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FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO, CIÊNCIAS, EDUCAÇÃO E LETRAS

DENISE EMANUELE DOS SANTOS

O ATENDIMENTO CLÍNICO E SEUS IMPACTOS NO TERAPEUTA

CURITIBA
2016
DENISE EMANUELE DOS SANTOS

O ATENDIMENTO CLÍNICO E SEUS IMPACTOS NO TERAPEUTA

Trabalho de Monografia apresentado à


disciplina de Trabalho de Conclusão de
Curso II, do décimo período do curso de
Psicologia da Faculdade de Administração,
Ciências, Educação e Letras, para obtenção
do título de Psicólogo.

Orientadora: Ms. Olivia Justen Brandenburg.

CURITIBA
2016
DENISE EMANUELE DOS SANTOS

O ATENDIMENTO CLÍNICO E SEUS IMPACTOS NO TERAPEUTA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Psicologia da Faculdade


de Administração, Ciências, Educação e Letras, para obtenção do título de Bacharel
em Psicólogo.

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________
Profª. Mestre Olivia Justen Brandenburg (Orientadora)

__________________________________________
Profª. Mestre Antoniela Yara Marques

__________________________________________
Profª. Mestre Angela De Loyola Runnacles

Curitiba,________ de__________________de 2016.


Dedico este trabalho ao meu esposo e à minha
família, que mesmo em meio a muitas dificuldades
me apoiaram nesta jornada.
AGRADECIMENTOS

Agradeço ao meu esposo, que sempre me apoiou e acreditou que esta conquista
seria possível, inclusive nos momentos em que até mesmo eu duvidei.

Agradeço à minha mãe, que sempre incentivou minhas escolhas e se esforçou muito
para possibilitar meus estudos.

Também agradeço imensamente à professora Olívia, a quem eu admiro muito, que


sempre foi muito atenciosa, compartilhando muito além de seus conhecimentos, mas
também empatia e compreensão.

À minha terapeuta, que tem me ajudado a superar muitas dificuldades e desafios ao


longo de minha trajetória acadêmica.

Agradeço a todos aqueles, familiares e amigos, que direta ou indiretamente fizeram


parte deste momento tão importante em minha vida.

Muito obrigada a todos!


RESUMO

A atuação clínica é permeada por algumas especificidades que diferem este campo
de trabalho de outros nos quais o psicólogo atua. Um dos elementos desta área é a
relação terapeuta-cliente, a qual tem sido frequentemente estudada pela literatura
em psicoterapia. A relação terapêutica possui características e possibilita a
ocorrência de determinados comportamentos tanto do cliente quanto do terapeuta.
No que tange à pessoa do terapeuta, este pode, frente a variáveis presentes na
sessão ou na relação com o cliente, apresentar determinados comportamentos, os
quais influenciam diretamente no modo como se relaciona com o paciente e na
condução do atendimento clínico. Discriminar os impactos que o cliente provoca no
terapeuta é importante, pois, a partir disso, o clínico poderá traçar melhor os
objetivos da terapia e desenvolver uma melhor relação terapêutica, o que acarreta
benefícios para o cliente, uma vez que, este poderá ampliar o repertório aprendido
nas sessões para seu ambiente natural, possivelmente melhorando suas relações e
sua qualidade de vida. O estudo dos impactos do atendimento no terapeuta também
pode contribuir para a ampliação dos conhecimentos acerca da relação terapêutica,
bem como, para o desenvolvimento da Terapia Analítico-Comportamental. Deste
modo, esta pesquisa pretende identificar os impactos provocados pelo atendimento
clínico na pessoa do terapeuta. Para tanto, foi feita uma revisão de literatura na
Biblioteca Virtual em Saúde – Psicologia (BVS-PSI), a qual reúne trabalhos de
diferentes bases de dados científicos. Para a coleta de dados, optou-se por
selecionar os materiais disponíveis na Índex-Psi Teses, Pepsic e Scielo. Os
materiais para análise também foram pesquisados em livros técnico-científicos sobre
Análise do Comportamento e Terapia Analítico-Comportamental. Os dados foram
analisados e categorizados de acordo com suas características em comum. Com
isso, verificou-se que os impactos no terapeuta podem ser comportamentos
operantes e respondentes, tanto públicos - como respostas de fuga/esquiva - quanto
privados - como valores, sentimentos e emoções.

Palavras-chave: Impactos, Terapeuta, Relação Terapêutica, Terapia Analítico-


Comportamental
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - resultados da busca na biblioteca virtual em saúde-psicologia...............19

Tabela 2 - resultados da pesquisa em livros sobre análise do comportamento e


terapia analítico-comportamental...............................................................................20

Tabela 3 – resumo dos trabalhos que compõem os resultados da


pesquisa.....................................................................................................................32
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO..........................................................................................................9
2 BEHAVIORISMO RADICAL E ANÁLISE DO COMPORTAMENTO ....................... 11

3 TERAPIA ANALÍTICO-COMPORTAMENTAL ......................................................... 14

3.1 RELAÇÃO TERAPÊUTICA E HABILIDADES DO TERAPEUTA ..................... 15

4 MÉTODO ................................................................................................................... 18

4.1 PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS .................................................... 18

4.2 AMOSTRA .......................................................................................................... 18

4.3 ANÁLISE DOS DADOS ...................................................................................... 21

5 RESULTADOS .......................................................................................................... 22

6 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS .................................................................. 32

6.1 ASPECTOS METODOLÓGICOS ...................................................................... 34

6.2 IMPACTOS - TIPOS DE COMPORTAMENTO DO TERAPEUTA SOB


CONTROLE DAS VARIÁVEIS DO ATENDIMENTO ............................................... 35

6.2.1 Valores ......................................................................................................... 35

6.2.2 Sentimentos/emoções ................................................................................. 37

6.2.3 Comportamentos de fuga/esquiva .............................................................. 40

CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................... 42

REFERÊNCIAS ............................................................................................................ 45
9

1 INTRODUÇÃO

A atuação clínica é permeada por algumas especificidades que diferem este


campo de trabalho de outros nos quais o psicólogo atua. Um dos elementos desta
área é a relação terapeuta-cliente, a qual tem sido frequentemente estudada pela
literatura em psicoterapia. Recentemente, a Terapia Analítico-Comportamental
também tem se apropriado deste fenômeno, considerado crucial para o processo
terapêutico.
A relação terapêutica possui características e possibilita a ocorrência de
determinados comportamentos tanto do cliente quanto do terapeuta. No que tange à
pessoa do terapeuta, este pode, frente a variáveis presentes na sessão ou na
relação com o cliente, apresentar determinados comportamentos, os quais
influenciam diretamente no modo como se relaciona com o paciente e na condução
do atendimento clínico.
No processo psicoterapêutico, o terapeuta atua como parte do ambiente
para o cliente, apresentando contingências que irão reforçar ou não determinados
comportamentos. Da mesma forma, o cliente emite comportamentos na sessão que
também provocam impactos no terapeuta e possivelmente modelam seu repertório,
o que faz com que o terapeuta aja de determinada maneira com um cliente
específico (ZAMIGNANI, 2000).
Apesar de também ter seu comportamento afetado pelos comportamentos
do cliente, o terapeuta deve saber lidar com esses impactos, de modo que eles não
prejudiquem o processo terapêutico, uma vez que, para que se obtenham os
resultados almejados na relação terapêutica (aprendizagem de novas respostas), é
necessário que as reações do terapeuta às respostas do cliente, sejam diferentes
daquelas apresentadas em seu ambiente natural (ZAMIGNANI, 2000).
Nessa perspectiva, discriminar os impactos que o cliente provoca no
terapeuta é importante, pois, a partir disso, o clínico poderá traçar melhor os
objetivos da terapia e desenvolver uma melhor relação terapêutica, o que acarreta
benefícios para o cliente, tendo em vista que, este poderá ampliar o repertório
aprendido nas sessões para seu ambiente natural, possivelmente melhorando suas
relações e sua qualidade de vida. O estudo dos impactos do atendimento no
10

terapeuta também pode contribuir para a ampliação dos conhecimentos acerca da


relação terapêutica, bem como, para o desenvolvimento da Terapia Analítico-
Comportamental.
Diante do exposto, este trabalho pretende identificar, por meio de uma
pesquisa teórica de revisão de literatura, quais são os impactos provocados pelo
atendimento clínico na pessoa do terapeuta. À vista disso, é pertinente esclarecer
que o título deste trabalho foi inspirado no trabalho de Roberto Banaco, de 1993,
denominado “O impacto do atendimento sobre a pessoa do terapeuta”. O termo
impacto foi mantido, pois se considerou que a substituição por outra palavra não
manteria o sentido desejado nesta pesquisa.
Visando atingir o objetivo proposto, inicialmente será realizada uma breve
exposição teórica acerca do Behaviorismo Radical e Análise do Comportamento, da
Terapia Analítico-Comportamental e a relação terapêutica sob esta perspectiva
psicológica, considerando que tais informações constituem a base para o
entendimento dos impactos no terapeuta. Em seguida será apresentado o método
empregado para a obtenção dos dados. Posteriormente, serão expostos os
resultados da revisão bibliográfica, assim como, a análise e discussão dos dados.
Por fim, serão realizadas as considerações finais sobre o tema.
11

2 BEHAVIORISMO RADICAL E ANÁLISE DO COMPORTAMENTO

Até o inicio do século XX, a Psicologia, ocupava-se do estudo da mente


humana e tinha como um dos principais métodos de pesquisa a introspecção e
como objeto de estudo a consciência, as sensações e percepções do ser humano
sobre o mundo (NETO, 2002). De acordo com Neto (2002), em 1913, John Watson
publicou um artigo que inaugurou uma nova forma de se fazer pesquisa nesta área,
ficando tal movimento conhecido como Behaviorismo. Watson propôs o estudo
científico dos processos ditos psicológicos, através de um método de pesquisa
diferenciado, que utilizava a experimentação com processos de interação do
organismo com seu meio. Segundo Neto (2002), Watson pretendeu com isso, mudar
o objeto de estudo da Psicologia, voltando o foco para os comportamentos
observáveis do sujeito, os quais poderiam ser verificados por diferentes pessoas.
Por excluir os eventos privados (sentimentos, sensações, pensamentos) do estudo
objetivo e científico do comportamento, o Behaviorismo Metodológico (como ficou
conhecido posteriormente) foi e ainda é alvo de muitas críticas de estudiosos de
outras abordagens teóricas da Psicologia (NETO, 2002).
As ideias de Watson foram retomadas alguns anos depois por B. F. Skinner,
que em 1945 denominou seu corpo teórico de Behaviorismo Radical (BR). Este
nome foi dado para diferir seus estudos daqueles realizados anteriormente, pois a
partir de suas ideias, a ciência do comportamento humano passou a estudar os
fenômenos que até então haviam sido desconsiderados pelos outros behavioristas,
os comportamentos privados (NETO, 2002). Contudo, estes eventos foram
investigados de forma diferente das propostas mentalistas (que atribuem as causas
dos comportamentos a eventos internos). Skinner afirmou que os eventos privados
são tão físicos quanto os observáveis, por isso, estão sujeitos as mesmas leis e
princípios que os segundos, a única diferença está na acessibilidade de tais eventos,
que podem ser verificados apenas pelo indivíduo através da mediação de outras
pessoas presentes no ambiente (SKINNER, 2004). Com isso, objetivou alterar a
noção de causa interna dos comportamentos, pois “o que é sentido ou
introspectivamente observado não é nenhum mundo imaterial da consciência, da
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mente ou da vida mental, mas o próprio corpo do observador” (SKINNER, 2004 p.


