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CAPÍTULO 1

Introdução
CENTENÁRIO DA MISSÃO MILITAR FRANCESA NO BRASIL, 1919/1940:
VETOR DE PROFISSIONALIZAÇÃO EM NOSSO EXÉRCITO
Gen Bda Marcio Tadeu Bettega Bergo
I
Esta obra visa a marcar a celebração dos 100 anos de um importantíssimo acontecimento em nosso Exército, evento que se constitui em um marco de inovação. Em 1919, após minuciosos
planejamentos e em função da premente atualização, foi contratada a vinda de uma Missão Militar, para instruir os efetivos e alterar procedimentos, tanto administrativos como operacionais,
da Força Terrestre.

Nos preâmbulos do Século XX, o mundo se encontrava em ebulição. Consolidaram-se as tecnologias provenientes da Revolução Industrial, novas ideologias se propagavam.
Con itos surgiam.

A “Grande Guerra”, de 1914 a 1918, modi cou a forma de combater. Depois dela, com o advento da mobilidade e do fogo, as frentes deixaram de ser estáticas. A aviação e a
motomecanização, incluindo os blindados, se zeram presentes, novas técnicas de Estado-Maior surgiram. Tudo isso tornava obsoletos os procedimentos anteriores.

A R M V S
No período compreendido entre o nal do Século XIX e o início do Século XX, algumas reformas já haviam sido empreendidas.

Uma, bem marcante, foi em 1890, com o “Regulamento Benjamim Constant”. Este imprimia, nos o ciais, formação excessivamente teórica e bacharelesca. O processo carecia de instrução
militar e exercícios práticos no terreno. Tais de ciências a oraram nas campanhas da Revolução Federalista, no Sul (1893-1895); de Canudos, na Bahia (1896-1897); e Guerra do Contestado,
no Sul (1912-1916).

Em sequência, as reformas de João Nepomuceno de Medeiros Mallet deram ênfase à importância da boa educação militar e da prática de campo, em exercícios e manobras.

José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, exerceu forte in uência nas reformas de então. Como Ministro das Relações Exteriores dos governos Rodrigues Alves, Afonso
Pena e Hermes da Fonseca, preconizou sempre a renovação das Forças Armadas brasileiras, para que o Brasil pudesse desempenhar, com prestígio e segurança, seu papel no convívio das
nações. Defendia o Exército como braço forte da política.

No entanto, todas essas tentativas, internas, se mostraram insu cientes. Concluiu-se que deveríamos buscar, no estrangeiro, quem pudesse melhor nos ajudar a avançar nos conhecimentos, na
capacitação e na prática das inovações do combate. Nosso Exército necessitava acompanhar os novos tempos.

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O marechal Hermes Rodrigues da Fonseca, Ministro da Guerra e depois Presidente da República, organizou amplas manobras militares, com exercícios na região de Santa Cruz.
Modernizou o Exército e criou Grandes Unidades, as chamadas “Brigadas Estratégicas”. Instituiu o Serviço Militar Obrigatório e os Tiros de Guerra. Consolidou o processo com o envio de
o ciais para estágio na Europa.

Como, à época, buscávamos conhecimentos no Exército Alemão, foi para lá que se dirigiu aquele contingente. No retorno, tomaram para si a luta por mudanças no Exército. Pela sua retórica
nacionalista e reformista, além da admiração por militares do Império Otomano, que modi caram profundamente o seu país, nossos o ciais caram conhecidos como os “Jovens Turcos”. Eles
traduziram manuais germânicos, tornaram-se professores na Escola Militar do Realengo, fundaram a revista A Defesa Nacional, com seu primeiro número lançado em 10 de outubro de 1913.
Suas in uências foram signi cativas e contribuíram para renovações tanto na educação civil como nas relações positivas entre a sociedade e os militares.

AG G
A guerra na Europa, iniciada em 1914 e nda em 1918, modi cou o panorama mundial. O con ito, tido na ocasião como “a última das últimas guerras”, foi apenas o prenúncio de outras! E
passou à História, posteriormente, como Primeira Guerra Mundial, após a eclosão da Segunda.

O relevante vencedor seria a França e, assim, nela fomos sorver ensinamentos. As negociações ocorreram em Paris, entre o adido militar brasileiro, coronel Alfredo Malan d’Angrogne, e o
Ministro da Guerra francês, Georges Clemenceau. O marechal Joseph Joffre indicou o general Gamelin para che ar a Missão.

A Missão Militar deveria atuar tanto na dimensão educacional, quanto no assessoramento ao Estado-Maior. Ela objetivaria a modernização técnica, renovação e melhoramento intelectual
dos chefes militares brasileiras. O contrato foi assinado em 08 de setembro de 1919, pelos governos de ambos os países.

Embora o termo inicial fosse de quatro anos, a Missão se estendeu por vinte, com seis renovações e teve oito chefes franceses. Sua atuação, ainda que se concentrasse no Rio de Janeiro, então a
capital do Brasil, teve abrangência nacional e seus re exos subsistem até os dias de hoje, nas lides castrenses.

Suas in uências diretas perduraram até a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Nela, incorporados que fomos ao con ito junto às forças norte-americanas, passamos e receber doutrina
militar, metodologias, processos e formas de atuação daquele país, além de material e equipamentos.

OP E F
Como argumentos principais, tivemos a proximidade cultural, existente desde o início do século XIX (vinda da Missão Artística Francesa, em 1816). Também se sobressai a experiência bem-
sucedida da primeira Missão Militar Francesa no treinamento da Força Pública (atual Polícia Militar) do Estado de São Paulo (1906 a 1914).

Em dezembro de 1917, fora criada a Comissão de Estudos de Operações e Aquisição de Material na França, objetivando estudar as inovações tecnológicas ocorridas no armamento. Ficou
conhecida como “Missão Aché”, em virtude de ter sido che ada pelo General Napoleão Felipe Aché.

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Em julho de 1918, durante a guerra, o Brasil criara a Missão Médica Especial, para atuar na França. Foi auxiliar o Serviço de Saúde Aliado. Em outubro de 1918, havia sido acordada a vinda
de um grupo de instrutores, denominado “Missão Militar Francesa de Aviação”. O principal objetivo era desenvolver e organizar os serviços da aviação militar no Exército Brasileiro. Ela criou
escolas para pilotos, mecânicos e observadores, além de prosseguir na organização dos serviços aeronáuticos no nosso Exército.

Desta forma, a França, vencedora da Grande Guerra e culturalmente muito mais aproximada do Brasil, foi contatada para tal desa o, a pro ssionalização e modernização do nosso Exército,
contribuindo para seu fortalecimento. O contrato foi rmado no governo de Wenceslau Braz, cujo Ministro da Guerra era o general Alberto Cardoso de Aguiar, nascendo a “Missão Militar
Francesa no Brasil” (MMFB).

Do lado europeu, a diplomacia francesa dava indícios de motivações mercantilistas, focadas na obtenção de concessões e privilégios comerciais, fortalecendo sua presença na América do Sul.
A assinatura do contrato foi considerada uma vitória sobre os concorrentes germânicos.

Os primeiros integrantes chegados atuaram na rede nição do ensino militar de aperfeiçoamento. O foco recaiu sobre a EEM (Escola de Estado-Maior, futura ECEME), a EsAO (Escola de
Aperfeiçoamento de O ciais) e a Aviação Militar. Simultaneamente, atuaram nos cursos de formação de o ciais Intendentes, de Saúde, de Veterinária, na Equitação e na Educação Física. Os
missionários encarregavam-se de reorientar a doutrina, elaborar novos regulamentos, além de reformular as missões do EME.

F D
Os militares do Exército Francês, na maioria o ciais superiores, eram meticulosamente escolhidos para realizar trabalhos exigentes e importantíssimos. No início, a MMFB era formada por
23 o ciais e praças, sob o comando do General de Brigada Maurice Gamelin. Em 1923, novas cláusulas especi caram a posição dos franceses na hierarquia e de niram seus papéis como
consultores técnicos subordinados ao Chefe do EME.

A 1ª fase, de 1920 a 1925, teve como primeiro chefe o Gen Maurice Gamelin, seu próprio instaurador. Em 1919, previamente à instalação o cial dos trabalhos, ele e seu auxiliar, Maj Petibon,
passaram oito meses estudando o ambiente brasileiro, quando realizaram os planejamentos necessários. Fizeram a revisão, adaptação, atualização e tradução de regulamentos, em particular da
EEM e da EsAO. No ano seguinte, passaram a funcionar as Escolas de Intendência e de Veterinária.

