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BRASIL, Caderno EJA 1: Trabalhando com a educação de jovens e adultos -

Alunas e alunos de EJA. Brasília: MEC/SECAD, 2006.

SÍNTESE DO TEXTO

Hérica Carla¹
Kamila Barros Viana²
Patrícia Barros Viana Simonini³
Tânia Braz⁴

Como forma enfrentar os processos excludentes que marcam os sistemas e


educação no país, valorizar e respeitar a diversidade da população, o Ministério da
educação, cria em 2004, a Secretaria de Formação Continuada, Alfabetização e
Diversidade (SECAD). Por meio do departamento de Educação de Jovens e
Adultos, a SECAD busca contribuir para atenuar a dívida histórica que o Brasil tem
para com todos os cidadãos de 15 anos ou mais, que não concluíram a educação
básica. Assim a SECAD para apoiar os professores que desenvolvem o trabalho
junto aos alunos, apresenta uma coleção com cinco cadernos temáticos. Nessa
perspectiva as questões que abordam o perfil do público da educação de jovens e
adultos, tais como: porque procuram os cursos, o que querem saber, o que já sabem
e o que não sabem, suas relações com o mundo do trabalho e na sociedade onde
vivem, são temas abordados no primeiro caderno, Alunas e Alunos da EJA. Esse
caderno traz informações, estratégias e procedimentos que ajudam seus educadores
a conhecerem o perfil de seus alunos e alunas. Um dos recursos utilizados em todo
o caderno é a socialização de relatos dos dos jovens e adultos, envolvidos no
processo, relacionados às atividades promovidas por seus professores.
O documento esboça a identidade desses alunos e alunas e o papel que a
escola representa para eles. O material traz as vozes de professores e alunos com
o intuito de contribuir para a melhor compreensão do vasto mundo da educação de
jovens e adultos. Estes por sua vez, como aponta o texto, trazem consigo um
conhecimento de mundo sendo homens e mulheres que chegam à escola com
crenças e valores já constituídos. Dessa forma a cada realidade corresponde um tipo
de aluno. São pessoas que vivem no mundo adulto do trabalho, com
responsabilidades sociais e familiares, com valores éticos, morais formados a partir
da experiência, do ambiente e da realidade cultural em que estão inseridos.

¹²³⁴
Estudante da Especialização Formação de Professores e Práticas Educativas do IF Goiano – Campus
Avançado Hidrolândia.
Contudo os adultos possuem mais experiência que os adolescentes e podem ter
acumulado uma maior quantidade de conhecimentos. Talvez sejam menos rápidos,
mas podem oferecer uma visão mais ampla, julgar melhor os prós e os contras de
uma situação e ter boa dose de criatividade.
Assim o caderno um retrata um pouco da visão de mundo dos alunos e
alunas da EJA observando que os mesmo trazem consigo uma visão de mundo
influenciada por seus traços culturais de origem e por sua vivência social. Sua noção
de mundo está mais relacionada ao ver e fazer, uma visão de mundo apoiada numa
adesão espontânea e imediata às coisas que vê. Aberto à aprendizagem, eles vêm
para a sala de aula com um olhar, que por uma lado é receptivo, sensível e por
outro, é um olhar ativo: olhar curioso, olhar que investiga, olhar que pensa. O texto
produzido pela SECAD também discute sobre os conhecimentos já adquiridos.
Enfatiza duas espécies destes conhecimentos, originados das experiências de vida
dos alunos e alunas: o saber sensível e o saber cotidiano. O saber sensível é um
saber sustentado pelos cinco sentidos, que muitas vezes são poucos estimulados.
Qualquer processo educativo, tanto de crianças quanto de jovens e adultos, deve ter
sua bases, segundo o texto, nesse saber sensível, pois é somente por meio dele que
o aluno (a) abre-se a um conhecimento mais formal, mais reflexivo. Já o saber
cotidiano, descrito no texto, se configura como um saber reflexivo pois é um saber
da vida vivida, saber amadurecido, fruto da experiência, nascido de valores e
princípios éticos, morais já formados, anteriormente fora da escola. Esse saber,
fundado no cotidiano, é uma espécie de saber das ruas, frequentemente assentado
no “senso comum”, diferente do conhecimento formal que a escola lida. É também
um conhecimento elaborado, mas não sistematizado. É um saber pouco valorizado
no mundo letrado, escolar e, frequentemente, pelo próprio aluno.
