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ISSN 1413-389X Temas em Psicologia – 2013, Vol.

21, nº 2, 317-333
DOI: 10.9788/TP2013.2-02

Adoção e Preparação Infantil na Percepção


dos Profissionais do Juizado da Infância e Juventude
de Belém/PA

Suellen Reis Contente1


Laboratório de Ecologia do Desenvolvimento da Universidade Federal do Pará, Belém, Brasil
Lilia Iêda Chaves Cavalcante
Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do Pará, Belém, Brasil
Simone Souza da Costa Silva
Núcleo de Teoria e Pesquisa do Comportamento da Universidade Federal do Pará,
Belém, Brasil

Resumo
O presente artigo discute como vem sendo desenvolvida e/ou como poderia ser realizada a preparação
para adoção de crianças institucionalizadas na visão de analistas judiciários da 1ª Vara da Infância e Ju-
ventude de Belém. Participaram da pesquisa cinco assistentes sociais, duas psicólogas, duas pedagogas e
uma socióloga. Os resultados obtidos por meio da aplicação de questionário mostraram que há consenso
entre esses profissionais de que a preparação de crianças que vivem em instituições de acolhimento pode
contribuir sob vários aspectos para que a adoção tenha êxito, particularmente ao prevenir ou minimizar
o sentimento de medo diante da necessidade de se adaptar a um novo contexto familiar. Os participan-
tes, em sua maioria, declararam até o momento não se sentirem capacitados para atuar na preparação
de crianças como rege a Lei 12.010/2009. Alegam que a exigência legal da preparação infantil gerou
uma demanda nova em termos profissionais, o que pode estar dificultando a elaboração de estratégicas
metodológicas adequadas a um trabalho interdisciplinar com a atuação integrada de órgãos do judiciá-
rio e instituições de acolhimento. Nesta pesquisa, a preparação foi reconhecida como um conjugado de
estratégias interventivas que deve permitir à criança visualizar por que e como seria seguro viver em
outra família. Entre as mais citadas, além do trabalho em equipe interdisciplinar, a preparação conco-
mitantemente de pais e filhos para adoção, o domínio de informações que os orientem nesse processo,
e procedimentos que visam o envolvimento das crianças e suas histórias de vida de forma lúdica foram
citadas frequentemente.
Palavras-chave: Adoção, criança institucionalizada, preparação para adoção.

Adoption and Infantile Preparation in Perception


of professional of Court of Childhood and Youth of Belém/PA

Abstract
This article discusses how has been developed and / or how could been done to prepare for adoption of
children institutionalized in legal analysts view the 1st Court of Childhood and Youth of Belém. Partici-
pants were five social workers, two psychologists, two educators and a sociologist. The results obtained
by means of a questionnaire showed that there is consensus among the respondents that the preparation

1
Endereço para correspondência: Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Pará,
Av. Augusto Correa, 01, Campus Universitário do Guamá, Guamá, Belém, PA, Brasil 66075-900. E-mail:
suellencontente@hotmail.com, liliaccavalcante@gmail.com e symon.ufpa@gmail.com
318 Contente, S. R., Cavalcante, L. I. C., Silva, S. S. C.

of children living in institutions can contribute in many ways to be successful adoption, particularly
to prevent or minimize the feeling of fear due to the need to adapt to a new family context. The parti-
cipants, mostly declared don`t feel qualified to act in the preparation of children as the law governing
12.010/2009. They argue that the statutory requirement of preparing children generated a new demand
in professional terms, which may be hindering the development of appropriate methodological strategy
to interdisciplinary work with the integrated performance of the judiciary organs and host institutions.
In this research, the preparation was recognized as a conjugate of interventional strategies that should
allow the child to visualize why and how it would be safe to live in another family. Among the most
frequently cited responses, in addition to interdisciplinary teamwork, preparation concomitantly of pa-
rents and children for adoption, the domain of information to guide them in this process, and procedures
aimed at the involvement of children and their life stories through play.
Keywords: Adoption, child institutionalized, preparation for adoption.

Preparación y Adopción de Niños en la Percepción


de los Profesionales Judicatura para los Niños y Jóvenes Belém/PA

Resumen
En este artículo se analiza cómo se ha desarrollado y / o cómo se puede hacer para prepararse para la
adopción de niños institucionalizados según los analistas jurídicos de la Judicatura para los Niños y Jó-
venes Belém/PA. Los participantes fueron cinco trabajadores sociales, dos psicólogos, dos educadores
y un sociólogo. Los resultados obtenidos por medio de un cuestionario mostró que hay consenso entre
los encuestados de que la preparación de los niños que viven en instituciones residenciales pueden
contribuir de muchas maneras a ser exitosa adopción, en particular para evitar o reducir al mínimo la
sensación de miedo que enfrentan a la necesidad de adaptarse a un nuevo contexto familiar. Los parti-
cipantes, en su mayoría reportado hasta la fecha no se siente calificado para actuar en la preparación de
los niños como la ley 12.010/2009. Afirman que el requisito legal de preparar a los niños genera una
nueva demanda en términos profesionales, que pueden estar obstaculizando el desarrollo de la estrate-
gia metodológica adecuada para el trabajo interdisciplinario con la actuación integrada de los órganos
judiciales y las instituciones de acogida. En esta investigación, la preparación ha sido reconocido como
un conjugado de estrategias de intervención que deberían permitir al niño a ver por qué y cómo sería
seguro vivir con otra familia. Entre las estratégias de preparación más citadas, además de trabajo en
equipo interdisciplinario, concomitantemente con los padres y niños para la adopción, el dominio de la
información que los guíe en este proceso, y procedimientos dirigidos a la participación de niños y sus
historias de vida a través del juego.
Palabras clave: Adopción, niños institucionalizados, la preparación para la adopción.

A adoção se constitui em uma medida de guém, se acolhe também a sua história de vida,
proteção especial que tem como principal obje- inclusive as marcas deixadas por sua contínua
tivo dar às crianças que se encontram em acolhi- exposição a situações de risco em contextos pri-
mento institucional o direito de viver em família mários anteriores (Gueiros, 2007).
e construir novos vínculos socioafetivos. Esta Estudos disponíveis na literatura (Centro de
medida, contudo, requer a preparação de pais Capacitação e Incentivo à Formação de Profis-
e filhos pela própria natureza da experiência a sionais, Voluntários e Organização que Desen-
ser vivenciada, uma vez que a adoção implica, volvem Trabalho de Apoio à Convivência Fa-
sobretudo, em um processo longo e progressivo miliar [CeCIF], 2002; Figueiredo, 2010; Motta,
de adaptação da criança ao convívio com a nova 2008; Solon, 2008; Weber, 2001, 2010) têm
família. Sabe-se hoje que, quando se adota al- indicado uma clara associação do termo prepa-
Adoção e Preparação Infantil na Percepção dos Profissionais do Juizado da Infância 319

