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PRÁTICAS PEDAGÓGICAS COM ENFOQUE CRIATIVO:

POSSIBILIDADES E LIMITES

Raquel de Oliveira Costa Pereira Knop 1 - UNIVALI - SC


Carla Carvalho 2 - UNIVALI - SC

Grupo de Trabalho - Educação, Complexidade e transdisciplinaridade


Agência Financiadora: não contou com financiamento

Resumo

Esta pesquisa, vinculada ao grupo de pesquisa Cultura, Escola e Educação Criadora, da linha
de pesquisa Cultura, Tecnologia e Processos de Aprendizagem do Programa de Mestrado em
Educação da Universidade do Vale do Itajaí, buscou responder a seguinte questão problema:
Quais as possibilidades e os limites de práticas pedagógicas com enfoque criativo,
transdisciplinar e complexo presentes nas falas de professores de Escolas Criativas?
Delimitou-se o seguinte objetivo geral: analisar as possibilidades e os limites de práticas
pedagógicas com enfoque criativo, transdisciplinar e complexo, presentes nas falas de
professores de Escolas Criativas. Esta é uma pesquisa de abordagem qualitativa. Utilizou-se
entrevistas semiestruturadas com membros fundadores da Rede Internacional de Escolas
Criativas e com professores que integram Escolas Criativas. O tratamento dos dados deu-se
por meio da Investigação Narrativa. Os autores utilizados para este estudo foram: Moraes
(2010), Morin (2001), Zwierewicz e Torre (2009). Como resultado, os dados demonstram
que, mesmo havendo limitadores, estes não impedem que práticas criativas sejam realizadas e
estimuladas. As possibilidades apontadas pelos professores foram: postura docente aberta e
flexível; partilha de saberes; ação coletiva docente; ampliação das relações entre as escolas;
relação aluno/professor, que buscam e pesquisam juntos. Já os limitadores foram: novamente
a postura docente (neste caso, fechada e inflexível), o tempo institucional e pessoal, estrutura
organizacional e política, recursos e número de estudantes em sala. A pesquisa propõe que,
para o professor potencializar sua prática docente e transformá-la realmente em uma prática
criativa, é preciso investir em uma formação docente que considere as implicações
ontológicas, epistemológicas e metodológicas que embasam tais práticas.

Palavras-chave: Escolas Criativas. Práticas docentes. Complexidade.

1
Mestre em Educação: UNIVALI - Santa Catarina. Professora do Ensino Fundamental - Anos Finais - Língua
Portuguesa da Rede Municipal de Ensino de Itapema. Graduada em Letras pelo Centro Universitário da Cidade –
RJ. Membro do Grupo de Pesquisa Cultura, Escola e Educação Criadora (UNIVALI-SC). Email:
raquelpereiraknop@gmail.com.
2
Doutora em Educação pela UFPR – PR. Professora do Programa de Pós-graduação em Educação da UNIVALI.
Membro do Grupo de Pesquisa Cultura, Escola e Educação Criadora (UNIVALI-SC). Email:
carla.carvalho@univali.br