Entre 1921 e 1922, foram adquiridos materiais bélicos, construídos novos aquartelamentos, campos de instrução, arsenais e fábricas de pólvoras e de explosivos. Em ns de março e início de
abril de 1922, realizaram-se as manobras de Saicã, onde os novos ensinamentos (marchas, estacionamento, maneabilidade, combate e tiro) foram praticados.

A 2ª fase, de 1925 a 1930, teve como segundo chefe o Gen Fréderic Coffec (1925/1927) e terceiro o Gen Joseph Spire (1927/1930). Nesta época, o general Augusto Tasso Fragoso, chefe do
EME (1922-1929), reduziu a in uência dos franceses, reorientando os trabalhos da Missão, concentrando-os nas atividades de auxílio, excluindo-a do comando das Escolas Militares.
Modernizou equipamentos, com aquisições mais dinâmicas. Finalmente, afastou os franceses de questões políticas.

Os missionários realizaram viagens a guarnições distantes, acompanhados por brasileiros, com o intuito de estender sua in uência.

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Um acordo bilateral foi rmado, de maneira que o ciais brasileiros com destaque nas Escolas Militares tivessem aperfeiçoamento na França. No regresso, assumiriam a
direção dos cursos.

Na Revolução de 1930 e, posteriormente, no movimento constitucionalista de 1932, os trabalhos do EME e de suas escolas ressentiram-se com o envolvimento político de muitos
comandantes. Em decorrência, a Missão Francesa perdeu parte de sua in uência.

Na 3ª fase, que durou de 1930 a 1933, o quarto chefe foi o Gen Charles Hutzinger (1930/1932) e o quinto o Gen Eugène Durandin (1932/1933).

Contrariamente às recomendações, Hutzinger não soube preservar a neutralidade dos franceses. Alguns de seus o ciais participaram, ainda que indiretamente, no
movimento paulista/mato-grossense de 1932. A atitude dúbia (parte de seus integrantes mantivera-se neutra) contribuiu para o enfraquecimento da Missão. Até a nomeação
de um novo chefe, em 1933, ela enfrentou a oposição de in uentes o ciais que ocupavam cargos de con ança no EME, como o tenente-coronel Juarez Távora. A missão correu
sério risco de fechamento, contudo, o contrato foi renovado.

A 4ª e derradeira fase, de 1933 a 1940, teve como sexto chefe o Gen Jacques Baudouin (1933/1935), sétimo o Gen Paul Noel (1935/1938) e oitavo (e último) o Gen Georges Chadebec de La
Valade ( m de 1938 até 1940).

Com a nomeação do general Baudouin, mais experiente, integrante da Missão desde 1927, se normalizaram as relações entre ela e os chefes do EME. Na ocasião, porém, o seu
efetivo foi reduzido, pois uma dezena de instrutores teve que retornar ao seu país, seja por imposições de carreira, seja por problemas funcionais. Ao nal de 1934, ela se
resumia ao Chefe e cinco o ciais.

Na Escola do Realengo, um único instrutor francês participava das atividades de ensino, enquanto as aulas eram integralmente ministradas por capitães e majores brasileiros.
Em 1935, oito o ciais compunham a Missão, e seu número estabilizou-se em torno de seis em 1938. A Baudouin sucedera o general Noel, que buscou transmitir a doutrina francesa de forma
mais sutil, com ampla bibliogra a e auxílio técnico.

O derradeiro titular, general La Valade, com a Segunda Guerra Mundial já em curso na Europa, assistiu à “Grande Manobra da 3ª Região Militar de 1940”, no campo de Instrução de Saicã.
Era o coroamento dos trabalhos da MMFB.

De modo geral, a MMFB promoveu a reestruturação de todo o mecanismo geral do Exército, incluídos, necessariamente, além do ensino, os órgãos dos Serviços, cuja existência, em tempo de
paz, tomava por base a melhor preparação possível para o desempenho do seu papel em caso de guerra, através do mecanismo da Mobilização.

O T MMFB R E
A responsabilidade maior da MMFB no campo educacional foi a reorganização das escolas militares existentes e a criação de novas. Seu envolvimento na instrução do EB, a partir de 1920, foi
completo, direto e intenso. O ciais, subo ciais e praças, de todas as armas, foram inseridos no projeto educacional e reestruturador de Gamelin e seus subordinados. Houve uni cação da
doutrina, com tradução e publicação de regulamentos.

Os capítulos seguintes mostrarão cada uma delas em detalhes.

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HISTÓRICO DA MMFB NO EME
O Estado-Maior do Exército foi criado, antes da vinda da MMFB, por intermédio da Lei nº 403, de 24 de outubro de 1896, sancionada pelo
presidente da República, Prudente de Morais. Tinha o objetivo de tornar o Exército uma instituição moderna, que acompanhasse as evoluções da
arte da guerra e que tivesse maior presteza administrativa. O EME era subordinado ao Ministério da Guerra e seu primeiro regulamento é datado
de 06 de junho de 1899. Seu primeiro titular foi o General de Divisão João Tomaz Cantuária, que assumiu o cargo no dia 12 de janeiro de 1899,
permanecendo no exercício da função até 9 de dezembro de 1902.

Entender as causas históricas da vinda da Missão Militar Francesa ao Brasil é fundamental para compreender a reestruturação sofrida pelas Forças Armadas,
Tomaz Cantuária 1º Chefe do Estado-Maior. particularmente o Exército, no século XX. No nal do século XIX, após a guerra do Paraguai (1865-1870), o Brasil identi cou as de ciências de sua força
(Acervo do Arquivo Histórico do Exército – AHEx)
terrestre, marcada por poucos integrantes, sem preparação e com armamento insu ciente. Em que pesem reformas levadas a cabo, as campanhas da Revolução
Federativa, de Canudos e do Contestado con rmaram tais desacertos.

Alguns países participantes (Inglaterra, Alemanha e França) queriam exercer in uência no Exército Brasileiro. Entre os fatores que sustentaram a aproximação
entre a França e o Brasil estavam os ideais da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. Além disso, havia o interesse da elite brasileira, na ocasião,
em copiar os modelos culturais e cientí cos da França. A França estava saindo da guerra com um exército dos mais famosos, especialmente no campo da
aeronáutica e pela estratégia de combate terrestre que, naquela época, gozava de grande prestígio como poder triunfante. No Brasil, os deputados francó los
Nabuco Gouvêa, Maurício Lacerda e João Pandiá Calógeras (futuro Ministro da Guerra, entre 1919 e 1922) lideraram uma intensa campanha a favor do envio
de tropas brasileiras para a França, a vinda de uma equipe militar francesa para o Brasil e a compra de equipamentos militares na França.

João Pandiá Calógeras Ministro da Guerra.


(Acervo do Arquivo Histórico do Exército – AHEx)
Do ponto de vista brasileiro, a missão foi pensada como estratégia de lidar com o perigo externo. O Brasil não tinha um exército pro ssional e o desejo da elite
era criar um. Os franceses, dentro do sistema militar, eram completamente avessos à abertura de suas escolas para militares estrangeiros. Por isso, as missões
saíam da França para dar instruções no exterior, mas poucos estrangeiros eram convidados a frequentar as escolas militares daquele país.

E, entre 1918 e 1919, 24 o ciais foram enviados à França, sob a che a do General Napoleão Felipe Aché, compondo a Comissão de Estudos de Operações e de
Aquisição de Material (“Missão Aché”). A nalidade da equipe enviada era a de absorver, durante a Guerra, a maior quantidade de conhecimentos sobre a
Doutrina Militar Francesa e adquirir o material necessário à sua utilização no Brasil. Durante as negociações, o Governo Brasileiro comprometeu-se a não
estabelecer contrato com outra missão estrangeira para ns militares e dar preferência à indústria francesa em seus pedidos de material de guerra.

Finalmente, numa comunhão de interesses, Brasil e França, em 1919, assinaram o primeiro tratado para a vinda da missão de instrução militar, que foi sendo
renovado até 1940, quando a França deixou de nitivamente o Brasil, devido a seu envolvimento na Segunda Guerra Mundial.
Prudente de Morais 1º Presidente.
(Acervo do Arquivo Histórico do Exército – AHEx) No início da década de 20, o Estado-Maior não apresentava e cácia real. Se houvesse necessidade de utilizar a Força numa situação concreta de guerra,
enfrentaria sérios entraves como a inexistência de material e despreparo de seus homens. O soldado brasileiro não era de fato um militar e sim, um civil de farda.

