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FACULDADE NOVA ROMA

CURSO: BACHARELADO EM DIREITO

LEONARDO SANTOS DE LIRA

CAUSAS SUPRALEGAIS DE EXTINÇÃO DE PUNIBILIDADE

RECIFE
2020
LEONARDO SANTOS DE LIRA

CAUSAS SUPRALEGAIS DE EXTINÇÃO DE PUNIBILIDADE

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharel no Curso de
Direito pela Faculdade Nova Roma – FGV

Orientador: Prof. Dr. Martorelli Dantas

RECIFE
2020
LEONARDO SANTOS DE LIRA

CAUSAS SUPRALEGAIS DE EXTINÇÃO DE PUNIBILIDADE

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharel no Curso de
Direito pela Faculdades Nova Roma – FGV.

Aprovado em: ___ /_____/_______

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________________
Nome, titulação, assinatura e instituição a que pertence

__________________________________________________
Nome, titulação, assinatura e instituição a que pertence

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Nome, titulação, assinatura e instituição a que pertence
RESUMO: O objetivo deste trabalho é estudar as causas supralegais de extinção de
punibilidade. O Estado é detentor exclusivo do dever de punir. A punibilidade é a
consequência do crime, ou seja, quando se pratica o fato típico, ilícito e culpável
aquele comportamento descrito na lei em abstrato. O art. 107 do Código Penal prevê
as causas de extinção de punibilidade. No entanto, seu rol, é
meramente exemplificativo. Desse modo, subsistem outras causas de extinção da
punibilidade antevisto tanto no Código Penal, quanto na Legislação Penal
Extravagante. Admitem-se ainda outras causas de extinção da punibilidade não
previstas em lei, vale dizer admitem-se causas supralegais de extinção da
punibilidade, tema deste trabalho. Para analisar a temática se analisará incialmente a
extinção de punibilidade, verificando-se o dever do estado de punir e a teoria geral da
extinção de punibilidade, com a finalidade de expor contextualiza-la. Por último
estudar-se-á as causas extintivas de punibilidade, finalizando-se pelo objeto do
trabalho, ou seja, as cláusulas supralegais.

Palavras-chave: Excludente de Penalidade, Direito Penal, Direito Processual Penal.


2

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 3
2. PENA E PUNIBILIDADE......................................................................................... 4
2.1 Função da Penal .................................................................................................. 4
2.2 Punibilidade ......................................................................................................... 6
3 BREVES APONTAMENTOS SOBRE A PUNIBILIDADE NO DIREITO PENAL
BRASILEIRO .............................................................................................................. 8
3.1 O Dever do Estado de Punir ............................................................................... 8
3.2 Teoria Geral da Extinção de Punibilidade ....................................................... 11
4. CAUSAS DE EXTINÇÃO DE PUNIBILIDADE E AS CAUSAS SUPRALEGAIS . 13
4.1 Causas de Extinção de Punibilidade ............................................................... 13
4.2 Causas Supralegais .......................................................................................... 17
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 20
REFERÊNCIAS......................................................................................................... 21
3

1 INTRODUÇÃO

Em nosso ordenamento jurídico, somente o Estado é detentor do direito de


impor sanções aos indivíduos que cometem crimes. Em algumas situações o Estado
perde o direito de iniciar ou prosseguir com a persecução penal, estas situações são
caracterizadas pelas causas de extinção da punibilidade.
De acordo com o professor Gulherme de Souza Nucci:

A extinção da punibilidade é o desaparecimento da pretensão punitiva ou


executória do Estado, em razão de específicos obstáculos previstos em lei,
por razões de política criminal.

Em suma, é a perda da pretensão do Estado de punir o agente autor de fato


típico e ilícito, ou seja, é a perda do direito de impor a sanção penal.
As circunstâncias objetivas de punibilidade são as condições reais à conduta
criminosa, não contida no elemento subjetivo, outrossim, estão fora do tipo penal,
tornando-se condições para punir. São causas extrínsecas ao fato delituoso, não
cobertas pelo dolo do agente.
Em face a legislação penal, codificada no Decreto-Lei 2.848/40, o rol do Art.
107 elenca de modo meramente exemplificativo como causas de extinção da
punibilidade:

I - pela morte do agente;


II - pela anistia, graça ou indulto;
III - pela retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso;
IV - pela prescrição, decadência ou perempção;
V - pela renúncia do direito de queixa ou pelo perdão aceito, nos crimes de
ação privada;
VI - pela retratação do agente, nos casos em que a lei a admite;
IX - pelo perdão judicial, nos casos previstos em lei.

Os incisos VII e VIII propunham de grosso modo, a extinção da punibilidade


advindos pelo casamento da vítima com o réu. No entanto estes dispositivos foram
revogados pela Lei N.º 11.106/05.
As causas de extinção da punibilidade estão espalhadas no ordenamento
jurídico brasileiro. Para analisar a temática se analisará incialmente a extinção de
punibilidade, verificando-se o dever do estado de punir e a teoria geral da extinção de
punibilidade, com a finalidade de expor contextualiza-la. Por último estudar-se-á as
3

causas extintivas de punibilidade, finalizando-se pelo objeto do trabalho, ou seja, as


cláusulas supralegais.

2. PENA E PUNIBILIDADE

2.1 Função da Pena

O estudo da finalidade da pena pode turbar-se com o emprego do Direito Penal.