ração à atitude que equivale a informar, levar tura mostra que crianças institucionalizadas que
conhecimento, esclarecer, desmistificar, reve- não foram sistematicamente orientadas durante o
lar os mitos e preconceitos que cercam o tema período de transição para a nova família poderão
da adoção e dar condições para que a criança oferecer resistência no decorrer do processo de
possa ter êxito nesse enfrentamento. Nesse sen- adaptação ou sentir medo diante de um ambien-
tido, preparar a criança para a vida em um lar te acerca do qual não dispõem de informações
adotivo é dotá-la de conhecimentos apurados precisas sobre suas características (Mariano &
sobre essa nova forma de se viver em família Rossetti-Ferreira, 2008).
(Andrade, Costa, & Rossetti-Ferreira, 2006) e a Em qualquer circunstância, dar às crian-
oportunidade colocada de nesse contexto cons- ças institucionalizadas informações acerca de
truir laços familiares não consanguíneos (Ma- sua futura família é uma forma de dotá-las de
riano & Rossetti-Ferreira, 2008). A importância conhecimentos que poderão prepará-las para as
do conhecimento prévio sobre a natureza dessa novas exigências de adaptação que certamente
vinculação pode ser explicada, assim, pelo fato encontrarão pela frente e o reconhecimento dos
de que, na sociedade ocidental, a ligação here- vínculos que fazem a ligação entre os contextos
ditária historicamente é vista como um desígnio envolvidos nesse processo transitório. Entretan-
indiscutível que dita normas de valorização e to, no caso das crianças que se encontram em
continuidade familiar e percebe a adoção como acolhimento institucional, admite-se que a pre-
algo inautêntico e artificial (Costa & Campos, paração para adoção assume diferentes contor-
2003). Esta compreensão pode dificultar o pro- nos, tornando-se mesmo indispensável (Ayres,
cesso de construção de vínculos afetivos, o que Cardoso, & Pereira, 2009; Beckett et al., 2006;
torna essencial, desse ponto de vista, a prepara- Solon, 2008; Weber, 2010).
ção da criança para a adoção e a vivência de um Em razão disso, o motivo do fracasso as-
período que tem como marca a transitoriedade sociado a algumas adoções tem sido atribuído à
(Cavalcante & Magalhães, 2012). ausência de um trabalho multiprofissional espe-
Quando o processo de acolhimento ocorre cialmente voltado a crianças institucionalizadas
por tempo demasiadamente longo, ou seja, em que estejam disponíveis para a adoção (Gueiros,
um período superior a dois anos, estudos (Caval- 2007; Kramer, Barbosa, & Silva, 2008; Solon,
cante & Magalhães, 2012; Solon, 2008) apontam 2008; Weber, 2010). Esses autores vêm mos-
que a possibilidade de construção de novos vín- trar que a preparação das crianças não ocorre da
culos socioafetivos pela criança deve ser vista mesma forma como se dá comumente essa expe-
como uma experiência potencialmente positiva. riência com os pais adotivos, nem parece desper-
Nesses termos, a preparação para a adoção é en- tar preocupação semelhante nos profissionais da
tendida como uma medida ainda mais indicada, área sociojurídica.
sobretudo dada à complexidade das demandas Nesse sentido, Weber (2001) afirma existir
infantis envolvidas no processo de transição da um grande número de pesquisas que tem se de-
criança de um ambiente tipicamente institucio- dicado a investigar a preparação dos pais para
nal para outro de configuração familiar, mas que adoção e a escassez de estudos que procuram
a princípio lhe parece completamente estranho compreender o trabalho de orientação e apoio às
(Cavalcante & Magalhães, 2012). Cada alteração crianças nessa importante transição de um am-
vivida pela criança nessa condição específica faz biente que se difere física e socialmente. A auto-
parte de um conjunto de transições que está em ra reconhece ser evidente a importância do apoio
curso, que provoca expectativa de mudanças in- e a necessidade de orientação aos pais nesse
tensas, assim como invoca sofrimentos e perdas processo de inserção e adaptação da criança ao
passadas, construindo habilidades para que possa novo ambiente, porém, considera que igual aten-
figurar como protagonista de sua própria história ção deveria ser dada à preparação infantil para a
(Motta, 2008; Solon, 2008; Weber, 2010). adoção, sobretudo quando esta se encontra em
Ao se deparar com a necessidade da cons- situação de acolhimento institucional prolonga-
trução de novos vínculos socioafetivos, a litera- do (Serrano, 2008; Weber, 2010).
320 Contente, S. R., Cavalcante, L. I. C., Silva, S. S. C.

É importante ressaltar que, na verdade, a Apesar das conquistas e evoluções em rela-


pouca ou nenhuma atenção conferida à pre- ção ao estabelecimento da adoção como medida
paração para adoção de crianças desde os pri- de proteção especial à criança que deve valori-
meiros anos de vida deita suas raízes históricas zar a sua participação nesse processo, apontadas
nos primórdios de uma sociedade que sempre inicialmente nos Códigos de Menores de 1927
atribuiu maior poder à posição ocupada pelo e 1979, mas apenas consolidadas com o Estatu-
adulto, sobretudo quando este está imbuído do to da Criança e do Adolescente – ECA (Lei nº
papel parental (Costa & Campos, 2003; Figuei- 8.069, de 13 de julho de 1990), e a Lei Nacional
redo, 2010; Solon, 2008). Em outras palavras, a da Adoção (Lei nº 12.010/2009, de 3 de agosto
adoção por muito tempo se constituiu em uma de 2009), observa-se que a preparação das crian-
medida voltada à satisfação daqueles que têm o ças para adoção ainda permanece em segundo
desejo de construir uma família, mas que encon- plano. A legislação mais recente ressalta o lu-
tram dificuldades de gerar filhos de modo natu- gar destacado da preparação no curso da ado-
ral, sendo esperado que este seja o argumento ção, contudo chama atenção para a condição em
que em geral justifica tal decisão, como assinala que este procedimento deverá ser realizado com
Pontes, Cabrera, Ferreira e Vaisberg (2008): crianças e adolescentes, posto que este requer o
De fato, a adoção aparece como alternativa acompanhamento sistemático e competente por
última para a realização do desejo de mater- parte de profissionais e autoridades que atuam
nidade e paternidade, após várias tentativas no âmbito da Justiça da Infância e Juventude,
frustradas de gestação. Assim se configura como define um de seus artigos.
em uma ótica bastante individualista, como § 5o A colocação da criança ou adolescente
solução para os problemas do casal, sem le- em família substituta será precedida de sua
var em conta os carecimentos da criança (p. preparação gradativa e acompanhamento
499). posterior, realizados pela equipe interprofis-
Dessa forma, a concepção centrada no sional a serviço da Justiça da Infância e da
bem estar da criança ao longo da história este- Juventude, preferencialmente com o apoio
ve presente de forma periférica, o que fez com dos técnicos responsáveis pela execução da
que ocorresse uma sobreposição dos desejos e política municipal de garantia do direito à
anseios do adotante sobre os do adotado. Esta convivência familiar.
posição de destaque ocupada hoje pela criança Com a Lei nº 12.010/2009, passa a ser obri-
é, portanto, recente, ainda que a prática da ado- gatória a preparação de crianças que vivem em
ção seja secular. Weber (2010) enfatiza que, na instituições de acolhimento para a convivência
sociedade brasileira, a decisão de adotar sempre em família substituta. As mudanças no marco re-
esteve ancorada no interesse da família, sendo gulatório e nas políticas pelo direito à convivên-
possível perceber que geralmente o adotado não cia familiar e comunitária refletem a percepção
tem voz nem participação nesse processo. Nos cada vez mais atual de que é importante ouvir
dias atuais, em que pesam os nítidos avanços na as crianças sobre suas necessidades, interesses
forma de se perceber a adoção e a necessidade e preferências (CeCIF, 2002; Figueiredo, 2010;
de preparar e integrar os sujeitos desse proces- Motta, 2008; Solon, 2008; Weber, 2010). Nos
so (Mariano & Rossetti-Ferreira, 2008) ainda é casos de adoção tardia que envolve crianças com
possível notar os reflexos dessa antiga cultura na mais de dois anos de idade, há o entendimento
prática de sobrepor os interesses do adotante ao de que a sua voz deve ser ouvida e sua vontade
do adotado. Pontes et al. (2008) lembram que a considerada por profissionais com formação em
esterilidade do casal e a necessidade de continu- diferentes áreas, como Psicologia, Serviço So-
ação dos laços não consanguíneos foram inter- cial, Pedagogia, Sociologia e outras afins.
pretados como interesses unilaterais, isto é, que Solon (2008), ao dialogar com crianças so-
tomam somente a perspectiva dos anseios e ne- bre o significado de adotar alguém, verificou que
cessidades de quem não pode ou não quer gerar para elas a adoção estava relacionada à conduta
filhos biológicos. infantil. Os participantes da pesquisa associa-
Adoção e Preparação Infantil na Percepção dos Profissionais do Juizado da Infância 321