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As mudanças começaram a acontecer a partir das orientações do general Maurice Gamelin, primeiro chefe da Missão Militar
Francesa. Ele introduziu uma série de medidas, alterando o funcionamento das escolas militares e a organização da Força Terrestre.
Isso foi possível porque os o ciais da comissão estavam subordinados diretamente ao Ministério da Guerra. Essa posição facilitou o
diálogo e possibilitou a introdução de rápidas mudanças administrativas internas.

Contrato da MMFB de 1927. (Acervo do EME)


O Estado-Maior sofreu sua primeira alteração estrutural: passou a ser o centro diretor e coordenador supremo de todos os serviços
do Exército, sendo responsável pela condução da instrução, pela revisão e confecção dos regulamentos e pela efetiva preparação dos
homens para a guerra. Consequentemente, o regulamento foi modi cado. Os comandantes das Regiões e os das Grandes Unidades
cavam subordinados ao Estado-Maior em tempo de paz e de guerra. O chefe seria um general de divisão, escolhido pelo
Presidente da República. O Estado-Maior passou a encarregar-se de diversos serviços: informações; operações; estudo sobre
exércitos estrangeiros; missões militares; planos de concentração; ligação com a Marinha; manobras; viagens de inspeção; escolas;
Missão Aché – 1918. (Acervo do EME)
regulamentos; efetivos; transporte; aprovisionamento; mobilização; material bélico; estatísticas; e estudo de história e geogra a.
Com isso, tornou-se o órgão essencial, sendo de sua competência o preparo do Exército para a guerra, em tempos de paz, bem como
o estudo dos elementos necessários para a defesa nacional.

ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELA MMFB NO EME


Rondon e seu Estado-Maior na
Campanha do Paraná – 1924. (Acervo do IGHMB)

Contrato da MMFB de 1927. (Acervo do EME) Diante da certeza de que o preparo militar é fundamental para a soberania de qualquer exército, a Missão iniciou seus trabalhos
buscando a reconstrução do sistema: haveria necessidade de colocar os o ciais dentro de um quadro hierarquizado. A valorização e
consequente promoção do militar seriam baseadas no desempenho da atividade e da função. Não deveria existir projeção funcional
por ordem política ou similar. Os o ciais seriam distribuídos nas unidades militares de acordo com o resultado conquistado ao nal
do curso realizado nas escolas; sendo que os melhores alunos iriam servir nos estados-maiores e lá praticariam e disseminariam o
conhecimento aprendido.

Os trabalhos da MMFB concentraram-se na confecção de planos e projetos, tais como: plano de informações sobre períodos
políticos; projetos de regulamentos para instruções; plano de defesa; plano de mobilização e transporte; e estudo dos regulamentos.
A Missão forneceu as bases necessárias à organização de um exército. Ela veri cou a mobilização do pessoal e do material, fez
estudos úteis sobre as ligações entre o comando e o governo, sugeriu a criação de um Conselho Superior de Defesa Nacional, um
Conselho Superior de Guerra, e a mobilização econômica e industrial. Além disso, com o objetivo de preparar melhor os militares,
foram criados dois cursos: um curso de aperfeiçoamento para a promoção ao posto de capitão e um curso de revisão, para permitir ao
o cial ser promovido ao posto de general.
Rondon e seu Estado-Maior, em Mallet, na campanha do Paraná – 1924. (Acervo do IGHMB)

Paulatinamente, foram introduzidas alterações na legislação, pois havia a necessidade de adequação das normas às
mudanças inseridas. Consequentemente, foram publicados os seguintes decretos e leis: Decreto nº 14.385 de 1º de
outubro de 1920, regulamentando o Serviço de Intendência da Guerra; o Decreto de 8 de outubro de 1920, que encurtava

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o tempo de serviço militar dos voluntários de um a dois anos, para o período máximo de quatro a dezoito meses; o Decreto de
11 de dezembro de 1919, subdividindo o território nacional em sete regiões militares e duas circunscrições militares, com o
objetivo de organizar a estrutura militar; o Decreto nº 15.934, de 22 de janeiro de 1923, determinando que todo brasileiro
seria obrigado a cumprir o Serviço Militar; o Decreto nº 5.632, de 31 de dezembro de 1928, estabelecendo, em seu art. 6º, que
o militar, para ser promovido por merecimento, em qualquer Arma ou Serviço, deveria realizar o respectivo curso de
aperfeiçoamento; o Decreto de Organização do Conselho Superior da Defesa Nacional; a Lei de Serviço Militar; Lei de
Organização do Ministério da Guerra; Lei de Organização Geral do Exército; Lei de Movimento de Quadros; a Lei de
Estado de Sítio; e a Lei de Requisição.

Vários regulamentos, ainda, foram refeitos, uma vez que estavam defasados e precisavam atender não só à
modernização do Exército Brasileiro, mas principalmente, adequar-se às peculiaridades da topogra a e clima em
nosso país.

Dentre os diversos documentos produzidos, destacam-se: o Novo Regulamento do EME; o Regulamento para a
Serviços para a aviação no Campo dos Afonsos- orientações da MMFB . (Acervo do EME)
Direção das Grandes Unidades; Regulamento para o Exército e o Combate de Infantaria; Regulamento para
Instrução Física Militar; Regulamento para Exercício e Combate de Cavalaria; Regulamento para os Exercícios
Combate e Tiro de Artilharia; Regulamento para o Serviço do Exército em Campanha; Regulamento para
Instrução dos Quadros de Tropa; Regulamento para Organização do Terreno; Regulamento para Inspeções,
Revistas e Des les; Regulamento para Emprego dos Meios de Transmissão; Regulamento para Organização
Geral dos Serviços no Exército; Regulamento de Minas; Regulamento de Pontes; Regulamento Reservado para o
Serviço de Estado-Maior de Campanha; e Regulamento para o Serviço da Intendência de Guerra.

Na década de 50, pós-guerra, dando continuidade à reestruturação do EB, o EME concebeu uma grande inovação,
criando o Estado-Maior combinado, composto de três seções: Informações e Segurança; Operações; e Logística.
Com essas mudanças, o principal órgão do EB obteria mais força e teria condições de criar planos em conjunto com
a Marinha e, agora, também com a recém-chegada Força Aérea.

Serviços de engenharia sob o comando da MMFB. (Acervo do EME)

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ASPECTOS DA DOUTRINA E
ENSINAMENTOS INTRODUZIDOS PELA
MMFB NO EME
A guerra é o m ao qual se destina qualquer exército. Essa era a visão dos gauleses. O chefe, pela
importância de sua função, deve ser o exemplo para a tropa e, por isso, seu caráter deve ser
ilibado. O Estado-Maior é o local no qual devem ser estruturados os comandos, veri car se a
comunicação está sendo e caz, ou seja, as ordens devem chegar à ponta da linha e as
informações da tropa devem chegar ao Estado-Maior. O comando deve ter o entendimento de
que a principal atividade da Força, em tempos de paz, é a instrução, pois só se vence uma guerra
com homens bem preparados. Os franceses valorizavam disciplina, servidão, obediência,
espírito de grupo, con ança, coragem, valor moral da tropa e justiça. Eles ensinaram que a
disciplina, a hierarquia e a subordinação são os princípios que embasam o Exército e lhe
Des le motorizado na Grande Manobra em Saicã – 3ªRM./1940. Porta Bandeira na Grande Manobra em Saicã – 3ªRM./1940. fornecem continuidade, mantendo vivos os valores caros à sociedade. Para os franceses, o
Foto: Sioma (Acervo do Museu do Comando Militar do Sul) Foto: Sioma (Acervo do Museu do Comando Militar do Sul)
Exército deve tratar de assuntos especí cos da Força, evitando se envolver em questões de
cunho político.

Ao se fazer uma análise dos diversos relatórios elaborados naquele momento histórico, percebe-
se, nitidamente, a in uência de muitos pontos da ideologia francesa no Exército Brasileiro. Sua
chegada alterou o embasamento doutrinário dos militares brasileiros. A missão ensinou que o
militarismo é mais do que a existência das Forças Armadas no seio da sociedade - na verdade, os
militares devem representar os valores de uma nação. Eles formam um grupo coeso, responsável
em perpetuar valores, principalmente a disciplina e a hierarquia. Ademais, deve ocorrer uma
interação com a sociedade e a consequente convivência pací ca numa relação de in uência
salutar. Este convívio harmônico faz parte da estrutura política do país.

