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HISTÓRIA E FUNDAMENTOS
DA FISIOTERAPIA

autores do original
SANDRA HELENA MAYWORM

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2016
Conselho editorial  sergio cabral , roberto paes e gladis linhares 

Autores do original  sandra helena mayworm

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  gladis linhares

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  allan augusto gadelha

Revisão linguística  aderbal torres

Revisão de conteúdo  sandra helena mayworm

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2015.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

M4559h Mayworm, Sandra Helena.


História e fundamentos da fisioterapia. Sandra Helena Mayworm.
Rio de Janeiro : SESES, 2016.
139 p.: il.

ISBN 978-85-5548-249-6

1. Prevenção. 2. Saúde funcional. 3. Recursos fisioterapêuticos.


I. SESES. II. Estácio.
CDD 615.82

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário

1. Conceito e Evolução Histórica da Fisioterapia 9

Apresentação do Capítulo
Objetivos da sua aprendizagem
1 Conceito de Fisioterapia 12
1.1 História da Fisioterapia no mundo 13
1.2 A Fisioterapia no Brasil 19
Atividade 31
Referências 32

2. Formação Acadêmica - o primeiro passo para o


Mercado de Trabalho 33

Apresentação do Capítulo
Objetivos da sua aprendizagem
2 Introdução 35
2.1 Diretrizes Nacionais Curriculares para o curso de Fisioterapia 38
2.2 O Projeto Pedagógico do Curso 43
Atividade 50
Referências 50

3. Conhecendo sua legislação 52

Apresentação do Capítulo
Objetivos da sua aprendizagem
3 Breve reflexão sobre a legislação e a autonomia profissional do fisioter-
apeuta 54
3.1 O Decreto-lei 938/69 - legitimando a profissão 55
3.2 Criação do Conselho Federal de Fisioterapia de Terapia Ocupacional
(Coffito), Conselhos Regionais de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Crefi-
tos) e algumas resoluções. 58
3.3 Código de Ética do fisioterapeuta | RESOLUÇÃO Nº 424, DE 08 DE
JULHO DE 2013 66
3.4 Diferenciações nas funções do Coffito e dos Crefitos e entidades clas-
sistas e culturais do fisioterapeuta 68
3.5 Conselho Federal de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional | COFFITO
68
3.6 Conselhos Regionais de Fisioterapia e Terapia Ocupacional | Crefitos
69
Referências 71

4. Recursos Fisioterapêuticos 74

Apresentação do Capítulo
Objetivos da sua aprendizagem
4 Termoterapia 75
4.1 Crioterapia 78
4.2 Fototerapia 80
4.3 Eletroterapia 82
4.4 Galvanização e iontofonese 82
4.5 Eletroestimulação funcional 84
4.6 Corrente russa 84
4.7 Neurostimulação sensorial transcutânea 85
4.8 Microcorrentes 85
4.9 Cinesioterapia 86
4.10 Recursos Terapêuticos Manuais 90
4.11 Hidroterapia e hidrocinesioterapia 91
Atividade 93
Referências 94

5. Locais de Intervenção Fisioterapêutica e Áreas de


Atuação do Fisioterapeuta 96

Apresentação do Capítulo
Objetivos da sua aprendizagem
5 Locais de ações e intervenções fisioterapêuticas 98
5.1 Fisioterapia Clínica 110
5.2  Saúde Coletiva 113
5.3 Educação 115
5.4  Outras atividades 116
5.5  Exigências Legais 117
Atividade 117
Referências 118

6. Recursos Fisioterapêuticos 120

Apresentação do Capítulo
Objetivos da sua aprendizagem
6 Educação Continuada 122
6.1 Especialidades na Fisioterapia 125
Atividade 134
Referências 134
Apresentação
Prezado(a) aluno(a),

Desde sua regulamentação como profissão no Brasil (em 1969), a Fisioterapia


vem crescendo no país e abrangendo cada vez mais outras áreas da Saúde.
Para entender o papel da Fisioterapia na atual sociedade brasileira, bem como as
responsabilidades e os desafios pertinentes a essa prática, é necessário compreender
o conceito dessa disciplina, os requisitos para a formação do fisioterapeuta, a legis-
lação que rege a conduta desse profissional e, por fim, sua empregabilidade no país.
A fim de esclarecer essas e outras questões tão relevantes, este livro foi escrito
para, de maneira ampla e autônoma, apresentar-lhe a história e os fundamentos da
Fisioterapia.
Definida no primeiro capítulo como uma ciência que estuda, previne e trata os
distúrbios cinéticos funcionais em órgãos e sistemas do corpo humano, a Fisioterapia
atua nos três níveis de atenção à saúde – na atenção básica, na média complexidade e
na alta complexidade –, baseando suas ações em mecanismos terapêuticos próprios.
No entanto, nem sempre essa ciência teve um campo de atuação tão abrangente
quanto o de hoje. Na década de 1980, por exemplo, nós, fisioterapeutas atuávamos
exclusivamente nas áreas traumato-ortopédica, reumatológica, neurofuncional e
respiratória.
Nos anos 1990, começamos a participar efetivamente na Fisioterapia despor-
tiva e adentramos as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), atuando também nas
Unidades Coronarianas e marcando cada vez mais nossa presença na Fisioterapia
cardiofuncional.
Naquela mesma época, foi instituído no país o Sistema Único de Saúde (SUS),
que implementou novas estratégias para a promoção e a prevenção da saúde, fun-
damentais à reorientação dos modelos assistenciais. Nesse contexto, criou-se tam-
bém a proposta da Estratégia da Saúde da Família (ESF) e o Núcleo de Apoio à Saúde
da Família (Nasf).
De lá para cá, a sociedade brasileira passou por diversas transformações. Es-
pecificamente no que diz respeito ao atual cenário epidemiológico, algumas con-
dições apresentam maior potencial para a limitação da capacidade funcional da
nossa população, entre elas: as patologias relacionadas ao aparelho cardiocircula-
tório, às causas externas e ao aumento da população idosa; o elevado crescimento
populacional; o aumento da taxa de urbanização; e a crescente expectativa de vida.
Além desses fatores, que caracterizam a transição demográfica brasileira, o
Brasil passa por mudanças significativas em seu perfil nutricional, com a gradativa
superação da fome endêmica e epidêmica e o crescente número de obesos. Nesse
sentido, as principais preocupações – antes a fome e a desnutrição – passam a ser o
sobrepeso e a obesidade.
Como, porém, praticar essa ciência em meio a tantas transformações? Essa é
uma questão a ser considerada, e tais mudanças preocupam-nos bastante, visto
que o excesso de peso é um importante fator de risco para hipertensão, diabetes e
hipercolesterolemia, que podem levar a disfunções investigadas pela Fisioterapia.
Também devemos levar em conta as mudanças socioeconômicas que têm im-
pactado profundamente o trabalho do brasileiro. Entre elas, destacam-se a implan-
tação da gestão pelo estresse, a crescente intensidade de tarefas, o aumento da
pressão, do controle, da responsabilização, da competição entre os trabalhadores
e das sobrecargas mental e emocional. Crescem e diversificam-se os tipos de sofri-
mento e o número de doenças ligadas ao exercício do trabalho: fadiga generalizada,
dores musculares, estresse, ansiedade, angústia, depressão, medo, esgotamento
profissional (síndrome de Burnout), síndrome do pânico, problemas cardíacos e
lesão por esforço repetitivo (LER), também chamada Distúrbio Osteomuscular Re-
lacionado ao Trabalho (Dort).
Frente a todas essas transformações, de que maneira o fisioterapeuta deve agir?
No segundo capítulo, discutiremos essa questão apresentando a importância do
conhecimento, das competências e habilidades desse profissional, tendo como
base as Diretrizes Nacionais para sua formação.
A saúde funcional é o objetivo da atenção fisioterapêutica. Por esse motivo, o
Conselho Federal de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional (Coffito) – juntamente
com outros Conselhos Federais da área da Saúde – trabalha na elaboração de uma
proposta de Política Nacional de Saúde Funcional, discutida e provavelmente im-
plementada pelo Governo Federal.
Transformações na sociedade sempre ocorrerão, e o fisioterapeuta deverá estar
preparado para acompanhá-las.
Que os estudos propostos neste material o instigue a muitas reflexões, mas não
esgotem de maneira alguma o tema, em decorrência de a profissão ainda ser muito
recente. Por fim, que os assuntos discutidos aqui possam contribuir para sua prá-
tica profissional na Fisioterapia e, principalmente, que ao concluir o curso dessa
disciplina, você alcance os objetivos propostos em seu plano de ensino.
Bons estudos!
1
Conceito e Evolução
Histórica da
Fisioterapia
Apresentação do Capítulo

A Fisioterapia é uma profissão relativamente nova no cenário da Saúde bra-


sileira – em 2015, completa 46 anos de sua regulamentação no país, a partir do
Decreto-lei n° 938/69. Por essa razão, há indícios de que as primeiras experi-
ências exerçam ainda forte influência em suas práticas profissionais, em seu
campo de trabalho e na perspectiva com a qual essa profissão é vista pela so-
ciedade. A formação que valorizou (ou ainda valoriza?) o estudo da doença, os
tratamentos individuais e a ocupação profissional quase sempre em clínicas de
reabilitação, hospitais e consultórios, associada às raízes históricas, traz-nos
um novo desafio: entender a Fisioterapia como ciência aplicada nos três níveis
de complexidade da saúde (atenção básica, média e alta complexidades), em
espaços assistenciais mais próximos da comunidade, com atendimentos indi-
viduais e coletivos.

Enxergar-nos em postos de saúde, escolas, empresas, centros sociais urba-


nos obriga-nos a refletir sobre a trajetória dessa profissão no Brasil, relacionan-
do-a com os embasamentos teóricos que marcaram suas práticas assistenciais
e, consequentemente, delimitaram do seu campo de trabalho.

Partindo dessas considerações, apresentamos neste capítulo o conceito de


Fisioterapia e sua trajetória histórica no mundo e no Brasil, bem como a influ-
ência desse processo na definição do seu campo de trabalho – desde as primei-
ras citações até a regulamentação da profissão.

OBJETIVOS
•  Apresentar o conceito de Fisioterapia;
•  Apresentar a processo histórico da Fisioterapia no mundo e no Brasil;
•  Relacionar o processo histórica da profissão ao seu conceito e reconhecimento.

capítulo 1 • 11
1  Conceito de Fisioterapia
Ciência da saúde que estuda, previne e trata os distúrbios cinéticos funcio-
nais intercorrentes em órgãos e sistemas do corpo humano, gerados por alte-
rações genéticas, por traumas e por doenças adquiridas, na atenção básica,
média complexidade e alta complexidade. Fundamenta suas ações em meca-
nismos terapêuticos próprios, sistematizados pelos estudos da Biologia, das
ciências morfológicas, das ciências fisiológicas, das patologias, da Bioquímica,
da Biofísica, da Biomecânica, da cinesia, da sinergia funcional, e da cinesia pa-
tológica de órgãos e sistemas do corpo humano e as disciplinas comportamen-
tais e sociais (COFFITO, 2013).
A partir desse conceito, podemos concluir que a Fisioterapia:

• Muito além de uma profissão, é uma ciência e, como tal, baseia-se em pes-
quisas desenvolvidas na área e está sempre em evolução;

• Não somente trata, mas também estuda e promove a saúde funcional,


além de prevenir distúrbios funcionais. Além disso, trata recuperando funções
de órgãos e sistemas de todo o corpo humano;

• Tem como objeto de estudo a cinesia, o movimento relacionado à função


de órgãos e sistemas do corpo humano. Por isso, nosso diagnóstico é chamado
diagnóstico cinesiológico funcional (o qual estudaremos mais adiante);

• Age nos cuidados à saúde do indivíduo nos três níveis de complexidade.


Além de atuar individual ou coletivamente na atenção básica de promoção da
saúde, com ações educativas, e na prevenção de disfunções, também participa
da atenção à saúde nas complexidades média e alta – ações essas mais conhe-
cidas pela sociedade. (Em capítulos posteriores, aprofundaremos nosso conhe-
cimento nos níveis de complexidade de atenção à saúde.);

• Faz uso de mecanismos terapêuticos próprios, com base nas ciências bá-
sicas. Para isso, adota procedimentos relacionados ao conhecimento de recur-
sos físicos e naturais, de ação isolada ou conjunta, como eletroterapia, masso-
terapia, crioterapia, termoterapia, hidroterapia, fototerapia, mecanoterapia e
cinesioterapia (sobre os quais discutiremos no Capítulo 4);

12 • capítulo 1
• Tem como referência o modelo biopsicossocial, com visão global do as-
pecto físico dos sistemas do corpo humano, além dos comportamentais e so-
ciais. A Fisioterapia proporciona uma visão integral do ser e do adoecer, que
compreende as dimensões física, psicológica e social. Além das habilidades
técnico-instrumentais, é importante, no seu diagnóstico, a interação dos fato-
res sociais, psicológicos e biológicos, para avaliação do estado de saúde da pes-
soa e orientação se necessário, além da prescrição e do tratamento adequado.

“A Fisioterapia, em sentido amplo, é a ciência que estuda o movimento humano. Com


o sentido restrito à área de saúde, está voltada para o entendimento da funcionalidade
humana. Ela estuda, diagnostica, previne e trata os distúrbios funcionais, entre outros,
da cinesia humana decorrentes de alterações de órgãos e sistemas humanos. É a área
de atuação do profissional formado em um curso superior de Fisioterapia. O fisiotera-
peuta é capacitado a avaliar, reavaliar, emitir ou prescrever o diagnóstico fisioterapêu-
tico, prognóstico, prescrição, intervenção e alta, dentro de sua tipicidade assistencial”
(RESOLUÇÃO COFFITO nº 8 e nº 80, 1975).

Enquanto profissão, a Fisioterapia tem importância cada vez mais signi-


ficativa na Saúde moderna. Do ponto de vista científico, tem acumulado co-
nhecimento e experiências diversas, resultantes de investigações, pesquisas e
práticas nas suas diferentes áreas de atuação. Isso possibilita sua consolidação
como Ciência da Saúde, mostrando o seu real valor e sua necessidade como
interventora no processo de promoção, manutenção e recuperação da saúde
da população. À medida que as sociedades evoluem, surge a preocupação real
com a educação e a saúde. Nas sociedades modernas, realmente é necessário
manter a qualidade de vida e principalmente, de saúde. Essa preocupação que
se manifestava, inicialmente, apenas na fase terciária (de alta complexidade)
e secundária (de média complexidade), vai se transformando com o tempo e
demonstrando uma real intervenção no aspecto primário (de atenção básica)
da saúde.

1.1  História da Fisioterapia no mundo

A Fisioterapia é uma arte milenar, praticada desde os nossos antepassados,

capítulo 1 • 13
mais precisamente desde a Idade da Pedra (Figura 1), quando o homem pré
-histórico buscava o sol e regatos com águas cristalinas e frias não apenas para
consumo, mas também para tratamento a fim de amenizar um sofrimento,
uma dor. A utilização de recursos físicos, bem como de água, luz, eletricidade,
calor, frio e o movimento, tem contribuído bastante e há um longo tempo para
a promoção, preservação e recuperação das condições de saúde funcional das
populações. Esses são os chamados recursos fisioterapêuticos.

Tão antiga quanto o homem, a Fisioterapia surgiu com nossos ancestrais –


em suas as primeiras tentativas de abrandar a dor esfregando o local dolorido
– e evoluiu ao longo da história da humanidade com a sofisticação, principal-
mente, das técnicas de exercícios terapêuticos (no passado, largamente adota-
das na recuperação dos soldados feridos na Grécia antiga e como ginástica de
manutenção da saúde em Esparta).

“Quando um homem se machucava durante a caça ou luta, ele esfregava o local com as
mãos, para aquecê-lo, e mergulhava o membro machucado na água para aliviar a dor.
Esses são, na verdade, os dois princípios básicos da Fisioterapia seguidos até hoje: a
massoterapia (massagem com as mãos) e a hidroterapia (tratamento com água).”

Figura 1. A vida do homem em uma aldeia neolítica.

Na Antiguidade, período compreendido entre 4.000 a.C. e 395 d.C., era gran-
de a preocupação com pessoas que apresentavam as chamadas diferenças incô-
modas, termo utilizado para abranger o que, na época, era considerado doen-

14 • capítulo 1
ça. Havia uma preocupação em se eliminarem essas diferenças incômodas por
meio de recursos, técnicas, instrumentos e procedimentos. Os agentes físicos
já eram utilizados para reduzir essas diferenças. Embora não existissem fisiote-
rapeutas naquela época, os médicos que havia já conheciam os agentes físicos
e os empregavam em terapia – como, por exemplo, a eletroterapia sob forma de
choques com um peixe elétrico no tratamento de certas doenças (REBELATTO
e BOTOMÉ, 1999).

Há 5000 anos, na China e na Índia antigas, as modalidades de ginástica tera-


pêutica desenvolveram-se rapidamente e foram muito adotadas na prevenção
e cura de doenças.

Os egípcios e persas praticavam a cinesioterapia, ou terapia por movimen-


tos, um dos ramos precursores da Fisioterapia – esta, aliás, uma área que foi se
constituindo com o surgimento e a evolução de diferentes técnicas e recursos.
Em 2698 a.C., o imperador chinês Hoong-Ti criou um tipo de ginástica cura-
tiva com exercícios respiratórios e exercícios para evitar a obstrução de órgãos
(LINDEMAN, 1970).

Na Medicina trácia e grega, a terapia pelo movimento constituía uma parte


do tratamento. Galeno (130-199 d.C.), por meio de uma ginástica planificada
do tronco e dos pulmões, corrigiu o tórax deformado de um rapaz até chegar
às suas condições normais (LINDEMAN, 1970). O que se pretendia era, basica-
mente, curar os portadores de alguma doença ou deformidade.

Na Idade Média, acreditava-se que essas diferenças incômodas tinham de ser


exorcizadas (Figura 2). Naquele período, estudos na área da saúde foram inter-
rompidos, aparentemente em razão de dois aspectos principais: o corpo huma-
no passou a ser considerado algo inferior e as camadas superiores da nobreza
e do clero começaram a despertar o interesse por uma atividade física dirigida
para um objetivo determinado – o aumento da potência física. A cultura e a do-
minação religiosa eram muito atuantes, levando a inúmeras consequências,
entre elas, a desvalorização do corpo e da própria saúde, pois, sendo este consi-
derado apenas como um mero recipiente do espírito, caberiam os cuidados e a
valorização apenas ao espírito, à alma. Ainda segundo Lindman (1975):

capítulo 1 • 15
“As ordens religiosas eram inimigas do corpo. Os hospitais da Idade Média tinham ca-
ráter eclesiástico; estavam junto dos mosteiros mais importantes, e suas salas de en-
fermos encontravam-se imediatamente ao lado das capelas. Havia, inclusive, altares na
sala dos enfermos, não havendo local apropriado para a realização de exercícios.”

Figura 2. Prática comum na Idade Média: o exorcismo de diferenças incômodas.

O Renascimento foi um período marcado por transformações em mui-


tas áreas (Artes, Filosofia, Ciências etc.): Nicolau Copérnico (1473-1543), por
exemplo, foi o primeiro a afirmar que a Terra girava em torno do Sol, e não o
contrário; Galileu Galilei (1564-1641) afirmou o mesmo que Copérnico, mas
foi obrigado pela Inquisição a negar sua teoria; Johannes Kepler (1571-1630)
conseguiu comprovar que era elíptica a trajetória seguida pelos planetas ao or-
bitar em torno do Sol; Leonardo da Vinci (1452-1519) desempenhou importan-
te papel nas Ciências em geral, como grande engenheiro, físico, anatomista,
geólogo, botânico, zoólogo, sendo um dos maiores colaboradores pare esse de-
senvolvimento.

Naquela época em que valores e tradições medievais deram lugar a concep-


ções totalmente novas, o ser humano voltou a demonstrar certa preocupação
com o corpo saudável. A cinesioterapia, um dos recursos da Fisioterapia, ga-
nhou teóricos e adeptos, a ponto de, no século XVII, serem produzidas obras
consistentes sobre os fundamentos da ginástica.

16 • capítulo 1
O Humanismo e as Artes desenvolveram-se e possibilitaram, paralelamen-
te, a retomada dos estudos relativos aos cuidados com o corpo e o culto ao fí-
sico. Jeronimus Mercurialis, um humanista do século XVI e autor do livro Arte
Ginástica, publicado em 1569, apresentou princípios definidos para a ginástica
médica, que compreendiam:

1 • Exercícios para manutenção do estado saudável;

2 • Regularidade no exercício;

3 • Exercícios para enfermos cujo estado pudesse agravar-se;

4 • Exercícios individuais especiais para convalescentes;

5 • Exercícios para sedentários.

À época, notou-se uma preocupação com o tratamento, com os cuidados


com o organismo lesionado e também com a manutenção da condição dos or-
ganismos sãos. No final do Renascimento, o interesse pela saúde corporal co-
meçou a especializar-se.

Don Francisco Y Ondeano Amorós (1779-1849), um professor militar, em-


bora não fosse médico, desenvolveu suas ideias no contexto da ginástica, clas-
sificando-a em quatro pontos – um deles a cinesioterapia com a finalidade de
manutenção de uma saúde forte, de tratamento de enfermidades, reeducação
de convalescentes e correção de deformidades (LINDEMAN, 1970).

O sueco Pehr Ling (1776-1839), um professor de ginástica e massagens cor-


retivas, formado pela Universidade de Uppsala em 1797, conheceu, em uma de
suas viagens, um chinês chamado Ming, que lhe ensinou as práticas das artes
marciais e do Tui Na, uma terapia manual para a cura do corpo, bastante prati-
cada na China. De volta à Suécia, Pehr aprofundou-se nas técnicas aprendidas,
entre elas as da Medicina tradicional, para elaborar um sistema de ginástica

capítulo 1 • 17
geral composto de quatro partes: pedagógica, médica, militar e estética, que in-
corporavam os ensinamentos do Tui Na. Na mesma época, o alemão Friedrich
Ludwig Jahn criou outro sistema de prática gímnica (de ginástica geral), mais
individual.

Na fase de transição entre o Renascimento e a Industrialização, o uso de


recursos físicos passa a ter influência no mundo ocidental.

Durante a Revolução Industrial, após o século XVIII, renasce o interesse


pelo tratamento das diferenças incômodas. O novo sistema maquinizado aper-
feiçoava a crescente produção industrial (Figura 3) e, em contrapartida, sub-
metia a população oprimida a exaustivas e excessivas jornadas de trabalho. As
condições alimentares e sanitárias eram precárias e causavam novas doenças
– como as epidemias de cólera, tuberculose pulmonar e alcoolismo –, além de
acidentes do trabalho.

As classes dominantes preocuparam-se, então, em não perder nem diminuir a


sua fonte de riqueza e bem-estar gerada pela força de trabalho das classes baixas.

Figura 3. Revolução Industrial: o sistema maquinizado e o aumento da produção Industrial.

O alemão Rudolph Klapp (1873-1949), embora tenha sido pediatra, estudou


os animais e, ao perceber que estes não apresentavam escoliose, concluiu que
a ação da gravidade era responsável por esses desvios laterais da coluna ver-
tebral. Criou então, sua técnica: utilização da posição de gato (quatro apoios)
para o tratamento da escoliose. Kohlransch (1920), por sua vez, situou a cine-
sioterapia sobre todos os métodos relaxadores e distensores e desenvolveu o
tratamento de enfermidades internas e ginecológicas.

18 • capítulo 1
Segundo Rebelatto e Botomé (1999), a clínica, a cirurgia, a farmacologia, a
aplicação de recursos elétricos, térmicos, hídricos e a adoção de exercícios fí-
sicos sofreram uma evolução dirigida para o atendimento do enfermo. Surgiu
então a ideia de atendimento hospitalar. Em pleno século XIX, vários estudio-
sos europeus contribuíram para o desenvolvimento do que, posteriormente,
foi definido como campo da Fisioterapia. Na Suécia, Gustav Zander criou uma
série de exercícios terapêuticos realizados com máquinas e diferentes equipa-
mentos, e, em 1864, fez demonstrações dos aparelhos que havia criado para
exercícios ativos, assistidos e resistidos; era o início da mecanoterapia. No mes-
mo século, Frenkel criou um método de tratamento para a ataxia, com base na
repetição lenta de movimentos específicos e coordenados, ensinados até hoje
nas universidades brasileiras.

Na Inglaterra, o Dr. Cyriax, em colaboração com fisioterapeutas, idealizou


um método de massagem profunda e manipulações articulares. Também na
Inglaterra, talvez um dos mais conhecidos e bem-sucedidos exemplos de par-
cerias em pesquisas entre médicos e fisioterapeutas seja a da da fisioterapeuta
Berta Bobath e do neurofisiologista Karel Bobath. O casal criou o método Boba-
th de tratamento neuroevolutivo, um dos mais difundidos em todo o mundo e
ministrado em todas as escolas de formação.

1.2  A Fisioterapia no Brasil

O início da Fisioterapia no Brasil no eixo Rio–São Paulo foi influenciado


pela vinda da família Real ao país. Napoleão Bonaparte acabou por contribuir
indiretamente com o desenvolvimento dos primeiros serviços de Fisioterapia
organizados no país ao invadir Portugal e fazer com que a família real portugue-
sa desembarcasse no Brasil em 1808. Com os monarcas, vieram os nobres e o
que havia de recursos humanos de várias áreas para servir à elite portuguesa, de
passagem por aqui. Com a família real, vieram também cerca de 15 mil pessoas
para servi-la, trazendo aos serviços praticados no Brasil avanços já existentes na
Europa e, consequentemente, obrigando os profissionais brasileiros a se ade-
quarem a esse desenvolvimento.

Segundo Novaes (1998), dentre todas as contribuições do reinado, o surgi-

capítulo 1 • 19
mento das primeiras escolas de ensino médico destaca-se como a grandiosa
obra dos portugueses no país, em particular os avanços obtidos na cidade do
Rio de Janeiro.

No século XIX, os recursos fisioterapêuticos faziam parte da terapêutica mé-


dica, e assim há registros da criação, no período compreendido entre 1879 e
1883, do serviço de eletricidade médica e também do serviço de hidroterapia no
Rio de Janeiro, existente até os dias de hoje e chamada Casa das Duchas.

No Brasil, a utilização dos recursos físicos na assistência à saúde iniciou-se


por volta de 1879 – na época da industrialização, devido ao grande número de
acidentados de trabalho – e seus objetivos eram voltados para à cura e reabili-
tação dos pacientes.

As primeiras citações sobre o desenvolvimento de práticas terapêuticas re-


lacionadas futuramente à Fisioterapia, segundo estudo desenvolvido por Bar-
ros (2002), são assim cronologicamente registradas (FREITAS e SAYD, 2006):

• De 1879 a 1883: início dos primeiros serviços de hidroterapia e de eletri-


cidade médica (atualmente eletroterapia), sendo um dos responsáveis por essa
prática o médico Artur Silva;

• Em 1884: participação do médico Artur Silva na criação do Serviço de Fi-


sioterapia no Hospital de Misericórdia do Rio de Janeiro;

• Em 1901: publicação da seguinte matéria:

“A secção de phototherapia, tratamento por meio da luz, é a primeira mantida na Améri-


ca do Sul e nella se concentram todos os esforços e toda a glória do Dr. Alvim, por ser
a sua especialidade, e tem sido coroada do melhor êxito pela segurança dos resultados
scientificos que tem alcançado em sua numerosa clínica” (GAZETA DE NOTÍCIAS, 13
de maio [grafia original]).