19).
Cabe destacar que o Behaviorismo Radical, não é a ciência do
comportamento propriamente dita, mas sim a filosofia que embasa tal ciência
(SKINNER, 2004). A ciência do comportamento, denominada Análise do
Comportamento, possui duas áreas de aplicação, a Análise Experimental do
Comportamento (AEC), a qual realiza estudos empíricos em laboratórios e a Análise
Aplicada do Comportamento, que emprega os conhecimentos advindos do BR e da
AEC em áreas de atuação específicas, como a clínica, saúde, escola, entre outras.
É importante evidenciar que estes campos se intercalam, pois uma área depende
dos conhecimentos da outra (NETO, 2002).
O Behaviorismo Radical compreende o homem como ser ativo, o qual age
sobre o mundo, produzindo alterações no ambiente, que por sua vez, afetam
novamente os comportamentos do homem. Desta forma, nota-se que o homem está
em constante interação com o seu ambiente e conforme estabelece estas relações
ao longo da vida, vai construindo-se enquanto sujeito (MOREIRA; HANNA, 2012).
Segundo Skinner (2004, p. 19), “o ambiente deu sua primeira grande
contribuição durante a evolução das espécies, mas ele exerce um diferente tipo de
efeito, durante a vida do indivíduo, e a combinação dos dois efeitos é o
comportamento que observamos”. Nesse sentido, os comportamentos do indivíduo
são selecionados pelas consequências que produzem no ambiente em três níveis
distintos. O primeiro é o nível filogenético, o qual possui relação com as
características mais adaptativas da espécie, que foram selecionadas ao longo de
sua história evolutiva. O segundo nível de seleção de comportamentos é o
ontogenético, ele é composto pelas relações estabelecidas pelo indivíduo com o seu
ambiente e a aprendizagem resultante deste processo ao longo de sua vida. O
terceiro nível, a ontogênese cultural, abrange as práticas culturais, que são
repassadas às gerações por meio do comportamento verbal (SKINNER, 2002;
MOREIRA; HANNA, 2012).
De acordo com uma perspectiva analítico-comportamental, o comportamento
é a relação existente entre a resposta do organismo e os eventos do ambiente (tanto
interno quantos externo ao indivíduo) (THOMAZ, 2011). Essas relações podem
ocorrer de duas maneiras, por meio do comportamento respondente, no qual as
13

repostas do organismo são eliciadas por um estímulo antecedente e pelo


comportamento operante (SKINNER, 2004).
Para verificar como ocorrem as relações entre as respostas do indivíduo e
os estímulos do ambiente, os analistas do comportamento utilizam uma ferramenta
denominada análise funcional. A análise funcional permite identificar a função (e não
somente a forma como o comportamento é apresentado) de determinado
comportamento, por meio da análise da chamada tríplice contingência, isto é, dos
eventos antecedentes, as respostas do organismo e os estímulos consequentes
(reforço, punição) (MOREIRA; MEDEIROS, 2007).
14

3 TERAPIA ANALÍTICO-COMPORTAMENTAL

A Terapia Analítico-Comportamental (TAC) é um modelo de intervenção


clínica, cujos pressupostos teóricos estão baseados no Behaviorismo Radical
(COSTA, 2002). O principal objetivo desta perspectiva teórica é fazer com que o
cliente seja capaz de descrever as contingências das quais está sob controle e
interferir nela, isto é, fazer com que ele realize auto-observações e possa ampliar
seu autoconhecimento (GUILHARDI, 1999). Deste modo, o terapeuta analista do
comportamento investiga a história de vida do cliente, considerando os três níveis de
seleção do comportamento e utiliza a relação terapêutica como um dos principais
instrumentos de trabalho clínico, indo muito além da aplicação de técnicas e
procedimentos para influenciar os comportamentos do cliente. O terapeuta assume
uma postura diretiva, incentivando comportamentos de enfrentamento do cliente,
pois considera que este produz as consequências que determinarão seus próprios
comportamentos (SILVEIRA, 2007).
A literatura aponta algumas etapas do processo terapêutico analítico-
comportamental. Conforme Ribeiro (2001), primeiramente é realizada a entrevista
inicial, fase que consiste na investigação da história de vida do cliente, que inclui
informações sobre a família, relações amorosas, saúde, trabalho, escola (RIBEIRO,
2001), com o intuito de obter dados que caracterizem a história passada e a situação
na qual o cliente se encontra atualmente, quais são os fatores que atuam como
reforçadores (COSTA, 2002). Além disso, realiza-se a coleta de informações sobre a
queixa e os objetivos do cliente com a terapia, buscando, sempre que possível, fazer
análises funcionais com as informações apresentadas (RIBEIRO, 2001).
Na segunda fase, a de formulação comportamental, o terapeuta apresenta
ao cliente as análises realizadas com base nas informações coletadas na entrevista
inicial e apresenta um plano de trabalho. É também a fase na qual se estabelece o
contrato e os objetivos que se espera alcançar com a terapia (RIBEIRO, 2001).
O tratamento constitui a terceira fase do processo terapêutico analítico-
comportamental. Seus aspectos principais são a aprendizagem e modelagem de
comportamentos do cliente, tendo como foco reduzir a ocorrência dos
comportamentos que estão produzindo consequências aversivas e aumentar a
15

probabilidade de ocorrência de comportamentos com consequências reforçadoras


(COSTA, 2002).
A quarta fase é a de alta, esta se inicia quando os objetivos clínicos
inicialmente estabelecidos são alcançados. No processo de alta, as sessões são
realizadas com menos frequência (quinzenal ou mensal) até o momento em que o
cliente deixa de vir (RIBEIRO, 2001).
Por fim, ocorre a fase na qual as sessões são denominadas follow-up. Estas
possuem o objetivo de avaliar, juntamente com o cliente, as mudanças ocorridas na
terapia e se estas se mantiveram (RIBEIRO, 2001), caso o cliente esteja
enfrentando alguma dificuldade, o terapeuta deve avaliar cuidadosamente, se é
necessária uma nova intervenção ou ele está encobrindo a melhora para manter a
relação terapêutica (COSTA, 2002).

3.1 RELAÇÃO TERAPÊUTICA E HABILIDADES DO TERAPEUTA

A Terapia Comportamental, diferentemente de outras abordagens teóricas,


demorou para considerar a importância da relação terapêutica para o processo de
terapia. Priorizavam-se as técnicas e conceitos da análise do comportamento, ao
passo que a relação entre o terapeuta e o cliente era compreendida apenas como o
ambiente de aplicação dos primeiros, não caracterizando o ambiente natural do
cliente (CONTE; BRANDÃO, 1999).
Com a aplicação dos princípios do Behaviorismo Radical à clínica, passou-
se a conceber a relação terapêutica de outra maneira, como um ambiente natural,
no qual é possível verificar os comportamentos do cliente da mesma forma que
ocorrem em outros locais. Essa expansão do Behaviorismo Radical para a clínica e
para a relação terapêutica foi sugerida por Kohlenberg e Tsai no ano de 1987 e foi
denominada Psicoterapia Funcional Analítica (FAP) (CONTE; BRANDÃO, 1999). De
acordo com a proposta da FAP, a relação terapêutica atuará como um espaço para
que os comportamentos-problema do cliente apareçam, sendo possível ao terapeuta
trabalhar com os mesmos no momento em que ocorrem na sessão (BRAGA;
VANDENBERGHE, 2006).
16

A partir da ênfase dada à relação terapêutica por este modelo, além do


cliente, os comportamentos do terapeuta também se tornaram foco de análises, pois
ambos possuem histórias comportamentais e estão sob controle das variáveis
presentes no momento, influenciando-se mutuamente, o que acaba retirando a
posição de neutralidade do terapeuta que vinha ocupando no processo
psicoterapêutico (VELASCO; CIRINO, 2002). Deste modo, a mudança irá depender
da relação que se estabelece entre terapeuta e cliente, o que implicará na
modificação tanto do paciente quanto do terapeuta, pois se trata de uma relação
genuína e sensível (CONTE; BRANDÃO, 1999).
A relação terapêutica passa por constantes mudanças, uma vez que, se
constitui pelas características pessoais do cliente e do terapeuta e também a partir
das contingências que se estabelecem no contexto clínico. Neste sentido, o
terapeuta irá intervir de modo conjunto com o cliente, conforme forem emergindo
conteúdos nesta interação. Desta forma, para que ocorra o processo
psicoterapêutico, é necessária uma relação íntima, pautada pelo respeito,
cumplicidade e confiança. Além disso, para que possa oferecer auxílio ao cliente,
algumas habilidades no repertório do psicólogo são essenciais (IRENO, 2007).
O terapeuta comportamental deve possuir domínio sobre os conhecimentos
teóricos da ciência do comportamento, que envolvem os princípios básicos de
análise do comportamento, análise funcional, técnicas de modificação de
comportamento, assim como habilidades interpessoais e para coletar informações
(IRENO, 2007). Além disso, de acordo com Villani (2002), o terapeuta deve ser
cordial com o cliente, também deve demonstrar uma atitude de aceitação, apoio,
interesse e compreensão, pois esses comportamentos irão contribuir para o
estabelecimento de uma boa relação terapêutica. A postura adotada pelo terapeuta
na relação com o cliente deve ser de não julgadora e não-punitiva, pois é a
qualidade dessa relação que determinará os rumos da terapia (VELASCO; CIRINO,
2002).
Em consonância com essas habilidades, Kleine (1994 apud VIEIRA, 2007)
destaca alguns comportamentos, que ao serem apresentados pelo terapeuta,
contribuem para o processo psicoterapêutico. Entre os comportamentos estão: a
empatia e o apoio, os quais facilitam a comunicação com o paciente; a habilidade de
diretividade e controle, que demonstram organização da sessão; a habilidade de
questionamento; habilidades de clarificação e estruturação, por meio das quais o
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terapeuta fornece informações ao cliente; interpretação, a qual consiste na


