela
fica admirada com o que faço e eu então aproveito (...). Porque eu tenho algumas
noções, mas minha mãe, ela fica assombrada com o que faço e é por isso que ela quer
que eu vá o mais longe possível (...) porque ela não se dá conta.

25 Exame de fim de curso secundário na França, que dá direito ao ingresso na universidade.

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Vincenzo Cicchelli 131

Não somente os pais não constituem um recurso adequado a seu sucesso escolar,
do ponto de vista cognitivo, como eles não chegam nem a aportar o apoio identitário
que ela reclama. Ao insistir em um sucesso que lhe escapa das mãos, eles lhe devol-
vem uma imagem dela mesma que ela rejeita. “Eles visam alto demais para mim”,
queixa-se ela. O projeto parental, anteriormente interiorizado por essa estudante,
começa a tornar-se estranho para ela. Ela gostaria então de se afastar dele e de seus
pais ao mesmo tempo, investindo mais na relação com seu namorado. Objetivamen-
te apoiada por seus pais, ela tem a impressão de capitalizar ainda menos essa ajuda
do que poderia prever. Mas não se culpabiliza por isso, na medida em que joga
sobre os pais a culpa de não a compreenderem.

C ONCLUSÃO

Neste texto, as formas da relação individual com os estudos – tanto o investimen-


to quanto a autonomia – tomam sentido em um quadro específico de interação: a
relação com o apoio parental. Com a finalidade de tornar operacional essa perspec-
tiva, foi preciso romper com a visão monolítica de ajuda que os pais representam aos
olhos dos filhos. Assim, a distinção proposta por dois pesquisadores americanos
entre coesão familiar (family cohesion) e abarcamento (enmeshment)26 provou-se perti-
nente. Com efeito, a primeira dimensão é definida como a afeição, o apoio, a ajuda
e os cuidados que os membros da família trocam mutuamente. A segunda dimensão,
ao contrário, define a família como um conjunto de modelos (patterns) que facilitam
a fusão emocional e psicológica. Ora, segundo os resultados desses dois sociólogos,
uma fusão excessiva pode inibir os processos de individuação, a maturidade e o
desenvolvimento dos membros da família, sobretudo dos mais jovens. Aplicada a
nosso campo de estudos, tal distinção permite compreender que os filhos podem
solicitar uma coesão familiar forte (suportes, apoios materiais e afetivos), recusando-
se, no entanto, a ser engolidos ou presos em uma rede de dependências que os
sufoca. De maneira nenhuma, o apoio parental deve entravar a percepção da auto-
nomia no trabalho, entendida mais uma vez como imagem positiva de si, como
percepção insubstituível de seu bem-estar.
Examinamos a maneira pela qual os filhos julgam a qualidade da ajuda parental
relacionando-a às expectativas preexistentes. Os pais podem representar, aos olhos
dos estudantes, um recurso no sentido mais amplo do termo, recurso que é sinôni-
mo de apoio moral e afetivo e que, em suma, os ajuda a estar bem consigo mesmos.
Paradoxalmente, o fato de investir ou não nos estudos é considerado pelos filhos o
fecho de ouro de uma associação entre gerações, no sentido em que eles esperam dos
pais um esforço de compreensão de suas exigências escolares e extra-escolares. As-

26 Barber & Buehler, 1996.

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132 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

sim, no momento em que os estudantes deveriam ou gostariam de se emancipar de


seus pais, eles continuam ligados a eles, considerando-os importantes para o finan-
ciamento de seus estudos.

R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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parte III

F ORMASCONTEMPORÂNEAS DE
PARENTESCO E DE AFINIDADE

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CAPÍTULO 8

A individualização no feminino,
o casamento e o amor*
ANÁLIA TORRES

NESTE TEXTO, optou-se por formular as problemáticas da individualização e da


família cruzando-as com a do gênero. A atenção foi centrada nos processos de
individualização no feminino de forma genérica e, mais especificamente, no con-
texto da família e do casamento.1
Na sociologia da família, assim como na vida social, é relativamente recente a
idéia de uma mulher “indivíduo”, sujeito de direito e de fato no plano da lei como
no do cotidiano. Se na virada do século XIX para o século XX a chamada questão
feminina começa a surgir nos textos de alguns dos mais eminentes sociólogos da
época – Simmel, Durkheim –, a verdade é que só nos últimos 40 anos do século XX
a questão dos direitos das mulheres se torna incontornável. Tanto nos textos e nas
análises teóricas quanto nas relações sociais.
Não é por acaso que a reflexão sobre a família, vista da perspectiva sociológica e
histórica com o horizonte de todo o século XX, nos faz reencontrar a questão femi-

*
Tradução de Angela Xavier de Brito.
1
Contribuem, no fundamental, para as reflexões que se seguem os resultados de uma pesquisa sobre o
casamento intitulada “Trajetórias, dinâmicas e formas de conjugalidade. Assimetrias sociais e de gênero no
casamento”, que está em fase de conclusão. Pesquisas anteriores sobre o divórcio (Torres, 1996a) e certas
perspectivas sobre a análise sociológica das relações afetivas e do sentimento amoroso constituíram tam-
bém o fundamento deste estudo (Torres, 1987).

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136 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

nina, ou que esta nos remete claramente para aquela. É que até os anos 1960, as
concepções sobre o lugar da mulher na família, de Durkheim a Parsons, constituí-
ram obstáculos à idéia de uma mulher-indivíduo. Na ótica desses autores, a função
materna, definida como missão central feminina com base na especificidade bioló-
gica, é incompatível com a idéia de uma mulher autônoma, senhora do seu destino
e das suas opções, capaz de se sustentar ou de partilhar com o parceiro as funções de
provedor da família. É essa incompatibilidade que vem sendo posta em causa pelas
transformações dos últimos anos. A idéia de uma mulher-indivíduo começa a im-
por-se à idéia de uma mulher-natureza.
Mas pode se falar de uma mulher-indivíduo protagonista do seu destino, inde-
pendente e segura das próprias opções, “liberta” da sua natureza? E pode se falar de
um homem-indivíduo nas mesmas condições?
Esperamos contribuir para dar resposta a tais questões a partir de alguns dos
resultados da mencionada pesquisa. Através da técnica da entrevista em profundida-
de, procurou-se explorar a perspectiva individual de homens e mulheres do mesmo
casal, entrevistados separadamente. Considerou-se assim que foram ouvidas as duas
vozes do casamento, em três estágios, já que foram selecionados entrevistados com
durações de casamento diferentes – até 10 anos de duração, de 11 a 20 anos e de 21
e mais anos – a que fizemos corresponder três tempos: o tempo da adaptação, o
tempo das mudanças e das transições, o tempo da conformação ou da realização
pessoal. Os casais pertenciam ainda a setores sociais diferentes, o que deu origem,
entre outros critérios, à identificação de formas de conjugalidade também distintas:
institucional, fusional e associativa. Foram identificados ainda tipos de enfoque di-
ferentes – parental, conjugal e de realização pessoal e/ou profissional, lazer – com o
objetivo de reconhecer modalidades diversas de posicionamento de cada elemento
do casal e, por vezes, de variações do mesmo indivíduo em momentos diferentes do
seu trajeto, em face dessas distintas áreas de investimento.
Foram buscadas as coincidências e dessemelhanças do discurso e do relato refe-
rentes à mesma situação objetiva, estimulou-se a narração da história na primeira
pessoa, com perguntas precisas sobre o antes e o depois do casamento, em múltiplas
dimensões da vida conjugal e também paralelas a ela, incitando a reflexão sobre si
próprio e sobre o outro no contexto conjugal e fora dele.
Antes de tratar propriamente do tema, na ótica aqui circunscrita à questão da
individualização no feminino, importa definir alguns dos pressupostos teóricos que
orientaram essa pesquisa sobre o casamento.

D IMENSÕES DA CONJUGALIDADE

Em primeiro lugar, na perspectiva que temos defendido, a conjugalidade inscreve-


se em relações e trajetórias sociais e de gênero. Isto é, ela ocorre num dado momento

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Anália Torres 137

do percurso pessoal de um significativo conjunto de indivíduos, percurso esse social,


cultural e ideologicamente marcado de forma diferenciada, de acordo com as condi-
ções de existência e com o gênero, já que é diferente também o que se considera ser o
comportamento adequado para os dois sexos em setores sociais distintos.
Em outras palavras, na “unidade de personalidades em interação (…) com vista à
gratificação mútua” de que Burgess2 falava, as personalidades não são apenas unidades
psíquicas mas também personalidades sociais e “sexuadas”. É esta a interpretação, que
se beneficiou da contribuição de vários autores, de Kellerhals (1982) a Singly (1987a;
1987b), a Kaufmann (1992; 1993) e a Bozon (1990; 1992), entre outros. Houve a
preocupação de articular estatuto social e casamento, salientando também a importân-
cia do “sexo” dos capitais e as vantagens particulares do uso do conceito de gênero.
A segunda dimensão da conjugalidade é a que se refere à produção de sentido e
de identidade. A conjugalidade contribui, no plano existencial, para duas impor-
tantes esferas de produção de sentido. Por um lado, através da relação com um outro
significativo, que é uma relação validante na acepção de Berger e de Kellner (1975).
Mas, para além da relação com o outro, está a promessa de outros investimentos
“existenciais” ligados à produção de seres humanos. Essa promessa encerrada na
parentalidade acrescenta sentido existencial.
Mas a produção de sentido está igualmente associada, como os autores america-
nos apontam e mais recentemente tem sido sublinhado por Giddens (1991), à iden-
tidade pessoal e social. Através da relação com o outro significativo obtenho recom-
pensa e gratificação pessoal, construo uma maneira de ver o mundo e de me ver
enquanto indivíduo. Através dessa relação posso ainda ter um estatuto, dar sinais do
meu pertencimento ao grupo (dos adultos, dos casados, dos homens, das mulheres),
cumprindo assim aspectos importantes da minha identidade social.
Se usamos aqui a perspectiva de Berger e de Kellner, também dela nos distan-
ciamos, sobretudo em dois relevantes aspectos. Em primeiro lugar, a idéia de que
a conversa cotidiana no contexto da interação conjugal “cria” realidade – ao cons-
truir uma visão do casal sobre o mundo e os outros é a própria realidade que é
também construída –, apesar de adequada, tende a dar uma imagem do casal como
se ele fosse constituído por uma só voz coletiva, uma voz em uníssono. Assim se
desvaloriza algo que a pesquisa mostrou, ou seja, o fato de que algumas vezes essa
voz resulta da imposição da vontade de um sobre a do outro, outras vezes o que se dá
são monólogos mais ou menos dissonantes e não verdadeiras conversas, e outras,
ainda, em que ocorrem entre o casal constantes e sutis negociações. Quando se
procura associar à idéia de identidade e de sentido o conceito de gênero, como
proposto, já é possível prever a existência de dissonâncias e de assimetrias de poder.

2
Relembre-se a definição de Burgess de família: “unidade de personalidades em interação, existindo
primordialmente para o desenvolvimento e gratificação mútua dos seus membros unidos mais por coesão
interna do que por pressões externas” (Osmond, 1987:113).

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138 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Quanto à questão da identidade, pode-se ainda salientar o fato, como Kellerhals


(1982) sugere, de existirem tensões identitárias precisamente entre o “eu” e o “nós-
casal” ou “nós-família”, acentuadas, é preciso admitir, por dificuldades e mesmo
conflitos introduzidos pela associação entre identidade e gênero. De novo se reco-
nhece a necessidade de articular as diferentes dimensões – classe, gênero, identida-
de pessoal e social – para explicar práticas e representações.
A terceira dimensão da conjugalidade que importa ter em conta diz respeito à
afetividade, em sentido amplo, nela ocupando lugar de destaque a vertente amorosa
da relação e a concretização da sexualidade. A essa dimensão só recentemente se tem
prestado mais atenção no domínio da sociologia da família. Com efeito, a preocupa-
ção em demarcar o estudo sociológico do casamento de perspectivas psicológicas e
de uma lógica centrada nos indivíduos levou a que durante muitos anos, no âmbito
da sociologia da família, os sentimentos e as emoções não fossem considerados uma
mola impulsionadora da ação suficientemente poderosa, nem contassem analitica-
mente como motivo bastante para justificar as uniões conjugais.
Na verdade, uns insistiam na dimensão macro e em funções, papéis e sistema;
outros apostavam numa perspectiva de estratégias matrimoniais e de reprodução
social; outros ainda descobriam regularidades sociais onde geralmente só se via
escolha errática e cega às determinações sociais. Apesar disso, todos tendiam a su-
bestimar, como os últimos 40 anos mostraram, a autonomia relativa do sentimento
amoroso. Isto é, não se deu importância ao fato de o bem-estar afetivo e relacional
assumir crescentemente, não de forma isolada mas sempre associado a outras di-
mensões sociais e de gênero, papel de relevo na razão de escolha, fundação, manu-
tenção ou ruptura das relações conjugais.
O fato de se dizer que há outros aspectos, para além dos aspectos sentimentais e
emocionais, que pesam na relação conjugal não significa, evidentemente, anular aque-
la dimensão e desprezar as suas conseqüências no plano das próprias práticas e repre-
sentações dos atores sociais. Embora também aqui faça sentido distinguir entre quem
pode de fato fazer coincidir sentimentos com ações e quem apenas consegue fazer da
necessidade virtude, a verdade é que para um conjunto cada vez mais significativo de
pessoas vai sendo possível ter, no domínio amoroso, “segundas oportunidades”.3
No campo da sociologia da família, Kellerhals (1982) foi dos primeiros a propor
que a escolha sentimental e amorosa se fazia precisamente através da partilha dos
códigos sociais. Salientava que da mesma forma que numa relação iniciada numa
lógica de interesse poderia surgir a afetividade, também seria possível que uma relação
apoiada na lógica romântica se alimentasse pela proximidade social e de interesses
entre os cônjuges. Singly (1987b), ao criticar os limites da teoria da homogamia,
sublinha igualmente a existência dos motivos amorosos e sentimentais na escolha do
cônjuge. Giddens (1991), por seu turno, admite que nas sociedades de modernidade
3
Giddens, 1991:10.

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Anália Torres 139

tardia as determinações sociais cada vez mais perdem peso na conjugalidade, tenden-
do a afirmar-se a relação auto-referenciada (pure relationship) e o amor-confluente.4
Como dimensão do conceito de conjugalidade, a vertente afetiva inclui e trans-
cende o sentimento amoroso e a sexualidade. Com efeito, as componentes afetivas
inscritas na maternidade e na paternidade, além da produção de sentido existencial
e dos efeitos identitários já referidos, assumem cada vez maior relevo. É o bem-estar
afetivo das crianças que tende a estar no centro da vida familiar, perdendo simulta-
neamente importância a dimensão estatutária da parentalidade.
Identificar especificamente essa dimensão envolvida na conjugalidade e distin-
gui-la da dimensão amorosa justifica-se ainda pela constatação de que maternidade,
paternidade, relação conjugal e amorosa implicam sentimentos em jogo na
conjugalidade que por vezes entram em “concorrência” no decurso do casamento.
A quarta dimensão inscrita na conjugalidade é a que identifica o casamento como
fonte produtora de realidade, já não tanto no sentido simbólico, mas mais especifica-
mente no sentido das condições materiais. Expliquemo-nos. Com a entrada na
conjugalidade, não só se cria uma situação nova em termos das condições materiais de
existência – através, por exemplo, da partilha de recursos e despesas – como sucede
freqüentemente que se geram filhos e, com eles, novas relações afetivas. Ora esse aspec-
to de criação em sentido literal e metafórico aponta para uma característica intrínseca e
incontornável da conjugalidade: a sua dinâmica própria. É que a realidade que é criada
– vida em conjunto, relações familiares, filhos – não só interpela os atores no sentido
identitário, como cria um sistema específico de possibilidades e limites de ação.5
A sucessão de fases na vida conjugal não corresponde apenas a condições psico-
lógicas, identitárias e de crescimento pessoal, mas traduz-se em novas condições.
São os filhos pequenos dependentes ou já são autônomos e necessitam de outro tipo
de cuidados? Estamos numa fase de início da carreira profissional, no meio ou no
fim desta? Já está ultrapassada a fase de adaptação à relação e ao outro?
Há, assim, “tempos” diferentes na conjugalidade, por corresponderem a distin-
tas situações objetivas. O número e a idade dos filhos, a duração da relação conju-
gal, a forma como se está inserido na atividade profissional, são exemplos de fatores
que contribuem para criar realidades objetivas diferentes, que geram e impõem, por
sua vez, escolhas, decisões, formas de agir. Claro que o fato de os “tempos”
corresponderem a dinâmicas próprias e a sistemas de possibilidades e limites deve
ainda ser articulado ao fator gênero. O peso dos “tempos” disponíveis de cada
membro do casal é também social e “sexuadamente” diferenciado. O casamento
constitui-se em processo produtor de dinâmicas e constrangimentos específicos.
A quinta e última dimensão da conjugalidade remete para o fato de ela ser
social e historicamente situada. Isto é, e usando a metáfora de Berger e Kellner,
4
Giddens, 1992.
5
Almeida et alii, 1995:28.

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140 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

trata-se de uma longa conversa “interpelada” do exterior. As idéias, as orientações


normativas e os valores sobre os domínios da conjugalidade, da família e da sexua-
lidade vão mudando, como é particularmente visível nos últimos 40 anos. Apesar
disso, essa evidência aparece analiticamente subestimada nas abordagens teóricas
sistêmicas, ou que sublinham com demasiada ênfase a idéia de reprodução social;
o mesmo se diga das que insistem na perspectiva interacionista. Tanto em umas
como em outras a conjugalidade e a vida familiar são encaradas como “contexto”,
surgindo as suas lógicas próprias relativamente fechadas e imunes às contamina-
ções e influências externas.
Mas a realidade da vida conjugal não se configura com tal isolamento, o que é
muito visível nas sociedades contemporâneas e se torna provavelmente mais eviden-
te ainda no caso português. Para dar um exemplo, no decurso da mesma história
conjugal e no espaço de 25 anos, mudaram significativamente as definições valorativas
do que é considerado comportamento adequado perante o casamento, quer no femi-
nino quer no masculino.
A maioria dos entrevistados com mais de 40 anos casou numa época em que a
união era considerada compromisso para a vida inteira e o divórcio uma dolorosa
exceção. O horizonte legítimo de realização pessoal para as mulheres era o da ma-
ternidade e mesmo que não se “condenasse”, em alguns setores sociais, a existência
de atividade profissional, os homens estavam “por natureza” mais afastados das
responsabilidades familiares e domésticas. Os últimos 25 anos mudaram o horizon-
te significativamente. O divórcio passa a existir como realidade mais freqüente,
sobretudo em certos setores sociais, surgindo nas entrevistas como realidade bem
próxima,6 e o que antes era considerado norma relativamente à participação da
mulher no mercado de trabalho ou ao não-envolvimento dos homens nas tarefas
domésticas e nas responsabilidades familiares é hoje correntemente questionado.
Seria de esperar que tal efeito se manifestasse apenas nas gerações mais jovens.
Mas o que ocorreu foi que, mesmo nos casais mais estáveis e em todos os setores
sociais, se nota o efeito dessas transformações de valores. O que está bem? O que se
praticava no início e ninguém questionava, ou o que se considera hoje normal mas
não foi prática habitual no passado? Algumas vezes verifica-se uma espécie de rumor
interior e sente-se ressentimento em relação ao passado. Em outras, registra-se ape-
nas a perplexidade, o não-entendimento ou não-aceitação de que as coisas tenham
mudado no sentido em que mudaram. Os protagonistas do primeiro tipo de situa-
ções são, em geral, as mulheres e do segundo, mais habitualmente os homens.
Parece assim indiscutível a necessidade de situar a conjugalidade nas coordenadas
espaço/tempo para avaliar, principalmente, de que forma as transformações de valores

6
Com efeito, alguns dos entrevistados do grupo de duração do casamento de 20 e mais anos, dos setores
intermediários ou das profissões intelectuais e científicas, afirmaram que, no grupo dos amigos próximos,
eram dos poucos que permaneciam casados.