• Em 1902: publicação do o livro Physicotherapia – A Electricidade perante


a Medicina, do médico Álvaro Alvim, que declara:

20 • capítulo 1
“Graças à energia electrica, podemos mesmo dispensar a massagem e a Gymnastica,
localizando o movimento a um ou mais músculos, substituindo-as pela electromassa-
gem e pela electrogymnastica, recursos estes preciosos em virtude de não exigirem
esforços e fadigas da parte do doente.” (grafia original)

• Em 1904: apresentação da tese “Physiotherapia”, pelo médico Adolpho Go-


mes Pereira, para a obtenção do título de doutor na cadeira de Therapeutica pela
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, quando fez a seguinte declaração:

“O estado actual da physiotherapia, como o demonstram recentes e importantíssimos


trabalhos, é o mais auspicioso possível, si levarmos em consideração o meticuloso estu-
do e extensa applicação que lhe outorgam os paizes civilisados do velho e novo mundo
[...]. Guimbail em seu arrojo convencido prophetisa-lhe (a physiotherapia) o domínio ab-
soluto na Medicina do futuro.” (grafia original)

•  Em 1909: apresentação do trabalho intitulado Progressos Recentes da


Physiotherapia, do médico Edmundo Xavier, no qual o autor reforçou a impor-
tância da Fisioterapia com relação aos recursos de diagnóstico e tratamento por
meio da eletricidade;

•  Em 1919: fundação do departamento de eletricidade médica pelo médi-


co e professor de Física Biológica Raphael Penteado de Barros, da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo (USP);

•  Em 1923: relato do médico Alencar de Barros – em seu livro Physiothera-


pia, suas Bases Scientificas e suas Aplicações – sobre a importância da Fisiotera-
pia e sua preocupação com o exercício profissional pelos “leigos”:

capítulo 1 • 21
“São tantas as observações, tão numerosos os trabalhos de physiologia e clinica de-
monstrando os magníficos resultados dos banhos de luz, de vapor, irradiações, duchas,
electricidade, massagem, cultura physica etc., que devem constituir, sem dúvida, com a
dietética, o ponto de apoio principal na cura das doenças.

Dahi o desenvolvimento formidavel da physiotherapia em todos os paises civilisados


do globo, especialmente na Allemanha, Italia, França e Estados Unidos da América do
Norte, onde é ensinada nas grandes Universidades e praticada, com carinho, nos hospi-
tais e sanatórios. Entre nós, infelizmente, está ella ainda, com excepção da electricidade
medica, nas mãos de leigos, ou melhor de empíricos que applicam “a torto e a direito”,
sem individualidade, porquanto não podem conhecer a physiologia dos organismos.”
(grafia original)

•  Em 1929: instalação do serviço de Fisioterapia do Instituto Radium Ar-


naldo Vieira, pelo o médico Dr. Waldo Rolim de Moraes, para atendimento aos
pacientes da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, e, posteriormente, orga-
nização do serviço de Fisioterapia do Hospital das Clínicas de São Paulo. O edi-
fício da Clínica Ortopédica e Traumatológica possuía no subsolo, duas piscinas
hidroterápicas, uma de água quente e outra de água salgada, para a imersão de
doentes com paralisia infantil.

•  Em 1934: apresentação da tese intitulada Dos Agentes Físicos: Fisiotera-


pia, por Edilton de Meneses Sampaio, para a obtenção do grau de Livre Docên-
cia – na cidade de Recife –, na qual, além do ressentimento pela inexistência de
um serviço de Fisioterapia na cidade, o autor fez resumiu os recursos fisioterá-
picos utilizados à época:

22 • capítulo 1
“Apesar do ambiente propício, onde o esmero educacional é paralelo à cultura, Recife
se ressente de algumas particularidades indispensáveis à vida atual. Um gabinete fisio-
terápico completo, que preenchesse os requisitos exigidos pela concepção científica,
com as finalidades tão altamente benéficas da sua razão de ser, não me consta até hoje
tenha-se instalado nesta cidade.

A Fisioterapia compreende: eletricidade e raios x, termo e fototerapia, actinoterapia,


curieterapia, crioterapia, hidroterapia, aero, clima e helioterapia, mecanoterapia e cine-
sioterapia, ginástica medica, cultura física, curas de repouso etc.” (grafia original)

Na década de 1930, Rio de Janeiro e São Paulo possuíam serviços de Fisio-


terapia idealizados por médicos que tomavam para si a terapêutica de maneira
integral, experimentando recursos físicos que outros médicos, à época, não ou-
savam buscar para minimizar as sequelas de seus pacientes. Essa visão ampla
de compromisso com o paciente, engajando-o em um tratamento mais eficaz
e que promovesse sua reabilitação – uma vez que as incapacidades físicas por
vezes o excluíam socialmente –, levou aqueles médicos a serem denominados
médicos de reabilitação.

A presença marcante do médico, agindo como fomentador desses primei-


ros estudos, sinaliza ao menos duas questões básicas.

A primeira, reflete a característica de uma medicina voltada para a práti-


ca que valorizava o desenvolvimento das especializações (GAZETA DE NOTÍ-
CIAS,1901) e a compartimentalização do corpo, fundamentada em característi-
cas provincianas pela influência de estudos que estavam ocorrendo na Europa
e nos Estados Unidos – os então chamados estudos em países civilizados.

A segunda questão refere-se à tendência do enquadramento da Fisioterapia


como um recurso terapêutico a ser desenvolvido e/ou, no máximo, uma nova
especialização médica em construção (EDMUNDO XAVIER, 1909; RAPHAEL
PENTEADO, 1919), apesar de, nos relatos de Adolpho Gomes (1904) e Alencar
de Barros (1923), encontrarmos uma referência clara do conhecimento – pelo
menos por parte desses profissionais – da existência de Cursos de Fisiotera-
pia ministrados em algumas Universidades na Europa e nos Estados Unidos.

capítulo 1 • 23
O exercício físico e as outras maneiras de atuar caracterizam a Fisioterapia no
século XX.

Durante a Segunda Guerra Mundial, surgiram as escolas de cinesioterapia,


para tratar ou reabilitar os lesados ou mutilados que necessitavam readquirir um
mínimo de condições para retornar a uma atividade social integrada e produtiva,
principalmente na Europa e América do Norte, onde essa realidade era cruel.

O envolvimento direto do Brasil na Segunda Grande Guerra, com o envio de


pracinhas à frente de combate dos Aliados – diferentemente do que ocorreu na
Primeira Guerra Mundial – trouxe reflexos para o avanço da Fisioterapia: desen-
volveu-se enquanto prática recuperadora das sequelas físicas de guerra, moder-
nizou-se no Rio de Janeiro e em São Paulo e criou novos serviços em outras capi-
tais do Brasil, embora não houvesse um grande número de incapacitados pela
guerra no país (GIUSTINA e VILSON, 2015).

A modernização dos serviços, com o consequente aumento da oferta e da


procura, levou os chamados médicos de reabilitação a se preocupar com a re-
solutividade dos tratamentos. Com esse objetivo, empenharam-se para que o
ensino da Fisioterapia como recurso terapêutico, então restrito aos bancos es-
colares das faculdades médicas nos campos teórico e prático, fosse difundido
entre os paramédicos, que eram os praticantes da arte indicada pelos doutores
de então (NOVAES, 1998).

Assim, em 1951, é realizado na USP o primeiro curso no Brasil para a forma-


ção de técnicos em Fisioterapia, com duração de um ano em período integral;
ministrado por médicos, o curso paramédico levou o nome de Raphael de Bar-
ros e formou nossos primeiros fisioterapistas (NOVAES, 1998).

24 • capítulo 1
Figura 4. Sessão de recuperação ocupacional. - Clínica Ortopédica e Traumatológica – década de
1950

Figura 5. Serviço de Fisioterapia – 195. Fonte: http://hcnet.usp.br/historiahc/images/historia/


hc55.jpg

Naquela época, esses serviços ofereciam tratamentos por agentes físicos,


mas ainda não tínhamos fisioterapeutas no país. Trabalhavam nesses espaços
médicos, enfermeiros e educadores físicos, além dos técnicos de Fisioterapia.

Essa nova maneira de atuar ou de intervir nas condições de saúde do indiví-


duo ou da população foi, aqui no Brasil, dirigida de tal maneira para a reabilita-
ção que, em determinado momento, a forma de atuação da Fisioterapia parece
ter sido entendida como sinônimo do tipo de assistência apenas reabilitadora.
Além desses fatores, outros contribuíram para fortalecer a Fisioterapia apenas
como uma intervenção reabilitadora.

capítulo 1 • 25
“Na década de 1950, a incidência de poliomielite atingia índices alarmantes, e, como
consequência, um número elevado de indivíduos, portadores de sequelas motoras, ne-
cessitavam de reabilitação. Também nessa época, o número de pessoas acometidas
pelos acidentes de trabalho no Brasil se apresentava como um dos maiores da América
do Sul, e essa expressiva faixa populacional precisava ser reabilitada para reintegrar o
sistema produtivo do país.” (BOTOMÉ; REBELATTO, 1999)

A regulamentação da Fisioterapia como profissão, suas características e as


consequentes tendências observadas na definição das possibilidades de inter-
venção fisioterapêutica são destacadas por Rebelatto e Botomé (1987, p. 3), ao
afirmarem que:

“A própria origem da Fisioterapia enfatizou e dirigiu as definições do campo profissional


para atividades recuperativas, reabilitadoras ou atenuadoras quando um organismo se
encontra em más condições de saúde. O surgimento desse profissional, como uma
decorrência das grandes guerras, se fez, fundamentalmente, para tratar de pessoas
fisicamente lesadas. As perdas totais ou parciais de membros, atrofias e paralisias, são
exemplos do “objeto de trabalho” da Fisioterapia na sua gênese. Naquelas circunstân-
cias, porém, a preocupação fundamental – ou mesmo única – com a “doença” (as lesões
físicas e suas consequências) parecia adequada. A decorrência natural das condições
existentes na época fez toda a atuação profissional ficar voltada a atenuar ou diminuir o
sofrimento, reabilitar organismos lesados ou, quando possível, recuperar as condições
de saúde preexistentes dos organismos cujas condições haviam sido prejudicadas.”

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, no dia 05 de agosto de 1954, fundou-se


fundada a Associação Beneficente de Reabilitação (ABBR), cujo idealizador e
principal responsável foi o arquiteto Fernando Lemos.

O Centro de Reabilitação da ABBR foi inaugurado em 1957 pelo então Pre-


sidente da República, Juscelino Kubitscheck, e teve seu crescimento e desen-
volvimento devido ao esforço pessoal e entusiasmo, principalmente do próprio
Fernando Lemos – que em 1952 viveu momentos difíceis com seu filho de 15
anos, tetraplégico por sequela de poliomielite –, do Dr. Oswaldo Pinheiro Cam-
pos, ortopedista, e de um grupo de empresários liderados por Percy Charles

26 • capítulo 1
Murray, cujo filho portador de deficiência havia se submetido a tratamento de
Fisioterapia em Londres.

Em 1956, a ABBR havia criado e iniciado um curso com a finalidade de pre-


parar e diplomar fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. Esse primeiro cur-
so, com duração de dois anos, formou 16 fisioterapeutas, dos quais 15 foram
contratados para trabalhar imediatamente no próprio centro de reabilitação da
ABBR. O segundo curso, iniciado em 1957, teve sua duração ampliada para três
anos. Segundo Figueirôa (1996), para a formação das primeiras turmas, foi pre-
ciso contar com a ministração das aulas de duas fisioterapeutas estrangeiras.
A primeira foi a escocesa Dra. Edith MacConnel, que, por não falar português,
teve suas aulas traduzidas por uma das alunas, Wanda Lechowski. A segunda
foi a canadense Dra. Ann Winter, que teve também uma participação importan-
te na reformulação dos atendimentos na ABBR.

Ao se referir à formação das primeiras turmas de fisioterapeutas do país,


Galvão (1999) afirma: O profissional formado deveria ser de nível universitário,
mas, como um auxiliar do médico, limitado à execução do tratamento prescrito por
aquele.

Surgiram então as primeiras definições de Fisioterapia, porém todas dan-


do ênfase à reabilitação e considerando a Fisioterapia um ramo de trabalho,
não uma ciência. Segundo Botomé e Rebelatto (1999), ela passa a fazer parte da
chamada Área da Saúde e foi evoluindo no decorrer da história. Teve seus recur-
sos e formas de atuação quase que voltados exclusivamente ao atendimento do
indivíduo doente, para reabilitar ou recuperar as boas condições que o organis-
mo perdeu. Os tipos de atuação da Fisioterapia já evidenciam a terapêutica por
meio: do movimento (cinesioterapia); da eletricidade (eletroterapia); do calor
(termoterapia), do frio (crioterapia), da massagem (massoterapia).

Em 1962, ocorreu a primeira conferência patrocinada pela Associação


Brasileira de Fisioterapia (ABF), fundada em 1959; além disso, instituiu-se a
medalha de honra e a publicação do primeiro número da Revista ABF. Nesse
informativo, com data de circulação em 01 de agosto de 1962, destacou-se o
Editorial, com trechos descritos a seguir que revelam um pouco da situação da
Fisioterapia no início dos anos 1960:

capítulo 1 • 27
“[...] Verificam-se, assim, intromissões incompreensíveis de certos círculos sobre outros
que ainda estão em fase de desenvolvimento, negando-se-lhes assim a capacidade
de dirigirem seus assuntos de Motu Próprio, e resulta paradoxo demais, quando isto
acontece num país tão exuberantemente democrático como o Brasil. Deve-se extin-
guir, para sempre, a falsa paternidade de constituírem-se indevidamente em advogados
de terceiros. O direito à soberania individual e profissional é inviolável. Defendendo e
usando esse direito, nos encontramos perfeitamente aptos e capacitados para traçar o
futuro da profissão de Fisioterapeutas [...].”

“[...] Deixamos, já faz tempo, a menoridade tutelar, [grifo nosso] e, por isso, da mesma
maneira que respeitamos os direitos dos outros, exigimos intransigentemente defender
o que nos pertence. O Fisioterapeuta de hoje, como o do futuro, não é mais o profissio-
nal de 10 anos atrás.”

Naquele mesmo ano, atendendo à solicitação dos cursos de formação da


ABBR e do Instituto de Reabilitação da USP, o Conselho Federal de Educação
estabeleceu, por meio do Parecer 388/63, homologado pela Portaria 511/64 do
Ministério da Educação (MEC), o currículo mínimo para a formação universitá-
ria em Fisioterapia no país. Esses foram os primeiros documentos publicados
oficialmente no país sobre a profissão de fisioterapeuta. A seguir, destacam-se
dois trechos do Parecer 388/63:

“[...] A referida Comissão insiste na caracterização desses profissionais como auxiliares


médicos que desempenham tarefas de caráter terapêutico sob a orientação e a res-
ponsabilidade do médico. A este cabe dirigir, chefiar e liderar a equipe de reabilitação,
dentro da qual são elementos básicos: o médico, o assistente social, o psicólogo, o
fisioterapeuta e o terapeuta ocupacional.”

28 • capítulo 1
“Não compete aos dois últimos o diagnóstico da doença ou da deficiência a ser corri-
gido. Cabe-lhes executar, com perfeição, aquelas técnicas, aprendizagem e exercícios
recomendados pelo médico, que conduzem à cura ou à recuperação dos parcialmente
inválidos para a vida social. Daí haver a Comissão preferido que os novos profissionais
paramédicos se chamassem Técnicos em Fisioterapia e Terapia Ocupacional, para mar-
car-lhes bem a competência e as atribuições. O que se pretende é formar profissionais
de nível superior, tal como acontece a enfermeiros, obstetrizes e nutricionistas. Diante
disso, não há como evitar os nomes de Técnicos em Fisioterapia e Técnicos em Terapia
Ocupacional.”

Alguns anos depois, conforme descrito por Figueirôa (1996), a Reitoria da


USP, por meio da Portaria G.R. nº 347 de 7 de abril de 1967, regulamentou os
cursos de Fisioterapia e Terapia Ocupacional que eram realizados no Instituto
de Reabilitação. O referido curso contou com a participação da fisioterapeuta
sueca Karen Lunborg, enviada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que,
entre 1956 e 1960, ministrou aulas e supervisionou o ensino da Fisioterapia na
instituição.

O referido parecer, elaborado por uma comissão médica, representou, se-


gundo Figueirôa (1999), tanto uma vitória – por garantir uma formação de ní-
vel universitário com duração mínima de três anos e carga horária mínima de
2.160 horas – como, paradoxalmente, uma frustração, por definir o fisiotera-
peuta como um auxiliar médico denominado Técnico de Fisioterapia. Segundo
Galvão (1999), o conflito profissional explicitado no Parecer 388/63 ganhou di-
mensão ainda maior na medida em que:

“A Associação Brasileira de Fisioterapia (ABF) começou a pregar a autodeterminação


como forma de garantir o crescimento e a evolução da profissão de Fisioterapeuta no
país e realizou seu primeiro Congresso Brasileiro de Fisioterapia, de 12 a 14 de novem-
bro de 1964, na cidade do Rio de Janeiro.”

capítulo 1 • 29
“Este conclave gerou uma carta com 12 conclusões, cujo item primeiro é elucidativo
para o tema, verbis: Recomendar que os assuntos relacionados com a classe de Fisio-
terapeutas sejam sempre tratados com a participação do órgão representativo destes
profissionais, que é a Associação Brasileira de Fisioterapeutas.”

O Brasil enfrentava tempos difíceis: o Golpe Militar, de 1964; os Atos Institu-


cionais, cerceando a liberdade da população; torturas e mortes nos quartéis mi-
litares; e a rigorosa vigilância do governo militar nas universidades e nos meios
de comunicação.

Em várias capitais brasileiras, instituíram-se as Associações Regionais de


Fisioterapia, ligadas à ABF, e criaram-se novas escolas formadoras de fisiotera-
peutas, em Petrópolis, Salvador e Belo Horizonte. No entanto, de acordo com
Galvão (1999), existiam muitos obstáculos ao desenvolvimento da Fisioterapia:

“As diferenças entre os fisioterapeutas e os médicos ligados à reabilitação vão au-


mentando progressivamente até se transformar em um conflito profissional de grande
magnitude.”

“Encastelados em cargos estratégicos da recém-unificada Previdência Social, os au-


tointitulados médicos fisiatras estabeleceram padrões de credenciamento aos serviços
terceirizados do INPS e INAMPS, atribuindo a si próprios poderes especiais para repre-
sentar as clínicas conveniadas de Fisioterapia, formando um cartel.”

“Tentativas de reconhecer o fisioterapeuta pela via do Congresso Nacional esbarraram


no corporativismo médico representado nas Comissões Técnicas.”

Apesar das dificuldades enfrentadas, a ABF procurava centrar suas ações


no sentido do reconhecimento oficial da profissão. Segundo a fisioterapeuta
Doutora Sonia Gusmann, que mais tarde assumiria a Presidência da ABF e pos-

30 • capítulo 1
teriormente seria a primeira presidente do Conselho Federal de Fisioterapia e
Terapia Ocupacional (Coffito), o trabalho e empenho dos membros da ABF e de
suas regionais foi, naquele momento, incansável.

De acordo com a Doutora Sonia em entrevista informal, aliando-se estraté-


gia política ao senso de oportunidade, os fisioterapeutas passaram a ter a devi-
da privatividade ao exercício profissional da Fisioterapia no Brasil. Isso porque,
“graças” ao fato de o Presidente Costa e Silva ter sido atendido por fisiotera-
peutas após sofrer um grave Acidente Vascular Encefálico (AVE) – que poste-
riormente o levou à morte –, a Junta Militar que assumia o poder reconheceu a
profissão de Fisioterapeuta por meio do Decreto-lei nº 938/69, de 13 de outubro
de 1969 (dia e mês em que se comemora atualmente o Dia do Fisioterapeuta).
Esse decreto provê sobre as profissões de fisioterapeuta e terapeuta ocupacio-
nal. Após legitimada a profissão de fisioterapeuta como de nível superior, não
mais existiu a profissão de técnico em Fisioterapia (BARROS, 2003).

O fisioterapeuta de hoje já não guarda semelhanças com o técnico de rea-


bilitação da década de 1950. Essa evolução foi conquistada pela profissão, no
campo legal e científico, por meio da competência e do amadurecimento da
categoria. O fisioterapeuta deixou de ser um profissional da reabilitação para
tornar-se um profissional da Saúde, atuante na promoção, no desenvolvimen-
to, na prevenção, no tratamento e na recuperação da saúde.

COMENTÁRIO
No próximo capítulo, refletiremos sobre a formação do fisioterapeuta e sua autonomia profis-
sional, relacionando sua história, relatada neste capítulo, com a atual legislação.

ATIVIDADE
Acesse o site do Conselho Federal de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional (Coffito), www.
coffito.org.br, e pesquise informações relacionadas às nossas discussões: conceito, sím-
bolo, história e autonomia profissional da Fisioterapia.

capítulo 1 • 31
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Mattos V & Kabarite, A - Avaliação Psicomotora – um olhar para além do desempenho, Rio de Janeiro
– WAK editora, 2013
Coste, J C – A Psicomotricidade. 4ª edição, Rio de Janeiro, Guanabara-Koogan, 1989
BARROS, F. B. M. de. (Org.). O fisioterapeuta na saúde da população: atuação transformadora. Rio de
Janeiro: Fisiobrasil, 2002.
BARROS, F. B. M. de. Autonomia profissional do fisioterapeuta ao longo da história. In: Revista
FisioBrasil, Brasil, n. 59, p. 20-31, 2003.
BISPO JUNIOR, J. P. Formação em fisioterapia no Brasil: reflexões sobre a expansão do ensino e os
modelos de formação. In: História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro. v.16, n.3, jul.-set.
2009. p.655-668.
BRASIL. Decreto-Lei nº. 938, de 13 de outubro de 1969. Diário Oficial da União, out. 1969.
COFFITO – Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia ocupacional. Definição de Fisioterapia e áreas
de atuação. Disponível em: http://www.coffito.org.br/site/index.php/Fisioterapia/definicao.html.
Acesso em: 22/08/2015.
FIGUEIRÔA, R. M. Aspectos da Evolução histórica do fisioterapeuta no Brasil em especial no Rio de
Janeiro. Monografia de Pós-graduação Lato sensu em docência superior, Rio de Janeiro, 1996. [Não
Publicada.]
FREITAS, M. S.; SAYD, J. D. A atenção básica como campo de atuação da Fisioterapia no Brasil: as
diretrizes curriculares resignificando a prática profissional. Tese. Curso de Pós-graduação em Saúde
Coletiva. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 2006.
GIUSTINA, B.; VILSON, L. A história da Fisioterapia e ações multidisciplinares e interdisciplinares na
saúde. Trabalho de conclusão de Curso de Fisioterapia. Universidade do Sul de Santa Catarina.
NOVAES, R. Pequeno histórico do surgimento da Fisioterapia no Brasil. Texto utilizado no curso de
graduação em Fisioterapia, da UNISANTA, pela disciplina História da Fisioterapia e Ética, em 1998.
[Não Publicado.]
REBELATTO, J. R.; BOTOMÉ, S. P. Fisioterapia no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Manole. 1999.
SANCHEZ, E. L. Histórico da Fisioterapia no Brasil e no mundo. In: Atualização Brasileira de
Fisioterapia, ano II, v. I, n. 3, 1984.

32 • capítulo 1
capítulo 1 • 33
2
Formação
Acadêmica - o
primeiro passo
para o Mercado de
Trabalho
Apresentação do Capítulo

Uma nova filosofia surgiu nos últimos anos para avaliação profissional no merca-
do de trabalho (inclusive para os fisioterapeutas): a intitulada CHA – conhecimento,
habilidade e atitude.

Conhecimento é o saber teórico. Em geral, é tácito, presente apenas na mente do


profissional. Ele se atualiza, e, para isso, o profissional buscá-lo permanentemente.

Competência é o saber fazer. O ideal seria a combinação dela com o conhecimen-


to, mas isso nem sempre ocorre. Competência, em regra, depende de prática, treino,
erros e acertos para tomada de decisões, que levarão à perfeição.

Já a habilidade está ligada à ação. De nada valem conhecimento e competência


sem habilidade, pois esta nos dá a oportunidade de atuar. Ter habilidade é querer
fazer – e, para isso, há a necessidade de estar presente com outras pessoas (clientes,
grupos e equipe multidisciplinar) e agir com ética e competência. Vale ressaltar que
competência e habilidade são cada vez mais valorizadas e avaliadas em entrevistas.

Conhecimento se adquire estudando, e competência se obtém com a prática. O


grande problema é a falta de habilidade, algo relacionado a valores, ética, algo que
vem no DNA de cada um de nós, difícil de ser adquirido, difícil de ser aprendido –
mas não impossível. No entanto, para ter habilidade, é necessário ter atitude, respei-
tando princípios éticos inerentes ao exercício profissional.

Neste capítulo, traçaremos um caminho entre o projeto pedagógico do seu curso


(PPC) e as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de graduação em Fisioterapia,
que você pode acessar por http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CES042002.pdf.

OBJETIVOS
Neste capítulo, pretende-se que sua aprendizagem seja referente a:

•  Apresentar dados relevantes do Projeto Pedagógico do Curso, relacionando à formação


acadêmica;

34 • capítulo 2
•  Trazer reflexões sobre as atuais Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de graduação
em Fisioterapia;
•  Relacionar essas reflexões à formação do egresso no curso de Fisioterapia.

2  Introdução
O fisioterapeuta pode ser definido como um profissional de nível superior
da área da Saúde, pleno e autônomo, que atua isoladamente ou em equipe em
todos os níveis de assistência, incluindo prevenção, promoção, desenvolvimen-
to, tratamento e recuperação da saúde em indivíduos, grupos de pessoas ou
comunidades. É o profissional que cuida da saúde da população com ênfase
no movimento e na função, prevenindo, tratando e recuperando disfunções e
doenças, sendo, portanto, seu principal objeto de trabalho a saúde funcional
(BARROS, 2003).

Considerando-se que a graduação dura somente alguns anos, enquanto a


atividade profissional pode permanecer por décadas, e que os conhecimentos e
as competências vão se transformando muito rapidamente, é essencial pensar
em na formação de um profissional ativo e apto a aprender a aprender. Segun-
do Fernandes e colaboradores (2003, p. 392-395),

“o aprender a aprender na formação dos profissionais de Saúde deve compreender o


aprender a conhecer, o aprender a fazer, o aprender a conviver e o aprender a ser, ga-
rantindo a integralidade da atenção à saúde com qualidade, eficiência e resolutividade.”

Temos de pensar em uma formação de profissionais como sujeitos sociais


com competências éticas, políticas e técnicas, e dotados de conhecimento, ra-
ciocínio, crítica, responsabilidade e sensibilidade para as questões da vida e da
sociedade, capacitando-os a intervir em contextos de incertezas e várias com-
plexidades.

Isso tudo é possível ser pensado junto ao Projeto Pedagógico de Curso (PPC)
de sua instituição acadêmica. Ele é um documento que tem por finalidade apre-

capítulo 2 • 35
sentar à comunidade acadêmica o curso de Fisioterapia da instituição. Deve ser
elaborado de maneira participativa e incluir representantes de todos os seg-
mentos envolvidos com o curso, tendo como base o Plano de Desenvolvimento
Institucional (PDI) e o Projeto Pedagógico Institucional (PPI).

A fim de ilustrar a importância de um PPC, fazemos valer as palavras de Vei-


ga (2004, p. 25):

“O projeto político-pedagógico é mais do que uma formalidade instituída: é uma reflexão


sobre a educação superior, sobre o ensino, a pesquisa e a extensão, a produção e a
socialização dos conhecimentos, sobre o aluno e o professor e a prática pedagógica
que se realiza na universidade. O projeto político-pedagógico é uma aproximação maior
entre o que se institui e o que se transforma em instituinte. Assim, a articulação do ins-
tituído com o instituinte possibilita a ampliação dos saberes.”

Cada escola ou curso, no uso de sua autonomia, constrói, coletivamente, o


seu Projeto Pedagógico e define estratégias de renovação capazes de fazerem
frente ao desafio de qualificar profissionais de forma contextualizada ao mo-
delo de atenção à saúde. Na definição dessas estratégias, docentes, discentes e
profissionais dos serviços são compreendidos como atores conscientes do mo-
delo de atenção à saúde (FERNANDES et al., 2003).