Quando a Missão chegou ao Brasil, encontrou um Exército desestruturado: as seções do EME não
dialogavam entre si; as grandes unidades não estavam constituídas e não possuíam mobilização; o
efetivo existente era baixo; e os regulamentos não tinham aplicação prática. Além disso, não havia
uma ligação entre o Governo e o Exército. A meta da MMFB era oferecer objetividade ao seio
militar, mas muitos chefes ainda se encontravam alheios a essa evolução, haja vista a falta de interação
que ainda vigorava internamente; inexistia a organização em alguns estados-maiores e não havia um
método nas atividades desempenhadas.

Os problemas existentes, no Exército, não eram poucos e a defesa nacional não estava
Material adquirido na França. (Acervo do IGHMB)
organizada. O País não estava preparado para a guerra moderna, pois não explorava suas
reservas minerais, não existia organização industrial, nem utilizava as vias férreas. Além destes
problemas de ordem interna na Força, havia a pressão dos civis que ignoravam os interesses
nacionais. O Exército, sob a in uência do princípio francês, procurou extinguir o germe da
discórdia que prejudicava a Instituição.

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O LEGADO
A MMFB introduziu mudanças signi cativas no ensino e na instrução militar: houve a
valorização do estudo da história nacional, como fonte para o conhecimento da história
militar do país; o militar brasileiro passou a realizar exercícios práticos de terreno e a utilizar
a doutrina racionalista; foi adotado o método cartesiano; foram inseridas novas regras de
formação pro ssional e de promoção; e foram criados novos regulamentos, disseminando a
ideia de guerra moderna.

Ao se analisar a transformação ocorrida dentro da caserna com a reorganização dos


princípios de defesa nacional, durante o período em que a MMFB atuou no Brasil, chega-se
ao maior legado dos franceses: a modernização do Exército Brasileiro.

Uma das contribuições mais relevantes da MMFB foi a difusão do entendimento de que
sua nalidade precípua era a guerra. Os militares brasileiros reconheceram que, em
tempos de paz, deveriam adquirir conhecimentos teóricos e práticos, a m de estarem em
condições, caso necessário, de enfrentar o inimigo. Os franceses acreditavam que, para
cumprir essa importante nalidade, os militares deveriam estar muito bem preparados
sicamente. A educação física deveria fazer parte da rotina castrense, pois a instrução e os
exercícios físicos são fundamentais para o bom preparo de uma tropa. O Exército defende
os interesses da pátria, acima dos interesses individuais e partidários, por isso os valores
corporativos devem ser mantidos e sustentados pela hierarquia. Na caserna, exercita-se o General Gamelin Gen Setembrino de Carvalho
Primeiro chefe da MMFB - (Acervo do EME) Ministro da Guerra. (Acervo do EME)
respeito, a subordinação, a con ança no chefe, o espírito de grupo, a liderança, a coragem, a
disciplina e a determinação.

Os franceses tinham a convicção de que o Exército precisava de um corpo de doutrina


homogêneo, aceito por todos os o ciais, para manter a ordem e a disciplina. A valorização
conferida ao poder militar faz parte do legado da doutrina militar francesa. O militar passou
a conhecer seus deveres e tornou-se competente na sua pro ssão. A coesão e a
expressividade da alta cúpula militar concederam crédito político à Instituição que emergiu
no seio político e militar. A doutrina militar do Exército Brasileiro, antes da chegada dos
franceses, apresentava inspiração positivista, apesar de alguns declararem que, antes da
chegada da MMFB, o Exército não possuía nenhuma doutrina. Distanciando-se dessa
discussão, é relevante a rmar que a doutrina militar brasileira, após 1920, é obra da MMFB.

A MMFB propiciou novo sentido ao espírito militar brasileiro: o combatente passou a se


sentir valorizado e percebeu que sua carreira é uma das mais nobres que existe.
Inspeção do Ministro da Guerra - Gen Dutra na Grande Manobra em Saicã – 3ªRM./1940.
Foto: Sioma (Acervo do Museu do Comando Militar do Sul)

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REFERÊNCIAS

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AZEVEDO, Pedro Cordolino. História militar. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1998.
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doutorado em história para a obtenção do título de Doutor em História Social da Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História, 2009.
Disponível em: http://repositorio.unb.br/handle/10482/3811?mode=full. Acesso em: 23 ago 2018.
BELLINTANI, Adriana Lop. Relação França-Brasil: o legado da Missão Militar Francesa (1920-1940) para o Exército Brasileiro. Instituto Brasileiro de Relações Internacionais.
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http://periodicos.unb.br/index.php/MED/article/view/M47e17005/1384. Acesso em: 15 mar 2018.
BENTO, Cláudio Moreira. O Exército e Marinha na 1ª Guerra Mundial (1914-18): Disponível em: http://www.ahimtb.org.br/EBMB1GM.htm. Acesso em: 07 mar 2018.
BILAC, Olavo. A defesa nacional. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1965.
CIDADE, Francisco de Paula. Da MMF aos nossos dias. Revista Militar Brasileira. Rio de Janeiro, v. 61, n. 32, p. 132-133, jan./dez, 1954.
MAGALHÃES, João Batista. A evolução militar do Brasil. Rio de Janeiro: BIBLEX, 1998.
PONDÉ, Azevedo; PAULA, Francisco. História Administrativa do Brasil: organização e administração do Ministério do Exército. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1994.
MALAN, Alfredo Souto. Missão militar francesa de instrução junto ao Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1998.

FONTES

Acervo do Arquivo Histórico do Exército (AHEx)


Acervo do Estado-Maior do Exército (EME)
Acervo do Instituto de Geogra a e História Militar do Brasil (IGHMB)
Acervo do Museu Militar do Comando Militar do Sul (MMCMS)
BRASIL. Exército. Estado Maior. Documentos históricos do Estado Maior do Exército. Brasília, DF, 2018.
CONTRATO da missão militar francesa de 1927. Rio de Janeiro: [s.n.], [19--]. Arquivo SHAT, 3397.
GUIA dos arquivos do CPDOC. [S.l.]. 2 fotogra a, p&b. Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/guia/detalhesfundo.aspx?sigla=GM. Acesso em: 03 mar 2018.
MERIDIANO 47 – JOURNAL OF GLOBAL STUDIES. [S.l.], Instituto Brasileiro de Relações Internacionais. 2016. ISSN 1518-1219. http://dx.doi.org/10.20889/m47e17005.
Disponível em: http://periodicos.unb.br/index.php/MED/article/view/M47e17005/13184. Acesso em: 15 mar 2018.

22
HISTÓRICO DA MMFB NA EEM

A Escola de Estado-Maior (EEM), que havia sido fechada no início de 1918, após a declaração de
guerra à Alemanha, foi reaberta em abril de 1920, sob o comando do Coronel Nestor Sezefredo dos
Passos, mas sob a direção de ensino da Missão Militar Francesa. Era uma escola nova, que lembrava
muito pouco a anterior. Antes da chegada dos franceses, o seu objetivo era formar o o cial de estado-
maior como um engenheiro geógrafo, tendo um currículo de caráter técnico-cientí co. O ensino
adotado sob inspiração francesa a situava, fundamentalmente, como uma escola de tática.
A nova EEM iniciou seu funcionamento, em caráter provisório, no antigo Quartel General do
Exército, no Centro da Capital Federal, onde permaneceu até ser transferida para o novo edifício da
Rua Barão de Mesquita, Andaraí, em outubro de 1921.
A Escola passou a oferecer dois cursos: o de Estado-Maior e o de Revisão. O Curso de Estado-Maior
era ministrado em duas categorias. O curso de categoria “A” destinava-se a capitães e primeiros-
tenentes, e tinha a duração de três anos. O de categoria “B” destinava-se aos o ciais superiores, e era
feito em um ano. O acesso ao Curso de Estado-Maior, em suas duas categorias, se dava mediante concurso de admissão. O curso “B” para o ciais superiores funcionou até 1933. Depois
disso, todos os alunos fariam o curso de três anos.
O Curso de Revisão era destinado a o ciais superiores, professores de matérias essencialmente militares da Escola Militar e, excepcionalmente, capitães, todos já tendo realizado
anteriormente o curso de Estado-Maior. Sua duração era de um ano, sem prejuízo para as funções que desempenhavam em suas unidades. A matrícula no Curso de Revisão era obtida
mediante requerimento ao Chefe do Estado-Maior do Exército, independente de concurso de admissão. A última turma de Curso de Revisão funcionou em 1934, com apenas dois
o ciais alunos.
A ideia era consolidar a Escola de Estado-Maior como a matriz do pensamento militar brasileiro e origem exclusiva da cúpula do Exército. A lei que reorganizou o ensino do Exército em
1919 e recriou a EEM segundo o modelo francês determinava que, a partir de 1929, o certi cado do Curso de Estado-Maior passaria a ser requisito indispensável para a promoção ao posto
de general de brigada.