vam o significado da adoção, ora à recompen- que dizem a respeito aos propósitos dessa forma
sa pela boa conduta infantil, ora à punição pelo particular de lidar com o adotando e como este
mau comportamento da criança no contexto da trabalho vem sendo realizado no Brasil, dei-
instituição de acolhimento. Entre as crianças xa evidente a falta de interesse acadêmico pelo
entrevistadas pela pesquisadora, a adoção mui- tema. Provavelmente a dificuldade em abordar
tas vezes foi apresentada como dependente do teórica e metodologicamente tal questão, sem
comportamento infantil, associada à presença de vieses ideológicos ou interpretações subjetivis-
condutas socialmente adequadas ou não. tas, deva ser apontada como um dos fatores que
A partir dos resultados obtidos por Solon tem contribuído para a existência de uma produ-
(2008), conclui-se que essa ambivalência pre- ção ainda pouco expressiva sobre o tema diante
sente na visão dos participantes acerca da ado- da sua urgência e complexidade na atualidade.
ção se revela especialmente entre crianças que Para Weber (2010), nesse contexto especí-
sofreram alguma forma de privação afetiva, seja fico, preparar envolve tanto o compromisso de
porque foram abandonadas e/ou negligenciadas fornecer informações sobre a criança para os
por sua família de origem, seja porque temem a futuros pais adotivos, quanto a disposição para
possibilidade de virem a ser rejeitadas pelos pais apresentar ao adotante uma descrição fidedigna
adotivos. Por isso, segundo os preceitos conti- de características e fatos relativos à sua nova
dos na Lei nº 12.010/2009, as crianças devem família, por meio de fotos, vídeos, além de es-
ser informadas e estimuladas a reconhecer a ado- clarecimentos diversos quanto à casa em que irá
ção como uma medida social que visa garantir morar, o convívio com irmãos, dentre outros.
o direito fundamental à convivência familiar e Na preparação para a adoção, desmistificar e
comunitária, não devendo estar associada ou, esclarecer implica no cuidado e respeito à vida
muito menos, condicionada, ao padrão de com- pregressa da criança e não na sua ocultação e/
portamento presente no espaço de acolhimento ou deturpação. Ou seja, a preparação deve evitar
infantil. separar a criança do seu passado e soterrar a sua
A preparação para as crianças tem sido en- identidade por meio da divulgação de informa-
fatizada e percebida como indispensável diante ções vagas e dispersas, seja na família de origem
de casos em que foram detectados graves equí- ou na instituição onde foi acolhida como medida
vocos e frustrações no processo de adaptação da de proteção social.
criança à família substituta, como argumentara Por isso, entre várias medidas, este dentre
Weber (2010). A justificativa para um inves- outros estudos (Gueiros, 2007; Motta, 2008; So-
timento maior na preparação infantil tem sido lon, 2008; Weber, 2001, 2010), considera que
respalda por situações que estão se tornando co- deve ser permitido à criança trazer parte dos seus
muns como a devolução de crianças após breve pertences para a nova vida, inclusive fotos e/ou
ou longo período de convivência com a família objetos que remetem ao convívio nos ambientes
adotante e a tão propalada falta de diálogo com o anteriores que lhe trazem algum conforto emo-
adotando. A análise da condição psicossocial da cional. Esses estudos recomendam que deva ser
criança que estando há anos em uma instituição respeitado o tempo que a criança precisa para
passa a ter que conviver e se adaptar à vida em viver com segurança a passagem que lhe fará
uma família substituta, tem provocado a necessi- transitar de um ambiente tipicamente institucio-
dade de se conhecer e trabalhar mais seus medos, nal para o convívio em um meio familiar, porém
seus anseios, sua trajetória e perspectiva de vida. completamente estranho a ela.
Apesar dos fatores que justificam a neces- . . . com aproximações sucessivas, pode-se
sidade de preparação da criança para adoção te- chegar a uma conciliação da família sonha-
rem sido abordados pela literatura mais recente da com a família possível e desenvolve na
no Brasil (CeCIF, 2002; Figueiredo, 2010; Guei- criança uma noção do que ela pode encon-
ros, 2007; Motta, 2008; Solon, 2008; Weber, trar (alegrias e dificuldades) neste processo
2001, 2010), e também em produções interna- de inserção social. Tendo o suporte necessá-
cionais (McGuire & Shanahan, 2010) questões rio, uma ponte segura, elas estarão melhor
322 Contente, S. R., Cavalcante, L. I. C., Silva, S. S. C.

instrumentalizadas para fazer a sua travessia a adoção, deixa claro que o seu êxito depende da
do abandono/instituição para o seio de uma idade da criança no momento em que viverá tal
família. (Weber, 2010, p. 224) experiência. Pontes et al. (2008) consideram que
Igualmente, para Solon (2008), o argumento “muitas crianças abrigadas, com mais de dois
usado para validar a importância da preparação anos de idade, já têm compreensão suficiente para
está sustentado na ideia de que a criança precisa nutrir expectativas ansiosas de serem escolhidas
ter previamente uma imagem completa de sua e acolhidas por casais interessados” (p. 496).
vida e o maior entendimento possível de que sua Há de se considerar, contudo, que nem todas as
história começou antes da adoção. Em razão dis- crianças apresentam o mesmo nível de compre-
so, a autora incentiva a construção com a criança ensão sobre o que é adoção por se encontrarem
de um livro, uma espécie de álbum de fotografias em idades distintas, sendo importante observar o
e desenhos, que exiba comentários reflexivos peso dessa variável na decisão do que deve ser
sobre a decisão de adotar, colocando em relevo informado e a forma como esse trabalho pode
as razões e a forma como se deu a escolha da ser realizado diante das particularidades que ca-
criança (por exemplo, utilizar frases como “Eu racterizam os casos atendidos. Conversas sobre
fui buscar você...”). a perspectiva colocada pela vida em uma nova
Por sua vez, na publicação 101 Perguntas e família, a oferta de informações quanto à iden-
Respostas sobre Abandono e Institucionalização tidade e a condição de vida dos pais adotivos, a
(CeCIF, 2002) há a consideração de que a pre- troca de fotografias entre as pessoas envolvidas,
paração das crianças tem início com o trabalho a facilitação do contato entre elas, são exemplos
de integração entre os abrigos e os juizados res- de procedimentos apontados em estudos (Costa
ponsáveis pelo andamento do processo jurídico, & Campos, 2003) que podem envolver a criança,
que vai desde a destituição do poder familiar até mas de acordo com a idade que possui e o nível
a sentença da adoção, devendo ser esta experi- de maturidade que lhe é correspondente.
ência discutida por diferentes equipes de traba- Estudos recentes (Gueiros 2007; Solon
lho e autoridades competentes em cada instância 2008; Weber, 2001) mostram que essa aproxi-
legalmente envolvida. Hoje, conforme a Lei nº mação precisa ser gradativa e consentida pela
12.010/2009, esta visão de trabalho integrado criança e pelos pretendentes à adoção, exigindo
está em fase de consolidação na área da defesa de profissionais e autoridades a capacidade de
sociojurídica dos direitos da criança e do adoles- avaliar de que forma a preparação infantil será
cente. Nela, está claro que a preparação para ado- mais benéfica: com ou sem a oportunidade de um
ção não é atribuição exclusiva da equipe técnica contato prévio e íntimo com a família com a qual
da Justiça da Infância e da Juventude, apesar de será levada a conviver; com ou sem a permissão
que obrigatoriamente deve ser envolvida neste para passeios e convivência diária que culminem
trabalho, mas requer antes de tudo a participação com a ida definitiva para a casa dos adotantes.
de profissionais responsáveis pela execução das Para muitos juízes, segundo Figueiredo
Orientações Técnicas para Serviços de Acolhi- (2010), a preparação prévia é absolutamente in-
mento de Crianças e Adolescentes (Ministério dispensável, de modo que a criança/adolescente
do Desenvolvimento Social e Combate à Fome gradativamente vai aceitando a nova situação e
[MDS], 2009) e do Plano Nacional de Promo- se incluindo, por vontade própria, na nova famí-
ção, Proteção e Defesa do Direito da Criança lia. Em posição oposta, o autor descreve aque-
e do Adolescente à Convivência Familiar e Co- les que defendem o imediato desligamento da
munitária (MDS, 2006), que estabelecem que as instituição acolhedora e sua inserção direta na
condições para viver em família de forma sau- família substituta. Aponta que é extremamente
dável e segura é um direito fundamental e que difícil para a criança elaborar a ideia de que está
este deve ser o princípio que orienta as políticas diante daqueles que serão seus pais, seus irmãos,
municipais e estaduais na contemporaneidade. seus avós. Essa compreensão inicial pode faci-
Outro aspecto a ser observado na discussão litar ou dificultar a formação de laços afetivos
sobre por que e como proceder à preparação para da criança com os membros de sua nova família,
Adoção e Preparação Infantil na Percepção dos Profissionais do Juizado da Infância 323