ISSN 2176-1396
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Introdução

Demandas educacionais atuais apontam para outros caminhos acerca de metodologias


aplicadas desde a Educação Infantil até o ensino Superior. A consideração dos contextos de
atuação de professores e estudantes ganha destaque assim como as expectativas em torno do
que se deve ensinar e o que realmente se deve aprender para que os indivíduos possam atuar
na sociedade de forma plena, consciente, engajada e responsável. Colocar o discente no centro
do processo e considerá-lo como agente social ativo, criativo e transformador é o objetivo de
tais vias e aportes metodológicos de ensino. A escola, assim como a sociedade, passa por um
período de transição, de modificação em que estudantes e professores são atores e co-
responsáveis por conduzir de maneira eficiente os caminhos a serem trilhados em um mundo
de emergências sociais e ambientais latentes. Ao se sentirem responsáveis e fazendo parte das
mudanças e das transformações que a humanidade vem passando, a escola, os professores, os
estudantes e toda a comunidade escolar assumem uma posição ativa diante dos problemas e
dos percalços, envolvendo-se e prospectando ações, desconstruindo posições passivas e
resignadas. Dessa forma, os seguintes autores darão suporte para a presente pesquisa: Morin
(2001) e Zwierewicz e Torre (2009).
Conceitos como a complexidade, a transdisciplinaridade e a criatividade começam a
aparecer em currículos e metodologias. Tendo como base tais conceitos a presente pesquisa
delineou a seguinte questão problema: Quais as possibilidades e os limites de práticas
pedagógicas com enfoque criativo, transdisciplinar e complexo presentes nas falas de
professores de Escolas Criativas? E, como objetivo geral, analisar as possibilidades e os
limites de um fazer pedagógico com enfoque criativo, transdisciplinar e complexo presentes
nas falas de professores de Escolas Criativas. O interesse por práticas inovadoras e
diferenciadas parte de inquietações vivenciadas na prática pedagógica da pesquisadora e que,
por meio do livro Uma escola para o século XXI: escolas criativas e resiliência na educação,
dos professores Saturnino de La Torre e Marlene Zwierewicz, vislumbrou-se as Escolas
Criativas e a Rede Internacional de Escolas Criativas como uma possibilidade de tornar tal
inquietação objeto de pesquisa.
Para Zwierewicz e Torre (2009), fazer com que os alunos realizem apenas atividades
mecânicas, cumprindo regras e normas, está-se oferecendo uma forma limitada de suas
atuações. Fazer dos estudantes dependentes das instruções e das transmissões de um professor
desfavorece o desenvolvimento integral do indivíduo.
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Apontamos, com nossa pesquisa, algo a mais que não despreze totalmente o modo de
pensar racional, os conteúdos a serem transmitidos e ensinados, mas que acrescente outra face
por onde o conhecimento e o desenvolvimento do ser humano também se dão. Morin (2001)
não descarta de maneira nenhuma a fantasia e o imaginário no desenvolvimento do ser
humano.

Procedimentos Metodológicos

Esta é uma pesquisa de abordagem qualitativa com enfoque na Investigação Narrativa.


Considerando as mudanças do fazer pedagógico que a revisão bibliográfica permitiu
vislumbrar - em que escolas estão buscando práticas que se embasam em outros referenciais
teóricos e metodológicos -, a presente pesquisa analisou o que os professores apontam em
suas falas como possibilidades e como limites de práticas pedagógicas embasadas nos
conceitos que sustentam a proposta do projeto Escolas Criativas e da Rede Internacional de
Escolas Criativas.
Utilizamos a entrevista semiestruturada e os sujeitos entrevistados foram: dois
representantes no Brasil e membros fundadores da RIEC; sete professores que atuam em
Escolas Criativas com o objetivo de investigar, em suas falas, quais os limites e as
possibilidades de uma prática pedagógica com enfoque complexo, transdisciplinar e criativo.
Ao optarmos, na análise e na discussão dos dados, pela Investigação Narrativa, a pesquisa
assume um caráter de aliar teoria e prática, pensamento e ação, entrelaçados e interligados.
Ouvindo os professores relatarem suas práticas, dá-se a chance a eles de redimensionarem e
de reestruturarem seus saberes e seus fazeres. Percebemos, assim, que suas falas são
impregnadas por suas práticas, porém observamos, também, a vontade que possuem por
teorizá-las, mostrá-las, narrá-las e compartilhar aquilo que sabem, fazem, pensam que sabem
e querem aprender. É narrando que se constitui, basicamente, a prática, pois, ao iniciar uma
aula, ao introduzir um conteúdo, ao citar um exemplo, o professor narra, conta, reconta.
Para uma investigação com objetivo de pesquisar práticas pedagógicas diferenciadas
com enfoque em referenciais teóricos e epistemológicos que rompem com o paradigma
tradicional, buscamos trazer, nesta pesquisa, uma metodologia que se alinhasse aos princípios
epistemológicos da transdisciplinaridade e da complexidade. Para isso, esta pesquisa buscou,
em Bruner, (1997) e Bolívar (2002), fundamentos metodológicos, os quais se articulam e se
entrelaçam em proposições teórico-práticas do fazer científico, bases para transitar em marcos
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epistemológicos diferentes do positivista, ou até mesmo do crítico. Os relatos orais das


entrevistas focalizadas foram transcritos e foram analisados à luz da Investigação Narrativa.
A base da investigação narrativa parte do pressuposto de que a linguagem é mediadora
da ação, ou seja, a narrativa é a estrutura principal da maneira como os seres humanos
constroem sentido. O transcorrer da vida e a identidade construída do “si mesmo” (a
identidade pessoal) são vividos como uma narração. Para Bolívar e Domingo (2006, p. 4):