25
HISTÓRICO DA MMFB NA EEM
A Escola de Estado-Maior (EEM), que havia sido fechada no início de 1918, após a declaração de guerra à Alemanha, foi
reaberta em abril de 1920, sob o comando do coronel Nestor Sezefredo dos Passos, mas sob a direção de ensino da Missão
Militar Francesa. Era uma escola nova, que lembrava muito pouco a anterior. Antes da chegada dos franceses, o seu objetivo era
formar o o cial de estado-maior como um engenheiro geógrafo, tendo um currículo de caráter técnico-cientí co. O ensino
adotado sob inspiração francesa a situava, fundamentalmente, como uma escola de tática.
A nova EEM iniciou seu funcionamento, em caráter provisório, no antigo Quartel General do Exército, no Centro da Capital
Federal, onde permaneceu até ser transferida para o novo edifício da Rua Barão de Mesquita, Andaraí, em outubro de 1921.
A Escola passou a oferecer dois cursos: o de Estado-Maior e o de Revisão. O Curso de Estado-Maior era ministrado em duas
categorias. O curso de categoria “A” destinava-se a capitães e primeiros-tenentes, e tinha a duração de três anos. O de categoria
“B” destinava-se aos o ciais superiores, e era feito em um ano. O acesso ao Curso de Estado-Maior, em suas duas categorias, se
dava mediante concurso de admissão. O curso “B” para o ciais superiores funcionou até 1933. Depois disso, todos os alunos
fariam o curso de três anos.
O Curso de Revisão era destinado a o ciais superiores, professores de matérias essencialmente militares da Escola Militar e,
excepcionalmente, capitães, todos já tendo realizado anteriormente o curso de estado-maior. Sua duração era de um ano,
sem prejuízo para as funções que desempenhavam em suas unidades. A matrícula no curso de revisão era obtida mediante
requerimento ao Chefe do Estado-Maior do Exército, independente de concurso de admissão. A última turma de curso de
revisão funcionou em 1934, com apenas dois o ciais alunos.
A ideia era consolidar a Escola de Estado-Maior como a matriz do pensamento militar brasileiro e origem exclusiva da cúpula
do Exército. A lei, que reorganizou o ensino do Exército em 1919 e recriou a EEM segundo o modelo francês, determinava
que, a partir de 1929, o certi cado do curso de estado-maior passaria a ser requisito indispensável para a promoção ao posto de
General de Brigada.

ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELA MMFB NA EEM


O ensino da Escola de Estado-Maior sob a orientação da Missão Militar Francesa foi marcado pela realização de conferências,
exercícios na carta e no terreno e viagens de estudos pelo Brasil.

ASPECTOS DA DOUTRINA E ENSINAMENTOS INTRODUZIDOS


PELA MMFB NA EEM

26
Os principais aspectos doutrinários e metodológicos introduzidos na EEM pelos instrutores franceses foram a “mentalidade
tática” e o “método do caso concreto”, segundo os quais o ensino se processava nas condições mais próximas possíveis da
realidade da guerra. Os alunos adquiriam os conhecimentos solucionando problemas militares concretos na carta e no terreno.
A realização dos jogos de guerra e exercícios na carta e no terreno foi uma característica marcante desse modelo metodológico.

Para a solução de problemas militares práticos, o modelo francês adotava o método de raciocínio cartesiano. Esse método dava
unidade de pensamento aos o ciais de estado-maior, favorecendo a objetividade na análise e a tomada de decisão, para a
solução dos problemas enfrentados. É desse período a incorporação dos fatores de decisão - missão, terreno, inimigo e meios -
como elementos balizadores do estudo de situação tático. A MMFB também contribuiu para a padronização dos documentos
de estado-maior, segundo modelos estabelecidos pela doutrina.

O LEGADO
A Missão Militar Francesa deixou um inestimável legado à Escola de Estado-Maior, refundada sob sua orientação.
Dentre eles, podem-se elencar a valorização do concurso de admissão à Escola, a criação do Curso de Preparação, em
janeiro de 1934, a adoção de um método de ensino pragmático, voltado para a solução de problemas militares
práticos e a criação de uma doutrina militar, na forma de conceitos, linguagem comum, métodos de trabalho de
estado-maior, documentos de estado-maior padronizados e consolidados.

REFERÊNCIAS

BASTOS FILHO, Jayme de Araújo. A Missão Militar Francesa no Brasil. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1994.
BELLINTANI, Adriana Lop. O Exército Brasileiro e a Missão Militar Francesa: Instrução, Doutrina, Organização,
Modernidade e Pro ssionalismo (1920 – 1940). Brasília, DF: Tese de doutorado em história para a obtenção do título de
Doutor em História Social da Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em
História, 2009. Disponível em: http://repositorio.unb.br/handle/10482/3811?mode=full. Acesso em: 23 ago 2018.

27
28
O HISTÓRICO DA MMFB NA ESAO
A ideia de trazer uma equipe estrangeira para instruir o Exército brasileiro veio nascendo desde o começo da República. A partir dos
últimos anos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o Brasil optou por estreitar seus relacionamentos militares com a França. "Em
1919, após havermos nos alinhado com os países que combatiam a Alemanha e depois de o Exército francês ter dado tantas provas de
valor, a quase todos pareceu natural que, se missão houvesse, esta deveria ser francesa" (MOTTA, 1998, p. 256). Essa diretriz
possibilitou a abertura para que a doutrina militar brasileira sofresse importantes in uências da doutrina militar francesa. Com a Missão
Militar Francesa, o ensino militar brasileiro passou por um processo de transformação. Várias escolas militares foram criadas, entre elas a
Escola de Aperfeiçoamento de O ciais (EsAO). As mudanças introduzidas pelos franceses foram fundamentais para a formação
pro ssional dos o ciais do Exército Brasileiro, aprimorando a doutrina militar brasileira.
Fig 2 – Tomaz Cantuária 1º Chefe do Estado-Maior. (Acervo do Arquivo Histórico do Exército – AHEx)

A Escola de Aperfeiçoamento de O ciais foi criada pelo Decreto nº 13.451 de 29 de janeiro de 1919, o qual que também estabeleceu as
bases para a reorganização do ensino militar, além de criar os cursos de aviação, veterinária, administração e de aperfeiçoamento. O
artigo terceiro desse decreto previa que o aperfeiçoamento das armas seriam feitos na Escola de Aperfeiçoamento de O ciais, cujos
instrutores seriam da missão estrangeira contratada em virtude da autorização conferida pelo Decreto Legislativo nº 3.674 de 7 de
janeiro de 1919. Esse artigo designava para frequentar a escola, durante o período de instrução, capitães e primeiros tenentes
pertencentes às quatro armas do Exército (Infantaria, Cavalaria, Artilharia e Engenharia). O segundo parágrafo estabelecia que a
EsAO disporia de tropas dessas quatro armas, a m de completar a instrução dos o ciais e aperfeiçoá-los como instrutores e
comandantes das pequenas unidades.

A Escola de Aperfeiçoamento de O ciais foi criada com o objetivo de aperfeiçoar os o ciais formados pela Escola Militar. Os
concludentes da EAO estão aptos para o comando de pequenas unidades. Outra nalidade é capacitar os o ciais para difundir as
mudanças doutrinárias nas unidades militares do Exército Brasileiro.

ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELA MMFB NA EsAO


A cerimônia de inauguração da EsAO se deu no dia 8 de abril de 1920 e contou com a participação dos instrutores franceses pertencentes
à Missão, além de guras ilustres da sociedade brasileira. Ela funcionou inicialmente no Quartel General do Exército, localizado na Praça
da República, no Rio de Janeiro e posteriormente foi transferida para a Vila Militar, Rio de Janeiro. Na Vila Militar, a Escola teve sede no
extinto 3º grupo do 1º Regimento de Artilharia Montada (atualmente 1º Grupo de Artilharia de Campanha de Selva, sediado em
Marabá-PA desde o dia 6 de julho de 2005) aquartelamento hoje ocupado pelo 15º Regimento de Cavalaria Mecanizado (15º RCMec).
Quatro anos mais tarde, a EsAO foi transferida para suas instalações de nitivas, que utiliza até os dias atuais.
Capa da Ata de criação da EsAO. (Acervo do Arquivo da EsAO)

31
O local para instalação da EsAO foi indicado pelo Coronel francês Alberto Barat, através do Aviso Ministerial nº 31, de 5 de março
de 1920. O corpo de instrutores era composto de o ciais da Missão Militar Francesa, conforme o Decreto Legislativo nº 3674 de 7
de janeiro de 1919 e foi escolhido pelo General Emile Maurice Gamelin, chefe da citada Missão. O grupo de docentes era formado
por: Comandante Superior Diretor Técnico: Coronel Alberto Barat; instrutores: Major Dumay (infantaria), Gichon (cavalaria),
Bresard (artilharia), Guiriot (engenharia), Tubert (ligação), Capitão De Mareiul (Mestre de equitação), Tenente Lemehauté
(armamento e engenhos especiais de acompanhamento). O primeiro o cial nomeado pelo Ministro da Guerra, João Pandiá
Calógeras (1870 - 1934), para comandar a EsAO foi o Major José Maria Franco Ferreira (1876 – 1946) que exerceu o posto entre 8
de abril de 1920 e 30 de Agosto de 1920.

ASPECTO DA DOUTRINA E ENSINAMENTOS INTRODUZIDOS


PELA MMFB NA EsAO

Inicialmente a EsAO desenvolvia o curso de aperfeiçoamento para o ciais superiores, o que ocorria anos depois do o cial
ter concluído a formação. Esse procedimento era prejudicial ao militar, pois deixava uma lacuna muito grande entre a
formação e o aperfeiçoamento. A Missão Militar Francesa identi cou essa de ciência e reformulou o currículo para que
atendesse os o ciais antes de serem promovidos ao primeiro posto de o cial superior (Major, Tenente-Coronel e Coronel).

A EsAO passou a receber o ciais nos postos o de tenentes e capitães de armas. O ensino passou a ser mais voltado para a prática,
preparando o ciais para comandarem subunidades e até mesmo unidades. O foco do ensino voltou-se para a resolução de temas
táticos. Dessa forma, foi afastado de nitivamente o ensino exclusivamente acadêmico, herança do Positivismo, deixado por
Benjamin Constant (1836-1891), professor da Escola Militar na Praia Vermelha e da Escola Politécnica, na segunda metade do
século XIX.
Ata de criação da EsAO. (Acervo do Arquivo da EsAO)

A partir de 1928, o Curso de Aperfeiçoamento passou a ser exigido para a promoção aos postos superiores ao de Capitão. Essa
medida, mais a realização de exames de habilitação durante o curso, levou os alunos a terem maior dedicação ao período letivo,
pois a não aprovação levaria ao desligamento.

Construção da EsAO (Acervo do Arquivo da EsAO).

32
O Boletim do Exército nº 450 de 30 de abril de 1928 publicou o Programa para
o Curso de O ciais Superiores, que deveria ser ministrado na Escola de
Aperfeiçoamento de O ciais com base na Lei de Ensino Militar. Aquele
programa de nia a nalidade do curso, que era a instrução continuada de
o ciais combatentes, bem como os métodos de ensino, a organização e divisão
do curso. De nia, também, as orientações para os instrutores que deveriam
ministrar o curso.

No ano seguinte, o Decreto nº 18.696 de 11 de abril, aprovou um novo


regulamento para o ensino na EsAO. Foi de nido, também, que haveria,
anualmente, um curso para o ciais subalternos e capitães (categoria “A”). e um
curso para majores e tenentes-coronéis (categoria “B”). As principais
nalidades do curso seriam aperfeiçoar instrutores e comandantes de
unidades, preparar os futuros comandantes de unidades táticas e aperfeiçoar os
o ciais superiores, ampliando a instrução militar. O público-alvo eram os
o ciais de Infantaria, Artilharia e Engenharia.

O decreto determinava que a EsAO seria comandada por um coronel do


Exército, sendo Luiz Gonzaga dos Santos Sarahyba (1873 – 1948) o primeiro
o cial nesse posto a comandar a EsAO, entre 14 de maio de 1929 e 22 de
dezembro de 1930. Cumprindo o decreto citado, iniciaram as aulas das
categorias “A” e “B” para alunos nos postos de tenente/capitão e o ciais
superiores.

Os estudos na EsAO foram interrompidos pela eclosão da Revolução


Paulista de 1932. Com a desativação da Escola, em 1936, foi criada a
Escola das Armas (E. Arm).

33
O Decreto nº 22.350, de 12 de janeiro de 1933, atualizou as normas
anteriores, aprovando o Plano Geral de Ensino Militar. O Plano dava ênfase à
instrução elementar, com a nalidade de formar artí ces; instrução
secundária, para preparar candidatos para as escolas de formação de o ciais e
instrução pro ssional, para a formação de reservistas, a formação e
especialização de sargentos, o aperfeiçoamento dos o ciais da reserva e a
instrução pro ssional e geral destinada à formação dos o ciais do Exército.
No mesmo ano, é criada a nova Lei do Ensino Militar, registrada no Decreto
nº 23.126, datado de 21 de agosto de 1933, com a nalidade de orientar a
formação e a e ciência dos militares.

O m da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) trouxe a necessidade de


uma recon guração do ensino militar brasileiro. O Decreto-Lei nº 7888,
de 21 de agosto de 1945, estabeleceu que a Escola das Armas seria extinta
e que a Escola de Aperfeiçoamento de O ciais recriada. Assim, o curso de
aperfeiçoamento para sargentos, que antes era realizado na Escola das
Armas, passou a ser realizado na Escola de Sargentos das Armas. Outra
mudança signi cante foi que os o ciais do Serviço de Intendência e do
Serviço de Saúde (médicos) também passariam a ser aperfeiçoados na
EsAO, junto com os outros o ciais de Arma.

A missão da Escola de Aperfeiçoamento de O ciais, até os dias de hoje,


é o aperfeiçoamento dos capitães do Exército Brasileiro, habilitando-os
a exercerem funções de Estado-Maior nas Organizações Militares, bem
como o comando de subunidades e unidades. O curso permanece, ainda,
como condição para a promoção aos postos de o cial superior. A EsAO
recebe, também, alunos das outras Forças Armadas (Marinha do Brasil
e Força Aérea Brasileira), Forças Auxiliares (Polícias Militares) e
o ciais das nações amigas (ONA).

34
O LEGADO
A EsAO, em síntese, sistematizou o método cartesiano de estudo de situação, nos itens "Missão, Inimigo, Terreno e Meios".

Em 1920, sentaram-se nos bancos daquela Escola para assistirem à aula inaugural, sob a orientação dos o ciais da Missão Militar Francesa, 37 alunos
de Infantaria, 28 de Artilharia, 20 de Cavalaria e 7 da arma de Engenharia.

Esses 92 alunos seriam os discentes pioneiros de várias gerações de graduandos pela EsAO que, ao alvorecer do seu centenário, já aperfeiçoou, até
2018, 32.348 o ciais nas modalidades presencial e a distância. Além desses, a EsAO, desde 2002 até 2018, formou 1.025 mestres em Ciências
Militares, por intermédio da Seção de Pós-Graduação.

O Marechal Mascarenhas de Moraes (1883 - 1968), comandante da Força Expedicionária Brasileira na Itália durante a Segunda Guerra Mundial e ex-
comandante da EsAO, a avaliou como “o mais e ciente órgão de ensino dos anos franceses” (MCCANN, 2009, p. 318).

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Sérgio Luiz Augusto de Andrade de. Comissão Rondon: Contribuição as ciências naturais. 2013. Rio de Janeiro: Tese de
Doutorado em História das Ciências, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2013.
BELLINTANI, Adriana Lop. O Exército Brasileiro e a Missão Militar Francesa: Instrução, Doutrina, Organização, Modernidade e
Pro ssionalismo (1920 – 1940). Brasília, DF: Tese de doutorado em história para a obtenção do título de Doutor em História Social da
Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História, 2009. Disponível em:
http://repositorio.unb.br/handle/10482/3811?mode=full. Acesso em: 23 ago 2018.
ACANN. Frank D. Soldados da pátria. História do Exército brasileiro 1889-1937. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 2009.
MOTTA. Jehovah. Formação do o cial do Exército: Currículo e regimes na Academia Militar 1810 - 1944. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1998.
METRE, ales Rabelo. Ontem e hoje: a in uência da missão militar francesa na Escola de Aperfeiçoamento de O ciais, durante a sua
vigência, e seus re exos na atualidade. Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado em Ciências Militares, EsAO, 2017.
OLIVEIRA, Eduardo da Cruz. A in uência da doutrina norte-americana na EsAO. Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado em Ciências
Militares, EsAO, 2017.
SILVA, Mário Henrique de Oliveira Coutinho da. A in uência da missão militar francesa na EsAO. Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado
Alunos da EsAO em estudo no campo. (Acervo do Arquivo da EsAO).
em Ciências Militares, EsAO, 2016.

