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Se é verdade que o principal legado de Freud foi a fundamentação de um método de

cura o qual, falando para o outro, um homem encontra alívio à dor e à angústia, também
é certo que a psicanálise inovou, de forma radical e irreversível, o modo de se refletir e
pensar a cultura. Fonte inesgotável de sentidos diversos sobre a vida e a morte, as
múltiplas vozes
dessa figura — a cultura — serviram de matéria-prima à elaboração da teoria freudiana,
durante um período em que quase todos os aspectos da vida social e das idéias sofriam
grandes transformações no Ocidente.
Na esteira dessas mudanças, o mestre de Viena abandona a clássica concepção de uma
divisão entre psicologia individual e psicologia coletiva, colocando-as no mesmo espaço
de esclarecimento. De acordo com sua experiência clínica, passou a considerar como
fenômeno social toda e qualquer atitude do indivíduo em relação ao outro: a experiência
subjetiva, objeto privilegiado do trabalho analítico, implica, necessariamente, a
referência do sujeito ao outro (pais, irmãos, pessoa amada, analista etc.) e à linguagem
(Outro) que o determina simbolicamente. No plano do coletivo, a vida social apenas
apresenta unidades cada vez mais amplas, sempre obedientes às mesmas leis que
marcam o indivíduo.
A abordagem dos fenômenos psíquicos assim formalizada descortinou uma outra
oposição: o conflito entre vida social e os processos de não reconhecimento do outro,
chamados narcísicos. Sob esse novo registro, Freud afirmou a prática psicanalítica como
a especificidade de sua invenção, ao mesmo tempo em que, levando as conseqüências
da
descoberta do inconsciente até o fim, estendia seu entendimento aos sintomas e ao mal-
estar da coletividade humana. Assim, rapidamente ele começou a construir um
complexo instrumental teórico sobre cultura, totalmente articulado com as bases do
saber psicanalítico, para o qual o fato de a “outra cena” (expressão utilizada por Freud
para designar o inconsciente) se apresentar como individual ou coletiva não tem
qualquer importância conceitual.
Ao longo da história do movimento psicanalítico, embora esse princípio tenha sido
inúmeras vezes abandonado — quando alguns analistas cuidaram de reduzir a
psicanálise a uma simples psicologia individual, tendo como horizonte de trabalho o
sonho de adaptar o eu à sociedade —, sabe-se que ele impõe ao psicanalista o destino de
tornarse um crítico da cultura que testemunha. No entanto, para desenvolver plenamente
a capacidade de empreender questionamentos contundentes e avaliações críticas
confiáveis sobre os fenômenos coletivos, sem correr o risco de gerar apenas
interpretações psicanalíticas selvagens e estereotipadas, é preciso sempre navegar na
direção do inefável da experiência clínica. Essa é a garantia e o suporte do perpétuo vir-
a-ser do saber psicanalítico e de sua transmissão.
Este livro pretende, dentro dos limites que lhe são impostos, oferecer um mapa dos
esforços de Freud em identificar as manifestações do inconsciente fora do âmbito da
clínica, na leitura dos fenômenos e sintomas culturais que mais chamaram atenção e
mereceram sua aguda reflexão crítica. Espera-se, com isso, que o leitor possa apreender
os efeitos subversivos do legado freudiano diante de um mundo que caminha, cada vez
mais, na direção do apagar das diferenças e da homogeneização perversa e obscena.
Regidos por um narcisismo que ultrapassa o essencial à manutenção da vida, esses
fenômenos vêm impondo maciçamente valores absolutos e autodevoradores à
civilização, o que requer do analista abraçar com convicção seu lugar na cultura.

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