Portanto, é imperativo entender qual a finalidade do Direito Penal.
O Direito Penal, na qualidade de tutelar e proteger os bens mais importantes e
imprescindíveis a manutenção da sociedade, ou, a proteção de bens jurídicos, o bem
da vida, tem como preceito norteador o princípio da intervenção mínima, ou ultima
ratio, o seu principal lastro para a sua aplicabilidade enquanto as demais esferas do
direito, comprovadamente, não forem suficientes na tutela dos suprarretratados bens.
Outrossim, o princípio da reserva legal determina que, as prévias definições das
infrações penais devem preexistir ao ato praticado pelo agente, além de estar em
perfeito alinhamento a magna-carta, o tipo criminal deve ser taxativo. Em outras
palavras, o texto legal deve ser preciso sendo-lhe vedado a instituição de tipos penais
que contenham conceitos vagos ou imprecisos, para a correta aplicação da pena
criminal.
Embora o ordenamento jurídico-penal brasileiro não disponha de forma
expressa especificamente sobre a função da pena, tendo ficado a cargo da doutrina
fazê-lo, definindo sua natureza, finalidade, etc., o Código Penal brasileiro, em seu
artigo 59, prevê que as penas deverão ser necessárias e suficientes à reprovação e
prevenção do crime. Ou seja, a pena aplicada deverá servir como um resultado justo
entre o mal praticado, a conduta realizada pelo agente e a prevenção contra futuros
atos ilícitos, atentando-se sempre ao respeito aos direitos de personalidade e à
dignidade humana do condenado.1
O professor Fernando Capez, traz a exposição do conceito de pena:

Conceito de pena: sanção penal de caráter aflitivo, imposta pelo Estado, em


execução de uma sentença, ao culpado pela prática de uma infração penal,

1 O perdão judicial como causa extintiva da punibilidade criminal/ Ana Luiza de Oliveira Silva Alves. Rio
de Janeiro: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Bacharel em Direito, 2014. 65 f.
6

consistente na restrição ou privação de um bem jurídico, cuja finalidade é


aplicar a retribuição punitiva ao delinquente, promover a sua readaptação
social e prevenir novas transgressões pela intimidação dirigida à
coletividade.2

Neste contexto, tem-se como noção da pena, a perda, diminuição ou restrição


de um bem jurídico, imposta pelo Estado ao autor de um ilícito penal visando, com
isto, a garantia de ordem social.
Parte majoritária nos ensina que a pena deverá ser um mal para aquele que
delinque, e deve ser aquela certa quantidade de mal que o legislador reconhecer
suficiente para proteger o direito, sem exceder a proporção com a quantidade das
respectivas formas delituosas; E é nesta linha de raciocínio que surge o
retribucionismo como sendo a configuração da proporcionalidade entre a pena e o
crime cometido.
As finalidades da pena são explicadas por três teorias. De Acordo com
Fernando Capez:

a) Teoria absoluta ou da retribuição: a finalidade da pena é punir o autor de


uma infração penal. A pena é a retribuição do mal injusto, praticado pelo
criminoso, pelo mal justo previsto no ordenamento jurídico (punitur quia
peccatum est). b) Teoria relativa, finalista, utilitária ou da prevenção: a pena
tem um fim prático e imediato de prevenção geral ou especial do crime
(punitur ne peccetur). A prevenção é especial porque a pena objetiva a
readaptação e a segregação sociais do criminoso como meios de impedi-lo
de voltar a delinquir. A prevenção geral é representada pela intimidação
dirigida ao ambiente social (as pessoas não delinquem porque têm medo de
receber a punição). c) Teoria mista, eclética, intermediária ou conciliatória: a
pena tem a dupla função de punir o criminoso e prevenir a prática do crime,
pela reeducação e pela intimidação coletiva (punitur quia peccatum est et ne
peccetur).3

Segundo Luís Flávio Gomes, deverá haver uma proporcionalidade da reação


ao delito ao estabelecer como critério punitivo a imposição da pena justa e merecida,
proporcional à gravidade objetiva do fato e à culpabilidade do seu autor, ou seja, uma
forma de retribucionismo.4
Ainda quanto à pena, cumpre mencionar função de suma importância, para a
pessoa do apenado como para a própria sociedade, que é a ressocialização, que

2 CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal, volume 1, parte geral: (arts. 1º a 120). 16. ed. São Paulo:
Saraiva, 2012. p. 383.

3 CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal, volume 1, parte geral: (arts. 1º a 120). 16. ed. São Paulo:
Saraiva, 2012. p. 383.
4 GOMES, Luiz Flávio. Funções da pena e da culpabilidade no direito penal brasileiro. Pro Ominis. São

Paulo. 18 abr. 2008.


7

implica em trazer novamente ao convívio social aquele que veio a cometer algum tipo
de infração e se encontra cumprindo pena.
Ainda segundo Cesar Roberto Bitencourt, para as teorias preventivas, a pena
não visa retribuir o fato delitivo cometido, e sim prevenir a sua prática, cuidando para
que o agente não volte a delinqüir. A pena não se basearia, portanto, para a Teoria
Preventiva, na idéia de se fazer justiça através da imposição de uma sanção, mas sim
no intuito de inibir, tanto quanto possível, a prática de novos fatos delitivos, limitando-
se a tal fim.5
No que tange à fixação da pena, deverá ser analisado o artigo 59 do Código
Penal, o qual fundamenta que caberá ao magistrado analisar os quesitos de
culpabilidade, antecedentes, conduta social, personalidade do agente, motivos,
circunstâncias e consequências do crime, bem como o comportamento da vítima, para
que, assim, possa se definir a pena e sua quantidade aplicável dentre as possíveis, o
regime inicial de cumprimento e, se cabível, a substituição da pena privativa de
liberdade.

