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SOLO ESTABILIZADO PELA TÉCNICA DE DEEP MIXING – PREPARAÇÃO

LABORATORIAL DE AMOSTRAS

SOIL STABILIZED BY DEEP MIXING – LABORATORIAL PROCEDURE


FOR TEST SAMPLES

Correia, António Alberto S., Dep. Eng. Civil – FCTUC, Coimbra, Portugal, aalberto@dec.uc.pt
Venda Oliveira, Paulo José, Dep. Eng. Civil – FCTUC, Coimbra, Portugal, pjvo@dec.uc.pt
Lemos, Luís Joaquim Leal, Dep. Eng. Civil – FCTUC, Coimbra, Portugal, llemos@dec.uc.pt

RESUMO

No âmbito das investigações referentes à técnica de estabilização profunda de solos por recurso
à mistura do solo com diferentes ligantes, é apresentado nesta comunicação, o procedimento
laboratorial para a preparação de amostras de solo estabilizado que consta na norma europeia
em vigor em Portugal (EN 14679:2005). A sua aplicação ao solo mole do Baixo Mondego
originou amostras de deficiente qualidade, o que conduziu à introdução de alterações no
procedimento original. As amostras assim produzidas mostraram ser de melhor qualidade em
termos de homogeneidade e reprodutibilidade.

ABSTRACT

In order to investigate the deep mixing technique this paper presents the preparation procedure
to make laboratorial samples described in the european standard in use in Portugal (EN
14679:2005). The applicability of this preparation procedure to the soft soil deposit of Baixo
Mondego produced samples of minor quality, which has lead to modifications that have been
introduced in the original procedure. The samples prepared with this new procedure have shown
to be of great quality in terms of homogeneity and reproducibility.

1. INTRODUÇÃO

A técnica de estabilização profunda de solos mediante o recurso à mistura do solo com


diferentes ligantes (técnica designada na literatura inglesa por Deep Mixing) tem fornecido bons
resultados quando aplicada a solos moles, constituindo hoje uma alternativa técnica e
economicamente válida quando comparada com outras técnicas de melhoramento e reforço de
solos moles. Originalmente a técnica de Deep Mixing foi desenvolvida nos países Nórdicos,
Japão, Reino Unido e EUA, restringindo-se a sua aplicação, quase em absoluto, ao controlo da
construção de aterros sobre solos moles (tendo por objectivo a redução de assentamentos e o
aumento da estabilidade). Hoje em dia a técnica encontra-se difundida um pouco por todo o
mundo, tendo sido alargados os domínios da sua aplicação a novos horizontes, tais como,
estruturas de suporte de escavações, controlo da percolação e/ou barreira impermeável (com
especial aplicação a casos de contaminação de solos), auxílio na escavação de túneis em solos
moles, controlo das deformações por corte (nomeadamente no controlo da liquefacção),
mitigação da propagação de vibrações, etc..

Não obstante estes desenvolvimentos, ensaios laboratoriais são necessários para prever qual(is)
o(s) melhor(es) ligante(s) a misturar com o solo em estudo, bem como a dosagem com que
este(s) participa(m) na mistura. Estes ensaios são indispensáveis dada a complexidade de
interacções químicas e físicas entre as partículas do solo e o(s) ligante(s). Mesmo no caso de
solos similares, ou no caso de ligeiras variações no tipo de ligante, o solo estabilizado resultante
pode exibir propriedades significativamente diferentes (em alguns casos poderá ainda ocorrer
que pequenas variações possam conduzir a resultados contraditórios dos obtidos da experiência
anterior). Conclui-se ser então indispensável um programa de ensaios laboratoriais de apoio à
definição do(s) melhor(es) ligante(s) e da sua dosagem (EuroSoilStab, 2001).

A preparação laboratorial de amostras de solo estabilizado deve obedecer a certos critérios de


forma a garantir a sua homogeneidade e reprodutibilidade. Acresce que a técnica usada em
laboratório deve, na medida do possível, reproduzir as condições verificadas em campo. Para o
solo mole do Baixo Mondego é apresentado um procedimento adoptado em laboratório por
forma a se obterem amostras qualitativa e quantitativamente semelhantes entre si.