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Anália Torres 141

interpelam os atores sociais e que efeitos têm nas suas práticas e representações. Na
verdade, as idéias circulam, interferem e podem, em certos contextos sociais mais do
que em outros, chegar mesmo a transformar as relações e os processos sociais.

I NDIVIDUALIZAÇÃO , GÊNERO E CASAMENTO

Pensando especificamente nos processos de individualização, faz sentido desta-


car as posições dos dois membros do casal perante o trabalho fora de casa, já que
este é um dos meios de garantir alguma autonomia ou de poder concretizar aspira-
ções mais individuais. Resultou interessante o que dizem os entrevistados sobre o
seu trabalho profissional e o impacto que este tinha na vida conjugal.
Um dos aspectos centrais a salientar é o fato de a atividade profissional das
mulheres não ser fundamentalmente considerada, pelas próprias, produto da neces-
sidade ou das imposições da sobrevivência econômica e financeira, mesmo nos ca-
sos em que as entrevistadas tinham baixos rendimentos e empregos pouco qualifica-
dos. Na verdade, nessas situações, e mesmo quando tinham trabalhos pesados ou
penosos, o que as mulheres tendiam a afirmar era que prefeririam ter outro tipo de
trabalho, em que se sentissem mais realizadas, a ter como opção apenas cuidar da
casa e dos filhos.
A atividade profissional aparece valorizada pelas mulheres por várias razões.
Como forma de acréscimo de poder na relação conjugal perante o marido, como é
manifesto na afirmação de uma entrevistada que dispara sem hesitar: “quando a
gente ganha para comer já não tem que lhes aturar tudo...”. Mas o trabalho fora de
casa também é suscetível de ser valorizado como reconhecimento de competências
específicas, reconhecimento esse habitualmente ausente do universo das atividades
domésticas. E pode igualmente ser desejado como recusa do fechamento doméstico,
meio de desenvolver relações de sociabilidade.
Nos setores com mais formação escolar, configura-se de forma muito nítida a ava-
liação do trabalho profissional como importante modalidade de realização pessoal.
Aliás, o que surgiu nas entrevistas é perfeitamente notório já nas estatísticas nacionais.
O modelo da atividade profissional nos setores mais escolarizados é, de resto, a nor-
ma em toda a União Européia, mas, no caso português, ainda de forma mais nítida.
Com efeito, em 1997, cerca de 90,9% das mulheres com níveis médios e superiores de
formação estavam empregadas, sendo a média na Europa dos 15 em torno de 79,6%.7
A idéia corrente segundo a qual as mulheres preferem a maternidade e a família em
detrimento da atividade profissional foi, pois, totalmente contestada.
E também não é por estrita necessidade de sobrevivência econômica, como
também já foi apontado por autores como Tilly e Scott (1978) e Singly (1987a),

7
Eurostat, 1995.

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142 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

que as mulheres com menores rendimentos trabalham fora de casa. Conclui-se


nitidamente na pesquisa que a atividade profissional é valorizada ou por razões
instrumentais – porque ganho o meu dinheiro, porque tenho mais poder e sou
mais ouvida, porque alargo horizontes, porque me reconhecem valor – ou pelas
qualidades intrínsecas do trabalho – porque me realizo. E em qualquer das situa-
ções o desejo das mulheres é conseguir conciliar de forma harmoniosa o trabalho
com a vida profissional. Realidade, essa sim, difícil de concretizar, ou que tende a
traduzir-se em duplo e triplo esforço.
Na verdade, as mulheres com menores rendimentos e menores qualificações “pa-
gam o preço” da maior autonomia relativa que a atividade profissional lhes propor-
ciona com a equivalente sobrecarga do desempenho das tarefas domésticas e da
responsabilidade dos cuidados com os filhos. As dos setores com maior formação
escolar e rendimentos mais elevados, logo que podem, pagam pela execução do
maior número possível de tarefas domésticas, continuando, contudo, a assumir a
maior responsabilidade dos cuidados com filhos. E só nos setores jovens os encargos
com as crianças são mais repartidos entre os cônjuges.
Apesar da acumulação de funções e da sobrecarga de trabalho, o que resulta claro
é que a atividade profissional feminina contribui para o acréscimo de poder de
decisão das mulheres no contexto familiar e conjugal, como foi concluído em outras
investigações, traduzindo-se assim num processo, embora limitado, de “individua-
lização”, uma individualização mitigada.
Na pesquisa sobre o divórcio8 também se concluiu que existe maior protagonismo
relativo das mulheres que trabalham fora. Na verdade, nessa situação, e mesmo
quando tinham trabalhos pouco qualificados, elas podiam tomar a iniciativa da
separação e do divórcio quando o comportamento do cônjuge era manifesta e per-
sistentemente considerado impróprio, violento ou irresponsável. Poder que se exer-
ce aqui pela defensiva, isto é, mais pela possibilidade de dizer não.
As trajetórias sociais e os trajetos anteriores ao casamento, como acima se referiu,
condicionam as avaliações que os atores sociais fazem sobre diferentes dimensões da
vida, do seu percurso e da situação conjugal. Também interferem nas suas expectati-
vas, elas próprias diferenciadas igualmente de acordo com o gênero. Vejamos alguns
exemplos.
As jovens com trabalhos pouco qualificados tendem a fazer um balanço positivo
da sua vida quando se comparam com as suas mães. Apesar de ainda existir, é menos
generalizada a violência doméstica exercida pelos homens, passando a ser condena-
da socialmente. As referências aos maus-tratos sofridos pelas mães, ou a um ambien-
te patriarcal e pesado, que surgem muito freqüentemente em algumas entrevistas,
aparecem distantes do cotidiano atual. Essa avaliação positiva em relação ao passado
ainda é acrescida por uma situação econômica quase sempre melhorada, exatamente

8
Torres, 1996a.

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Anália Torres 143

porque a contribuição do salário feminino permite que o grupo doméstico tenha


níveis de consumo acima dos da geração anterior.
Em contrapartida, e curiosamente, os cônjuges de tais jovens, em geral operários
entre 25 e 30 anos, não parecem fazer uma avaliação tão positiva como as suas
mulheres em certas dimensões da vida. A sua atitude em face da profissão, por
exemplo, é muito mais negativa do que a delas. Em geral, consideram o seu trabalho
desinteressante, pouco compensador, mal remunerado, duro. É total o contraste
entre o que dizem esses jovens operários e o que afirmam os operários com mais de
50 anos e estáveis na profissão. Os mais velhos afirmam a sua dedicação ao trabalho,
não raro revelando o chamado brio profissional e o orgulho pelas competências
demonstradas e por sua trajetória familiar estável, confiável. A explicar a diferença
de discurso entre as duas gerações estarão certamente as transformações no mundo
do trabalho, em particular dos homens, a passagem de um modelo de indústria
pesada para a era dos serviços, com as conseqüentes mudanças no plano identitário
tão bem ilustradas por Dubar (1991). Assim, embora a nossa atenção esteja voltada,
neste texto, para os processos de individualização no feminino, não deixa de ser
interessante notar como se ganha em perspectiva quando se comparam os discursos
dos dois sexos. Vejamos agora como esta mesma abordagem permite chegar a outro
tipo de conclusões no caso de outro setor social, o dos jovens universitários casados.
A passagem pela universidade, contexto específico em que as diferenças de gênero
tendem a se esbater, pode funcionar como uma experiência homogeneizadora de
expectativas com efeitos particulares, principalmente na primeira fase do ciclo de vida
conjugal. Com efeito, parece que os jovens universitários, tanto do sexo masculino
como do feminino, desejam desempenhar uma atividade profissional que seja compa-
tível com a formação adquirida e que os realize pessoalmente.
Mas o que se verifica após o casamento e sobretudo depois do nascimento do
primeiro filho é que as jovens são forçadas a entrar numa situação de stand by em
relação à profissão, já que mesmo que trabalhem fora têm dificuldade em se dedicar
por inteiro e sem culpa. Não contam com apoios suficientes – equipamentos, ajudas
familiares – para poder conciliar a vida profissional com a familiar. E mesmo quan-
do os cônjuges se dispõem a partilhar os cuidados com os filhos, sentem-se eles
próprios limitados nesse propósito. Muitas vezes em início de carreira, eles são
pressionados pelos empregadores a regimes de trabalho intensivo – trabalhar fora
do horário, chegar cedo e sair tarde – que os impossibilita, sem grandes contradi-
ções, de usufruir e de acompanhar de perto o nascimento e o crescimento de um
filho. Dos homens espera-se sempre que sejam indivíduos sem família, às mulheres
exige-se que a família se sobreponha à profissão. Talvez seja tempo de perceber que
o que precisa ser superado é precisamente essa contradição, esse efeito diferencial
de gênero. As pessoas, com diferentes possibilidades de investimento, com diferen-
tes disponibilidades e competências, são, em princípio, trabalhadores com afetos e
com família.

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144 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Voltando às jovens universitárias, vale a pena destacar que quando ocorrem o


casamento e o nascimento do primeiro filho tudo se passa como se de repente elas
descobrissem os constrangimentos inerentes à sua condição de “mulheres”, cons-
trangimentos esses que anos antes pareciam atenuados. E se é verdade que os jovens
do sexo masculino tendem hoje a partilhar os cuidados com os filhos ou a desejar
fazê-lo, já no plano das tarefas domésticas as assimetrias são evidentes. A aspiração
defendida de pagar pela realização de parte dessas tarefas é quase sempre impossível
nessa fase da vida do casal.
Verifica-se assim que o casamento e o nascimento dos filhos tendem a produzir
ou a acentuar as assimetrias de gênero, mesmo em situações que em termos de forma-
ção e desempenho escolar pareciam paritárias. Pode ter início aqui a diferenciação
dos percursos masculinos e femininos, diferenciação que gradualmente ainda pode
vir a se aprofundar. Numa lógica de individualização estaremos na presença de
processos irreversíveis? Ou será possível uma reaproximação?
O fato de termos analisado casais com durações de casamento diferentes permitiu
fazer algumas comparações relativamente a momentos distintos do ciclo de vida con-
jugal. Na verdade, foi constatado que quando os filhos estão em idades de menor
dependência pode acontecer que as mães retomem projetos como terminar estudos
interrompidos ou passar a investimentos mais significativos na carreira profissional
Mas essa retomada de projetos mais personalizados só ocorre quando estão reunidas
certas condições. Ou o cônjuge masculino se dispõe a assumir um papel mais ativo
junto dos filhos, ou se conta com apoios familiares para compensar essa maior au-
sência da mãe.9
Conclui-se portanto que, quando existem constrangimentos ou imposições da vida
familiar, são as mulheres que se retraem no investimento profissional. Mas essa retração
existe mais como imposição das circunstâncias do que por vontade própria. Em outras
fases do ciclo de vida conjugal poderão ser retomados investimentos mais personali-
zados, embora só quando certas condições estiverem reunidas as mulheres se permi-
tam pô-los em prática. Em outras palavras, no caso feminino os projetos mais indivi-
dualizados estão sempre condicionados à harmonização com a vida familiar, enquan-
to os masculinos tendem a ser formulados de forma independente desta.
Podemos afirmar com segurança, em todo o caso, e olhando agora para o con-
junto da população feminina entrevistada, que o tom dominante é o de uma mulher

9
Duas entrevistadas, do grupo de duração de casamento entre 10 e 19 anos, que tinham trabalhos
administrativos em tempo integral – uma secretária de administração e outra empregada de escritório –
ambas com dois filhos com idades entre 10 e 14 anos, decidiram reinvestir na sua formação. A primeira
retomou, após o expediente, um curso universitário interrompido, encontrando apoio total do marido,
que se ocupa dos filhos depois de ele próprio sair do trabalho e enquanto ela não chega. A segunda iniciou
também à noite uma licenciatura e conta com o apoio da mãe, que mora perto e vai ajudando nas tarefas
domésticas e “olhando” os netos.

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Anália Torres 145

dotada de vontade individual, de protagonismo, de mudança e muito menos o de


uma mulher vítima das circunstâncias. Existem certamente constrangimentos e a
percepção clara da sua existência, mas existe igualmente vontade de que eles sejam
contornados e vencidos.

A MOR , CASAMENTO E GÊNERO

Em trabalhos anteriores, defendeu-se a pertinência de uma análise sociológica


das relações afetivas, afirmando que a afetividade constitui uma das dimensões das
relações sociais e que o amor pode ser analisado como expressão específica dessa
dimensão.10 Não faz agora sentido recuperar a argumentação desenvolvida, mas vale
a pena referir alguns dos seus temas. São questões já abordadas por sociólogos como
Goode (1959) ou Luhmann (1986) e foi mais recentemente retomada por Giddens
(1991, 1992), Beck e Beck-Gernsheim (1995) e até por Bourdieu (1998).
Além da contribuição desses autores de referência, nos finais da década de
1980 e no decurso dos anos 1990 assiste-se à proliferação de textos sociológicos
sobre o amor, as emoções e a sua relação com o gênero. Sobre a problemática do
amor podem ser citados ainda Brown (1987) e Cancian (1987); sobre a perspectiva
da construção social das emoções, Harré (1986) e, propondo também uma sociolo-
gia das emoções, Jackson (1993). A relação entre gênero, amor e emoções foi
também abordada por Duncombe e Marsden (1993) e propostas sobre a constru-
ção cultural da sexualidade sugeridas por Caplan (1987). Mais recentemente ain-
da, em 1998, um número especial da revista Theory Culture & Society, editada por
Mike Featherstone, é inteiramente dedicado ao tema Amor e Erotismo, com um
conjunto valioso de 19 artigos.
Esses trabalhos mais recentes permitem olhar de outra forma os que foram elabo-
rados anos atrás – quem sabe até conferindo-lhes maior legitimidade... – podendo,
também, a partir das novas referências, fundamentar melhor algumas das questões já
levantadas e não deixando de sugerir outros problemas. A nova atenção,11 agora
cada vez mais insistente, sobre uma temática considerada até há alguns anos estra-

10
Torres, 1987. Não deixa de ser curioso que as propostas feitas nessa altura sobre a necessidade de
desenvolver a análise sociológica das relações afetivas, do sentimento amoroso e da sua relação com a
conjugalidade e o divórcio têm sido citadas como contribuições inovadoras por alguns colegas de língua
francesa. Contribuíram para o conhecimento desses trabalhos não só Didier Le Gall (1992:69), que cita um
texto numa revista internacional, como também Jean Claude Kaufmann (1993:34), Claude Martin, a quem
agradeço a sua síntese para o francês das idéias centrais de um texto que só existia em português (Singly et
alii, 1996:149) e François de Singly, que fez referência a esse mesmo texto e ao trabalho sobre os “desamores”
na minha pesquisa sobre o divórcio (Singly et alii, 1996:99).
11
Não podemos esquecer a abordagem pioneira de Simmel (1988).

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146 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

nha à sociologia, pode ser explicada por duas ordens de fatores. Por um lado, temos
a perda de influência de paradigmas e perspectivas teóricas que defendem ou a
“exterioridade” dos fatos sociais ou, sob diversas formas, sublinham o peso das
estruturas e dos sistemas sociais, tendendo, em contrapartida, a diminuir o papel da
ação social e dos seus sentidos subjetivos. Seria mais difícil, nesse tipo de quadros
teóricos, prever a abordagem sociológica do sentimento amoroso, embora se encon-
trem algumas exceções.
Nos últimos 40 anos o panorama alterou-se. No plano epistemológico e teórico,
a passagem de um pluriparadigmatismo de combate a um pluriparadigmatismo de
convivência12 permitiu a rejeição dos raciocínios do tipo ou/ou que insistiam na
separação forçada do objetivo e do subjetivo, na dicotomia entre estruturas e práti-
cas. A conseqüência era que, ao se sublinhar o sentido subjetivo, não se olhava para
os constrangimentos externos objetivos e vice-versa. Em contrapartida, nos últimos
anos ganha visibilidade a busca de articulações e sínteses.
Por outro lado, maior atenção à temática dos sentimentos foi também sugerida
pelo conjunto de transformações sociais no plano das práticas e dos valores associa-
dos à forma de encarar as relações familiares e o casamento, de que constituem
exemplos o aumento do divórcio, a queda da taxa de natalidade, a crescente parida-
de entre homens e mulheres. Foi a análise de transformações desse tipo, especial-
mente a partir de uma pesquisa sobre o divórcio, que nos conduziu à tentativa de
analisar sociologicamente as relações afetivas.
O debate que a seguir se registra pretende sistematizar apenas algumas das con-
tribuições dos autores de referência. Outras propostas, de um conjunto enorme de
textos mais atuais já identificados, surgem apenas referidas ao longo do texto, ou a
propósito de questões concretas da pesquisa.

A importância teórica do amor


A idéia de que o amor (ou o seu desejo) não seria só importante para a vida
cotidiana do mais simples cidadão, mas também para a própria teoria sociológica,

12
Almeida et alii, 1995:33.
13
Até os anos 1960 há, evidentemente, autores que escapam a essa arrumação esquemática e simplificadora,
não se situando nem num campo, nem noutro. Um dos casos mais fecundos é o de Norbert Elias, que na
análise do processo civilizacional aborda a relação entre o público e o privado. Ele mostra, precisamente,
como as estruturas sociais estão incorporadas nas práticas dos atores, situação muito bem identificada, por
exemplo, a propósito do tema das relações sexuais e da passagem do constrangimento externo ao
autoconstrangimento: “o código do comportamento social inscreve-se tão profundamente na natureza
humana, que ele se torna de certa maneira em elemento constitutivo do eu individual. Este elemento, o
‘surmoi’, transforma-se tal como a estrutura psíquica e o eu individual tomado com um todo, em função do
código de comportamento social e das estruturas da sociedade” (Elias, 1973:276).