2.2 Punibilidade

O conceito de punibilidade compreende o poder e até mesmo o dever de o


Estado impor uma sanção a quem tenha cometido determinado delito, poder este
também chamado de Jus Puniendi.
O vocábulo 'punibilidade' tem dois sentidos, destacados por Rogério Sanches
Cunha em sua lição:

a) punibilidade pode significar merecimento de pena, ser digno de pena no


sentido da palavra alemã StrajWürdig; neste sentido, todo delito (toda
conduta típica, antijurídica e culpável) é punível pelo simples fato de sê-lo; b)
punibilidade pode significar possibilidade de aplicar a pena, no sentido da
palavra alemã Strafbar, neste sentido, nem todo o delito é passível de urna
aplicação de urna pena, isto é, não se pode dar a todo o delito o que teria
merecido. Nem sempre a punibilidade no sentido 'a' pode ser satisfeita no
sentido 'b'. Isto não é consequência da falta de qualquer característica do
delito, mas é apenas urna questão que tem lugar e opera dentro da própria
teoria da coerção penal. A afirmação de que o delito é punível (sentido a)
surge da afirmação de que é delito, mas a coercibilidade a que este dá lugar
nem sempre ocorre, porque possui uma problemática própria e que
ocasionalmente impede a sua atuação (sentido b).6

5 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal 1 - Parte Geral. 17ª Edição. Editora Saraiva.
São Paulo, 2012.
6 CUNHA, Rogério Sanches. Manual de direito penal: parte geral- 4. ed. rev., ampl. e atual.- Salvador:

JusPODIVM, 2016. p.309.


8

Com a criação da norma penal, o Estado adquire o direito de punir abstrato ou


ius puniendi em abstrato, por meio do qual exige de todos que se abstenham de
praticar a ação ou omissão definida no preceito primário do tipo penal.7
Por conseguinte, a punibilidade é o resultado derivado da atuação de uma
conduta típica, ilícita e culpável, levada a efeito pelo agente infrator. Toda vez que um
ilícito penal é praticado, é dada ao Estado a probabilidade de fazer valer o seu jus
puniendi.
Contudo, conforme já expôs a ilustre doutrinadora Ada Pellegrini, nem sempre
foi assim:

Nas fases primitivas da civilização dos povos, inexistia um Estado


suficientemente forte para superar os ímpetos individualistas dos homens e
impor o direito acima da vontade dos particulares: por isso, não só inexistia
um órgão estatal que, com soberania e autoridade, garantisse o cumprimento
do direito, como não havia sequer as leis (normas gerais e abstratas impostas
pelo Estado aos particulares). Assim, quem pretendesse alguma coisa que
outrem impedisse de obter haveria de, com sua própria força e na medida
dela, tratar de conseguir, por si mesmo, a satisfação de sua pretensão. A
própria repressão aos atos criminosos se fazia em regime de vingança
privada e, quando o Estado chamou a si o jus punitionis, ele o exerceu
inicialmente mediante seus próprios critérios e decisões, sem interposição de
órgãos ou pessoas imparciais independentes e desinteressadas.8

Na ocasião que um indivíduo realiza um crime tipificado na legislação penal,


nasce uma relação jurídico punitiva, no qual um dos polos está o Estado, revestido do
jus puniendi e do outro, o réu, exercendo seu direito de defesa constitucionalmente
garantido no exercício do contraditório e da ampla defesa. Neste “esgrima jurídico”,
ao Poder Judiciário é incumbido a solução desta lide moderado sempre pelo devido
processo legal, em busca da verdade dos fatos e sem deixar que, ao réu, disponha
da oportunidade de contestar as acusações geradas contra si.
O jus puniendi sob a ótica de Rogério Greco:

É um direito do Estado que existe, tanto subjetiva como objetivamente, mas


em abstrato, quer quando lhe confere a faculdade de punir, quer quando, em
razão dele, o Estado define os delitos e comina as respectivas penas. A
pretensão punitiva é a manifestação da vontade do Estado, no sentido de
punir em concreto o delito cometido, ou um fato que se apresenta como tal e
assim é suposto como delito.9

7 ESTEFAM, André Direito penal: parte geral .7. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. p 563.
8 GRINOVER, Ada Pellegrini ; CINTRA, Antônio Carlos de Araújo ; DINAMARCO, Cândido Rangel .
Teoria geral do processo. 24. ed. São Paulo: Malheiros Ed., 2002.
9 GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal: parte geral, volume I / Rogério Greco. – 19. ed. – Niterói,

RJ: Impetus, 2017.


9

Ao cometer a infração penal, nasce para o Estado o direito de punir em concreto


(ius puniendi in concreto), por tal transgressão. É através do descumprimento da
norma, que o infrator se sujeita a sanção penal coercitiva do estado, prevista no
diploma penal vigente. É também nesse momento que surge a punibilidade, entendida
como a possibilidade jurídica de aplicação da sanção penal.
Observe-se, contudo, que o direito de punir concreto não é auto executável,
tratando-se de verdadeiro direito de coação indireta, uma vez que sua satisfação
depende da utilização de um processo penal (nulla poena sine judicio). Deve-se
lembrar que a Constituição Federal é peremptória ao declarar que ninguém poderá
ser privado de sua liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal (art. 5º,
LIV), seja ele o clássico (do Código de Processo Penal e das leis processuais
extravagantes) ou o consensual (da Lei dos Juizados Especiais Criminais). 10
Deste modo, entender a punibilidade é primeiramente compreender seu
significado dentro do conceito analítico de crime. Este que, por sua vez, passou a ser
definido predominantemente como um fato típico, antijurídico e culpável, sobrevindo
a punibilidade como sua consequência jurídica.