Antes de se avançar, convém referir quais os estudos geológico/geotécnicos requeridos aquando


da análise da técnica da estabilização profunda de solos mediante o recurso à sua mistura com
ligantes (Deep Mixing).

2. INVESTIGAÇÕES GEOLÓGICAS/GEOTÉCNICAS

2.1. Solo não estabilizado

Dado o facto de o solo local ser em si mesmo parte integrante da técnica de estabilização
profunda, a campanha de prospecção geológica/geotécnica a realizar deve ser de muito boa
qualidade, recorrendo-se a ensaios de campo e de laboratório.

Os trabalhos a realizar no campo englobam a realização de sondagens, com recolha de amostras


intactas e perturbadas, bem como a realização de ensaios CPTU e Vane Test. As sondagens para
a recolha de amostras devem ser executadas, sempre que possível, com a recolha contínua de
amostras de solo, ou pelo menos, com a recolha de amostras nas zonas mais importantes ou de
piores características. Os pontos de sondagem serão escolhidos com base na informação
geológica/geotécnica disponível para o local.

Os trabalhos de laboratório referentes ao solo não estabilizado podem ser agrupados em 3


categorias:

- ensaios de classificação (a realizar para cada um dos estratos interessados), determinando-se os


seguintes parâmetros: estado físico (wnat, γ e G), curva granulométrica, plasticidade (wL, wP e
IP), teor em matéria orgânica (OM), e sensibilidade (St). Os resultados fornecem uma indicação
acerca da adequabilidade da técnica de estabilização profunda ao tipo de estratos atravessados.

- ensaios para a determinação das principiais propriedades com relevância para a engenharia,
nomeadamente, resistência ao corte não drenada (cu), compressibilidade e permeabilidade. A
sua determinação deve ser efectuada para cada um dos diferentes estratos envolvidos. Os
resultados serão utilizados no dimensionamento, sendo também considerados como valores de
referência na avaliação dos benefícios obtidos com a estabilização do solo.

- ensaios químicos com vista à determinação dos seguintes parâmetros: pH da água, capacidade
de troca catiónica, ácidos húmicos, teor em sulfatos, cloretos e carbonatos. Os resultados
fornecem linhas orientadoras para a escolha do melhor ligante e da melhor dosagem.

A informação recolhida nos trabalhos de campo e de laboratório serve de orientação à escolha


dos ligantes que potencialmente melhor estabilizam cada um dos diferentes estratos
atravessados, assim como permite ter uma noção da quantidade de ligante a adicionar ao solo no
processo de estabilização.
2.2. Solo estabilizado

Após a completa caracterização do solo não estabilizado, pode-se iniciar o estudo laboratorial
referente à estabilização do solo. De acordo com o estabelecido em EuroSoilStab, 2001, esse
estudo compreende 2 fases:

Fase 1 – os primeiros ensaios laboratoriais sobre amostras estabilizadas têm por objectivo testar
diferentes tipos de ligantes com diferentes combinações, escolhendo-se o ligante ou a
combinação de ligantes óptima. Esta escolha tem por base o ensaio de compressão não
confinado realizado sobre provetes estabilizados há 28 ou 90 (recomendado) dias.

Fase 2 – por fim, deve ser estudado a quantidade de ligante presente na mistura (dosagem), bem
como o efeito da estabilização no tempo. Uma vez mais, o ensaio tomado por referência é o
ensaio de compressão não confinado. Sempre que necessário, pode-se recorrer a ensaios
triaxiais para a determinação de outros parâmetros.

Ainda no decurso da fase 2 é usual conduzir outras investigações com o objectivo de: - analisar
o efeito da estabilização sobre a permeabilidade do solo, a qual pode diminuir ou aumentar
consoante a natureza do solo e tipo de ligante; - analisar o efeito de outra(s) técnica(s)
utilizada(s) em conjunto com a estabilização profunda de solos (por exemplo, a técnica da pré-
carga); - avaliação do impacto ambiental fruto da estabilização, mediante a realização de ensaios
de lixiviação e a determinação das seguintes propriedades: pH, capacidade de troca catiónica,
tipo de iões e metais e sua concentração, teor em sulfatos e carbonatos.

