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Meus aprendizados na Formação em Psicanálise – Parte 1

Comentários sobre o artigo “A cura pela fala” de Waleska Pessato Farenzena Fochesatto

1. Trecho livremente adaptado: Reviver um acontecimento traumático através da fala pode


fazer com que a pessoa consiga liberar as energias vitais que haviam ficado presas naquelas
experiências passadas.

Minha reflexão: Por isso a importância do que eu chamo de “reparo emocional” quando a
gente retoma situações desagradáveis vividas pelas crianças e conversa sobre aquilo, ouve
como aquilo tudo ficou para a criança, faz a mediação da criança com a pessoa em questão (se
houver)... Isso pode fazer com que a criança consiga elaborar o fato e liberar as energias que
teriam ficado presas ali sem essas falas.

2. Trecho livremente adaptado: Com o caso de Anna O., pela primeira vez na história, foi dado
à paciente (no caso com histeria) o direito de usar a palavra.

Minha reflexão: Minha mente já fez um paralelo com as crianças. Talvez estejamos
presenciando um tempo em que, pela primeira vez na história, estejamos dando às crianças o
direito de usar a palavra. Porque até a minha geração “criança não tem que querer nada” era a
norma vigente.

3. Trecho livremente adaptado: Freud rompeu com a medicina colocando o saber no paciente.
Eram as pacientes que forneciam a ele o que constituíam os sintomas, e não o contrário.

Minha reflexão: Isso combina muito com os estudos que tenho feito sobre saúde, sobre causa
emocional das doenças e sobre colocar o protagonismo da cura no indivíduo que está com a
doença e não apenas no médico/remédio.

4. Trecho livremente adaptado: - Quando Freud passou a ouvir o paciente e não apenas olhá-
lo, subverteu a ordem médica, já que outra história era escutada além daquela que os
pacientes contavam.

Minha reflexão: Se entendermos que o corpo que manifestou a doença também tem o poder
de encontrar a cura, a “leitura” que o próprio paciente faz das suas dores e das suas
enfermidades é o principal a ser considerado e não só os aspectos físicos e biológicos que os
médicos estudam. Só olhar e não ouvir os pacientes pode ser um grande desperdício do poder
curativo. Aliás, as doenças sempre vêm para nos “dizer” alguma coisa. Apenas olhar e curar a
manifestação da doença sem ouvi-la e compreendê-la pode fazer com que ela volte ou que
outra doença se manifeste na tentativa de ser entendida e atendida. Quando fugimos do nosso
caminho de vida feliz ficamos mais propensos a ficarmos doentes. Essas doenças vêm nos
avisar que nos desviamos do caminho e que precisamos reencontrá-lo.

5. Trecho livremente adaptado: Ao acessar conteúdos inconscientes através da fala, o paciente


tem a oportunidade de tomar contato com o que Freud chamou de força atuante da
representação não ab-reagida. Ao permitir que o “afeto estrangulado” encontre uma saída
através do discurso, esta representação é submetida a uma nova cadeia associativa. Assim, o
efeito curativo é um afeto dissociado da ideia original recalcada. E é exatamente a
ressignificação deste afeto que a fala possibilita. Quando a reação é reprimida, o afeto
permanece vinculado à lembrança.
Minha reflexão: Uma parte da nossa energia vital fica presa nas situações negativas que
vivemos e não resolvemos internamente. Quando podemos falar sobre isso que foi vivido com
alguém que nos ajude a olhar de forma diferente para essa experiência, liberamos a energia
vital que estava nos prendendo àquela vivência mal resolvida no passado. Isso geralmente
envolve liberar perdão a alguém. Ou manifestar a raiva que não pôde ser expressa.

6. Trecho livremente adaptado: Quando a reação ocorre em grau suficiente, grande parte do
afeto desaparece e esse é o resultado do processo terapêutico realizado através da fala. A
linguagem serve como substituta da ação, ou seja, com a ajuda da linguagem, um afeto pode
ser “ab-reagido” quase com a mesma eficácia que uma vingança, por exemplo.

Minha reflexão: Imagina quando pais e mães souberem disso e ajudarem às suas crianças a se
utilizarem do poder da fala para irem liberando suas energias vitais que ficassem presas diante
de qualquer vivência indesejada logo após sua ocorrência? Imagina um mundo em que a
conversa é usada para cura e não para envergonhar, constranger, punir, humilhar e afastar as
crianças de nós, ou pior ainda, para afastar as crianças de si mesmas.

7. Trecho livremente adaptado: Por meio da fala, é dada ao paciente a oportunidade de se


conectar com ideias recalcadas que produzem os sintomas atuais. Assim, ele passa a ter uma
nova compreensão desta memória. Supõe-se que, na medida em que o paciente mantém
ideias recalcadas de eventos ligados ao passado, este passado torna-se presente, uma vez que
é constantemente atualizado através dos sintomas. Quando a reação é reprimida, o afeto
permanece ligado à lembrança e produz o sintoma.