3 BREVES APONTAMENTOS SOBRE A PUNIBILIDADE NO DIREITO PENAL


BRASILEIRO

3.1 O Dever do Estado de Punir

O Direito Penal regula as relações dos indivíduos em sociedade e as relações


destes com a mesma sociedade. Como meio de controle social altamente formalizado,
exercido sob o monopólio do Estado, a persecutio criminis somente pode ser
legitimamente desempenhada de acordo com normas preestabelecidas, legisladas de
acordo com as regras de um sistema democrático. Por esse motivo os bens protegidos
pelo Direito Penal não interessam ao indivíduo, exclusivamente, mas à coletividade
como um todo.11
Praticado um fato típico, ilícito e culpável, caberá ao Estado exercer seu jus
puniendi, abrindo-se, então, a possibilidade de aplicação da pena. Acontece que,
mesmo diante da ocorrência do crime, podem surgir, antes ou após o trânsito em

10 ESTEFAM, André Direito penal: parte geral .7. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. p 563.

11BITENCOURT, Cezar Roberto Tratado de direito penal: parte geral 1. 24. ed. São Paulo: Saraiva
Educação, 2018. p. 48.
10

julgado da sentença, causas de extinção do direito de punir. Essas causas não afetam
o crime, pois a punibilidade não é requisito deste.12
A relação existente entre o autor de um crime e a vítima é de natureza
secundária, uma vez que esta não tem o direito de punir. Mesmo quando dispõe da
persecutio criminis não detém o ius puniendi, mas tão somente o ius accusationis, cujo
exercício exaure-se com a sentença penal condenatória. Consequentemente, o
Estado, mesmo nas chamadas ações de exclusiva iniciativa privada, é o titular do ius
puniendi, que tem, evidentemente, caráter público.13
As denominadas condições objetivas de punibilidade, na maior parte das vezes,
são tratadas pelos autores quando do estudo analítico do crime. Damasio Jesus
salienta que estas devem ser cuidadas de forma diversa, pois pressupõem o crime
completo em todos os seus requisitos e cumprem somente a função de fazer possível
a aplicação da pena.14
Contudo, nem sempre foi assim. Conforme prelecionam Antônio Carlos de
Araújo Cintra, Ada Pellegrini Grinover e Cândido Rangel Dinamarco:

Nas fases primitivas da civilização dos povos, inexistia um Estado


suficientemente forte para superar os ímpetos individualistas dos homens e
impor o direito acima da vontade dos particulares: por isso, não só inexistia
um órgão estatal que, com soberania e autoridade, garantisse o cumprimento
do direito, como ainda não havia sequer as leis (normas gerais e abstratas
impostas pelo Estado aos particulares). Assim, quem pretendesse alguma
coisa que outrem o impedisse de obter haveria de, com sua própria força e
na medida dela, tratar de conseguir, por si mesmo, a satisfação de sua
pretensão. A própria repressão aos atos criminosos se fazia em regime de
vingança privada e, quando o Estado chamou a si o jus punitionis, ele o
exerceu inicialmente mediante seus próprios critérios e decisões, sem a
interposição de órgãos ou pessoas imparciais independentes e
desinteressadas.15

É certo que o Estado, em determinadas situações previstas expressamente em


seus diplomas legais, pode abrir mão ou mesmo perder esse direito de punir. Mesmo
que, em tese, tenha ocorrido uma infração penal, por questões de política criminal, o
Estado pode, em algumas situações por ele previstas expressamente, entender por

12 SALIM, Alexandre de Azevedo. Direito Penal: parte geral. 7. ed. Salvador: Juspodvim, 2017. p. 559.
13 BITENCOURT, Cezar Roberto Tratado de direito penal: parte geral 1. 24. ed. São Paulo: Saraiva
Educação, 2018. p. 48.
14 JESUS, Damásio. Direito penal: parte geral. 34. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. v. 1. p. 203.
15 CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel.

Teoria geral do processo, p. 21.


11

bem em não fazer valer o seu ius puniendi, razão pela qual haverá aquilo que o Código
Penal denominou extinção da punibilidade.16
A extinção de punibilidade é o desaparecimento da pretensão punitiva ou
executória do Estado, em razão de específicos obstáculos previstos em lei, por razões
de política criminal. Inexiste fundamento de ordem técnica para justificar a causa de
extinção da punibilidade; todas decorrem de vontade política do próprio Estado, por
meio do Legislativo, de impedir a punição ao crime que seria imposta pelo Poder
Judiciário. Guilherme de Souza Nucci observa ainda que não se deve confundir
extinção da punibilidade com condição objetiva de punibilidade, condição negativa de
punibilidade (também denominada escusa absolutória) e com condição de
procedibilidade.17

3.2 Teoria Geral da Extinção de Punibilidade

A doutrina prevalente entende que a punibilidade não é requisito do crime, mas


sim, a sua consequência jurídica. Violado o preceito penal, emerge para o Estado o
direito de impor a pena ao sujeito, que tem o encargo de não obstaculizar a aplicação
da sanção. Origina-se, então, a relação jurídico-punitiva entre o Estado e o cidadão.
Resulta disso que a punibilidade não é mais que a aplicabilidade da sanção, ou, em
outros termos, a possibilidade jurídica de ser imposta coercitivamente. Essa
possibilidade, segundo Damásio de Jesus constitui precisamente o efeito
característico do crime. A punibilidade, entendida como aplicabilidade da pena, é uma
consequência jurídica do crime e não seu elemento constitutivo.18
Assim se tem as condições positivas da punibilidade que são as condições
exteriores à conduta delituosa, não abrangidas pelo elemento subjetivo, que, como
regra, estão fora do tipo penal, tornando-se condições para punir. São causas
extrínsecas ao fato delituoso, não cobertas pelo dolo do agente. São chamadas,
também, de anexos do tipo ou suplementos do tipo. Guilherme de Souza Nucci,
quanto a isso, salienta ainda que nada impede, no entanto, que estejam inseridas no

16 GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal: parte geral, volume I / Rogério Greco. – 19. ed. – Niterói,
RJ: Impetus, 2017. p. 865.
17 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.