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Anália Torres 147

data pelo menos de finais dos anos 1950. William Goode, num texto elucidativamente
intitulado “The theoretical importance of love”, aborda essa problemática. O autor
analisa o amor como um elemento da “ação social e como tal da estrutura social”.14
Nessa perspectiva, o amor não se trata apenas de um sentimento que pairaria acima
ou fora da vida social e que, como tal, só poderia ser analisado no quadro da psico-
logia ou do inconsciente. Ele é considerado uma espécie de mola propulsionadora
da ação, uma força que, no quadro dos valores das sociedades contemporâneas, tem
o poder suficiente para criar, em sentido real e figurado, novas relações sociais.
Poder para agir, força para criar, mas nem sempre com as mesmas margens de liber-
dade, nem com ausência de controle.
O autor americano considera então necessário analisar as relações que, em todas
as sociedades, relacionam o amor com a estrutura social, seja através dos padrões do
amor, seja através do “complexo do amor romântico”. Ao desenvolver tal análise,
mostra também que, na maior parte das sociedades e nas diversas classes sociais, o
problema da escolha do parceiro conjugal assume lugar de grande relevo, pelas suas
importantes conseqüências, principalmente pelos efeitos que tem nas relações de
parentesco e na transmissão do patrimônio. Sintoma de tal relevância é o fato de em
muitas sociedades e nos setores sociais mais elevados se considerar que essa escolha
não pode ser deixada ao acaso dos “amores” adolescentes, assumindo-se desde logo
que a inclinação amorosa deve ser controlada.
Goode conclui, de forma muito elucidativa: “contra a opinião considerável de
sociólogos e antropólogos contemporâneos sugiro que o amor é um potencial psico-
lógico universal, que é controlado por uma série de cinco padrões estruturais, que
constituem todos eles tentativas para que os jovens não façam escolhas dos seus
futuros cônjuges inteiramente livres”; (...) “A importância teórica do amor deve ser
vista (está traduzida) nos padrões socioestruturais que são desenvolvidos para o im-
pedir de romper os compromissos sociais existentes”.15
Essa idéia do amor como mola impulsionadora, como parte constitutiva da ação
e da estrutura social é bem sugestiva e acaba, como outras propostas do autor, de se
revestir de grande atualidade. Na verdade, a maior freqüência do divórcio e a sua
crescente aceitação e integração nas sociedades contemporâneas implicaram o surgi-
mento de novos tipos de família, novas situações e papéis sociais, novas formas de
mediação entre os indivíduos e o Estado, nova legislação. Através desta, e quando se
procura preservar direitos dos que indiretamente estão envolvidos nesses processos
– as crianças, por exemplo – nota-se com clareza a preocupação de conseguir formas
de controlar, atenuando-lhes os efeitos, a força disruptiva do amor. Outras tentativas
existem de contrabalançar a “desordem” das paixões.

14
Goode, 1959:38.
15
Ibid., p. 47.

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148 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Mas basta pensar apenas na conjugalidade e na forma como é relatado o proces-


so de formação dos casais, tal como se verificou sistematicamente na pesquisa, para
reconhecer de forma muito evidente essa dupla condição das situações de
enamoramento que conduzem ao casamento, de que Goode também nos fala.
Num leque variado de situações foi possível quase sempre verificar a presença
dessa duplicidade: por um lado, escolhe-se o parceiro num clima de liberdade,
acentuando as componentes da atração e a lógica dos sentimentos como fatores
decisivos, mas, por outro, escolhe-se o socialmente próximo, procura-se desde logo
compatibilizar esses sentimentos com as expectativas quer dos pares, quer dos ascen-
dentes. Negociam-se aspectos da ritualização do enlace, são dados sinais de desejo
de integração. Ou seja, de forma tendencial, procura-se limar os aspectos eventual-
mente mais disruptivos da escolha amorosa integrando-a numa lógica social de
aceitabilidade.
A vigilância dos ascendentes e dos pares sobre a escolha formalmente livre do
cônjuge não deixa de estar também fortemente presente, por exemplo, em aspec-
tos associados ao gênero. O controle da chamada boa reputação das moças, que
ainda há pouco mais de 20 anos, a julgar pelas nossas entrevistas, passava pela
obrigatoriedade de assegurar a sua virgindade até o casamento, não deixa ainda
hoje de se fazer sentir, embora de forma mais atenuada e em certos contextos
sociais. Também aqui se nota a sutil interferência, nas inclinações do coração, de
critérios sobre o comportamento moral e as suas diferentes regras para os dois
sexos, revelando-se novamente a relação estreita entre amor e relações sociais que
Goode enuncia.

As promessas improváveis do amor


A perspectiva de Luhmann (1986), que já em meados dos anos 1980 volta a se
ocupar do tema, apesar de ter alguns pontos de contato, é bastante diferente da de
Goode. Também preocupado com as relações entre o sistema social e o que designa
como meios de comunicação simbólica generalizada, Luhmann trata a temática do
amor-paixão como um estudo de caso exatamente sobre a emergência desses códigos
de comunicação simbólica generalizada. Em vez da primazia à sincronia e à
comparatividade de Goode, vem propor uma abordagem histórica a partir de textos
e narrativas reveladores do surgimento do código e da nova semântica do amor.
Depois de mostrar as especificidades da afirmação da “semântica” do amor ro-
mântico na França, na Alemanha e na Inglaterra, associando a sua afirmação a
outros aspectos do desenvolvimento dos sistemas sociais e também do contexto filo-
sófico mais global de cada país, Luhmann revela as contradições em que essa “ideo-
logia” parece, desde logo, estar encerrada. Alimenta-se da noção de fruição do eu e
da multiplicidade das experiências, mas ao mesmo tempo sublinha a distância e a
esperança mais do que a satisfação imediata do desejo. Esse “complexo semântico”

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Anália Torres 149

acentua as diferenças entre homens e mulheres – “o homem amava amar, a mulher


amava o homem”.16
Traça-nos, em suma, um retrato riquíssimo e bem fundamentado, até chegar à
análise da relação entre o casamento e o amor romântico nos nossos dias. As mudan-
ças socioestruturais e a diferenciação dos sistemas que permitiram que os laços fami-
liares e de parentesco deixassem de ocupar lugar central na regulação das funções
econômicas, políticas e religiosas. Tornaram do mesmo passo possível uma relação
mais próxima entre inclinação amorosa e casamento. Por sua vez, as narrativas ro-
mânticas vinham ganhando terreno e difundindo-se, criavam novas éticas de com-
portamento e estendiam-se gradualmente a toda a Europa desde o século XVII. Daí
que, para Luhmann, este estudo de caso constitua também excelente ilustração do
que considera ser o surgimento dos meios de comunicação simbólica generalizada.
Na verdade, o modelo do amor romântico acaba por se difundir e por se impor, com
adaptações, às sociedades ocidentais desde essa época até os nossos dias.
Assim, se as estruturas sociais estavam preparadas para que as relações familiares
pudessem assumir novas configurações, também já estava disponível a semântica do
amor romântico capaz de funcionar como modelo e código dos novos comporta-
mentos. Assumindo tendências diferenciadas de acordo com os países, na França
orientada para as paixões fora do casamento, na Inglaterra mais voltada para a
domesticidade e na Alemanha, em parte, para a educação, a nova semântica do
amor dava resposta aos anseios de liberdade de escolha no casamento.
Com a sua associação ao casamento, o amor romântico, o amor paixão, foi assu-
mindo porém versões mais suavizadas, chegando mesmo a começar a se entrever a
separação entre paixão – vertigem, desordem – e amor e até a se criticar o casamento
só por paixão.17 Surgem também os problemas da trivialização do sentimento amo-
roso ao longo do casamento, verificando-se a distância entre o amor visto e popula-
rizado nos livros e nos filmes, só para alguns, e o real cotidiano conjugal. Retrabalha-
se, assim, o código, suavizando-se os seus aspectos mais “apaixonados” da primeira
metade do século XVII.

16
Luhmann, 1986:136. Essa perspectiva da assimetria dos sexos e do papel dos homens no amor romântico
está bem ilustrada em várias obras de que o de L’Amour de Stendhal, escrita no primeiro quarto do século XIX,
é apenas um brilhante exemplo. Trata-se quase de um manual de bem amar, obra de um homem sensível
destinada a outras almas sensíveis, em que se ensina a distinguir entre a simples galanteria ou o amor-gosto
das verdadeiras e desinteressadas paixões, que se dão bem melhor com a espontaneidade dos sentimentos do
que com retórica. A explicação da assimetria entre homens e mulheres, reservando aos primeiros um papel
ativo e às segundas um papel expectante, relaciona-se ainda com as atribuições familiares da mulher,
necessitando esta de se defender de propósitos menos honestos. Enquanto as mulheres deveriam preservar
a sua intimidade, só se entregando por amor uma vez e para todo o sempre, para os homens o exercício das
artes do amor só poderia trazer experiência, sabedoria, aperfeiçoamento, sensibilidade.
17
Ibid., p. 148.

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150 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Mas o desenvolvimento de uma nova semântica da intimidade relaciona-se tam-


bém com os movimentos de diferenciação dos sistemas sociais. Na verdade, o de-
senvolvimento econômico e as relações de mercado, a opacidade das relações soci-
ais, impõem a distinção cada vez mais clara entre “as relações impessoais e as
pessoais”: “uma vez que essa experiência básica da diferença entre relações impes-
soais e pessoais se tornou conhecimento comum, uma vez que se tornou verdadeira
para toda a gente, independentemente do sexo e do estrato social, ela tem de crista-
lizar o desejo de relações pessoais, de uma maior interpenetração, a um nível mais
profundo e fazê-lo aparecer como ainda mais inatingível”.18
A identificação desta nova semântica da intimidade acaba por nos conduzir aos
paradoxos e dificuldades dos nossos dias, no final do século XX. De um lado, e
devido às transformações socioestruturais, os indivíduos têm mais autonomia em
relação às instituições, o que se traduz em margem acrescida de manobra individual.
A crescente paridade entre homens e mulheres é exemplo dessas transformações e
dessa maior autonomia. Mas, por outro lado, a necessidade da intensificação das
relações pessoais aumenta as expectativas em relação ao desejo de ser compreendido
pelo outro e torna-se difícil, senão impossível, que o recíproco retrato idealizado se
sustente no cotidiano.19 Expectativas mais elevadas implicam também, ao não serem
ajustadas à realidade, maiores desilusões, crescente instabilidade e incerteza. E o
autor termina afirmando que o amor, nas sociedades contemporâneas, promete muito,
mas acaba por dar pouco. O código do amor transformou-se de um ideal, através
dos paradoxos referidos, num problema.
Há sinais dessas promessas não concretizadas na nossa pesquisa? Não necessa-
riamente. Mas nota-se, por exemplo, que os entrevistados fazem também nítida
separação entre paixão e amor conjugal. Embora as experiências sejam diversas,
podemos referir que alguns dos mais jovens relatam que, tendo sido a paixão o
motor inicial da aproximação entre os cônjuges, ela veio a se transformar num
sentimento tranqüilo, que se foi construindo e cimentando ao longo da relação.

A relação pura e o amor confluente


Houve ainda intenção de operacionalizar na pesquisa duas propostas de Giddens
(1991, 1992). A primeira diz respeito à já mencionada tendência verificável na “mo-
dernidade tardia” no domínio das relações conjugais que é a de um modelo auto-
referenciado, que Giddens denomina de pure relashionship. Esse tipo de relaciona-
mento se materializaria, entre outros aspectos, no fato de as relações entre parceiros
deixarem de se pautar por padrões estabelecidos ou impostos do exterior, para obe-
decer a critérios definidos pelos parceiros conjugais e em torno do que estes consi-

18
Luhmann, 1986: p. 153.
19
Ibid., p. 165.

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deram ser a qualidade intrínseca da relação. Importava avaliar até que ponto se
poderão encontrar sinais dessa tendência nos casais entrevistados.
Outra proposta de Giddens (1992) refere-se à passagem do modelo do amor
romântico ao amor confluente (confluent love). De certo modo também associada à
primeira proposta, esta outra tem em conta as mudanças verificadas quanto ao estatu-
to das mulheres. O fato de se tender cada vez mais para relações igualitárias entre
homens e mulheres põe em questão modelos anteriores segundo os quais eram essen-
cialmente as mulheres que alimentavam uma visão romântica das relações conjugais,
sendo sobretudo elas que também mais se sentiam implicadas na componente emo-
cional e afetiva dessas relações. O confluent love20 seria a tendência para uma impli-
cação afetiva e emocional igualitariamente partilhada entre homens e mulheres, tam-
bém porque se trata hoje de trocas entre parceiros que estão cada vez mais próximos
no plano do desempenho dos papéis sociais. Essas perspectivas interessam direta-
mente ao nosso trabalho. Contudo, e em alternativa à idéia de amor-confluente,
julgamos mais ajustada às realidades analisadas a idéia de amor-construção.

A individualização, a igualdade entre homens e mulheres e o amor


A idéia segundo a qual o amor é a religião secular das nossas sociedades surge com
Beck e Beck-Gernsheim. Baseiam-se eles numa análise muito extensa e bem funda-
mentada das relações familiares recentes na Alemanha, que focaliza, entre outras rea-
lidades, o aumento do divórcio e das famílias recompostas, a queda abrupta da taxa de
natalidade, o aumento da participação feminina na atividade econômica. Depois,
assumem claramente que se debruçam sobre as tendências mais recentes – com mani-
festações muito diferentes nas diversas zonas geográficas e sociais da Alemanha –
observáveis fundamentalmente nas grandes cidades. Acentuam, assim, a crescente
tendência global para a individualização e o maior protagonismo dos indivíduos na
construção do seu próprio destino, no campo das relações amorosas e sentimentais.
Para os autores, a fé no amor está ligada à sua falta de tradição. Chega depois dos
partidos, dos credos, das grandes narrativas e nasce também depois da quebra dos
tabus em relação às liberdades sexuais.21 Trata-se de uma religião sem igrejas e sem
padres: “nós” somos o seu templo e os nossos desejos, as suas orações. Tal como
Luhmann, não deixam de focalizar os paradoxos envolvidos nos comportamentos
recentes, principalmente o contraste entre experiência vivida e valores, orientações,
expectativas.
Ao abordar a problemática da dominação masculina, Bourdieu (1998) interroga-
se, por seu turno, em cerca de quatro páginas, sobre a possibilidade de, no quadro
da relação homem/mulher, o amor funcionar como elemento de neutralização dessa

20
Giddens, 1992:61.
21
Beck & Beck-Gernsheim, 1995:177.

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152 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

dominação: será que o amor “suspende a relação de dominação masculina e a sua


violência simbólica ou não deixa de a perpetuar com sutileza?”22 A resposta de
Bourdieu parece clara. É possível que o amor tenha esse poder de suspender a
dominação masculina, mas há condições para que essa suspensão possa de fato
ocorrer. Por um lado, não se trata de uma aquisição de uma vez por todas: “só através
de um trabalho de todos os instantes, recomeçado sem cessar, se pode arrancar às
águas frias do cálculo, da violência e do interesse essa ‘ilha encantada’ do amor, esse
mundo fechado e perfeitamente autárcico que é o lugar de uma série continuada de
milagres: o da não-violência, que torna possível a instauração de relações fundadas
na plena reciprocidade e autorizando o abandono e a entrega de si; o do reconheci-
mento mútuo, que permite, como diz Sartre, o sentir-se ‘justificado por existir’ (...); o
do desinteresse, que torna possíveis as relações desinstrumentalizadas (...)”.23 A igual-
dade entre pares, no contexto da relação amorosa, constitui assim peça fundamental
para que o milagre que suspende a dominação se concretize: “o sujeito amoroso só
pode obter o reconhecimento de um outro sujeito, mas que abdique, como ele pró-
prio, da intenção de dominar”.24
Conclui, em sentido convergente com os autores já referidos, mostrando de que
modo o amor pode surgir como um lugar de transcendência e de resistência às
instituições. “Reconhecimento mútuo, troca de justificações de existir e de razões de
ser, testemunhos mútuos de confiança, tantos sinais da reciprocidade perfeita que
confere ao círculo no qual se encerra a díade amorosa, unidade social elementar,
inseparável, e dotada de uma poderosa autarcia simbólica, o poder de rivalizar vito-
riosamente com todas as consagrações que se pedem habitualmente às instituições e
os rituais da ‘Sociedade’, esse substituto mundano de Deus.”

D O CASAMENTO POR INTERESSE , AO AMOR - ROMÂNTICO


E AO AMOR - CONSTRUÇÃO

Caso se queira propor uma síntese, pode-se então concluir que, apesar da diver-
sidade das propostas analisadas, há dois temas que as atravessam e aproximam.
Trata-se, por um lado, da relação entre modernidade e amor romântico e, por outro,
dos efeitos da chamada questão feminina na vivência do sentimento amoroso. Em-
bora se trate de temáticas associadas entre si, vale a pena, num primeiro momento,
distingui-las.
Quanto ao primeiro tema, o que parece mais interessante reter é a idéia de que a
crescente individualização, representando maior margem de liberdade e de escolha

22
Bourdieu, 1998:116.
23
Ibid., p.117.
24
Ibid., p. 119.

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no plano das relações conjugais e familiares, tem igualmente conseqüências comple-


xas, criadoras de novas dificuldades. A análise desta relação entre modernidade e
amor romântico não é nova,25 mas é nova, em contrapartida, a forma sistemática
pela qual os autores citados abordam o tema e o estatuto central que atribuem à
articulação dos chamados níveis macro e micro. Passam a ser visíveis, de forma
muito direta, as interinfluências que se estabelecem entre vida pessoal, intimidade e
estruturas ou sistemas sociais, tornando-se mais difícil pensar a vida cotidiana
desenraizando-a dos seus contextos de ocorrência. Por aí surge uma das vias que
permite e facilita a operacionalização, a transformação das propostas teóricas em
questões específicas ao real, tal como se procurou fazer na pesquisa.
O segundo tema, refererente aos efeitos da tendência para a igualdade entre ho-
mens e mulheres na forma como se vivem as relações familiares, conjugais e amorosas,
parece também atravessar as perspectivas enfocadas. É este, de resto, o objeto de vários
dos artigos que já nos anos 1990 procuram explorar a relação entre intimidade, emo-
ções, amor e gênero. Embora a emancipação feminina e os seus efeitos na relação
amorosa já tenham sido analisados por Simmel (1988) ou por Octavio Paz (1995) –
“não há amor sem liberdade feminina” –, a verdade é que as transformações dos
últimos 40 anos tornaram ainda mais óbvia essa relação.
Vejamos agora, para finalizar, as abordagens analisadas numa perspectiva
diacrônica e também à luz dos nossos próprios resultados. Parece constituir idéia
convergente a um conjunto significativo de autores a passagem de uma visão
institucionalizada do casamento em que o amor está secundarizado para a perspec-
tiva do casamento-romântico, através da qual o sentimento amoroso ganha
centralidade como pretexto legítimo e fundamental para a relação. Acrescenta-se
depois, nos anos mais recentes, a transformação desse modelo de amor-romântico
em um modelo de amor-confluente ou, segundo a proposta que temos elaborado, de
amor-construção. Cada mudança se associa a uma perspectiva diferenciada de rela-
ção entre os sexos. Especifique-se um pouco mais.
A visão do casamento como instituição, dominante do século XIX ao início do
século XX, está associada também a uma concepção específica sobre a vida amorosa
e a liberdade dos dois sexos. O romance e o erotismo localizavam-se fora do casa-
mento e são para ser vividos no masculino e não no feminino. Verificam-se assim
assimetrias acentuadas entre homens e mulheres, diferenciação total de papéis.
Para ambos os sexos, contudo, é o casamento que se impõe aos indivíduos como
destino e que se deve manter, quer por questões de alargamento ou manutenção do
patrimônio, no caso dos setores burgueses, quer pela necessidade de sobrevivência
econômica e pela lógica das responsabilidades contraídas, nos setores sociais mais
desfavorecidos. Embora com contornos já nuanceados, tal modelo ainda persiste

25 Também Weber se referia, decerto de forma um pouco diferente, à relação entre modernização e amor
romântico (Lindholm, 1998; Jackson, 1993); como já indicado, Norbert Elias aborda igualmente essa relação.