Na sequência das ideias apresentadas no caderno um existe uma explanação
de como ocorre a procura desses alunos e alunas a EJA uma vez que esse
processo de procura não acontece de forma simples, trata-se de uma decisão que
envolve as famílias, os patrões, as condições de acesso e as distâncias entre casa e
escola, as possibilidades de custear os estudos e, muitas vezes, trata-se de um
processo contínuo de idas e vindas, de ingressos e desistências. Ir à escola para um
jovem ou adulto é um desafio, um projeto de vida. Além de todas as possibilidades
apresentadas, a escola que os alunos têm em seu imaginário nem sempre é aquela
com que se deparam nos seus primeiros dias de aula pois esperam um modelo de
escola tradicional. Essa concepção se mostra especialmente nos alunos mais
velhos que se colocam resistentes à nova concepção de escola que os coloca como
sujeitos do processo educativo. Assim, grande parte dos alunos jovens e adultos,
que buscam a escola, espera dela um espaço que atenda às suas necessidades
como pessoas e não apenas como alunos que ignoram o conhecimento escolar.
Observa-se que os alunos que buscam a escola pretendem satisfazer
necessidades particulares para integrar-se a sociedade letrada da qual fazem parte
por direito que lhes são negados quando não dominam a leitura e a escrita, assim
não podem participar plenamente. Assim o texto aponta como os principais desafios
construir uma escola na qual professores e alunos encontrem-se como sujeitos com
a tarefa de provocar e produzir conhecimentos. Os jovens e adultos buscam na
escola mais do que conteúdos prontos para serem produzidos. Como cidadãos e
trabalhadores que são, esses alunos querem se sentirem sujeitos ativos,
participativos e crescer cultural, social e economicamente.
Nas grandes cidades, a clientela da EJA é a mais diversificada possível, uma
vez que seu alunado tem as mais variadas histórias, são pessoas vindas de diversos
estados em busca de uma melhoria de vida, isso fica claro em sala de aula pois a
diversidade em relação ao sotaque, culinária, gostos musicais, estrutura física, forma
de se divertirem é muito rico, mostrando a grande pluralidade cultural que se
encontra no Brasil.
Outro ponto que é importante se destacar são as pessoas que saem do
campo, ou seja, zona rural, para as grandes metrópoles, em busca de trabalho e
para dar continuidade aos estudos.
A partir dessa riqueza cultural é que os professores da EJA, tem seu ponto de
partida, para organizarem seu plano de trabalho, sendo um desafio, uma vez que
essa diversidade necessita ser respeitada. A condição sócio - econômica é outro
fator relevante, Paulo Freire, ainda nos anos 1960 destacou que essa dificuldade
encontrada em dar continuidade aos estudos não é só uma questão pedagógica,
mas é também social e política, pois esse alunado precisa se manter, com o básico ,
arcando com despesas financeiras, como aluguel , água, energia, alimentação, e o
lazer cultural não é tão enriquecido, pois não cabe no orçamento, sendo assim a
maior fonte de cultura e informação é a televisão.
Uma característica marcante nessa modalidade de ensino é a baixa auto -
estima dos alunos de forma geral, pois o seu histórico escolar pode estar marcado
por diversos acontecimentos como, dificuldade de aprendizagem, surgindo aí outro
fator, hoje caracterizado como bullying, uma vez que esses alunos podem ter sido no
passado rotulados de,“ burro”, “preguiçosos”, “lentos”, “deficientes”, contribuindo
assim para a sua desistência dos estudos, além de outros aspectos relevantes
como, necessidade de trabalhar para ajudar no sustento da família, terem sofrido
algum tipo de preconceito ou até mesmo racismo.
Daí com o passar dos anos e experiência de vida, percebe -se a necessidade
de regressar à escola, para “subir” na vida, encontrar trabalhos melhores, e até
mesmo tirar a documentação pessoal adequada.
