Você está na página 1de 4

BRETAS, Marcos Luiz.

Ordem na Cidade: o exercício cotidiano da autoridade policial


no Rio de Janeiro: 1907-1930. Tradução de Alberto Lopes. Rio de Janeiro: Rocco,
1997.

Uma vez que a polícia carioca não era estruturada como uma carreira, o controle
dos policiais pela administração era mais fácil, mas feito a partir de critérios não
necessariamente operacionais. As nomeações eram devidas às redes clientelísticas e era
a seus patrões que os policias deviam contas. Quando a polícia se tornou mais
institucionalizada ela provavelmente criou maneiras de trabalhar que frequentemente
escapavam ao controle das autoridades do estado – o que sempre foi um grande desejo
de muitos policiais – embora a maior parte do tempo a polícia tenha de reconhecer a
presença do controle do estado e seguir suas instruções. Isso pode ser observado na
repressão a delitos de ordem pública (BRETAS, 1997: 62), porque “a polícia tinha de
obedecer aos desejos da elite e processar vadios e jogadores mas, uma vez relaxada a
pressão, o número de processos caía”1. Ordem na Cidade constata que lidar com os
medos da elite fazia parte da tarefa da polícia desde a Velha República, e no caso do
jogo, a repressão não era uma política permanente, executada pelos policiais de rua, mas
sim campanhas ocasionadas chefiadas pelos delegados ou comissários, que prendiam
alguns jogadores para constar (Idem).

O uso de dados estatísticos permite analisar duas questões importantes para o


nosso estudo: a natureza dos delitos investigados pela polícia e o perfil dos indivíduos
mais normalmente associados com esses delitos. As estatísticas eram apresentadas em
duas categorias distintas, crimes e contravenções, incluindo a última os chamados
delitos de ordem pública ou crimes sem vítimas, entre os quais a principal acusação era
a vadiagem (BRETAS, 1997: 80-81). Além das dificuldades que envolviam o trabalho
de produzir estatísticas policiais, desde a Primeira República, “e de como não era nada
invejável a tarefa daqueles que tinham que organizar o material estatístico a partir das
ocorrências diárias” (Idem, p. 92), os dados das estatísticas do crime no Rio de Janeiro,
segundo Bretas, se moveu no final do século XIX dos crimes contra a propriedade para
os crimes violentos. Sugere, hipoteticamente, que um possível aumento no registro de

1
BRETAS, Marcos Luiz. Ordem na Cidade. Op., cit. p. 62.
crimes tenha sido por racismo, isto é, em crimes praticados contra negros, visto que,
antes, terem sido escravos2.

O trabalho policial se compunha de uma mistura de tarefas eminentemente


burocráticas e algumas situações inesperadas, que contribuem mais para o folclore da
atividade do que de fato ocorrem na atividade cotidiana. Os policiais aprendem a
identificar as circunstâncias em que podem efetivamente prestar serviço e aquelas em
que vale a pena fazê-lo; eles procuram moldar os problemas com que se deparam
naquilo que esperam ou desejam. Os códigos legais tentam restringir o trabalho policial
às suas regras, e os compêndios de direito abundam em definições de polícia como
aqueles que fazem cumprir a lei de acordo com as regulamentações. Os policiais
consideram essa explicação de ‘obediência à lei’ muito útil como estratégia de
apresentação para um público externo, mas a sua prática não é necessariamente guiada
pelos códigos3.

Uma vez que muitas das tarefas da polícia não resultavam em prisões e os casos
de ordem pública permitiam múltiplas prisões simultâneas, o impacto dos delitos de
ordem pública foi ainda maior em estatísticas de prisões, e a queda acentuada também
foi notável, segundo Marcos Bretas. Em 1909, os três delitos contra a ordem pública
foram responsáveis por 916 do total de 1.461 prisões. O número total de prisões caiu
dois terços em 1917, reduzido a 523, sendo 110 devidas a delitos de ordem pública. a
tendência decrescente continuou até 1925, quando houve apenas 377 prisões, das quais
33 pelos delitos de ordem pública. É visível que alguns distritos efetuaram muito mais
prisões deste tipo do que outros; isso é particularmente perceptível no 5º DP, onde elas
representam 432 das 571 prisões de 1909, e 282 das 465 de 1913

A insegurança no Rio de Janeiro era de por duas preocupações: o desocupado de


maus-bofes, promovendo desordem nas ruas, ofendendo a moral mais do que
representando em si uma ameaça de violência física, e os próprios policiais, cujo