habilidade de criar hipóteses; e confrontação e crítica, habilidades nas quais se
verifica a existência de contradições, etc.
Algumas habilidades também são elencadas por Garfield (1995 apud
IRENO, 2007), como: habilidade em estabelecer uma relação positiva com o cliente,
que envolve outras habilidades como demonstrar interesse pelos conteúdos do
cliente, apresentar comportamentos empáticos, aceitação, ouvir atentamente,
inspirar confiança, esclarecer dúvidas, entre outras; também é importante que o
terapeuta tenha habilidade em fazer interpretações e buscar esclarecer o cliente
acerca de suas dificuldades; habilidade para tornar o ambiente mais favorável para o
cliente expressar sentimentos e problemas; habilidade em reforçar os
comportamentos desejáveis do cliente que ocorrem durante a sessão; habilidade
para esclarecer dúvidas sobre temas importantes presentes na vida do cliente; o
terapeuta também deve ser capaz de prestar apoio ao cliente quando necessário,
sendo isto, imprescindível para o processo terapêutico (GARFIELD, 1995 apud
IRENO, 2007).
Segundo Mahoney (1998 apud ALVAREZ; SILVEIRA, 2002) algumas
habilidades são essenciais no repertório do terapeuta, contudo, não são ensinadas
da forma como deveriam nos cursos de formação. Estas habilidades são:
autoconhecimento; relacionamento humano; compaixão; filosofia; habilidades de
sobrevivência e enfrentamento; valores e qualidade de vida.
Com base no exposto, verifica-se que na literatura são evidenciadas as
habilidades técnicas do terapeuta e aquelas voltadas para o acolhimento do cliente.
Diante de pouca menção a pessoa do terapeuta e do quanto ele é afetado pela
relação terapêutica ou pelo atendimento, essa pesquisa se dedicará a analises dos
impactos de acordo com a metodologia descrita na sequência.
18

4 MÉTODO

4.1 PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS

Para realização desta pesquisa foi feita uma revisão de literatura na


Biblioteca Virtual em Saúde – Psicologia (BVS-PSI), a qual reúne trabalhos de
diferentes bases de dados científicos. Para a coleta de dados, optou-se por
selecionar os materiais disponíveis na Índex-Psi Teses, Pepsic e Scielo. Os
descritores utilizados foram: emoções terapeuta; reações terapeuta; impactos
terapeuta; relação terapêutica; emoções terapia comportamental; terapia
comportamental; atendimento terapeuta.
A partir dos resultados obtidos por meio da busca destas palavras-chave, as
pesquisas foram selecionadas utilizando-se como critérios sua disponibilidade para
download; trabalhos cujo título incluía palavras relacionadas ao tema da pesquisa; a
presença, nos resumos de cada material, de conteúdos relacionados aos impactos
do atendimento sobre o terapeuta; pesquisas que incluíam no resumo assuntos
relativos às respostas encobertas do terapeuta durante o atendimento. Não foram
selecionadas pesquisas que apresentavam no resumo conteúdos relativos,
exclusivamente, ao cliente; pesquisas cujo embasamento teórico diferia da Terapia
Analítico-Comportamental; trabalhos relacionados a ciências diferentes da
Psicologia; materiais que já haviam sido selecionados por meio da busca de outras
palavras-chave.
Os materiais para análise também foram pesquisados em livros técnico-
científicos sobre Análise do Comportamento e Terapia Analítico-Comportamental.
Neste caso, o critério utilizado para seleção dos textos foi a existência de palavras
ou conteúdos relacionados aos comportamentos do terapeuta durante o
atendimento.

4.2 AMOSTRA
19

Os resultados obtidos por meio do procedimento de coleta de dados


anteriormente descrito, serão apresentados nas tabelas 1 e 2. Com a busca foram
encontrados um total de dezesseis (16) trabalhos que atendem aos critérios de
seleção estabelecidos. Deste total, oito (8) foram obtidos através da busca na base
online BVS-Psi e oito (8) foram encontrados em livros pertinentes à Análise do
Comportamento e Terapia Analítico-Comportamental.
Após a leitura completa do material encontrado, foram excluídos seis (6)
trabalhos, que, apesar de se enquadrarem nos critérios iniciais de seleção, não
continham conteúdos relativos ao tema que esta pesquisa se propõe a estudar. Os
dez (10) trabalhos restantes, que apresentam, de alguma forma, os impactos do
atendimento sobre o terapeuta, são apresentados nas tabelas 1 e 2.

Tabela 1 - RESULTADOS DA BUSCA NA BIBLIOTECA VIRTUAL EM SAÚDE-


PSICOLOGIA

INDEX PSI TESES

PALAVRAS-
RESULTADOS SELECIONADOS TÍTULOS DOS TEXTOS
CHAVE

Intervenções sobre comportamentos


Emoções
4 1 de clientes que produzem sentimentos
terapeuta
negativos no terapeuta.
Reações
5 0
terapeuta
Impactos
0 0
terapeuta
Relação
77 0
terapêutica
Emoções terapia
7 0
comportamental
Terapia
90 0
comportamental
Atendimento
37 0
terapeuta

PEPSIC
Emoções
5 0
terapeuta
Reações
0 0
terapeuta
Impactos
2 0
terapeuta
20

O papel da supervisão na formação de


Relação
105 1 terapeutas comportamentais: estudo
terapêutica
de caso.
Emoções terapia
9 0
comportamental
Terapia
174 0
comportamental
Atendimento O impacto do atendimento sobre a
37 1
terapeuta pessoa do terapeuta.

SCIELO

Emoções
1 0
terapeuta
Reações
1
terapeuta 0
Impactos
0
terapeuta 0
Abrangência e função da relação
Relação
599 1 terapêutica na Terapia
terapêutica
Comportamental.
Emoções terapia
2 0
comportamental
Problemas enfrentados por terapeutas
Terapia
200 1 analítico-comportamentais em sua
comportamental
prática clínica.
Atendimento
21 0
terapeuta

TOTAL 1376 5
Fonte: Elaborada pela autora desta pesquisa.

Tabela 2 - RESULTADOS DA PESQUISA EM LIVROS SOBRE ANÁLISE DO


COMPORTAMENTO E TERAPIA ANALÍTICO-COMPORTAMENTAL

LIVRO VOLUME RESULTADOS CAPÍTULO


Sobre 1 1 O estudo de eventos privados através
Comportamento e de relatos verbais de terapeutas.
Cognição
Sobre 2 1 O impacto do atendimento sobre a
Comportamento e pessoa do terapeuta 2: experiências
Cognição de vida.
Sobre 5 1 O caso clínico e a pessoa do
Comportamento e terapeuta: desafios a serem
Cognição enfrentados.
Sobre 7 1 O repertório do terapeuta sob a ótica
Comportamento e do supervisor e da prática clínica.
Cognição
Sobre 9 1 Valores do terapeuta e do cliente no
Comportamento e estabelecimento de objetivos: uma
Cognição análise funcional baseada no conceito
de metacontingências.
21

Sobre 17 1 A dor e a delícia de ser um


Comportamento e psicoterapeuta: considerações sobre o
Cognição impacto da psicoterapia na pessoa do
profissional de ajuda.
Clínica analítico- 1 1 Considerações sobre valores pessoais
comportamental: e a prática do psicólogo clínico.
aspectos teóricos
e práticos.
Fonte: Elaborada pela autora desta pesquisa.

4.3 ANÁLISE DOS DADOS

Conforme descrito no item anterior, os materiais selecionados foram lidos


integralmente. Em seguida, alguns textos foram excluídos por não atenderem a
todos os critérios previamente definidos para a presente pesquisa. Na sequencia,
realizou-se outra leitura dos materiais, com o objetivo de identificar impactos na
pessoa do terapeuta. Para tanto, foram considerados impactos os comportamentos
do terapeuta na sessão que estivessem sob controle da relação terapêutica ou
variáveis do atendimento em si.
Após a identificação dos impactos, para a apresentação dos resultados de
cada material selecionado, foi feito breve resumo sobre o objetivo de cada trabalho,
os impactos mencionados em cada um, bem como, utilizados recortes dos materiais,
que exemplificassem os impactos do atendimento no terapeuta.
Na sequência, para facilitar visualização dos impactos, os dados foram
agrupados em uma tabela, com os autores de cada texto utilizado nesta pesquisa, o
tipo de cada estudo (estudo teórico, pesquisa de revisão de literatura ou pesquisa
empírica,) e os seus respectivos objetivos e impactos no terapeuta. Posteriormente,
os dados foram analisados e categorizados de acordo com suas características em
comum. Com isso, verificou-se que os impactos no terapeuta podem ser
comportamentos operantes e respondentes, tanto públicos - como respostas de
fuga/esquiva - quanto privados - como valores, sentimentos e emoções.
22