La narrativa expresa la dimensón emotiva de la experiencia, la complejidad,


relaciones y singularidad de cada acción; frente a las defeciencias de um modo
atomista y formalista de descomponer las acciones en un conjunto de variables
discretas. Como modo de conocimento, el relato capta la riqueza y detalles de los
asuntos humanos (motivaciones, sentimentos, deseos o propósitos), que no pueden
ser expresados en definiciones, enunciados factuales o proposiciones abstratcas,
como hace el razonamiento lógico-formal.3

Uma primeira característica da narrativa para Bruner (1997) seria a sequencialidade -


que é a maneira singular que cada narrativa ordena e apresenta os fatos e os personagens. A
segunda característica, também segundo Bruner (1997), seria que a narrativa pode ser verídica
ou fictícia sem que haja algum tipo de perda em relação ao alcance da história. O autor
completa afirmando que “[...] a sequência de duas sentenças, e não a verdade ou falsidade de
qualquer dessas sentenças, é o que determina sua configuração geral ou enredo” (BRUNER,
1997, p. 47). Ou seja, a maneira como a narrativa será captada depende dessa sequencialidade
singular que se torna fundamental para a significância da história.
As Escolas Criativas e a RIEC fundam-se em bases teóricas que, de certa forma,
rompem ou criticam o modelo tradicional de educação, propondo outras vias e novas
metodologias para uma prática pedagógica mais aberta, transdisciplinar criativa e complexa.

Práticas pedagógicas com enfoque criativo: possibilidades e limites

A metodologia adotada na presente pesquisa foi a Investigação Narrativa que


possibilita dar voz aos sujeitos e considerar aquilo que narram a respeito de seus saberes, seus
fazeres, configurando, assim, suas práticas à medida que narram. As entrevistas tiveram um
caráter focalizado, como uma conversa e, assim, dos relatos, das narrativas extraídas dessas

3
“A narrativa expressa a dimensão emotiva da experiência da complexidade, das relações e da singularidade de
cada ação, frente às deficiências de um modo atomista e formalista de decompor ações em um conjunto de
variáveis discretas. Como modo de conhecimento, o relato capta a riqueza e os detalhes dos assuntos humanos
(motivações, sentimentos, desejos ou propósitos), que não podem ser expressos em definições, declarações
factuais ou proposições abstratas, assim, assim como faz o raciocínio lógico- formal.” (BOLIVAR; DOMINGO,
2006, p. 4, tradução nossa).
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entrevistas, analisamos as possibilidades e os limites que os professores apontaram referentes


às práticas com enfoque criativo. Entrevistamos nove sujeitos dentre membros fundadores da
RIEC e professores que integram Escolas Criativas. Desse recorte, destacamos as
possibilidades levantadas pelos professores:

Eu não considero, se eu partir do princípio de vontade, de se trabalhar com aquilo


que se tem, isso não se torna empecilho de maneira alguma, na verdade, às vezes,
até busca melhorar talvez essa barreira. Dependendo da maneira como você vai
levar essa atividade, pode estar ajudando a escola. (PROFESSORA MARIA).

Podemos salientar na fala da professora Maria algo que ficou claro em relação aos
demais relatos dos professores entrevistados: seus fazeres pedagógicos com enfoque criativo
realizam-se a partir de suas iniciativas próprias e sempre lidando com aquilo que se tem.
Acreditamos que isso se deva, em especial, por tratarem-se de professores de escolas públicas,
ou seja, um contexto historicamente marcado por falta de valorização, recursos e iniciativas
inovadoras.
A compreensão de toda a complexidade técnica, científica e humana que permeia as
instituições escolares, aqui as escolas públicas, talvez seja o gatilho para que professores
busquem mudanças em suas práticas pedagógicas com o objetivo de transgredirem
pensamentos deterministas do tipo: “escola pública é ruim”, “inovação educacional depende
de recursos e aparatos tecnológicos”, “nunca vai mudar, sempre foi assim”, etc. “A boa
vontade de se trabalhar com aquilo que se tem”, fragmento da fala anterior da professora
Maria, não significa resignar-se e aceitar imposições ou o fracasso dos pensamentos
deterministas, mas sim buscar o novo, mover-se, desacomodar-se, inovar.
A medida que narravam e reconfiguravam suas práticas, os professores destacaram
que apenas sua boa vontade, sua iniciativa, não bastavam para seguir afirmando suas práticas
pedagógicas com enfoque criativo. Esse tipo de ação só se sobressai mediante a troca, a
partilha de saberes e ação coletiva docente, como destaca a professora Ana no excerto a
seguir:

Tem muita possibilidade. Eu acho assim, que podes enriquecer. A gente teve uma
troca de experiências agora com os professores, não faz um mês. A escola
proporcionou, então que a gente trocasse as experiências inovadoras, todos os
professores da escola. Foi riquíssimo, eu acho que é uma coisa que contamina, um
alimenta o outro. (PROFESSORA ANA).