O solo utilizado na preparação laboratorial de amostras estabilizadas deve ser representativo dos
diferentes estratos a serem estabilizados. Os depósitos de solos orgânicos exibem elevada
variabilidade quer na direcção vertical, como na direcção horizontal, exigindo-se um elevado
cuidado na definição dos pontos de sondagens de modo a se obter amostras de solo o mais
representativas possível da área em estudo.

Na posse de toda esta informação procede-se ao dimensionamento da estabilização profunda do


solo. Os valores de cálculo adoptados em projecto devem ser confirmados uma vez em obra
mediante a realização de investigações de campo (CPT, ensaio penetrómetro de coluna, recolha
de amostras, etc.) sobre a estabilização efectuada na zona de testes. As propriedades mecânicas
e a uniformidade devem ser objecto de análise, procedendo-se a ajustes em obra e, quando
necessário, à revisão do projecto original.

Os ensaios de compressão não confinado descritos nas fases 1 e 2 referentes à definição do


melhor ligante e da sua dosagem, são executados sobre provetes de solo estabilizado preparados
conforme descrito na secção seguinte.

3. PREPARAÇÃO LABORATORIAL DE AMOSTRAS

3.1. Legislação aplicável

Em Portugal a preparação laboratorial de amostras de solo estabilizado encontra-se enquadrada


pela norma europeia EN 14679:2005 – “Execution of special geotechnical works – Deep
Mixing” (não existe actualmente versão portuguesa, IPQ, 2008). A norma estabelece os
princípios de execução, ensaio e controlo de trabalhos geotécnicos relativos à estabilização de
solos. No anexo B desta norma remete-se a preparação laboratorial de amostras para o
documento EuroSoilStab, 2001 – “Development of design and construction methods to stabilise
soft organic soils. Design guide soft soil stabilization”.
De seguida descreve-se o procedimento laboratorial referente à preparação de amostras de solo
estabilizado apresentado na secção 6.4.2 do documento EuroSoilStab (2001). O procedimento
aplica-se a solos moles com ou sem matéria orgânica, podendo ser estendido a solos arenosos
ou siltosos com alterações.

As amostras assim preparadas servem para as investigações laboratoriais descritas na secção 2.2
(fases 1 e 2). Convém referir que estas amostras não reproduzem correctamente a estrutura do
solo estabilizado in-situ. As condições de mistura e de cura em laboratório são
significativamente diferentes das de campo, o que em geral conduz a um melhor comportamento
mecânico das amostras laboratoriais face aos valores de campo. Este facto não invalida a
realização do estudo laboratorial, o qual se constitui uma ajuda indispensável ao correcto
dimensionamento da estabilização profunda do solo. A experiência acumulada permitirá
desenvolver relações e regras quanto à definição do factor de redução laboratório/campo.

O número de amostras laboratoriais a serem preparadas, ou o número de variáveis analisadas


(número e tipo de diferentes ligantes, dosagens, período de cura, etc.) no estudo laboratorial não
se encontra definido do documento EuroSoilStab, 2001, devendo ser ajustado cuidadosamente
aquando da definição do estudo laboratorial.

Os ligantes devem ser adequadamente armazenados tal que não sejam alteradas as suas
propriedades, devendo para tal ser protegidos da exposição à humidade, mesmo da existente no
ar ambiente, bem como de elevadas temperaturas.

O equipamento utilizado encontra-se sumariado no Quadro 1. O procedimento laboratorial


referente à preparação laboratorial de amostras de solo estabilizado é o seguidamente
enunciado, encontrando-se exemplificado na Figura 1.

1- Homogeneização do solo em misturadora de grande capacidade.

2- Preparação do ligante: quando este consiste numa mistura de 2 ou mais ligantes, essa mistura
deverá ser efectuada com os ligantes a seco na quantidade requerida. No caso de se recorrer à
mistura húmida, após a sua mistura a seco adiciona-se a água necessária à razão água/ligante
requerida produzindo-se uma calda.

3- Mistura: transfere-se para o balde misturador a quantidade de solo respeitante a pelo menos
uma amostra, adicionando-se de seguida o ligante na dosagem pretendida. A mistura é efectuada
até que a massa se apresente visualmente homogénea, anotando-se o tempo de mistura e a
velocidade de rotação da pá misturadora. No final da mistura, controla-se o teor em água da
mistura. Cuidados devem ser tidos de modo a se evitar a secagem da mistura antes da sua
introdução no molde, o que deve acontecer nos 30 minutos imediatamente seguintes ao fim da
mistura.