Mas no que diz respeito a trabalho esse alunado já é bastante experiente,
ingressaram bem cedo pois no momento de suas vidas que se encontravam a
escola não era a prioridade, como já mencionamos anteriormente, a necessidade
financeira era mais relevante.
É especificidade do aluno da EJA uma rotina marcada pelo trabalho e
relações familiares e a partir do momento em que essas pessoas retornam a
escolarização há uma ampliação não só do círculo social, mas também das
atividades culturais, de lazer e outras experiências. Segundo o documento é
importante pensar sobre quem são os alunos da EJA e o que a escola representa
para eles. A escola se mostra nas dimensões: da sociabilidade, da transformação
social e da construção do conhecimento. A escola como espaço de sociabilidade
desempenha o papel de proporcionar o encontro entre os alunos e as vivências de
relações e experiências favorecendo o modo de compreender o mundo, além de
proporcionar a realização pessoal do sujeito. A fim de priorizar as relações uma
metodologia muito usada são os trabalhos em grupo desenvolvendo a sociabilidade
e a interação social entre eles proporcionando que pensem em coletivo sobre um
tema/assunto/problema enfrentados pela comunidade local e a partir desse trabalho
que é dada a aproximação das pessoas, o estreitamento de vínculos e o
enriquecimento pessoal.
Para a dimensão da transformação social um dos aspectos abordados é a
escola enquanto espaço de inserção social, pois nessa modalidade a prática
educativa também configura-se como prática política e que não visa procedimentos
escolarizantes compreendendo o processo de conhecer como uma práxis (análise
da realidade concreta - ensino e formação de conteúdos - compreensão de mundo).
Em 1940, houve as primeiras iniciativas do governo no sentido de erradicar o
analfabetismo entre os adultos acreditando-se que representaria o crescimento
econômico do país, pois “O analfabetismo era visto como um mal social e o
analfabeto como um sujeito incapaz” (BRASIL, 2006, p. 26). Já na década de 50 o
adulto analfabeto não votava, porém era um eleitor em potencial na premissa da
participação de todos como eleitores. Em 1960, com a força dos movimentos
estudantis e sindicais em uma análise mais profunda do analfabetismo percebeu-se
a relação deste com a pobreza e de uma política para manutenção das
desigualdades. É nesse contexto que a proposta de alfabetização para libertação, de
Paulo Freire, é difundida tratando a educação como ato político na qual os sujeitos
podem transformar a realidade social na busca de uma sociedade justa e
democrática.
Para o trabalho na EJA é preciso compreender que os alunos vivenciam
situações concretas e reais, e que conhecimentos de leitura e escrita, números e
operações podem ser significativos se o professor estabelecer a relação entre o
mundo real e concreto dos alunos e os conteúdos formais ditos escolares. Faz-se
necessário entender que o conhecimento do aluno da EJA é real, de sua própria
experiência, carregado de vivência, e eles são capazes de aprender principalmente
se os conteúdos estiverem relacionados com sua vida prática, e a partir de então
surgirão novas indagações e consequentemente novos conhecimentos. Nessa etapa
o professor precisa olhar para seus alunos como sujeitos sociais, do conhecimento e
que atuam sobre o que sabem aprendendo para além do código. O objetivo da EJA
não é trabalhar todos os conteúdos da etapa não finalizada e nem compreender
todos os conteúdos, mas sim de realização pessoal no cerne de suas vidas
concretas.
Durante o trabalho com EJA o professor precisa refletir sobre: se os
conteúdos trabalhados correspondem às necessidades reais dos alunos, a
participação dos alunos no planejamento do trabalho pedagógico e se a
aprendizagem dos alunos transformam o modo de ver e/ ou atuar na sua
comunidade. É ainda importante conhecer o que sabem os alunos realizando
sondagem dos conhecimentos prévios seja por diálogos, conversas, trabalhos em
grupo, fichas, listagens, entre outros. Assim, essa sondagem vai auxiliar o professor
a planejar situações de aprendizagem estabelecendo relação entre novos
conhecimentos e aqueles que os alunos já sabiam.