O PPC tem dupla dimensão: a de orientação e a de condução do presente e


do futuro de uma formação profissional comprometida e responsável – com-
prometida, no sentido de manter-se em conformidade com as Diretrizes Cur-
riculares Nacionais estabelecidas pelo Ministério da Educação (MEC) e para
atender às demandas acadêmicas relacionadas às peculiaridades da formação
do profissional desejado. Isso significa uma articulação dos pressupostos do
PPC com as metas estabelecidas no PPI e no PDI da instituição.

A atualização do PPC de Fisioterapia da Estácio é o resultado do trabalho co-


letivo do Colegiado e do Núcleo Docente Estruturante (NDE), tendo como bases:

36 • capítulo 2
• No DECRETO-LEI n° 938 de 13 de outubro de 1969 – DOU nº 197 de
14/10/1969, que regulamenta a profissão de fisioterapeuta; na Lei 10.172 de
09/01/2001, que aprova o Plano Nacional de Educação, organizando-se segun-
do os Parâmetros Curriculares – SESU-MEC (1997);

• Na proposta de Diretrizes Curriculares para os Cursos de graduação em


Fisioterapia – Resolução CNE/CES 4, de 19 de fevereiro de 2002, homologada
em 07 de dezembro de 2001 pelo MEC;

• Na Resolução CNE n°4, homologada em 06 de abril de 2009, que fixa a car-


ga horária mínima do curso em 4 mil horas, no período de 5 anos para integra-
lização.

• Nos resultados das avaliações internas e externas do Curso de graduação


em Fisioterapia.

Esse Projeto Pedagógico, portanto, reflete o pensamento de Heráclito, se-


gundo o qual tudo flui, nada persiste, nem permanece o mesmo. É fruto da incor-
poração das considerações indicadas nas últimas avaliações das condições de
ensino e na análise dos resultados do Exame Nacional de Ensino (Enade) e dos
resultados da Avaliação Institucional do Curso de graduação em Fisioterapia
na sua unidade.

“O Projeto Pedagógico do Curso da Instituição busca garantir aos seus egressos uma
formação integral, que alie fundamentação teórica e atuação prática, ambas indispen-
sáveis às necessidades de atuação dos profissionais demandados pela sociedade e
que possibilite o contato com o conhecimento global do segmento em que irá atuar.
Tem a preocupação de promover o conhecimento, as competências e habilidades para
a inserção no mercado de trabalho.”

capítulo 2 • 37
2.1  As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino de
graduação em Fisioterapia (CNS, 2002)

definem princípios, fundamentos, condições e procedimentos da formação


de fisioterapeutas, estabelecidas pela Câmara de Educação Superior do Conse-
lho Nacional de Educação (CNE), para aplicação em âmbito nacional na organi-
zação, no desenvolvimento e na avaliação dos PPCs de graduação em Fisiotera-
pia das Instituições de Ensino Superior (IESs).
Segundo o Art. 3º:

“O curso de graduação em Fisioterapia tem como perfil do formando egresso/profissio-


nal o fisioterapeuta, com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, capacitado
a atuar em todos os níveis de atenção à saúde, com base no rigor científico e intelectual.
Detém visão ampla e global, respeitando os princípios éticos/bioéticos e culturais do
indivíduo e da coletividade. Capaz de ter como objeto de estudo o movimento humano
em todas as suas formas de expressão e potencialidades, quer nas alterações patológi-
cas, cinético-funcionais, quer nas suas repercussões psíquicas e orgânicas, objetivando
a preservar, desenvolver, restaurar a integridade de órgãos, sistemas e funções, desde
a elaboração do diagnóstico físico e funcional à eleição e execução dos procedimentos
fisioterapêuticos pertinentes a cada situação.”

Observando-se o perfil do egresso do curso de Fisioterapia, podem-se desta-


car algumas características importantes, entre elas:

• Fisioterapeuta generalista: está capacitado para atuar em todos os níveis


de atenção à saúde, com conhecimento e competência para atuar em diferen-
tes áreas e segmentos, desde o nascimento até a morte, nos diversos sistemas e
órgãos do corpo humano (neurolocomotor, cardiorrespiratório, uroginecológi-
co, dermatofuncional, entre outros); em ações da saúde coletiva, em programas
e projetos de saúde pública, nas ações básicas em saúde, na área de vigilância
sanitária e no campo de Fisioterapia do trabalho, como também na prescrição,
no desenvolvimento, no tratamento e na recuperação de disfunções;

• Fisioterapeuta crítico e reflexivo, com base no rigor científico e intelectu-


al: pauta suas ações em avaliações com fechamento de diagnóstico cinesioló-

38 • capítulo 2
gico-funcional, prognóstico, prescrição, indução do tratamento, reavaliação e
alta do paciente/cliente com base científica, tendo o hábito de leitura de artigos
de qualidade para praticar a Fisioterapia baseada em evidências;

• Fisioterapeuta humanista, com visão ampla e global, respeitando os


princípios éticos/bioéticos e culturais do indivíduo e da coletividade: tem
uma visão biopsicossocial do indivíduo, respeitando seu meio, sua cultura,
suas escolhas. Considera que as disfunções trarão consequências psicológicas
e sociais que deverão ser relevantes nos procedimentos.

Prosseguindo a reflexão, no Art. 4º, as Diretrizes Curriculares Nacionais en-


trelaçam a formação do fisioterapeuta com um profissional que, além do co-
nhecimento adquirido, tenha competências e habilidades para o futuro exer-
cício profissional:

Atenção à saúde – Os profissionais de saúde, dentro de seu âmbito profissional,


devem estar aptos a desenvolver ações de prevenção, promoção, proteção e
reabilitação da saúde, tanto em nível individual quanto coletivo. Cada pro-
fissional deve assegurar que sua prática seja realizada de forma integrada e
contínua com as demais instâncias do sistema de saúde, sendo capaz de pen-
I sar criticamente, de analisar os problemas da sociedade e de procurar soluções
para os mesmos. Os profissionais devem realizar seus serviços dentro dos
mais altos padrões de qualidade e dos princípios da ética/bioética, tendo
em conta que a responsabilidade da atenção à saúde não se encerra com o ato
técnico, mas, sim, com a resolução do problema de saúde, tanto em nível
individual como coletivo;

Tomada de decisões – O trabalho dos profissionais de saúde deve estar funda-


mentado na capacidade de tomar decisões visando o uso apropriado, eficácia
e custo-efetividade, da força de trabalho, de medicamentos, de equipamentos,
II de procedimentos e de práticas. Para este fim, os mesmos devem possuir com-
petências e habilidades para avaliar, sistematizar e decidir as condutas
mais adequadas, baseadas em evidências científicas;

capítulo 2 • 39
Comunicação – Os profissionais de saúde devem ser acessíveis, pois comu-
nicar “é se fazer entender”, e devem manter a confidencialidade das infor-
mações a eles confiadas, na interação com outros profissionais de saúde e o
III público em geral. A comunicação envolve comunicação verbal, não verbal
e habilidades de escrita e leitura; o domínio de, pelo menos, uma língua
estrangeira e de tecnologias de comunicação e informação;

Liderança – No trabalho em equipe multiprofissional, os profissionais de saúde


deverão estar aptos a assumir posições de liderança, sempre tendo em
IV vista o bem-estar da comunidade. A liderança envolve compromisso, respon-
sabilidade, empatia, habilidade para tomada de decisões, comunicação
e gerenciamento de forma efetiva e eficaz;

Administração e gerenciamento – Os profissionais devem estar aptos a tomar


iniciativas, fazer o gerenciamento e administração tanto da força de tra-
V balho, dos recursos físicos e materiais e de informação, da mesma forma
que devem estar aptos a serem empreendedores, gestores, empregadores ou
lideranças na equipe de saúde; e

Educação permanente – Os profissionais devem ser capazes de aprender


continuamente, tanto na sua formação, quanto na sua prática. Desta forma, os
profissionais de saúde devem aprender a aprender e ter responsabilidade
e compromisso com a sua educação e o treinamento/estágios das futu-
VI ras gerações de profissionais, mas proporcionando condições para que haja
benefício mútuo entre os futuros profissionais e os profissionais dos serviços,
inclusive, estimulando e desenvolvendo a mobilidade acadêmico/profissional, a
formação e a cooperação através de redes nacionais e internacionais.

Além disso, o futuro profissional de Fisioterapia deverá ter competências


e habilidades para atuar em equipes multiprofissionais – de modo interdisci-
plinar e com extrema produtividade na promoção da saúde –, baseando-se na
convicção científica, de cidadania e de ética.

A saúde é um direito e, como tal, deve ser reconhecida por seus profissio-

40 • capítulo 2
nais, contribuindo para condições dignas de vida, atuando a fim de garantir a
integralidade da assistência. Deve ser entendida como um conjunto articulado
e contínuo em ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos,
exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema.

Faz parte do exercício profissional do futuro egresso do curso de Fisiotera-


pia realizar consultas, avaliações e reavaliações do paciente, colhendo dados,
solicitando, executando e interpretando exames propedêuticos e complemen-
tares que possibilitem elaborar um diagnóstico cinético-funcional, para eleger
e quantificar as intervenções e condutas fisioterapêuticas apropriadas. O obje-
tivo de tratar as disfunções no campo da Fisioterapia deve ter preocupação em
toda a sua extensão e complexidade, estabelecendo prognóstico, reavaliando
condutas e decidindo pela alta fisioterapêutica. Desde a entrada do paciente
até a alta fisioterapêutica, a autonomia é do fisioterapeuta.

Para que isso ocorra, é preciso elaborar criticamente o diagnóstico cine-


siológico-funcional e a intervenção fisioterapêutica, considerando o amplo
espectro de questões clínicas, científicas, filosóficas, éticas, políticas, sociais
e culturais implicadas na atuação profissional do fisioterapeuta, sendo capaz
de intervir nas diversas áreas em que sua atuação profissional seja necessária.

É importante, também, exercer sua profissão de maneira articulada ao con-


texto social, entendendo-a como uma forma de participação e contribuição so-
cial, desempenhando atividades de planejamento, organização e gestão de ser-
viços de saúde públicos ou privados, além de assessorar, prestar consultorias e
auditorias no âmbito de sua competência profissional.

Emitir laudos, pareceres, atestados e relatório; prestar esclarecimentos, di-


rimir dúvidas e orientar o indivíduo e os seus familiares sobre o processo te-
rapêutico, além de manter a confidencialidade das informações, são também
atribuições do fisioterapeuta.

É de fundamental importância na formação desse profissional capacitá-lo a


atender ao sistema de saúde vigente no país, a prestar atenção integral da saúde
no sistema regionalizado e hierarquizado de referência e contrarreferência e a
trabalhar em equipe.

capítulo 2 • 41
Para essa formação tão ampla, com conhecimentos, competências e habili-
dades específicos, são necessários conteúdos essenciais para o curso de gradu-
ação em Fisioterapia, que devem estar relacionados com todo o processo saúde
– doença do cidadão, da família e da comunidade, integrado à realidade epide-
miológica e profissional, proporcionando a integralidade das ações do cuidar
em Fisioterapia. Esses conteúdos devem contemplar (art. 6º – CNS, 2002):

Ciências Biológicas e da Saúde – Incluem-se os conteúdos (teóricos e práticos)


I de base moleculares e celulares dos processos normais e alterados, da estrutu-
ra e função dos tecidos, órgãos, sistemas e aparelhos;

Ciências Sociais e Humanas – Abrangem o estudo do homem e de suas re-


lações sociais, do processo saúde–doença nas suas múltiplas determinações,
contemplando a integração dos aspectos psicossociais, culturais, filosóficos,
II antropológicos e epidemiológicos norteados pelos princípios éticos. Também
deverão contemplar conhecimentos relativos as políticas de saúde, educação,
trabalho e administração;

Conhecimentos Biotecnológicos - Abrangem conhecimentos que favorecem o


acompanhamento dos avanços biotecnológicos utilizados nas ações fisiotera-
III pêuticas que permitam incorporar as inovações tecnológicas inerentes à pes-
quisa e à prática clínica fisioterapêutica; e

Conhecimentos Fisioterapêuticos - Compreendem a aquisição de amplos co-


nhecimentos na área de formação específica da Fisioterapia: a fundamentação,
a história, a ética e os aspectos filosóficos e metodológicos da Fisioterapia e
seus diferentes níveis de intervenção. Conhecimentos da função e disfunção do
movimento humano, estudo da cinesiologia, da cinesiopatologia e da cinesiote-
IV rapia, inseridas em uma abordagem sistêmica. Os conhecimentos dos recursos
semiológicos, diagnósticos, preventivos e terapêuticas que instrumentalizam a
ação fisioterapêutica nas diferentes áreas de atuação e nos diferentes níveis de
atenção. Conhecimentos da intervenção fisioterapêutica nos diferentes órgãos
e sistemas biológicos em todas as etapas do desenvolvimento humano.

42 • capítulo 2
Vemos, nesse artigo, o quanto é complexa a formação do profissional fi-
sioterapeuta e enxergamos um desencadeamento de conhecimento que se dá
desde as Ciências Básicas, Sociais e Humanas, com direção a conhecimentos,
competências e habilidades para a atuação fisioterapêutica – avaliação, fecha-
mento do diagnóstico cinesiológico-funcional, prognóstico, orientação e pres-
crição do tratamento fisioterapêutico até a alta fisioterapêutica.

Além disso, a formação do fisioterapeuta deve garantir o desenvolvimento


de estágios curriculares, sob supervisão docente. A carga horária mínima do
estágio curricular supervisionado deverá atingir 20% da carga horária total do
curso de graduação em Fisioterapia proposto, com base em Parecer ou Reso-
lução específicos da Câmara de Educação Superior do CNE. Essa carga horária
do estágio curricular supervisionado deverá assegurar a prática de intervenções
preventiva e curativa nos diferentes níveis de atuação: ambulatorial, hospitalar,
comunitário/unidades básicas de saúde etc.

2.2  O Projeto Pedagógico do Curso

A Instituição apresenta como base curricular e eixo epistemológico a forma-


ção por ciclos de ensino, utilizando também visão integrada dos conhecimen-
tos, organizados por disciplinas em áreas afins subsequentes, de acordo com a
evolução dos períodos acadêmicos. Veja sua estrutura curricular.

Em cada período, faz-se uma ponte do conhecimento com o ciclo seguinte.


No ciclo considerado de base, o conhecimento inicial parte da ideia do corpo
humano como um ser biopsicossocial, associando-o à visão que contemple
sua origem – a origem da vida, seu desenvolvimento e o substrato final (o cor-
po humano e suas mais diversas formas), associando-o com a prática fisiotera-
pêutica e analisando-o em sua complexidade. Dada essa complexidade, entre
o primeiro e o segundo ano é ministrado conteúdo de ciências morfológicas,
compreendendo Anatomia, Biologia, Histologia, Embriologia e Genética, cru-
zadas com história e fundamentos da Fisioterapia, que alicerçam o ser fisio-
terapeuta. Como subsídios para as noções gerais de movimento, essenciais à
formação profissional, são ministradas aulas de Biofísica, e o aluno é iniciado
na essência da formação com conteúdos da disciplina de recursos terapêuticos

capítulo 2 • 43
e eletrotermofototerapia, quando o aluno vai a campo desenvolver atividades
práticas assistidas estruturadas, promovendo um aluno proativo, favorecendo
o aprender a aprender.

A partir do segundo ano, são ministradas disciplinas que instiguem a discus-


são, análise, reflexão e o aprendizado sobre fisiologia e funcionalidade, como
também a causa dos distúrbios desses sistemas, levando o aluno a vislumbrar
como esses distúrbios podem ser identificados e quais devem ser os recursos
para essas análises. Inicia-se, nesse ponto, a utilização de técnicas para esta-
belecer funcionalidade no cliente/paciente/usuário. São, assim, ministrados
conteúdos de fisiologia, cinesiologia e recursos terapêuticos de maneira geral,
incluindo a cinesioterapia, ferramenta essencial da Fisioterapia.

Ressalte-se a importância das atividades práticas para o processo de ensino


-aprendizado – em avaliações físico-funcionais, em recursos cinesioterapêuti-
cos e eletrotermofototerápicos – e a iniciação do aluno na visualização da Fisio-
terapia preventiva e na saúde da família, elementos esses que balizam a tomada
de decisão sobre o tratamento para o fisioterapeuta.

A partir do terceiro ano do curso, são trabalhadas as especialidades fisiote-


rapêuticas, atentando-se sempre para os níveis de assistências à saúde, inician-
do-se com a prevenção e a reabilitação em todas as áreas de atuação do fisiote-
rapeuta. As ações serão postas em prática nos três níveis de atenção à saúde:
assistência básica, média complexidade (em clínicas de especialidades, clubes,
ambulatórios hospitalares e enfermarias e também) e assistência de alta com-
plexidade (nos centros de reabilitação e no âmbito hospitalar: enfermarias,
pronto atendimento e CTIs, UTIs UIs, unidades de atendimento ao paciente
crítico em geral). O aluno concluirá o crso após o estágio nessas áreas de conhe-
cimento, que perpassam a matriz curricular.

O curso de Fisioterapia efetivamente representa a concretização de objeti-


vos estratégicos decorrentes da análise dos cenários e perspectivas do Brasil,
onde se concentram as expectativas de espaços profissionais do corpo discen-
te, sem se desconsiderar a possibilidade de mercados diversos decorrentes do
mundo globalizado.

44 • capítulo 2
Assim, o curso busca pensar estrategicamente, planejar e realizar ações
bem-sucedidas, que incentivem a criação de um ambiente de aprendizado
constante, o qual deverá ser incorporado à situação de trabalho, atrelando as
competências individuais e a promoção da saúde, bem como potencializando
as contribuições dos segmentos que compartilham o conhecimento na área de
Fisioterapia.

Segundo o Art. 8º das DCNs (CNS, 2002), o PPC de graduação em Fisiotera-


pia deverá contemplar atividades complementares e as IESs deverão criar me-
canismos de aproveitamento de conhecimentos, adquiridos pelo estudante,
por meio de estudos e práticas independentes presenciais e/ou a distância, a
saber: monitorias e estágios; programas de iniciação científica; programas de
extensão; estudos complementares e cursos realizados em áreas afins.

O curso de Fisioterapia obedece às Diretrizes Curriculares Nacionais e está


organizado de modo a oferecer ao aluno referenciais teórico-práticos que cola-
borem na aquisição de competências cognitivas, habilidades e atitudes e que
promovam o seu pleno desenvolvimento como pessoa, o exercício da cidadania
e a qualificação para o trabalho.

O currículo, desenvolvido na perspectiva da educação continuada, é conce-


bido como uma realidade dinâmica, flexível, propiciando a integração teórico-
prática, o diálogo entre as diferentes ciências e saberes, e as atividades facilita-
doras da construção de competências.
A organização dos currículos obedece aos princípios de:

A flexibilização;

B interdisciplinaridade;

C ação-reflexão-ação;

D contextualização.

capítulo 2 • 45
A flexibilização curricular possibilita a ampliação dos horizontes do conhe-
cimento e o desenvolvimento de uma visão crítica mais abrangente, pois permi-
te ao aluno ir além de seu campo específico de atuação profissional, oferecendo
condições de acesso a CHA para formação em outras áreas profissionais.

A flexibilização do currículo se caracteriza tanto pela verticalidade quanto


pela horizontalidade.

A flexibilização vertical prevê diferentes formas de organização do saber ao


longo do período de formação, como citado anteriormente, sua formação por
ciclos de ensino. Já a flexibilização curricular horizontal possibilita ao aluno o
aproveitamento, para fins de integralização do curso, de várias atividades aca-
dêmicas complementares. Essas atividades são importantes para a formação
do aluno e constituem o pilar de apoio para diversidade, proporcionando o ce-
nário no qual o aluno possa, de fato, ter à disposição as variadas alternativas de
percurso curricular.

Essa flexibilização é assegurada pela oferta de um conjunto de atividades


acadêmicas complementares articuladas à formação do aluno, planejadas pela
coordenação de curso, ouvidos o NDE e o colegiado do curso. O coordenador
cria as condições para a realização de atividades como: seminários, congressos,
colóquios, oficinas, encontros, semanas científicas, palestras, exposições, cur-
sos de curta duração, cursos on-line, dentre outras.

No curso de graduação em Fisioterapia, destacadamente, as Atividades Aca-


dêmicas Complementares (AACs) visam à ampliação das experiências cientí-
ficas, socioculturais e profissionais dos alunos, proporcionando uma melhor
compreensão das relações existentes entre: a prática social e o trabalho aca-
dêmico, a integração entre teoria e prática, entre universidade e sociedade, e
o desenvolvimento das competências profissionais previstas para o próprio
curso, orientando os alunos à solução de problemas enfrentados na atuação
profissional e no contexto local. Dessa maneira, a aula magna, os seminários
científicos, as semanas científicas, as palestras e cursos de extensão, as visitas
técnicas (internas e externas), a exibição de vídeos, as oficinas práticas e o tra-
balho voluntário formam seu espectro básico de atividades diversificadas.

46 • capítulo 2
O curso de graduação em Fisioterapia deve ter um projeto pedagógico,
construído coletivamente, centrado no aluno como sujeito da aprendizagem e
apoiado no professor como facilitador e mediador do processo ensino-aprendi-
zagem. Esse projeto pedagógico deverá buscar a formação integral e adequada
do estudante por meio de uma articulação entre ensino, pesquisa e extensão/
assistência (CNS, 2002).

As Diretrizes Curriculares e o Projeto Pedagógico devem orientar o currículo


do curso de graduação em Fisioterapia para um perfil acadêmico e profissio-
nal do egresso. Esse currículo deverá contribuir, também, para compreensão,
interpretação, preservação, reforço, fomento e difusão das culturas nacionais
e regionais, internacionais e históricas, em um contexto de pluralismo e diver-
sidade cultural.

Para a conclusão do curso de graduação em Fisioterapia, o aluno elabora


e apresenta um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), desenvolvido durante
um ano, por meio de duas disciplinas.

O TCC corresponde a um passo importante na formação do fisioterapeuta.


Atendendo às orientações da Lei de Diretrizes e Bases Nacional, das Diretrizes
Curriculares Nacionais e do Instrumento de Avaliação, a Universidade Estácio
de Sá insere esse item com o objetivo de oferecer aos alunos a oportunidade
para articular o conhecimento construído durante todo o curso em torno de
um tema organizador, além de estimular os alunos no desenvolvimento da pes-
quisa científica. Também são objetivos o aprimoramento e a integração dos co-
nhecimentos construídos com a associação prática; portanto, o TCC deve cons-
tituir-se de fatos que intervenham nesse processo, em que o acadêmico possa
confeccionar um projeto e, a partir dele, desenvolver a pesquisa, completando
o conhecimento teórico e o prático.

O TCC, obrigatório no curso, pode constituir-se de revisão bibliográfica ou


de pesquisa de campo, ressaltando que os trabalhos se diferem pela forma, pro-
fundidade e finalidade do estudo, bem como pela metodologia utilizada e pela
originalidade do tema. Deve ser embasado em ideias científicas, na organiza-
ção de resultados e nas discussões com as referidas bibliografias nos moldes
da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Os orientadores do TCC

capítulo 2 • 47
são docentes da instituição, ficando a critério deles a aceitação do tema suge-
rido. Após sua conclusão, o TCC deverá ser aprovado por banca examinadora
e apresentado publicamente, com as devidas correções ou a aprovação direta.
Constitui-se tal trabalho um meio de estimular a iniciação científica e também
de envolver acadêmicos e docentes em atividades de pesquisa e extensão uni-
versitária, oferecendo oportunidade de divulgação da produção acadêmica e
aperfeiçoamento dos docentes na elaboração de trabalhos científicos.

A articulação da pesquisa com o ensino e com a extensão é indicada para


o desenvolvimento da capacidade de produzir conhecimento próprio, assegu-
rando assistência de qualidade e com rigor científico. Trata-se da construção de
um processo de ensino-aprendizagem com diálogo e investigação que favorece
a troca de experiências e a construção/reconstrução/significação de conheci-
mentos. Essa é uma estratégia fundamentada no conhecimento do professor,
bem como em sua sensibilidade para com os problemas da sociedade e, mais
especificamente, da área da saúde. Se o avanço teórico e metodológico só se
dá através das descobertas da ciência e de sua confrontação com a realidade
através da prática, esse conhecimento tem de sair dos muros da instituição de
educação e se estender à comunidade (FERNANDES et al. 2003).

O curso de Fisioterapia estimula atividades de investigação científica, tendo


como referência qualidade, seriedade e relevância, para que se possa cumprir o
papel de geração de conhecimentos e de formação de recursos humanos.

A extensão se configura como um meio de intervenção e inserção na comu-


nidade, que favorece uma visão abrangente e integradora da sociedade, cons-
tituindo-se um espaço privilegiado no processo de formação profissional. Suas
ações se voltam para o atendimento de demandas sociais colhidas no confron-
to direto com a realidade, contribuindo, significativamente, na produção do
conhecimento.

A instituição, diante do compromisso de gerar conhecimentos e despertar


vocações em seus alunos, procura investir, de maneira indissociável, a teoria e
a prática, possibilitando, assim, construir canais de comunicação entre a insti-
tuição e a sociedade.

48 • capítulo 2
O Programa de Extensão busca concretizar sua missão e realizar seus ob-
jetivos promovendo uma série de atividades extracurriculares destinadas à co-
munidade em geral. As políticas de extensão exigem o delineamento de uma
série de objetivos, estratégias e ações, além de abrangerem diferentes sujeitos
institucionais, demandando uma estrutura organizacional e uma infraestrutu-
ra capaz de viabilizar a concretização de suas metas.

Sobre a política de ensino do curso, o NDE e o Colegiado trabalham em con-


junto para pensar estrategicamente e promover ações que criem um ambiente
de aprendizagem constante, incorporando situações práticas que relacionem
teoria ao ambiente educacional, para, com isso, alcançar a missão do curso: for-
mar profissionais com conduta ética e pensamento crítico, criativo, responsá-
vel social e ambientalmente, capazes de antecipar e responder às mudanças no
pensamento científico; perceber as constantes mudanças do mundo globaliza-
do; ter autonomia de pensamento e ação; e valorizar a educação continuada. A
política de extensão concentra-se na prestação de serviços à comunidade local,
por meio de projetos de saúde, palestras e atuações em empresas e instituições.
Com relação à pesquisa, o curso desenvolve atividades de inserção do aluno no
meio científico, com apoio institucional (bolsas de iniciação à pesquisa), além
de oferecer ao docente subsídios para apresentar trabalhos em congressos e
concursos de produção científica. Dessa maneira, existe toda uma preocupação
do curso em manter o alinhamento entre seu PPC e as políticas institucionais.

Em seu Artigo 13, penúltimo do documento, as Diretrizes “amarram” a es-


trutura do curso de graduação em Fisioterapia, assegurando que as atividades
práticas deverão ser desenvolvidas gradualmente, com complexidade crescen-
te desde o início. Afirma, também, que os conteúdos curriculares poderão ser di-
versificados, mas deverá ser assegurado o conhecimento equilibrado de diferentes
áreas, níveis de atuação e recursos terapêuticos para assegurar a formação genera-
lista (CNS, 2002).

Por fim, as evidentes transformações sugeridas para a formação do fisiote-


rapeuta, apresentadas pelas Diretrizes Curriculares, que, efetivamente, inse-
riram a profissão no campo da atenção primária à saúde, desafiam a Fisiote-
rapia a uma ressignificação dos antigos valores que nortearam as práticas da
profissão, prioritariamente para os níveis secundários e terciários de atenção à

capítulo 2 • 49
saúde, imersos em um sentido de reabilitação em que a recuperação do corpo
biológico constituiu-se seu grande objeto de trabalho.
Segundo Barros (2003):

“O fisioterapeuta de hoje já não guarda semelhanças com seu nascedouro de “técnico


de reabilitação” da década de 1950. Essa evolução foi conquistada pela profissão, no
campo legal e científico, através da competência e amadurecimento da categoria pro-
fissional. O fisioterapeuta deixou de ser um “profissional da reabilitação” para tornar-se
um profissional de saúde, atuante na promoção, desenvolvimento, prevenção, tratamen-
to e recuperação da saúde.”