4- Compactação da mistura no molde: colocação de um elemento poroso na base do molde.


Introdução no molde da mistura em camadas, tal que a espessura de cada camada seja no
máximo metade do diâmetro interno do molde (em geral 4 camadas são suficientes). Para cada
uma das camadas procede-se da seguinte forma: introdução da mistura no molde; aplicação de
leve pressão por meio do garfo, procurando-se eliminar bolhas e bolsas de ar existentes na
mistura; com a peça compactadora aplicação da pressão de 100 kPa durante 2 segundos por 3
vezes; escarifica-se levemente a superfície da camada com o garfo, passando-se à camada
seguinte. Limpa-se o interior do molde e aplica-se o elemento poroso de topo. Caso a mistura se
apresente num estado fluído, ela poderá ser introduzida no molde de uma só vez e sem qualquer
compactação.
Quadro 1- Equipamento para a preparação laboratorial de amostras de solo estabilizado
(adaptado de EuroSoilStab, 2001)
Equipamento Notas
Misturadora de Homogeneização de todo o solo a ser usado no estudo laboratorial
grande
capacidade
Misturadora Capacidade suficiente para a preparação de pelo menos uma amostra
Molde cilíndrico A altura do molde deverá ser superior ao diâmetro interno. Os topos
devem ser planos e perpendiculares ao eixo do molde. O molde pode ser
cortado em duas partes segundo o alinhamento longitudinal, ou em
alternativa, pode ser untado interiormente com vaselina desde que esta
não influencie as propriedades da amostra estabilizada
Garfo Com os dentes dobrados tal que façam um ângulo recto entre si
Peça Placa circular em aço capaz de aplicar a pressão de compactação (100
compactadora kPa). Deverá existir uma folga de 5 mm entre o diâmetro da placa e o
diâmetro interno do molde.
Elemento Pedra porosa ou geossintético com a função de drenagem
poroso
Pressão

Pressão
Pressão

Figura 1 – Procedimento laboratorial.


5- Armazenamento: a amostra é transferida para um tanque cheio de água e deixada na posição
vertical a curar; se necessário, aplica-se uma pressão no topo da amostra, registando-se a
compressão vertical imediatamente após a aplicação da carga, e depois uma vez por dia até que
cesse a deformação. Durante a cura a temperatura deve ser mantida constante (18 a 22 ºC).

A aplicação, o mais cedo quanto possível, de uma sobrecarga ao solo estabilizado resulta em
geral numa melhoria da resistência, pelo que, quer em laboratório como em obra tal
procedimento deve ser adoptado. A sua materialização em laboratório é efectuada pela
aplicação de cargas sobre as amostras estabilizadas em processo de cura, enquanto que em
campo, pode-se construir uma camada de aterro com espessura tal que não coloque em causa a
estabilidade do conjunto.

6- Extracção da amostra: após o período de cura especificado, remove-se a amostra do molde,


operação que deve ser efectuada minimizando-se a perturbação da amostra. Corta-se um provete
com a altura desejada, corte esse feito segundo a perpendicular ao eixo da amostra, rectificando
quando necessário os seus topos (por exemplo aplicando uma fina camada de gesso de
endurecimento rápido).

7- Elaboração de um relatório onde se especifica todas as condições de preparação da amostra.

A quantidade de solo requerida na preparação laboratorial de amostras de solo estabilizado é


pequena, dado o reduzido tamanho das amostras laboratoriais e desde que se respeitem simples
cuidados laboratoriais na minimização das perdas de solo. Face a esta quantidade de solo
requerida, as tradicionais técnicas de recolha de amostras são suficientes.

Para além do procedimento laboratorial apresentado, outros existem, também alguns deles
enquadrados em normas. A título de referência indicam-se as normas vigentes na Suécia (para
além da norma EN 14679:2005, existe ainda o documento Carlsten e Ekström 1997), no Japão
(JGS 0821, 2000), e nos E.U.A. (ASTM D 3551-02, 2002; ASTM D 4609-01, 2002; ASTM D
6236-98, 2004).