Minha reflexão: A chance de falar, com a condução de alguém preparado para nos guiar nesse
processo, sobre os fatos mal resolvidos da nossa vida, da nossa história faz com que
consigamos reescrever tudo isso mentalmente – como na técnica de mudança de história
pessoal da Programação Neurolinguística – e alivia as dores, sintomas e doenças que poderiam
estar sendo mantidas por conta dessa energia vital que estava presa. Ter uma nova
compreensão de nossas memórias e do que aconteceu conosco pode ser curativo e libertador.
Dar um significado ou um sentido – como fez Viktor Frankl – às nossas dores e sofrimentos
pode fazer da doença a nossa própria cura, pode fazer da nossa maior dor o encontro da nossa
missão de vida, pode fazer do nosso sofrimento a nossa maior força.

8. Trecho livremente adaptado: “... uma ofensa revidada, mesmo que apenas com palavras, é
recordada de modo bem diferente de outra que teve que ser aceita” (Freud)

Minha reflexão: Poder falar sobre o que não lhe caiu bem faz o registro dessa situação ser mais
leve. Quando à criança é permitido falar e manifestar o que gosta e o que não gosta, o que
quer e o que não quer ela cresce mais livre e mais potente sem tanta energia vital aprisionada
em situações vividas no modo “goela abaixo”.

9. Trecho livremente adaptado: A descoberta do inconsciente trouxe um descentramento do


sujeito do registro da consciência e do eu. O inconsciente seria “um lugar” desligado da
consciência. Isso provoca uma transformação da relação do homem consigo mesmo. Esse
‘descentramento’, de acordo com o próprio Freud, já havia ocorrido de 3 maneiras diferentes
na história moderna: 1) A primeira, através da Copérnico, que deslocou como centro do
universo o homem (Terra), em torno do qual giravam, até então, o sol, a lua e os planetas. 2) A
segunda, por meio da reestruturação de Darwin das concepções biológicas vigentes, as quais
estabeleciam para o homem uma posição distinta dos animais, acima e separado deles por
ordem divina. 3) A terceira forma e a mais perturbadora foi efetuada pela psicanálise,
descentrando o homem de si mesmo, “solapando a ilusão de identidade entre consciência e
mente”.

Minha reflexão: Talvez seja essa a razão de tanta resistência em muitas pessoas de se
aproximar da Psicanálise, da terapia e de processos de autoconhecimento e de
autodesenvolvimento: medo de não ser mais dono de si. Quando a gente entende que há
muito mais dentro da gente mesmo ou sobre nós mesmos do que temos consciência, isso nos
dá a falsa ideia de que assim perdemos o controle. Ocorre que é exatamente o contrário: ao
assumirmos que não sabemos muito sobre nós mesmos e iniciarmos os caminhos de busca de
compreensão e entendimento de como somos, sentimos, funcionamos e reagimos,
começamos a viver com uma parte maior de nós no nível consciente o que aumenta nosso
autocontrole e nossa possibilidade de realmente escolher os nossos comportamentos e não
apenas sermos vítimas de reações que não queríamos mas não conseguimos evitar ou de
reações que gostaríamos de ter e acabamos por paralisar por termos aquelas energias vitais
aprisionadas em situações mal resolvidas trancafiadas a 7 chaves em nosso inconsciente que
não admitimos mexer por medo de perdermos o controle. Mas que controle? A descoberta do
inconsciente nos vulnerabiliza. Nos tira do centro do controle e do poder. Nos humaniza e nos
convida à humildade.

10. Trecho livremente adaptado: Freud escreveu: “o ego não é amo em sua própria morada” e,
buscando se apropriar da sua morada, a psicanálise dá lugar às palavras e vai além delas,
buscando aquilo que é dito, mas, também, aquilo que é não dito. As palavras falam de algo
que o sujeito quer falar e, também, daquilo que ele quer esconder. Assim, a escuta em
Psicanálise não é qualquer escuta. O psicanalista se propõe a escutar o que não ouve, ir além
do que se vê, escutando o conflito, o sofrimento humano.

Minha reflexão: Por que lembramos de algumas coisas e esquecemos de outras? Algumas
coisas são dolorosas demais para nós então a mente joga para o esquecimento do
inconsciente. Por que, quando vamos falar de um evento no passado, a forma como nos
lembramos pode ser muito diferente da forma que outro participante do mesmo evento se
lembra? Cada um usa seus próprios filtros, não é? Por que esquecemos um compromisso se
quase nunca esquecemos nada? Será que todas as partes de nós desejavam ir? Por que as
palavras saem agressivas justo com nossa criança a quem tanto amamos? Seria esse ser amado
o culpado por alguma perda nossa? São tantas perguntas... (Lembrou do Show da Luna?) “Tem
muito mais coisas entre o céu e a terra do que pensa nossa vã filosofia”, escreveu Shakspeare
e eu proponho a adaptação “tem muito mais coisas entre o inconsciente e o consciente do que
pensa nossa mais potente ideia”. Há um universo inteiro a ser descoberto no interior de cada
pessoa. É por isso que, tendo feito a primeira graduação em Turismo, eu digo que a viagem
mais fascinante ainda é a que fazemos para dentro de nós mesmos.