É por meio da formação por competência que o profissional egresso obtém a


capacidade de utilizar uma diversidade de conhecimentos na solução de proble-
mas do seu dia a dia, com tomada de decisões, estabelecendo relações entre cul-
tura, sociedade, saúde, ética e educação. Nesse sentido, é premente o domínio de
conteúdos e metodologias, em níveis crescentes de complexidade e fundamenta-
dos no diálogo entre as transformações sociais e as do mundo do trabalho.

ATIVIDADE
Leia as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de graduação em Fisioterapia, disponí-
veis em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CES042002.pdf.
Pesquise no Sistema de Informações Acadêmicas (SIA) da instituição a estrutura curri-
cular do seu curso e compreenda os ciclos de aprendizagem oferecidos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARROS, F. B. M. de. Autonomia profissional do fisioterapeuta ao longo da história. In: Revista FisioBrasil,
Brasil, n. 59, p.20-31, 2003.
CNE. Resolução CNE/CES 4/2002. Diário Oficial da União, Brasília, 4 de março de 2002. Seção 1, p.
11. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES 4, de 19 de
fevereiro de 2002. Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de graduação em Fisioterapia.
FERNANDES, J.D.; FERREIRA, S.L.A.; OLIVA, R. et al. Diretrizes estratégicas para a implantação de
uma nova proposta pedagógica na Escola de Enfermagem da Universidade da Federal da Bahia. In: Rev.

50 • capítulo 2
capítulo 2 • 51
3
Conhecendo sua
legislação
Apresentação do Capítulo

Em um breve retrocesso ao final do primeiro capítulo, vemos que a Fisioterapia


no Brasil foi regulamentada como profissão por meio do Decreto-lei nº 938 de 13
de outubro de 1969, que provê sobre as profissões de fisioterapeuta e terapeuta ocu-
pacional. Após legitimado o fisioterapeuta como profissional de nível superior, não
mais existiu a profissão de técnicos em Fisioterapia.

No segundo capítulo, discutimos a formação acadêmica relacionando-a ao pro-


fissional atuante no mercado de trabalho.

Agora já podemos relacionar o fisioterapeuta que queremos formar com as bases


políticas da profissão. Antes, porém, veremos que esse profissional deve adotar as
seguintes condutas:

Ter conhecimento e ser cumpridor das leis, políticas públicas de educação e


1 saúde (para se fazer presente e respeitado junto à equipe interdisciplinar);

Dominar a legislação da sua profissão, mostrando a que veio e criando as linhas


2 tênues que separam os saberes de sua área (Fisioterapia) das demais;

3 Estabelecer indicadores para a Fisioterapia, pautados nas necessidades reais;

4 Ter atenção para o novo, para as diversas áreas de gestão.

Buscar espaços de atuação pautados na humanização, ética, dignidade e so-


5 ciabilidade.

Então, vamos à nossa discussão para a formação desse profissional.

capítulo 3 • 53
OBJETIVOS
• Apresentar, de maneira dinâmica, a regulamentação da Fisioterapia;
• Trazer reflexões sobre a regulamentação e a atuação fisioterapêutica;
• Relacionar essas reflexões à formação do profissional de Fisioterapia junto ao mercado
de trabalho;
• Apresentar COFFITO e CREFITOs e associações de classe, diferenciando-os.

3  Breve reflexão sobre a legislação e a


autonomia profissional do fisioterapeuta

Em 1959, com a criação da Associação Brasileira de Fisioterapia (ABF), o cres-


cimento do número de fisioterapeutas e início dos movimentos de organização
da categoria, surgiram novas questões que, nos anos seguintes, suscitariam uma
série de polêmicas, ente elas: “Seria necessária a regulamentação da profissão?”;
“Em que bases essa regulamentação deveria ser realizada?”; “O fisioterapeuta se-
ria um auxiliar médico?” Em relação ao seu campo de atuação, o fisioterapeuta
estaria restrito aos centros de reabilitação?”; “Teria autonomia para fazer diag-
nóstico, estabelecer condutas e tratamentos específicos?”. Surgia, então, uma
espécie de dualidade em relação a essas polêmicas (FREITAS, 2006).

Do ponto de vista médico (daqueles que trabalhavam com os fisioterapeu-


tas, nos centros de reabilitação), as argumentações sobre uma regulamentação
que não permitisse autonomia ao fisioterapeuta, condicionando-o à execução
de práticas e/ou técnicas prescritas pelo médico, estava calcada no argumen-
to de que a formação médica, por ser mais completa, legitimaria uma espécie
de hierarquia; consequentemente, o controle por parte do médico asseguraria
condutas que não poriam em risco a saúde da população.

Por outro lado, do ponto de vista do fisioterapeuta, a autonomia profissional


deveria ser garantida tendo como justificativas principais: o fato de ser uma pro-
fissão de formação superior e ter, em seus estudos, o aprofundamento de vários
conteúdos diferentes dos aplicados nos bancos acadêmicos da formação médica.

54 • capítulo 3
Nos anos seguintes, várias associações regionais ligadas à ABF foram cria-
das, e todo o empenho dos seus associados estava voltado para a legalização da
profissão, que ocorreu em 1969.

Desde então, é comemorado o dia do fisioterapeuta.

CURIOSIDADE
Os bastidores da história da regulamentação da Fisioterapia, revelados pela fisioterapeu-
ta Sonia Gusmann, indicam que as circunstâncias que o país atravessava, com a democracia
sufocada pelo regime militar, ocasionalmente favoreceram a legalização da profissão. A ex-
pressão graças – como se fosse uma dádiva divina – pelo AVE do Presidente Costa e Silva
afirma essa casualidade que propiciou a aproximação dos fisioterapeutas ao grande escalão
militar, retirando da pauta da regulamentação as possíveis interferências de outros atores
sociais, especialmente a classe médica. Tal fato facilitou a aprovação de um texto que vinha
ao encontro das aspirações dos fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, que caminhavam
juntos na luta por essa regulamentação (FREITAS, 2006).

3.1  O Decreto-lei 938/69 – legitimando a profissão

O Decreto-lei 938/69, em seus Artigos 1º e 2º, garante pleno exercício pro-


fissional pelo fisioterapeuta, estabelecendo que ele é um profissional de nível
superior. Incorpora, também, em seu Artigo 12, o fisioterapeuta a uma nova
situação, em que seria considerado profissional liberal:

• É assegurado o exercício das profissões de fisioterapeuta e terapeuta ocu-


pacional, observado o disposto no presente. (Art. 1º.)

• O fisioterapeuta e o terapeuta ocupacional, diplomados por escolas e cur-


sos reconhecidos, são profissionais de nível superior. (Art. 2º.)

• O Grupo da Confederação Nacional das Profissões Liberais, constante do


Quadro de Atividades e Profissões, anexo à Consolidação das Leis do Trabalho,
aprovada pelo Decreto-lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, é acrescido das cate-
gorias profissionais de fisioterapeuta, terapeuta ocupacional [...]. (Art. 12.)

capítulo 3 • 55
Em relação ao estabelecimento dos atos privativos do fisioterapeuta, o refe-
rido Decreto-lei afirma:

• É atividade privativa do fisioterapeuta executar métodos e técnicas fisio-


terápicos com a finalidade de restaurar, desenvolver e conservar a capacidade
física do paciente. (Art. 3º.)

No artigo citado anteriormente, encontramos duas questões que merecem


reflexão:

• A primeira é referente à afirmação: É atividade privativa do fisioterapeuta


executar métodos e técnicas fisioterápicos [...]. Se interpretada ao pé da letra, po-
deríamos entender que, a partir do Decreto-lei, o fisioterapeuta teria a garantia
de ser o único responsável por tal execução, porém a avaliação, o diagnóstico e
a prescrição do tratamento seriam privativos de quem? Que profissional liberal
só teria a função de executor?

• A segunda questão refere-se às ações privativas do fisioterapeuta, descritas


no documento: [...] restaurar, desenvolver e conservar a capacidade física do pa-
ciente. Esse trecho aponta para uma particularidade que, desde os primeiros es-
tudos sobre a Fisioterapia, encontra-se arraigada e diretamente relacionada à
profissão: a associação com a reabilitação. Isso acabou reforçando a concepção
de que o trabalho do fisioterapeuta estaria restrito aos níveis de atenção à saú-
de na qual a capacidade física das pessoas já estivesse comprometida. Remete,
portanto, a uma prática de saúde restrita à doença, o que dificulta a percepção
da profissão para as práticas voltadas à prevenção e à promoção da saúde.

É muito provável que, diante das aflições na época por conta da indefinição
do futuro da profissão, como destacamos anteriormente, associada à oportu-
nidade de regulamentação da profissão por “vias mais rápidas”, essas incoe-
rências estivessem presentes no documento (FREITAS, 2006). Contudo é im-
portante citar que, após a criação dos Conselhos de Classe (Conselho Federal
de Fisioterapia e Terapia Ocupacional e Conselhos Regionais de Fisioterapia e
Terapia Ocupacional), em 1975, algumas resoluções foram elaboradas para a
reafirmação desse profissional com características diferentes da de um mero
executor, que serão objeto de análise no decorrer deste capítulo.

56 • capítulo 3
O uso do termo paciente indica uma proposta de atuação voltada para o in-
divíduo doente e, portanto, já em fase de tratamento.

Fundamentados nesse cenário, os esforços dos profissionais e/ou áreas de es-


tudo preocupadas com as condições de saúde do homem concentram-se na des-
coberta de novos métodos de tratamento das doenças, revelando a predominância
de uma assistência curativa, recuperativa e reabilitadora (REZENDE et al., 2009).

Ainda hoje, evidenciamos que, apesar de o processo histórico da saúde pú-


blica no país ter evoluído, a identidade da profissão ainda está ligada à recupe-
ração e reabilitação, dificultando a compreensão do que seja uma intervenção
fisioterápica e/ou fisioterapêutica
FREITAS (2006, p. 15-16) faz uma importante declaração:

“Um exemplo interessante, que ocorreu durante uma atuação de dois acadêmicos,
juntamente com o supervisor, no estágio referido, ilustra bem as considerações feitas
até aqui: ao chegarem à casa de um senhor que possuía diversos comprometimentos
físicos, decorrentes de um acidente vascular encefálico (AVE), que já vinha sendo aten-
dido pela Fisioterapia, verificou-se que sua pressão arterial estava muito elevada. Tal
fato contraindicava a execução dos procedimentos de Fisioterapia que estavam sendo
desenvolvidos. Ao indagarem sobre o uso correto da medicação prescrita pelo médico
da Unidade Básica de Saúde (UBS) que o acompanhava, o senhor em questão ficou
nitidamente constrangido. A esposa, que acompanhava o atendimento, informou que a
sogra, que morava junto com o casal, achava que os remédios dados pela esposa ao
seu marido tinham a finalidade de matá-lo. Por conta dessa “crença”, a sogra, sempre
que podia, pegava os remédios e os jogava no lixo. Consequentemente, o filho dela não
tomava os remédios com a frequência determinada e havia quase uma semana que
se encontrava sem a medicação. Diante dessa situação, algumas providências foram
tomadas pelos acadêmicos e pelo supervisor: providenciou-se a medicação anti-hiper-
tensiva que estava prescrita, junto à UBS; ao mesmo tempo, foi feita uma reunião com
a família para esclarecimento sobre a importância do uso da medicação. Quando retor-
naram à UBS, informaram a situação a todos os profissionais de saúde, sugerindo uma
maior atenção para o caso. Ao relatarem a visita domiciliar na folha única do prontuário
da família, os acadêmicos registraram o seguinte: “não houve atendimento de Fisiotera-
pia, pois o paciente encontrava-se com a pressão arterial muito elevada.”

capítulo 3 • 57
“Cabe o esclarecimento de que esses acadêmicos estavam no nono período, faltando
apenas um período para se formarem. Apesar de estarem participando de algumas
discussões sobre as características da atuação profissional na atenção básica, aquele
foi o primeiro contato deles com esse campo de trabalho. Porém, ficaram evidentes, no
relato do prontuário, os indícios sobre uma não identificação das ações que tiveram no
caso descrito uma intervenção que pode ser feita pelo fisioterapeuta nesse nível de
atenção à saúde. Não reconheceram, até mesmo, que as providências tomadas e das
quais participaram seguramente foram mais significativas para a manutenção da vida
dessa pessoa do que o atendimento que inicialmente estava proposto.”

Esse exemplo evidencia a necessidade de maior conscientização e compre-


ensão da presença do fisioterapeuta na construção dos projetos terapêuticos
desenvolvidos, principalmente no âmbito do Nasf, sendo importante maior
discussão de políticas públicas existentes e ampliação do conhecimento entre
os profissionais e usuários sobre a sua prática. São necessárias discussões am-
plas e reais na formação do fisioterapeuta e das ferramentas utilizadas para o
integral e resolutivo (SOUZA et al., 2013). É justamente na formação acadêmica
– nas salas de aula – que isso deve ocorrer.

3.2  Criação do Conselho Federal de Fisioterapia e de Terapia


Ocupacional (Coffito), Conselhos Regionais de Fisioterapia e
Terapia Ocupacional (Crefitos) e algumas resoluções.

Com a criação do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional,


pela Lei 6.316/75, formado pelos próprios fisioterapeutas e terapeutas ocupa-
cionais, com poderes de baixar atos e normas orientadores do exercício profis-
sional, a autonomia das profissões estava garantida. A Fisioterapia se desen-
volveu e criou corpo enquanto profissão, ampliando significativamente sua
participação no cenário da saúde.

58 • capítulo 3
COMENTÁRIO
O Conselho Federal de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional (Coffito) é uma au-
tarquia federal, criada em 17 de dezembro de 1975, com objetivos de normatizar e exercer o
controle ético, científico e social das atividades da Fisioterapia e da Terapia Ocupacional, das
profissões de fisioterapeuta e de terapeuta ocupacional e das empresas prestadoras de tais
tipicidades assistenciais ao meio social.

Entre outras, são competências exclusivas do Coffito:

Exercer função normativa e o controle ético, científico e social do exercício da


I Fisioterapia e da terapia ocupacional em todo território nacional;

Baixar todos os atos normativos necessários à correta interpretação e execu-


II ção da Lei nº 6.316/1975;

Supervisionar e fiscalizar o exercício profissional das profissões em todo o ter-


ritório nacional, estimulando e zelando pelo prestígio e bom nome daqueles que
III a exercem, através do estabelecimento de princípios de controle, capazes de
fundamentar a promoção de uma assistência profissional independente, cientí-
fica, ética e resolutiva;

Funcionar como Tribunal Superior de Ética nas demandas que envolvam profis-
IV sionais fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.

A Lei nº 6.316/75 estabeleceu um forte mecanismo de controle da profissão,


por parte dos Conselhos, no qual esses órgãos passaram a ter autoridade para
autuar os que exercem a profissão sem a devida regulamentação junto ao Cre-
fito, bem como a legitimidade para interpretar – em conformidade com o De-
creto-lei nº 938/69, que regulamentou a profissão – e determinar as atribuições
profissionais pertinentes à Fisioterapia (FREITAS, 2006).

capítulo 3 • 59
Na década de 1970, no cenário mundial, discutiam-se novos conceitos de
saúde e novas concepções do processo saúde–doença. Havia uma preocupação
mais vinculada à qualidade de vida e procurava-se articular, como dimensões
explicativas, a biologia humana, os estilos de vida, o ambiente e os serviços de
saúde. A publicação do documento A New Perspective on the Health of Cana-
dians, em 1974, por Marc Lalonde (LALONDE, 1974), marca o início do moder-
no movimento da promoção da saúde e apresenta a perspectiva da história so-
cial das doenças.

Tendo o Conselho, como uma de suas incumbências, exercer função nor-


mativa, emitiu, em fevereiro de 1978, a Resolução Coffito nº 08, aprovando as
normas para habilitação ao exercício da profissão de fisioterapeuta.

Esse documento tem como objetivo principal especificar, com detalhes, as exi-
gências necessárias à legalização desses profissionais junto ao Crefito, condição
imperativa para o exercício da profissão. Para tal, trata dos seguintes assuntos:

• Disposições preliminares;
• Direito à inscrição e à franquia profissional;
• Processamento da habilitação no Crefito;
• Documentos de identidade profissional;
• Transferência e baixa do vínculo de habilitação;
• Registro do consultório; publicidade profissional;
• Obrigações pecuniárias e débitos.

A Resolução Coffito nº 8 tem forte caráter burocrático. É extensa e traz infor-


mações valiosas quanto a documentos necessários para o exercício profissio-
nal da Fisioterapia. Esmiúça cada item referido acima e apresenta no primeiro
capítulo, chamado Disposições Preliminares, algumas considerações sobre os
atos privativos do fisioterapeuta:

• Constituem atos privativos, comuns ao fisioterapeuta e ao terapeuta ocu-


pacional, nas áreas de atuação:

60 • capítulo 3
O planejamento, a programação, a ordenação e a supervisão de métodos e
I técnicas fisioterápicos e/ou terapêuticos ocupacionais que visem à saúde nos
níveis de prevenção primária, secundária e terciária;

A avaliação, a reavaliação e a determinação das condições de alta do cliente


II submetido à Fisioterapia e/ou Terapia Ocupacional;

A direção dos serviços e locais destinados a atividades fisioterápicas e/ou tera-


III pêuticas ocupacionais, bem como a responsabilidade técnica pelo desempenho
dessas atividades;

A divulgação de métodos e técnicas de Fisioterapia e/ou Terapia Ocupacional,


IV ressalvados os casos de produção científica autorizada na Lei. (Art. 2º, itens I,
II, III e IV.)

Reflete o movimento da saúde então vigente, pois define como atos desse
profissional planejar, programar, ordenar, coordenar, executar e supervisionar
métodos e técnicas fisioterápicos que visem à saúde nos níveis de prevenção primá-
ria, secundária e terciária.

Em relação ao Decreto-lei nº 938/69, a Resolução Coffito nº 08/78 ampliou


consideravelmente o campo de atuação do fisioterapeuta, tanto em relação aos
níveis de assistência (prevenção primária, secundária e terciária) quanto ao
foco da atenção, passando a apreender a saúde do indivíduo como um todo e
não mais apenas no que diz respeito à sua capacidade física.

Essas alterações conceituais, embora importantes, demonstram-se frágeis


quando é mencionada, no seu Art. 3º, o ato profissional na terapia física:

“[...] Prescrever, ministrar e supervisionar terapia física que objetive preservar, manter, de-
senvolver ou restaurar a integridade de órgão, sistema ou função do corpo humano [...].”

capítulo 3 • 61
O termo terapia está diretamente relacionado ao substantivo terapêutica,
que se refere à parte da Medicina que estuda e põe em prática os meios adequa-
dos para aliviar ou curar os doentes.

No entanto, houve evolução, pois os fisioterapeutas ampliaram seu campo


de atuação e apresentaram-se como aptos a contribuir, também, na prevenção
primária. Eles criaram a necessidade de rever e reestruturar sua prática. O pro-
cesso de transformação, no entanto, ficou incompleto, na medida em que fal-
tou atribuir a si, na regulamentação, ações de orientação em saúde e prevenção
de doenças (REZENDE et al., 2009).

ATENÇÃO
Art. 7º. Constituem condições indispensáveis para o
exercício das profissões de fisioterapeuta e terapeuta
ocupacional:
I - formação profissional de nível superior em curso
oficial ou reconhecido, de instituição de ensino autori-
zada nos termos da lei; e
II - vinculação, pela inscrição ou pela franquia profis-
sional de que tratam os artigos 12 e 18, ao Conselho
Regional de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional
(Crefito) com jurisdição na área do exercício da ativi-
dade profissional.

Em maio de 1987, após a 8ª Conferência Nacional de Saúde do país e antes


da criação do SUS, a Resolução Coffito nº 80, por meio de atos complementa-
res, buscou ampliar as atribuições do fisioterapeuta expressas na Resolução nº
08/78, em uma perspectiva que procurou adequar a Fisioterapia ao novo mo-
mento do cenário sanitário brasileiro.

Dentre as considerações da Resolução Coffito nº 80, deve ser destacada a


que alude ao objeto de estudo e trabalho do fisioterapeuta:

62 • capítulo 3
“A Fisioterapia é uma ciência aplicada, cujo objeto de estudo é o movimento humano em
todas as suas formas de expressão e potencialidades, quer nas suas alterações pato-
lógicas, quer nas suas repercussões psíquicas e orgânicas, com objetivos de preservar,
manter, desenvolver ou restaurar a integridade de órgão, sistema ou função.”

Essa foi uma mudança essencial, porque o movimento é a forma de comu-


nicação do indivíduo com o mundo externo, que acontece a partir da sua in-
teração com o meio em que vive. Não há comunicação sem movimento: a fala
produz-se a partir do movimento; a respiração só ocorre com movimento; por
meio dele, os indivíduos expressam seus sentimentos e assumem posturas
diante dos desafios da vida. Assim, ao assumir o movimento e a função como
seu objeto de estudo, o fisioterapeuta adotou uma perspectiva relacional, não
apenas pensando o sujeito por suas características biológicas, mas também o
considerando na sua dimensão social (REZENDE, 2009).

Muito mais do que tratar e reabilitar, o fisioterapeuta, a partir da Resolução


Coffito nº 80/87, tem o encargo de agir na direção do desenvolvimento das po-
tencialidades funcionais do indivíduo para exercer suas atividades laborativas
e da vida diária.
Consta na Resolução Cofitto nº 80/87 que:

“Por sua formação acadêmico-profissional, pode o fisioterapeuta atuar juntamente com


outros profissionais nos diversos níveis da assistência à saúde, na administração de
serviços, na área educacional e no desenvolvimento de pesquisas.”

O fisioterapeuta deve atuar em interação com outros profissionais, para me-


lhor compreender e poder interferir, no sentido de ampliar e enriquecer a rela-
ção permanente do indivíduo com seu ambiente. E, junto com os usuários dos
serviços de saúde, deve refletir sobre o uso que eles fazem do próprio corpo nas
suas relações com o espaço e com outras pessoas e, a partir de então, promover
ações visando à saúde.

A reabilitação, a partir dos anos 1980, assumiu perspectiva diferente. O do-

capítulo 3 • 63
cumento Programa de Ação Mundial para Pessoas com Deficiência, aprovado e
divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1982, ressaltou que
o direito dos “deficientes” (termo utilizado no documento) situava-se no mes-
mo patamar de oportunidades dos demais cidadãos, ao afirmar que a eles tam-
bém caberia usufruir, em condição de igualdade, das melhorias nas condições de
vida. Uma visão abrangente e multidimensional se faz presente e compreendeu
ações de reabilitação como treinamento e empowerment do portador de defi-
ciência, intervenções sociais amplas, adaptação do meio ambiente e proteção
dos direitos do portador (BODSTEIN; RAMOS; HORTALE, 2003).

A discussão conceitual em relação ao portador de deficiência e à reabilita-


ção levou à associação de dois componentes principais: o funcional e o social.
Esse enfoque influenciou, também, a assistência em reabilitação daqueles com
lesões transitórias e foi referida em uma das considerações da citada Resolução
nº 80/87, que apresentou a reabilitação como uma proposta de atuação multi-
profissional voltada para a recuperação e o bem-estar biopsicossocial do indivíduo.

Afora a discussão do objeto de estudo do fisioterapeuta, a possibilidade de


trazer a reabilitação e o tratamento de distúrbios do movimento para o ambien-
te em que o indivíduo vive e desenvolve suas atividades – tornando-os mais efi-
cientes, acessíveis e prevenindo transtornos maiores para as pessoas que convi-
vem com algum problema –, ratifica o espaço que se abre para a Fisioterapia no
primeiro nível da atenção, junto à educação para a saúde. Contudo, de acordo
com os termos da Resolução nº 80/87, o ato do fisioterapeuta é, ainda, restrito
ao processo terapêutico e, portanto, à relação com a doença:

“Baseando-se nas condições psicofísico-sociais, [o fisioterapeuta] busca promover,


aperfeiçoar ou adaptar, através de uma relação terapêutica, o indivíduo a uma melhor
qualidade de vida.”

Para melhor entendimento da questão, o Quadro 1 (REZENDE et al, 2009)


sintetiza um conjunto de eventos, onde se percebem as mudanças no objeto de
estudo, no campo de atuação e no foco da atenção da Fisioterapia, em conso-
nância com as alterações que ocorreram, no mesmo período, na área da saúde.

64 • capítulo 3
REZENDE, M. de; MOREIRA, M.R.; AMÂNCIO FILHO, A. et al. A Equipe Mul-
tiprofissional da Saúde da Família: uma reflexão sobre o papel do fisioterapeu-
ta. In: Ciência & Saúde Coletiva, 14 (Supl. 1): 1403-1410, 2009.

Após a fundação do SUS, em 1990, houve uma preocupação do Coffito em


estabelecer novas resoluções que disciplinassem a atividade do fisioterapeu-
ta no exercício de especialidades profissionais relacionadas à atenção básica
– educação na saúde e promoção da saúde – junto à saúde do trabalhador, do
idoso e da mulher, dentre outros.

Apesar das dificuldades encontradas, o fisioterapeuta já se mostra presente


na atenção básica, mas tais vivências precisam ser observadas, evidenciadas e
analisadas.

Buscar identificar as peculiaridades e especificidades das várias situações


nos três níveis de complexidade de atenção à saúde pode levar à tomada de de-
cisões, uma competência do fisioterapeuta.

Há necessidade de discussões em congressos, encontros, fóruns e salas de

capítulo 3 • 65
aula que fortaleçam e inovem o processo de planejamento, gestão e educação
na saúde.

3.3  Código de Ética do fisioterapeuta | RESOLUÇÃO Nº 424, DE


08 DE JULHO DE 2013

Os Conselhos de Classe têm a função de proteger a sociedade de maus pro-


fissionais que exercem funções de relevante interesse público. Por esse motivo,
fiscalizam as atividades de seus membros por meio de um Código de Ética pro-
fissional.

Esse Código contém os padrões morais que os profissionais de determinada


classe devem conhecer, aceitar e observar. Além disso, seu objetivo é regular as
relações entre os membros dessa categoria, bem como entre ela e a sociedade,
de maneira impositiva. Não é dada ao profissional a possibilidade de optar pela
postura ética que ele julga mais adequada para resolver determinado dilema.
Se divergir do código, será punido.

Assim, a ética profissional passa a ser, desde a sua regulamentação, um con-


junto de prescrições de conduta. O que consistia em normas puramente éticas
passa a ser normas jurídicas de Direito Administrativo, das quais, do descum-
primento de seus mandamentos, decorrem sanções administrativas (adver-
tência, suspensão, entre outras punições). Nesse contexto, as infrações éticas
acabam equiparando-se ou sendo tratadas igualmente às demais infrações fun-
cionais.

Os códigos de profissões regulamentadas por Conselho de Classe são im-


positivos, pois quem os elabora possui autoridade delegada pelo Estado não
apenas para criá-los, mas também para fazer com que sejam cumpridos.

Até 2013, dispúnhamos de um Código de Ética profissional que regia a pro-


fissão de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, aprovado pela Resolução Coffito
nº 10 de 3 de julho de 1978.

66 • capítulo 3
Em julho de 2013, houve um desmembramento dessa resolução, com a
criação da Resolução nº424, que estabelece o Código de Ética e Deontologia
da Fisioterapia: trata dos deveres do fisioterapeuta, no que tange ao controle
ético do exercício de sua profissão; informa que compete ao Coffito zelar pela
observância dos princípios desse código, que o Coffito funciona como Conse-
lho Superior de Ética e Deontologia Profissional e que os Conselhos Regionais
de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional, em suas respectivas circunscrições,
funcionam como órgão julgador em primeira instância.