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154 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

nas representações e nas práticas dos nossos entrevistados mais velhos, do sexo
masculino e dos setores operários.
As dificuldades e disfuncionalidades do modelo devem-se ao fato de os indiví-
duos se sentirem amarrados a uma instituição que os constrange e lhes impõe com-
portamentos rígidos. Serão elas que, em articulação com outras transformações so-
ciais, a que não são estranhos também fenômenos como o crescimento das chama-
das classes médias e as mudanças de valores, irão dar origem à passagem a outra
“semântica”, como Luhmann nos mostrou.
A idéia segundo a qual o pretexto legítimo para o casamento deve ser o amor
surge em luta contra a visão anterior. Assume-se então que, se o amor está no centro
da escolha conjugal, os problemas que existiam anteriormente – desentendimentos
conjugais devido à estranheza entre os cônjuges, por exemplo – estariam automati-
camente superados. Essa visão está ainda associada a outras idéias, por vezes contra-
ditórias entre si. Defende-se o amor como suspensão do tempo e do espaço, como
“estado” que vence todos os obstáculos e supera todas as dificuldades. Mas o roman-
ce acaba quando a vida conjugal começa.
Nesse modelo há sobreposição entre amor, paixão, atração física, impulso sexu-
al, erotismo e assimetrias entre homens e mulheres. As mulheres são mais responsá-
veis pelo “trabalho” do amor do que os homens, na medida em que estariam especi-
almente vocacionadas para as emoções, a domesticidade, as relações familiares. As-
sim, se as coisas correm mal, também se pode atribuir a elas a responsabilidade por
não terem tido a “arte” de saber guardar o seu par. As respostas de algumas entrevis-
tadas mais velhas permitiram confirmar essa situação.
A visão romântica do casamento também surge freqüentemente nos discursos dos
entrevistados. Mas à medida que a idade e a duração do casamento aumentam, as
referências românticas ao sentimento amoroso inicial tendem a dar prevalência às
do companheirismo e da solidariedade.
As contradições inerentes ao modelo parecem evidentes. Por um lado, o amor é
menos um estado que suspende o tempo e o espaço e assume mais facilmente os
contornos de um processo. Depois do casamento é que tudo verdadeiramente come-
ça. E sendo assim, se a escolha amorosa é condição necessária ao casamento, ela não
é suficiente. O fundamental é que o amor persista ao longo da relação. Estas são
algumas das conclusões que podem ser tiradas do aumento dos divórcios depois dos
anos 1960. A relação conjugal continua a revelar todo o seu poder atrativo, repara-
dor, regenerador, e até transcendente como promessa, mas é preciso que o amor
persista e que a relação tenha qualidade.
Chega-se assim ao modelo do amor-construção. Freqüente nos discursos dos mais
jovens, essa perspectiva caracteriza-se por se assumir desde logo que, se o amor e a
paixão foram o pretexto inicial para o casamento, rapidamente ele foi se transfor-
mando num sentimento mais estável, mais “construído”. Descobriram-se aspectos
novos e até outros sentimentos – de que forma ele se preocupa com a criança, a

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Anália Torres 155

descoberta dela no papel de mãe – ao mesmo tempo que se desidealiza o parceiro


e ele cai do pedestal para se tornar mais falível, menos entusiasmante, mais previsí-
vel e, possivelmente, mais próximo. Ou, em alternativa, começam a definir-se dis-
tâncias, cristalizam-se conflitos, aumentam as tensões em torno de projetos indivi-
duais que se tornam incompatíveis. Embora menos freqüentemente, também en-
contramos em casais mais jovens sinais de desconstrução em relação ao sentimento
inicial, situações conflituais de desfecho incerto.
Esse modelo de amor-construção implica maior paridade entre homens e mu-
lheres, mas conhece ainda as assimetrias já referidas. Nessa contradição entre inte-
resses que são agora reconhecidos como paritários em nível de idéias e as práticas
ainda assimétricas, residem algumas das disfuncionalidades e incoerências. Mas
não só isso. Como mostra Illouz (1998), se há muito de construído, de familiar e de
rotina cotidiana, pode haver a nostalgia da espontaneidade, do imprevisível, do
extraordinário. As forças centrípetas podem ser mais fracas do que as centrífugas.
Diante da energia que parece se despender ao “construir” a relação pode instalar-se
a nostalgia do amor incondicional. O que não traduz senão as contradições dos
valores contemporâneos. O direito à felicidade parece ser para hoje, estar mais
perto, e é também acrescida a liberdade individual. Mas também há mais risco,
mais incerteza, mais ameaças.

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de Ciências Sociais, 1997.

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CAPÍTULO 9

Formas de expressão pessoais


e conjugais através das
conversas telefônicas*
CLAIRE -ANNE BOUKAÏA

O ESTUDO DAS PRÁTICAS TELEFÔNICAS se inscreve em uma reflexão global


sobre a individualização e a autonomização no seio do casal. Apesar de correr o
risco de decepcionar o leitor, não nos referiremos aqui aos telefones celulares, mas
aos telefones fixos, como um objeto comum ao casal. O telefone com fio pertence
a um espaço compartilhado por várias pessoas. Ele rompe os limites dos espaços e
das identidades, ao acarretar, em um espaço definido, a reconstrução das diferen-
tes identidades de cada pessoa segundo a flutuação das chamadas telefônicas.
Além disso, a forma de utilização do telefone é um reflexo das relações pessoais.
Esse vaivém constante entre o casal e o mundo exterior, entre identidade pessoal e
identidade conjugal, constituirá o aspecto central de nossas preocupações.
O telefone introduz uma terceira pessoa na vida a dois. Na verdade, este telefo-
ne, que suprime as distâncias, põe entre parênteses a interação face a face entre as
duas pessoas presentes. Embora uma conversa telefônica possa se referir tanto a um
como ao outro, ela é raramente compartilhada no momento em que ocorre. As cha-
madas telefônicas feitas do domicílio conjugal são assim um campo privilegiado
para observar como as dimensões pessoais e conjugais se articulam e se misturam
segundo as situações.

*
Tradução de Angela Xavier de Brito.

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158 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

Encontraremos ao longo deste texto alguns exemplos não exaustivos que visam a
mostrar como a identidade pessoal e a identidade conjugal se articulam mediante a
gestão das comunicações telefônicas. Procuraremos, em primeiro lugar, lançar luz
sobre os mecanismos utilizados pelo indivíduo, membro de um casal, para desen-
volver sua identidade pessoal através do fato de reservar alguns momentos para si
mesmo. Em seguida, procuraremos revelar os conflitos resultantes da coexistência
de momentos para si e momentos comuns.1 Finalmente, veremos que existem dois
tipos de estratégias com vistas a limitar as perturbações criadas pelo uso do telefone.

A CONQUISTA DE AUTONOMIA PESSOAL


NO DOMICÍLIO CONJUGAL

A apropriação momentânea do telefone enquanto objeto para fins pessoais, por


um dos membros do casal, significa legitimar a construção de uma identidade pes-
soal distinta, no domicílio conjugal. Vários estudos2 apresentam dois tipos de co-
municação: funcionais e relacionais.3 As primeiras são curtas, informativas e exigem
um investimento menor do que as segundas. Estas últimas, mais afetivas, às quais
nos consagraremos aqui, são dirigidas aos amigos e aos familiares, mas às vezes são
comunicações profissionais que ultrapassam a simples troca de informações. O pro-
blema reside em que esse tipo de comunicação relacional estabelece uma concorrên-
cia direta com a vida do casal, na medida em que se situa na esfera afetiva. O que
diferencia a prática telefônica de uma outra atividade qualquer (leitura, televisão) é o
fato de que ela se dá sob o signo da relação.
As comunicações relacionais, pelo menos aquelas destinadas aos amigos, são
freqüentemente efetuadas longe da presença do outro cônjuge. O telefone é então
utilizado, por um lado, com o espírito do “enfim só” e, por outro, para defender
seus interesses pessoais, no sentido de respeitar sua vida conjugal, preservando-a
das interferências externas.

O prazer
A prática do telefone assume virtualmente a forma de uma relação face a face. O
telefone, enquanto objeto de mediação, permite escapar momentaneamente do do-

1
Definição do “eu conjugal”: é a maneira pela qual a identidade pessoal se modifica na formação de um
casal. Um eu estranho: o eu conjugal (Singly, 1988).
2
Claisse & Rowe, 1993; Moyal, 1992.
3
A comunicação funcional é aquela cujo valor é medido em função da sua eficácia, a comunicação ‘quente’
é a que visa à espontaneidade, à relação face a face, à recriação da presença humana em toda a sua
implicação e o seu calor, em seus descaminhos e conotações (Claisse & Rowe, 1993).

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Claire-Anne Boukaïa 159

micílio conjugal apesar de estarmos fisicamente situados nele: pode-se estar junto,
embora cada um esteja em sua casa. Essa atividade é vivida como integral, aportando
muitas vezes um certo prazer. A construção de uma identidade pessoal, diferente da
identidade de casal, passa pelo fato de outorgar-se momentos exclusivamente para
si, quando o cônjuge está ausente. Dessa forma, os momentos para si e os momentos
comuns não se superpõem: cada situação é definida de maneira unívoca.
Debrucemo-nos agora sobre o caso de Françoise4 e de sua amiga Betty, cuja rela-
ção face a face é prolongada por meio de comunicações telefônicas cotidianas.

P – Quando você telefona para a Betty, é sempre para marcar um encontro ou para dizer
alguma coisa específica?

R – Não, a gente tem sempre alguma coisa a se dizer e, além disso, bom, quando uma das
duas tem um problema, então a gente se telefona, e não é porque a gente acabou de se
encontrar que não tem mais nada para dizer. Ela mora aqui ao lado e nos vemos todos
os dias: na verdade, a gente continua nossos papos pelo telefone.

Françoise construiu um universo de amizades diferente de seu universo conjugal.


Sua relação de amizade com Betty é estruturada de tal maneira que a comunicação
telefônica lhe traz uma dimensão suplementar. Não é tanto o conteúdo objetivo da
conversa que conta, mas a manutenção da relação telefônica em si. Vejamos agora o
discurso de Emmanuelle,5 que enfatiza essa dimensão e introduz a noção de prazer:

A gente se telefona para não dizer nada, essa conversa seria absolutamente dispensável.
Exceto quando é com mãe, senão, é verdade, quando falo com Marie-Charlotte, a gente
telefona pra dizer besteiras, pois afinal de contas poderíamos não fazê-lo. Mas se eu
telefono, é porque isso me dá prazer, ora essa! (…) O prazer de telefonar? É de não estar
só, é poder chamar alguém.

A noção de prazer basta para justificar esse tipo de comportamento. Falar, con-
versar ao telefone, é burlar a solidão, é se dar prazer sem ter de sair de casa. Os
momentos em que se está só em casa também são aproveitados para captar “pessoal-
mente” o domicílio conjugal. O telefone permite ampliar o território das constru-
ções pessoais.

4
Na época da pesquisa, Françoise tinha 47 anos. Ela está casada com Maxime (49 anos) e vivem juntos há
26 anos. Ela não trabalha, ele é inspetor de gestão. Eles têm três filhos: Mathieu (13 anos), Guillaume (20
anos) e Raphaèle (23 anos).
5
Emmanuelle tem 24 anos. Ela vive com Raymond (26 anos) há um ano e meio, mas “estão juntos” há sete
anos. Ela é estudante; ele, conselheiro comercial encarregado das relações com a clientela de uma empresa.

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160 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

No entanto, ainda que um dos cônjuges se dê prazer através das comunicações


telefônicas quando o outro está ausente, o mesmo não se dá quando o outro chega
em casa. A partir desse momento, o grau de tolerância no que se refere à comunica-
ção telefônica diminui. A noção de prazer pessoal é naturalmente minimizada em
benefício da noção de respeito ao outro.

O respeito
O tempo é uma dimensão primordial da gestão das interações. Quando o cônju-
ge está presente, o outro não fica muito tempo ao telefone, pois isso seria marcar
uma ausência. A partir daí, a identidade conjugal é prioritária e os limites espaço-
temporais se transformam em respeito. Emmanuelle, estudante, sabe gerir suas co-
municações telefônicas. Ela aproveita os momentos em que o marido está trabalhan-
do para fazer suas chamadas pessoais:

Claro que telefono também pra dizer besteiras, mas, na verdade, não fico horas a fio ao
telefone, como poderia ficar quando estou sozinha. Se ele fica nervoso quando eu passo
horas ao telefone? Não, mas, bom, não é nada agradável. E sem dúvida nenhuma ele ficaria
chateado se eu ficasse falando uma hora, uma hora e meia. Na verdade, é falta de educação
ficar falando ao telefone quando há outra pessoa em casa. Não é falta de educação quando
é por 15 minutos, mas durante horas, é faltar ao respeito para com a outra pessoa.

Emmanuelle compreendeu que suas chamadas poderiam incomodar o marido e


ser uma falta de respeito para com ele. Quem não está ao telefone fica esperando a
volta da outra pessoa para retomar a interação conjugal. Uma comunicação prolon-
gada pode trazer dúvidas quanto ao compromisso da pessoa que está ao telefone.
Depois do tempo do prazer associado às conversas telefônicas, vem o da preservação
do casal. Quando seu companheiro volta do escritório, Emmanuelle torna-se “indi-
víduo com” (Goffmann) hierarquizando assim de maneira diferente suas priorida-
des. O desejo de intimidade pode ser uma motivação tão poderosa quanto o prazer
derivado desse tipo de comportamento.
Voltemos agora a Françoise, que também é consciente da incompatibilidade tem-
poral entre os momentos para ela e os momentos comuns. Por um lado, a presença
do cônjuge pode ser um obstáculo à condução de sua identidade pessoal. Por outro,
ela julga inaceitável o fato de que suas comunicações pessoais venham perturbar os
momentos consagrados ao casal ou à família.

Não, não telefono sempre para as mesmas pessoas, estando sozinha em casa ou não. Em
geral, procuro chamar meus amigos pessoais quando Maxime não está em casa, para
não chateá-lo e, bom, de noite, todo mundo está ocupado e posso incomodá-los. Mas
quando a gente tem muita coisa a se dizer, daí eu telefono durante o dia.

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Françoise faz assim uma clara diferença entre seus amigos pessoais e sua vida de
casal. São duas esferas separadas que, em princípio, não devem se superpor. Esse
universo de amigos pessoais é percebido como algo que incomoda, se Maxime está
em casa. A fronteira é clara e não se deve transpô-la, em nome do casal. A autonomia
pessoal só pode ser assumida em momentos muito precisos: quando o “eu” se desen-
volve sem afetar o “nós”. Mas as coisas não são sempre assim tão simples. Muitas
vezes, o “eu” invade o “nós” e o indivíduo tem problema quando busca fixar uma
definição unívoca da situação.

A TENSÃO ENTRE MOMENTOS PARA SI


E MOMENTOS COMUNS

A prática telefônica revela a potencialidade de certos conflitos e sublinha a difi-


culdade da gestão da vida em comum por dois indivíduos distintos. Como já disse-
mos, o telefone provoca a abolição dos compartimentos. Uma chamada profissional
durante a noite, um amigo íntimo que necessita falar no meio do jantar, eis algumas
cenas que se tem a gerir no cotidiano. Será a interação conjugal suficientemente
flexível para modificar-se em função das chamadas telefônicas?

Espaço conjugal e identidade pessoal


Certos espaços do domicílio são algumas vezes transformados em espaço pessoal
para que a situação a administrar não se torne muito equívoca. Joga-se com o espaço
para evitar a tensão engendrada tanto pela “flexibilidade” das interações conjugais
quanto pela flexibilidade identitária. Como vimos anteriormente, Emmanuelle ad-
quiriu uma competência interacional ligada à utilização do telefone quando se trata
de gerir os telefonemas para os amigos. A situação é diferente quando se trata de
fazer coexistir uma interação conjugal e uma interação profissional.

Na verdade, as únicas chamadas que não gosto de fazer quando Raymond está presente
(são as profissionais). Por exemplo, ontem eu tinha que telefonar para alguém para
marcar um encontro em função de um estágio futuro e fico sem graça se ele escuta o que
digo. Porque eu já estou meio sem graça para falar e isso vai me deixar mais perturbada
ainda (se ele escuta), então eu pego o telefone e vou para o banheiro. Mas são pessoas
que não conheço bem, com quem tenho que prestar atenção ao que vou dizer… E fico
sem jeito porque ele está presente e vai fazer gracinhas, eu vou rir … Então, como sei
que ele é capaz de fazer essas besteiras, pego o telefone e vou falar do banheiro.

Emmanuelle é estudante, sua identidade profissional não está ainda inteiramen-


te desenvolvida. Ela sente grande necessidade de se proteger quando procura um

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162 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

estágio, de se afirmar como pessoa distinta, enquanto um “eu isolado”. Mas até que
ponto o telefone pode interromper os momentos comuns?

Tensões e censuras
A sensação de que uma chamada telefônica é uma intrusão na vida em comum
deriva de vários fatores. O grau de intimidade que liga o interlocutor a cada um dos
membros do casal pode lhe dar direito de acesso mais ou menos amplo. A família e
os amigos têm quase sempre um direito de acesso ilimitado, quando se trata de uma
urgência. No entanto, quando não é feito por “outros significativos” legitimados pelo
casal,6 a chamada telefônica pode ser fonte de tensões. O caráter de intrusão de uma
interação se origina quando ela transforma um elemento exterior em ocupação prin-
cipal, interrompendo assim todas as demais atividades de um indivíduo. A interação
perturba a “ordem conjugal”, na medida em que uma parte do que se diz pode ser
pouco clara e misteriosa para o outro membro do casal.
Algumas vezes, uma simples chamada telefônica chega a ser intolerável, quando
exprime uma intimidade demasiado grande. A tensão sobe e os casais são obrigados
a gerir tais situações na medida em que elas surgem. A voz da conjugalidade se eleva
quando essa barreira é ultrapassada. Uma terceira entrevistada, Christine,7 se coloca
como guardiã da harmonia conjugal.