11. Trecho livremente adaptado: Nos primeiros momentos da cena de abertura de Hamlet,
escuta-se um som vindo da escuridão fora dos muros do palácio. O guarda indaga, “Quem está
aí?” Como um acorde dissonante inicial de uma obra musical, a pergunta, “Quem está aí?”
reverbera sem solução através de toda obra. E não é, justamente, esta questão que atravessa
e constitui o processo de análise? Não importa se estamos na posição de paciente ou de
analista, “quem está aí?”

Minha reflexão: Não importa se estamos no lugar de mãe ou no lugar da criança, quando
temos um pouquinho de consciência expandida para saber o quanto não sabemos de nós e de
nossos filhos, para sempre caberá a pergunta: “quem está aí?” Aliás, se escolas e professores
olhassem para as crianças com o intuito de “descobri-las” perguntando-se “quem está aí” mais
do que com a intenção de formá-las ordenando “presta atenção aqui”, provavelmente o
engajamento dos estudantes com as escolas seria outro e o resultado dos anos de estudo não
seriam tantas pessoas sem saber o que desejam fazer da sua vida, o que as realiza, o que as faz
feliz, em que são realmente boas... Você não tem ideia do número de pais e mães que me
procuram porque suas crianças não querem ir à escola. “Quem está aí?”

12. Trecho livremente adaptado: Klein postulou que a análise de crianças era possível,
inaugurando a técnica do brincar como ferramenta de escuta do inconsciente infantil.

Minha reflexão: Temos aí mais uma explicação do motivo pelo qual brincar com a criança faz
com que criemos conexão com ela, faz com que conheçamos melhor o que vai dentro dela,
ajuda-nos a descobrir o que ficou para ela de uma experiência vivida. Muitos pais me
perguntam: “Será que minha criança sofreu com aquilo?” Brinque com ela, crie situações de
faz-de-conta e fantasia e perceba... O que ela traz? Como ela traz? Que emoções isso desperta
nela? Como sempre digo: A brincadeira é o idioma da criança.

13. Trecho livremente adaptado: Que lugar ocupa a Psicanálise num contexto cada vez mais
imediatista, no qual a singularidade é cada vez menos considerada? Parece-me claro que
vivemos numa época onde o sujeito que sofre não tem lugar social.

Minha reflexão: Leia este trecho novamente trocando a palavra “Psicanálise” e a palavra
“sujeito” pela palavra “criança” – Que lugar ocupa a criança num contexto cada vez mais
imediatista, no qual a singularidade é cada vez menos considerada? Parece-me claro que
vivemos numa época onde a criança que sofre não tem lugar social. – E não é verdade? Nosso
imediatismo desrespeita as crianças. Nossa pressa as atropela. Nosso modo acelerado de vida
tem feito mal às crianças e a nós mesmos. As comparações que fazemos entre nossas crianças
e seus irmãos, primos, vizinhos e amigos podem até ser úteis para identificar algo que precisa
de intervenção mas precisa ter muito cuidado para dar lugar à singularidade, ao
temperamento e ao jeito de ser da criança. Antes de buscar ajudar a criança a se melhorar em
algum aspecto é muito importante validá-la em seu jeito de ser. E a criança que sofre? Aquela
que dá trabalho? A criança que desencaixa dos padrões e modelos vigentes? Para essa
precisamos olhar com gratidão. Sim. Ela é o nosso portal de cura e evolução. Ela nos faz parar e
questionar o modo vigente. Ela é a que manifesta de maneira mais visível coisas que fazem mal
a muitas outras. Não devemos calá-la com medicamentos e terapias, devemos ouvi-la, buscar
entendê-la e atendê-la em sua necessidade. Quando o mundo for melhor para ela, certamente
será melhor para todos.

14. Trecho livremente adaptado: é preciso aceitar o desafio de ressignificar as perdas,


compreender que somos capazes de morrer várias vezes em vida e renascer num processo de
re-invenção de nós mesmos.

Minha reflexão: Autoconhecimento é isso... É ser humilde para admitir o quanto não sabemos
e forte para nos percebermos fracos. É ser inteligente para dar novos significados a perdas e
dores. É ter fé para morrer e renascer mais potente várias vezes numa mesma vida evoluindo
sem limites.

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