Além dessas disposições preliminares citadas, tem como objetivo principal


especificar, com detalhes:

• As responsabilidades fundamentais de um fisioterapeuta;


• O relacionamento com o cliente/ paciente/usuário;
• O relacionamento com a equipe;
• As responsabilidades no exercício da Fisioterapia;
• O sigilo profissional;
• O fisioterapeuta perante as entidades de classe;
• Os honorários;
• A docência, preceptoria, pesquisa e publicação;
• A divulgação profissional.

Leia-o com atenção e verifique que, em síntese, se o Código de Ética Profis-


sional do fisioterapeuta é percebido pelo indivíduo como um guia de conduta,
ele estará mais propenso a cumprir as normas emanadas do Coffito, reduzindo,
dessa maneira, a possibilidade de ações que prejudiquem os diversos usuários
das intervenções fisioterapêuticas.

Além dessa predisposição para acatar as normas do Código de Ética, fatores


religiosos, educacionais e culturais do cliente, entre outros, podem influenciar
o processo decisório ético do indivíduo.

Portanto, para que se aja de maneira ética, basta se colocar no lugar do outro.

capítulo 3 • 67
3.4  Diferenciações nas funções do Coffito e dos Crefitos e
entidades classistas e culturais do fisioterapeuta

CURIOSIDADE
Na Fisioterapia, o símbolo significa um dos elementos de identidade
visual. É figurativo e tem como função ajudar a identificar uma marca,
separando-a das demais, tornando-a única e distinta.
A serpente (no símbolo da Fisioterapia são duas) é, há milênios, asso-
ciada à sabedoria, à transmissão e à utilização do conhecimento apre-
endido de forma sábia. Já o raio, com seu brilho intenso, é uma forma
utilizada desde a Antiguidade para transmitir e identificar, de maneira
consciente, os valores e práticas corretas de vida e as técnicas utili-
zadas pela terapia (técnicas elétricas). (TRIBUZY, citado por SOUZA,
2002).

3.5  Conselho Federal de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional |


COFFITO

O papel legal e social do Conselho é, em síntese, fiscalizar a ética de sua


própria corporação para a promoção do bem-estar social, funcionando como
órgão de última instância de recursos para as mencionadas profissões. É de sua
competência, ainda, supervisionar e fiscalizar o exercício profissional, buscan-
do sempre qualidade e prestígio dessas categorias para uma assistência profis-
sional independente, científica, ética e resolutiva.
Participa de pautas do Congresso Nacional, em Brasília, intermediando as
negociações em defesa dos interesses da sociedade, de suas duas categorias
profissionais por intermédio de de sua equipe, junto aos parlamentares em re-
lação às matérias que tramitam na Casa.

Participa de todas as questões que envolvem as profissões no contexto das


proposições e normas relativas aos profissionais de saúde.

Promove e participa do aprofundamento das questões políticas, sociais,

68 • capítulo 3
científicas e mercadológicas da Fisioterapia e da Terapia Ocupacional no Brasil
e no mundo, assim como do debate sobre conceitos e práticas, oportunizando a
troca de informações e potencializando as parcerias estratégicas, intra e extra-
corporação, com as entidades representativas das profissões regulamentadas.

CONEXÃO
Para esclarecer suas dúvidas, acesse: http://www.coffito.org.br/site/index.php/sa-
la-de-imprensa/perguntas-mais-frequentes.html

3.6  Conselhos Regionais de Fisioterapia e Terapia Ocupacional |


Crefitos

Os conselhos de Fisioterapia e Terapia Ocupacional são encabeçados pelo


órgão de nível federal (Coffito) e atuam em todo o território nacional por meio
de representações regionais, os Conselhos Regionais de Fisioterapia e Terapia
Ocupacional (Crefitos).

Tanto o Coffito quanto os Crefitos são autarquias – órgãos da administra-


ção pública com autonomia administrativa. O sistema Coffito/Crefito foi criado
pela Lei Federal nº 6.316, em 1975, e tem como atribuições principais: regular,
orientar e fiscalizar o exercício profissional de fisioterapeutas e terapeutas ocu-
pacionais, além de exercer o controle ético-social da Fisioterapia e da Terapia
Ocupacional, protegendo a sociedade contra o exercício ilegal e/ou irresponsá-
vel dessas profissões.

Cabe ao Crefito: expedir registros profissionais; arrecadar anuidades, mul-


tas e emolumentos; julgar infrações e aplicar penalidades previstas pela legis-
lação brasileira. Já o Coffito deve, entre outras atribuições, aprovar resoluções e
julgar recursos relacionados a procedimentos éticos e administrativos.

Temos, atualmente, 16 Crefitos, tendo cada um deles, respaldado na Lei nº


6.316 de 17 de dezembro de 1975, a finalidade precípua de fiscalizar o exercício pro-
fissional de fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais em sua área de jurisdição.

capítulo 3 • 69
CONEXÃO
Acesse o Crefito de sua região! http://www.coffito.org.br/site/index.php/crefitos/
enderecos-crefitos-coffito.html

Saiba mais
De acordo com o Art. 7º da Lei nº 6.316 de 17 de dezembro de 1975, compete
aos Conselhos Regionais, entre outras atribuições:

• Expedir a carteira de identidade profissional e o cartão de identificação aos


profissionais registrados;
• Fiscalizar o exercício profissional na área de sua jurisdição representando,
inclusive, às autoridades competentes, sobre os fatos que apurar e cuja solução
ou repressão não seja de sua alçada;
• Cumprir e fazer cumprir as disposições da Lei nº 6.316, das resoluções e
demais normas baixadas pelo Conselho Federal;
• Funcionar como Tribunal Regional de Ética, conhecendo, processando e
decidindo os casos que lhe forem submetidos;
• Estimular a exação no exercício da profissão, velando pelo prestígio e bom
conceito dos que a exercem; e
• Julgar as infrações e aplicar as penalidades previstas na lei e em normas
complementares ao Conselho Federal.

ATENÇÃO
Diferenças entre conselhos, associações e sindicato
Entenda as funções de cada órgão, para saber a qual recorrer de acordo com suas neces-
sidades.

Nem todo profissional tem conhecimento das principais funções de cada


um dos organismos da Fisioterapia. Consequentemente, pode enganar-se no
momento de buscar atendimento e não procurar o mais adequado para solu-
cionar o problema. Para que isso não ocorra, saiba as diferenças e as principais
atividades dos conselhos, associações e sindicatos:

70 • capítulo 3
Os conselhos regionais foram criados para regular, orientar e
fiscalizar a atividade profissional. São entidades fiscalizadas
CONSELHOS pelo Conselho Federal – órgão hierarquicamente superior,
REGIONAIS E do qual emanam resoluções para os regionais e ao qual cabe
FEDERAIS julgar em grau de último recurso procedimentos éticos e ad-
ministrativos.

As associações são sociedades de cunho científico, criadas


com o objetivo de auxiliar os profissionais e estudantes com
ASSOCIAÇÕES atividades que agreguem valor aos seus currículos, como
cursos, palestras, congressos e jornadas, encontros, simpó-
sios e demais eventos científicos.

Os sindicatos têm como missão principal a luta pela melhoria


das condições de trabalho, da remuneração dos profissio-
nais, das relações entre proprietários de empresas privadas,
públicas e colaboradores, e pela defesa da classe, entre ou-
SINDICATOS tras atividades.
Eles têm como atribuição específica verificar a jornada ideal
de trabalho do profissional, o piso salarial e acordos anuais,
fazendo prevalecer todos os direitos trabalhistas garantidos
pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARROS, F. B. M. de. Autonomia profissional do fisioterapeuta ao longo da história. In: Revista FisioBrasil,
Brasil, n. 59, p. 20-31, 2003.
BODSTEIN, R.; RAMOS, C.L.; HORTALE, V.A. Programa de reabilitação comunitária: experiência de in-
clusão social da pessoa portadora de deficiência. In: FUNLAR – Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Fundação
Oswaldo Cruz; 2003.
FREITAS, M.S. A atenção básica como campo de atuação da Fisioterapia no Brasil: as diretrizes curricu-
lares resignificando a prática profissional. Tese. Saúde Coletiva. Instituto de Medicina Social da Universi-

capítulo 3 • 71
dade do Estado do Rio de Janeiro, 2006.
LALONDE, M. A new perspective on the health of canadians: a working document. Ottawa: Minister of
Supply and Services; 1974.
NAVES, C.R.; BRICK, V.S. Análise quantitativa e qualitativa do nível de conhecimento dos alunos do curso
de Fisioterapia sobre a atuação do fisioterapeuta em saúde pública. In: Ciência & Saúde Coletiva, 16
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REZENDE, M. de.; MOREIRA, M.R.; AMÂNCIO FILHO, A. et al. A equipe multiprofissional da ‘Saúde da
Família’: uma reflexão sobre o papel do fisioterapeuta. In: Ciência & Saúde Coletiva, 14(Supl. 1):1403-
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SOUZA, M. C. de S.; BOMFIM, A.S.; SOUZA, J. N. et al. Fisioterapia e núcleo de apoio à saúde da família:
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SOUZA, R. de C.P. Símbolo da Fisioterapia. Aula cedida. Crefito 10. Disponível em: http://www.crefito10.
org.br/cmslite/userfiles/file/slides_simboloFisioterapia.pdf.

72 • capítulo 3
capítulo 3 • 73
4
Recursos
Fisioterapêuticos
Apresentação do Capítulo

A utilização terapêutica de agentes físicos perde-se no tempo: os antigos egípcios


já utilizavam enguias elétricas no tratamento das crises de gota; e de Aristóteles a
Einstein, a história desses agentes está repleta de nomes ilustres, entre eles, Galvani,
Müller, Volta, Faraday e Duchenne.

É fundamental que a pesquisa continue sistematizando indicações, normalizan-


do formas de atuação e rejeitando definitivamente tudo o que se prove ineficaz na Fi-
sioterapia. Isso é praticar a Fisioterapia baseada em evidencias científicas. No entanto,
para isso, é fundamental a utilização dos agentes físicos segundo os princípios que
hoje se consideram mais adequados.

Este capítulo pretende apenas alinhar, de maneira clara e sucinta, uma apresen-
tação e noções básicas sobre alguns dos agentes físicos mais frequentemente utili-
zados: termoterapia (frio, calor superficial, calor profundo), eletroterapia (correntes
elétricas contínuas e alternadas), fototerapia (infravermelho, ultravioleta, lasertera-
pia), além do ultrassom terapêutico. Estudaremos também a cinesioterapia – o carro-
chefe da Fisioterapia –, a mecanoterapia e recursos terapêuticos manuais.

Ao apresentar o tema, gostaríamos de alertar o leitor quanto à enganosa simpli-


cidade dos agentes físicos e à necessidade de basear sua prescrição nos princípios
científicos que devem reger toda a atividade fisioterapêutica, pois, devido à crescente
difusão dessas modalidades terapêuticas, os fundamentos teóricos que regem sua
aplicação continuam a ser largamente desconhecidos. De fato, muitos fisioterapeu-
tas envolvidos na prescrição e utilização de agentes físicos conhecem mal – ou não
conhecem de todo – suas caraterísticas, doses e tempos de administração, indica-
ções e contraindicações; tal fato acarreta riscos para o indivíduo, produz maus resul-
tados e representa uma sobrecarga inútil para o sistema de saúde. Prescrever eletro-
terapia ou ultrassom é tão inútil e inconsistente quanto seria escrever antibiótico em
uma receita.

OBJETIVOS
Neste capítulo, pretende-se que sua aprendizagem seja referente a:

74 • capítulo
•  Apresentar os recursos fisioterapêuticos;
•  Apresentar os efeitos fisiológicos e terapêuticos desses recursos;
•  Relacionar as indicações e contraindicações com a prescrição e a indicação dos
recursos fisioterapêuticos.

4  Termoterapia
A termoterapia consiste na aplicação de calor com objetivos terapêuticos.
Pode ser classificada quanto à profundidade atingida (superficial ou profunda)
e ao tipo de transmissão (por condução, convecção ou conversão).

Condução – A transferência do calor é feita por contato direto entre dois


corpos. É uma aplicação superficial que se limita à região cutânea, alcançando
aproximadamente 1cm de profundidade, não alterando os tecidos mais pro-
fundos, exceto por reações reflexas. Exemplos:

• Compressas quentes, bolsa térmica, hydrocollator: são simples, econômi-


cos e eficazes. Transmissão do calor por condução direta (ação superficial);

• Banho de parafina: tipo de calor em que se usa a parafina derretida mistu-


rada com óleo mineral a uma temperatura em torno de 52 a 54º C, com finali-
dade terapêutica (superficial).

Convecção – É feita por um intermediário, como o ar ou a água. O movimen-


to de moléculas móveis no meio de um fluido – em líquido ou formação gasosa
– altera a temperatura: Exemplos: turbilhão, forno de Bier, sauna.

Conversão – Ocorre transformação de um tipo de energia em outro; por


exemplo, conversão de energia radiante, elétrica ou sônica em calor. No aque-
cimento profundo, ou diatermia, a transferência do calor é sempre feita por
conversão. Embora sua regulação seja complicada, o aquecimento superficial
é de fácil acesso, seguro e mais barato do que o profundo. Trata-se de uma mo-
dalidade terapêutica na qual são utilizados agentes térmicos como princípio de
tratamento. Tem por base o efeito Joule, o qual utiliza a resistência dos tecidos

capítulo • 75
quando da passagem da corrente elétrica para a produção de calor. Exemplos:

• Radiação infravermelha: utilizada para efeitos de aquecimento, tem com-


primento de onda entre 7.000 e 120.000Å. Ao penetrar nos tecidos, os fótons
são absorvidos e convertidos em calor. No entanto, só alcançam os tecidos mais
superficiais, elevando a temperatura entre 5 e 15mm de profundidade. É um
agente termoterápico de calor superficial, com penetração extremamente pe-
quena;

• Ultrassom: são ondas sonoras (vibrações mecânicas) não percebidas pelo


ouvido humano, cujas faixas terapêuticas se encontram em 1MZz, 3MZz e 5MZz.
Essas ondas são produzidas a partir da transformação da corrente comercial
em corrente de alta frequência, que, ao incidir sobre um cristal (quartzo), faz
com que o mesmo se comprima e se dilate alternadamente, emitindo ondas
ultrassônicas na mesma frequência da corrente recebida, acima de 20.000Hz
(Figura 1);

• Diatermia por ondas curtas: é uma corrente de alta frequência, com cerca
de 27,12MHz, que produz ondas eletromagnéticas (campos elétricos e magné-
ticos que se deslocam pelo espaço sem a necessidade de um meio de sustenta-
ção) com 11m de comprimento. A polaridade muda de posição tão rapidamen-
te que não chega a estimular os nervos motores (ver Figura 1);

ATENÇÃO
Por se tratar de um tipo de radiação, há a necessidade de vários procedimentos de cuidado,
incluindo a construção de uma gaiola de Faraday, para que essa radiação não se espalhe.

• Micro-ondas: vibrações eletromagnéticas cuja frequência se encontra na


faixa de 300MHz a 300GHz com comprimento de onda na faixa de 1mm a 1m.
As micro-ondas viajam à velocidade da luz e propagam-se no vácuo. Ao atingir a
superfície do corpo ou de qualquer outro material, a energia radiante pode ser
absorvida, transmitida, refratada e refletida (ver Figura 1).

76 • capítulo
Figura 1. Ultrassom terapêutico Diatermia por ondas curtas Micro-ondas

As reações biológicas dos tecidos ao aumento de temperatura são influen-


ciadas por diversos fatores. A elevação da temperatura dos tecidos possui uma
estreita faixa terapêutica, entre 40 e 45,5°C. Abaixo desses valores, os efeitos são
reduzidos; acima, podem ocorrer lesões, inativação enzimática e aumento dos
processos inflamatórios. A velocidade da elevação da temperatura varia conso-
ante à fonte térmica. Quanto mais rápida a elevação, mais favoráveis os efeitos
biológicos, que dependem também das dimensões da área a se tratar. A elevação
da temperatura deve ter duração entre 3 e 30min (BRANCO et al., 2005).

São efeitos fisiológicos genéricos da termoterapia: produção de calor; vaso-


dilatação; facilitação da atividade muscular; aumento do fluxo sanguíneo, do
metabolismo, da viscoelasticidade dos tecidos, da temperatura corpórea de
atividade das glândulas sudoríparas, do consumo de oxigênio, da atividade en-
zimática da permeabilidade celular, da fagocitose, da eliminação de metabóli-
tos, do débito cardíaco; diminuição de atividade do fuso muscular, da excitabi-
lidade dos nervos, da pressão sanguínea, da viscosidade intra-articular.

Efeitos terapêuticos genéricos da termoterapia: diminuição da rigidez arti-


cular; alívio da dor; diminuição do espasmo muscular; ação anti-inflamatória;
relaxamento muscular; aumento da imunidade.

Classificação
• Termoterapia superficial: ação do agente terapêutico de pouca profundidade;
• Termoterapia profunda: ação do agente terapêutico de grande profundidade.

capítulo • 77
Precauções e contraindicações – O calor deve ser evitado ou usado com pre-
caução em: patologia inflamatória ou traumática aguda; hemorragias ou alte-
rações da coagulação; vasculopatia aterosclerótica; áreas isquêmicas; patologia
cardiovascular descompensada; patologia neoplásica ou infecciosa; lesões der-
matológicas; alterações da sensibilidade térmica; doentes sedados ou obnubi-
lados; cartilagens de crescimento; útero grávido e cicatrizes ou feridas abertas.

4.1  Crioterapia

A terapia pelo frio, conjuntamente com a terapia pelo calor, representa se-
guramente a mais antiga aplicação terapêutica de agentes físicos. O calor e frio
são valiosos coadjuvantes na recuperação de diversas patologias, devendo ser
combinados com as técnicas cinesiológicas e com eventual abordagem farma-
cológica.

Crioterapia consiste no resfriamento local com objetivos terapêuticos, pro-


duzindo efeitos locais e a distância, resultando na remoção do calor corporal e
na diminuição da temperatura dos tecidos. Apesar de as primeiras descrições
da utilização terapêutica do frio – neve e gelo natural – remontarem à antiga
Grécia, somente em 1850 foi criada a primeira máquina de gelo de uso hospita-
lar, utilizada nos Estados Unidos para reduzir a temperatura em doentes com
malária (BRANCO et al., 2006).

Abrange grande quantidade de técnicas específicas que utilizam o frio nas


formas líquida, sólida e gasosa com o objetivo terapêutico de retirar calor do
corpo (Figura 2).

Figura 2. Aplicação da crioterapia

78 • capítulo
Principal objetivo terapêutico: retirar calor do corpo, o que induz os tecidos
a um estado de hipotermia com redução da taxa metabólica local e diminuição
da necessidade de oxigênio pela célula. Desse modo, há preservação celular e
a possibilidade de recuperação sem que se ocasionem danos além daqueles já
causados pela lesão primária.

A crioterapia apresenta efeitos sobre a temperatura corporal, circulação


sanguínea, mecanismo neuromuscular, nervos, metabolismo celular, infla-
mação, sensação cutânea, tecido celular subcutâneo, glândulas sudoríparas,
viscosidade, permeabilidade celular. Produz diversos efeitos biológicos com
repercussão terapêutica, designadamente:

• Vasoconstrição, por ação direta na microcirculação e reflexa do sistema


nervoso vegetativo. Essa redução do fluxo sanguíneo facilita a hemostase, limi-
ta o processo inflamatório, a exsudação e o aumento da pressão compartimen-
tal, contribuindo para a analgesia;

• Diminuição do metabolismo celular ou normalização metabólica em zo-


nas de hiperaquecimento/inflamadas;

• Aumento do limiar de estimulação álgica dos receptores periféricos, con-


tribuindo dessa maneira para a analgesia;

• Libertação de endorfinas, com efeito analgésico;

• Bloqueio medular, com priorização da via rápida; estimulação direta das


vias mais mielinizadas e de maior calibre, contribuindo para a analgesia;

• Redução da atividade enzimática, nomeadamente da colagenase, aumen-


tando a rigidez do tecido fibroso com colágeno.

Precauções e contraindicações – A crioterapia pode agravar a isquemia ao


provocar redução adicional do fluxo sanguíneo e desencadear fenômenos vaso-
espásticos. Deve ser evitada ou adotada com precaução em vasculopatia ateros-
clerótica e zonas de isquemia, fenômenos vasoespásticos (doença de Raynaud),
neuropatia diabética, patologia cardiovascular descompensada, alterações da

capítulo • 79
sensibilidade cutânea, doentes sedados ou obnubilados, que não respondam à
dor, alergia ou intolerância ao frio e feridas abertas.

4.2  Fototerapia

Infravermelho – Citado anteriormente, junto à termoterapia.

Ultravioleta – Vibrações eletromagnéticas, produzidas pelo aquecimento


de um corpo, cujo comprimento de onda se situe na faixa de 1440Å até 3900Å.

Efeitos fisiológicos: produção de eritema, pigmentação, estímulo à produ-


ção de vitamina D, potencialização do metabolismo de cálcio e fósforo, destrui-
ção celular, hiperplasia epidérmica, envelhecimento da pele.

Efeitos terapêuticos: Bactericida.

Laser – O significado dessa sigla (do inglês Light Amplification by Stimulated


Emission of Radiation) mostra que a amplificação de luz aporta alta concentra-
ção de energia consequente do grande número de fótons dos quais é constituí-
da, e o fenômeno da emissão estimulada constitui-se da emissão de luz a partir
da estimulação da matéria, por meio do fornecimento de energia aos átomos.
Todos os tipos de laser apresentam quatro características comuns: a coerência,
a direção, a monocromaticidade e a luminescência.

Os efeitos do laser sobre os tecidos variam com a densidade de potência,


sendo esta de 0,001 a 1W/cm2 em reabilitação. Nesse intervalo, o efeito é atér-
mico, existindo conversão de energia lumínica em energia bioquímica, capaz
de causar efeito bioestimulante ou analgésico.

A aplicação terapêutica de laser (Figura 3) deve respeitar um conjunto de


regras básicas: é indispensável a utilização de óculos de proteção específicos; a
sala de tratamento não deve ter superfícies refletoras (espelhos, vidros, superfí-
cies metálicas); a pele da zona de tratamento deve ser cuidadosamente limpa, e
a aplicação, perpendicular à pele, devendo os vários pontos de tratamento dis-
tar 0,5 a 2cm entre si. No final de cada tratamento, deve proceder-se à limpeza e

80 • capítulo
à verificação da ponteira do laser.
A maior parte dos autores refere que a melhoria deve ser verificada por oca-
sião da sexta sessão de tratamento, devendo o total de sessões ser, em média, de
dez. Para a escolha do tipo de laser a se utilizar, deve-se levar em consideração o
fato de os aparelhos de Hélio-Néon produzirem efeitos mais superficiais que os
de Arsênio-Gálio. Alguns valores indicativos de densidade de energia e frequên-
cia de emissão, em diversas situações, são apresentados no Quadro 1.

Indicações – Aterapia a laser é vastamente indicada, incluindo em patolo-


gias dermatológicas, neurológicas e musculoesqueléticas; traumatismos e con-
traturas musculares, entorses, fraturas, cicatrizes, queimaduras e úlceras, bem
como nevralgias, algoneurodistrofias e patologia musculoesquelética periarti-
cular; em raquialgias e artralgias periféricas associadas a diversas patologias,
designadamente osteoartrose e artropatias inflamatórias (BRANCO, 2005 a).

Figura 3. Aplicação de laserterapia

capítulo • 81
4.3  Eletroterapia

A eletroterapia consiste no uso de correntes elétricas com fins terapêuticos.


As correntes elétricas podem agrupar-se em diversas famílias, de acordo com
os parâmetros que as caracterizam. Dois desses parâmetros, a intensidade e
o tempo possibilitam classificar as correntes quanto ao seu estado – em cons-
tantes e variáveis. Nas correntes em estado constante, não ocorre variação da
intensidade ao longo do tempo (excetuando-se os períodos de encerramento
e abertura do circuito; Figura 4). Nas correntes alternadas, ocorre variação da
intensidade ao longo do tempo.

A corrente em estado constante corresponde à corrente galvânica, uma cor-


rente contínua, de baixa tensão e intensidade não superior a 200mA.

Figura 4. Corrente constante

4.4  Galvanização e iontoforese

A galvanização consiste na utilização terapêutica da corrente galvânica


(contínua), e suas indicações decorrem dos efeitos dessa corrente sobre o orga-
nismo. Suas contraindicações incluem implantes metálicos e a existência de le-
sões cutâneas na área a ser tratada. A modalidade apresenta riscos, geralmente
por aplicação incorreta, de queimaduras elétricas ou químicas.

Efeitos fisiológicos: produção de calor, fenômeno do eletrotônus (alteração


da excitabilidade e condutibilidade do tecido tratado), vasodilatação, aumento

82 • capítulo
do metabolismo, aumento da ação de defesa (com o aumento da irrigação san-
guínea, haverá aumento de elementos fagocitários e anticorpos).

Efeitos terapêuticos: analgesia; estimulação nervosa; ação anti-inflamató-


ria; atuação nos transtornos circulatórios.

Iontoforese – Penetração de substância terapêutica na pele íntegra por


meio da corrente galvânica. Além do efeito da corrente elétrica, ocorre também
o efeito da substância utilizada – conhecida também como ionização.

As correntes alternadas apresentam como característica comum a variação


da intensidade em função do tempo, cuja representação gráfica corresponderá
a uma determinada forma. As correntes variáveis podem classificar-se quanto
ao tipo de fluxo (interrompidas ou não interrompidas), polaridade e frequên-
cia. A polaridade exprime o sentido do fluxo eletrônico entre os dois polos do
circuito. Quando os elétrons circulam sempre no mesmo sentido, a corrente é
monopolar; quando existe variação da polaridade, a corrente é bipolar, poden-
do apresentar impulsos simétricos ou assimétricos (Figura 5).

Figura 5. Impulsos simétricos e assimétricos

Frequência corresponde ao número de impulsos por unidade de tempo e


possibilita o agrupamento em famílias de correntes de frequência baixa (infe-
rior a 1.000Hz), média (1.000 a 10.000Hz) ou alta (superior a 10.000Hz). Essa
classificação é muito útil, uma vez que a frequência de uma corrente se encon-
tra estreitamente relacionada com seus efeitos biológicos. As correntes empre-
gadas para eletroestimulação podem ser de diferentes tipos, consoante o efei-
to terapêutico pretendido e os recursos disponíveis. Na prática, são utilizadas
correntes interrompidas ou não interrompidas, de baixa ou média frequências
(BRANCO, 2005).

capítulo • 83
4.5  Eletroestimulação funcional

Denominada comumente FES (sigla do inglês Functional Eletrical Stimula-


tion) na prática clínica, tem como objetivo promover a contração em músculos
privados de controle nervoso, resultando em movimento funcional.

As contrações evocadas são obtidas a partir de vários pulsos elétricos de pe-


quena duração, aplicados com frequência controlada. Esses trens de pulso ob-
têm contrações em condições mais fisiológicas sem riscos de queimaduras, e o
desconforto produzido pela exposição mais longa é eletricidade.

4.6  Corrente russa

No final dos anos 1970, os países da extinta União Soviética aumentaram


o interesse pela eletroterapia, pois se afirmava que, para o fortalecimento do
músculo esquelético em atletas de elite, a ativação elétrica regular do músculo
era mais efetiva que o exercício em si. Em 1977, Yakov Kots apresentou os resul-
tados de uma pesquisa desenvolvida a partir de uma técnica de eletroestimula-
ção que aumentou em 30 a 40% a força muscular de atletas de elite e cosmonau-
tas, tendo sido esses ganhos superiores aos obtidos apenas com a realização
de exercícios. Outros benefícios observados pela técnica foram o aumento da
resistência muscular e a alteração da velocidade das contrações musculares.

Como estimulação russa, ela pode ser definida como uma corrente alterna-
da de média frequência, a qual pode ser modulada por “rajadas” e é utilizada
com fins excitomotores.