1067
18 Jesus, Damásio. Direito penal: parte geral. 34. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. v. 1. p. 198.
12

tipo penal, embora mantenham o seu caráter refratário ao dolo do agente, isto é, não
precisam por este estar envolvidas.19
Quanto a pena o mesmo autor a esclarece que não é um momento precursor
do iter criminis, mas o efeito jurídico do comportamento típico e ilícito, sendo culpado
o sujeito. O crime, realizado em seus requisitos, não deixa de existir pela ocorrência
de condição posterior, exceto se esta vier a excluir um deles.20
As causas de extinção da punibilidade, salvo a anistia e a abolitio criminis, não afetam
os requisitos do crime, mas somente excluem a possibilidade de aplicação da sanção.
Se a punibilidade fosse requisito do crime, extinta resultaria a insubsistência dele
próprio, o que não ocorre pressupõe o crime anterior com todos os seus requisitos.21
Em regra, as causas extintivas da punibilidade só alcançam o direito de punir
do Estado, subsistindo o crime em todos os seus requisitos e a sentença condenatória
irrecorrível. É o que ocorre, p. ex., com a prescrição da pretensão executória
(prescrição após o trânsito em julgado da sentença condenatória), em que subsiste a
condenação irrecorrível. Excepcionalmente, a causa resolutiva do direito de punir
apaga o fato praticado pelo agente e rescinde a sentença condenatória irrecorrível. É
o que acontece com a abolitio criminis e a anistia.22
Guilherme de Souza Nucci adverte ainda quanto as condições negativas de
punibilidade:

São as escusas especiais e pessoais, fundadas em razões de ordem utilitária


ou sentimental, que não afetam o crime, mas somente a punibilidade. Têm
efeito idêntico ao das condições objetivas de punibilidade, mas natureza
jurídica diversa. Ex.: art. 181, I e II, ou art. 348, § 2.º, do Código Penal (crimes
contra o patrimônio e favorecimento pessoal, respectivamente). Nas palavras
de HIGUERA GUIMERA, as escusas absolutórias “são fatos alheios à
tipicidade, à antijuridicidade e à culpabilidade do sujeito, mas que são
indispensáveis para que a conduta seja punível”.3 E continua o autor: “O
pressuposto para que se possa aplicar uma escusa absolutória é a existência
prévia de uma conduta típica, antijurídica e culpável. O delito pode atingir o
grau de consumação ou de tentativa” 23

Os efeitos das causas extintivas da punibilidade operam ex tunc ou ex nunc.


No primeiro caso, as causas extintivas têm efeito retroativo; no segundo, efeito para o
futuro, produzem efeito a partir do momento de sua ocorrência. Possuem efeito ex

19 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.
1067
20 JESUS, Damásio. Direito penal: parte geral. 34. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. v. 1. p. 198.
21 IDEM. p. 198.
22 JESUS, Damásio. Direito penal: parte geral. 34. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. v. 1. p. 726.
23 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.

1068.
13

tunc a anistia e a lei nova supressiva de incriminação; as outras causas têm efeito ex
nunc, não retroagindo para excluir consequências já ocorridas.24
Segundo Guilherme de Souza Nucci são causas que se comunicam aos
coautores e partícipes:

a) o perdão para quem o aceitar; b) a abolitio criminis; c) a decadência; d) a


perempção; e) a renúncia ao direito de queixa; f) a retratação no crime de
falso testemunho. São causas que não se comunicam: a) a morte de um dos
coautores; b) o perdão judicial; c) a graça, o indulto e a anistia (esta última
pode incluir ou excluir coautores, conforme o caso); d) a retratação do
querelado na calúnia ou difamação (art. 143, CP); e) a prescrição (conforme
o caso; ex.: um agente é menor de 21 anos e o outro não é).25

Em relação ao momento de aplicar a extinção a doutrina traz que havendo


extinção da punibilidade antes do trânsito em julgado da sentença, atinge-se o jus
puniendi do Estado, não persistindo qualquer efeito do processo ou da sentença
condenatória.26

4. CAUSAS DE EXTINÇÃO DE PUNIBILIDADE E AS CAUSAS SUPRALEGAIS

4.1 Causas de Extinção de Punibilidade

Causas extintivas da punibilidade são causas que fazem desaparecer o direito


punitivo do Estado, impedindo-o de iniciar ou prosseguir com a persecução penal. O
rol a seguir exposto não é taxativo, pois existem outras causas extintivas de
punibilidade previstas na parte especial do Código Penal e em leis especiais.

Art. 107 - Extingue-se a punibilidade:


I - pela morte do agente;
II - pela anistia, graça ou indulto;
III - pela retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso;
IV - pela prescrição, decadência ou perempção
V - pela renúncia do direito de queixa ou pelo perdão aceito, nos crimes de
ação privada;
VI - pela retratação do agente, nos casos em que a lei a admite; IX - pelo
perdão judicial, nos casos previstos em lei. 27

24 IDEM. p. 726.
25 IDEM. p. 1068.
26 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.

1068.
27 BRASIL. Código Penal. Decreto-lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm Acesso em 15 nov. 2019.


14

Extingue-se a punibilidade portanto: pela morte do agente; pela anistia, graça


ou indulto; pela retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso,
pela prescrição, decadência ou perempção; pela renúncia do direito de queixa ou pelo
perdão aceito, nos crimes de ação privada; pela retratação do agente, nos casos em
que a lei a admite; pelo perdão judicial, nos casos previstos em lei.
Tratando-se da morte do agente o juiz de posse da certidão de óbito do agente,
após ouvir o Ministério Público, decretará a extinção punibilidade. Esta certidão deve
ser expedida pelo Cartório de Registro Civil. Assim determina a Constituição Federal
no art. 5º, XLV:

Nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a obrigação de


reparar o dano e a decretação do perdimento de bens ser, nos termos da lei,
estendidas aos sucessores e contra eles executadas, até o limite do valor: do
patrimônio transferido.28