Outro aspecto da transformação social é a percepção da escola e sua
dimensão cultural, pois nela ocorre a divulgação cultural em diferentes âmbitos:
local, regional, nacional, de diferentes povos e em diferentes tempos. O texto do
caderno evidencia que cada grupo social constrói sua própria cultura de modo
singular e pode sofrer influências de outras expressões culturais. As diversas
expressões da nossa cultura devem ser valorizadas (música, arte, crença, modo de
falar, modo de pensar o mundo…) de maneira que proporcione os alunos a falar e se
expressar culturalmente convidando-os a fazê-lo utilizando diferentes linguagens
assim trabalhando o reconhecimento e valorização da própria cultura. No entanto,
conforme afirma o documento, a escola tem o papel de apresentar outros marcos da
cultura humana proporcionando o conhecimento e a interação de diferentes culturas
(festas, histórias, explicação de mundo) reconhecendo o valor de todas elas e que
são de igual importância.
Na discussão da construção do conhecimento o texto considera a escola
como espaço de conhecimento, especialmente da alfabetização. O conhecimento é
inerente ao trabalho escolar, sendo ele os saberes produzidos pela humanidade,
social e individualmente, construídos para explicar o mundo e a si mesmo. O
conhecimento é concreto, transformado e transformante, e sua produção é expressa
por: fazer, descobrir, criar, relacionar e refletir. No contexto da EJA as competências
de leitura e escrita têm destaque no trabalho pedagógico, pois são ferramentas para
inclusão no mundo moderno. Nessa perspectiva o texto reitera sobre o perfil atual
desses alunos como indivíduos letrados, porque apresentam experiências sobre o
uso das práticas sociais e funcionamento da escrita. No entanto, quanto ao domínio
da escrita o perfil é heterogêneo, visto que alfabetização é uma combinação de
capacidades a partir do que se aprende. Segundo o texto os jovens e adultos “não
alfabetizados” embora não saibam ler e escrever possuem conhecimentos sobre a
escrita, assim foram realizados trabalhos sobre os conhecimentos dos adultos
analfabetos em relação à língua escrita e sendo apontados: a) adultos não
alfabetizados vivem na sociedade letrada, conhecem a função da escrita e o
sistema, embora os processos não sejam lineares na interação com a língua escrita;
b) os adultos apresentam resistência quando solicitados a escrever, pois
reconhecem a formalidade do sistema de escrita; c) os adultos analfabetos
compreendem as funções da língua, fazendo antecipações assertivas para o texto
de uso social (embalagem, cartaz, letreiro); d) em sua maioria os adultos não
alfabetizados distinguem desenhos de letras; e) os adultos diferenciam a escrita de
números e letras, fazem cálculo mental; f) grande parte dos adultos relacionam fala e
escrita apresentando consciência fonológica e silábica; g) compreendem a escrita da
palavra e da sílaba, mas ainda apresentam dificuldades no momento da junção
silábica; h) as exigências do mercado de trabalho induzem o início do processo de
alfabetização mesmo que fora da escola; i) os jovens e adultos analfabetos
apresentam critério de quantidade mínima e variedade interna de letras; j) distinção
entre o escrito e o lido (verbos e substantivos são escritos; e artigos, preposição e
conjunção não); e k) reconhecem as diferenças quanto ao uso da língua escrita;
Assim o texto conclui que os adultos analfabetos apesar de desconhecerem o
sistema de escrita em sua totalidade reconhecem a prática social da escrita e a
relação com a linguagem.
Este caderno ainda apresenta sugestões para conhecer o que os alunos não
alfabetizados da EJA pensam sobre a escrita trazendo atividades para que o
professor realize o levantamento dos conhecimentos dos alunos em relação a
organização da escrita: entrevistas em pequenos grupos, cartões para leitura,
reconhecimento de marcas e rótulos, imagem com frase (charge, letreiro, trajetos,
placas), símbolos, entre outros. O documento enfatiza que cada sujeito constrói suas
hipóteses e explicações em relação à língua escrita e também traça um perfil dos
alunos da EJA apresentando singularidades dessa modalidade, ou seja, é preciso
compreender que esses jovens e adultos procuram a escola para viver, construir e
participar da vida social.