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FACULDADE DE ARTES VISUAIS

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

Wendel Alves de Sousa

LEITURA DE OBRA DE ARTE


Self-Portrait with Waroquy, Jean-Édouard Vuillard (1889)

Faculdade de Artes Visuais – Campus Samambaia -Caixa Postal 131 – CEP 74001-970 – Goiânia-GO – Brasil
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Goiânia - GO
2021
WENDEL ALVES DE SOUSA

LEITURA DE OBRA DE ARTE


Self-Portrait with Waroquy, Jean-Édouard Vuillard (1889)

Leitura de uma obra de arte e ensaio fotográfico,


trabalho apresentado para a avaliação da disciplina
de História da Arte II, ministrada pela Profa. Dra.
Patrícia Bueno Godoy.

Goiânia, 06 de junho de 2021.


RESUMO

Édouard Vuillard foi proeminente pintor do Pós-Impressionismo francês e juntamente


com o grupo Les Nabis, do qual fez parte até o início do século vinte, a produção de Vuillard
empreendeu importante papel para o resgate de fôlego na arte francesa após a Primeira Guerra
Mundial. Inspirado principalmente por Paul Gauguin e sua estética, Vuillard parte em busca de
uma simplificação da forma e uma expressividade por meio da cor, porém, a pintura escolhida
para esta leitura, datada de 1889, já consegue demonstrar a maturidade que Vuillard conseguia
imprimir a seu trabalho e as temáticas que o tornaram conhecido, como os retratos de pessoas
próximas e de ambientes interiores.
Jean-Édouard Vuillard (1868–1940)
Self-Portrait with Waroquy
Óleo sobre tela
1889
92,7 × 72,4 cm
Metropolitan Museum of Art – New York
Do pintor e da pintura

Jean-Édouard Vuillard (1868-1940) foi pintor, ilustrador, fotógrafo, litógrafo e


gravador francês. Integrou, entre 1891 e 1900, o grupo Les Nabis (do hebraico: profetas),
sendo, ao lado de Pierre Bonnard e Maurice Denis, um de seus membros mais proeminentes.
Suas pinturas reuniam áreas de pura cor e cenas de interior, influenciado também pelo pós-
impressionista Paul Gaguin.

Após a separação de Les Nabis, em 1900, Vuillard adotou estilo mais realista, pintando
paisagens e os petit-bourgeouis interiors (tema que o tornou conhecido), em detalhes generosos
e cores vívidas.

Self-Portrait with Waroquy (1889), pintura selecionada para o presente estudo, trata-se
de uma dessas pinturas de interiores, frequentes na obra de Vuillard, realizada, porém,
anteriormente a sua entrada no Les Nabis. Nesta pintura tem-se duas figuras masculinas
localizadas em ângulos de aproximadamente quarenta e cinco graus, em pé, uma à frente da
outra. Há uma diferença de altura entre ambas e a que se encontra à frente, está ereta,
empunhando uma paleta e pincéis (figura 1). Veste paletó escuro, apesar das linhas de
vestimentas não apresentarem grande definição. A figura ao fundo, maior, encontra-se
inclinada e apoiada sobre uma parede de cor verde-acinzentada. Suas feições são mais difusas
e é possível também vislumbrar o que poderia ser um cigarro em seus lábios (figuras 2 e 3).
No plano de fundo da pintura, além da parede, identifica-se um aparador e um quadro em tons
quentes. Sobre o aparador se localiza um vaso azul em tonalidade escura e ao primeiro plano,
uma garrafa e seu reflexo. O espaço tridimensional representado aqui é interposto pela vagueza
conseguida pelo pintor ao diferenciar os diferentes planos na pintura, podendo ser dividida
entre três, tomando como base a nitidez empreendida em cada um deles: o plano primeiro, no
qual se localiza a garrafa, indicando a utilização de um espelho durante a pintura: é o elemento
mais nítido da tela. O segundo plano, onde se localiza a figura à frente. O foco utilizado aqui é
um pouco menor que o do primeiro plano, porém ainda é possível divisar suas feições, os
pincéis em suas mãos e a paleta. O terceiro plano intensifica o tom difuso: não é mais possível
identificar os traços da figura de fundo e seus contornos se perdem ao passo que seu paletó
quase se funde em cor com o da figura da frente, tornando-se uma massa indefinida, à exceção
do rosto. A luz se origina aqui do lado direito da pintura, banhando parte da face da figura à
frente e sua mão direita. A obra, apesar da utilização de cores em tonalidades frias e terrosas,
como o azul, o verde, o cinza e o marrom, é banhada em tons quentes.

De acordo com Salomon, Cogeval e Chivot (2003), no catálogo crítico Vuillard: The
Inexhaustible Glance - Catalogue Raisonné of Paintings and Pastels, como o próprio nome
revela, a pintura retrata o pintor e seu amigo Waroquy, no quarto de sua Grand-mére Michaud,
localizado na rua Miromesnil.