A riqueza do encontro proporcionado pela escola para que os professores trocassem


suas experiências bem sucedidas, seus saberes, ganha destaque na fala da professora, pois, foi
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um aspecto também realçado pelos demais professores entrevistados: a partilha, a troca, o


“um alimenta o outro”, como a própria professora definiu esse processo, visto que “[...] a
experiência de cada um é, também, sempre a experiência dos outros e, em consequência, a
educação deve promover a inteligência geral e complexa, capaz de perceber o todo
multidimensional para nele compreender o sentido e a qualidade do parcial” (GOERGEN,
2006, p. 112).
Nessa perspectiva de ação coletiva docente, de partilha de saberes e experiências, as
professoras Sônia e Norma também destacam:

Mas o que dá para fazer com o que se tem é pelo menos trabalhar mais em equipe,
valorizar mais atitudes de cooperação, de ajudar o outro, um tem dificuldade o outro
vai lá, vamos ajudar. (PROFESSORA SÔNIA)

Como professora a gente tem que pensar, provoca o buscar. Então, uma busca, já
quer dividir, um já quer perguntar, é isso que aconteceu no nosso grupo.
(PROFESSORA NORMA)

A prática pedagógica com enfoque criativo possibilita, segundo as falas das


professoras, a valorização do outro nas ações realizadas em sala, na escola, na interação com
os estudantes, com outros professores, com a comunidade escolar. Percebemos isso em todas
as falas coletadas e destacamos, aqui, o relato da professora Sônia quando ela sinaliza o
“outro”, “ajudar o outro”, pois acreditamos, junto a Pimenta (2012, p. 22), que “[...] os
saberes da experiência são também aqueles que os professores produzem no seu cotidiano
docente, num processo permanente de reflexão sobre sua prática, mediatizada pela de outrem
– seus colegas de trabalho, os textos produzidos por outros educadores”.
As possibilidades de práticas pedagógicas com enfoque criativo proporcionam a
compreensão do outro nos processos educativos assim como a partilha de saberes.
Destacamos, assim, um aspecto relevante na fala da professora Júlia a seguir, que, além da
partilha de saberes, problematiza informações que constituem a prática pedagógica dos
professores na medida em que compreendem seus contextos de atuação e os reelaboram para
melhor conduzirem suas práticas. Podemos sinalizar elementos da ecoformação, ou seja, a
interação do docente com seu entorno social e humano, considerando sempre a relação
natureza, sociedade e indivíduo (ZWIEREWICZ; TORRE, 2009).

Compartilhar com os professores esse tipo de informação: o porquê do município,


até onde a gente pode chegar, coisas que a gente mora aqui e nem sabia que tinha. A
gente conhecer mesmo de onde a gente vem, onde a gente está pisando. Com os
projetos a gente pode sugar, vou usar bem essa palavra, bastantes coisas das
professoras. (PROFESSORA JÚLIA).
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A relação indivíduo, contexto e natureza aparecem novamente nas falas das


professoras Virgínia e Norma quando elas salientam que uma das possibilidades de práticas
pedagógicas com enfoque criativo é a fala do estudante, não só a do professor.

Não é aquela escola que só o professor fala. Eles (alunos) participam, eles
desenvolvem, eles dão sugestões, eles falam o que eles acham. (PROFESSORA
VIRGÍNIA)

Eu já estou percebendo a diferença nas crianças, quanto ao raciocínio, pensar, eles


estão sendo mais críticos. O aluno... ele tem que buscar. (PROFESSORA NORMA).

A prática pedagógica com enfoque criativo, segundo os docentes entrevistados, com


destaque no relato da professora Virgínia, possibilita ao aluno um desenvolvimento crítico,
pois não é só o professor que fala, os alunos têm espaço, têm voz, “eles falam o que eles
acham”. Essa possibilidade ocorre devido a uma transformação da ação docente, pois
geralmente o espaço da sala de aula é marcado pela fala e comandos do professor.