principalmente porque em geral teme que ocorra Método


uma nova rejeição ou abandono como o que fora
vivenciado no passado. Participantes
Embora seja hoje indiscutível a importância
A pesquisa foi realizada na 1ª Vara da In-
da preparação infantil, Figueiredo (2010) argu-
fância e Juventude da Comarca da Capital, em
menta que se deve ponderar a entrega antecipada
Belém do Pará, que se dedica à proteção dos
à criança de fotos, filmagens, cartas, além da sua
direitos coletivos, difusos e Meta individuais
prolongada exposição aos comentários de tercei-
envolvendo questões de proteção de crianças e
ros (geralmente, técnicos e outros funcionários
adolescentes em situação de risco, particular-
das instituições de acolhimento) sobre a futura
mente os casos que demandam atendimento so-
família. Para o autor, estas são medidas que con-
ciopsicopedagógico (principalmente os que se
tribuem eficazmente não apenas para a conclu-
encontram em serviços de acolhimento institu-
são do processo da adoção, mas principalmente
cional) e a resolução de conflitos de interesses e
com a fase que a antecede e que corresponde ao
definição de sentença de guarda, tutela e adoção.
estágio de convivência familiar. Essa é a fase
Participaram da pesquisa membros que in-
que marca o início da preparação da criança
tegram a equipe multiprofissional responsável
propriamente dita e por isso deve ser vista como
por auxiliar e subsidiar as decisões judiciais na
fundamental. É nesse momento que se dá a cria-
perspectiva da garantia dos direitos da criança
ção das condições adequadas para a realização
e do adolescente, e de suas famílias. Pela natu-
do estágio de convivência com a família, que,
reza do trabalho realizado, observa-se a atuação
por sua vez, poderá favorecer ou não a própria
interdisciplinar dos chamados analistas judiciá-
conclusão do processo de adoção.
rios, dentre os quais figuram assistente sociais,
Diante do debate que permeia a literatura
psicólogos, sociólogos e pedagogos. Dos 15 pro-
disponível sobre o tema e a demanda posta por
fissionais com presença na instituição, concorda-
novas investigações e proposições, considera-se
ram em tomar parte da pesquisa 10 deles, sendo
que o objetivo do presente estudo consiste em
todos do sexo feminino, com pelo menos 04 a 29
analisar como tem sido e/ou como poderia ser
anos na função e idades que variaram de 29 a 61
realizada a preparação de crianças instituciona-
anos, com terceiro grau completo e alguns com
lizadas para a adoção na percepção dos analistas
curso de pós-graduação. A Tabela 1 assinala es-
judiciários da 1ª Vara da Infância e Juventude
tas informações:
de Belém.

Tabela 1
Perfil dos Participantes da Pesquisa
Nome Sexo Idade Escolaridade Tempo de serviço
Pedagoga A Feminino 29 Mestrado 04 anos e 3 meses
Pedagoga B Feminino 53 Graduação 30 anos
Socióloga A Feminino 59 Graduação 28 anos
Assistente Social A Feminino 51 Graduação 27 anos e 08 meses
Assistente social B Feminino 44 Especialização 03 anos e 06 meses
Assistente Social C Feminino 39 Especialização 03 anos e 06 meses
Assistente Social D Feminino 44 Mestrado 20 anos
Assistente Social E Feminino 61 Graduação 29 anos e 07 meses
Psicóloga A Feminino 50 Graduação 29 anos e 08 meses
Psicóloga B Feminino 30 Mestrado 04 anos e 02 meses
324 Contente, S. R., Cavalcante, L. I. C., Silva, S. S. C.

Instrumento contato pessoal com cada um dos profissionais


O instrumento utilizado na coleta de dados com atuação na instituição. Dos 15 profissionais
foi um questionário contendo dez itens, sen- que foram abordados, dez aceitaram preencher o
do sete perguntas abertas e três fechadas. As questionário e concordaram em devolvê-los após
questões que compunham o instrumento foram duas semanas. O período destinado à coleta dos
assim organizadas: (a) Dados do participante dados se estendeu de janeiro a março de 2011.
(sexo, idade, estado civil, escolaridade, tem-
po de serviço na instituição); (b) Definição de Análise dos Dados
adoção; (c) Aspectos da preparação para adoção Para a organização e tratamento dos dados,
(O que entende como preparação para adoção? utilizou-se categorias que haviam sido definidas
É possível haver preparação para adoção? Se a partir da análise do conteúdo das respostas da-
sim, você a considera necessária? A instituição das pelas participantes a cada uma das questões
em que você trabalha realiza a preparação de trazidas pelo questionário. Com as categorias
crianças para adoção? Em caso positivo, discor- mais aludidas, houve a definição em organizar e
ra como se dá esse processo. Em caso negativo, elencar o que havia sido mais destacado duran-
explique por que esse processo não faz parte da te as analises realizadas a luz das respostas dos
rotina da instituição. Qual a sua opinião sobre sujeitos. Para a discussão foram considerados
o modo como as crianças tem sido preparadas conceitos e proposições extraídos da literatura
para adoção na instituição em que você trabalha? que trata da preparação de crianças para adoção
Como essa preparação poderia ser realizada? Há (Figueiredo, 2010; Gueiros, 2007; Motta, 2008;
algum tipo de investimento na capacitação dos Solon, 2008; Weber, 2001, 2010).
técnicos para a preparação de crianças à adoção?
Em caso positivo, de que forma são capacitados Resultados e Discussão
para a preparação de crianças para adoção? Com
o estabelecimento da Lei nº 12.010/2009, você Os resultados serão apresentados e discuti-
considera que houve mudanças no modo como é dos com base em três categorias e subcategorias:
realizada a preparação de crianças para adoção? 1. A realização do trabalho de preparação de
Quais são as principais dificuldades apresenta- crianças institucionalizadas para adoção.
das no processo de preparação dessas crianças 2. O entendimento dos profissionais sobre
para adoção? Como você entende a preparação o significado da preparação de crianças
de pais pretendentes à adoção? Qual a sua opi- (orientação e esclarecimento sobre adoção,
nião sobre o modo como os pais têm sido pre- desconstrução de mitos sobre adoção, pro-
parados para adoção na instituição em que você duto do trabalho envolvendo adotados e
trabalha? Como essa preparação poderia ser rea- adotandos, trabalho interdisciplinar).
lizada? Quais as semelhanças e diferenças entre 3. Propostas para a preparação infantil (diálo-
a preparação de crianças institucionalizadas e go entre a equipe dos abrigos e a equipe do
não institucionalizadas?). Juizado, acompanhamento psicológico para
as crianças, percepção das crianças e refle-
Coleta de Dados xões sobre a família adotiva).
Como parte dos procedimentos iniciais da
pesquisa, foram tomadas as providências para A Realização do Trabalho
a autorização da pesquisa com os profissionais de Preparação de Crianças
vinculados à instituição. Como esta proposta de Institucionalizadas para Adoção
estudo era parte de um projeto já submetido à Inicialmente, ao se questionar a realização
apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa en- da preparação de crianças institucionalizadas pa-
volvendo Seres Humanos do Núcleo de Medicina ra a adoção no âmbito da 1ª Vara da Infância e
Tropical, que teve a sua realização aprovada sob Juventude da Comarca da Capital, verificou-se
o protocolo nº 018/2008 – CEP/MMT foi feito que não há consenso sobre isso entre os dez pro-
Adoção e Preparação Infantil na Percepção dos Profissionais do Juizado da Infância 325