Uma vez tive que intervir em uma conversa telefônica de Jérôme, era uma menina da
faculdade, uma aproveitadora que só lhe telefonava para obter os cursos e o fazia
perder tempo. Uma vez, ela telefonou às 11 horas da noite, eu fui meio dura, meio
malvada com ela e pedi encarecidamente a Jérôme que interrompesse aquela chamada
porque já fazia três ou quatro dias que ela telefonava nas horas mais inconvenientes, e
ela telefonava todos os dias perguntando onde é que ele andava, o que é que ele estava
fazendo e eu achei que ela não tinha nada com isso, porque ela já amola todo mundo
para obter os cursos. Ela não estuda, então o problema é dela, ela não tem o direito de
nos incomodar às 11 da noite. Ela não é uma amiga íntima, por isso não tem nada que
telefonar.

Seria interessante notar que o incômodo é atribuído ao grupo conjugal como um


todo (ela não tem o direito de nos incomodar). No entanto, uma pessoa amiga pode-
ria ter telefonado a essa hora, criando uma perturbação tolerada. Christine não
podia tolerar que uma parte da vida pessoal de Jérôme irrompa nos momentos em
que ele é um “indivíduo com” ela. Pode-se também perguntar se o sexo do interlocu-

6
Berger & Kelliner, 1960.
7
Christine (27 anos) vive com Jérôme (26 anos) há dois anos. Ele é estudante; ela, responsável pela gestão
das salas em uma empresa pública.

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Claire-Anne Boukaïa 163

tor não é a causa direta dessa reação. Talvez um colega do sexo masculino de Jerôme
tivesse provocado uma perturbação menor.
A tensão engendrada pela prática telefônica pode igualmente explicar-se pelo
sentimento de exclusão que certos indivíduos experimentam quando seu parceiro
está se comunicando com alguém. Falar ao telefone é como ausentar-se do domicí-
lio, mesmo estando presente. Cada qual experimenta a exclusão e a auto-exclusão.
Eu me excluo da interação conjugal quando telefono para alguém em presença de
meu parceiro, mas também o estou excluindo dessa troca verbal. Laurent8 sente-se
particularmente afetado por essa situação:

Eu detesto que Brigitte passe a noite ao telefone, isso já aconteceu com uma certa
freqüência. Não suporto ter que ir me deitar enquanto Brigitte fica horas ao telefone
com alguém e eu tenho que dormir sem que ela esteja ao meu lado. Sobretudo quando
ela telefona a outra pessoa, ainda se for uma chamada de trabalho, tudo bem, mas
quando ela chama outra pessoa, eu não suporto. Primeiro, porque eu trabalho muito e
sou mais tolerante quando me dou conta de que ela também trabalha muito. Eu sei que
telefonar para as amigas ou para os amigos é um derivativo. Mas quando chego em casa
– eu já vejo Brigitte tão pouco – e ela ainda tira tempo para telefonar, eu fico danado. Daí
eu digo para ela parar: chega! não agüento mais, senão eu vou embora!

De repente, o telefone se torna um concorrente direto para Laurent. Telefonar


refere-se sempre a falar com uma pessoa. Os telefonemas de trabalho são tolerados,
na medida em que não implicam uma relação “concreta” de Brigitte com outra
pessoa. As comunicações de Brigitte são assimiladas ao tempo livre, que ela contro-
la, e significam que ela prefere falar ao telefone a ficar com Laurent. Nesses casos, o
telefone toma um lugar tão importante que Laurent prefere se ausentar de modo
próprio de uma cena que não é mais sua, saindo de casa. Ele responde ao sentimen-
to de exclusão pela exclusão. Laurent tolera que se fuja do trabalho, mas não do
casal. Por que Brigitte teria necessidade de fugir do casal? Mais do que uma despro-
porção dos tempos reservados a cada um, é essa interação que, na verdade, fere os
sentimentos de Laurent. De fato, as relações telefônicas de Brigitte são quase uma
forma de infidelidade, reforçada pela imagem da cama: ele não suporta dormir
enquanto Brigitte está falando ao telefone. Ele o dirá explicitamente mais tarde:

P – Em sua opinião, qual é o aspecto mais desagradável do telefone? (silêncio).

R – Quando Brigitte não quer que eu participe da conversa. Eu não suporto quando ela
fica fazendo confidências.

8
Laurent (38 anos) vive com Brigitte (41 anos). Ambos são arquitetos, vivem juntos há 10 anos e têm um
filho de quatro anos e meio.

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164 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

O termo confidência revela a importância dos poderes que Laurent atribui à


interação telefônica. A confidência implica que Brigitte poderia dizer coisas que
não quer que Laurent saiba ou ouça.
Tais situações não são apenas fonte de ciúmes, podem tornar-se também um
campo de jogo. Surge então uma forma particular de censura: o humor conjugal.
Quando uma conversa se prolonga por um tempo indevido, assiste-se às vezes a
brincadeiras que interferem na conversa com o objetivo de reduzir o tempo da co-
municação. Etienne9 é um adepto desse tipo de comportamento.

P – E quando você intervém em uma conversa telefônica de Sophie, como é que ela
recebe isso?

R – Bem, depende de eu a amolar muito ou não. Sei lá, eu aperto os botões do telefone,
eu digo: “alô, a comunicação foi cortada, não estou mais escutando”. Adoro fazer essas
brincadeirinhas quando acho que a conversa já durou demais. Isso é clássico. Ou então
falo no bocal à outra pessoa. Sophie segura o aparelho e eu chego perto e digo: “tudo
bem, ei, bom-dia” e mais sei lá o quê. (…) Ou quando estou chateado, faço “fu”!!!! Ou
passo do lado resmungando “nhãnhãnhã”!

A comunicação telefônica perde então sua dimensão exclusiva e deixa lugar a


uma interação lúdica na relação do casal. Etienne encontra assim um lugar na inte-
ração telefônica de Sophie.

AS ESTRATÉGIAS DE EVITAMENTO

Ao longo deste texto, quisemos mostrar como o desejo de autonomia pode tornar
complexa a prática telefônica. A passagem do “eu” ao “nós” pode muitas vezes
dificultar a aceitação pelo e para o cônjuge. Mas o telefone não pode unicamente ser
visto como um objeto de conflitos potenciais, ele pode também ser um objeto de
consenso: ocasional ou sistematicamente, os casais utilizam estratégias preventivas
para proteger seu universo conjugal. A conciliação é feita de várias maneiras: por
um lado, evitando toda e qualquer superposição entre momentos comuns e momen-
tos para si; por outro lado, tornando comuns as interações telefônicas, a vários
graus. Existem dois grupos de estratégias:

a) As que têm em vista limitar o acesso de interferências externas:


– fazer as comunicações quando se está só;
– ligar a secretária eletrônica ou desligar o telefone quando se está em casa, ou
comprar um aparelho que indique o número de quem está telefonando.

9
Etienne e Sophie têm 25 anos e são engenheiros. Vivem juntos há dois anos, mas “estão juntos” há seis.

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Claire-Anne Boukaïa 165

b) As que visam a integrar o outro nas interações telefônicas, criando assim não
uma superposição de interações, mas uma interação do casal com uma terceira
pessoa:
– contar o conteúdo das conversas durante o telefonema ou depois;
– integrar o cônjuge na conversa, utilizando o alto-falante, um outro telefone
ou um aparelho de escuta;
– brincar de interferir nas conversas.

Antes de terminar, parece-me importante precisar que o telefone pode ser um


meio de expressão do grupo conjugal. Por exemplo, muitas vezes as mulheres
adquirem o estatuto de porta-voz do casal para a gestão dos chamados cotidianos,
ou seja, reconhece-se à mulher uma competência para lidar com as chamadas
telefônicas. A introdução da dimensão estatutária na prática telefônica permite
que o casal legitime certas comunicações telefônicas, que não mais se tornam obje-
to de conflitos (por exemplo, telefonar aos amigos para organizar um jantar, en-
contrar uma babá etc.).
Não resta dúvida de que o telefone, objeto do cotidiano, pode servir como ins-
trumento de análise das relações do casal. Muito freqüentemente, a campainha do
telefone é conveniente para todos na medida em que o isolamento é necessário no
interior do próprio casal.

R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1993.
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Goffman, E. La mise en scène de la vie quotidienne. Paris, Minuit, 1973. t. 1 e 2.
———. Les cadres de l’expérience [1974]. Paris, Minuit, 1991.
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———. Sociologie du couple. Paris, PUF, 1993. (Coll. Que Sais-Je?)
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———. Habitat et relations familiales. Paris, Plan Construction et Architecture, 1998.

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CAPÍTULO 10

O parentesco por aliança, um


parentesco desejado? Formas e conteúdos
das relações entre noras e sogros na
sociedade francesa contemporânea*
CLOTILDE LEMARCHANT

EM U M C O N T E X T O N O Q UA L O S PA P É I S E S TAT U T Á R I O S declinam nas


relações familiares em benefício da dimensão afetiva (e até mesmo da dimensão
eletiva), pode-se perguntar que lugar e que formas assume hoje em dia a relação com
os parentes por aliança (chamados igualmente de parentes por afinidade), ou seja, a
família de origem do cônjuge. Com efeito, as percepções e as modalidades de orga-
nização dessa relação atestam a tensão entre a dimensão obrigatória de uma relação
intrafamiliar e as reivindicações baseadas em uma autonomia com relação a estas
últimas. Será que existe um esforço para modelar uma relação incontornável (por
razões conjugais que teremos de explicitar) do ponto de vista afetivo, atribuindo
uma dimensão sentimental a essa relação, de início obrigatória? Ou então há um
cuidado em manter tal relação a distância, limitando seu conteúdo a algumas trocas
sem maiores exigências? Como se traduz, em termos de recomposição/construção
identitária, a tensão entre estes dois pólos: o respeito da autonomia e a expressão de
uma ligação coletiva ao ambiente familiar, no que se refere às trocas por afinidade?
Este texto se apóia em uma série de pesquisas em profundidade, realizadas entre
1987 e 1999, junto a 92 mulheres de idades e categorias sociais diversificadas, viven-

*
Tradução de Angela Xavier de Brito.

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168 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

do em meio urbano ou rural no noroeste da França. Todas foram entrevistadas em


sua condição de noras. Vem-se ainda acrescentar uma pesquisa feita em 1994 junto
aos sogros no Finistère (Bretanha).

OS LIMITES IMPOSTOS AO INDIVIDUALISMO E À SUA EXPRESSÃO

O funcionamento da relação noras/sogros contradiz alguns princípios de nossa


sociedade e certas normas da família contemporânea, sobretudo aquelas que privi-
legiam a autonomia, o indivíduo como um valor e a livre escolha de suas relações.

Uma relação obrigatória


“A lógica da escolha, da eleição, da liberdade, da gratuidade, que governa
oficialmente as relações afetivas entre homens e mulheres no seio do casal se esten-
de, sob modalidades específicas, às demais relações de família (...).”1 Ao contrá-
rio, a relação por afinidade é uma relação obrigatória, quer dizer, inevitável, inelu-
tável, forçosa. A relação com os sogros é particularmente concebida como a mais
inevitável delas; as trocas com os irmãos e irmãs do marido, ou do cônjuge em
geral, revestem-se de uma dimensão eletiva – privilegiam-se os laços com as pesso-
as com as quais nos entendemos melhor.
Esse caráter obrigatório obedece tanto a razões conjugais quanto a razões filiais.
A partir dos trabalhos de L. Roussel e O. Bourguignon (1976), sabe-se que a vida de
casal não substitui as relações filiais. A formação de um casal não acarreta a ruptura
dos laços com os pais, mesmo que em um primeiro momento os laços se afrouxem
e a freqüência das visitas diminua. Essas trocas são particularmente reativadas no
momento do nascimento do primeiro filho. Cada membro do casal recém-consti-
tuído, casado ou não, deseja manter relações com seus pais e, consciente da sime-
tria da situação, se esforça em encontrar os pais do outro cônjuge. “Isso fazia parte
dos movimentos que um e outro tínhamos que fazer”, diz a sra. Géhenne. Tal idéia
se impõe tão logo o casal resolve morar junto. Essa obrigação de compromisso em
uma relação por afinidade é durável e cria sua própria regularidade.
Logo de início, os sogros são visitados com assiduidade: as relações são em mé-
dia bastante densas e regulares. O ritmo mais comum é uma visita a cada oito ou 15
dias, conforme a proximidade de residência entre o casal mais antigo e o mais
recente – sendo as visitas à família da mulher mais freqüentes, como mostram outras
pesquisas (C. Gokalp).
Quando as noras vão à casa dos sogros, em geral efetuam um movimento mais
familiar do que pessoal: é como esposas e mães que elas vão visitar seus parentes por

1
Singly, 1993.

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Clotilde Lemarchant 169

afinidade, acompanhadas do marido e do(s) filho(s). Raras são as que passam um


período sozinhas na casa dos sogros: estes casos só se referem às relações que se torna-
ram eletivas ou quando uma nora é o principal apoio dos sogros velhos e dependentes.
O caráter obrigatório dessa relação, pelo menos no início, fere a valorização da
autonomia e a ética do mérito, dominantes em nossa sociedade.2 Talvez isso seja
uma explicação para a má reputação dessa relação que nos coloca diante de nossas
contradições.

Das referências ao estatuto


Essas relações por aliança são em parte regidas por aspectos estatutários e pelas
referências à posição ocupada por um indivíduo dentro do sistema familiar.

A escolha de uma maneira para chamá-los


A escolha de uma maneira de se dirigir aos sogros é um bom indicador. Os nomes
que lhes são atribuídos se resumem, em sua grande maioria, aos seguintes termos da
escolha: evitar dizer “meu sogro” ou “minha sogra”, “mamãe, papai” ou ainda “se-
nhor, senhora”, “papy, mamy”, ou chamá-los pelo primeiro nome. O emprego de um
termo declinando claramente a relação por aliança (“minha sogra”) é com freqüência
rejeitado e percebido como fora de moda. Tal constatação deixa entrever uma vontade
normalmente partilhada de tornar a relação por afinidade o mais discreta possível.
Pode parecer surpreendente que o evitamento seja uma escolha quanto à forma
de nomeá-los. Mas esse caso, bastante difundido, é por vezes reivindicado, na
falta de uma outra solução satisfatória. A dificuldade em dar um nome provém da
inexistência ou da recusa de um termo específico da afinidade.

Não sei mais como é que eu os chamava antes. Eu me pergunto mesmo se os chamava –
diz a sra. Gallet.

Eu fazia de conta que não precisava chamá-los de longe, lembra-se a sra. Lebreton.
Antes, eu não lhes dava um nome (risos), tentava tratá-los de “vós”,3 tentava encontrar
uma fórmula que fosse bem aceita.

Para pôr um termo a essa situação inconfortável, a maioria das mulheres aprovei-
ta a oportunidade do nascimento de um primeiro neto(a). De fato, a escolha mais
comum recai sobre “vovô, vovó” (ou “vô” e “vó” etc.), ou seja, uma grande parte das

2
Gotman, 1988.
3
Este “vós” refere-se ao emprego da segunda pessoa do plural, muito comum na França nas relações mais
formais. Não confundir com “vós” (diminutivo de “avós”), que pode aparecer mais adiante neste texto.

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mulheres adota, para chamar os sogros, o nome que seus filhos lhes dão. Elas se
situam assim com relação a seus filhos, “ela é a avó de todos os meninos, daí a gente
a chama de ‘vó’”. Os sogros são antes de tudo percebidos como avós. A vinda de um
filho representa, com freqüência, uma solução para o problema de como chamá-los.
Antes, as pessoas não sabiam que nome atribuir-lhes e se fechavam em uma situação
inconfortável de evitamento. O filho também torna a relação por aliança menos
direta, menos prioritária. Ainda que essa escolha do termo de nomeação, freqüente-
mente associado ao tratamento na segunda pessoa do plural, se refira maciçamente
às noras mais velhas, ele também está em voga entre as noras da nova geração, que
resistem por vezes às propostas que são feitas de chamar os parentes por afinidade
pelo primeiro nome ou de “você”.

A primazia do estatuto de filha sobre o de nora


Entre algumas pessoas entrevistadas, os avós paternos cuidam de seus filhos e
elas se mostram bastante satisfeitas. Ao contrário, mais de um quarto das pessoas da
amostra que têm filhos nunca os confiou aos sogros. Deixar as crianças na casa dos
sogros pode depender de vários fatores: a disponibilidade deles (menor quando eles
trabalham ou tomam conta de outras crianças do que quando estão aposentados),
sua idade e seu estado de saúde, a proximidade das relações entre eles e a nora e,
enfim, a proximidade das relações entre a nora e sua própria mãe (a distância geo-
gráfica que as separa ou a boa ou má relação entre elas). Porque se, em teoria, as
noras se esforçam em equilibrar o número de vezes em que deixam as crianças na
casa de uma ou de outra, na prática existe uma preferência pela mãe da nora. Isso
corrobora fatos já constatados.4 Uma mulher sempre está mais disponível para sua
filha do que para sua nora, ou então é mais solicitada por uma do que por outra.
Apesar de se sentir bem mais próxima de sua sogra do que de sua mãe em todos
os sentidos do termo, a sra. Larbier prefere confiar seus filhos à sua mãe cada vez que
tem de se separar deles: “Eu achava que sentiria menos falta deles se estivessem na
casa de minha mãe”.
Essas trocas entre parentes por afinidade encaradas a partir da perspectiva femi-
nina conhecem uma tensão entre duas lógicas que se afrontam:
• por um lado, a vontade de privilegiar o ponto de vista conjugal e de pôr as
duas famílias em um plano de igualdade. O casal constrói assim um princí-
pio de equivalência e procura agir de modo simétrico com relação aos dois
tipos de parentes. “A gente tenta equilibrar (risos). Eu tenho prazer em estar
com eles tanto quanto com meus pais. Não há nenhuma diferença” – diz a
sra. Boismartel. No entanto, é preciso notar que essas reivindicações de

4
Schwartz, 1990; Chabaud-Rychter, Fougeyrollas & Sonthonnax, 1985; Pitrou, 1992.

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simetria e de igualdade são essencialmente válidas para os aspectos mais


formais das relações (anúncio de um nascimento futuro, dádiva de presen-
tes, convite para uma festa familiar etc.);
• por outro, a tendência individual que visa a promover o ponto de vista filial
contra o do cônjuge faz com que cada um expresse sua preferência pela
família de origem. Nesse sentido, é reveladora a reflexão da sra. Valence,
casada há 20 anos e bastante satisfeita com as relações com os sogros. “Mes-
mo que diga que em geral minha sogra se comporta comigo como uma mãe,
é inútil, ela não é minha mãe…” Tal tendência, mais feminina, pode ser
interpretada de duas maneiras: seja por um efeito de feminização das tare-
fas domésticas e educativas que favorece as trocas entre mãe e filha através
da socialização nessas tarefas; seja em termos de luta pelo poder doméstico
entre os cônjuges.5 As mulheres consideram que uma contrapartida do “sa-
crifício” de suas carreiras seria manter um sutil privilégio em suas trocas
com a família de origem.