5 RESULTADOS

Neste capítulo serão apresentados os estudos, cujos conteúdos estão


relacionados aos impactos do atendimento clínico no terapeuta. A descrição dos
trabalhos se restringirá ao tema desta pesquisa, isto é, informações que não estejam
relacionadas aos impactos no terapeuta não serão incluídas. Para facilitar a
compreensão do assunto, também foram utilizados trechos das pesquisas que
continham exemplos ou dados de outros estudos. É pertinente salientar que o termo
"impacto" não foi utilizado em todos os estudos encontrados, desta forma, optou-se
por manter o termo original de cada pesquisa para se referir aos comportamentos do
terapeuta durante a sessão.
Em um estudo teórico, Santos & Abreu-Rodrigues (2002) abordaram o
conceito de valor como um tipo especial de metacontingência (classe de
comportamentos, que individualmente fazem parte de contingências mais
específicas, que, no entanto, possuem uma consequência em comum em longo
prazo), que pode contribuir para o processo psicoterapêutico do cliente, tanto na
adesão ao tratamento pelo cliente, quanto à manutenção e generalização dos
comportamentos desejados o seu ambiente natural. Durante o estabelecimento dos
objetivos clínicos, são considerados os valores do terapeuta e do cliente (SANTOS;
ABREU-RODRIGUES, 2002).
De acordo com Santos & Abreu-Rodrigues (2002), algumas vezes, ocorre
um desacordo de ambas as partes sobre quais comportamentos do cliente devem
mudar e quais devem permanecer. Esta discordância pode estar relacionada à
diferença de valores, uma vez que, eles (valores) são resultantes de comunidades
verbais com as quais as pessoas se relacionam. Deste modo, terapeuta e cliente
podem apresentar valores diferentes, devido às suas histórias de aprendizagem, que
muitas vezes são conflitantes durante o estabelecimento dos objetivos clínicos.
Quando isso ocorre é importante que o terapeuta explicite seus valores, pois estes
interferirão na tomada de decisões do terapeuta, além disso, o silêncio do terapeuta
pode ser interpretado pelo cliente como uma concordância para o seu
posicionamento (SANTOS; ABREU-RODRIGUES, 2002).
23

Para exemplificar a diferença de valores entre terapeuta e cliente, Santos &


Abreu-Rodrigues (2002) apresentaram o caso de um jovem de 24 anos,
homossexual, que atribuía à sua condição sexual os tremores na mão direita, a
timidez, o medo de críticas, dificuldades acadêmicas e problemas interpessoais. O
cliente expressou desejo de mudar de orientação sexual, pois acreditava que se
tornar heterossexual resolveria seus problemas. O terapeuta apresentou objetivos
diferentes para a terapia, por questões de valores pessoais e por ser impedido pelo
Conselho Federal de Psicologia para oferecer tal serviço. Após expor estas
questões, terapeuta e cliente estabeleceram outros objetivos clínicos, como
entender a homossexualidade; responder assertivamente a críticas; expressar
desejos, críticas, pedidos e opiniões de forma assertiva; saber distinguir seus
próprios desejos daquilo que é socialmente esperado que ele faça e saber avaliar a
adequação desses desejos (SANTOS; ABREU-RODRIGUES, 2002).
Na pesquisa de revisão de literatura sobre psicoterapia, que incluiu
pesquisas empíricas e pesquisas teóricas, realizada por Falcone (2006), a autora
pretendeu apontar algumas fontes de estresse para o terapeuta, bem como, propor
sugestões que auxiliem o clínico na condução de seu trabalho, visando com isso à
redução do impacto negativo da profissão no profissional, o fortalecimento da
relação terapêutica e a promoção do crescimento pessoal do terapeuta (FALCONE,
2006).
Os resultados da busca de Falcone (2006) indicaram diversas
consequências emocionais da condição de terapeuta, entre elas estão dificuldades
de relacionamento, depressão, abuso de substâncias, tentativas de suicídio,
estresse, irritabilidade, esgotamento físico e emocional, despersonalização,
interferência da atividade profissional na vida pessoal. Como fontes para estes
prejuízos experimentados pelo terapeuta, foram identificadas as condições de
trabalho, comportamentos dos clientes, questões pessoais do terapeuta e demandas
da Terapia Cognitivo-Comportamental (FALCONE, 2006).
No que se refere às condições de trabalho, Falcone (2006) indicou
pesquisas, cujos resultados revelaram que terapeutas que atendem pacientes
traumatizados tornam-se vulneráveis ao estresse, depressão e se sentem aliviados
quando estes pacientes cancelam as sessões. Além disso, a intensa carga horária
de atendimentos e o isolamento do profissional em seu local de trabalho, também
são fatores que contribuem para as condições desfavoráveis da profissão,
24

enfrentadas pelos terapeutas. Quanto aos comportamentos do cliente que provocam


sentimentos negativos no terapeuta, são apontados os comportamentos agressivos
ou hostis, intensa dependência, resistência à mudança, comportamento sedutor,
faltas, atrasos, pagamento irregular, entre outros (FALCONE, 2006).
No que diz respeito à pessoa do terapeuta, as pesquisas encontradas por
Falcone (2006) apontaram algumas características pessoais encontradas em
terapeutas mais estressados, as quais incluem sentir-se responsável pelo bem-estar
do cliente; baixa autoestima; dúvidas sobre a eficácia da terapia; inabilidade para
estabelecer limites na relação com o cliente; dificuldade em lidar com as resistências
do paciente, devido às suas crenças religiosas, culturais e familiares, pessoais.
Também foram apresentados pelas pesquisas, os sentimentos negativos
experimentados pelo terapeuta, como medo de o paciente cometer suicídio; medo
da piora do paciente; medo de ser processado pelo cliente; raiva do paciente que
não é cooperativo; raiva de pacientes que telefonam entre as sessões; atração
sexual pelo paciente; sentimentos de inferioridade em relação ao cliente; culpa ou
medo da raiva do paciente (FALCONE, 2006).
A última fonte de prejuízos apresentada por Falcone (2006) foi a relacionada
a Terapia Cognitivo-comportamental. Esta abordagem teórica apresenta algumas
características e procedimentos – diretividade, estruturação das sessões, solução de
problemas, reestruturação de pensamentos disfuncionais, papel ativo por parte do
terapeuta e do paciente; definição de metas e adesão às tarefas de autoajuda – aos
quais alguns pacientes, considerados difíceis, não respondem bem. Quando isto
ocorre, o terapeuta fica estressado, pois de um lado é pressionado pelas demandas
da terapia e pela preocupação com a eficácia do tratamento e por outro tem que
lidar com a hostilidade ou a resistência do cliente às suas intervenções (FALCONE,
2006).
A autora apresentou ainda em sua pesquisa, os efeitos positivos decorrentes
da prática psicoterapêutica. Alguns destes efeitos foram descritos como o aumento
da autoestima, aumento da autoconsciência, elevação da sensibilidade e da
assertividade, sentimento de felicidade em relação à prática profissional e aos
relacionamentos interpessoais (FALCONE, 2006).
No estudo teórico realizado por Banaco (1993) o autor objetivou analisar
teoricamente a contribuição dos comportamentos privados na determinação dos
comportamentos públicos do terapeuta e do cliente durante a sessão, bem como,
25

sua influência na qualidade do atendimento. Banaco apontou que frequentemente o


desempenho profissional e uma boa relação terapêutica têm sido atribuídos a
habilidades e características do terapeuta, as quais são observáveis e podem ser
treinadas, por meio de regras, modelagem ou modelação. Contudo, outras respostas
do terapeuta também têm sua importância na qualidade do atendimento, mas por
serem encobertas, são mais difíceis de serem discriminadas, descritas e controladas
pelo clínico.
De acordo com Banaco (1993), os eventos encobertos, além de serem
importantes para realização da análise funcional dos comportamentos do cliente e a
discriminação das variáveis das quais seu comportamento (cliente) é função,
também podem auxiliar o terapeuta (por meio da identificação dos impactos que o
cliente lhe provoca durante a sessão) a analisar as contingências presentes na
sessão que são semelhantes àquelas do ambiente natural do cliente. O autor aponta
alguns temas ou situações que provocam os impactos na pessoa do terapeuta, por
exemplo, os valores morais, éticos, religiosos diferentes do terapeuta; identificação
com o problema do cliente; desrespeito por parte do cliente, acompanhado de
sentimentos e comportamentos agressivos; erros na interpretação e/ou condução da
sessão, provocando sentimentos de frustração e pensamentos negativos,
concorrentes aos comportamentos adequados para a sessão; inveja da situação do
cliente, tendendo à agressão (BANACO, 1993).
Além de estarem relacionados ao comportamento do cliente, os impactos do
atendimento podem ocorrer também em relação ao atendimento em si, por exemplo,
o primeiro atendimento do terapeuta. Neste caso, durante o atendimento o
comportamento expresso de atender pode concorrer com encobertos do tipo
lembrar-se das regras e ouvir o que cliente diz, ou ainda, sentir-se ansioso e
frustrado, por não emitir determinado desempenho com o cliente. Banaco (1993)
afirmou que qualquer emoção muito forte que o terapeuta sinta durante a sessão,
pode indicar que a história pessoal do clínico está competindo por atenção no
momento inadequado, podendo prejudicar o trabalho do profissional (BANACO,
1993).
O autor Zamignani (2000), em um estudo teórico, discorreu sobre a Terapia
Analítico-Comportamental e algumas características do trabalho do clínico desta
abordagem teórica. Uma parte do trabalho do terapeuta é baseada na análise dos
relatos do cliente, sugerindo-lhe formas de alteração das relações que estabelece.
26

Outra parte é baseada na relação terapêutica, que propicia ao terapeuta, enquanto


parte do ambiente do cliente, apresentar contingências que possam desenvolver um
repertório no cliente propício ao estabelecimento de relações menos aversivas.
Desta forma, para que a relação terapêutica leve à mudanças no repertório do
cliente, é necessário que o terapeuta atue como uma audiência não-punitiva
(ZAMIGNANI, 2000).
Segundo Zamignani (2000), apesar de emitir comportamentos não punitivos
em sessão, o terapeuta não é uma pessoa neutra, ele possui aspectos em sua
história pessoal que podem levá-lo a responder aos comportamentos do cliente de
forma diferenciada. O autor apresentou trechos de pesquisas que buscaram
compreender as variáveis envolvidas na determinação dos comportamentos do
terapeuta. Algumas destas pesquisas focaram sua análise nos comportamentos
encobertos do terapeuta durante o atendimento.
O autor Zamignani (2000) citou um estudo, no qual foram identificados
sentimentos de raiva no terapeuta frente aos comportamentos de esquiva da cliente,
que podem ser verificados com a fala do terapeuta para o supervisor: "(...) Então
peraí, eu fico até meio brava (...) ela fica se esquivando, se esquivando, isso vai me
dando uma coisa de 'p...se expõe mulher', entendeu? Então acho que foi meio pra
isso que eu fiz essa intervenção..." (p. 237). Já em outra pesquisa citada, é possível
identificar sentimentos de impotência no terapeuta, por exemplo, no seguinte trecho:
“(...) Eu sentia um aperto no peito. Fiquei muito chateada (...) De achar que eu não
posso fazer nada. De achar que realmente...coitada. (...) e pensar assim: o que eu
vou fazer com isso?” (p. 239). (ZAMIGNANI, 2000).
Em uma pesquisa teórica, Banaco, Zamignani & Kovac (1999) realizaram
uma revisão de literatura em psicoterapia, visando abordar a importância dos
comportamentos encobertos na Terapia Analítico-Comportamental. Foram
apresentados dados de pesquisas, cujos objetivos foram investigar a partir de
relatos verbais, os comportamentos encobertos de terapeutas durante a sessão. Em
uma dessas pesquisas, foram gravadas as sessões de alguns terapeutas e
identificadas algumas reações por eles apresentadas durante os atendimentos em
grupo e individuais (BANACO, ZAMIGNANI & KOVAC, 1999).
Foi citado ainda por Banaco, Zamignani e Kovac (1999) o trecho de uma
pesquisa em que se pretendeu verificar se os comportamentos encobertos faziam
parte das variáveis que controlam o comportamento do terapeuta durante a sessão.
27