[...] sem esta transformação em nossa maneira de pensar, de sentir e agir, sem este
cuidado, sem esta sensibilidade e o aprendizado da espera vigiada e da escuta mais
sensível, ambas tão urgentes e necessárias, sem a amorosidade e a ternura habitando
nossos corações, certamente não poderemos realizar aquilo que nos corresponde
nesta vida, ou seja, não poderemos educar, não poderemos impregnar de sentido o
cotidiano da vida, não poderemos compreender a beleza de nossa profissão
educadora e nos realizarmos profissional e humanamente falando. (MORAES, 2010,
p. 5).

Acreditamos, junto a Moraes (2010), e confirmamos com os dados desta pesquisa, que
uma das maneiras de impregnar de sentido o cotidiano da escola é deixar o aluno expressar-
se, escutar o que dizem essas vozes muitas vezes silenciosas e outras estridentes, entender
seus gostos, seus desejos, seus medos, suas dúvidas, o que compreendem o que gostariam de
mudar; enfim, valorizar suas opiniões sem ridicularizá-los, sem desconsiderá-los, sem
menosprezá-los em nome de uma verdade, ou de um saber “correto”. Uma espera vigiada e
uma escuta sensível possibilitam práticas pedagógicas com enfoque criativo.
Dentro dessa espera e dessa escuta vigiada e sensível, ganham destaque as relações:
estudante/professor, estudante/conhecimento, escolas/contextos sociais e culturais. Quando a
escola abre-se e insere-se no contexto social e cultural dos alunos e professores e não à parte
dele, há possibilidades para práticas pedagógicas com enfoque criativo, como bem destaca a
professora Mara em seu relato a seguir:
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Eu acho que com essa ligação entre as escolas. Porque cada escola tem a sua
realidade, mas isso não quer dizer que eu tenho que estar fora da realidade da escola
do meu vizinho. Eu posso simplesmente não usar o que ele está usando, mas, se a
gente troca informações, eu posso usar de uma forma diferente. (PROFESSORA
MARA).

Dentre os membros fundadores da RIEC entrevistados, destacamos de suas falas, as


possibilidades de práticas com enfoque criativo:

O que é possível a partir do que os professores estão fazendo.


Ajuda a construir um caminho.
Os projetos criativos ecoformadores são uma referência e não um modelo.
(PROFESSORA MARLENE ZWIERWICZ)

Aproximação entre escola e Universidade.


Rever currículos, formação docente e visão de escola.
Trocas de experiências entre escolas (valorização dos processos).
A comunidade percebe a escola como um espaço de ecoformação.
Valorização e identificação de experiências na Escola Pública.
(PROFESSORA VERA LÚCIA SOUZA E SILVA).

O que os membros fundadores da RIEC destacam como possibilidade implica muito


mais na formação de professores. A perspectiva dos membros fundadores, os quais também
são formadores docentes e atuam diretamente com os professores de Escolas Criativas,
demonstra possibilidades de prática pedagógicas com enfoque criativo na visão do formador.
Os professores entrevistados que atuam em Escolas Criativas sinalizaram as possibilidades de
tais práticas na perspectiva da ação pedagógica docente. Dentre as falas apresentadas, tanto
dos professores quanto dos membros fundadores, percebemos que as possibilidades de
práticas com enfoque criativo são amplas e já se mostram em efetiva realização por parte dos
professores. Destacamos, ainda, a potencialidade que tais práticas abrem para o
aprofundamento teórico em relação aos conceitos que embasam tais práticas, para permitir
que essas práticas sigam respaldadas teórica e metodologicamente.
As possibilidades de práticas pedagógicas com enfoque criativo, apontadas pelos
professores e pelos membros fundadores da RIEC e analisadas pela presente pesquisa,
retiradas do recorte dos relatos foram: postura docente aberta e flexível; partilha de saberes;
ação coletiva docente; ampliação das relações entre as escolas; relação aluno/professor que
buscam e pesquisam juntos.
Ainda, dentro das possibilidades, os membros fundadores da RIEC destacaram: partir
dos que os professores estão fazendo (sem desconsiderar o saber docente); ajudar a construir
um caminho (não aplicar uma metodologia verticalmente, no caso dos Projetos Criativos
Ecoformadores); aproximar escola e universidade; revisar currículos; formação docente; troca
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de experiências entre as escolas valorizando os processos; comunidade percebe a escola como