fissionais que participaram da pesquisa, uma vez tendo sido não raras vezes privado dos cuidados
que cinco afirmaram e outros cinco negaram a adequados na família (Zeanah, Smyke, & Koga,
existência desse tipo de trabalho. 2005).
Os dados que permitiram confirmar a rea- Do ponto de vista da criança, os participan-
lização da preparação para adoção estão asso- tes consideram que por sua própria condição etá-
ciados ao acompanhamento dos processos de ria tende a não possuir clareza de todas as ques-
adoção realizados de forma sistemática pelos tões implicadas na experiência da adoção, nem
profissionais responsáveis pelos casos, o estreita- ter a noção exata das limitações que o convívio
mento do relacionamento que estes normalmen- em família multiproblemática pode oferecer à
te estabelecem com os futuros pais, à realização sua segurança física e emocional. Tal qual foi
de estudos técnicos que relatam a trajetória da discutido a partir de autores como Motta (2008),
criança, a sua história de vida e, por fim, à uti- Solon (2008) e Weber (2001, 2010), a criança
lização de instrumentos lúdicos com finalidade não pode ser separada brutalmente do seu pas-
de intervenção que trabalhe melhor as dúvidas e sado, pois antes mesmo de ser adotada já tinha
os questionamentos surgidas no processo, como uma vida, sua existência, que não começa a se
mostra o trecho da resposta dada por uma das desenrolar com o processo de adoção. A conti-
participantes: nuidade entre o passado e o ingresso da criança
A meu ver a preparação ocorre a partir do em uma família adotiva pode ser mantida através
estudo social quando se inicia o contato da de oportunidades colocadas para que ela “possa
equipe técnica com os pretendentes pais e explorar sua história através de conversas, jogos
oportunamente já de reduzirem diversas re- e narrativas” (Solon, 2008, p. 20).
flexões. Porém, o momento de maior apro- Conversar sobre a adoção com as crianças é
fundamento se dá quando a realização do um dos meios de se evitar situações que possam
curso reúne diversos pretendentes, cuja me- produzir comportamentos de desobediência, de
todologia é bastante dinâmica, procurando desafios da autoridade dos pais que podem ser
fomentar a troca de experiências. Além dis- comuns nestas situações. Para Weber (2010),
so, outro momento é quando chega o mo- este comportamento infantil se justifica, uma vez
mento do casal de receber a criança, pois que sua história pessoal lhe ensinou a desconfiar
a equipe de referência iniciará o acompa- das pessoas e também lhe apresentou o caminho
nhamento procurando estabelecer a apro- da rebeldia e da agressividade como estratégia
ximação de futuros pais e filhos, tudo em para interagir socialmente.
parceria com a equipe técnica do espaço de Entre os profissionais que afirmaram não
acolhimento (Pedagoga B, 53 anos). existir na instituição onde atuam este trabalho de
Conforme foi informado pelos participan- preparação da criança para a adoção, justificaram
tes, em um primeiro momento, a preparação se sua resposta destacando os seguintes pontos:
dá por meio da aproximação gradual da criança 1. O contato e a convivência com a criança nos
com a família que no futuro a acolherá, já, no abrigos confere aos técnicos dos espaços de
momento seguinte, esse processo de conheci- acolhimento a possibilidade de desenvolve-
mento prévio vai se estabelecendo mais e mais rem melhor esse tipo de trabalho.
na medida em que os adotantes são informados 2. Historicamente, esta tem sido uma atribui-
de fatos que marcam a sua vida pregressa e a sua ção quase que exclusiva dos profissionais
condição atual. É nessa ocasião que os profis- que atuam nos espaços de acolhimento ins-
sionais costumam lembrar aos adotantes que a titucional.
criança pretendida já tem uma história de vida, 3. Este procedimento é parte de uma política
ou seja, como pai adotivo terá que saber lidar nova e obrigatória, estando o corpo técnico
com o fato de que o filho que carrega nos bra- ainda em uma fase em que eles próprios pre-
ços traz consigo as marcas deixadas por situa- cisam ser preparados para saber lidar com as
ções emocionalmente negativas decorrentes de exigências teóricas e metodológicas por um
razões diversas (Fonsêca, Santos, & Dias, 2009), tipo de trabalho que tem necessariamente
326 Contente, S. R., Cavalcante, L. I. C., Silva, S. S. C.

caráter interdisciplinar e prevê a integração ná-la concreta e isso será um contínuo desafio
de serviços em rede. O depoimento a seguir para toda a equipe. Para aqueles profissionais
ilustra a extensão das preocupações colo- que avaliaram que a preparação de crianças ins-
cadas aos profissionais que são legalmente titucionalizadas para a vivência da adoção já é
responsáveis por essa forma específica de uma realidade na instituição pesquisada, trata-se
atuação junto a adotantes e adotados: então de apoiar o trabalho proposto em metodo-
“A preparação de crianças para adoção a logias que possam aperfeiçoa-lo e tornar a sua
ser realizada por técnicos da Vara da In- ação mais eficaz, sendo esta uma tarefa que vai
fância e Juventude e dos abrigos passou exigir o envolvimento de todos, independente de
a ser obrigatória com a Lei 12.010 /2009, sua formação acadêmica e área de atuação.
porém historicamente tal preparação sem- A questão sobre se houve ou não mudanças
pre foi atribuição da equipe interdisciplinar introduzidas com a Lei nº 12.010/2009 no quesi-
das entidades de acolhimento. No entanto a to preparação para adoção de crianças, pretendeu
equipe interdisciplinar da Vara deverá rea- deixar claro se no entendimento dos participantes
lizar as adequações necessárias para que a houve efetivamente alguma modificação neste
lei possa ser cumprida” (Assistente Social aspecto. Dentre os dez profissionais que respon-
B, 44 anos). deram à pergunta, seis afirmaram que houve mu-
Em consonância com (Figueiredo, 2010; danças e quatro alegaram que não houve. Os que
Gueiros, 2007; Motta, 2008; Solon, 2008; We- alegaram que houve mudança na forma como
ber, 2001, 2010), compreende-se que a Lei de o trabalho era realizado até então com crianças
Adoção nº 12.010/2009 é um instrumento ju- institucionalizadas que estavam disponíveis para
rídico novo e sua aplicação por ser obrigatória a adoção, consideram que a Lei nº 12.010/2009
tem gerado controvérsias e inquietações quanto inovou ao tornar esse tipo de trabalho que é uma
a melhor forma de assegurar todos os dispositi- responsabilidade conjunta dos analistas judiciá-
vos implicados. Entretanto, as consequências da rios e técnicos dos espaços de acolhimento ins-
ausência da preparação infantil para adoção não titucional. Antes, as respostas a essa preparação
são propriamente inéditas e sempre se tornaram eram dadas somente pelos abrigos infantis, tor-
mais visíveis quando há devolução de crianças nando-se agora uma responsabilidade também
por parte de adotantes no período do estágio de da 1ª Vara da Infância e Juventude de Belém. A
convivência familiar ou quando até a conclusão seguir, tem-se o trecho da avaliação feita por um
do processo judicial não se adaptaram, como o dos profissionais participantes da pesquisa que
esperado, ao novo ambiente familiar. A Lei de deixa claro esse ponto de vista.
Adoção nº 12.010/2009 é bem clara e objetiva ao “Sim, houve particularmente uma altera-
abordar a necessidade da preparação da criança ção formal que coloca essa preparação sob
para adoção, no entanto, muitos dos seus defen- a responsabilidade da Vara da Infância e
sores consideram que ainda será preciso algum Juventude, qual preferencialmente deverá
tempo até que sejam feitas as adequações neces- somar juntos aos abrigos. Embora a prepa-
sárias para que as instituições e os profissionais ração já ocorresse, a formalização da fun-
envolvidos consigam contemplar as demandas ção da Vara da Infância e Juventude exigiu
geradas por anos de um trabalho importante, mas o estabelecimento de um protocolo mínimo
que era realizado muitas vezes de forma casual para tal preparação considerando desde o
e desprovida de fundamentos teórico-metodoló- 1° contato com o abrigo até o período de
gicos, tal como observaram (Figueiredo, 2010; aproximação da criança ou adolescente
Gueiros, 2007; Motta, 2008; Solon, 2008; We- com a família pretendente a adotá-lo” (Pe-
ber, 2001, 2010). dagoga A, 29 anos).
Nesse sentido, para aqueles participantes Entre os entrevistados que disseram que não
que consideraram que a preparação infantil não houve mudanças, há o reconhecimento de que a
é realizada na esfera do judiciário, fica evidente Lei nº 12.010/2009 tornou obrigatório o trabalho
que agora será necessário buscar meios de tor- da preparação. Contudo, enfatizaram que para
Adoção e Preparação Infantil na Percepção dos Profissionais do Juizado da Infância 327