Assim aplica-se o princípio da pessoalidade da pena. Com a morte, a sanção


penal se resolve (mors omnia solvit). Para a maioria da doutrina, resolve-se inclusive
a pena de multa. No entanto, os efeitos secundários extrapenais da sentença penal
condenatória subsistem, de sorte que os herdeiros respondem até o limite da
herança.29
Em se tratando da anistia, graça ou indulto, nesses institutos o Estado, por
razões de política criminal, abdica de seu direito de punir, em nome da pacificação
social. Os crimes hediondos e assemelhados não estão sujeitos à anistia, graça ou
indulto.
Assim se define os três institutos de acordo com Alexandre Salim:

a) anistia, exclui o crime e apaga seus efeitos. Trata-se de uma clemência


soberana concedida por lei para atingir todos que tenham praticado
determinado delito. A anistia divide-se em própria ou imprópria, irrestrita ou
parcial, incondicionada e condicionada; b) indulto – é concedido a
determinado grupo de condenado de forma coletiva. Sua concessão compete
ao Presidente da República, que pode delegá-la;
c) graça – é concedida em caráter individual para benefício de determinado
agente.30

Nos casos que se aplicam a abolitio criminis são aqueles quando a lei pela sua
retroatividade não mais considera determinado fato criminoso como delito. A lei penal

28 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível


em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 10 Nov 2019.
29 SALIM, Alexandre de Azevedo. Direito Penal: parte geral. 7. ed. Salvador: Juspodvim, 2017. p. 559.
30 IDEM. p. 563.
15

discriminaliza determinada conduta. Pode ocorrer antes ou depois da condenação e


apaga todos os efeitos penais.31
Conforme art. 2° do CP "Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior
deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais
da sentença condenatória" (CP, art. 2°). A lei nova (mais benéfica) deixa de considerar
o fato como crime.32
Já a decadência consiste na perda do direito de propor, mediante queixa, ação
penal privada ou ação privada subsidiária, ou de oferecer representação nos crimes
de ação penal pública condicionada, em virtude do decurso do prazo legal, ou seja
quando o ofendido ou seu representante legal perde o direito de oferecer a queixa,
nos crimes de ação penal privada. Em regra, o prazo é de 6 meses.33
Prescrição refere-se à quando o Estado não exerce a pretensão punitiva ou a
pretensão executória após o decurso de determinado período de tempo. A tabela com
os prazos prescricionais consta no artigo 109 do CP.
A perempção consiste em uma sanção processual imposta ao querelante
omisso na ação penal exclusivamente privada, impedindo o seu prosseguimento. Não
possui aplicação na ação penal privada subsidiária da pública, haja vista que o
Ministério Público pode assumir a titularidade. Assim, em virtude da perda do direito
de prosseguir na ação penal privada, por inércia ou negligência processual. Esse
instituto é aplicado exclusivamente nas ações penais privadas. A perempção só pode
ocorrer depois de recebida a queixa e até o trânsito em julgado do processo penal.34
Nos termos do art. 60 do CPP, tem-se as seguintes hipóteses:

quando, iniciada esta, o querelante deixar de promover o andamento do


processo durante 30 dias seguidos; li - quando, falecendo o querelante, ou
sobrevindo sua incapacidade, não comparecer em juízo, para prosseguir no
processo, dentro do prazo de 60 dias, qualquer das pessoas a quem couber
fazê-lo, ressalvado o disposto no art. 36; Ili - quando o querelante deixar de
comparecer, sem motivo justificado, a qualquer ato do processo a que deva
estar presente, ou deixar de formular o pedido de condenação nas alegações
finais; IV - quando, sendo querelante pessoa jurídica, esta se extinguir sem
deixar sucessor.35

31 IDEM. p. 563.
32 BRASIL. Código Penal. Decreto-lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm Acesso em 15 nov. 2019.
33 SALIM, Alexandre de Azevedo. Direito Penal: parte geral. 7. ed. Salvador: Juspodvim, 2017. p. 563.
34 SALIM, Alexandre de Azevedo. Direito Penal: parte geral. 7. ed. Salvador: Juspodvim, 2017. p. 563.
35 BRASIL. Código Penal. Decreto-lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm Acesso em 15 nov. 2019.


16

O direito a renúncia é uma atitude adotada pelo ofendido, no qual o próprio,


desiste de ofertar a ação penal privada (CP, art. 104). Tal ato pode ser expresso
(através da declaração assinada pelo ofendido ou, pelo seu representante munido de
poderes para tal - CPP, art. 50) ou tácito (quando o ato é discordante com a vontade
no exercício do direito de queixa). Ato unilateral em que o ofendido abdica do seu
direito de oferecer a queixa. Instituto exclusivo da ação penal privada. A renúncia só
pode ocorrer antes do recebimento da queixa. Não necessita da concordância do
ofendido.
O perdão do ofendido trata-se de um ato voluntário do ofendido que visa a
obstar o prosseguimento da ação penal privada (CP, art. 105). Pode ser expresso ou
tácito, e concedido dentro ou fora do processo. Perdão tácito é o que resulta da prática
de ato incompatível com a vontade de prosseguir na ação (CP, art. 106, § 1°).36
Consiste na desistência da ação penal privada pelo ofendido, desculpando o
autor da ofensa pela infração penal praticada. É concedido no decorrer da ação penal
privada. Ele pode ser processual ou extraprocessual. O perdão oferecido a um dos
querelados aproveitará os demais. Quando houver mais de um querelante, o perdão
por parte de um deles, não prejudicará o direito do outro continuar a ação.
Retratação do agente ocorre quando, o agente admite que praticou o fato
criminoso erroneamente. É admitida nos crimes de calúnia, difamação, falso
testemunho e falsa perícia. A retratação deve ocorrer antes da sentença condenatória
de primeira instância. Portanto retratar é o ato de retirar o que foi dito. Como se trata
de ato pessoal, a retratação realizada por um dos querelados não se aplica aos
demais. A retratação deve ser irrestrita e incondicional, e não deve ser confundida
com a "retratação da representação nas ações penais públicas condicionadas". 37
Perdão judicial é a acusa extintiva de punibilidade por meio da qual o juiz, diante
de certos requisitos previstos em lei, renuncia o direito de punir, geralmente fundado
na desnecessidade da pena. O Juiz reconhece a prática do fato delituoso, mas deixa
de aplicar a pena. A extinção da punibilidade de crime que é pressuposto, elemento
constitutivo ou circunstância agravante de outro não se estende a este. Nos crimes
conexos, a extinção da punibilidade de um deles não impede, quanto aos outros, a
agravação da pena resultante da conexão.38