um espaço de ecoformação; valorização e identificação de experiências na escola pública.
Os professores, mesmo afirmando que os limites não impedem práticas criativas,
pontuaram de forma contundente aquilo que consideram barreiras e limites para uma
realização plena de tais práticas. Os limites foram apontados, e os professores entrevistados
enfatizaram, em suas narrativas, que tais limites não impedem que práticas com enfoque
criativo sejam inseridas nos contextos e nos processos educacionais e escolares. Podemos
destacar a vontade de inovar por parte desses professores, uma vontade de, mesmo com
dificuldades, realizar aquilo que acreditam ou dizem acreditar ser uma prática mais aberta,
inovadora e criativa.

A primeira coisa na questão dos limites é a aceitabilidade, a abertura ao novo. E a


gente sabe que nem toda escola é aberta a isso porque bagunça tudo, querendo ou
não, para alguns isso é trabalho, que movimenta a rotina, então é um limite. Mas eu
acho que o limite maior de todos é o professor se aventurar a fazer isso. Então a
primeira barreira surge dali, do profissional, de ele se dispor a fazer o novo, porque
dá trabalho e nem sempre dá certo. (PROFESSORA MARIA).

A fala da professora Maria destaca um aspecto que podemos considerar tanto como
possibilidade quanto limite: a postura docente. O envolvimento do professor, a abertura ou
não ao novo, a iniciativa em romper práticas engessadas e partir para desafios depende apenas
do professor “se dispor a fazer o novo.” A professora Maria destaca atitude resistente do
professor ao novo como um limite para práticas pedagógicas com enfoque criativo. Contudo,
de maneira nenhuma pretendemos aqui culpar o professor, pois temos plena consciência de
que, muitas vezes, os contextos educacionais em que atua fazem com que o professor assuma
posturas equivocadas e a “[...] formação envolve um duplo processo: o da autoformação dos
professores, a partir da reelaboração constante dos saberes que realizam em sua prática,
confrontando suas experiências nos contextos escolares; e o de formação nas instituições
escolares em que atuam” (PIMENTA, 2012, p. 33).
Acreditamos que a reelaboração constante da prática nos contextos escolares pode
transformar uma prática docente resistente ao novo em uma prática docente criativa na
medida em que, como sinalizaram os professores desta pesquisa, o professor sinta-se
acolhido, em um ambiente de troca e partilha de saberes permanente, em que as escolas
percebam-se em suas identidades próprias, porém troquem e partilhem experiências.
A partilha e a troca de experiências aparecem pontuadas pelos professores como um
limite se não ocorrem de forma plena. Um aspecto que impede e limita a partilha e a troca,
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como sinaliza a professora Ana em seu relato a seguir, é a estrutura política voltada a essas
ações.

Os limites são essas questões que para tu cresceres, precisa também do outro,
precisas partilhar. Então, é a questão de estrutura mesmo, as políticas, a estrutura do
teu trabalho que está ligada a questões políticas, então é isso também que barra. Não
tem o que te segure de possibilidades, só que tu podes crescer muito mais se tivesse
uma estrutura, uma política voltada para isso, tempo de troca. (PROFESSORA
ANA).

Além de uma estrutura política voltada à partilha e à troca de experiências docentes,


apontada como um limitador para práticas pedagógicas com enfoque criativo, os professores
destacaram, como aparece na fala anterior da professora Ana, o tempo.
A professora Ana destacou em seu relato o tempo disponível para as trocas de
experiências que a estrutura política não permite. Já a professora Sônia destaca, em seu relato
a seguir, o tempo para planejar, tempo para fundamentar os projetos realizados.

Tempo. Falta tempo, para planejar com outros professores. É questão mesmo de
grade horária, do tempo de estar em sala de aula, prova para corrigir, burocracia
também é uma coisa que impede muito. Tem que, às vezes, fazer um projeto para
daí poder trabalhar. Esse tempo para fundamentar, essa habilidade de fundamentar a
gente não tem também em muitos casos. (PROFESSORA SÔNIA).

Para planejar com outros professores, fazer um projeto e fundamentá-lo são atividades
que necessitam de tempo e que a professora Sônia destacou como limitador: a falta desse
tempo. Segundo Moraes (2010), a necessidade de um tempo interativo e rico, em que os
processos de mediação e intermediação ocorram, deve estar presente e ser considerado de
fundamental importância em contextos pedagógicos. Tanto para ensinar quanto para aprender
é preciso reconsiderar e ressignificar o tempo escolar. A professora Norma a seguir destaca
em sua fala inquietações que considera limitadoras em relação também ao tempo.