Os efeitos da distância social


As relações por afinidade funcionam segundo as forças sociais clássicas definidas
pela sociologia. Dessa forma, as distâncias sociais entre as duas famílias de origem
afetam a natureza das relações por afinidade. A semelhança entre a origem social dos
cônjuges é observada e vivida por todos como um fator de simplificação das relações.
Ao contrário, as diferenças sociais tornam freqüentemente caóticos os primeiros en-
contros e dificultam o estabelecimento das relações. Citemos o exemplo da sra. Cavenec,
advogada, cujos pais (o pai é executivo de uma empresa, a mãe funcionária dos
Correios) só aceitaram seu marido, que era apenas “técnico em construção” (e filho de
empregados subalternos), a partir do momento em que ele retomou os estudos de
arquitetura. Tendo investido grandemente na escolaridade da única filha, eles espera-
vam reforçar seu sucesso escolar através de um casamento socialmente valorizador e,
durante anos, recusaram receber em casa o companheiro da filha.
A srta. Guillen, noiva de um futuro engenheiro, filho de um grande presidente
de empresa pertencente à alta burguesia, está preparando seu casamento. O primei-
ro encontro com os futuros sogros foi visto por ela como “um teste”, sublinhado pela
“pergunta crucial” da sogra: “Mas o que faz seu pai?” Desde essa data, cada vez que
deve viajar até a casa deles, ela somatiza e cai doente, a ponto de ter de ficar na cama
durante toda sua estada. Ela se mantém vaga a respeito da profissão do pai, que é um
simples empregado de uma firma, e se confessa “bastante encantada de entrar para
esta família”, citando as reticências que tem de afrontar, seja por parte de seus pais,

5
Singly, 1976.

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complexados do seu meio social, seja por parte de seus sogros, principalmente da
sogra, que se considera o esteio da reprodução familiar. A sra. Julien, 28 anos,
casada há seis anos, não se entende com a sogra. “Ela não tornou a situação mais
fácil para mim… e continua a agir assim, mesmo agora.” Casada com um farmacêu-
tico, a sogra fez de tudo para separar o filho da nora.

Acontece que ela era secretária de direção e estava habituada a encontrar pessoas
importantes, até mesmo nobres e tudo o mais. Eu sou de meio operário, o que já cria
uma barreira.

A sra. Amand, agricultora de 33 anos, sente necessidade de escrever um diário,


tantos foram os problemas que teve de enfrentar com a família do marido, em sua
vida de mulher casada.

Minha sogra, era bem isso… Uma boa situação, enfim, alguma coisa que pudesse repre-
sentar algo, viu? Era sobretudo isso, ela se orientava sobretudo pelo cheiro.

Esses exemplos extraídos dos meios sociais mais variados mostram quanto os
pais continuam a exercer um poderoso papel de esteios da ordem e da reprodução
sociais no seio das famílias, prejudicando o princípio da livre escolha do cônjuge
pelo(a) filho(a) adulto(a).

A VALORIZAÇÃO DAS INOVAÇÕES

Paralelamente, o funcionamento das relações por afinidade integra inovações con-


temporâneas e alguns grandes movimentos que já foram observados em outras situa-
ções. Estes dois aspectos, a ligação com os parentes por afinidade e a expressão da
autonomia, ou ainda tradição/inovação, só foram separados para fins de demonstra-
ção. Na verdade, eles se entrecruzam como as duas faces de uma mesma realidade.

Rejeição às formalidades, ao formal


Uma primeira mudança, já descrita em outros trabalhos, refere-se à distância que
as pessoas mais jovens mantêm com relação às formalidades. Da mesma forma que a
entrada na vida adulta passa por uma “fase moratória”,6 a entrada na vida de casal se
faz progressivamente, “pouco a pouco” (J. C. Kaufmann).
De fato, as relações por afinidade são também formas sociais, de contornos não
muito nítidos e de práticas menos ritualizadas. Assim, o primeiro encontro com os

6
Galland & Lemel, 1998.

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Clotilde Lemarchant 173

sogros tornou-se algo de menor importância, dominado pela recusa do protocolo ou


mesmo negando-o: “Não houve nenhuma apresentação formal”, afirma a sra. Charas.
No entanto, o encontro com os sogros permanece ainda incontornável e aconte-
ce bem cedo, alguns meses após conhecer o cônjuge. A data e o lugar do encontro
com os sogros permanecem os mesmos da geração precedente. Os fatos mudaram
menos do que o significado atribuído a esse acontecimento. Os discursos atuais
reivindicam a flexibilidade, pregam a discrição, rejeitam os rituais, tanto do lado do
genro e/ou da nora, quanto do lado dos sogros.
A recusa às formalidades pode ser vista como um distanciamento em relação ao
casal ou à geração precedente. Ela pode significar uma preocupação em se diferen-
ciar dos pais, representativa das classes que têm um nível cultural e econômico
relativamente elevado,7 ou atestar que os jovens só se engajam em uma vida de casal
progressivamente. Reivindica-se a liberdade, inclusive a de romper relações mesmo
quando o cônjuge acaba de ser apresentado aos pais.
Não obstante, o encontro com os sogros continua a exercer uma forte impressão
tanto nos protagonistas atuais quanto nas gerações anteriores. “Eu me colava às
paredes”, lembra a sra. Jasmin, de 33 anos. “Eu não tinha conseguido comer nada
no almoço, antes de ir lá”, atesta a sra. Roseland, de 28 anos. As pessoas temem
esses episódios, muitas vezes marcados por mal-entendidos, tal é a ansiedade de
parte a parte.

Personalização das relações


O fato de as relações por aliança serem originariamente relações obrigatórias não
impede que, às vezes, elas se personalizem, como as famílias que se reúnem em volta
da mesa para juntos encontrar uma forma de nomeação apropriada, um diminutivo
carinhoso e até exclusivo ou pelo menos pouco usado e diferente do tradicional
“vovô, vovó”.
Com o passar dos anos, quando os protagonistas se conhecem melhor, as rela-
ções podem vir a ter uma dimensão afetiva. Falar do passado, comentar velhas foto-
grafias ou velhos objetos que evocam lembranças comuns, confiar suas preocupações
de estudante, de jovem mãe ou de jovem profissional, constituem ocasiões de reve-
lação de seu caráter e de descoberta da personalidade do(a) interlocutor(a). As con-
versas assumem, às vezes, a forma de confidências.
Até mesmo os conflitos, quando existem, são interpretados em termos pessoais:
as palavras ferinas de uma mulher impulsiva, uma sogra com tendência à depressão,
um sogro autoritário… A sra. Guillen analisa as resistências da sogra ao seu casa-
mento interpretando de forma psicológica as causas das tensões (“uma reação de
mãe possessiva”).

7
Pitrou, 1992.

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Em definitivo, cada um inventa a “boa distância” em função de suas vantagens e


de suas obrigações, ou dos desejos de reserva ou de proximidade das duas partes.

Limitação da dependência para com a geração anterior


Hoje em dia, pode-se constatar que os jovens casais desejam ser menos depen-
dentes da geração anterior. O apoio mútuo entre as gerações existe e é valorizado,
mas sob a condição de permanecer discreto e limitado. Por exemplo, apreciam-se os
avós para vez por outra tomarem conta das crianças, mas para guardá-las regular-
mente, prefere-se uma terceira pessoa ou uma instituição especializada na infância.
Ainda aqui, as vantagens culturais e econômicas determinam a capacidade das noras
em ajustar seus desejos e suas práticas (e vice-versa).
No contexto das relações de dependência para com os parentes por afinidade,
há diferenças entre as noras mais jovens e as mais velhas. Constata-se entre as mais
novas uma menor dissimetria nas relações com os sogros do que entre as noras mais
velhas. Entende-se aqui por dissimetria o respeito concedido aos sogros em função
da idade e de sua posição de pais. Hoje em dia, as relações de parentesco por
afinidade podem ser marcadas desde o início por relações simétricas e igualitárias.
Existem, com efeito, formas de interdependência entre as mulheres em função
de uma socialização recíproca. Assim, em certos casos, a sogra representa um mode-
lo (ou contramodelo) da mulher que a nora quer se tornar. A relação entre sogra e
nora passa por vezes por um processo de identificação. Ao contrário, a nora pode
simbolizar as formas de ser jovem que a sogra gostaria de interiorizar, numa época
em que se valoriza a juventude. Em outras palavras, tanto a nora quanto a filha
podem ajudar a sogra a “permanecer jovem”, orientando, por exemplo, seus gostos
em matéria de roupas, incitando-a a seguir cursos de ginástica.
No entanto, a constatação de uma aparente autonomia das jovens gerações com
relação às gerações anteriores deve ser matizada. Podem ser questionados os efeitos
que os métodos de pedagogia liberal produziram: muitos jovens adultos se benefi-
ciaram desse tipo de educação em sua família de origem. Teria isso feito deles
adultos mais liberados dos seus pais? A invisibilidade dos laços criados por essa
forma de pedagogia não os tornaria, ao contrário, mais fortes, correndo o risco de
desvalorizar o novo casal?

C ONCLUSÃO

Seria talvez melhor falar de tensão entre dependência e autonomia do que de


individualização e observar quais são as condições de funcionamento da
(in)dependência. Trata-se de mostrar as improvisações contemporâneas e as manei-
ras pelas quais os indivíduos utilizam (ou se escondem atrás de) as tradições para se

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Clotilde Lemarchant 175

afirmar enquanto indivíduos. A ajuda mútua financeira e as formas de tomar conta


dos filhos constituem bons exemplos disso.
Várias trocas de serviços circulam entre noras e sogros, em função do desejo de
ajudar o filho e sua família. A priori, o casal recebe ajuda indiferentemente dos pais
de um ou do outro cônjuge. Isso é mesmo uma condição para que a ajuda dos sogros
seja bem recebida pelas noras – aliada a um certo pragmatismo. O sentimento de
dívida e de reconhecimento com relação aos parentes por afinidade é rebatido pela
dádiva equivalente feita por seus pais.
Além disso, as mulheres reintroduzem a noção de transmissão, considerando
que o dinheiro recebido é especialmente destinado às crianças, ao conjunto da
família, e que, de todo modo, elas farão as mesmas dádivas a seus filhos quando eles
se tornarem adultos. Assim, a transmissão dos presentes se faz prioritariamente por
gerações alternadas, dos avós aos netos(as), sobretudo nas famílias numerosas.
A ajuda doméstica, centrada principalmente no fato de tomar conta das crian-
ças, reativa as trocas entre as mulheres. A chegada dos netos intensifica as relações,
sobretudo entre noras e sogras, e exerce o papel de revelador (acentuando as causas
preexistentes de discórdia ou os fatores de bom entendimento). A tradição feminina
de reunir-se em torno das crianças não impede as noras de se afirmarem junto aos
seus parentes por afinidade quando se tornam mães. A legitimidade atribuída por
esse estatuto as torna mais fortes e, uma vez que elas o detêm, hesitam menos em
afirmar seus gostos, seus desejos e seus desacordos, mesmo aqueles que ultrapassam
as questões relacionadas às crianças.

R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Déchaux, J. H. Dynamique de la famille: entre individualisme et appartenance. In: Galland,


O. & Lemel, Y. (dirs.). La nouvelle société française; trente années de mutations. Paris, Armand
Colin, 1998.
Chabaud-Rychter, D.; Fougeyrollas, D. & Sonthonnax, D. Espace et temps du travail domesti-
que. Paris, Librairie des Méridiens, 1985.
Gotman, A. Hériter. Paris, PUF, 1988.
Lemarchant, C. Belles-filles. Avec les beaux-parents, trouver la bonne distance. Rennes, PUR,
1999.
Pitrou, A. Les solidarités familiales. Vivre sans famille? [1978]. Toulouse, Privat, 1992.
Roussel, L. & Bourguignon, O. La famille après le mariage des enfants. Cahiers de l’Ined.
Paris, PUF, Ined, 1976. (Travaux et Documents.)
Schwartz, O. Le monde privé des ouvriers. Paris, PUF. 1990.
Singly, F. de. La lutte conjugale pour le pouvoir domestique. Revue Française de Sociologie,
17, 1976.
———. Sociologie de la famille contemporaine. Paris, Nathan, 1993.

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CAPÍTULO 11

Irmãos na idade adulta: um laço


de parentesco por afinidade?*
JEAN-HUGUES DÉCHAUX

SEM T E R S I D O E S P E C I A L M E N T E E S T U D A D A , em geral a relação entre irmãos


é considerada um tipo de laço de parentesco moderno. Supõe-se que o elo que une
os irmãos de idade adulta seja intenso e solidário, principalmente no plano emocio-
nal. Entretanto, ele também é marcado por um elevado grau de autonomia, de esco-
lha e de igualdade. Mais do que o laço de filiação direto, que é mais rígido e mais
hierárquico, a relação entre irmãos estaria em sintonia com as orientações culturais da
sociedade moderna, impregnadas de individualismo. Em suma, a “modernidade”
do laço de parentesco entre irmãos se oporia ao “saudosismo” do laço de filiação,
como mostrou o artigo pioneiro dos etnólogos Cumming e Schneider, com base em
uma pesquisa realizada em Kansas City (Missouri) e publicada em 1961.
Haveria assim entre a relação mantida pelos irmãos, por um lado, e o individua-
lismo, por outro, uma “relação de adequação”, para usar uma expressão familiar aos
sociólogos. Seria de esperar então que a relação entre os irmãos fosse fortemente
baseada em uma “afinidade”, cujo modo de regulação coincidiria com a lógica
relacional evidenciada pela tese da individualização das relações familiares, pelo
menos em sua versão unidimensional e simplificada.1 A essa regulação por afinidade

*
Tradução de Angela Xavier de Brito.
1
Para uma crítica da unidimensionalidade das teses do individualismo familiar, ver Déchaux (1999).

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se oporia a regulação estatutária que emana dos direitos e deveres ligados aos papéis
e às posições, particularmente ausentes na relação entre irmãos.
Essa hipótese será testada aqui, a partir da pesquisa sobre “Redes de parentesco e
ajuda mútua” realizada pelo Insee,2 em outubro de 1997, a partir de uma amostra de 8
mil domicílios.3 Este texto retoma apenas um aspecto do trabalho realizado em colabo-
ração com Crenner e Herpin4 e consagrado à análise dos laços entre irmãos na socieda-
de francesa contemporânea, a partir do estudo da freqüência de seus encontros.
Apesar da tendência ao estreitamento colateral da rede de parentesco, conseqüên-
cia da queda contínua da fecundidade nos últimos 30 anos, a existência, na idade
adulta, de um irmão que não vive no mesmo domicílio ainda é bastante comum hoje
em dia. Entre os indivíduos de mais de 15 anos, 74% possuem ao menos um irmão ou
uma irmã adulta vivendo fora do domicílio estudado e essa proporção ultrapassa os
84% na faixa etária de 25 a 59 anos.5 A média de dois irmãos fora do domicílio oculta
uma grande dispersão: uma entre cada quatro pessoas não tem nenhum irmão e um
quinto delas tem mais de três.

D EBILIDADE DAS OBRIGAÇÕES ESTATUTÁRIAS

O caráter pouco normativo do laço entre irmãos é atestado por dois conjuntos
de fatos. Por um lado, constata-se uma grande variabilidade do número de encon-
tros entre eles, segundo a situação familiar e social dos indivíduos. Por outro lado,
os encontros entre irmãos são tanto mais freqüentes quanto maior é o período de
vida em comum no qual se criam as afinidades, com exceção das fratrias de dois
irmãos, em que a relação parece obedecer a normas mais estritas.

Grande variabilidade das relações


No conjunto, os irmãos se freqüentam menos do que os outros parentes con-
sangüíneos primários: a freqüência de seus encontros varia em torno de 35 por
ano, contra 86 dos encontros com a mãe, 85 com os filhos e 69 com o pai. Mas esse
resultado médio não tem grande sentido, pois os encontros são muito variáveis
entre os indivíduos. Os escores de freqüentação são de fato muito dispersos: 15%
dos indivíduos não encontraram seu(s) irmão(s) no último ano e 10% o(s) encon-
traram uma vez por semana. À primeira vista, essa dispersão confirma o caráter
pouco normativo do laço entre irmãos, no duplo sentido estatístico e sociológico

2
Insee (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos).
3
As tabelas da pesquisa serão apresentadas no fim do texto.
4
Crenner, Déchaux & Herpin (2000), artigo a ser publicado na Revue Française de Sociologie.
5
Crenner, 1998.

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do termo.6 De fato, a ausência de qualquer contato entre os irmãos (15%) é bem


superior à ausência de contatos com a mãe (6%) ou com o pai (8%). Isso indica que
os indivíduos se sentem menos obrigados a manter contato com seus colaterais
mais próximos (os irmãos), o que não é o caso da filiação direta.
Assim, as relações entre irmãos assumem, em sua maioria, o caráter que os indi-
víduos decidem lhes atribuir.7 Essa variabilidade particularmente forte das relações
entre irmãos amplia uma tendência comum característica dos laços ocidentais mo-
dernos de parentesco e já sublinhada várias vezes por pesquisas anteriores:8 quando
comparadas às relações com o pai, com a mãe ou com os filhos adultos, as obriga-
ções estatutárias (de contato ou de apoio) entre irmãos são bem menos afirmadas e as
relações entre eles, mais variáveis, são também mais arbitrárias, ou seja, mais regidas
pela escolha e pelo interesse.
A influência da distância geográfica na freqüência dos encontros entre irmãos é
muito grande (tabela 1), mais forte ainda do que nos encontros com o pai e com a
mãe. Tal constatação reforça os resultados das pesquisas anteriores realizadas na
França9 e nos Estados Unido,10 bem como corrobora a hipótese do fraco
enquadramento normativo das relações entre irmãos: o esforço para se deslocar é
menor quando a norma de freqüentação não é muito rígida ou quando ela não
acarreta sanções reais.11
As famílias numerosas são naturalmente consideradas mais unidas do que as ou-
tras. Isso não é verdade no que se refere às relações entre irmãos. A freqüência dos
encontros diminui regularmente conforme o tamanho da fratria (tabela 2): o número
de encontros nas fratrias compostas de dois irmãos é de 46, contra somente 28 nas
fratrias compostas de cinco ou mais pessoas. Isso significa que a freqüência dos en-
contros com cada um dos irmãos declina ainda mais fortemente. A hipótese, alterna-
tiva à precedente, de que existiria um tempo relativamente estável e, em conseqüên-
cia, uma freqüência de encontros constantes segundo o tamanho da fratria também

6
O caráter fracamente normatizado da relação entre irmãos envolve duas acepções. Em primeiro lugar, ele
emana de uma simples constatação estatística: a ausência de regularidades verificadas, ou seja, a dispersão
dos escores de freqüências; em segundo, ele permite a introdução da hipótese de um fraco enquadramento
normativo do laço entre irmãos: se as condutas individuais são tão variáveis, é provavel que as regras (ou
normas, no sentido sociológico do termo) que as regem são, senão inexistentes, pelo menos pouco rígidas.
7
Cumming & Schneider, 1961.
8
Adams, 1968; Firth, Hubert & Forge, 1969; Allan, 1977.
9
Gokalp, 1978.
10
Lee, Mancini & Maxwell, 1990; White & Riedmann, 1992.
11
O termo aqui empregado não se refere às sanções jurídicas, mas às sanções sociais do grupo de
parentesco, como, por exemplo, a condenação moral ou ostracismo do parente que se julga muito distante
de seus irmãos. Se existem sanções dessa natureza, com relação ao laço que liga pai e mãe aos filhos adultos
(cf. sobretudo Finch, 1989), elas estão manifestamente ausentes no contexto do laço entre irmãos.