36 BRASIL. Código Penal. Decreto-lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Disponível em:


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm Acesso em 15 nov. 2019.
37 SALIM, Alexandre de Azevedo. Direito Penal: parte geral. 7. ed. Salvador: Juspodvim, 2017. p. 566.
38 IDEM. p. 569.
17

O art. 107 do Código Penal prevê várias causas de extinção da punibilidade.


Entretanto, este rol não é taxativo, sendo que, além destas causas, existem outras,
como por exemplo: no peculato culposo, a reparação do dano, se precede à sentença
irrecorrível (art 312, § 3°, do CP); se o agente declara ou confessa sonegação de
contribuição previdenciária (art. 337-A do CP); término do período de suspensão
condicional do processo (art. 89, § 5', da Lei no 9.099/95); pagamento do tributo (art.
83, § 4', da Lei n° 9430/96, com redação dada pela Lei n° 12.382/11).39

4.2 Causas Supralegais

A extinção da punibilidade ocorre após toda a instrução processual, momento


em que o juiz, se for o caso, condena o acusado que começa a cumprir ou nem chega
a cumprir a pena ou quando o magistrado sequer condena o acusado por já vislumbrar
causa de extinção. Dessa forma, em apertada síntese, Guilherme de Souza Nucci nos
diz exatamente que o instituto ora em estudo se trata da dissolução do ius puniendi
estatal. O autor, portanto, conceitua a extinção da punibilidade como o
desaparecimento da pretensão punitiva ou executória do Estado, em razão de
específicos obstáculos previstos em lei.40
Dessa forma, em apertada síntese, Guilherme de Souza Nucci nos diz
exatamente que o instituto ora em estudo se trata da dissolução do ius
puniendi estatal, face causas impeditivas estabelecidas na legislação em vigor. Julio
Fabbrini Mirabete, por sua vez:

Originado o jus puniendi, concretizado com a prática do crime, podem ocorrer


causas que obstem a aplicação das sanções penais pela renúncia do Estado
em punir o autor do delito, falando-se, então, em causas de extinção da
punibilidade.41

A diferença para o conceito de Guilherme de Souza Nucci consiste no termo


renúncia ao invés de desaparecimento. Dessa forma, Julio Fabbrini Mirabete entende
que o Estado, ao mesmo tempo que estabelece as causas de extinção da punibilidade
renuncia à aplicação da pena restrita às hipóteses elencadas em lei. Ao analisar as
causas de extinção da punibilidade. Fernando Capez afirma que:

39 IDEM. p. 557.
40 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.
1068.
41 MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de direito penal. 17. ed. São Paulo: Atlas, 2001. p. 434.
18

São aquelas que extinguem o direito de punir do Estado. As causas extintivas


da punibilidade são mencionadas no art. 107 do CP. Esse rol legal não é
taxativo, pois causas outras existem no CP e em legislação especial. 42

Nessa consideração a divergência reside na expressão extinção. No nosso


entendimento esse é o melhor termo, junto com desaparecimento, que é sinônimo, a
ser usado, pois inclusive foi o adotado pelo legislador quando da elaboração da lei
penal em vigor.
Portanto, a extinção da punibilidade é a forma de abstenção do Estado de punir
um indivíduo já condenado, em razão de causas legais que acarretem a extinção
desse direito, ou seja, extinguem a execução da pena.
O direito de punir não é absoluto. Praticado o injusto penal por um agente
culpável, é possível que, in casu, incida alguma causa extintiva da punibilidade,
fazendo com o que o Estado não possa aplicar a sanção cominada no tipo penal. O
artigo 107 do Código Penal apresenta um rol meramente exemplificativo de causas
que fazem desaparecer o direito de o Estado aplicar a pena, o que significa que outras
normas podem dispor sobre o tema. É o que faz, a título de exemplo, o artigo 312,
§3°, do Código Penal, anunciando que a reparação do dano (ou restituição da coisa)
no peculato culposo atua como causa extintiva de punibilidade.43
A legislação pátria positivou nos incisos do art. 107 do Código Penal as
principais hipóteses de abstenção do direito de punir. Trata-se de rol exemplificativo,
admitindo diversas outras causas espalhadas pelo código, bem como pelas leis penais
especiais.
A inexigibilidade de conduta diversa é a porta de entrada das causas das
cláusulas supralegais de exclusão, conforme se extrai da lição de Rogério Sanches
Cunha, que as exemplifica citando a desobediência civil. O autor frisa ainda que se
admite a clausula supra legal nos casos em que á o consentimento do ofendido, e
ainda, quando se aplica o princípio da insignificância.44
O ordenamento jurídico brasileiro, não faz qualquer referência às causas
supralegais de justificação. Mas o caráter dinâmico da realidade social permite a

42 CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal, volume 1, parte geral: (arts. 1º a 120). 16. ed. São Paulo:
Saraiva, 2012. p. 1316
43 CUNHA, Rogério Sanches. Manual de direito penal: parte geral- 4. ed. rev., ampl. e atual.-

Salvador: JusPODIVM, 2016. p.309.