O tempo. Hoje meu maior limitador é o tempo. Eu teria que ter mais tempo para
criar e eu não tenho esse tempo. Então, eu faço dentro das minhas limitações, de
acordo com o que eu posso. (PROFESSORA NORMA).

A professora Norma destacou, também, a questão temporal como um limitador de


práticas pedagógicas com enfoque criativo. Os tempos escolares segundo Moraes (2010),
deveriam estar a serviço da aprendizagem, ou seja, tempo disponível para assuntos, temas,
conversas, partilhas, planejamento de ações com foco na aprendizagem.
Seguimos com mais três relatos apontando limites para as práticas pedagógicas com
enfoque criativo, transdisciplinar e complexo, segundo os professores:
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A gente tem consciência que a gente está trabalhando e mostrando para as crianças o
que é o certo fazer, mas na verdade elas não sabem que a gente realmente não
consegue fazer o devido trajeto do material (lixo). (PROFESSORA JÚLIA)

Os recursos financeiros. São feitas diversas atividades então os materiais vão muito
rápido daí tem que comprar. (PROFESSORA VIRGÍNIA)

Acho que o limite maior seria uma sala com muitas crianças, que impede a gente, às
vezes, de fazer um trabalho melhor. (PROFESSORA MARA).

Estes são limites estruturais que não dependem da ação docente e sim de instâncias
maiores como gestão política da educação. A má gestão educacional implica na ação docente
e, mesmo que o professor não considere os limites e as barreiras como impeditivos para que
práticas pedagógicas com enfoque criativo realizem-se nos contextos escolares, questões
como as ressaltadas nas falas dos docentes entrevistados demonstram que algumas barreiras
ainda são desafios a serem superados e modificados.
Todas as ações dentro de uma escola devem convergir para que os encontros e os
acontecimentos ocorram em função da transformação, da educação e do crescimento dos
atores que atuam nos contextos educativos. A escola não forma somente o estudante na
relação estabelecida no processo ensino e aprendizagem. Professor e aluno emergem juntos
em uma trama relacional que permite a ambos formarem-se, reconfigurarem-se,
reestruturarem-se como pressupõem os referenciais teóricos por esta pesquisa analisados.
Os limites, então, são considerados desafios e são considerados como parte de um
processo, sempre estimulando a compreensão do entorno e da realidade a fim de considerar os
limites, compreendê-los e traçar soluções, buscar parcerias, ações coletivas que não se
resignem com o imposto e sim que procure impactar com soluções e até novos desafios.
Os membros fundadores da RIEC destacam os limites como desafios a serem
vivenciados. Destacamos suas falas em relação a esse aspecto:

O processo de mudança é gradativo. Há de se avançar nos conceitos. Construir


práticas com os professores (formação). (PROFESSORA MARLENE
ZIWERWICZ)

Os professores precisam aprofundar os conceitos e se identificar com os princípios


teóricos da ecoformação. (PROFESSORA VERA LÚCIA SOUZA E SILVA)

Diante das falas coletadas, percebemos que os limitadores não impedem que práticas
pedagógicas com enfoque criativo sejam realizadas, porém, para dar sustentação a tais
práticas, os dados apontam também para a necessidade de maior compreensão por parte dos
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professores que já atuam em uma perspectiva criativa, dos conceitos tanto teóricos quanto
metodológicos que percorrem o projeto Escolas Criativas e a RIEC.
Para tanto, acreditamos, com base nos dados, que a formação docente voltada aos
pressupostos teóricos e metodológicos dessas práticas deve ganhar mais destaque.
Em relação aos limites, podemos destacar dos relatos dos professores entrevistados: a
postura docente (neste caso, fechada e inflexível); o tempo institucional e pessoal; a estrutura
organizacional e política; os recursos financeiros; o número de alunos em sala.
Dentre os membros fundadores da RIEC, podemos destacar de seus relatos os
seguintes limites de práticas pedagógicas com enfoque criativo: o processo de mudança é
gradativo; o avanço nos conceitos que sustentam teórica e metodologicamente as Escolas
Criativas e RIEC.
As possibilidades e os limites apontados pelos professores que integram Escolas
Criativas, analisados pela presente pesquisa mostraram que a ação docente é fundamental, ou
seja, parte do professor a iniciativa por enfocar suas práticas na perspectiva criativa, e a
abertura ao novo depende de uma postura docente assumida conscientemente. Para ampliar as
possibilidades e transpor os limites aqui analisados, os professores precisam como
demonstraram em seus relatos, que, além de uma postura aberta e flexível assumida, precisam
também embasar teórica e metodologicamente essa postura para que as ações e as práticas
docentes com enfoque criativo ganhem respaldo e plena execução. Acreditamos, dessa forma,
na força da formação docente inicial e continuada que levem em consideração os pressupostos
ontológicos, epistemológicos e metodológicos da complexidade, da transdisciplinaridade e da
criatividade como via para a ressiginificação de uma prática criativa que já ocorre, tanto que é
capaz de apontar seus limites e suas possibilidades, porém que necessita de uma compreensão
aprofundada dos processos que se dão nessa prática.