haver mudanças efetivas deve existir um traba- profissional se encontrem, mas embutido de
lho interdisciplinar, o que implica na elaboração uma especialização na área, previamente
de uma metodologia e um tipo de planejamento preparados para esse fim, sobre o que será a
que reúnam conhecimentos e gerem interfaces transição de uma família original para uma
entre diferentes olhares sob uma mesma questão. família substituta (nos casos das crianças
Esta perspectiva encontra apoio nas reflexões maiores de dois anos) uma vez que essas
trazidas por Solon (2008), ao comentar que a crianças já vivenciaram a convivência com
mudança gerada pela obrigatoriedade da prepa- a família original, conhecem seu histórico
ração infantil nos processos de adoção ainda não de vida” (Assistente Social E, 61 anos).
está em curso, sendo esperado que leve algum Sobre esta questão, Weber (2001) afirma
tempo até que possa ser percebida na forma e no que os estereótipos e preconceitos sociais são
ritmo estabelecidos na forma da lei. No presente sempre prejudiciais para as relações humanas
estudo, um trecho ilustra essa estimativa. e que no que dizem respeito à adoção é preci-
“. . . isso ainda não está ocorrendo porque so enfrentá-los com conhecimento e firmeza,
as crianças e adolescentes estão nos abri- procurando esclarecer os fatos corretamente,
gos e vamos esbarrar em problemas mate- divulgando dados confiáveis e debatendo com
riais, estruturais, administrativos, gestão de a sociedade aspectos que suscitam polêmicas e/
pessoas . . . ” (Assistente Social E, 61 anos). ou que são marcados por equívocos teóricos ou
jurídicos (por exemplo, a diferença entre guarda,
O Entendimento dos Profissionais tutela e adoção).
sobre o Significado da Preparação Estudiosos (Weber, 2001, 2010) preocupa-
de Crianças dos com a origem e os mecanismos de divulga-
Sobre o significado da preparação da crian- ção dos conhecimentos correntes sobre o tema
ça para a adoção, os dados dos questionários da adoção, além do sistema de crenças e valores
aplicados foram organizados em torno de qua- que estão na base de muitas das explicações for-
tro subcategorias, estando entre as mais citadas: muladas para aplacar dúvidas e fazer estimati-
orientação e esclarecimento sobre o tema da vas futuras quanto a essa forma de vinculação
adoção; desconstrução de mitos sobre a adoção; socioafetiva, consideram que preparar é acima
produto de um trabalho que envolve o adotado e de tudo informar, levar conhecimento, divulgar
o adotando; trabalho interdisciplinar que requer experiências e pontos de vista diferentes. Para
a atuação conjunta das equipes de técnicos do Solon (2008), a relação entre pais e filhos nes-
judiciário e dos espaços institucionais que acom- se contexto específico tende a se beneficiar de
panham os processos de adoção. iniciativas que visem lançar luzes sobre o fenô-
Orientação e Esclarecimento sobre o Tema meno da adoção em sua dimensão social, cultu-
da Adoção. Dentre os dez profissionais que con- ral e psicológica. De acordo com (Figueiredo,
tribuíram com a pesquisa, sete consideraram que 2010; Solon, 2008; Weber, 2010) preparar para
a preparação pode ser definida como orientação, essa transição tão importante na infância exige o
esclarecimento sobre o que é adoção e como fun- compromisso com a reprodução de informações
ciona, mas também remete à importância de se claras e precisas sobre o que é adoção e quais os
tornar mais claro o perfil das crianças que estão elementos e processos que lhes são constituintes.
vivendo nos espaços de acolhimento institucio- Desconstrução de Mitos sobre a Adoção.
nal e as implicações em termos teóricos e prá- Nesta subcategoria foram organizados conteú-
ticos. Em função disso, uma das participantes dos que afirmam ser a preparação infantil um tra-
da pesquisa arrolou como tarefas primordiais da balho que deve levar o profissional a desmontar
preparação para adoção o trabalho de orientação os mitos que cercam o tema da adoção. A neces-
e esclarecimento dos adotantes e dos adotados sidade da desmistificação foi muito citada pelos
acerca de questões gerais do tema. participantes da pesquisa pelo próprio caráter
“É a orientação e encaminhamento devido que a adoção apresenta há séculos, comumente
por parte de educadores, sejam de que área envolta em preconceitos e associada a vários ta-
328 Contente, S. R., Cavalcante, L. I. C., Silva, S. S. C.

bus, provocando inquietações e sofrimento àque- os dois lados (adotantes e adotados). “É preciso
les que pretendem adotar e os que desejam ter acreditar na promoção de cuidados que resguar-
uma família, como é o caso das crianças institu- dam e projetam as famílias envolvidas na ado-
cionalizadas. O trecho a seguir lembra mitos que ção, e também a criança, esse sujeito de direitos
sempre estiveram ligados à experiência de toda que quase sempre é deixado em segundo plano”
e qualquer forma de adoção, mas que vêm ga- (Weber 2010, p. 17). Alguns trechos das respos-
nhando maior visibilidade no momento em que tas dos participantes da pesquisa enfatizaram
a sociedade contemporânea debate as certezas que a preparação precisa envolver adotantes e
e incertezas que se têm até o momento quanto adotados.
à experiência das formas menos tradicionais de “Preparação para adoção cabe tanto aos
adoção cada vez mais presentes nos dias de hoje. pretendentes a pais quanto a crianças e
“Precisam ser esclarecidos de alguns pon- adolescentes que aguardam acolhimento
tos, como: mitos e verdades sobre adoção a familiar” (Socióloga A, 59 anos).
revelação os tipos de adoção, mono-paren- Desse modo, a preparação infantil para a
tais, homo-afetivas, unilaterais, inter-ra- adoção deve ser vista como o resultado de um
ciais, tardias, etc...” (Psicóloga A, 50 anos). trabalho que reconhece o lugar importante ocu-
Isso talvez possa estar relacionado ao fato de pado pelos adultos que assumem o papel paren-
que o preconceito é perceptível desde os tempos tal nesse processo (Weber, 2001), mas também
antigos quando se trata de adoção e está relacio- reconhece de forma inovadora a centralidade do
nado à falta de conhecimento do que compreen- papel da criança nessa família que está em for-
de essa modalidade de família. Para os autores, mação (Solon, 2008). Isso significa pensar que
“Até há pouco tempo, o assunto adoção era sus- os profissionais precisam ter claro qual a con-
surrado e não falado a plena voz pelas pessoas cepção de família que está em questão no dis-
de nossa sociedade. Ser chamado de ‘adotivo’ curso de quem pretende adotar e igualmente de
era até ofensivo, frente ao despreparo com que o quem quer ser adotado.
tema adoção era tratado” (CeCIF, 2002, p. 11). A preparação para adoção representa um
A forma como essa experiência de convívio momento em que se deve trabalhar as idéias e
em família e vinculação socioafetiva tem sido expectativas que os sujeitos envolvidos têm
encarada historicamente pode ser representada acerca do que é viver em uma família e o que é
pelos silêncios apontados pela literatura (Guei- fazer parte de uma. Nesse momento, vê-se como
ros, 2007; Motta, 2008; Solon, 2008; Weber, indispensável reforçar a noção de que essa con-
2001, 2010) que sempre imperaram quando o figuração familiar não é artificial apenas porque
assunto era adoção. Provavelmente, por isso, contrasta com a forma natural de se vincular pais
suas questões cruciais ficaram por muito tempo e filho, mas porque se trata hoje de uma moda-
expostas a explicações míticas e formas obscu- lidade de viver em família absolutamente legíti-
ras de lidar com as dúvidas que lhe acompanham ma, que conta com proteção da lei e se legítima
desde a sua origem e evolução em diferentes so- por meio dessa convivência em família, sendo
ciedades humanas. este um direito garantido conforme apontam e
Produto de Um Trabalho que Envolve Ado- discutem os próprios regimes jurídicos e políti-
tados e Adotantes. A expectativa que se cria dos cas públicas (Figueiredo, 2010; MDS, 2009).
dois lados que estão envolvidos no processo de Trabalho Interdisciplinar. Durante a análi-
adoção não pode ser descartada, uma vez que se dos dados foi possível perceber que o traba-
tanto o adotado quanto o adotante têm perspec- lho de preparação da criança institucionalizada
tiva de compor uma nova família ou laços de fi- para adoção deve ser desencadeado no âmbito
liação. Com isso, no processo de adoção surgem do judiciário, mas de forma simultânea e inte-
sentimentos de ansiedade, felicidade e desejo grada com os espaços de acolhimento institu-
de construir uma família, que, segundo Weber cional. Neste procedimento, é imprescindível
(2001), por guardarem semelhança fazem com que a equipe trabalhe de forma interdisciplinar
que a preparação deva envolver necessariamente para que ocorra a interação entre os órgãos que
Adoção e Preparação Infantil na Percepção dos Profissionais do Juizado da Infância 329