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não foi verificada.12 Esse resultado, posto em evidência por Lee et alii (1990), prova
que as famílias numerosas não têm o poder de reforçar as obrigações estatutárias entre
os irmãos: as relações no seio da fratria são ainda menos sujeitas às normas do que as
demais, chegando ao ponto de que muitos irmãos não as cumprem.
As variações segundo a categoria social13 e o nível de instrução obedecem às
variações comuns ao conjunto das relações de parentesco: de um lado, o convívio
entre os irmãos evolui em razão inversa da hierarquia social, tendo os agricultores
os mesmos escores que os operários (tabela 3); de outro lado, pelo nível de instru-
ção, situando-se no mesmo nível tanto o bac14 como os diplomas inferiores a ele
(tabela 4). Do ponto de vista das variáveis que apreendem a posição social num
sentido amplo (socioprofissional, econômico e cultural), as relações entre irmãos
não se diferenciam dos outros tipos de laços de parentesco, sobretudo o de filiação
direta (pai e mãe/filhos adultos). Poder-se-ia crer que, sendo regido mais pela afini-
dade do que pelo estatuto, ou seja, estando mais próximo do arquétipo do laço
eletivo particularmente valorizado pelas categorias médias e superiores,15 o laço de
fraternidade fosse mais bem avaliado nesses meios. Os resultados de nossa pesquisa
invalidam essa hipótese. Como mostraram Coenen-Huther, Kellerhals e von Allmen
(1994:157-60), no que se refere às relações de ajuda mútua, a débil normatividade
dos laços de fraternidade é um dado geral do sistema de parentesco ocidental que
transcende as diferenças de categorias sociais.

As fratrias numerosas são mais afetadas pelo período de vida em comum


A freqüentação entre irmãos está naturalmente condicionada pela duração da vida
comum (tabela 2): a freqüência dos encontros aumenta paralelamente ao tempo de
vida em comum. Quando esse período ultrapassa 20 anos, o convívio é sempre supe-
rior e isso em todas as idades, mesmo no caso das pessoas com mais de 60 anos. Isso
parece indicar que, quando os irmãos tiveram 20 anos de vida em comum, há um
verdadeiro “salto qualitativo” na relação: esse longo período os teria marcado tão

12
Com a ressalva de que a equivalência que estabelecemos entre a freqüência dos encontros (que podemos
medir) e o tempo consagrado a tais encontros (que não podemos medir e que pode ser extremamente
variável) é uma aproximação. Cf. anexo.
13
N. do T.: as categorias sociais na França são classificadas por um código intitulado “profissões e categorias
sociais” (PCS), cujas divisões nem sempre podem ser traduzidas para o português, por não corresponderem
às classificações brasileiras. Por essa razão (sobretudo nas tabelas), deixamos algumas expressões em francês,
como, por exemplo, cadre, que designa os executivos do setor privado, os cargos superiores da função
pública, mas também os professores secundários e universitários e os profissionais liberais.
14
N. do T.: abreviação de baccalauréat, exame final do curso secundário que permite o acesso à universida-
de, mas por si só já constitui um diploma.
15
Bidart, 1997:244-6.

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Jean-Hugues Déchaux 181

fortemente que o tempo de separação – saída de casa – não anularia os efeitos do


período de não-coabitação. O fato de terem atravessado juntos as experiências que as
crianças vivem na infância torna os irmãos e as irmãs mais “próximos”, mais sensíveis
à diferença de pontos de vista entre uns e outros, mais aptos a prever as reações
mútuas, a aceitar sugestões e críticas. Compreende-se assim por que um longo período
de vida em comum durante a infância acarreta relações mais estreitas entre os irmãos.
No entanto, o corte estabelecido a partir dos 20 anos de vida em comum só afeta
as fratrias numerosas, ou seja, as que contam com pelo menos três irmãos. As fratrias
de dois irmãos são menos afetadas pela duração do período de vida em comum,
exceto quando esse é curto (menos de 15 anos) ou muito curto (menos de 10 anos):
nesse caso, o corte se situa nos 15 anos de vida em comum. A partir de 15 anos de
vida em comum, os irmãos se freqüentam muito mais nas fratrias de dois irmãos do
que nas fratrias maiores (tabela 2).
Assim, o limite de 20 anos de vida em comum diferencia os irmãos criados no seio
de uma família numerosa, mas não tem efeito sobre as fratrias de dois irmãos, em que
se convive com o irmão ou a irmã ainda que a duração do período de vida em comum
seja mais curta, mas com a condição de que esse período não seja curto demais. A que
se deve essa tendência mais forte nas fratrias diádicas a manter relações assíduas
depois de deixar a casa paterna, ainda que a duração do período de vida em comum
tenha sido relativamente curto?
Podemos avançar uma explicação onde intervém o peso das normas estatutárias:
por vagas e pouco rígidas que sejam essas normas, é mais difícil de se subtrair à sua
influência quando os irmãos são apenas dois. Ao contrário, quando eles são pelo
menos três, a lógica da afinidade retoma mais facilmente seus direitos e o jogo das
preferências (de idade, de sexo ou de qualquer outra natureza) pode levar a que um
deles seja negligenciado, como é freqüentemente o caso do irmão do sexo oposto,
nas trincas mistas de irmãos. Firth et alii (1969) mostraram assim que o fato de ter
apenas um irmão (ou uma irmã) leva a que sejam mantidas boas relações com ele (ou
com ela), enquanto nas fratrias de pelo menos três irmãos as boas relações são mais
raras. Somente um longo período de vida em comum – de pelo menos 20 anos –
pode contrabalançar esse efeito centrífugo e unificar a fratria. Em outras palavras, a
regulação das relações entre irmãos nas fratrias numerosas afetaria de maneira mais
marcada a dimensão interpessoal da relação – e tudo aquilo que pode condicioná-la,
como o tempo de vida em comum – do que seus marcos normativos.

A REGULAÇÃO POR AFINIDADE É MAIS AFIRMADA ENTRE


OS HOMENS DO QUE ENTRE AS MULHERES

Se o resultado global de freqüentação não mostra nenhuma diferença entre ho-


mens e mulheres, o mesmo não acontece quando o centro do interesse, no processo de

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182 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

escolha dos irmãos que se freqüentam, são as preferências segundo o sexo ou o nível
de instrução. Parece que as relações das mulheres são mais indiferenciadas do que as
dos homens, sendo suas freqüentações menos condicionadas por suas preferências
pessoais. Assim, a regulação do laço entre irmãos é mais influenciada pela afinidade,
no caso dos homens, e, ao contrário, mais estatutário no caso das mulheres.

Homofilia de sexo: as mulheres são mais “imparciais” do que os homens


A homofilia de sexo pode ser avaliada em toda a população seja qual for a com-
posição das fratrias, ou unicamente para os indivíduos que pertencem a fratrias
mistas. O primeiro caso, em que o peso da composição da fratria é forte, será chama-
do de “homofilia bruta” e o segundo, de “homofilia pura”. Como se trata de captar
uma “preferência” em função do sexo entre os diferentes irmãos “possíveis”, a aná-
lise será aqui conduzida, de maneira geral, em termos da homofilia real, ou seja,
somente para os indivíduos que podem fazer uma escolha dentro da fratria.
Em geral, constata-se entre os sexos uma homofilia bruta tanto no caso dos homens
quanto no caso das mulheres. Homens e mulheres têm tendência a freqüentar de
maneira mais assídua os irmãos do mesmo sexo que eles. Essa homofilia é um pouco
mais marcada no caso dos homens – mais de oito encontros16 – contra mais de cinco
entre as mulheres (tabela 5). Quando se raciocina somente em função de uma escolha
possível, a homofilia real apresenta grosso modo as mesmas proporções, mas dessa vez
são as mulheres que manifestam uma tendência à homofilia um pouco mais marcada
(mais de sete encontros) do que os homens (mais de seis encontros) (tabela 5).
Essa homofilia de sexo, presente tanto entre os homens quanto entre as mulhe-
res, vai de encontro à tese clássica de cumplicidade entre as mulheres nas relações
de parentesco,17 confirmada por várias pesquisas norte-americanas,18 e aos resulta-
dos avançados pelas pesquisas recentes sobre a proximidade afetiva no seio da fratria.19
Se a freqüência dos encontros entre irmãos é o único critério adotado, somos
obrigados a reconhecer que há igualmente, no seio da fratria, uma cumplicidade
entre os irmãos de sexo masculino. Essa semelhança global entre homens e mulhe-
res dissimula diferenças reais segundo a idade. Observemos, em primeiro lugar, as
diferenças de distribuição quando a homofilia é medida de maneira bruta ou de
maneira real. A aproximação dos dois indicadores para os homens e para as mulhe-
res torna evidente uma certa analogia nas distribuições por idade, com duas exce-

16
Esse indicador mede a diferença entre o escore de freqüência dos encontros entre irmãos do mesmo sexo
e aqueles de sexo diferente.
17
Bott, 1957.
18
Lee et alii, 1990:436; White & Riedmann, 1992.
19
No caso das pesquisas de Coenen-Huther et alii (1994) e de Bonvalet et alii (1997), trata-se de medir a
ligação afetiva existente entre irmãos e não o grau de freqüência dos encontros entre eles.

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Jean-Hugues Déchaux 183

ções (tabela 7): para os jovens de sexo masculino (homens de menos de 30 anos),
passamos (ao medir a tendência à homofilia) de uma distância bruta negativa (me-
nos de dois encontros) a uma distância real positiva (mais de nove encontros); para
as mulheres idosas (de mais de 60 anos), passamos de uma distância bruta pouco
positiva (mais de um encontro) a uma distância real bastante positiva (mais de 12
encontros). Em outras palavras, para as duas categorias, a tendência à homofilia é
muito mais afirmada quando existe possibilidade de escolha no interior da fratria.
No caso dos jovens de sexo masculino, isso se explica, sem dúvida, por um efeito de
estrutura: como as jovens mulheres deixam a casa paterna mais cedo, é mais freqüen-
te que os homens de menos de 30 anos convivam mais com os irmãos do que com as
irmãs. A homofilia cresce, assim, quase mecanicamente. Mas, no que se refere às
mulheres de mais de 60 anos, a distância não parece ser explicada pelo efeito de
estrutura ligado à diferença de mortalidade entre os homens e as mulheres, porque,
ao contrário, a homofilia bruta das mulheres deveria aumentar. Devemos, então,
pensar na hipótese de que as mulheres idosas que não compõem uma fratria mista
têm um comportamento específico: a distância registrada parece indicar que as
mulheres idosas que têm um ou mais irmãos do sexo masculino os freqüentem assi-
duamente, contrabalançando, para toda a população, a preferência de homofilia
que se exprime quando é possível uma escolha no interior da fratria. Devemos então
supor que essas mulheres idosas se sentem particularmente responsáveis por seus
irmãos? Desde que exista mais de uma mulher em uma fratria mista, a tendência à
homofilia entre as irmãs seria restabelecida, pois o apoio dado ao(s) irmão(s) seria
compartilhado. Tal explicação corresponde aos resultados das monografias mais
antigas que mostravam que os homens idosos, solteiros ou viúvos, tinham tendência
a estar sob os cuidados de uma irmã.20
Comentemos agora o caso da homofilia real por idade entre os homens e as
mulheres. Ela é relativamente constante para os dois sexos: homens e mulheres, em
qualquer idade, apresentam uma tendência à homofilia. No entanto, a curva femini-
na forma um patamar nas idades intermediárias (30-59 anos) que não tem equivalen-
te na curva masculina (tabela 6). A tendência à homofilia das mulheres se manifesta
de maneira bastante forte antes dos 30 anos e depois dos 60 anos, sendo moderada
nas idades intermediárias. Em suma, a homofilia dos homens é menos afetada pela
idade ou pelo ciclo de vida, sendo assim mais estrutural, enquanto a das mulheres
tende a se concentrar nas mulheres mais jovens e nas mais idosas.
Como explicar essa diferença? Sabe-se que a responsabilidade da gestão das rela-
ções de parentesco cabe às mulheres:21 elas se sentem mais engajadas nesse trabalho
relacional do que os homens. Esse papel, que lhes é atribuído em função da organi-
zação familiar, as transforma em agentes de ligação que trabalham no sentido de

20
Townsend, 1977:123; Young & Willmott, 1983:106.
21
Finch, 1989; Coenen-Huther et alii, 1994:62.

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184 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

manter a unidade e a integração do grupo de parentesco, cujo espírito é bem tradu-


zido pela expressão kinkeeper, utilizada pelos sociólogos americanos para designar o
parente particularmente apto a incumbir-se dessa função.22
De maneira mais geral, entre os parentes consangüíneos, as mulheres se põem à
disposição do grupo para fazer circular a informação e coordenar as intervenções de
cada membro.23 É assim normal que elas não procurem estabelecer diferenças
marcadas entre os estatutos de cada um; entre os irmãos, isso é verdadeiro tanto para
sexo quanto para nível de instrução, como veremos mais abaixo. Da mesma forma, o
papel específico de kinkeeper é especialmente adotado pelas mulheres de idade in-
termediária, sobretudo as qüinquagenárias.24 Depois dessa idade, elas são substituí-
das por suas filhas ou suas irmãs menores. Mas, mesmo antes de assumir esse papel,
por volta dos 50 anos, as mulheres se sentem mais implicadas do que os homens no
trabalho relacional de intermediação e de coordenação. A clivagem surge quando
elas se casam e se afirmam com o nascimento dos filhos.25 Assim, não é uma surpre-
sa o fato de que a tendência à homofilia das mulheres se atenue a partir dos 30 anos
e seja retomada depois dos 60 anos.
Tais resultados diferentes para os homens e para as mulheres lançam luz sobre a
questão dos papéis nas relações de parentesco. A homofilia de sexo é uma tendência
geral de sociabilidade,26 provavelmente derivada do caráter sexualizado da sociali-
zação. Nas relações de parentesco, ele pode ser reforçado por normas particulares
que façam com que os indivíduos do mesmo sexo se freqüentem mais do que os de
sexo oposto, o que é o caso na relação mãe-filha. Mas, de maneira geral, a homofilia
(de sexo e, mais amplamente, de estatuto) é antes a manifestação de uma normaliza-
ção débil dos papéis nas relações de parentesco e de uma equiparação desses víncu-
los aos laços de amizade.27 Se, entre 30 e 60 anos, a homofilia de sexo se atenua para
as mulheres, é porque elas desempenham um papel especificamente familiar – o de
agente intermediário. Dessa forma, pareceria que as relações entre irmãos seriam
mais normativas para as mulheres do que para os homens e tenderiam a obedecer a
regras específicas que escapam às normas gerais de sociabilidade.

Homofilia por nível de instrução: um comportamento masculino


Constata-se uma leve tendência à homofilia no que se refere ao nível de instru-
ção: os irmãos que têm o mesmo nível de instrução são freqüentados com maior

22
Rosenthal, 1985.
23
Coenen-Huther et alii, 1994:137-8 e 142.
24
Ibid., p. 143.
25
Finch, 1989.
26
Héran, 1988.
27
Hoyt & Babchuk, 1983.

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Jean-Hugues Déchaux 185

assiduidade. Essa tendência à homofilia prejudica aqueles que têm níveis de instru-
ção inferiores aos da pessoa em questão (mais de sete encontros, contra mais de três,
em comparação com as pessoas que têm níveis de instrução superiores ao do entre-
vistado).
No entanto, a homofilia pela instrução é um comportamento exclusivamente
masculino. A clivagem entre homens e mulheres é espantosa: as mulheres não fazem
diferença quanto ao nível de instrução de seus irmãos, enquanto os homens estabe-
lecem um tratamento bastante diferenciado (tabela 8). Da mesma forma que em
relação às preferências sexuais, mas de maneira muito mais definida, as relações
entre irmãos, no caso das mulheres, são muito mais indiferenciadas, o que pode ser
explicado por seu papel de agente da intermediação: como a mulher trabalha para
reforçar a unidade e a integração do seu grupo de parentesco, não deve demonstrar
suas preferências, ainda que as tenha. Pode-se assim avançar uma explicação em
termos de papel sexualizado, em sua definição mais ampla. A socialização da mu-
lher a prepara menos do que os homens para a preocupação de rentabilizar seu
investimento escolar em um plano profissional, de maneira que sua percepção das
relações entre irmãos é menos afetada por esse prisma utilitarista.