2
Mas, essa hipótese o autor descarta porque tal fator necessitaria de ser apoiado por uma disposição da
polícia em voltar-se contra o racismo, isto é, em direcionar-se em combater a violência contra negros, o
que seria pouco provável. Cf. BRETAS, Marcos Luiz. Ordem na Cidade. Op., cit. p. 83.
3
Para mais a respeito de práticas seletivas da polícia, cf. BRETAS, Marcos Luiz. Ordem na Cidade: o
exercício cotidiano da autoridade policial no Rio de Janeiro: 1907-1930. Tradução de Alberto Lopes. Rio
de Janeiro: Rocco, 1997. p. 93; LIMA, Roberto Kant de. Ensaios de Antropologia e de Direito: acesso à
Justiça e processos institucionais de administração de conflitos e produção da verdade jurídica em uma
perspectiva comparada. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011. p. 42, 52, 56, 63-4, 69, 80-4, 129, 148.
comportamento, esse sim, parecia de fato constituir uma ameaça física 4. As imagens de
desordens que existiam na cidade, segundo o autor citado por Marcos Bretas, Eduardo
Silva, chama-nos a atenção: o medo do vagabundo e a preocupação com a ordem, pois,
não como mera fantasia das classes superiores, mas, simultaneamente, um sentimento
de desconfiança das forças policiais, e um sentimento de esperança de que estas mesmas
forças ‘limpasse’ as ruas de tais figuras ameaçadoras (BRETAS, 1997: 86).

Casos de ordem pública constituíram uma parte vital do mandato da polícia em


1909, compreendendo cerca de um terço dos registros, mas declinaram depois,
representando pouco menos de 1% em 1925. Uma verificação adicional nos registros
revela que ainda eram muito importantes em 1913, quando o 5º DP efetuou 465 prisões
em três meses, incluindo 282 pelos três delitos de ordem pública. isso nos permite situar
a mudança no meio da década de 1910, quando a preocupação com a ordem pública
ainda era de suma importância na alta administração, mas a maneira de conduzir o
problema certamente deixara de ser as prisões em massa efetuadas pelas delegacias
locais como ocorria em 1909 e 1913 (BRETAS, 1997: 102).

As ocorrências com prisões eram importantes em dois sentidos: tinham um


profundo impacto no futuro trabalho da polícia, uma vez que frequentemente requeriam
eu um caso fosse preparado para ser apresentado aos tribunais, e eram um sinal visível
de trabalho sendo feito porque prisões são consideradas como um indicador confiável
do trabalho da polícia. Como já observamos, o número geral de prisões registradas
vinha caindo acentuadamente durante o período. O problema principal é que a qualidade
dos dados registrados também estava caindo, após a pressão inicial das elites ilustradas
no sentido de produzir estatísticas confiáveis ter desaparecido. Os dados de 1925
apresentam um grande número de registros de prisões sem boa parte das informações
sobre os presos que deveriam estar incluídas5. A amostragem menor e a falta de detalhes
tornam ainda mais difícil interpretar as tendências. A principal razão para a diminuição
das prisões foi o virtual desaparecimento dos casos de ordem pública. isso nos permite
presumir uma mudança no perfil do prese, distanciando-o da figura do vadio para torna-
lo mais próximo da figura do criminoso (BRETAS, 1997: 108).

4
SILVA, Eduardo. As Queixas do Povo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. Apud: BRETAS, Marcos
Luiz. Ordem na Cidade. Op., cit. p. 86.
5
Muito possivelmente o que ocorreu foi uma mudança nos métodos de registro, que passaram a ser feitos
em livros próprios, que não foram encontrados, deixando apenas notas esparsas nos livros de ocorrência.
O policiamento nas áreas centrais da cidade mudara o seu caráter dos primeiro
anos, abandonando a preocupação com a ordem pública através da repressão à
vadiagem e embriaguez, ou a transferência para o departamento especializado da
Delegacia Auxiliar. Os nove casos remanescentes de perturbação da ordem pública
seriam provavelmente um recurso de policiais que recorriam à lei para afirmar sua
autoridade (BRETAS, 1997: 113).

Vinte e oito delegados – mais tarde trinta – recrutados entre advogados com dois anos
de prática eram os principais funcionários policiais em áreas específicas da cidade – os
distritos. O decreto 6440 listava 33 obrigações que eles tinham de cumprir, relacionadas
com a manutenção da ordem pública, investigação de crimes e atividades burocráticas.
Tinham de estar presentes em suas delegacias duas vezes por dia: entre 11:00h e 16:00h,
e novamente à noite ‘por tanto tempo quanto fosse necessário’ (BRETAS, 1997: 51).

Você também pode gostar