Considerações Finais

A presente pesquisa teve como objetivo geral analisar as possibilidades e os limites de


práticas pedagógicas com enfoque criativo nas falas de professores de Escolas Criativas. Para
alcançá-lo, buscamos identificar nas falas dos sujeitos desta pesquisa (coletadas por meio de
entrevista focalizada) o que apontam como possibilidades e limites de práticas pedagógicas
com enfoque criativo.
As possibilidades de práticas pedagógicas com enfoque criativo, apontadas nesta
pesquisa, foram: postura docente aberta e flexível, partilha de saberes, ação coletiva docente,
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ampliação das relações entre as escolas, relação aluno/professor que buscam e pesquisam
juntos. E as mencionadas pelos membros fundadores da RIEC foram: partir dos que os
professores estão fazendo, ajudar a construir um caminho, aproximar escola e universidade,
revisar currículos e formar docentes; trocar experiências entre as escolas, valorizando os
processos. A comunidade pode perceber a escola como um espaço de ecoformação e a
valorização e a identificação de experiências na escola pública.
Em relação aos limites, podemos destacar, dos relatos dos professores entrevistados:
novamente a postura docente (agora fechada e inflexível), o tempo institucional e pessoal,
estrutura organizacional e política, recursos e número de alunos em sala. E, dentre os
membros fundadores da RIEC, podemos destacar, de seus relatos, os seguintes limites de
práticas pedagógicas com enfoque criativo: o processo de mudança é gradativo, há de se
avançar nos conceitos que sustentam teórica e metodologicamente as Escolas Criativas e a
RIEC. Destacamos as possibilidades e os limites, porém não pretendemos categorizá-los, pois
o que importa para nossa pesquisa é o relato do professor. Mesmo assim, conseguimos elencar
as possibilidades de uma maneira resumida para que se perceba de maneira pontual a resposta
à questão problema: Quais as possibilidades e os limites de práticas pedagógicas com enfoque
criativo?
Para o professor potencializar sua prática docente e a transformá-la realmente em uma
prática criativa, transdisciplinar e complexa, considerando a complexidade dos fenômenos e a
criatividade individual, coletiva e dos contextos educacionais, é preciso investir em formação
docente inicial e continuada que considere os conceitos da criatividade, da
transdisciplinaridade e da complexidade em todas as implicações epistemológicas e
metodológicas que tais conceitos trazem e que precisam ser estudados, analisados e
considerados como vias para uma educação mais conectada com a realidade dos contextos de
atuação de alunos e de professores.

REFERÊNCIAS

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Research in Education. Revista Eletrónica de Investigación Educativa. Granada, Espanha,
v.4, n.1, p. 1-24, 2002.

BOLIVAR, Antonio; DOMINGO, Jesús. La investigación biográfica y narrativa em


Iberoamérica: Campos de desarrolo y estado actual. Forum Qualitative Sazionalforschung/
Forum: Qualitative Social Research, v. 7, n. 4, art. 12, set. 2006.
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BRUNER, Jerome. Atos de significação. Tradução Sandra Costa. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1997.

GOERGEN, Pedro. Novas competências docentes para a educação: anotações para um


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GESSER, Verônica. Currículo e avaliação: investigações e ações. Itajaí, SC; Maria do Cais,
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Brasília, DF: UNESCO, 2001.

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Cortez, 2012.

ZWIEREWICZ, Marlene; TORRE, Saturnino de la. (Org.). Uma escola para o século XXI:
escolas criativas e resiliência na educação. Florianópolis: Insular, 2009.

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