CURIOSIDADE
Essa técnica foi desenvolvida após ser verificado que os astronautas russos (e por isso,
seu nome), quando retornavam das missões espaciais, sofriam de flacidez, atrofia e fadiga
muscular, além de osteoporose. Os cientistas russos desenvolveram esse tipo de corrente
para solucionar o problema, e, após vários estudos, foi constatada uma melhora significativa
nesses astronautas.

84 • capítulo
4.7  Neurostimulação sensorial transcutânea

Existem diversas correntes utilizadas em eletroanalgesia, como as corren-


tes de Träbert, as correntes diadinâmicas, as correntes interferenciais e as vá-
rias correntes usadas para estimulação nervosa elétrica transcutânea (Tens).

A Tens é uma modalidade de eletroestimulação sensitiva muito difundida,


que utiliza dispositivos portáteis de baixo custo, alimentados a pilhas e que
transmitem a corrente através de eletrodos de superfície.

É uma técnica de neuroestimulação sensorial superficial, não invasiva e não


lesiva, por meio de eletrodos transcutâneos, tendo como principal objetivo o
tratamento da dor, apesar de poder provocar contrações musculares.

Embora a seleção dos parâmetros e a localização dos eletrodos seja determi-


nante para a obtenção dos resultados pretendidos, o efeito placebo não é des-
prezível, contribuindo para 25 a 30% dos sucessos terapêuticos (BRANCO, 2005).

A eletroestimulação sensitiva está indicada em diversas situações doloro-


sas, entre elas: neuropatias periféricas, nevralgias pós-herpéticas, algoneuro-
distrofias, dores agudas e dores crônicas (reumáticas, pós-operatórias, pós-
traumáticas e oncológicas). Ainda não se observaram resultados consistentes
nas neuropatias periféricas de causa metabólica e nas síndromes dolorosas de
origem central ou psicogenia.

4.8  Microcorrentes

Tipo de eletroestimulação que utiliza correntes com parâmetros de intensi-


dade na faixa dos microampères; são de baixa frequência, podendo ser utiliza-
das contínua ou alternadamente.

O modo normal de aplicação não consegue ativar as fibras nervosas senso-


riais subcutâneas; desse modo, os pacientes não têm nenhuma percepção de
sensação de formigamento, comumente relatada.

capítulo • 85
Esse tipo de estimulação elétrica tende a ocorrer em nível subsensorial ou
sensorial muito baixo, com operação abaixo de 1000µA.

Em comparação com a Tens, a terapia com microcorrentes, além de elimi-


nar a dor ou reduzi-la, acelera o processo curativo.

Precauções e contraindicações da eletroestimulação – Para além das normas


gerais de segurança que devem regular a utilização de dispositivos elétricos (en-
tre as quais a não utilização de fontes de calor, aparelhos de ondas curtas ou
de micro-ondas em ambientes úmidos ou nas proximidades), os aparelhos de
eletroestimulação não devem ser usados em doentes com alterações de sensi-
bilidade ou de consciência, portadores de deficiências mentais, crianças muito
pequenas, pessoas muito idosas ou doentes com dores de etiologia não esclare-
cida. Deve-se evitar a eletroestimulação da região precordial, designadamente
em doentes portadores de marca-passo, bem como dos olhos, do seio carotídeo,
da laringe, do útero grávido, de cartilagens de crescimento, mucosas, neopla-
sias e metástases (excetuando-se eletroanalgesia em casos ponderados), infec-
ções, tromboflebites ou implantes metálicos (no caso de correntes monopolares
ou bipolares não compensadas). A eletroestimulação deve ser empregada com
precaução em doentes obesos, uma vez que o excesso de tecido adiposo poderá
levar à seleção de uma intensidade demasiadamente elevada (BRANCO, 2006).

4.9  Cinesioterapia

A cinesioterapia é o uso do movimento ou exercício como modalidade de


tratamento. O recurso se autodenomina cinesio, que significa movimento. Tem
como base os conhecimentos de Anatomia, Fisiologia e Biomecânica, a fim
de proporcionar ao paciente um melhor e mais eficaz trabalho de prevenção,
tratamento e recuperação. O exercício terapêutico tem como objetivo manter,
corrigir e/ou recuperar determinada função, ou seja, restaurar a função normal
de corpo ou manter seu bem-estar. Sua principal finalidade é a manutenção
ou o desenvolvimento do movimento livre para a sua função, e seus efeitos ba-
seiam-se no desenvolvimento, na melhora, restauração e manutenção da força,
da resistência à fadiga, da mobilidade e flexibilidade, do relaxamento e da coor-
denação motora (KISNER & COLBY, 2009).

86 • capítulo
Vários autores relacionam o uso da cinesioterapia associada a outros recur-
sos fisioterapêuticos, mas relatam a importância do uso do movimento para
restaurar funções de órgãos e sistemas do corpo humano:

“O exercício terapêutico é considerado um elemento central na maioria dos planos de


assistência da Fisioterapia, complementado por outras intervenções, com a finalidade
de aprimorar a função e reduzir uma incapacidade.” (BRODY & HALL, 2012)

“O exercício terapêutico é uma das ferramentas-chave que um fisioterapeuta usa para


restaurar e melhorar o bem-estar musculoesquelético ou cardiopulmonar do paciente.”
(KISNER & COLBY, 2009)

A indicação da cinesioterapia é bastante criteriosa; requer avaliação para


traçar objetivos e estratégias, além de reavaliações frequentes, visando à atu-
alização junto à progressão do paciente e em consequência da necessidade de
correções ao programa inicial até atingir o potencial de recuperação esperado.

De acordo com a fase evolutiva do paciente e com os objetivos do fisiotera-


peuta, os recursos cinesiológicos são utilizados de maneira direcionada:

• Cinesioterapia passiva: nessa etapa, o fisioterapeuta realiza os movimen-


tos perdidos pelo paciente, que, nessa fase, não consegue realizá-los. É uma
parte inicial do tratamento, mas importante para que o paciente não perca o
comprimento das fibras musculares e o movimento articular, e para que man-
tenha o estímulo cortical do movimento a ser recuperado;

• Cinesioterapia ativo-assistida: fase do tratamento em que o paciente já


apresenta algum vestígio real do movimento, mas não consegue realizá-lo de
maneira independente, utilizando compensações com outros movimentos e/
ou posturas, além de realizá-los de modo não coordenado. O fisioterapeuta re-
aliza o movimento junto com o paciente, não deixando de estimulá-lo a parti-
cipar e controlando a coordenação e a velocidade necessárias à sua realização;

capítulo • 87
• Cinesioterapia ativa livre: nessa fase, o paciente consegue realizar o mo-
vimento de maneira independente na sua totalidade, sem a participação do
fisioterapeuta. Dependendo dos objetivos do exercício, pode-se trabalhar a re-
sistência à fadiga, o fortalecimento e a isometria, além da coordenação motora
e do equilíbrio associados;

• Cinesioterapia ativa resistida: etapa em que o paciente consegue reali-


zar os movimentos de modo independente, mas há necessidade de melhorar
a resistência à fadiga e a força muscular. Para isso, é avaliada a capacidade do
músculo em realizar os movimentos contra resistência, sendo esta mensura-
da em maior ou menor quantidade de acordo com o objetivo a ser alcançado.
Há outras modalidades associadas e que fazem parte essencial das abordagens
cinesioterápicas, as quais são amplamente utilizadas. Os exercícios resistidos
podem ser classificados em isotônicos e isométricos. A diferença entre os exer-
cícios de contração isotônica e os de contração isométrica é que na primeira há
movimento, na segunda, não. Por exemplo, exercer força com as palmas das
mãos contra uma parede é uma forma isométrica, enquanto flexionar os braços
é uma forma isotônica.

Figura 6. Exercício passivo de flexão de joelho.

Além desses exercícios, algumas particularidades são valiosas na prescrição


da cinesioterapia:

Relaxamento e inibição no preparo para o alongamento – Manipulações uti-


lizadas para aliviar dor, tensão muscular e disfunções físicas associadas, incluin-
do cefaleias por tensão, pressão arterial elevada e sobrecargas respiratórias.

88 • capítulo
Alongamento – Para a amplitude de movimento normal, é necessário ha-
ver mobilidade e flexibilidade dos tecidos moles que circundam a articulação,
músculos, tecido conectivo e pele, bem como mobilidade articular. As condi-
ções que podem levar a encurtamento adaptativo incluem: imobilização pro-
longada, mobilidade restrita, doença do tecido conectivo e/ou neuromuscular,
traumas, deformidades ósseas congênitas e adquiridas. As técnicas de alon-
gamento visam à manutenção da amplitude reduzida, sendo feito de maneira
passiva e/ou ativa;

Exercícios isocinéticos – Realizados quando o músculo encurta contra uma


resistência cooperante igualada à força produzida pelo músculo e requer uma
velocidade constante durante toda a amplitude do movimento. Quanto mais
lenta a velocidade do movimento isocinético, maior o ganho em força e endu-
rance (resistência). A contração isocinética ocorre quando a velocidade de mo-
vimento é constante, mantendo a força máxima durante todo o movimento.
Pode ser concêntrica e excêntrica (Figura 7).

Figura 7. Contrações musculares concêntrica e excêntrica.

Exercícios proprioceptivos – Exercícios que trabalham principalmente


com componentes da estabilidade dinâmica das articulações (unidades mus-
culotendíneas) que mantêm os membros e as articulações estáveis durante os
movimentos. São exercícios específicos que visam ao estabelecimento do equi-
líbrio dinâmico das articulações. São executados mediante tomada de peso
sobre a articulação e situações criadas a fim de se promover a reeducação do
equilíbrio. O programa de exercícios proprioceptivos, para compor um traba-
lho proprioceptivo preventivo, deve ter exercícios dinâmicos, multidirecionais
e específicos de cada esporte ou atividade exercida pelo paciente (Figura 8).

capítulo • 89
Mecanoterapia – Modalidade terapêutica muito utilizada por fisioterapeu-
tas, cujos exercícios são executados de forma ativo-resistida com aplicação
de forças externas mecânicas. Para tanto, utilizam-se polias, halteres, molas,
elásticos, esteiras, entre outros equipamentos (Figura 9). Busca desenvolver,

restaurar e promover a manutenção da força muscular, melhorar a mobilidade


articular, a flexibilidade e a coordenação.

Reeducação postural global (RPG) – Os desequilíbrios das cadeias muscu-


lares levam a alterações das curvaturas da coluna vertebral no sentido antero-
posterior e/ou lateral. As alterações posturais podem trazer consequências aos
sistemas cardiovascular e respiratório, além das dores e limitação funcional,
muitas vezes graves. As escolas francesas voltadas para a cinesioterapia pos-
suem vasta experiência e tradição na análise postural e nas limitações corpo-
rais muito além da simples avaliação e tratamento. Vários teóricos fazem parte
desse grupo de pesquisadores, entre eles, Therese Bertherat, Francoise Mezie-
res, Philippe Souchard, Leopold Busquet, já conhecidos em nosso país.

4.10  Recursos Terapêuticos Manuais

Massoterapia

Tratamento pela massagem (radical latino massa, mistura úmida própria


para fazer vasos e esculturas, e palavra grega therapeía, tratamento). Original-
mente o termo foi utilizado na França – massage – em função do tipo de movi-
mento executado pelas mãos.

Na Índia, a medicina ayurvédica revelada nos Vedas, por volta de 800 a.C.,
já empregava a massagem como método de tratamento. Na China, há amplos
relatos de 300 a.C. e 150 anos a.C. Existem vários outros relatos antes da Era
Cristã e após. Entretanto, na Idade Média, a massagem foi banida, pois a Igreja

90 • capítulo
Católica considerava o toque humano pecaminoso. O mesmo aconteceu nos
países árabes, por pressão religiosa.

No Ocidente, a massagem só ressurgiu no século XIX, com o médico francês


Martin de Lion em busca da cura de dores lombares.

Por volta de 1868, novas técnicas baseadas na Fisiologia foram desenvolvi-


das, integrando a massagem definitivamente ao arsenal terapêutico.

Como funciona: após extensas pesquisas, o uso da massagem foi compro-


vado academicamente, sendo observados os seus efeitos: dilatação de capila-
res e aumento do fluxo sanguíneo (nas áreas massageadas); quando realizada
em musculatura comprometida, auxílio na drenagem de substâncias tóxicas,
como os produtos de degradação do metabolismo e o ácido lático, além de rela-
xamento das fibras musculares e alívio das dores.

A massagem também produz efeitos benéficos sobre a circulação linfática.


Em geral, a circulação de linfa é passiva e lenta. A massagem ativa a circulação,
ajudando a drenar edemas. Em nosso meio, essa técnica é conhecida como dre-
nagem linfática, amplamente utilizada e, por vezes, de maneira equivocada,
podendo causar mais danos ao paciente.

4.11  Hidroterapia e hidrocinesioterapia

Hidroterapia – Utilização da água como recurso terapêutico. Exemplos:


• Bolsa de água quente: recurso doméstico tradicional de ampla utilização
para remissão de dores musculares periféricas, espasmódicas de músculos li-
sos, além de miorrelaxante e anti-inflamatório;

• Imersão em água quente: inserção das mãos e dos pés em recipiente com
água quente, visando à redução de edemas, ao alívio de dores localizadas e, no
caso das mãos, à melhora da mobilidade articular;

• Turbilhão: pequeno tipo de tanque utilizado para membros superiores e


inferiores no qual é colocada água quente ou fria. A água recebe um fluxo alto

capítulo • 91
de ar comprimido, criando o turbilhonamento dela, o que proporciona redução
de edemas e liberação de aderências articulares que dificultam a realização de
movimentos de forma ativa.

Em todas as situações, o tratamento é realizado de maneira estática, sem a


participação de movimentos.

Hidrocinesioterapia – Difere da hidroterapia, pois, nesse caso, são utiliza-


das as propriedades físicas da água (Figura 10) de uma piscina aquecida para
a realização de movimentos; trata-se, portanto, da aplicação dos princípios da
cinesioterapia a um ambiente aquático (Figura 11). Nesse caso, são utilizados
os diversos tipos de exercício terapêutico, aproveitando as forças de empuxo,
flutuação, densidade e temperatura da água para facilitar e/ou dificultar pro-
gressivamente a evolução do tratamento, incluindo, treinamento de marcha,
alongamento e relaxamento muscular. Muitos movimentos só são possíveis se
realizados na água, enquanto outros necessitam do solo. Em função disso, o
tratamento aquático não anula o tratamento no solo; pelo contrário, os dois
interagem sempre.

Figura 10. Propriedades físicas da água.

Mais direcionada à recuperação funcional do paciente, essa técnica aplica


métodos específicos que seguem princípios diferentes, porém com objetivos
finais semelhantes. Entre esses métodos, podemos:

Método Halliwick – Utiliza princípios da natação (nado livre e outros) apli-

92 • capítulo
Método Bad Ragaz – Utiliza princípios da facilitação neuromuscular pro-
prioceptiva na recuperação funcional. Essa facilitação foi organizada em uma
técnica de tratamento no solo, denominada método Kabat, em função do seu
criador, que utiliza sistema de movimentos em diagonal nos diversos segmen-
tos corporais, visando facilitar a propriocepção neuromuscular na recuperação
da função;

Método Watsu – Proporcionalmente mais recente (criado em 1980), ba-


seia-se nos princípios do zen shiatsu aplicáveis na água. Não é propriamente
um método voltado para recuperação funcional, mas realiza de amplamente
alongamento e relaxamento de todos os segmentos corporais, servindo como
proposta de aplicação antes e após outros métodos; portanto pode ser adotado
em pessoas sem alterações funcionais, como também em sequelas de doenças
musculoesqueléticas e neuromusculares com boa resposta.

Figura 11. Hidrocinesioterapia – aplicação prática.

Finalizamos aqui nossa apresentação sobre os recursos terapêuticos. No


próximo capítulo, discutiremos as diversas áreas de atuação do fisioterapeuta.

ATIVIDADE
Pesquise no youtube.com os vários recursos fisioterapêuticos e discuta com seu professor
os objetivos, as indicações e contraindicações das diversas prescrições e tratamentos fisio-
terapêuticos.

capítulo • 93
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRANCO, P. S. et al. Temas de Reabilitação. v. 1. Agentes físicos – crioterapia, termoterapia, diatermia,
electroterapia. Lisboa: Edições e Design de Comunicação. 2005.
BRANCO, P. S. et al. Temas de Reabilitação. v. 2. Agentes físicos – magnetoterapia, laserterapia, vibrote-
rapia, ondas de choque. Lisboa: Edições e Design de Comunicação. 2005 (a).
BRODY, C.; HALL, L. T. Exercício Terapêutico na Busca da Função. São Paulo: Guanabara Koogan, 2012.
GUIMARÃES, L. de S.; CRUZ, M.C. da C. Exercícios Terapêuticos: a cinesioterapia como importante
recurso da Fisioterapia. In: Lato & Sensu. Belém, v. 4, n. 1, p. 3-5, out, 2003.
KISNER, C.; COLBY, L. A. Exercícios Terapêuticos: fundamentos e técnicas. 5. ed. Rio de Janeiro: Manole. 2009.

94 • capítulo
5
Locais de
Intervenção
Fisioterapêutica e
Áreas de Atuação
do Fisioterapeuta
Apresentação do Capítulo

A Fisioterapia é uma ciência da Saúde que estuda, previne e trata os distúrbios


cinético-funcionais intercorrentes em órgãos e sistemas do corpo humano, causa-
dos por alterações genéticas, traumas e doenças adquiridas, na atenção básica, mé-
dia complexidade e alta complexidade. Fundamenta suas ações em mecanismos
terapêuticos próprios, sistematizados pelos estudos da Biologia, das ciências morfo-
lógicas, das ciências fisiológicas, das patologias, da Bioquímica, da biofísica, da Bio-
mecânica, da cinesia, da sinergia funcional, e da cinesia patológica de órgãos e siste-
mas do corpo humano e as disciplinas comportamentais e sociais (COFFITO, 2015).

O fisioterapeuta é um profissional de Saúde com formação acadêmica superior,


habilitado à construção do diagnóstico dos distúrbios cinético- funcionais (diagnós-
tico fisioterapêutico), à prescrição das condutas fisioterapêuticas, à sua ordenação e
à indução no paciente, bem como ao acompanhamento da evolução do quadro clíni-
co funcional e das condições para alta do serviço.

É uma atividade da Saúde, regulamentada pelo Decreto-lei nº 938/69, Lei nº


6.316/75, Resoluções do Coffito, Decreto nº 9.640/84, e Lei nº 8.856/94.

Agora, que já abordamos esses assuntos nos capítulos anteriores, discutiremos,


neste, os locais de atuação, as áreas de intervenção e as especialidades da Fisioterapia
– regulamentadas ou ainda não pelo Conselho Federal de Fisioterapia e de Terapia
Ocupacional (Coffito). Além disso, relacionaremos essas questões ao mercado de tra-
balho e à Fisioterapia baseada em evidências científicas.

OBJETIVOS
Neste capítulo, pretende-se que sua aprendizagem seja referente a:

•  Apresentar os locais de ações e intervenções do fisioterapeuta;


•  Demarcar as atribuições do fisioterapeuta nesses locais;
•  Apontar as especialidades de atuação do fisioterapeuta;
•  Relacionar esses temas a ações interdisciplinares.

capítulo 5 • 97
5  Locais de ações e intervenções
fisioterapêuticas

A cura pelas mãos: essa é provavelmente a melhor maneira de ilustrar o ofí-


cio do fisioterapeuta. A Fisioterapia, que décadas atrás era considerada apenas
um tipo de massagem, hoje se firmou como principal aliada ao tratamento e
à prevenção de doenças e lesões. Atualmente essa ciência possui uma série de
ramificações e campos distintos, como o estético, o esportivo e o do trabalho,
atuando em vários espaços.

Normalmente, quando nos referimos a consultórios, falamos de locais


compactos, utilizados para consultas e de pouca abrangência geográfica, vol-
tados para tratamentos mais variados no caso da Fisioterapia. Sendo assim, os
consultórios de Fisioterapia estão aptos à prática dessa fisioterapêutica, desde
que apresentem a infraestrutura necessária dentro cada área clínica abordada
– pneumologia, correção postural, traumato-ortopedia, reumatologia, derma-
tologia, neurologia, psicomotricidade, uroginecologia, obstetrícia, entre ou-
tras. Os consultórios podem ser utilizados também para consultorias, peque-
nos cursos, fomento à pesquisa, orientação didático-pedagógica de trabalhos
científicos, sem perder a característica básica assistencial, caso seja essa a visão
do profissional.

As clínicas, por sua vez, podem ser locais de maior abrangência física, mais
distribuídas e bem-divididas para oferecer múltiplas ações terapêuticas de ma-
neira simultânea ou específica de acordo com os objetivos dos profissionais (Fi-
gura 1). Há clínicas que, embora somente disponham de uma área de atuação,
oferecem mais alternativas de tratamento. Por exemplo, na área de traumato
-ortopedia e que possibilita maior abrangência nos atendimentos de Fisiotera-
pia: cinesioterapia, termoterapia, eletroterapia, hidroterapia, hidrocinesiotera-
pia, reeducação postural global, pilates, trabalho muscular, propriocepção etc.

Por outro lado, há clínicas que, a partir dos mesmos recursos, atendem a
outras especialidades sem perder o foco nem a qualidade de atendimento, de
acordo com as disponibilidades físicas e geográficas.

98 • capítulo 5
O foco na atuação em clínicas é muito importante, pois, infelizmente, nem
todas atuam corretamente em relação à Fisioterapia de qualidade. Por meio
das clínicas, é possível uma quantidade excessiva de atendimentos sem que
se leve em conta a qualidade do que está sendo realizado pela Fisioterapia. O
fisioterapeuta muitas vezes se submete a comandos distorcidos e prescrições
encaminhadas sem sua prévia avaliação, o que, muitas vezes, ocasiona trata-
mentos inócuos. Submetem a Fisioterapia a questionamentos que a fragilizam
em função da falta de posicionamento e atitude profissional. Por quê? Porque
não teve uma boa formação, não valorizou o curso nem a profissão durante a
graduação, não se engajou nos movimentos que lutam pela respeitabilidade
e dignidade profissional do fisioterapeuta. Essa distorção acontece em vários
segmentos da categoria, mas tem maior destaque nas clínicas (pois existem em
maior número e são cobertas por planos de saúde).

Figura 1: Distribuiçao do emprego por setor, janeiro a abril de 2013. Fonte: CNS-maio de 2013.

Os atendimentos em hospitais gerais e de especialidades públicos e/ou pri-


vados são de abrangência ampla. No hospital geral, o fisioterapeuta atua em
diversos setores, desde o ambulatório do hospital nas diversas especialida-
des, passando pelas enfermarias e chegando às unidades fechadas (UTI geral,
UTI cardíaco, UTI de grandes queimados, UTI neonatal, cirurgia geral, unida-
de coronariana, entre outras). O trabalho realizado pelo fisioterapeuta não se
restringe à enfermaria, ao ambulatório ou à unidade fechada. Por isso, esse
profissional necessita de uma visão clínica ampla, que possibilite sua atuação
preventiva (primária), secundária e terciária. Nada melhor que o hospital geral
para imputar-lhe essa visão global do seu paciente, a fim de que ele possa atuar
de maneira abrangente e investigativa, com o enfoque baseado em evidências
científicas e o incentivo à pesquisa de acordo com o que a clientela apresenta e

capítulo 5 • 99
indica. Sem dúvida, é o maior ponto de abrangência, atuação e crescimento da
Fisioterapia.

O atendimento à beira do leito (Figura 2) é um recurso preventivo e funda-


mental; porém, infelizmente, nem sempre é visto dessa maneira pelas autori-
dades da Saúde nos diversos níveis.

Figura 2. Atendimento fisioterapêutico hospitalar.

ATENÇÃO
Para mais concursos e ofertas de vagas em hospitais e outros espaços terapêuticos
públicos, é necessário que o fisioterapeuta se apresente politicamente em reuniões dos Con-
selhos Municipais de Saúde e faça parte das organizações de diretrizes para a saúde no
município. Só assim, atuante nas políticas públicas de saúde da região, conseguirá intervir na
organização e na quantidade de vagas a serem criadas. É o fisioterapeuta que tem o conhe-
cimento do seu papel em hospitais e de como os atendimentos precoces, à beira do leito, são
responsáveis pela redução dos gastos com os pacientes.

Os fisioterapeutas também estão presentes nos centros de saúde, locais basicamente


controlados pelo Estado – municipais, estaduais e, por vezes, federais. Esses locais abrangem
atendimentos basicamente de ação primária e secundária, não havendo, porém, impedimento
que haja trabalho de ação terciária. São atendimentos de orientação à saúde, de atenção bá-
sica e ambulatório. A abrangência pelo fisioterapeuta ainda é pequena em alguns municípios,
em comparação com a abrangência do Sistema Único de Saúde (SUS) da mesma localidade.

Atualmente, esse profissional participa também do Programa de Saúde da Família (PSF),


do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf) e da Estratégia Saúde da Família (ESF). Ape-

100 • capítulo 5
sar de várias denominações, os objetivos essenciais dessas instituições governamentais são
dar assistência mais ampla às famílias, principalmente às que não dispõem de recursos mais
imediatos e eficazes. Essa assistência não se restringe aos atendimentos médicos, mas tam-
bém abrange Enfermagem, Odontologia, Nutrição, Serviço Social e, mais recentemente, Psi-
cologia, Fisioterapia, Fonoaudiologia. É importante ressaltar que esses programas não atuam
somente nas ações secundárias e terciárias da saúde; agem também de forma relevante na
atenção básica com atuação primária, controle de endemias e epidemias, fornecimento e
controle de posologia de medicamentos de uso contínuo e/ou prolongados (Figura 3).

Em equipe, esses profissionais visitam as famílias para avaliar in loco aspectos socioe-
conômico-culturais – como moradia, saneamento básico, se há o mínimo cuidado necessário
voltado a crianças e idosos, frequência escolar, exploração de trabalho infantil, possíveis con-
dições de risco e epidemiologias. Além disso, eles elaboram programas sociais de assistên-
cia curativa e preventiva.

Os pacientes, além de participarem das atividades locais, são orientados a tratamentos


ambulatoriais e, quando necessário, encaminhados a unidades de internação ou de trata-
mento do SUS.

Sem dúvida, trata-se de um importantíssimo trabalho de assistência, abran-


gendo os três níveis de atenção da saúde e integrando as diversas equipes pro-
fissionais.

No entanto, apesar de tamanha importância, por que quase não se ouve


falar da presença do fisioterapeuta nesses programas? O que falta para a ins-
talação plena desses projetos? O PSF é fantástico; por que não é implantado
plenamente?

capítulo 5 • 101
Essas ações são importantes não somente para o interior dos estados, mas
também para as capitais e em todas as regiões brasileiras, desde que se tenha
vontade política para suas implantações, pois há recursos e profissionais dis-
poníveis para isso.

Para a Fisioterapia, essa é uma medida relevante em função de incontáveis


oportunidades desse profissional no direcionamento das famílias, na execução
de trabalhos preventivos e curativos, na mudança de comportamento das co-
munidades em função das orientações recebidas pelos fisioterapeutas, sempre
integrados à equipe interdisciplinar.

Os Nasfs foram criados pelo Ministério da Saúde em 2008 com o objetivo


de apoiar a consolidação da atenção básica no Brasil, ampliando as ofertas de
saúde na rede de serviços, assim como a resolutividade, a abrangência e o alvo
das ações.

Atualmente regulamentados pela Portaria nº 2.488, de 21 de outubro de


2011, configuram-se como equipes multiprofissionais que atuam de maneira
integrada, com as ESFs, as equipes de atenção básica para populações específi-
cas (consultórios na rua, equipes ribeirinhas e fluviais) e o Programa Academia
da Saúde.