35
FONTES
Acervo do Arquivo Histórico do Exército (AHEx)
Acervo do Arquivo da Escola de Aperfeiçoamento de
O ciais (EsAO)
Boletim do Exército nº 450, de 30 de abril de 1928.
BRASIL. Aviso Ministerial nº 31, de 5 de março de
1920.
_____. Decreto nº 13.451, de 29 de janeiro de 1919.
_____. Decreto nº 18.696, de 11 de abril de 1929.
_____. Decreto nº 22.350, de 12 de janeiro de 1933.
_____. Decreto nº 23.126, de 21 de agosto de 1933.
_____. Decreto Legislativo nº 3.674, de 7 de janeiro
de 1919.
_____. Decreto-Lei nº 7.888, de 21 de agosto de 1945.

36
A MMFB NA ESCOLA MILITAR

De acordo com o que nos apresenta Malan, em seu livro “Missão Militar Francesa de Instrução junto ao Exército Brasileiro”, podemos
veri car que, em vista dos acontecimentos na Europa, um novo ciclo se iniciaria na formação de o ciais do Exército com o apoio dos
franceses, a partir de 1924. Na Escola Militar, os o ciais gauleses prestariam um extraordinário serviço ao fortalecimento do pro ssionalismo
da Força Terrestre, até o ano de 1940, em plena interação com os o ciais instrutores brasileiros.
Nesses dezesseis anos em que esteve atuando junto ao Exército Brasileiro, a Missão Militar Francesa dispôs sobre os aspectos essenciais do
ensino no Exército, inclusive o programa, que foi por eles estabelecido e levado à apreciação do chefe do Estado-Maior do Exército.
As linhas mestras do ensino orientado pela Missão Militar Francesa priorizavam a adaptação às situações inéditas; a exigência de raciocínio
para solucionar problemas táticos; a aplicação do esforço pessoal; e o desenvolvimento da exibilidade, apoiados em método lógico e coerente.
Aplicadas aos temas táticos, desde aquela época, aquelas capacidades impulsionaram o pensamento militar do Exército Brasileiro.
Convém destacar que foi editado um novo currículo, por meio do Decreto de 1924, anteriormente citado, que tinha por objetivo preparar o
o cial em um patamar inicial, dotando-o de conhecimentos cientí cos e técnico-pro ssionais sólidos, mas que viessem a ser aprimorados,
posteriormente, na Escola de Aperfeiçoamento, e que fossem complementados ao longo da carreira.
Aquartelamento da Escola Militar (Acervo do Arquivo Histórico do Exército – AHEx).
Ainda de acordo com Malan, os objetivos a atingir são traçados desde o primeiro ano, que visava a “preparar a instrução do soldado e habilitá-
lo para o comando do grupo e do pelotão”. Esta instrução é ampliada e consolidada no segundo ano e, no terceiro, ocorre a especialização nas
Armas, de forma que, ao nal do curso, o futuro o cial seja um “instrutor competente e disponha dos conhecimentos que lhe serão
indispensáveis até ao posto de capitão”.

ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELA MMFB NA EM


Em decorrência do movimento tenentista e dos fatos ocorridos até meados da década de 1920, veri cou-se que mesmo com a presença da
“Missão Francesa”, aqueles aspectos da vida nacional indicavam a necessidade da evolução do ensino. De acordo com Souto Malan, estes
fatos não tiveram repercussão direta sobre a Escola Militar, mas determinaram a revisão dos seus regulamentos.
O novo Estatuto e o currículo, elaborado no início do ano letivo de 1929, em linhas gerais, acompanharam os anteriores. Embora houvesse
equilíbrio entre o ensino cientí co e o técnico-militar, havia um pequeno aumento da carga horária da parte prática dos assuntos peculiares a
cada uma das Armas.
Os cursos continuaram transcorrendo com uma parte fundamental, comum a todos os alunos, e quatro especiais, uma para cada Arma.
Instalações da Escola Militar (Acervo do Arquivo da AMAN).
Houve modi cação na sua duração, passando a primeira parte a ter a duração de um ano e a segunda, a duração de dois anos.

39
De acordo com o que nos apresentou Bastos, em “A Missão Militar Francesa no Brasil”, foi possível veri car que o ensino nas
escolas militares evoluía constantemente no sentido de aprimorar a formação técnico-pro ssional.
Ainda de acordo com Bastos, foi também, criado o cargo de “Diretor do Ensino Militar”, função que viria a ser exercida pelo o cial
integrante da MMFB, encarregado de “Coordenar todo o ensino tático, tanto o teórico como o prático” e “apresentar ao comandante
o programa das matérias, emitindo parecer”. A partir de então, o o cial francês seria, efetivamente, responsável pela orientação,
planejamento, coordenação e controle do ensino.
O aumento do período dedicado ao ensino técnico-pro ssional nas Armas possibilitou um maior aprimoramento na
instrução peculiar a cada uma das mesmas, evitando uma sobrecarga de instrução de Infantaria, para as outras Armas, como
vinha acontecendo. Passaram a ser desenvolvidas atividades práticas, como por exemplo, a execução de tiro das armas de apoio
ao combate da infantaria, da cavalaria e da artilharia, os exercícios no terreno, com o aproveitamento das regiões do Campo de
Instrução de Gericinó, levando em conta que a Primeira Guerra Mundial havia apresentado uma série de novidades que
viriam a ser aproveitadas pelo nosso Exército.
A partir deste Regulamento, a atuação dos instrutores franceses mostrou-se mais e ciente. Eles continuaram sendo substituídos,
periodicamente, até 1930, sem que se alterasse o efetivo total de trinta e seis o ciais, em todo o Exército, constante do contrato inicial.
Ainda neste mesmo ano e nos seguintes, as consequências da Revolução de 1930 mudaram esta situação. As novas
che as militares reduziram a composição da Missão de trinta e seis para dezoito franceses e limitaram sua ação.
Dessa forma, houve uma crescente participação de o ciais instrutores brasileiros, supervisionada por o ciais
franceses, até o início da década de 1940.
A Escola não esteve diretamente envolvida na Revolução de 1930. A Revolução Constitucionalista, ocorrida em São Paulo,
em 1932, também não teve in uência imediata sobre as atividades da Escola. Porém, as consequências de ambas, motivaram
a implantação de uma nova programação de ensino, sob coordenação da Missão Militar Francesa.
O ano de 1934 trouxe estas novas modi cações ao ensino militar e, por meio do Decreto nº 23.994, de 13 de março, um novo
regulamento foi editado. Nele estava contida uma grande modi cação que passava a duração do curso da Escola Militar para
quatro anos. Desde 1919 vinha sendo veri cado que três anos de estudos eram su cientes para formar os o ciais de qualquer
das Armas. A ideia de ampliar os cursos tinha por objetivo utilizar um programa de ensino mais amplo, com mais
conhecimentos sobre Sociologia e Economia Política.
O grande objetivo era ampliar os programas de ensino e, com isso, ampliar o conhecimento dos o ciais, sem, no entanto,
alterar radicalmente o currículo, embora este se tornasse mais rico em Ciências Sociais. Este Regulamento foi o primeiro a ser
organizado e elaborado por o ciais brasileiros, desde a chegada ao Brasil da Missão Militar Francesa. Os métodos e processos
de ensino buscavam a objetividade, pela aplicação da doutrina em vigor, voltada para a campanha. Os o ciais brasileiros que
elaboraram esse Regulamento demonstravam, nessa primeira experiência, estarem no caminho do amadurecimento de suas
condições de autonomia técnica no ensino militar.