C ONCLUSÃO

Dois conjuntos de observações servirão de conclusão a este texto: o primeiro, de


natureza empírica, o segundo, de natureza teórica. Retomemos as duas principais
lições desta pesquisa antes de confrontá-las com a tese da individualização das rela-
ções familiares.
A primeira lição confirma parcialmente a tese de Cumming e Schneider (1961).
A relação entre irmãos aparece efetivamente como uma relação cujas normas são
menos rígidas: os resultados da convivência são bastante variáveis segundo a situa-
ção familiar e social dos indivíduos. As relações entre irmãos parecem mais regula-
mentadas pela escolha e pelo interesse do que por obrigações estatutárias. Essa regulação
por afinidade é bastante adequada à imagem de uma relação ideal de igualdade.
A segunda lição se refere às diferenças de gênero. Ainda que um pouco débil no
conjunto, o grau de enquadramento normativo das relações entre irmãos não é o
mesmo segundo o sexo. Na verdade, as mulheres não freqüentam mais seus irmãos
do que os homens, mas suas relações são menos diferenciadas (no plano do sexo e
dos níveis de instrução). Se elas parecem mais “imparciais”, estabelecendo menos
diferenças no tratamento que reservam aos seus irmãos, isso não significa que não
tenham preferências mas, principalmente, que suas relações são menos condiciona-
das por suas escolhas pessoais do que as relações masculinas. É assim necessário
levantar a hipótese de que existe uma obrigação estatutária que as proíbe de ostentar
suas preferências, obrigação essa que está ligada ao papel de agente intermediário

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186 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

nas relações de parentesco, sobretudo entre os 30 e os 60 anos, quando o assumem


mais naturalmente do que os homens. Nossos resultados divergem neste ponto das
conclusões das pesquisas inglesas ou norte-americanas que insistem sobre as diferen-
ças de gênero, objetivando mostrar, em geral, uma maior implicação das mulheres
nas relações entre irmãos. Em nosso trabalho, a implicação das mulheres não é mais
intensa do que a dos homens, mas apresenta uma natureza diferente: mais normati-
zada, menos arbitrária.
Isso conduz a duas observações de natureza teórica.
Se as relações entre irmãos podem ser globalmente descritas como um laço de
parentesco fundado em relações de afinidade, elas não o são para todos e com o
mesmo grau. Em outras palavras, a regulação por afinidade não exclui a presença de
normas estatutárias que remetem a certas posições na estrutura de parentesco. Nossa
pesquisa assinala essa clivagem entre os homens e as mulheres, mas os resultados de
outras pesquisas são diferentes: por exemplo, Widmer (1999) sublinha, nas fratrias
de adolescentes, o papel específico do irmão mais velho, que ocupa um status de
mediador nas relações com o pai e com a mãe e retira disso um certo poder. Outros
resultados de pesquisas qualitativas28 mostram que as relações entre irmãos impli-
cam um dever de apoio e de solidariedade que remete à permanência do vínculo e
ao compartilhamento de uma memória comum:

É uma relação que existe sem que se precise ser ator; ela está aí, para a vida toda (…) de
toda maneira, ela existe, está implícita. É um sentimento forte que não precisa ser
expresso. A gente sabe que ela está aí e se apóia sobre ela. Não há necessidade de
mantê-la (mulher, 38 anos, quatro irmãos e irmãs).

Estamos assim tratando de uma relação em que a dimensão por afinidade e a


dimensão estatutária se conjugam, ainda que, mais do que para a relação de filiação,
as normas estatutárias definam um marco bastante vago e tenham pouco a ver com
prescrições culturais precisas e imperativas. Acontece que a presença de estatutos e
de normas ligadas a eles proíbe que as relações entre irmãos sejam reduzidas a uma
pura lógica relacional, isto é, a uma relação interpessoal organizada de maneira
negociada e reflexiva (reflexively organized, para utilizar a expressão de Giddens).
Apesar dessas reservas, poderíamos ser tentados a interpretar, como de Singly ou
Giddens na análise das relações de parentesco apresentada em seu livro The
transformation of intimacy (1992), essa fraca normatividade das relações entre irmãos
como uma conseqüência da afirmação do princípio de autonomia que tenderia a
gerir atualmente a vida familiar. É verdade que tais resultados são a priori compatí-
veis com essa visão dos fatos. Deve-se então ver essa fraca normatividade das relações

28
Pesquisas conduzidas pelos estudantes de licence e maîtrise (3o e 4o anos de graduação) de sociologia da
Université de Paris V, sob minha direção.

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Jean-Hugues Déchaux 187

entre irmãos como uma ilustração das transformações recentes da família, no senti-
do de uma maior individualização?
Não creio. Parece, ao contrário, que estamos aqui diante de propriedades da
relação entre irmãos já claramente observadas por pesquisas mais antigas. Por exem-
plo, em sua monografia de South Borough, em Londres, elaborada em 1947, Firth e
Djamour (1956:63) sublinhavam a ausência de obrigação moral nas relações entre
irmãos, ainda que muito intensas (do ponto de vista positivo ou negativo) no plano
afetivo. Todas as pesquisas posteriores realizadas em meio urbano confirmaram tal
observação. O que espanta é mais a permanência desse fenômeno durante cerca de
50 anos do que sua mudança.
Do meu ponto de vista, a fraca normatividade das relações entre irmãos é antes
uma característica estrutural: a) dos sistemas de parentesco cognáticos; b) ainda mais,
de sistemas que atribuem uma importância à parentela, ou seja, sem uma tendência
de linhagem que emane de um regime de reprodução social com base em um siste-
ma fundiário. Parece que, em nosso meio cultural ocidental, as relações entre irmãos
só foram fortemente normatizadas nas sociedades camponesas do passado, nas quais
o imperativo de transmissão do patrimônio levava à constituição de quase-grupos de
parentesco no âmbito de um modelo de linhagem.29 Nessas sociedades, a interde-
pendência e a solidariedade entre irmãos eram imperativas e remetiam a direitos e
deveres precisos, na medida em que os estatutos dos irmãos eram muito claramente
definidos segundo sua posição de nascimento ou sexo. Em um regime de reprodu-
ção social fundado sobre a escolaridade, nada mais conduz à constituição de quase-
linhagens; em conseqüência, os obstáculos ao exercício do princípio de seletividade
que funda os sistemas de parentesco cognático são incidentais. A fraca normatividade
das relações entre irmãos seria assim um fato já antigo, resultante da passagem de
um sistema de reprodução social a um outro. Resta compreender por que as relações
entre irmãos oferecem uma resistência menor ao exercício do princípio de seletividade
do que o vínculo de filiação. Mas essa questão não será abordada neste texto.

R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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29
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188 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

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Jean-Hugues Déchaux 189

A NEXO

A pesquisa “Redes de parentesco e ajuda mútua” foi realizada pelo Insee em outubro
de 1997, dentro dos marcos da parte variável da “Pesquisa permanente sobre as
condições de vida dos domicílios” (PCV). A amostra abrangeu 8 mil domicílios. Em
cada um, a pessoa interrogada sobre os irmãos e as irmãs foi sorteada, conforme o
método de Kish, entre os membros do domicílio de 15 anos ou mais.
Depois de anotar os nomes de todos os irmãos e irmãs que não mais viviam no
domicílio, foram recolhidas informações individuais sobre o sexo, idade, nível de
instrução, atividade profissional e distância geográfica entre os domicílios. As per-
guntas eram: Com que freqüência você encontrou X (o nome do irmão ou da irmã)
nos últimos 12 meses? Com que freqüência vocês se telefonaram nos últimos 12
meses? Essas duas questões eram feitas em função de cada um dos irmãos ou das
irmãs inicialmente recenseados.
As tabelas fornecidas abaixo contabilizam os encontros efetuados com cada um
dos irmãos e irmãs. Trata-se de visitas feitas ao domicílio de um ou de outro, ou
então à casa de uma terceira pessoa, como, por exemplo, o pai ou a mãe. Note-se que
uma simples reunião de família pode provocar o encontro de vários irmãos ou ir-
mãs. Além dos encontros, são também contabilizadas as atividades em comum: saí-
das noturnas para um espetáculo ou férias passadas juntos. Mas não foram incluídos
entre os encontros os contatos fortuitos (cruzar-se na rua ou em uma loja, à saída da
escola etc.), ainda que tenham sido trocadas algumas palavras nessas ocasiões.

TABELA 1
Distância entre os domicílios e influência nos encontros entre irmão ou irmã
e os encontros com o pai ou com a mãe

Irmão ou irmã * Pai ** Mãe ***

Menos de 10km 99 165 179


10 a 49km 31 57 65
50 a 499km 11 19 19
Mais de 500km 2 5 8
Conjunto 35 69 86

Fonte: Rede de parentesco e ajuda mútua, Insee, out. 1997. (Pesquisa PCV.)
Base: Pessoas maiores de 14 anos, residentes na França, * com pelo menos um irmão ou uma irmã fora do
domicílio de origem; ** vivendo o pai fora do domicílio de origem; *** e vivendo a mãe fora do domicílio
de origem.
Leitura: Pessoas maiores de 14 anos, com pelo menos um irmão ou uma irmã vivendo fora do domicílio
de origem encontraram esse(s) irmãos ou essa(s) irmã(s) 99 vezes nos últimos 12 meses, estando suas casas
distantes pelo menos 10km.

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190 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

TABELA 2
Tempo de vida em comum e tamanho da fratria: influência nos encontros entre irmãos e irmãs

Quatro
Conjunto Um irmão ou Dois irmãos Três irmãos irmãos
uma irmã e irmãs e irmãs e irmãs
ou mais

Menos de 10 anos 24 34 22 25 23
10 a 14 anos 32 38 41 36 27
15 a 19 anos 33 49 40 32 26
Mais de 20 anos 43 49 48 44 37
Conjunto 35 46 41 35 28

Fonte: Rede de parentesco e ajuda mútua, Insee, out. 1997. (Pesquisa PCV.)
Base: Pessoas maiores de 14 anos, residentes na França, com pelo menos um irmão ou uma irmã fora do
domicílio de origem.
Leitura: Pessoas maiores de 14 anos, com pelo menos um irmão ou uma irmã, encontraram esse irmão ou
essa irmã 34 vezes nos últimos 12 meses, se viveram juntos na infância mais de 10 anos, e 49 vezes, se
viveram juntos mais de 20 anos.

TABELA 3
Distância entre os níveis de instrução e as categorias socioprofissionais:30
influência nos encontros entre irmãos ou irmãs

Nível de
instrução Agricultores, Cadres e Profissões
do irmão artesãos profissões interme- Empre- Operá-
ou da irmã Conjunto comerciantes intelectuais diárias gados rios Inativos

Superior 33 38 36 20 31 30 68
Mesmo nível 36 39 19 26 33 40 50
Inferior 29 43 18 24 31 61 44
Conjunto 35 39 21 23 32 39 54

Fonte: Rede de parentesco e ajuda mútua, Insee, out. 1997. (Pesquisa PCV.)
Base: pessoas maiores de 14 anos, residentes na França, que têm pelo menos um irmão ou uma irmã fora
do domicílio de origem.
Leitura: pessoas maiores de 14 anos, que têm pelo menos um irmão ou uma irmã agricultores, artesãos ou
comerciantes, encontraram esse(s) irmão(s) ou essa(s) irmã(s) do mesmo nível de instrução 39 vezes nos
últimos 12 meses.

30
N. do T.: as classificações do código PCS da França são as seguintes: a) agricultores, artesãos, comercian-
tes; b) cadres e profissões intelectuais; c) profissões intermediárias; d) empregados; e) operários; f) desem-
pregados, inativos.

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Jean-Hugues Déchaux 191

TABELA 4
Distância e nível de instrução: influência nos encontros entre irmão ou irmã

Nível de instrução
do irmão ou da irmã Conjunto < bac bac bac + 2 > bac + 2

Superior 33 32 39 27 7
Mesmo nível 36 38 35 23 15
Inferior 29 — 37 32 17
Conjunto 35 37 37 29 16

Fonte: Rede de parentesco e ajuda mútua, Insee, out. 1997. (Pesquisa PCV.)
Base: Pessoas maiores de 14 anos, residentes na França, com pelo menos um irmão ou uma irmã fora do
domicílio de origem.
Leitura: Pessoas maiores de 14 anos, com o nível escolar do bac, encontraram um irmão ou uma irmã com
o mesmo nível de instrução 35 vezes nos últimos 12 meses.

TABELA 5
Encontros entre irmãos e irmãs do mesmo sexo ou de sexos diferentes

Conjunto de indivíduos

Sexo diferente Mesmo sexo

Mulheres 31 36
Homens 31 39
Conjunto 31 38

Base: Pessoas maiores de 14 anos, residentes na França, que têm pelo menos um irmão ou uma irmã fora
do domicílio de origem.

Quando é possível fazer uma escolha na fratria

Sexo diferente Mesmo sexo

Mulheres 30 37
Homens 29 35
Conjunto 30 37

Fonte: Rede de parentesco e ajuda mútua, Insee, out. 1997. (Pesquisa PCV.) Base: pessoas maiores de 14
anos, residentes na França, que têm pelo menos um irmão ou uma irmã fora do domicílio de origem.
Leitura: homens, com pelo menos um irmão e uma irmã fora do domicílio de origem, encontraram esse(s)
irmãos(s) 35 vezes e essa(s) irmã(s) 29 vezes nos últimos 12 meses.

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192 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

TABELA 6
Sexo e idade: encontros entre irmão e irmã do mesmo sexo ou de sexos diferentes

Conjunto dos indivíduos

< 30 anos 30 a 39 anos 40 a 59 anos = 60 anos

Sexo Mesmo Sexo Mesmo Sexo Mesmo Sexo Mesmo


diferente sexo diferente sexo diferente sexo diferente sexo

Mulheres 60 75 30 35 22 25 28 29
Homens 70 68 30 42 23 33 23 33
Conjunto 65 72 30 38 22 29 25 29

Base: Pessoas maiores de 14 anos, residentes na França, com pelo menos um irmão ou uma irmã fora do
domicílio de origem.

Quando é possível fazer uma escolha na fratria

< 30 anos 30 a 39 anos 40 a 59 anos = 60 anos

Sexo Mesmo Sexo Mesmo Sexo Mesmo Sexo Mesmo


diferente sexo diferente sexo diferente sexo diferente sexo

Mulheres 60 73 32 37 22 27 23 35
Homens 57 66 29 35 24 31 23 31
Conjunto 59 70 30 37 23 28 23 33

Fonte: Rede de parentesco e ajuda mútua, Insee, out. 1997. (Pesquisa PCV.)
Base: Pessoas maiores de 14 anos, residentes na França, com pelo menos um irmão ou uma irmã fora do
domicílio de origem.
Leitura: Homens de 30 a 39 anos, que têm pelo menos um irmão e uma irmã fora do domicílio de origem,
encontraram esse(s) irmão(s) 35 vezes e essa(s) irmã(s) 23 vezes nos últimos 12 meses.

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Jean-Hugues Déchaux 193

TABELA 7
Indicador de homofilia bruta e indicador de homofilia real, segundo sexo e idade

< 30 anos 30 a 39 anos 40 a 59 anos = 60 anos

Homens
Homofilia bruta -2 +12 +10 +10
Homofilia real +9 +6 +7 +8
Mulheres
Homofilia bruta +15 +5 +3 +1
Homofilia real +13 +5 +5 +12

Fonte: Rede de parentesco e ajuda mútua, Insee, out. 1997. (Pesquisa PCV.)
Base: Pessoas maiores de 14 anos, residentes na França, com pelo menos um irmão ou uma irmã fora do
domicílio de origem.
Leitura: Homens que têm pelo menos um irmão ou uma irmã fora do domicílio de origem e situados na
faixa etária dos 30-39 anos, encontraram seus irmãos com maior freqüência que suas irmãs. A diferença
entre o escore de freqüência de encontros entre irmãos do mesmo sexo e os de sexo diferente é de 6,
quando os homens têm pelo menos um irmão e uma irmã (homofilia real), e de 12, quando têm pelo
menos um irmão ou uma irmã (homofilia bruta).

TABELA 8
Nível de instrução segundo o sexo: influência
nos encontros entre irmãos e irmãs

Nível de instrução do
irmão ou da irmã Conjunto Homens Mulheres

Superior 33 33 35
Mesmo nível 36 39 34
Inferior 29 23 33
Conjunto 35 35 34

Fonte: Rede de parentesco e ajuda mútua, Insee, out. 1997. (Pesquisa PCV.)
Base: Pessoas maiores de 14 anos, residentes na França, com pelo menos um irmão ou uma irmã fora do
domicílio de origem.
Leitura: Homens que têm pelo menos um irmão ou uma irmã fora do domicílio de origem encontraram
esse(a) ou esses(as) irmãos(ãs) 39 vezes nos últimos 12 meses quando tinham o mesmo nível de instrução e
33 vezes quando seu nível de instrução era superior ao deles.

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sobre os autores

ANÁLIA TORRES é doutora em sociologia, professora do Instituto Superior de Ciên-


cias do Trabalho e da Empresa (Iscte) e pesquisadora do Centro de Investigações
e Estudos de Sociologia (Cies), do mesmo instituto.

CÉCILE BEAUJOUAN, doutoranda em sociologia pela Universidade de Paris V-René


Descartes, é pesquisadora do Centre d’Études des Liens Sociaux/Cerlis/CNRS.

CLAIRE-ANNE BOUKAÏA, doutoranda em sociologia pela Universidade Paris V-René


Descartes, é pesquisadora do Centre d’Études des Liens Sociaux/Cerlis/CNRS.

CLARICE EHLERS PEIXOTO é doutora em antropologia, professora do PPCIS, da


Uerj, coordenadora da linha de pesquisas Imagens, narrativas e práticas cultu-
rais/PPCIS/Uerj.

CLOTILDE LEMARCHANT, doutora em sociologia, é professora da Université de Caen


Basse-Normandie.

CYPRIEN AVENEL é doutor em sociologia, pesquisador do Laboratoire d’Analyse


des Problèmes Sociaux et de l’Action Collective (Lapsac), da Universidade de
Bordeaux 2.

FRANÇOIS DE SINGLY, doutor em sociologia, é professor da Universidade Paris V-


René Descartes e diretor do Centre d’Études des Liens Sociaux/Cerlis/CNRS.

JEAN-HUGUES DÉCHAUX, doutor em sociologia, é professor da Universidade Paris V-


René Descartes, pesquisador do OSC-FNSP/CNRS.

MAGDALENA JARVIN, doutoranda em antropologia pela Universidade Paris V-René


Descartes, é pesquisadora do Centre d’Études des Liens Sociaux/Cerlis/CNRS.

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196 FAMÍLIA E INDIVIDUALIZAÇÃO

MARNIA BELHADJ é doutora em sociologia.

VINCENT CARADEC, doutor em sociologia, é professor da Universidade Lille 3 e


pesquisador do Centre d’Études des Liens Sociaux/Cerlis/CNRS.

VINCENZO CICCHELLI, doutor em sociologia, é professor da Universidade Paris V-


René Descartes e pesquisador do Centre d’Études des Liens Sociaux/Cerlis/CNRS.

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Resumo dos livros.fm Page 1 Thursday, December 11, 2008 2:37 PM

OUTROS LIVROS DE INTERESSE


(T í t u l o s j á p u b l i c a d o s )

A banalização da injustiça social (3ª edição)


Christophe Dejours
160p.
A família ameaçada — violência doméstica nas Américas
Andrew R. Morrison e Maria Loreto Biehl (editores)
208p.
Ciência, política e trajetórias sociais: uma sociologia histórica
da teoria das elites
Mario Grynszpan
256p.
Conversas com Anthony Giddens
Anthony Giddens e Christopher Pearson
156p.
Erving Goffman e a microssociologia
Isaac Joseph
96p.
Igualdade e meritocracia: a ética do desempenho nas
sociedades modernas (3ª edição)
Lívia Barbosa
216p.
Parcerias e pobreza: soluções locais na construção de relações
socio-econômicas
Ilka Camarotti e Peter Spink (orgs.)
152p.(Coleção FGV Prática)
Parcerias e pobreza: soluções locais na implementação de
políticas sociais
Ilka Camarotti e Peter Spink (orgs.)
156p. (Coleção FGV Prática)
Pierre Bourdieu e a teoria do mundo social
Louis Pinto
192p.

Os livros podem ser encontrados nas livrarias ou diretamente na Editora FGV.


Tels.: 0800-217777 e 0-XX-21-559-5533 — Fax: 0-XX-21-559-5541
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