Essa atuação integrada possibilita: discussões de casos clínicos; o atendi-


mento compartilhado entre profissionais tanto na Unidade de Saúde como nas
visitas domiciliares; e a construção conjunta de projetos terapêuticos que am-
pliem e qualifiquem as intervenções no território e na saúde de grupos popu-
lacionais. Essas medidas de saúde também podem ser intersetoriais, com foco
prioritário nas ações de prevenção e promoção da saúde.

Com a publicação da Portaria nº 3.124, de 28 de dezembro de 2012, o Mi-


nistério da Saúde criou uma terceira modalidade de conformação de equipe:
o Nasf 3, que abre a possibilidade de qualquer município do Brasil fazer im-
plantação de equipes Nasf, desde que tenha ao menos uma ESF (PORTAL DA
SAÚDE, 2015).

102 • capítulo 5
CONEXÃO
Para mais informações dobre o Nasf, acesse: http://dab.saude.gov.br/portaldab/
ape_nasf.php

O atendimento domiciliar (Figura 4) é uma realidade pertinente à Fisiote-


rapia, praticamente desde que ela existe como proposta terapêutica. Há pes-
soas que não podem deslocar-se até o consultório e/ou clínica, preferindo o
atendimento domiciliar. Todos os fisioterapeutas que lidam com assistência
fatalmente passam por essa possibilidade em função da indicação e de certa
facilidade por não ser possível o deslocamento. É um atendimento limitado
pela própria situação evolutiva do paciente, pela não disponibilidade de recur-
sos, pelo fato de ser o atendimento realizado na residência do paciente. Impõe
a atuação cinesioterapêutica como ponto principal do tratamento, devido ao
espaço físico. Para esse tipo de atendimento, é de fundamental importância a
criatividade, sem perda dos objetivos propostos, explorando o ambiente domi-
ciliar para tratamento e orientações. Ele requer todo o cuidado possível pelo
fisioterapeuta em relação à medição e monitorização de sinais vitais, pois qual-
quer intercorrência fatalmente colocará o profissional em evidência quanto ao
atendimento realizado sem esses cuidados pertinentes.

Figura 4. Atendimentos fisioterapêuticos domiciliares.

Outro aspecto relevante do atendimento domiciliar diz respeito aos honorá-


rios. Muitos profissionais sem formação necessária, com pouca experiência ou

capítulo 5 • 103
simplesmente por competição cobram os atendimentos domiciliares de ma-
neira aviltante e desrespeitosa à própria categoria, tornando esse tipo de aten-
dimento bastante desvalorizado, o que, na prática, não deveria ser visto desse
modo. Há a necessidade também de se fazer a diferença do atendimento do-
miciliar com equipes de Homecare, as quais apresentam algumas diferenças e
serão mais bem explicadas adiante.

CONEXÃO
REFERENCIAL NACIONAL DE HONORÁRIOS FISIOTERAPÊUTICOS

Este REFERENCIAL NACIONAL DE HONORÁRIOS FISIOTERAPÊUTICOS, nesta segunda


edição, constitui-se em um instrumento básico para remu-
neração do trabalho do fisioterapeuta no Sistema de Saúde
Brasileiro, assegurando sua aplicação nos diversos Serviços
de Fisioterapia. É o resultado de um trabalho que foi iniciado
há mais de 10 anos, com a participação das Entidades Re-
presentativas da Classe. Suas ações se baseiam em estu-
dos que atenderam a critérios técnicos sob o ponto de vista
econômico, foram considerados os custos necessários para
a apresentação da assistência fisioterapêutica nas várias si-
tuações, sem desconsiderar a realidade remuneratória dos
serviços de saúde no país. Este Referencial resgata a iden-
tidade do FISIOTERAPEUTA e o coloca adequadamente no
contexto das relações da saúde, invocando uma postura ética e profissional comprometida
com a melhoria da qualidade assistencial, sem perder de vista o binômio “autonomia e digni-
dade” que se completa com justa remuneração e responsabilidade social.

Acesse-o:http://www.coffito.org.br/site/index.php/Fisioterapia/referencial-na-

104 • capítulo 5
cional-procedimentos-fisioterapeuticos.htm

O fisioterapeuta também atua de modo multidisciplinar em Homecare –


um tipo de atendimento domiciliar no qual o paciente é assistido 24 horas por
um grupo de profissionais, incluindo médico, enfermagem, fisioterapeuta, nu-
tricionista, psicólogo e assistente social, entre outros. São pacientes de perfil
grave, mas estáveis, os quais necessitam de cuidados ventilatórios, utilização
de vias aéreas artificiais, podendo evoluir para a instabilidade e necessitar de
cuidados hospitalares ou ser mantidos indefinidamente nas próprias casas.
Trabalhos científicos mostram que o Homecare – também chamado interna-
ção domiciliar – apresenta índices menores de infecção hospitalar, além de re-
duzir cuidados e gastos desde curativos a terapias mais agressivas.

Para a viabilidade desse tipo de atendimento, foram criadas pelos grupos


de saúde, assim como por grupos individuais, as chamadas cooperativas, que
gerenciam e administram a internação domiciliar. Infelizmente, todo tipo de
atendimento realizado por uma equipe na residência do paciente passou a ser
denominada Homecare, mas nem todos têm a característica clínica evolutiva
que considerasse dessa forma. A partir daí, passou a ocorrer outro tipo de pro-
blema; os profissionais começaram a receber bem pouco pelo atendimento re-
alizado, enquanto o proprietário e/ou gerente do grupo passou a ficar com uma
parte maior, desvirtuando e desestimulando os atendimentos de boa qualida-
de. Reflexões devem ser feitas em congressos para solucionarmos esses proble-
mas de má qualidade nos atendimentos.

O Programa de Atendimento Domiciliar (PAD) é um serviço basicamente


idêntico ao Homecare, somente diferenciado por ser instituído por órgãos pú-
blicos de saúde e, progressivamente, tornar-se uma realidade. Mesmo assim,
apresenta-se ainda muito aquém das necessidades, principalmente nos gran-
des municípios brasileiros.

As atividades do PAD iniciaram-se em 2000, com o objetivo de proporcionar


assistência domiciliar por meio de uma equipe interdisciplinar a pacientes que
necessitam de acompanhamento após alta hospitalar.

capítulo 5 • 105
Seguindo orientações do Ministério da Saúde, o PAD tem como principal
finalidade contribuir para que o usuário, após a alta hospitalar e com o quadro
clínico instável, possa receber cuidados na própria residência por uma equi-
pe interdisciplinar, reduzindo os custos hospitalares, diminuindo os riscos de
infecções e, ao mesmo tempo, dando continuidade ao tratamento de maneira
humanizada, para uma melhoria na qualidade de vida do paciente. Compõem a
equipe médico, enfermeiro, assistente social, fisioterapeuta, técnico de Enfer-
magem, terapeuta ocupacional e fisioterapeuta.

Outros locais em que o fisioterapeuta atua são as associações e os clubes


esportivos. A ação do fisioterapeuta é de extrema relevância nessas instituições,
pois direciona a Fisioterapia às diversas modalidades de prática do esporte,
sem exceção.

Essa prática não é recente, entretanto foi muito estigmatizada de meados


da década de 1970 até a Copa do Mundo de 1990. Nesse intervalo, os fisiote-
rapeutas voltaram a se posicionar. Sua atitude frente às comparações com as
atividades dos massagistas (sempre presentes nas delegações brasileiras) e
às modificações pelas quais passava a Fisioterapia no Brasil mostraram que o
trabalho do fisioterapeuta trazia resultados rápidos e eficazes, que em nada se
chocavam com a atividade do médico, do preparador físico, fisiologista ou do
próprio massagista. A imprensa, de modo geral, passou a ver a Fisioterapia com
uma ótica mais respeitosa e se curvou à sua relevância.

A partir desse momento, a Fisioterapia vem se desenvolvendo na prática de


todas as modalidades esportivas, sendo aplicáveis não só nos atletas adultos,
como também nas colunas de base. É importante ressaltar que o trabalho fisio-
terapêutico visa não somente à recuperação de lesões e/ou pós-operatórios, mas
também à importante prevenção em jovens atletas e adultos de alto rendimento.

Quando citamos todas as modalidades esportivas, é importante associar os


atletas ditos normais ou saudáveis, não deixando de valorizar e respeitar os por-
tadores de alguma deficiência motora, cognitiva, visual ou outra que os carac-
terize como paratletas. Essa denominação, embora bastante cerceadora e polê-
mica, é a utilizada para caracterizar os dois tipos de atletas em competições de
âmbito local e/ou internacional e mundial.

106 • capítulo 5
O fisioterapeuta deve estar presente nos seguintes esportes: atletismo, nata-
ção, futebol, basquetebol, voleibol, judô, arco e flecha, equitação, polo aquático,
nado sincronizado, saltos ornamentais, voleibol de praia, golfe, tênis de mesa,
tênis, automobilismo, ginástica olímpica, taekwondo, futsal, entre outros.

No entanto, não se pode deixar de valorizar também a participação da Fi-


sioterapia na prevenção de lesões na dança, envolvendo ballet clássico e outras
modalidades profissionais.

A dança em cadeira de rodas também constitui uma atividade belíssima,


não sendo a participação do fisioterapeuta limitada à elaboração da coreogra-
fia, mas abrangendo a prevenção e correção de possíveis lesões.

Resumindo, a atuação do fisioterapeuta nas diversas práticas desportivas,


como também nas diversas faixas etárias de abrangência por essas práticas,
fornece uma visibilidade enorme de mercado, a qual só tende a crescer à me-
dida que os esportes olímpicos e paraolímpicos alcançam níveis cada vez mais
competitivos internacionalmente, ressaltando a necessidade de investimentos
em treinamento, melhora de marcas e em profissionais da saúde que podem
fazer a diferença dos milésimos de segundo em função de um bom trabalho
desenvolvido em equipe.

Ainda há discriminação pelo fato de, em alguns esportes, a fisioterapeuta


feminina não ser respeitada, dificultando seu acesso. Essa, porém, é uma teoria
ultrapassada, pois, se a profissional demonstrar competência e atitude, conhe-
cimento e respeito próprio, nada contrário poderá prejudicar seu trabalho.

Nos últimos 20 anos, a cultura ao corpo perfeito vem ganhando cada vez
mais espaço. Mais recentemente, mas também relevante, a procura pelas aca-
demias também se voltou para o aspecto da saúde, tanto preventiva quanto
curativa – frequência essa cada vez maior por parte de pessoas de meia-idade e
idosos. Inicialmente, a atuação da Fisioterapia poderia ter sido questionada pe-
los menos conhecedores, já que a atividade realizada nesses locais está voltada
para pessoas ditas “saudáveis”. No entanto, na prática, não é isso o que ocorre.
Na fase na qual a predominância de frequência era de jovens, principalmente

capítulo 5 • 107
do sexo feminino, várias lesões eram provocadas pela prática equivocada de ati-
vidades físicas prescritas igualmente para todas as pessoas, com utilização de
cargas altas de resistência e uma estrutura corporal nem sempre compatível
com sua sustentação. As clínicas de Fisioterapia recebiam muitas jovens com
quadros agudizados ou provocados por atividades realizadas inadequadamen-
te. Desde o início da década de 1980, os fisioterapeutas já apontavam o cami-
nho, que deveria ser a associação de trabalhos entre as duas categorias: profes-
sor de Educação Física e Fisioterapeuta. Após a avaliação da Educação Física,
seria feita a avaliação da Fisioterapia, e o programa seria mais bem-direcionado
a cada pessoa. Esse critério, porém, não foi instituído ainda por muitos anos,
pois não era economicamente atrativo. Atualmente, em função das modifica-
ções ocorridas, esse trabalho passou a ser obrigatório, e o ganho real para todas
as faixas etárias abrangidas tornou-se claro, além da integração crescente entre
o fisioterapeuta, professor de Educação Física e nutricionista.

As academias são, portanto, fonte crescente de empregabilidade para o fi-


sioterapeuta, desde que ele tenha em mente a necessidade real de trabalho em
equipe, preventivo e curativo.

Acompanhando a proposta de busca pelo corpo perfeito e belo, e mais re-


centemente, com o propósito de relevância da saúde como um todo, os centros
de estética passaram a ter importância crescente, saindo da esfera puramente
estética como termo relacionado e embelezamento, ganhando uma conotação
mais terapêutica. Esses centros têm como objetivo promover, aperfeiçoar ou
adaptar o indivíduo a uma melhor qualidade de vida e de saúde por meio de
uma relação terapêutica.

Esses nichos de mercado caminham juntamente com a evolução técnico-


científica da profissão. A prática fundamentada pela teoria baseada em evidên-
cias científicas possibilita o uso seguro dos recursos terapêuticos, dos básicos
até os mais atuais e inovadores, tais como: carboxiterapia, plataforma vibrató-
ria, dermocosméticos, nutricosméticos, ultrassom focalizado de alta intensi-
dade (lipocavitação), criolipólise, higienização profunda da pele, peeling quí-
mico, fotodepilação, microagulhamento, bandagem elástica funcional, entre
muitos outros.

108 • capítulo 5
Também os SPAs – centros voltados para o reequilíbrio corporal, emocional
e mental de pessoas acometidas por altos níveis de stress, associados à obesi-
dade – são locais de intervenção fisioterapêutica. Em sua quase totalidade, são
extremamente aprazíveis e acolhedores, favorecendo a resposta ao tratamento
a que se propõem, aliado à nutrição adequada e prática de atividades físicas
evolutivas de acordo com a sequência terapêutica determinada. A ação da Fi-
sioterapia se torna relevante, sendo principalmente relacionada ao aspecto da
obesidade. Durante o processo de emagrecimento, deve ser levado em conta
o grau de descondicionamento cardiorrespiratório sistêmico, assim como a
readaptação osteomioarticular derivada da perda de peso evolutiva. O fisiote-
rapeuta atua nesse recondicionamento, adequação postural e de condiciona-
mento, adaptando a evolução de cada paciente às suas condições individuais.

As ações da Fisioterapia se confundem, mas, quando se avalia o perfil espe-


cífico de cada atuação, percebe-se que é totalmente direcionada à ação de cada
profissional envolvido nesse processo de recuperação (Medicina, Enfermagem,
Nutrição, Psicologia, Fisioterapia, Educação Física).

Outro ponto importante é o fato de muitos desses pacientes internados em


SPAs apresentarem obesidade mórbida e, como consequência, insuficiência
respiratória ventilatória, caso em que a ação fisioterapêutica é fundamental e
diferenciada da ação de outros profissionais. O tratamento respiratório é aliado
obrigatoriamente à readaptação e o recondicionamento necessários progressi-
vamente.

Além de todas essas explanações, poderíamos citar várias outras em decor-


rência da evolução da profissão.

Hoje, o fisioterapeuta deve atuar em creches, escolas, empresas, casas de


convivência de idosos e vários outros espaços onde se promova a saúde.

capítulo 5 • 109
Quadro 2. Tipos de Serviço em que o Profissional Fisioterapeuta Atua

• Fisioterapia clínica: hospitais, maternidades e clínicas, ambulatórios, consultórios,


centros de reabilitação, clínicas de estética e Spas;
• Saúde coletiva: programas institucionais, ações básicas de saúde, fisioterapia do
trabalho, vigilância sanitária;
• Educação: docência em níveis secundário e superior, extensão, pesquisa, supervisão
técnica e administrativa, direção e coordenação de cursos;
• Outras atividades: indústria de equipamentos de uso fisioterapêutico, esporte.

Atribuições profissionais (COFFITO, 2015):

5.1  FISIOTERAPIA CLÍNICA

5.1.1  Atribuições gerais

• Prestar assistência fisioterapêutica (hospitalar, ambulatorial e em consul-


tórios);

• Elaborar o Diagnóstico Cinesiológico Funcional, prescrever, planejar, or-


denar, analisar, supervisionar e avaliar os projetos fisioterapêuticos, sua eficá-
cia, sua resolutividade e as condições de alta do cliente submetido a essas prá-
ticas de saúde.

5.1.2  Atribuições específicas

Em hospitais, clínicas e ambulatórios:

• Avaliar o estado funcional do cliente, a partir da identidade da patologia


clínica intercorrente, de exames laboratoriais e de imagens, da anamnese fun-
cional e exame da cinesia, funcionalidade e sinergismo das estruturas anatô-
micas envolvidas;

110 • capítulo 5
• Elaborar o Diagnóstico Cinesiológico Funcional, planejar, organizar, super-
visionar, prescrever e avaliar os projetos terapêuticos desenvolvidos nos clientes;

• Estabelecer rotinas para a assistência fisioterapêutica, fazendo sempre as


adequações necessárias;

• Solicitar exames complementares para acompanhamento da evolução do


quadro funcional do cliente, sempre que necessário e justificado.

• Recorrer a outros profissionais da Saúde e/ou solicitar pareceres técnicos


especializados, quando preciso;

• Reformular o programa terapêutico sempre que necessário;

• Registrar no prontuário do cliente as prescrições fisioterapêuticas, sua evo-


lução, as intercorrências e as condições de alta da assistência fisioterapêutica;

• Integrar a equipe multiprofissional de Saúde, sempre que necessário, com


participação plena na atenção prestada ao cliente;

• Desenvolver estudos e pesquisas relacionados à sua área de atuação;

• Colaborar na formação e no aprimoramento de outros profissionais de Saú-


de, orientando estágios e participando de programas de treinamento em serviço;

• Efetuar controle periódico da qualidade e da resolutividade do seu trabalho;

• Elaborar pareceres técnicos especializados sempre que solicitados.

Em consultórios

• Elaborar o Diagnóstico Cinesiológico Funcional, a partir da identidade da


patologia clínica intercorrente, de exames laboratoriais e de imagens, da anam-
nese funcional e exame da cinesia, da funcionalidade e do sinergismo das es-
truturas anatômicas envolvidas;

capítulo 5 • 111
• Estabelecer o programa terapêutico do cliente, fazendo as adequações ne-
cessárias;

• Solicitar exames complementares e/ou requerer pareceres técnicos espe-


cializados de outros profissionais de Saúde, quando necessários;

• Registrar, em prontuário ou ficha de evolução do cliente, a prescrição fisio-


terapêutica, sua evolução, as intercorrências e condições de alta em Fisioterapia;

• Colaborar com as autoridades de fiscalização profissional e/ou sanitária;

• Efetuar controle periódico da qualidade e funcionalidade dos seus equipa-


mentos, das condições sanitárias e da resolutividade dos trabalhos desenvolvidos.

Em centros de recuperação biopsicossocial (reabilitação):

• Avaliar o estado funcional do cliente, por meio da elaboração do Diagnóstico


Cinesiológico Funcional a partir da identidade da patologia clínica intercorrente,
de exames laboratoriais e de imagens, da amnese funcional e do exame da cine-
sia, da funcionalidade e do sinergismo das estruturas anatômicas envolvidas;

• Desenvolver atividades, de forma harmônica na equipe multiprofissional


de saúde;

• Zelar pela autonomia científica de cada um dos membros da equipe, não


abdicando da independência científico-profissional e da isonomia nas suas re-
lações profissionais;

• Participar plenamente na atenção de saúde prestada a cada cliente, na in-


tegração das ações multiprofissionalizadas, na sua resolutividade e na delibe-
ração da alta do cliente;

• Participar das reuniões de estudos e discussões de casos, de forma ativa e


contributiva aos objetivos pretendidos;

• Registrar no prontuário do cliente, todas as prescrições e ações nele de-

112 • capítulo 5
senvolvidas.

5.2  SAÚDE COLETIVA

5.2.1  Atribuição principal – Educação, prevenção e assistência fisioterapêutica


coletiva, na atenção primária em saúde.

5.2.2  Atribuições específicas

Programas institucionais:

• Participar de equipes multiprofissionais destinadas a planejar, implemen-


tar, controlar e executar políticas, programas, cursos, pesquisas ou eventos em
Saúde Pública;

• Contribuir no planejamento, investigação e estudos epidemiológicos;

• Promover e participar de estudos e pesquisas relacionados a sua área de


atuação;

• Integrar os órgãos colegiados de controle social;

• Participar de câmaras técnicas de padronização de procedimentos em saú-


de coletiva;

• Avaliar a qualidade, a eficácia e os riscos a saúde decorrentes de equipa-


mentos eletroeletrônicos de uso em Fisioterapia.

Ações básicas de saúde:

• Participar de equipes multiprofissionais destinadas ao planejamento, a


implementação, ao controle e a execução de projetos e programas de ações bá-
sicas de saúde;

capítulo 5 • 113
• Promover e participar de estudos e pesquisas voltados a inserção de proto-
colos da sua área de atuação, nas ações básicas de saúde;

• Participar do planejamento e execução de treinamentos e reciclagens de


recursos humanos em saúde;

• Participar de órgãos colegiados de controle social.

Fisioterapia do trabalho

• Promover ações terapêuticas preventivas a instalações de processos que


levam a incapacidade funcional laborativa;

• Analisar os fatores ambientais, contributivos ao conhecimento de distúr-


bios funcionais laborativos;

• Desenvolver programas coletivos, contributivos à diminuição dos riscos de


acidente de trabalho.

Vigilância sanitária

• Integrar a equipe de Vigilância Sanitária;

• Cumprir e fazer cumprir a legislação de Vigilância Sanitária;

• Encaminhar às autoridades de fiscalização profissional, relatórios sobre


condições e práticas inadequadas à saúde coletiva e/ou impeditivas da boa prá-
tica profissional;

• Integrar Comissões Técnicas de regulamentação e procedimentos relati-


vos a qualidade, a eficiência e aos riscos sanitários dos equipamentos de uso
em Fisioterapia;

• Verificar as condições técnico-sanitárias das empresas que ofereçam assis-


tência fisioterapêutica à coletividade.

114 • capítulo 5
5.3  EDUCAÇÃO

5.3.1  Atribuições principais

• Dirigir, coordenar e supervisionar cursos de graduação em Fisioterapia/Saúde;

• Lecionar disciplinas básicas e profissionalizantes dos Cursos de Gradua-


ção em Fisioterapia e outros cursos na área da Saúde;

• Elaborar planejamento de ensino, ministrar e administrar aulas, indicar


bibliografia especializada e atualizada, equipamento e material auxiliar neces-
sários para o melhor cumprimento do programa;

• Coordenar e/ou participar de trabalhos inter e transdisciplinares;

• Realizar e/ou participar de atividades complementares à formação profissional;

• Participar de estudos e pesquisas em Fisioterapia e Saúde;

• Supervisionar programas de treinamento e estágios;

• Executar atividades administrativas inerentes à docência;

• Planejar, implementar e controlar as atividades técnicas e administrativas


do ano letivo, quando do exercício de direção e/ou coordenação de cursos de
graduação e pós-graduação;

• Orientar o corpo docente e discente quanto à formação do fisioterapeuta,


abordando uma visão crítica da realidade política, social e econômica do país;

• Promover a atualização didático-pedagógica em relação à formação profis-


sional do fisioterapeuta.

capítulo 5 • 115
5.4  OUTRAS ATIVIDADES

5.4.1  Equipamentos e produtos para Fisioterapia (industrialização e


comercialização)

• Desenvolver/projetar protótipos de produtos de interesse do fisioterapeu-


ta e/ou da Fisioterapia;

• Desenvolver e avaliar a utilização desses produtos no meio social;

• Elaborar manual de especificações;

• Promover a qualidade e o desempenho dos produtos;

• Coordenar e supervisionar as demonstrações técnicas do produto junto


aos profissionais fisioterapeutas;

• Assessorar tecnicamente a produção;

• Supervisionar e coordenar a apresentação do produto em feiras e eventos;

• Desenvolver material de apoio para treinamento;

• Participar de equipes multiprofissionais responsáveis pelo desenvolvi-


mento dos produtos, por seu controle de qualidade e pela análise de seu desen-
volvimento e risco sanitário.

5.4.2  Esporte

• Planejar, implantar, coordenar e supervisionar programas destinados à re-


cuperação funcional de atletas;

• Realizar avaliações e acompanhamento da recuperação funcional do


cliente;

116 • capítulo 5
• Elaborar programas de assistência fisioterapêutica ao atleta de competição;

• Integrar a equipe multiprofissional de Saúde do esporte com participação


plena na atenção prestada ao atleta.

5.5  EXIGÊNCIAS LEGAIS

5.5.1  Responsabilidades técnicas de empresas

• Toda empresa ligada à produção de equipamentos de utilização em Fisio-


terapia e as que prestam assistência fisioterapêutica são obrigadas ao registro
nos órgãos de controle e fiscalização do exercício da atividade profissional da
Fisioterapia (Lei n.º 6.316/75);

• No momento da solicitação de seu registro, deverão apresentar profissio-


nal fisioterapeuta, para assumir a responsabilidade técnica da empresa peran-
te o órgão de fiscalização, a quem serão imputadas as responsabilidades pelas
quebras da ética social que não sanear ou denunciar.

5.5.2  Registro profissional

• Para o exercício da atividade profissional de fisioterapeuta no país, é exigí-


vel, além da formação em curso universitário superior, o registro do seu título
no Conselho Profissional da categoria;

• A atividade profissional só é permitida após o trâmite processual e a conces-


são de Carteira de Identidade Profissional de Fisioterapeuta (Lei nº 6.316/75).

ATIVIDADE
Procure investigar em sua região (município) as áreas em que o fisioterapeuta atua e os ho-
norários de atendimento; compare sua pesquisa com o que foi exposto no capítulo.

capítulo 5 • 117
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COFFITO. Conselho Federal de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional: RESOLUÇÃO nº. 80, DE 9
DE MAIO DE 1987. In: Diário Oficial da União nº. 093 - de 21/05/87, Seção I, p. 7609. Acesso em:
out/2015.
COFFITO. Conselho Federal de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional: RESOLUÇÃO nº. 153, DE 30 DE
NOVEMBRO DE 1993. In: Diário Oficial da União nº. 247 - de 28.12.93, Seção I, p. 20.925. Acesso em:
out/2015.
COFFITO. Definição de Fisioterapia e Áreas de Atuação. Disponível em: http://www.coffito.org.br/site/
index.php/Fisioterapia/definicao.html. Acesso em: out/2015.
PORTAL DA SAÚDE. SUS. Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf). Disponível em: http://dab.saude.
gov.br/portaldab/ape_nasf.php. Acesso em: out/2015.

118 • capítulo 5
capítulo 5 • 119
6
Educação
continuada e
empregabilidade na
fisioterapia
Apresentação do Capítulo

No senso comum, a fisioterapia é o conjunto de exercícios e atividades mo-


toras para tratar, prevenir ou recuperar lesões em nosso corpo. E, apenas por
esta definição (muito pobre, por sinal) a Fisioterapia já seria uma profissão es-
pecial, afinal, saber lidar com a mobilidade motora humana e suas disfunções
é uma missão. Mas, o que surpreende é a sua capacidade de atuar em dezenas
de áreas da saúde, e é o que faz dessa profissão um verdadeiro desafio aos pro-
fissionais da área.

Especializar-se em fisioterapia significa explorar a complexidade da profis-


são e associar as mais variadas patologias com o tratamento fisioterapêutico
ideal. É por isso mesmo que os fisioterapeutas tornam-se completos e capacita-
dos quando escolhem especializar-se e trilharem o caminho da educação con-
tinuada na Fisioterapia. Não esqueçamos jamais que a educação continuada é
uma competência fundamental para o exercício profissional e para se manter
no mercado de trabalho atualizada.

Vários cursos nos dão a possibilidade de continuar nossa educação. Cursos


de extensão e capacitação. As pós-graduações lato sensu – especializações e re-
sidências - e as pós-graduações strictu sensu – mestrado e doutorado, além da
participação de congressos, simpósios, palestras e outros.

Algumas especialidades já são reconhecidas pelo COFFITO, outras estão


em processo de reconhecimento e com a evolução da profissão observa-se uma
possibilidade considerável de aumento, em decorrência de nosso objeto de es-
tudo: a função de órgãos e sistemas do corpo humano.