O trecho em questão aborda os comportamentos de um terapeuta durante a


realização de um grupo, no qual um dos clientes começou a falar por um período de
tempo longo, o que contribuiu para a dispersão dos outros participantes. O terapeuta
relatou para os pesquisadores (citados na pesquisa de BANACO, ZAMIGNANI E
KOVAC, 1999) que se sentiu aflito e que estava perdendo o controle do
atendimento, queria dar atenção para o que a pessoa estava falando, mas ao
mesmo tempo não podia perder o restante do grupo. Começou então a falar 'hum
hum', 'tudo bem', 'tá bom' e a pessoa continuou falando, o terapeuta ficou irritado e
tentou demonstrar de outra forma, como não resolveu, interrompeu a fala do
paciente e se virou para outra pessoa(BANACO, ZAMIGNANI; KOVAC, 1999).
Os autores Wielewicki, Silveira e Costa (2007), em uma pesquisa empírica
do tipo estudo de caso, pretenderam identificar, por meio do relato de cinco
terapeutas comportamentais (identificadas pelas letras A, B, C, D e E), algumas
situações-problema que ocorreram com elas (participantes) na relação com clientes.
Os dados foram coletados por meio de entrevistas, nas quais as terapeutas
deveriam relatar situações com seus clientes que consideraram não possuir uma
resposta eficaz em seu repertório (WIELEWICKI, SILVEIRA; COSTA, 2007).
As informações obtidas foram distribuídas por Wielewicki, Silveira e Costa
(2007) em nove categorias: I. Cliente aproxima-se do terapeuta de modo indevido; II.
Cliente contesta verbalmente o terapeuta após feedback; III. Cliente descrente da
psicoterapia; IV. Cliente pondo sua própria vida em risco ou a de terceiros; V. Cliente
provoca choro no terapeuta com seu relato; VI. Cliente chora copiosamente na
sessão; VII. Cliente relata ter sofrido abuso sexual; VIII. Intervenção em intervalo
determinado na vida do cliente; IX. Cliente não apresenta condições de cuidar-se.
Entre as respostas apresentadas pelas terapeutas para lidar com estas situações
foram descritos: o distanciamento do cliente, encaminhando para outro profissional
ou se comportando de maneira mais formal em sessão; exposição de seu
desconforto para o cliente; ignorar o comportamento do cliente; alertar a família, no
caso de risco morte do paciente ou de terceiros; dificuldade em intervir no caso, por
conta de um despreparo pessoal (em relação à categoria VIII, quando a cliente
estava aguardando o resultado de exame anti-HIV) (WIELEWICKI, SILVEIRA;
COSTA, 2007).
Na pesquisa empírica de estudo de caso de Braga e Vandenberghe (2006),
foram verificadas diferentes funções da relação terapêutica no processo de terapia.
28

Os dados foram obtidos por meio da transcrição de diálogos de sessões de uma


terapeuta e dois terapeutas-estagiários. Os resultados indicaram três funções
diferentes para a relação terapêutica (estas funções serão apenas citadas, somente
serão aprofundados os resultados que indicam impactos do atendimento no
terapeuta, tendo em vista que este é o objetivo desta pesquisa): 1)Contexto
facilitador da intervenção; 2) Estratégia de intervenção em si; 3) Via de mão
dupla(BRAGA; VANDENBERGHE, 2006).
No item 2, Braga e Vandenberghe (2006) apontaram que a relação
terapêutica pode ser utilizada como estratégia de intervenção pelo terapeuta no caso
clínico. Para exemplificar este tópico, os autores expuseram o caso de uma cliente
que apresentava dificuldades em manter relacionamentos amorosos e falava
excessivamente, dificultando as intervenções por parte da terapeuta. Diante dos
comportamentos da cliente, a terapeuta discriminou que se sentia cansada e irritada
após as sessões. A partir desta discriminação, a terapeuta orientou a cliente a
observar seus comportamentos no seu ambiente natural e os impactos que eles
causavam nas pessoas. Em uma sessão posterior, a cliente relatou para a terapeuta
que observou seu comportamento, porém, continuou a apresentar o mesmo padrão
durante a sessão, falava sem parar, mudava de assunto diversas vezes.
Novamente a terapeuta interveio e expôs para a cliente o que estava
sentindo: Terapeuta - “será que este falar muito que você descreveu acontece da
mesma forma que está acontecendo agora comigo?” e continuou “(...) Você
começou a responder, mas logo mudou de assunto, falou um monte de coisas,
interessantes, mas que não estavam dentro do assunto proposto; tentei sinalizar, dar
pistas, mas você não olhava para mim, em meu rosto, em meus olhos” e questionou
a cliente sobre o que ela achava que a terapeuta estava sentindo. Terapeuta afirmou
“Verdade, não senti prazer. Fiquei cansada. Deu até vontade de não estar aqui. Será
que esse comportamento causa esta mesma sensação nas outras pessoas com
quem convive lá fora?” (BRAGA; VANDENBERGHE, 2006).
No que se refere ao item 3, Braga & Vandenberghe (2006) discutiram o caso
de uma cliente que se queixava de sentimento de inadequação, solidão, vazio, medo
e ao mesmo tempo emitia respostas de se vangloriar, humilhar a terapeuta, usar
roupas extravagantes e sedutoras, que comparecia às sessões apenas para ajudar
a terapeuta. A cliente se atrasava e faltava constantemente e no período de férias
não compareceu à sessão de encerramento do semestre. A terapeuta ligou e deixou
29

recado, mas não obteve retorno da cliente, após algum tempo a terapeuta ligou
novamente e a cliente demonstrou querer continuar com a terapia, pois estava
sofrendo. Diante deste desejo da cliente, a terapeuta expôs: T. “Pensei que não
queria mais fazer terapia, que não estivesse gostando (...), me senti até incomodada
em estar ligando para você”, cliente respondeu: C. “Fiquei pensando que vocês não
queriam mais me atender” e a terapeuta respondeu: T.“(...) Você pensou que eu iria
te abandonar e me abandonou primeiro”. Esta experiência provocou na terapeuta
um sentimento de rejeição da cliente e que depois foi analisada como uma situação
funcionalmente semelhante às outras estabelecidas pela cliente. A terapeuta falou
para a cliente que queria a ajudar, mas a sentia como uma ameaça e tinha receio de
que ela pudesse lhe prejudicar profissionalmente (BRAGA; VANDENBERGHE,
2006).
A pesquisa empírica de estudo de caso realizada por Sartori (2014) visou
expor a experiência de supervisão de uma terapeuta em formação, cujo cliente
apresentava padrões de comportamentos agressivos. Os dados foram coletados,
por meio do relato verbal das sessões da terapeuta com o cliente, em sessões de
supervisão semanais, das quais participavam um total de cinco alunos. A queixa do
cliente era a de comportamentos agressivos, como brigas e ameaças que fazia a
outras pessoas. Durante as sessões, o cliente desqualificava os conhecimentos da
terapeuta, o que tornou os atendimentos altamente aversivos para a terapeuta,
provocando-lhe alguns efeitos respondentes e operantes, como: comportamentos de
fuga-esquiva da terapeuta para abordar assuntos ou situações que confrontassem
e/ou desagradassem o cliente; comportamentos de fuga/esquiva sob a forma de
ocultação de informações relevantes durante a supervisão; respondentes de
ansiedade, como ruborização da face e sudorese, tanto nos atendimentos, quanto
nas supervisões; relatos verbais de esquiva ao cliente, como torcer para o cliente
faltar às sessões (SARTORI, 2014).
Conforme Sartori (2014), durante as supervisões, a terapeuta foi instruída a
não fugir/esquivar dos comportamentos do cliente, assim como, a bloquear as
fugas/esquivas realizadas pelo cliente por meio de comportamentos agressivos. A
terapeuta passou a expor seu desconforto para o cliente, por exemplo, o cliente
deixou um recado no Facebook da terapeuta e perguntou se ela havia visto. A
terapeuta respondeu: “Vi. (silêncio). Não respondi por que o face é para meu uso
pessoal, prefiro não misturar as coisas. Além disso, o comentário foi um pouco
30

ofensivo, então preferi nem responder” (p. 105). Em outra interação com o cliente, a
terapeuta também se expôs: “(...). aqui pra mim você relata com uma hostilidade tão
grande, que eu não o imagino falando de outra forma para a sua mãe, ainda mais
diante de tudo o que aconteceu. (...). Esta hostilidade já é algo tão natural que você
não percebe, e isso só vai dificultando a relação entre você e sua família” (p. 105). A
partir das mudanças nas respostas da terapeuta, o cliente obteve avanços no
processo terapêutico, ficando mais sensível às consequências de seus
comportamentos (SARTORI, 2014).
Na pesquisa empírica descritiva do tipo estudo de caso, realizada por
Kameyama (2012), foi investigada a interação terapêutica durante alguns
atendimentos de quatro terapeutas, identificadas como T1, T2a, T2b e T3. Com isso,
visou verificar os sentimentos negativos experimentados pelos participantes da
pesquisa durante as sessões com os seus clientes, assim como, mudanças
ocorridas ao longo do processo terapêutico, nas respostas apresentadas pelos
terapeutas em relação aos comportamentos dos clientes que eliciaram estes
sentimentos negativos.
A coleta dos dados ocorreu por meio de gravações em vídeo das sessões e
questionários pós-sessão preenchidos pelos terapeutas ao final de cada sessão.
Somente as sessões em que apareciam os sentimentos negativos no terapeuta,
foram categorizadas. Os dados indicaram que os sentimentos negativos eliciados na
terapeuta T1 em decorrência dos comportamentos do cliente em diferentes sessões,
foram raiva, tristeza e medo. A terapeuta T2a apresentou sentimento de raiva em
uma das sessões e a T2b sentiu medo, raiva e tristeza em diferentes sessões. A
terapeuta T3 relatou os sentimentos de culpa, vergonha, raiva, tristeza em diferentes
sessões (KAMEYAMA, 2012).
Em um estudo teórico realizado por Banaco (1997), o autor objetivou
apresentar exemplos que efetivamente ocorreram em sua prática clínica, para
complementar o texto que escreveu em 1993, denominado “O impacto do
atendimento sobre a pessoa do terapeuta”, assim como, analisar as contingências
que estavam controlando seus comportamentos nas situações relatadas e se seus
comportamentos nestas situações foram adequados ou não (BANACO, 1997).
Para tanto, Banaco (1997) discorreu sobre alguns atendimentos e os
sentimentos intensos por ele experimentados nestas situações. Iniciou falando sobre
a ansiedade e insegurança, bem como a curiosidade e fascínio sentidos em seu
31