Even at this early date, Vuillard measures himself against the complex seductions
of ‘the painting within the painting’, exploring the possibilities afforded for depth
of field by creating three planes ranging from the sharpest to softest focus.
(SALOMON;COGEVAL;CHIVOT, 2003, pg. 61)
A composição realizada nesta pintura por Vuillard não foi gratuita. A escolha na
diferenciação dos planos através do foco evidencia um estudo aprofundado da iluminação e da
reflexão, o que é evidenciado ao espectador pelo reflexo do objeto da garrafa, localizado ao
primeiro plano, indicando que a pintura foi realizada diante de um espelho. Tal variação focal
confere à pintura tom onírico, intensificado pela construção de volumes realizados por Vuillard
através do uso das cores. Como pintor pós-impressionista, a pintura de Vuillard remete a
técnicas utilizadas por pintores da vanguarda impressionista, como o uso da cor e da luz para
construção de volumes, empreendendo, porém, releituras críticas a esta. Vuillard é, portanto,
influenciado por uma estética de simplificação das formas e de um uso expressivo da cor
presente em Paul Gauguin, influência primeira aos Les Nabis.

Nesse sentido, o grupo dos "profetas" almeja alcançar uma síntese das principais
correntes da época, combinando as soluções formais do cloisonismo de Gauguin
com a relação estreita entre poesia e pintura defendida pelos simbolistas. Trata-
se de apresentar uma nova reação ao naturalismo impressionista, pelo uso
emocional da cor e distorção da linha. (ITAU)

Ainda em Vuillard: The Inexhaustible Glance, Salomon, Cogeval e Chivot (2003),


apontam sobre como a composição de Vuillard possibilita correlação com grandes exemplos
da arte realizada no século dezenove. Uma dessas correlações é com o Self-portrait with palette
(1878), de Manet. A postura do pintor e a escolha do autorretrato empunhando os pincéis, tal
qual uma “arma artística”, são questões observadas nesta comparação. Olhando a composição
de Manet (figura 4), não é muito trabalhoso compreender o motivo da relação realizada. Outra
correlação realizada com os grandes nomes da pintura é com Degas, em relação à técnica
empregada por Vuillard, esta realizada por Andrew Carnduff Ritchie (1954), em obra publicada
pelo Musem of Modern Art – MoMA:
His first paintings of the years 1887-90 are more sensitive to atmosphere and
texture than the academic realism of the schools. But they are still very
conservative in drawing and restrained in color, by Nabi standards. His Self
Portrait with Varocquez (p. 29) and the Self Portrait in a Mirror (color plate, p.
11), particularly the latter, suggest an early admiration for Degas, one that was to
continue all his life and was, in fact, reciprocated by the older painter. (RITCHIE,
1954, p. 10)

Ritchie enfatiza também reiteradamente a relação empreendida entre a poesia de


Stéphane Mallarmé, Baudelaire e a obscuridade dessa poesia, infliltrada nas representações
interiores de Vuillard. Self-Portrait with Waroquy, também conteria dessa obscuridade, desse
estranhamento presentificado na figura, no duplo do amigo que parece emergir das sombras
sem se revelar e sem se separar finalmente do pintor.

Conclusão

Como observado até aqui, Vuillard foi um pintor importante para a arte do fim do século
dezenove e início do século vinte, dialogando em diversos momentos com grandes artistas do
Pós-Impressionismo e mesmo em sua fase ‘jovem’ consegue estabelecer uma produção de
grande valor e técnica bastante amadurecida.

O Self-Portrait with Waroquy (1889), é exemplo disso, sendo possível identificar nele
temas desenvolvidos mais à frente por Vuillard, além de, em sua própria execução evidenciar
uma fuga do academicismo corrente à época. Como Ritchie (1954) finaliza, apesar de não ter
seu valor reconhecido em final de vida, tendo caído em quase esquecimento antes de ser
(re)descoberto, assim como Verlaine e Mallarmé influenciaram profundamente poetas do
século vinte, em Vuillard e em seu mundo de imagens particulares é possível encontrar também
encontrar (re)significância também para os pintores de nosso século.
Figura 1
Figura 2
Figura 3
Figura 4
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Self-Portrait with Waroquy. Disponível


em<https://www.metmuseum.org/art/collection/search/488853>. Acesso em: maio. 2021.
SALOMON, Antoine; COGEVAL, Guy; CHIVOT, Mathias. Vuillard: The Inexhaustible
Glance: catalogue raisonné of paintings and pastels. The Wildenstein Plattner Institute, 2003.
Disponível em<https://wpi.art/2019/01/09/vuillard-the-inexhaustible-glance/>. Acesso em:
maio. 2021.
NABIS . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú
Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo3289/nabis>.
Acesso em: maio. 2021.
SELF-PORTRAIT WITH PALETTE. Edouard Manet: Paintings, and Biography. Disponível
em <https://www.manet.org/self-portrait-with-palette.jsp#prettyPhoto[image1]/0/>. Acesso
em: maio. 2021.
RITCHIE, Andrew Carnduff. Édouard Vuillard. The Museum of Modern Art in collaboration
with the Cleveland Museum of Art, 1954. 115 págs. Disponível em:
<https://www.moma.org/documents/moma_catalogue_2805_300062134.pdf>. Acesso em:
maio. 2021.

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