OBJETIVOS
1.  Apresentar as especializações na área de Fisioterapia;
2.  Apresentar cursos de pós graduação lato sensu e stricto sensu;
3.  Relacionar a educação continuada a entrada e permanência no mercado de trabalho;
4.  Relacionar esses temas com as ações interdisciplinares.

capítulo 6 • 121
6  Educação Continuada
A educação continuada é uma prática na qual o desenvolvimento pessoal e
profissional dos fisioterapeutas é fundamental. Isso garante o aperfeiçoamento
das competências e habilidades do profissional bem como, uma maior visão da
realidade em que estão inseridos, visando uma construção de conhecimentos.

O processo de educação continuada não é um processo recente. Esse pro-


cesso surgiu no final do século passado, por exigência do próprio desenvolvi-
mento da sociedade e da classe trabalhadora. Não surgiu por acaso, nem por
obra voluntária de educadores, mas devido à sociedade capitalista avançada,
como sendo uma resposta aos problemas e desafios inerentes a ela.

No Brasil o projeto de Educação Continuada passou a ser discutido com


maior ênfase nas décadas de 70 e 80, pelos ideólogos da integração docente
assistencial, referindo-se a programas de complementação educacional de pro-
fissionais (da área de saúde principalmente). Estava vinculada a uma propos-
ta de extensão difundida no Brasil pela Organização Pan-americana de Saúde
(PORTAL EDUCAÇÃO, 2015).

A OPAS - Organização Pan-Americana de Saúde (1978) define educação con-


tinuada como sendo um processo permanente e constante de educação, que
vem acompanhado de uma formação básica a qual tem como principal objetivo
atualizar e melhorar as capacidades das pessoas ou dos grupos, frente às mu-
danças técnicas e científicas perante as necessidades sociais propostas.

O homem vive numa era de constantes mudanças, não podendo deixar de


se instruir, se aperfeiçoar, visto que ele se modifica a cada dia de sua vida. Para
tanto é necessário que ele reelabore sua visão do mundo, a fim de melhorar
suas condições de vida.

Para entender o papel da fisioterapia na atual sociedade brasileira, quais


são suas responsabilidades e quais são seus desafios, é necessário conhecer o
perfil epidemiológico da população, ou seja, quais são as principais causas de
morbidade e mortalidade da população. De maneira geral, a maioria dos países
tem passado por um processo chamado de transição epidemiológica, definida

122 • capítulo 6
como mudança nos padrões de morte, morbidade e invalidez, que caracteri-
zam uma população específica e que, em geral, ocorrem em conjunto com ou-
tras transformações demográficas, sociais e econômicas (REBELATTO e BOTO-
MÉ, 1999).

O elevado crescimento populacional, o aumento da taxa de urbanização e a


crescente expectativa de vida caracterizam a transição demográfica brasileira.
O Brasil também apresenta mudanças significativas no perfil nutricional da po-
pulação, com a gradativa superação da fome endêmica e epidêmica e a crescen-
te prevalência da obesidade, migrando a principal preocupação da fome/des-
nutrição para o sobrepeso/obesidade (BATISTA FILHO e RISSIN, 2003). Essas
mudanças constituem-se uma grande preocupação para as autoridades sani-
tárias, visto que a obesidade apresenta-se como importante fator de risco para
problemas de saúde como hipertensão, diabetes, hipercolesterolemia, etc.

Ao analisar o perfil de mortalidade da população brasileira no decorrer do


século XX, observa-se a principal característica da teoria da transição epidemio-
lógica: diminuição da mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias (DIP)
e aumento dos óbitos por doenças do aparelho circulatório, por doenças neo-
plásicas e por causas externas (BISPO JUNIOR, 2010).

No atual cenário epidemiológico, algumas condições apresentam maior


potencial para a limitação da capacidade funcional das populações, a exemplo
das patologias relacionadas ao aparelho cardiocirculatório, às causas externas
e ao aumento da população idosa. Vejamos, então, após essa breve explanação,
dados relevantes para as mudanças ocorridas no mercado de trabalho para o
fisioterapeuta:

As doenças cerebrovasculares quase sempre deixam sequelas que levam à li-


1 mitação da locomoção humana ou incapacidade física.

capítulo 6 • 123
Os episódios de violência, especialmente os acidentes de tráfego, além de pro-
2 duzirem considerável número de óbitos, possuem grande poder incapacitante e
têm gerado grandes contingentes de sequelados.

A saúde da população idosa merece especial atenção, em virtude de a longevi-


3 dade trazer consigo limitações na funcionalidade do aparelho locomotor, restrin-
gindo a deambulação e marcha dos idosos. (BISPO JUNIOR, 2010).

No que se refere à população idosa, a atuação do fisioterapeuta na atenção


básica possibilita o desenvolvimento de ações relacionadas à melhoria da pos-
tura, o estado físico-funcional, além de estimular o desenvolvimento da autoes-
tima e bem-estar.

Cabe ao fisioterapeuta, em consonância com a equipe de saúde e com os


gestores locais, planejar e desenvolver estratégias para contemplar tanto as
ações de reabilitação, que não podem deixar de ser desenvolvidas, quanto as
ações de promoção da saúde e prevenção de doenças (BISPO JUNIOR, 2010).

Também devemos levar em conta, a dinâmica das transformações socio-


econômicas verificadas nas últimas quatro décadas, que tem impactado pro-
fundamente no trabalho. Entre elas, a implantação da gestão “pelo estresse”, a
crescente intensidade do trabalho, o aumento da pressão, do controle, da res-
ponsabilização, da competição entre os trabalhadores e da sobrecarga mental e
emocional. Crescem e diversificam-se as formas de sofrimento e as doenças liga-
das ao exercício do trabalho: fadiga generalizada, dores musculares, estresse, an-
siedade, angústia, depressão, medo, esgotamento profissional (síndrome de Bur-
nout), síndrome do pânico, ler/Dort e problemas cardíacos (CARDOSO, 2015).

Na década de 80 tínhamos um campo de trabalho muito restrito para os fi-


sioterapeutas. Atuávamos na fisioterapia traumatoortopédica, na reumatológi-
ca, na neurofuncional (criança e adulto) e na respiratória.

Na década de 90 nos mostramos presentes na fisioterapia desportiva e aden-


tramos as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), atuando também nas Unida-
des Coronarianas, crescendo nossa presença na Fisioterapia Cardiofuncional.

124 • capítulo 6
Revela a aceleração das mudanças na prática esportiva, onde consolida-se
a ideia de esporte como direito de todos. Grupos até então pouco atendidos na
questão da atividade física ganham mais atenção, como os idosos e a pessoa
portadora de deficiência. Com essa ampliação o papel do fisioterapeuta surge
já que há necessidade de investimento em recursos humanos e científicos.

Nessa mesma época, surge também o SUS, com novas estratégias de ações
de promoção e prevenção da saúde, fundamentais para a reorientação dos mo-
delos assistenciais. E nesse contexto surge a Proposta da Estratégia da Saúde
da Família.

6.1  Especialidades na Fisioterapia

Podemos observar que a Fisioterapia assume um papel importante com to-


das essas mudanças citadas e consequentemente, várias especializações vêm
surgindo e crescendo no país. Abaixo discutiremos as especializações, inician-
do pelas já reconhecidas pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocu-
pacional (COFFITO):

• Fisioterapia pneumo-funcional (Resolução COFFITO n.º 188, de 09/12/98,


nomenclatura substituída por Fisioterapia respiratória pela Resolução COF-
FITO n.º 318, de 30/08/06) – visa o estudo e utiliza técnicas e manobras que
visam melhorar a dinâmica respiratória e a distribuição do ar inalado no pul-
mão, remover secreções brônquicas, obtendo assim melhor função respirató-
ria. Além das técnicas manuais, existem diversos equipamentos que auxiliam
na obtenção destes resultados. Técnicas de tosse; de expansão pulmonar; de
desinsuflação pulmonar; desobstrutivas; reeducação funcional respiratória;
inspirômetros de incentivo (a fluxo - RESPIRON e a volume- VOLDYNE); dre-
nagem brônquica; flutter; aerossolterapia e condicionamento físico específico.
Algumas das técnicas citadas são utilizadas no pré e pós operatório de cirurgias
tóraco-abdominais (cirurgia cardíaca, bariátrica, pulmonares...) com o objetivo
de capacitar funcionalmente o sistema cardiorrespiratório, evitando complica-
ções pós cirúrgicas.

• Fisioterapia neurofuncional (Resolução COFFITO n.º 189, de 09/12/98) - área

capítulo 6 • 125
da fisioterapia que visa ao estudo, diagnóstico e tratamento de distúrbios neu-
rológicos que envolvam as funções neuromotoras, por exemplo, pacientes que
sofreram um acidente vascular encefálico (AVE). A fisioterapia neurofuncional
induz ações terapêuticas para recuperação de funções, entre elas a coordena-
ção motora, a força, o equilíbrio e a coordenação. A terapêutica em fisioterapia
neurológica baseia-se em exercícios que promovam a restauração de funções
motoras, de forma a resolver deficiências motrizes e aperfeiçoar padrões moto-
res, com importante fundamentação nos princípios neurofisiológicos da facili-
tação neuromuscular proprioceptiva.

• Acupuntura (Resolução COFFITO n.º 219, de 14/12/00, não-exclusiva; foi


precedida pela normativa pioneira de 22/06/85, a histórica resolução n.º 60, e
as complementações de n.º 97 e 201) - A acupuntura (do latim acus - agulha e
punctura - colocação) é um ramo da medicina tradicional chinesa e, de acordo
com a nova terminologia da OMS - Organização Mundial da Saúde, um método
de tratamento complementar. Seu tratamento consiste no diagnóstico (igual-
mente baseado em ensinamentos clássicos da Medicina Tradicional Chinesa)
e na aplicação de agulhas em pontos definidos do corpo. Chamados de "Pon-
tos de Acupuntura" ou "Acupontos" que se distribuem principalmente sobre li-
nhas chamadas "meridianos chineses" e "canais", para obter diferentes efeitos
terapêuticos conforme o caso tratado. Também são utilizadas outras técnicas
alternativa ou complementarmente, sendo as mais conhecidas a moxabustão
(aplicação de calor sobre os acupontos ou meridianos), a auriculoterapia. Não
é exclusiva de fisioterapeutas, sendo exercida por vários profissionais de saúde.

• Fisioterapia traumato-ortopédica funcional (Resolução COFFITO n.º 260, de


11/04/04, complementada pela Resolução COFFITO n.º 279, de 15/09/04) - estu-
da, diagnostica e trata as disfunções musculoesqueléticas, de origem ortopédi-
ca, reumática ou decorrente de traumatismos. Utiliza os recursos terapêuticos
para aumentar a capacidade de movimentação, estimular a circulação e dimi-
nuir as dores de pacientes com fraturas, traumas musculares e entorses, assim
como nos cuidados pré e pós cirúrgicos.

• Fisioterapia esportiva (Resolução COFFITO n.º 337, de 08/11/07) - Atua dire-


tamente nas atividades esportivas, na preparação, prevenção e recuperação de
lesões no processo de reabilitação de atletas em clubes, times, academias, etc.

126 • capítulo 6
• Fisioterapia do trabalho (Resolução COFFITO n.º 351, de 13/06/08) - a Lei
Federal n.º 8080/90 (Lei Orgânica da Saúde), em seu artigo 6º, parágrafo 3º,
regulamentou os dispositivos constitucionais sobre Saúde do Trabalhador
como "um conjunto de atividades que se destina, através das ações de vigilân-
cia epidemiológica e vigilância sanitária, à promoção e proteção da saúde dos
trabalhadores, assim como visa à recuperação e reabilitação da saúde dos tra-
balhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de traba-
lho” - competências e habilidades que abrangem a atuação no âmbito da saúde
funcional do trabalhador. Atua em empresas e/ou organizações detentoras de
postos de trabalho, intervindo preventivamente e/ou terapeuticamente de ma-
neira importante para a redução dos índices de doenças ocupacionais. Tam-
bém conhecida em associação com Ergonomia.

• Fisioterapia dermatofuncional (Resolução COFFITO nº. 362, de 20/05/09)


- especialidade da fisioterapia que diagnostica, estuda e trata as afecções der-
matológicas e intertegumentares. Utiliza procedimentos próprios para doen-
ças dermatológicas com raio laser, infravermelho ou ultravioleta para evitar ou
reduzir retrações musculares e acelerar os processos de reparação e cicatriza-
ção, além de tratar queimaduras. Atualmente vem crescendo junto à cirurgia
plástica e a estética, tratando de alterações como o fibroedemagelóide, edemas
e também, no pré e pós cirúrgico.

• Fisioterapia oncológica (Resolução COFFITO nº. 364, de 20/05/09) - atua de


forma integral e interdisciplinar na promoção à saúde, detecção precoce, diag-
nóstico e tratamento dos distúrbios cinéticos funcionais provenientes das in-
tercorrências oncológicas e cuidados paliativos em todos os níveis de atenção
(atenção básica, de média e de alta complexidade) resgatando a funcionalidade
do indivíduo, por meio do diagnóstico fisioterapêutico, prescrição e execução
de métodos, técnicas e recursos fisioterapêuticos e educativos.

• Fisioterapia urogineco-funcional (Resolução 365, de 20/05/09) - é uma moda-


lidade que trabalha através da reeducação funcional do assoalho pélvico. Atua
na prevenção e no tratamento das diversas disfunções que podem acometer
tanto homens quanto mulheres, sendo estes jovens ou idosos. É opção de trata-
mento preventivo ou conservador de disfunções do assoalho pélvico.

capítulo 6 • 127
• Fisioterapia em atenção na Saúde Coletiva ou Fisioterapia no NASF (Núcleo
de Apoio a Saúde da Família) - Resolução COFFITO nº. 363, de 20/05/09) - Dian-
te dos novos desafios da sociedade brasileira, com profundas mudanças na or-
ganização social, no quadro epidemiológico e na organização dos sistemas de
saúde, surge a necessidade do redimensionamento do objeto de intervenção
da Fisioterapia, que deveria aproximar-se do campo da promoção da saúde e
da nova lógica de organização dos modelos assistenciais, sem abandonar suas
competências concernentes à reabilitação. Esse redimensionamento do objeto
de intervenção e da práxis profissional conduz às mudanças mais profundas,
de natureza epistemológica, na concepção e atuação do profissional fisiotera-
peuta. Frente a esses desafios e necessidades, surge a proposição do modelo
da Fisioterapia Coletiva como base para reorientação do foco de atenção e da
prática profissional do fisioterapeuta. A Fisioterapia Coletiva engloba e amplia
a Fisioterapia Reabilitadora, possibilitando o desenvolvimento da prática fisio-
terapêutica tanto no controle de dados quanto no controle de riscos.

• Fisioterapia na saúde da mulher (Resolução COFFITO nº 372, DE 06/11/09)


- desenvolve trabalhos preventivos e de recuperação nas areas de cancer mamá-
rio e ginecológico, gestação e puerpério, dor pélvica crônica e uroginecologia
(incontinência urinária e fecal, disfunções sexuais), climatério e menopausa,
visando melhoria nas condições funcionais da mulher, através de programas
personalizados e especializados, de acordo com suas necessidades. Administra
procedimentos próprios que visam a conscientização corporal e a utilização dos
recursos terapêuticos na incontinência urinária e fecal masculina e feminina,
no vaginismo, na endometriose, na tensão pré-menstrual, na dismenorréia, na
dor pélvica crônica, entre outros. A atuação fisioterapêutica é muito importante
no período gestacional, a fim de tratar as alterações posturais e algias decorren-
tes da gestação, a minimização do edema gestacional com auxílio da drenagem
linfática manual e, ainda, a preparação da gestante para o parto e período pós
-parto, com exercícios de fortalecimento de períneo e músculos abdominais.

• Fisioterapia em terapia intensiva (Resolução COFFITO nº 402, 03/08/11) –


tem uma visão geral do paciente, pois atua de maneira complexa no amplo ge-
renciamento do funcionamento do sistema respiratório e de todas as ativida-
des correlacionadas com a otimização da função ventilatória. É fundamental

128 • capítulo 6
que as vias aéreas estejam sem secreção e os músculos respiratórios funcio-
nem adequadamente. A fisioterapia auxilia na manutenção das funções vitais
de diversos sistemas corporais, pois atua na prevenção e/ou no tratamento
das doenças cardiopulmonares, circulatórias e musculares, reduzindo assim
a chance de possíveis complicações clínicas. Ela também atua na otimização
(melhora) do suporte ventilatório, através da monitorização contínua dos gases
que entram e saem dos pulmões e dos aparelhos que são utilizados para que
os pacientes respirem melhor. O fisioterapeuta também possui o objetivo de
trabalhar a força dos músculos, diminuir a retração de tendões e evitar os vícios
posturais que podem provocar contraturas e úlceras de pressão.

• Fisioterapia em osteopatia (Resolução COFFITO nº 398 de 03/08/11) - Osteo-


patia é um sistema autônomo de cuidados de saúde primário, que se baseia no
diagnóstico diferencial, bem como no tratamento de várias patologias, e pre-
venção da saúde, sem o recurso a fármacos ou cirurgia. Sua ação é centrada no
paciente, ao invés do sistema convencional centrado na doença. A profissão de
osteopata é uma profissão de saúde distinta, com uma formação académica su-
perior e treino clínico específicos. Utiliza várias técnicas terapêuticas manuais
entre elas a da manipulação do sistema musculoesquelético (ossos, músculos
e, articulações) para ajudar no tratamento de doenças.

• Fisioterapia em quiropraxia (Resolução COFFITO nº 399, de 03/08/11) - a qui-


ropraxia é uma profissão da saúde que lida com o diagnostico, tratamento e a
prevenção das desordens do sistema neuro-musculoesquelético e dos efeitos
destas desordens na saúde em geral. Há uma ênfase em técnicas manuais, in-
cluindo o ajuste e/ou a manipulação articular, com um enfoque particular nas
subluxações.

• Fisioterapia aquática (Resolução COFFITO nº 443, de 03/09/14) - utilização


da água nos diversos ambientes e contextos, em quaisquer dos seus estados fí-
sicos, para fins de atuação do fisioterapeuta no âmbito da hidroterapia, hidroci-
nesioterapia, balneoterapia, cromoterapia, termalismo, duchas, compressas,
vaporização/inalação, crioterapia e talassoterapia.

• Fisioterapia cardiovascular (Resolução COFFITO Nº 454, de 25/04/15) - Rea-


bilitação Cardíaca (RC) é todo o processo de desenvolvimento e de manutenção

capítulo 6 • 129
de um nível desejado de atividade física, social e psicológica, após o apareci-
mento da doença. Atua, ainda, beneficamente ajudando ao controle dos fato-
res de risco tradicionais, tais como a resistência à insulina, diabetes mellitus,
obesidade, dislipidemia e hipertensão. Promove a redução de comportamen-
tos de risco, como o etilismo, a má alimentação e o stress. O principal objetivo
é aumentar a qualidade de vida, manter e otimizar a capacidade funcional do
paciente, reduzir o risco de doenças cardiovasculares através do exercício físi-
co, educação e aconselhamento.

Obs: A resolução n.º 348, de 02/04/08, reconhece a Equoterapia como recurso


terapêutico a ser utilizado pelo fisioterapeuta, porém ainda não a reconhece
como especialidade.

Outras áreas e especialidades da Fisioterapia:

• Fisioterapia Pediátrica e Neonatológica - Especialidade que utiliza de méto-


dos e técnicas próprias para o tratamento de enfermidades neurológicas e car-
diorrespiratórias de crianças. Dentre elas podemos citar o Conceito Bobath, o

130 • capítulo 6
aumento do fluxo expiratório, a expiração lenta e prolongada, a desobstrução
rinofaríngea retrógrada, a glossopulsão retrógrada, o posicionamento no leito
e o reequilíbrio toracoabdominal.

• Fisioterapia Gerontológica - Estuda, previne e trata as disfunções decorrentes


do processo de envelhecimento, mediante a administração de condutas fisio-
terapêuticas, prevenindo quedas e promovendo a recuperação funcional global
de pessoas idosas. O fisioterapeuta especialista ou com conhecimento em Ge-
rontologia deve incluir em seu tratamento abordagem diferenciada do pacien-
te: olhar humanizado e integral pautado pelo princípio de que tem à frente um
sujeito idoso; pessoa com longa história de vida e com particularidades no enve-
lhecimento. Abordagem integral requer uma avaliação detalhada e abrangente.

• Fisioterapia nas Disfunções da ATM (articulação temporo mandibular) - Atua


principalmente na saúde bucal em conjunto com a Odontologia, tratando de
disfunções da articulação temporomandibular. Tornou-se parte integral da
abordagem interdisciplinar advogada no tratamento da dor e da disfunção as-
sociadas com a desordem temporomandibular e outras condições de dor oro-
facial. Tem como objetivo evitar a cirurgia, reposicionar a mandíbula ao crânio
para melhorar a função, minimizar a dor muscular, melhorar a amplitude de
movimento, melhorar a postura, reeducar o paciente em relação ao posiciona-
mento correto da mandíbula, reduzir a inflamação, reduzir a carga na articula-
ção temporomandibular e fortalecer o sistema músculo-esquelético. Para esse
tratamento inicial a utilização de procedimentos fisioterapêuticos é essencial.
Podemos agir nessa musculatura com manobras de relaxamento e reeducação
postural que promoverão grande melhora na sintomatologia, principalmente
nas crises dolorosas.

• Fisioterapia Vestibular - A resolução nº. 419/2012 (02 de junho de 2012 –


D.O.U. nº 131, Seção 1, 09/07/2012) reconhece a Reabilitação Vestibular como
área de atuação do fisioterapeuta - Reabilitação Vestibular é conjunto de proce-
dimentos de avaliação e tratamento, que visa a redução ou eliminação da tontu-
ra e a recuperação funcional ou a reabilitação das disfunções do equilíbrio cor-
poral de origem vestibular de natureza periférica, central ou mista, associadas
ou não às desordens multissensoriais e musculoesqueléticas. O fisioterapeuta,
durante sua consulta, avalia seus clientes/pacientes servindo-se de testes e es-

capítulo 6 • 131
calas padronizadas, posturografia, análise da marcha, manobras diagnósticas
com vistas a apontar a condição funcional dos sistemas relacionados ao con-
trole do equilíbrio corporal, entre outras, solicita exame complementar que
julgar necessário para identificar seu diagnóstico e subsidiar sua tomada de
decisão, bem como prescreve e executa métodos e técnicas de tratamento, ba-
seados em protocolos validados nacional e internacionalmente. A critério do
fisioterapeuta o tratamento de reabilitação vestibular poderá ainda constar de
exercícios terapêuticos sistematizados e treino funcional em solo e em meio
aquático, manobras de reposição, técnicas de terapia manual, uso de recursos
eletrotermofototerapêuticos, prescrição ou confecção de mecanismos auxilia-
res de locomoção ou indicação de dispositivos de ajuda, emprego de tecnologia
assistiva e realidade virtual, adaptação domiciliar e no ambiente de trabalho do
cliente/paciente como prevenção de quedas e outros frutos da evolução técnico
científica da profissão.

• Fisioterapia forense – é a aplicação dos conhecimentos de qualquer espe-


cialidade fisioterapêutica a serviço da justiça, determinando a elaboração de
documentos legais cujos teores se relacionem às disfunções dos movimentos
humanos, e a eventual relação destas com os sistemas onde os mesmos estejam
inseridos.

O fisioterapeuta também contribui para a geração de novos conhecimentos


por meio de investigação científica. Neste contexto esse profissional está apto
a assumir posição de liderança com compromisso, responsabilidade e geren-
ciamento efetivo e eficaz, levando em consideração as circunstâncias sociais,
econômicas, culturais, éticas, ambientais de planejamento, organização e ges-
tão de serviços de saúde públicos e privados, além de prestar serviços de as-
sessorias, consultorias e auditorias no âmbito de sua competência profissional
(CREFITO 4, 2015).

ATENÇÃO
A Saúde funcional é o objetivo da atenção fisioterapêutica. Por este motivo o CO-
FFITO, juntamente com outros Conselhos Federais da área de saúde, trabalha na
construção de uma proposta de Política Nacional de Saúde Funcional, que foi apro-
vada na 13º Conferencia Nacional de Saúde, para ser apresentada, discutida e

132 • capítulo 6
implementada pelo Governo federal.

Quando nos referimos a especialidades, normalmente relacionamos a cur-


sos de pós graduação lato sensu. No Brasil, a expressão foi introduzida para
distinguir os cursos de pós-graduação de menor duração e para diferenciar os
cursos "stricto sensu".

"Lato sensu" designa os cursos de especialização, residências e MBAs em


que a atividade de pesquisa tem sentido amplo, envolvendo problemas espe-
cíficos da área de estudo. O aluno recebe um certificado de conclusão no final
do curso.

De acordo com o MEC (Ministério da Educação), as pós-graduações "lato


sensu" devem ter duração mínima de 360 horas.

Os cursos de pós-graduação mais longos que englobam mestrado e douto-


rado são designados por "stricto sensu" (em sentido restrito). No final do curso
o aluno recebe o título de mestre ou doutor.

As pesquisas efetuadas nas especializações stricto sensu envolvem novos


problemas e a comprovação de novas teorias. Ao contrário das especializações
lato sensu que são direcionadas para a resolução de novos problemas, mas apli-
cando as teorias já existentes.

REFLEXÃO
Hoje já se discute o fisioterapeuta em todos os espaços de saúde – academias,
clinicas, escolas, creches, maternidades, unidades básicas de saúde, hospitais, ho-
téis – e sua atuação sempre com uma visão de saúde funcional se faz necessária
em todas as áreas.

E o fisioterapeuta frente a todas essas transformações na sociedade? Verifica-se


mais uma vez a importância do conhecimento, das competências e habilidades, já
discutidas junto às diretrizes nacionais para a formação desse profissional, no se-
gundo capítulo.

capítulo 6 • 133
Transformações na sociedade sempre ocorrerão e o fisioterapeuta deverá estar
preparado para acompanha-las.

ATIVIDADE
Procure na internet cursos de pós graduação lato sensu e strictu sensu de sua
região e comece a focar na sua especialização após sua graduação. Vamos ex-
plorar o assunto?

Acesse as Associações pelos caminhos:

http://abenfisio.com.br/
http://www.coffito.org.br/site/index.php/associacoes.htmlAssobrafir
http://www.assobrafir.com.br/
http://abrafidef.org.br/
http://www.abfo.org.br/
http://abrafin.org.br/
http://abrafitobr.com.br/
http://www.abfaquatica.com.br/index.php
http://abrafit.fst.br/
http://www.fisioterapiaforense.com.br/
http://www.abradimene.org.br/
http://www.abfp.org.br/
http://fisioterapiaquiropratica.blogspot.com.br/
http://fisioterapiaatual.com.br/

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BATISTA FILHO, M. e RISSIN, A. A transição nutricional no Brasil: tendências regionais e temporais. Cad
Saude Publica, 19(Supl 1): S181-S191. 2003.
BISPO JUNIOR, J.P. Fisioterapia e saúde coletiva: desafios e novas responsabilidades profissionais.
Ciência & Saúde Coletiva, 15(Supl. 1):1627-1636, 2010.
CARDOSO, A.C.M. O trabalho como determinante do processo saúde-doença. Tempo Social, Revista de

134 • capítulo 6
Sociologia da USP, v. 27, n. 1. 73-93. 2015.
COFFITO. Definição de Fisioterapia e Áreas de Atuação. Disponível em: http://www.coffito.org.br/site/
index.php/fisioterapia/definicao.html. Acesso em: out/2015.
PORTAL DA SAÚDE. SUS. Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF). Disponível em: http://dab.
saude.gov.br/portaldab/ape_nasf.php. Acesso em: out/2015.
PORTAL EDUCAÇÃO. Educação continuada. Disponível em: http://www.portaleducacao.com.br/en-
fermagem/artigos/32375/o-que-e-educacao#!2. Acesso em: out/2015.
REBELATTO,J.R e BOTOMÉ,S.P. Fisioterapia no Brasil: fundamentos para uma ação preventiva e pers-
pectivas profissionais. 2ª ed. São Paulo: Manole; 1999.

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