primeiro atendimento na clínica-escola da PUC-SP. Em seguida, descreveu


situações nas quais sentiu medo do julgamento do cliente sobre seu trabalho, medo
de perder o cliente, por exemplo, durante o atendimento de um garoto que falou
sobre o comportamento do terapeuta de focalizá-lo o tempo todo (o cliente) ou ainda
medo físico, quando um cliente levou uma faca para a sessão, para mostrar ao
terapeuta o presente que daria para a mãe (BANACO, 1997).
Na sequência, Banaco (1997) escreveu sobre o sentimento raiva,
exemplificando com sessões de três pacientes. O primeiro é um garoto de 12 anos,
forçado a fazer terapia, que começou a repetir tudo o que ele dizia. Frente a estes
comportamentos, o terapeuta mandou o cliente embora da sessão e se sentiu
envergonhado por seu descontrole. No segundo caso de raiva mencionado, Banaco
agrediu verbalmente o cliente, um garoto de 15 anos que sentia vergonha da mãe
por esta ser manicure. Após relatar essa situação em supervisão, percebeu que se
tratava de uma diferença entre seus valores e os do cliente. O terceiro cliente, um
jovem de 18 anos, apresentava comportamentos de desfeita de pessoas pobres, do
consultório do terapeuta e também comportamentos agressivos. Banaco refletiu se o
sentimento que sentia estava relacionado à sua história pessoal e qual era a função
do comportamento do cliente. Com isso, apesar de sentir muita raiva, o terapeuta
conseguiu controlar seus sentimentos e conduzir as sessões com o cliente da
melhor forma (BANACO, 1997).
32

6 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS

Neste capítulo, serão realizadas as análises e discussões dos impactos do


atendimento clínico na pessoa do terapeuta, encontrados pela presente pesquisa.
Os resultados da busca anteriormente apresentados, foram agrupados e podem ser
visualizados na tabela a seguir.

Tabela 3 – RESUMO DOS TRABALHOS QUE COMPÕEM OS RESULTADOS DA


PESQUISA
TEXTO (TITULO e AUTOR) TIPO DO OBJETIVO DO IMPACTOS NO
ESTUDO ARTIGO TERAPEUTA
APRESENTADOS NO
TEXTO
Valores do terapeuta e do Estudo Discutir o conceito de Valores do terapeuta
cliente no estabelecimento de teórico valor como um tipo diferentes dos valores
objetivos: uma análise especial de meta- do cliente.
funcional baseada no conceito contingência e suas
de metacontingências. contribuições para a
(SANTOS; ABREU- adesão, manutenção e
RODRIGUES, 2002). generalização dos
comportamentos do
cliente.
A dor e a delícia de ser um Revisão Apontar fontes de Estresse; depressão;
psicoterapeuta: considerações de estresse para o abuso de substâncias;
sobre o impacto da literatura terapeuta e propor tentativas de suicídio;
psicoterapia na pessoa do sugestões que auxiliem irritabilidade; alívio
profissional de ajuda. o clínico na condução quando o paciente
(FALCONE, 2006). do atendimento falta; medo; raiva;
atração sexual;
sentimento de
inferioridade; culpa;
aumento da
autoestima; aumento
da autoconsciência;
elevação da
sensibilidade e
assertividade;
sentimento de
felicidade.
O impacto do atendimento Estudo Analisar teoricamente a Sentimentos de
sobre a pessoa do terapeuta. teórico contribuição dos frustração;
(BANACO, 1993). comportamentos pensamentos
privados na negativos; ansiedade;
determinação dos concorrência do
comportamentos comportamento de
33

públicos do terapeuta e atender com


do cliente e a influência encobertos do tipo
destes eventos na lembrar-se de regras e
qualidade do ouvir o cliente.
atendimento
O caso clínico e a pessoa do Estudo Discorrer sobre a História pessoal do
terapeuta: desafios a serem teórico Terapia Analítico- terapeuta; raiva;
enfrentados. Comportamental e sentimento de
(ZAMIGNANI, 2000). sobre algumas impotência.
características do
trabalho do profissional
desta abordagem.
O estudo de eventos privados Revisão Abordar a importância Aflição; sentimento de
através de relatos verbais de de dos comportamentos perda de controle do
terapeutas. literatura encobertos na Terapia atendimento; irritação.
(BANACO; ZAMIGNANI; Analítico-
KOVAC, 1999). Comportamental.
Problemas enfrentados por Pesquisa Identificar situações-Distanciamento do
terapeutas analítico- empírica problema queterapeuta em relação
comportamentais em sua ocorreram na interação ao cliente; sensação
prática clínica. de cinco terapeutas de desconforto;
(WIELEWICKI; SILVEIRA; comportamentais com ignorar o
COSTA, 2007) seus clientes. comportamento do
cliente; despreparo
pessoal.
Abrangência e função da Pesquisa Apresentar diferentes Cansaço; irritação;
relação terapêutica na terapia empírica funções para a relação vontade de não estar
comportamental. terapêutica. na sessão com a
(BRAGA; VANDENBERGHE, cliente; desprazer;
2006). sentimento de
rejeição; ameaça.
O papel da supervisão na Pesquisa Expor a experiência de Fuga-esquiva da
formação de terapeutas empírica supervisão de uma terapeuta; ansiedade;
comportamentais: estudo de terapeuta em ruborização da face;
caso. formação, cujo cliente sudorese.
(SARTORI, 2014). apresentava padrões
comportamentais
agressivos.
Intervenções sobre Pesquisa Verificar os Raiva; tristeza; medo;
comportamentos de clientes empírica sentimentos negativos culpa; vergonha.
que produzem sentimentos experimentados pelos
negativos no terapeuta. terapeutas
(KAMEYAMA, 2012). participantes da
pesquisa e as
mudanças ocorridas
nos comportamentos
dos terapeutas ao
longo dos
atendimentos
O impacto do atendimento do Estudo Apresentar exemplos Ansiedade,
atendimento sobre a pessoa do teórico de sua prática clínica, insegurança,
terapeuta 2: experiências de analisar as curiosidade, fascínio,
vida. contingências que medo, raiva;
(BANACO, 1997). estavam controlando vergonha; agressão.
34

seu comportamento
nas situações relatadas
e se seus
comportamentos foram
adequados ou não.
Fonte: Elaborada pela autora desta pesquisa.

A partir dos resultados, verificou-se que os impactos do atendimento na


pessoa do terapeuta se apresentam de diferentes formas. Isto posto, os dados foram
reunidos de acordo com suas semelhanças, em duas categorias: 1) aspectos
metodológicos; 2) Impactos – tipos de comportamento do terapeuta sob controle das
variáveis do atendimento, a qual se subdivide em valores, sentimentos/emoções e
comportamentos de fuga/esquiva.

6.1 ASPECTOS METODOLÓGICOS

A comparação dos resultados demonstra que dos dez (10) estudos


encontrados, quatro (4) são estudos teóricos, no quais os autores discorrem sobre
um tema (SANTOS; ABREU-RODRIGUES, 2002; BANACO, 1993; ZAMIGNANI,
2000; BANACO, 1997), dois (2) consistem em pesquisas teóricas, do tipo revisão de
literatura (FALCONE, 2006; BANACO; ZAMIGNANI; KOVAC, 1999) e quatro (4) são
pesquisas empíricas (WIELEWICKI; SILVEIRA; COSTA, 2007; BRAGA;
VANDENBERGHE, 2006; SARTORI, 2014; KAMEYAMA, 2012). Isso indica que
estudos que demonstrem empiricamente os comportamentos do terapeuta na
relação com o cliente, ainda são pouco realizados ou de acesso limitado, pois
algumas pesquisas que tratam do tema “impactos no terapeuta”, estão em língua
estrangeira ou em base de dados científicos restritas.
Essa ausência de estudos relativos ao tema da pesquisa pode estar
relacionada, conforme apontado por Conte & Brandão (1999), à demora da Terapia
Analítico-Comportamental em considerar a importância da relação terapêutica para o
processo de terapia. Isso pode ter interferido também nos estudos que envolvem a
pessoa do terapeuta, considerando que foi somente após a relação terapêutica
35

assumir posição de maior destaque, que o terapeuta também passou a ser uma
variável importante no processo de mudança do cliente.

6.2 IMPACTOS - TIPOS DE COMPORTAMENTO DO TERAPEUTA SOB


CONTROLE DAS VARIÁVEIS DO ATENDIMENTO

Foram considerados impactos, os comportamentos do terapeuta na sessão


que estivessem sob controle da relação terapêutica ou variáveis do atendimento em
si. Deste modo, os impactos podem estar relacionados tanto aos comportamentos
do cliente, emitidos na relação com o terapeuta, conforme encontrados em alguns
resultados da presente pesquisa (ZAMIGNANI, 2000; BANACO; ZAMIGNANI;
KOVAC, 1999; SANTOS; ABREU-RODRIGUES, 2002; BANACO, 1993; BRAGA;
VANDENBERGHE, 2006; SARTORI, 2014; WIELEWICKI; SILVEIRA; COSTA; 2007;
KAMEYAMA, 2012; BANACO, 1997; FALCONE, 2006), quanto às características do
atendimento em si, tal como apresentado por Banaco (1993; 1997) em relação aos
sentimentos do terapeuta decorrentes do primeiro atendimento e por Falcone (2006),
acerca dos impactos decorrentes da profissão de terapeuta.
A partir dos dados, verificou-se que os impactos na pessoa do terapeuta se
apresentam como valores, sentimentos/emoções e comportamentos de fuga/esquiva
do terapeuta, conforme descritos a seguir.