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Este novo Regulamento, na prática, não funcionou, tendo em vista que o Decreto nº 192, de 20 de junho de 1935,
mandou suspender a sua execução e determinou que os cursos retornassem a ser realizados em três anos, para todas as
Armas. Foi determinada, ainda, a volta ao que estava preconizado no Regulamento e currículo de 1929, com pequenas
alterações que expressavam os ensinamentos colhidos nos eventos de 1930 e 1932. Esta modi cação foi realizada,
também, por o ciais brasileiros, de nindo a tendência que se rmaria a partir de então. Constata-se, também, que o
ensino na Escola, nesse momento, já estava bastante evoluído e aperfeiçoado, se comparado com períodos anteriores.
O ano de 1937 trouxe em seu bojo uma grande novidade: a criação, com base no Decreto nº 1.729, de 22 de
junho, da Inspetoria Geral do Ensino do Exército. Esta passaria a ser o órgão de cúpula que coordenaria, a partir
de então, todo o ensino no Exército. De acordo com o decreto supracitado, a Inspetoria Geral, órgão do Estado-
Maior do Exército, passaria a “centralizar, orientar, regular, coordenar e superintender todos os assuntos relativos
ao ensino nos Colégios, Institutos, Centros, Escolas e demais estabelecimentos de ensino do Exército, bem
como nas Unidades e Contingentes aos mesmos subordinados”.
No ano de 1938, foi editada a Lei do Ensino Militar, aprovada pelo Decreto-Lei nº 432, de 19 de maio daquele
ano, onde constava que o ensino militar no Exército tinha por nalidade preparar os especialistas necessários
para conduzir as Forças Nacionais, em todos os escalões da hierarquia militar. A Lei do Ensino Militar previa,
ainda, que a instrução militar fosse ministrada segundo métodos variáveis de graduação.

A S P E C T O S DA D O U T R I N A E EN S I N A M EN T O S
INTRODUZIDOS PELA MMFB NA EM
O impacto da 2ª Guerra Mundial, iniciada em 1º de setembro de 1939, coincidiu com o término do contrato da
Missão Militar Francesa e a retirada de seus últimos membros entre 1940 e 1942. Assim, no início da década de
quarenta, com o incremento da edição e da difusão de manuais e regulamentos em português e o domínio das
técnicas e do conhecimento tático pelos instrutores brasileiros, o ensino militar na Escola retornou, totalmente,
aos o ciais do Exército Brasileiro.
É inegável que a vitória dos aliados na Primeira Guerra Mundial, com a França e o Brasil entre eles, foi essencial para a
vinda da Missão Militar Francesa, para contribuir com a evolução do ensino militar que era praticado nas diversas escolas
militares e o aprimoramento dos métodos de planejamento, da organização e dos valores da Força.
Este fato, também, afetou a reestruturação do próprio Exército, principalmente com a aquisição de novos materiais e a
construção de novos aquartelamentos, dando um novo alento à Instituição, no período do Ministro Dr. Pandiá
Calógeras, único civil titular da Pasta da Guerra, da História do Brasil (1919-1922).
O currículo que foi adotado para o ensino na Escola Militar, por meio de um novo Regulamento, apresentava novidades
quanto ao ensino da Tática, do Armamento, da Topogra a, da Forti cação e da História Militar.

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Quanto à tática, se procurava, por meio dos temas respectivos, estimular o aluno em sua capacidade de resolução de problemas, a sua
iniciativa e o seu espírito ofensivo.
No que tange ao Armamento, se buscava esclarecer sobre o emprego e a e cácia de cada tipo de armamento. No que
diz respeito à Topogra a, esta destacava o signi cado militar de cada forma de terreno, com o emprego do caixão de
areia e de exercícios no campo.
Com respeito à forti cação, eram enfatizados os seus princípios voltados tanto ao lançamento quanto ao
levantamento de obstáculos, seja nas operações defensivas ou nas ofensivas, com a utilização do caixão de areia, dos
exercícios na carta e, também, no terreno.

O LEGADO
Finalmente, quanto à História Militar, eram mostrados os aspectos estratégicos e táticos das principais campanhas, de modo a
formar no aluno uma visão da evolução da arte da guerra, do emprego dos princípios de guerra, dos fatores da decisão e das
formas de manobra, dentre outros aspectos.
O episódio, que cou conhecido como “A Revolta dos 18 do Forte”, que foi a primeira revolta tenentista da República Velha,
evidenciou a necessidade de realmente reformular os currículos da Escola. Ficou claro que se tinha exagerado no combate ao
“bacharelismo” e ao “paisanismo” de épocas anteriores. Houve uma guinada extremamente forte na direção do pro ssionalismo e
da prática, porém sem atender às ciências da cultura geral, necessárias ao complemento dos conhecimentos que deve possuir um
o cial do Exército.
Assim, a Missão Militar Francesa procurou harmonizar o ensino das ciências com o das atividades técnico-pro ssionais. Houve a
inclusão de uma disciplina chamada de “Aplicações da Química, da Física e da Mecânica à Técnica Militar”, que procurava fundir
a atividade cientí ca com a militar, dando um sentido prático ao emprego da ciência na pro ssão castrense.
As in uências da MMFB se zeram sentir, também, sobre a estrutura de ensino, tendo por objetivo estimular a criação, no futuro
o cial, do hábito do autoaperfeiçoamento pela busca do conhecimento constante. Dessa forma, por meio da realização de um
conjunto de ações integradas, os discentes são estimulados à aquisição do gosto pela pesquisa e pelo aprimoramento individual. A
observação crítica sobre o seu desempenho, por meio dos o ciais instrutores e dos graduados monitores nas diversas atividades,
também serviriam de suporte ao autodesenvolvimento, pois eles deveriam ser modelos de conduta e referenciais.
Finalmente, podemos a rmar que a atuação da MMFB foi fundamental para o aprimoramento da formação do o cial de
carreira da Linha Militar bélica do Exército.
Da mesma forma, a in uência francesa possibilitou a evolução do pensamento do Exército, contribuindo para a
obtenção de uma doutrina militar totalmente nacional e voltada para o emprego das forças em todas as áreas do território
brasileiro, e, se necessário, no exterior.

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Duas observações são importantes de registro, sobre a EM:
1 - de maneira geral e comum, ela é referida erroneamente como “Escola Militar do Realengo”. Na verdade, seu nome era tão somente “Escola Militar”. Recebeu a
complementação “do Realengo” somente após 1937, quando cou decidida a transferência para Resende. Assim, a expressão passou a ser usada para diferenciá-la da “Escola
Militar de Resende”, a futura AMAN;
2 - o título “cadete” havia sido usado pelos alunos das escolas de formação do Exército entre 1811 e 1889. Com o advento da República, foi abolido, inclusive por força da
conotação de nobreza nele implícita. Somente foi revalorizado e concedido aos alunos da EM pelo Decreto Lei nº 20.307, de 15 de agosto de 1931, em homenagem ao
Duque de Caxias, que fora cadete.
Isto ocorreu no contexto geral das inovações conduzidas pelo então coronel José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.

REFERÊNCIAS
BASTOS, Jayme de Araújo Filho. A Missão Militar Francesa no Brasil. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1994.

BELLINTANI, Adriana Lop. O Exército Brasileiro e a Missão Militar Francesa: Instrução, Doutrina, Organização, Modernidade e Pro ssionalismo (1920 – 1940). Brasília, DF: Tese de doutorado em história para a obtenção
do título de Doutor em História Social da Universidade de Brasília, Instituto de Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História, 2009. Disponível em:
http://repositorio.unb.br/handle/10482/3811?mode=full. Acesso em: 23 ago 2018.

CÂMARA, Hiram de Freitas. Marechal José Pessoa, a força de um ideal. 2ª Ed. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 2011.

CORREIA NETO, Jonas. Missão Militar Francesa. Da Cultura. Rio de Janeiro, n. 8, p. 34-39, jun. 2005. Disponível em: http://www.funceb.org.br/images/revista/17_4p2s.pdf. Acesso em: 23 ago 2018.

FARIA, Durland Puppin de (Org.). Introdução à história militar brasileira. Resende: Academia Militar das Agulhas Negras, 2015. 392 p. Disponível em: http://bit.ly/2NYcWXh. Acesso em: 23 ago 2018.

FELIPE ALVES, Paulo Sérgio; NADALIN, Edson Luiz (Org.). Das origens do sargento ao seu aperfeiçoamento nos dias atuais. 1. ed. Cruz Alta: Fundação Trompowsky, 2014. 110 p.

MALAN, Alfredo Souto. Missão Militar Francesa de Instrução junto ao Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1988.

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FONTES
Acervo do Arquivo Histórico do Exército (AHEx)
Acervo do Arquivo da AMAN
Acervo do Museu Militar do Comando Militar do Sul (MMCMS)

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