44 IDEM. p.309.
19

incorporação de novas pautas sociais que passam a integrar o quotidiano dos


cidadãos, transformando-se em normas culturais amplamente aceitas.45
Por isso, condutas outrora proibidas adquirem aceitação social, legitimando-se
culturalmente. Como o legislador não pode prever todas as hipóteses em que as
transformações produzidas pela evolução ético-social de um povo passam a autorizar
ou permitir a realização de determinadas condutas, inicialmente proibidas, deve-se,
em princípio, admitir a existência de causas supralegais de exclusão da
antijuridicidade, em que pese alguma resistência oferecida por parte da doutrina e da
jurisprudência.46
Guilherme de Souza Nucci ao tratar das Causas Supralegais refere-se a elas
como causas de extinção da punibilidade implícitas, nas palavras do autor:

Podem existir. Embora a lei não seja expressa, é possível verificar a


ocorrência de extinção da punibilidade por causa implicitamente considerada
como tal. É o caso do art. 522 do Código de Processo Penal: “No caso de
reconciliação, depois de assinado pelo querelante o termo da desistência, a
queixa será arquivada”. Nos crimes contra a honra, antes de receber a
queixa, o juiz oferece às partes a oportunidade de reconciliação. Se isso
ocorrer, a queixa será arquivada, ou seja, extingue-se a punibilidade
implicitamente, pois não se trata nem de renúncia nem de perdão, que são
causas explícitas de extinção da punibilidade. 47

A concepção do conteúdo material da antijuridicidade tornou possível a


admissão de causas supralegais de justificação, como têm sustentado a doutrina
nacional e estrangeira. Na verdade, para se reconhecer uma causa supralegal de
justificação pode se recorrer aos princípios gerais de direito, à analogia ou aos
costumes, afastando-se a acusação de tratar-se de um recurso metajurídico. Convém
destacar que, ao contrário do que pensam alguns penalistas, a admissão de causas
supralegais de justificação não implica necessariamente a aceitação, a contrario
sensu, de injustos supralegais, diante da proibição patrocinada pelos princípios de
legalidade e da reserva legal.48
Causas Supralegais De Extinção Da Punibilidade. São exemplos de causas
supralegais a situação prevista no enunciado 554 do Supremo Tribunal Federal,
conforme a qual o pagamento do cheque emitido sem provisão de fundos até o

45 BITENCOURT, Cezar Roberto Tratado de direito penal: parte geral 1. 24. ed. São Paulo: Saraiva
Educação, 2018. p. 48.
46 BITENCOURT, Cezar Roberto Tratado de direito penal: parte geral 1. 24. ed. São Paulo: Saraiva

Educação, 2018. p. 48.


47 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p.

1070.
48 ZAFFARONI, Manual de Derecho Penal, 6ª ed., Buenos Aires, Ediar, 1991, p. 480
20

recebimento da denúncia extingue a punibilidade, obstando o prosseguimento da


persecução penal.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Extinção da punibilidade conforme se verificou neste estudo é o


desaparecimento da pretensão punitiva ou executória do Estado, em razão de
específicos obstáculos previstos em lei, por razões de política criminal.
Em relação a suas condições objetivas de punibilidade a doutrina apresenta-as
com as condições exteriores à conduta delituosa, não abrangidas pelo elemento
subjetivo, que, como regra, estão fora do tipo penal, tornando-se condições para punir.
São causas extrínsecas ao fato delituoso, não cobertas pelo dolo do agente.
Há também as condições negativas de punibilidade ou escusas absolutórias:
são as escusas especiais e pessoais, fundadas em razões de ordem utilitária ou
sentimental, que não afetam o crime, mas somente a punibilidade. Têm efeito idêntico
ao das condições objetivas de punibilidade, mas natureza jurídica diversa.
Verificou-se que o artigo 107 do Código Penal Brasileiro enumera de forma
exemplificativa as possíveis causas de extinção da punibilidade. Esta poderá se dar
pela morte do agente criminoso, por Abolitio Criminis, pela Decadência, pela
Perempção, pela Prescrição, pela Renúncia, pelo Perdão do ofendido, pelo Perdão
judicial, pela Retratação do agente, pelo Casamento da vítima com o agente, por
Anistia, Graça ou Indulto. Assim entende-se que o ordenamento pátrio admite causas
supralegais de extinção de punibilidade.
21

REFERÊNCIAS

BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal 1 - Parte Geral. 17ª Edição.
Editora Saraiva. São Paulo, 2012.

BITENCOURT, Cezar Roberto Tratado de direito penal: parte geral 1. 24. ed. São
Paulo: Saraiva Educação, 2018

BRASIL. Código Penal. Decreto-lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Disponível


em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm Acesso
em 15 nov. 2019.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.


Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>.
Acesso em: 10 Nov 2019.

CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal, volume 1, parte geral: (arts. 1º a 120). 16.
ed. São Paulo: Saraiva, 2012.

CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO,


Cândido Rangel. Teoria geral do processo.

GOMES, Luiz Flávio. Funções da pena e da culpabilidade no direito penal brasileiro.


Pro Ominis. São Paulo. 18 abr. 2008.

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal: parte geral, volume I 19. ed. Niterói, RJ:
Impetus, 2017.

GRINOVER, Ada Pellegrini ; CINTRA, Antônio Carlos de Araújo ; DINAMARCO,


Cândido Rangel . Teoria geral do processo. 24. ed. São Paulo: Malheiros Ed., 2002.

JESUS, Damásio. Direito penal: parte geral. 34. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. v. 1..

MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de direito penal. 17. ed. São Paulo: Atlas, 2001.
22

NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de direito penal: parte geral. Rio de Janeiro:
Forense, 2017. p. 1067

O perdão judicial como causa extintiva da punibilidade criminal/ Ana Luiza de Oliveira
Silva Alves. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro,
Bacharel em Direito, 2014. 65 f.

SALIM, Alexandre de Azevedo. Direito Penal: parte geral. 7. ed. Salvador:


Juspodvim, 2017.

ZAFFARONI, Manual de Derecho Penal, 6ª ed., Buenos Aires, Ediar, 1991, p. 480

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