6.2.1 Valores

Alguns impactos do atendimento na pessoa do terapeuta podem estar


relacionados à diferença de valores, crenças religiosas, culturais e familiares entre
cliente e o profissional, que surgem durante a sessão, como pode ser observado em
alguns resultados da presente pesquisa (BANACO, 1997; SANTOS; ABREU-
RODRIGUES, 2002; FALCONE, 2006). De acordo com Otero (2012), a atuação
clínica do psicoterapeuta pode trazer lembranças de sua história pessoal, as quais
36

podem ser de experiências agradáveis ou não. Estas experiências modelam os


conceitos e preconceitos de uma pessoa, portanto, o clínico é produto de sua
história de vida, em sua atuação age conforme seus valores, sentimentos, conceitos
e preconceitos (OTERO, 2012).
Esta influência da história pessoal do terapeuta em sua atuação pode ser
visualizada nos resultados desta pesquisa. No estudo de Banaco (1997), o autor
relatou que após agredir verbalmente o cliente, discriminou que se comportou desta
forma na sessão, devido à diferença entre seus valores e o do cliente. Por sua vez,
no estudo de Santos & Abreu-Rodrigues (2002), a discordância entre valores do
terapeuta e do cliente, resultou na mudança dos objetivos da psicoterapia. Deste
modo, ao invés de mudar de orientação sexual, os objetivos clínicos visaram maior
conhecimento do cliente sobre a homossexualidade e o treinamento de habilidades
sociais, como ser mais assertivo na expressão de opiniões, críticas e desejos e
distinguir seus próprios desejos daqueles esperados socialmente (SANTOS;
ABREU-RODRIGUES, 2002).
Para alguns autores (VELASCO; CIRINO, 2002; VILLANI, 2002) as metas e
objetivos da terapia devem ser estabelecidos de modo conjunto pelo terapeuta e
cliente, e serem periodicamente reavaliadas, podendo sofrer alterações durante o
processo psicoterapêutico, conforme as mudanças nas contingências presentes na
relação terapêutica. Segundo Kerbauy (2001), é vantajoso o terapeuta expressar
para o cliente que possui valores diferentes dos dele e esclarecer que existem
limitações, mas que irão trabalhar em conjunto para realizar os objetivos do cliente.
Para Villani (2002) quem irá efetivamente decidir o que será trabalhado é o cliente,
de modo algum os valores do terapeuta devem sobrepor os do cliente. O profissional
deve estar apto para lidar com as diferenças individuais, sem tentar transformá-las
em algo semelhante às suas convicções (VILLANI, 2002).
Nesse sentido, o terapeuta deve estar atento às variáveis que controlam seu
comportamento, reconhecendo suas dificuldades e limitações e encaminhando o
cliente para outro profissional, caso perceba que não possui condições de trabalhar
com determinados valores e que os seus valores pessoais podem atrapalhar o
processo do cliente (VILLANI, 2002; KERBAUY, 2001).
Diante do exposto, no que diz respeito aos valores, o impacto do
atendimento no terapeuta ocorre quando há uma diferença entre os valores pessoais
do profissional e do cliente, o que pode interferir no processo terapêutico do cliente
37

ou acarretar dificuldades no manejo clínico por parte do terapeuta. Observou-se que


o manejo destes impactos pode ser feito de diferentes formas. Para alguns autores,
o terapeuta deve expor para o cliente que possui valores diferentes e buscar definir
de modo conjunto (terapeuta e cliente) os objetivos clínicos. Já outros reconhecem
que o terapeuta não é uma pessoa neutra, contudo, ele não deve permitir que seus
valores prevaleçam, mas sim os do cliente. Também é possível ao terapeuta
encaminhar o cliente para outro profissional, quando os valores do cliente são muito
difíceis de serem trabalhados pelo clínico. De qualquer modo, para que o terapeuta
possa manejar a situação de alguma forma, antes é preciso que ele esteja atento e
discrimine os impactos que o atendimento lhe provoca.

6.2.2 Sentimentos/emoções

Com base nos estudos selecionados pela presente pesquisa, verificou-se


que os impactos no terapeuta são bastante frequentes no que diz respeito aos
sentimentos/emoções. Estes estudos indicam que os sentimentos mais
apresentados pelos profissionais durante os atendimentos foram a raiva e o medo.
Do total (10) de estudos que compuseram os resultados da presente pesquisa,
quatro (4) (ZAMINGNANI, 2000; KAMEYAMA, 2012; BANACO, 1997; FALCONE,
2006) mencionaram a raiva como um sentimento observado pelos terapeutas
durante as sessões.
Em relação ao medo, ele também foi apresentado em quatro (4) dos dez
(10) estudos selecionados para esta pesquisa. Na pesquisa de Kameyama (2012),
três terapeutas das quatro participantes relataram sentir medo durante os
atendimentos. Em outro estudo, uma das terapeutas sentia a cliente como uma
ameaça e tinha receio de que ela a prejudicasse profissionalmente (BRAGA;
VANDENBERGHE, 2006). No trabalho elaborado por Banaco (1997), o autor relatou
o medo de diferentes situações, por exemplo, medo de o cliente não retornar, medo
de ser julgado pelo cliente ou medo físico, quando um cliente lhe mostrou uma faca
durante a sessão. Já em Falcone (2006), o medo de o cliente cometer suicídio é
apresentado como um dos sentimentos do terapeuta.
38

Outros sentimentos do terapeuta, brevemente mencionados nos estudos,


foram a ansiedade, frustração, inveja, vergonha, insegurança, irritabilidade,
impotência, aflição, tristeza, sentimento de rejeição, desprazer, cansaço,
inferioridade, atração sexual, estresse, culpa (BANACO, 1993; BANACO, 1997;
BANACO; ZAMIGNANI; KOVAC, 1999; ZAMINGNANI, 2000; BRAGA;
VANDENBERGHE, 2006; FALCONE, 2006; KAMEYAMA, 2012; SARTORI, 2014).
Nesse sentido, percebe-se que os sentimentos dos terapeutas, apesar de
serem bastante diversificados, são frequentemente experienciados pelos
profissionais na interação com o cliente. Essa informação é consonante com a
literatura (VILLANI, 2002; VELASCO; CIRINO, 2002; OTERO, 2012), que afirma que
o terapeuta não é uma pessoa neutra, pois além de ter seu comportamento
controlado por determinadas contingências de reforço presentes na sessão, também
possui sua atuação clínica constituída pelos seus repertórios pessoal e profissional.
Alguns autores apontam para a importância desta discriminação por parte do
terapeuta. Ao identificar seus sentimentos/emoções, o terapeuta pode verificar se as
contingências da sessão são semelhantes às de sua história pessoal ou
compreender melhor quais estímulos discriminativos o cliente fornece na relação
com as pessoas (VELASCO; CIRINO, 2002; OTERO, 2012; DELITTI, 1993; CONTE;
BRANDÃO, 1999).
O conhecimento por parte do terapeuta acerca de seus sentimentos e as
variáveis que os estão controlando, poderá influenciar no processo terapêutico,
conforme observado em alguns resultados (BRAGA; VANDENBERGHE, 2006;
BANACO, 1997) do presente estudo. No estudo de Braga & Vandenberghe (2006), a
terapeuta percebeu que se sentia cansada e irritada após as sessões com uma
cliente. Frente a esta discriminação, ela optou por expor seus sentimentos para
cliente e a questionou se seus comportamentos não causavam o mesmo impacto
nas pessoas com quem se relacionava.
Esta influencia no processo terapêutico também pode ser observada no
estudo de Banaco (1997), no qual o terapeuta, após refletir sobre seus sentimentos
durante determinados atendimentos, percebeu que seus valores eram diferentes dos
do cliente e que os comportamentos do cliente em sessão eram funcionalmente
semelhantes aos que apresentava em seu ambiente natural. Essa discriminação
auxiliou o terapeuta a controlar seus sentimentos e oferecer o melhor atendimento
para o cliente em questão. Com base no exposto, os sentimentos e emoções são
39

importantes aspectos presentes na relação terapêutica e sua discriminação pode


contribuir para uma condução mais adequada e efetiva por parte do terapeuta.
Percebeu-se ainda, que os sentimentos e emoções do terapeuta podem ser
visíveis ao cliente – seja por expressão voluntária ou não do terapeuta. Incluem-se
entre estas respostas, os comportamentos respondentes como a sudorese,
ruborização da face, choro (SARTORI, 2014; BANACO, 1997; WIELEWICKI;
SILVEIRA; COSTA; 2007), ou operantes. No que diz respeito aos comportamentos
operantes, notou-se que muitos terapeutas expuseram para o cliente, via relato
verbal, aquilo que sentiram durante o atendimento, como valores diferentes dos do
cliente, o cansaço e o desprazer em relação ao atendimento e desconforto quanto
ao comportamento do cliente (SANTOS-ABREU-RODRIGUES, 2002; BRAGA;
VANDENBERGHE, 2006; SARTORI, 2014; WIELEWICKI; SILVEIRA; COSTA;
2007).
Também se verificou que a maioria dos resultados do presente trabalho (8
de um total de 10) apresenta apenas impactos negativos no clínico. Tais como
frustração, pensamentos negativos, ansiedade, raiva, sentimento de impotência,
aflição, sentimento de perda de controle do atendimento, irritação, desconforto,
cansaço, desprazer, sentimento de rejeição, ameaça, tristeza, culpa, vergonha,
insegurança, agressividade e respondentes como sudorese e ruborização da face
(BANACO, 1993; ZAMIGNANI, 2000; BANACO; ZAMIGNANI; KOVAC, 1999;
WIELEWICKI; SILVEIRA; COSTA, 2007; BRAGA; VANDENBERGHE, 2006;
SARTORI, 2014; KAMEYAMA, 2012; BANACO, 1997). Destes resultados, destaca-
se o estudo de Banaco (1997), pois apesar de o próprio autor ter mencionado no
texto que abordou somente os impactos negativos do atendimento, verificou-se que
no item Ansiedade, foram citados dois impactos positivos, a curiosidade e o fascínio.
Quanto aos resultados que apresentam impactos positivos, somente o
estudo de Falcone (2006) apontou que o atendimento clínico pode trazer benefícios
para o profissional e citou o aumento da autoestima e sensibilidade do terapeuta,
felicidade em relação à prática profissional e relacionamentos interpessoais,
abertura do terapeuta e mudança nas crenças. Já o estudo de Santos & Abreu-
Rodrigues (2002), encontrado na busca da presente pesquisa, fala apenas sobre a
diferença de valores do terapeuta e do cliente, não definindo se essas diferenças
são positivas ou negativas.
40