concretizam a adoção: Juizado e Abrigo. As si- destacado no trecho da resposta dada por uma
tuações peculiares que cada criança apresenta das participantes da pesquisa:
devem ser trabalhadas tanto pelo espaço de aco- Penso que essa preparação só poderá ser
lhimento onde a criança convive diariamente, realizada com diálogo entre as equipes
quanto pela instituição que é responsável pelos técnicas dos abrigos e da 1ª Vara da Infân-
tramites legais. Alguns dos conteúdos selecio- cia, mas com um envolvimento profissional
nados nas respostas presentes nos questionários maior na preparação das crianças maiores,
mostraram que este processo dinâmico e com- que continuam nos abrigos aguardando por
plexo tem que ser desenvolvido gradativamente, uma família. (Psicóloga A, 50 anos)
mas sempre na perspectiva da realização de um Em outros trechos também se percebe uma
trabalho coletivo. Dessa maneira, pode ser pos- tendência a destacar a necessidade da realização
sível pensar em uma efetiva preparação. Ou seja, de trabalhos em conjunto por parte das institui-
preparar é envolver e integrar as equipes de tra- ções envolvidas, de interações entre os profissio-
balho que tem objetivos comuns, capacitando- nais, da troca de informações sobre o processo
-as para buscar contemplar todas as demandas de adoção, ou seja, uma parceria profissional que
derivadas desse segmento e do processo adotivo oriente em uma mesma direção a preparação da
como um todo. criança para essa importante transição a ser vivi-
Em relação às crianças dos abrigos, en- da na infância. Esse trabalho em conjunto é ilus-
tendo que a preparação deve ser realizada trado na publicação 101 Perguntas... (CeCIF,
pela equipe técnica do abrigo juntamente 2002) ao argumentar sua importância principal-
com a do Juizado da Infância, pois a partir mente quando se trata de adoções internacionais,
do momento que os profissionais dos abri- em que se deve envolver auxílios metodológi-
gos preparam o estudo da situação de uma cos para o enfrentamento das dificuldades que
criança ou adolescente sugerindo que o Mi- certamente surgirão quando se trata de crianças
nistério Público peça a destituição do poder institucionalizadas para adotantes estrangeiros.
familiar dos pais destes é porque chegaram Acompanhamento Psicológico para as
à conclusão que esses já se esgotaram as Crianças. Dois dentre os dez entrevistados ale-
possibilidades dessa criança ou adolescente garam haver em alguns casos a necessidade de
permaneça nos seio de sua família de ori- assegurar à criança desde o início acompanha-
gem. (Psicóloga A, 50 anos) mento psicológico. Argumentam, conforme
pode ser visto também na literatura (CeCIF,
Propostas para a Preparação Infantil 2002; Weber, 2010), que a falta desse acompa-
Esta questão foi essencial para se compre- nhamento pode estar correlacionada a existência
ender a visão desses profissionais e como po- de adoções frustradas e mal sucedidas que mui-
deria ser realizado o trabalho de preparação das tas crianças acabam por vivenciar, permitindo
crianças para a vida em um lar adotivo, pois pa- que estas criem resistência que dificultam e às
rece não existir até o momento uma metodologia vezes impedem a sua inserção e completa adap-
padronizada, ou melhor, que se paute pelos dis- tação ao novo contexto familiar.
positivos legais capazes de lançarem luz sobre “Nos casos em que a resistência é inter-
a matéria da adoção. Dentre as categorias mais na e/ou houve histórico de aproximação
citadas, estão: ou convivência com família pretendente a
Diálogo Entre a Equipe dos Abrigos e a adoção mal sucedida, é possível que enca-
Equipe do Juizado. Dentre seis dos dez entrevis- minhamento psicossocial seja necessário e
tados, estes ratificaram que deve haver a intera- constitua-se como parte do processo de pre-
ção, o trabalho em parceria, a participação ativa paração” (Pedagoga A, 29 anos).
e integrada, as ações articuladas com planeja- Os acompanhamentos psicológicos são ne-
mento e metodologia de trabalho comum entre cessidades advindas de traumas, situações viven-
as instituições envolvidas da área sociojurídica ciadas pelas crianças, que deixaram sequelas que
e da política de proteção social. Isso fica mais precisam ser trabalhadas, para que estas tenham
330 Contente, S. R., Cavalcante, L. I. C., Silva, S. S. C.

capacidade de aceitar e receber os pais adotivos Para os profissionais participantes da pes-


em suas vidas. É interessante notar que alguns quisa, é necessário proporcionar espaços em que
desses traumas estão relacionados à violência e à as crianças possam expressar seus sentimentos,
rejeição por sua família biológica, enquanto que bem como situações de negligência que expe-
outros são inerentes à rejeição sentida em uma rimentaram, mas levando em consideração sua
adoção frustrada. Motta (2008) ressalta que an- idade para que o trabalho de prepará-las este-
tes de se falar sobre devoluções, situação sempre ja em sintonia e possa respeitar genuinamente
delicada para as crianças, é preciso colocar em o que elas tenham vivido com outras famílias
pauta a preparação dos pais pretendentes. Para (biológicas, extensas) ou em outros espaços de
a autora, a questão da devolução revela experi- acolhimento. Ou seja, segundo discutem (Solon,
ências traumatizantes que atingem diretamente a 2008; Weber, 2010), trata-se de ser capaz de atri-
autoestima da criança, sua crença de ser alguém buir a elas o direito de participar desse processo,
de quem se possa gostar e a quem se possa amar. de serem ouvidas, de poder falar de sua própria
Respeito à Voz das Crianças. Dar voz e ge- vida, antes, durante e após a adoção.
rar oportunidade para que as crianças possam se “Na metodologia de trabalho devem es-
expressar foi um dos aspectos citados no âmbito tar incluídos recursos lúdicos (construção
das propostas capazes de promover a preparação de histórias, fantoches, desenhos, etc.) de
para adoção. Dentre os dez, três profissionais acordo com a faixa etária da criança, con-
afirmaram que há necessidade dessa compre- siderando ainda seu desenvolvimento inte-
ensão para que as crianças entendam a adoção, lectual e emocional. Deve gerar reflexões
ainda que em um nível compatível com o seu sobre sua história de vida, potencialidades,
desenvolvimento. Mas, para que isso ocorra é as diversas configurações de família, além
importante utilizar recursos lúdicos conforme do direito a convivência e seus benefícios,
sua faixa etária, uma vez que dar voz às crian- apresentando a adoção como uma possi-
ças é uma atitude que poderá desmistificar a pró- bilidade de garantia desse direito. Deve
pria utilização da noção de infância que ainda ainda considerar a criança como sujeito de
se faz presentes nos dias de hoje. O significado direitos, partícipe do seu projeto de adoção,
etimológico da palavra infância remete à repre- considerando seus anseios e temores” (As-
sentação daquele que não fala. Então, é preci- sistente Social D, 44 anos).
so desconstruir esse significado que se manteve Reflexão sobre a Família Adotiva. Estimu-
forte durante séculos para poder reconhecer que lar a reflexão da criança diante de suas expec-
as crianças são sujeitos de direitos e, portanto, tativas em relação à família foi um dos fatores
segmento que precisa ter voz e compreensão, citados por quatro dentre os dez entrevistados.
principalmente, quando se trata da decisão de Seus argumentos levaram em conta a dificuldade
viver em família substituta. Conforme Kramer da criança (já com algum entendimento sobre o
et al. (2008) é ouvir os ditos e os não ditos das que é família e a condição de abandono e rejei-
crianças. Mas, infelizmente, como também re- ção na infância) em aceitar a nova família, bem
conhece Solon (2008), as crianças não têm tido como a edificação de novos vínculos, o afasta-
muitas oportunidades de serem consultadas para mento de seus amigos e dos cuidadores do es-
falar sobre suas vidas, sendo um direito recente paço de acolhimento institucional. Igualmente, é
e contemporâneo a oportunidade de participar de a idealização das crianças em relação à família
decisões que envolvam sua vida, como pode ser adotiva, pois os profissionais alegam que essas
reconhecida a adoção. questões todas devem ser trabalhadas com entre-
Assim, proporcionar momentos para que a vistas conjuntas com as crianças e os pais adoti-
pessoa adotada possa falar sobre sua histó- vos, com a finalidade de explorar seus receios e
ria, ao longo de toda a vida, parece ser uma temores, além de estabelecimentos de normas a
maneira favorável de ajudá-la no seu pro- serem seguidas. A seguir, um trecho da resposta
cesso de construção de identidade (Solon, dada por um dos profissionais acerca da questão
2008, p. 155). em tela:
Adoção e Preparação Infantil na Percepção dos Profissionais do Juizado da Infância 331