Partindo do exposto, nota-se que, apesar de a maioria dos impactos do


atendimento ser negativos, o terapeuta optou por expor para o cliente o que estava
sentindo. Tal postura do terapeuta se contrapõe a um dos aspectos apontados pela
literatura, o de que o terapeuta deve ser cordial com o cliente, devendo demonstrar
uma atitude de aceitação, apoio, interesse e compreensão para com o cliente, pois
esses comportamentos irão contribuir para o estabelecimento de uma boa relação
terapêutica. Portanto, sua postura na relação com o cliente deve ser de não
julgadora e não-punitiva, pois é a qualidade dessa relação que determinará o
processo terapêutico do cliente (VILLANI, 2002; VELASCO; CIRINO, 2002; CONTE;
BRANDÃO, 1999).
Percebe-se que apesar de atuarem como uma audiência punitiva para os
comportamentos do cliente, os terapeutas obtiveram resultados com seus
comportamentos, como a mudança dos comportamentos dos clientes ou dos
objetivos clínicos na terapia. Esta mudança pode estar relacionada ao fato de o
terapeuta ter utilizado a relação terapêutica para realizar a intervenção. Conforme
Silveira (2007), o terapeuta analista do comportamento utiliza a relação terapêutica
como um dos principais instrumentos de trabalho clínico, indo muito além da
aplicação de técnicas e procedimentos para influenciar os comportamentos do
cliente (SILVEIRA, 2007). Isso evidencia a importância da pessoa do terapeuta para
a relação terapêutica e também de este estar atento para os seus sentimentos na
sessão, tendo em vista que eles contribuirão para o processo de mudança do
cliente.

6.2.3 Comportamentos de fuga/esquiva

Outro impacto do atendimento na pessoa do terapeuta presente nos


resultados desta pesquisa é o comportamento de fugir ou se esquivar de variáveis
relacionadas ao atendimento ou à relação terapêutica. Este aspecto pode ser
observado na pesquisa de Braga & Vandenberghe (2006), na qual a terapeuta expôs
para a cliente que não sentiu prazer em ouvi-la, ficou até “com vontade de não estar
ali”. Na pesquisa de Sartori (2014), a terapeuta se comportou de modo a evitar falar
41

sobre assuntos ou situações que confrontassem o cliente, ocultava da supervisora


informações sobre o atendimento e emitia relatos verbais de esquiva, como torcer
para o cliente faltar. Estes comportamentos também podem ser verificados na
pesquisa de Wielewicki, Silveira & Costa (2007), na qual apontam que entre as
respostas das terapeutas para lidar com situações difíceis está o distanciamento do
cliente, seja encaminhando para outro profissional ou se comportando de modo mais
formal na sessão.
Verifica-se que, assim como o terapeuta deve ser uma audiência não-
punitiva para o cliente, a literatura (VILLANI, 2002; VELASCO; CIRINO, 2002;
KLEINE apud VIEIRA, 2004; GARFIELD apud IRENO, 2007) aponta outras
inúmeras habilidades que o terapeuta deve possuir para estabelecer uma boa
relação terapêutica, como a empatia, o apoio, habilidade de diretividade e controle,
demonstrar interesse pelos conteúdos do cliente, ouvir atentamente, enfim, diversas
habilidades técnicas que preconizam o atendimento e o acolhimento do cliente. São
escassas as habilidades que privilegiam o terapeuta.
Tal ausência de habilidades pode ser interpretada como pouca valorização
dos sentimentos do terapeuta para o processo psicoterapêutico e exigência de
aceitação total do cliente. Isto é, apesar de o cliente emitir comportamentos
altamente aversivos para o terapeuta, conforme apontado em alguns resultados
desta pesquisa (BRAGA; VANDENBERGHE, 2006; SARTORI, 2014; WIELEWICKI,
SILVEIRA & COSTA, 2007), ele deve ser um profissional apto para lidar com
diversas situações, independentemente daquilo que o cliente lhe provoca.
42

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A relação terapêutica tem sido considerada importante fator de mudança


para o processo terapêutico do cliente. No entanto, frequentemente, os estudos
nesta área tem se dedicado em estudar somente o cliente e/ou sua relação com o
terapeuta. Poucos trabalhos focalizam a pessoa do terapeuta e como ele é afetado
pela relação com o cliente ou pelo atendimento.
Destes trabalhos que se concentram no terapeuta, muitos apontam as
habilidades técnicas necessárias para o bom desempenho profissional e o
estabelecimento da relação com o cliente. Ainda são escassos os estudos que
valorizem o terapeuta enquanto uma pessoa dotada de uma história de
reforçamento, que afeta e é afetado pelo atendimento ou pelo cliente. Isso foi
demonstrado por esta pesquisa, que por meio de uma revisão de literatura
encontrou somente dez trabalhos que discorressem sobre o modo como o terapeuta
é impactado pelo atendimento.
Com base nestes resultados, alguns impactos do atendimento no terapeuta
foram identificados nos estudos, deste modo, esta pesquisa atingiu o objetivo a que
se propôs inicialmente, que era o de identificar os impactos provocados pelo
atendimento clínico na pessoa do terapeuta. Verificou-se que os impactos podem
ser provenientes tanto da relação terapêutica quanto do atendimento em si. Estes
comportamentos podem ser públicos ou privados, tanto operantes como
respondentes. Os impactos foram identificados nos estudos como comportamentos
relacionados aos seus valores, sentimentos, emoções, pensamentos e
comportamentos de fuga/esquiva.
No que se refere aos valores, foi verificado nos resultados, que alguns
terapeutas expuseram para o cliente que possuíam valores diferentes, mas mesmo
assim, buscaram definir juntos os objetivos da terapia. A literatura aponta diferentes
formas de manejo desta situação. Para alguns autores o terapeuta pode optar por
definir de modo conjunto com o cliente os objetivos da terapia. Outros concordam
que ambos devem trabalhar em conjunto, contudo, os valores do terapeuta não
devem se destacar em relação ao do cliente. Outra forma de manejar a situação de
discordância de valores é o encaminhamento do cliente para outro profissional.
43

Em relação aos impactos que se apresentaram como sentimentos e


emoções durante a sessão, foram identificados de modo prevalente, o medo e a
raiva. E de forma menos freqüente, foram identificados a ansiedade, frustração,
inveja, vergonha, insegurança, irritabilidade, impotência, aflição, tristeza, sentimento
de rejeição, desprazer, cansaço, inferioridade, atração sexual pelo cliente, estresse,
culpa, curiosidade, fascínio, aumento da autoestima e da autoconsciência, elevação
da sensibilidade e assertividade e sentimento de felicidade. A partir destes
resultados, observou-se que nos estudos que tratam dos impactos na pessoa do
terapeuta, prevalecem os impactos negativos. Apenas um estudo, de um total de
dez analisados, fala sobre os benefícios do atendimento clínico para o
psicoterapeuta.
Também foi observado por meio da análise dos dados, que muitos
terapeutas expõem – voluntariamente ou não – para o cliente aquilo que sentem
durante a sessão. Com isso, acabam agindo de modo diferente do proposto pela
literatura, de que o terapeuta não deve punir os comportamentos do cliente.
No que se refere aos impactos como comportamentos de fuga/esquiva,
verificou-se que alguns terapeutas apresentam estes comportamentos na interação
com o cliente. Alguns autores apontam diversas habilidades necessárias para o bom
desempenho do terapeuta, entre elas habilidades de aceitação, apoio, empatia pelos
conteúdos do cliente. Observa-se com isso, que a pessoa do terapeuta ainda não
possui muito destaque e também que deve aceitar o cliente, independentemente
daquilo que o cliente provoca no terapeuta.
A análise dos dados também permitiu verificar a importância da
discriminação dos impactos por parte do terapeuta. Esta discriminação pode
interferir no processo terapêutico do cliente, na medida em que, o terapeuta poderá
verificar se eles dizem respeito à sua história pessoal ou aos estímulos
discriminativos fornecidos pelo cliente quando interage com as pessoas,
influenciando desta forma, na tomada de decisão pelo clínico. Esta importância foi
confirmada por alguns textos que compuseram os resultados, nos quais a
discriminação feita pelo terapeuta influenciou na atuação dos mesmos, contribuindo
para mudanças nos comportamentos dos clientes.
Esses dados demonstram que outras habilidades estão envolvidas na
relação terapêutica, além daquelas apontadas pela literatura com maior prevalência
(habilidade de aceitação, empatia, ouvir atentamente, ser cordial com o cliente,
44

demonstrar apoio, interesse e compreensão, entre outras). A presente pesquisa


possibilitou verificar que poucos textos mencionam o cuidado do terapeuta consigo
mesmo, e aqueles que apontam, como o autoconhecimento em Mahoney (1998
apud ALVAREZ; SILVEIRA, 2002), não o fazem com muita especificidade. O
autoconhecimento propicia ao terapeuta se auto-observar, facilitando desta forma, a
discriminação daquilo que o cliente lhe provoca e, por conseguinte a tomada de
decisão no tratamento do cliente. Esta habilidade, tão importante para atuação do
clínico, pode ser desenvolvida por meio da supervisão clínica, na qual outro
profissional auxilia na discriminação das variáveis presentes na relação terapêutica,
ou através do processo de terapia do próprio terapeuta.
Isto posto, constata-se que o atendimento clínico provoca diversos impactos
no terapeuta, isso evidencia que este profissional não é uma pessoa neutra, mas
sim um humano, que possui uma variedade de sentimentos e valores que o
acompanham durante os atendimentos. Estes aspectos devem ser levados em
conta, para que o clínico possa discriminar e verificar como lidar com isso, seja
mudando suas atitudes, seja expressando para o cliente. Com isso, é notória a
necessidade de realização de pesquisas voltadas para a pessoa do terapeuta, uma
vez que, ele é parte do ambiente do cliente e interfere diretamente no processo de
terapia. Deixar de considerar o terapeuta na relação e no processo psicoterapêutico,
é ir contra um dos pressupostos básicos do Behaviorismo Radical, de que o homem
é um ser ativo, que age no mundo, produzindo alterações no ambiente, que por sua
vez, afetam novamente os comportamentos do homem.
45

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