“Poderia realizar-se através de entrevis- cação às expectativas da criança, pois elas podem
tas individuais com a criança, e entrevistas associar a família idealizada como aquela que a
conjuntas com os futuros pais e a criança, maltrata, ou seja, suas expectativas podem estar
estimulando a reflexão da criança sobre nos aspectos de negatividade que sofreu com a
suas expectativas em relação à família com família biológica que não pôde dar ou não per-
quem irá viver seus temores e esperanças mitiu que esta se desenvolvesse em um ambiente
em relação à nova vida sobre a família que acolhedor. Outro aspecto que Solon (2008) cita
idealiza e a família, adultos e crianças têm é que algumas crianças procuram silenciar o pas-
objeções e deveres, e regras a serem obede- sado, não se sentem à vontade para falar sobre
cidas” (Assistente Social A, 39 anos). a sua vida pregressa, seja na família de origem
Em sua pesquisa Solon (2008) ressalta que ou na instituição em que se encontravam, o que
existem vários contextos que se interligam ao pode representar a necessidade de trabalhar seu
processo de adoção tardia, e que as crianças, por próprio percurso até chegar à família adotiva,
sua vez, mostram-se impotentes diante dessas procurando saber até que ponto sua trajetória de
decisões tomadas pelos diferentes sujeitos (pais vida está comprometendo a imagem dos preten-
adotivos, técnicos e autoridades do judiciário, dentes à adoção e da família que está em forma-
instituições de acolhimento), sendo que muitas ção a qual irá pertencer.
delas nem compreendem o que ocorre ao longo
do seu processo de adoção, devido à inexistên- Considerações Finais
cia de informações detalhadas de como será essa
nova vida em família adotiva. A autora ressal- Os dados da pesquisa esclarecem vários
ta também que, a história das relações que as aspectos no que tange a preparação de crianças
crianças construíram por onde passaram se cons- para adoção. Ao analisar os dados coletados, é
tituem em vínculos de aprendizagem, de afeto, nítido que o trabalho não é unilateral, não pode
fazem parte de suas vivências e é citado pelas ser operacionalizado de maneira fragmentada e
próprias crianças como fator necessário. assistemática pelos profissionais envolvidos no
Além disso, Solon (2008) acrescenta que as processo de adoção. Ao contrário, tem que estar
crianças ao falarem do seu processo de adoção em prol da interatividade coletiva entre os profis-
mencionam o abrigo como um lugar de passa- sionais que trabalham com adoção. É inerente ao
gem e com características negativas, como es- processo de preparação para a adoção, o trabalho
clarece uma das entrevistadas pela autora em sua com os pais adotivos e com a criança. No proces-
pesquisa: “a adoção só acontece porque é ruim so de preparação para a adoção, o lugar ocupado
ficar no abrigo” (p. 152). Nessa perspectiva, pela criança é central e demanda a necessidade
observa-se que as crianças não têm uma refle- de conectar sua história de vida, seus sentimen-
xão sobre a família adotiva e sua história de vida tos e suas perspectivas em relação à família ado-
não foi trabalhada, por isso entendem que devem tiva. Segundo, a preparação deve compreender a
deixar o abrigo por ser um ambiente de aspectos criança na centralidade da discussão, que pode
negativos e não por outros motivos igual ou mais se refletir em um trabalho interdisciplinar entre
importante, como por exemplo, ter uma família as instituições que operacionalizam a adoção.
ou exercer o direito de convivência familiar. Pensar na preparação e não ter em vista a
Desta forma, entende-se que a criança por si criança como a protagonista da sua história,
só fantasia várias situações em sua vida e certa- o sujeito principal deste processo, implica na
mente idealiza, realçando tanto aspectos positi- fragilidade da adoção, ou seja, estar exposta a
vos como negativos, também em relação à família resistências que a criança possa apresentar em
adotiva. Nesse momento, assim como aponta a relação à inserção na família adotiva. Conclui-se
literatura do tema (Gueiros, 2007; Motta, 2008; que a preparação envolve a história de vida das
Solon, 2008; Weber, 2001, 2010) os profissio- crianças e uma aproximação gradativa e respei-
nais consideram que deve haver atenção e dedi- tável diante das condições emocionais e de mo-
332 Contente, S. R., Cavalcante, L. I. C., Silva, S. S. C.

radia apresentadas pelo adotado. Deve-se, por tivos apresentados para aqueles que consideram
isso, informar aos futuros pais adotivos que além que o trabalho inexiste no órgão do Judiciário,
de adotar a criança, sua história de vida também porque não havia essa determinação legal.
deve ser acolhida, existindo cautela em sua in- Deve existir nos trabalhos realizados pelas
serção na família substituta. equipes tanto do Juizado como nos espaços de
Os profissionais se dividiram ao conceitu- acolhimento uma metodologia elaborada em
ar a preparação. Para uns, requer uma parceria conjunto pelos profissionais, que envolva tanto a
de trabalho entre as equipes, para outros é um criança quanto os pais. Tem que haver essa pon-
processo que envolve os pais e os filhos con- te de ligação na elaboração de uma metodologia,
comitantemente, já para alguns diz respeito ao de forma sistemática e metodológica para que o
esclarecimento, a desmistificação do processo. trabalho em prepará-las seja eficaz.
Entretanto, poucos levaram em consideração Por mais que esteja em processo de opera-
que preparar a criança é trabalhar sua vida, so- cionalização como indicam os resultados da pes-
bretudo, trabalhar cada peculiaridade de seu quisa, a preparação das crianças tem que estar
mundo. O acompanhamento e a preparação são em sintonia com uma busca por entender mais
ferramentas de enfrentamento as dificuldades sobre este fenômeno, não devendo ser deixado
que podem surgir na inclusão da criança na fa- para depois. Essa busca tem que ser compreen-
mília substituta, por consequência da história dida, estudada e aprimorada. Diante das afirma-
de abandono, rejeição e maus-tratos, além da ções dos sujeitos sobre a existência ou não do
questão da institucionalização prolongada que trabalho de preparar, o desafio da equipe será o
acaba interferindo no seu desenvolvimento psi- de torná-lo visível e com reflexos de desenvol-
cossocial. vê-lo metodologicamente. Isso quer dizer que
Para alguns dos profissionais entrevista- a metodologia deve ser pensada para esse fim
dos a preparação é real e para outros ainda não e deverá ser responsável por tornar a realização
existe. Percebe-se que ainda não existe uma pa- desse trabalho viável e eficaz, envolvendo a dis-
dronização nas conformidades do que propõe a cussão e atuação em conjunto dos profissionais
Lei nº 12.010/2009 ao elucidar que essa prepa- que materializam a adoção no seu dia-a-dia nos
ração deve existir e ser gradativa para crianças seus espaços de atuação.
em situação de institucionalização prolongada.
Baseando-se na literatura científica, conclui-se Referências
que a preparação de fato não existe, há alguns
pontos que a compõem, trata-se de um conjun- Andrade, R. P., Costa, N. R. A., & Rossetti-Ferreira,
to de fatores e condições capazes de assegurar M. C. (2006). Significações de paternidade ado-
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para infância e a juventude. Fractal: Revista de
a nova vida a outro tipo de convivência, dentre
Psicologia, 21(1), 125-136.
outros aspectos. Nem todos esses fatores de tra-
balho estão sendo ativados em conjunto, por isso Beckett, C., Maughan, B., Rutter, M., Castle, J., Col-
vert, E., Groothues, C., ...Sonuga-Barke, E. J. S.
há de se afirmar que essa preparação representa
(2006). Do the effects of early severe depriva-
um processo incipiente.
tion on cognition persist into early adolescence?
Outrossim, é notório que a leitura da reali- Findings from the English and Romanian Adop-
dade trazida pelos sujeitos mostra que até hoje tees Study. Child Development, 77(3), 696-711.
a preparação tem sido desempenhada somente
Cavalcante, L. I. C., & Magalhães, C. M. C. (2012).
pelos abrigos, sendo esta atividade recentemente Relações de apego no contexto da institucionali-
assumidas pelos profissionais da 1ª Vara da In- zação na infância e da adoção tardia. Psicologia
fância e Juventude de Belém. Este é um dos mo- Argumento, 30(68), 75-85.
Adoção e Preparação Infantil na Percepção dos Profissionais do Juizado da Infância 333

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