3.2. Solo mole do Baixo Mondego

Para o solo mole do Baixo Mondego, cuja caracterização geotécnica é apresentada no Quadro 2,
a aplicação do procedimento acima descrito revelou-se pouco satisfatória, quer pela fraca
reprodutibilidade (veja-se no Quadro 3 a grande variabilidade dos valores γd e cu), quer pela
fraca qualidade das amostras obtidas as quais apresentam elevadas heterogeneidades com a
presença de cavidades de dimensões consideráveis na superfície lateral (Figura 2a)). A
explicação para a fraca qualidade das amostras assim preparadas está relacionada com as
características do solo em estudo, o qual difere dos solos que serviram de base à elaboração do
procedimento laboratorial apresentado em EuroSoilStab, 2001 (solos moles orgânicos
homogéneos com elevados teores em água, nomeadamente turfas e lodos). Outro ponto que
ajuda a clarificar tais deficiências prende-se com as dimensões da amostra (100 mm de diâmetro
interno em vez dos 50 mm referenciados no EuroSoilStab, 2001) e a folga existente (5 mm)
entre o diâmetro da peça compactadora e o diâmetro interno do molde (elevada perda de mistura
por esta folga durante a aplicação da pressão de compactação).

Quadro 2- Caracterização geotécnica do solo mole do Baixo Mondego (valores médios).


G wnat γsat enat Granulometria Plasticidade OM Classificação cu
(%) (kN/m3) (%) (%) (%) Unificada (kPa)
2,55 79 14,6 2,1 Argila = 15-30 wL = 71 7,7 OH de alta < 25
Silte = 40-72 wP = 43 plasticidade
Areia = 35 IP = 28
Quadro 3- Algumas características das amostras laboratoriais ensaiadas.
Ligante Dosagem Qualidade geral γd cu
(kg/m3) das amostras (kN/m3) (kPa)
Procedimento laboratorial EuroSoilStab (2001)
Cal viva (25%) + 125 Má 9,33−9,50 152-180
Cimento Portland (75%)

Procedimento laboratorial EuroSoilStab (2001) com as alterações aqui sugeridas


Cal viva (25%) + 125 Muito Boa 9,54−9,55 216-218
Cimento Portland (75%)

a) Procedimento laboratorial b) Procedimento laboratorial EuroSoilStab


EuroSoilStab (2001). (2001) com alterações aqui sugeridas.
Figura 2 – Amostra laboratoriais ensaiadas.

Tais insuficiências obrigaram à introdução de alterações/adaptações ao procedimento


laboratorial apresentado. Face aos problemas encontrados, os quais se traduzem na existência de
cavidades de dimensões consideráveis na superfície lateral das amostras dispersos de uma forma
aleatória, foi decidido investigar novas técnicas de introdução da mistura no molde (ponto 4 do
procedimento acima indicado). Assim sendo procederam-se às seguintes modificações:

- redução da folga existente entre o diâmetro da peça compactadora e o diâmetro interno do


molde, tal que seja igual a relação de áreas (área da peça compactadora/área interna transversal
do molde) quer o molde tenha diâmetro interno de 50 ou 100 mm. Após esta alteração as
resultados mostraram que não havia subida significativa de solo através desta folga durante a
aplicação da pressão de compactação.

- ajuste da mistura imediatamente após a sua introdução por meio de vara de apiloamento
aplicada à mão, tendo-se verificado a eliminação das maiores bolsas de ar existentes na
superfície lateral da amostra.

- aplicação de ligeira vibração junto da superfície lateral da amostra (por meio varão de aço
ligado a um berbequim Black&Decker de 500W), a qual eliminou os furos de menores
dimensões existentes na superfície lateral da amostra. Refira-se que a norma japonesa (JGS
0821, 2000) permite que a amostra possa ser submetida a vibrações (por meio de mesa
vibratória) para eliminação das bolhas de ar que possam ficar aprisionadas durante a introdução
e compactação da mistura no molde.
Aquando da adição do ligante no estado seco, cuidados foram tidos no início da mistura, onde
havia lugar a perdas consideráveis de ligante quando esta se iniciava sem uma mistura prévia do
ligante com o solo. Procedeu-se sempre à mistura prévia do solo com o ligante, a qual foi
realizada à mão e prolongou-se até se verificar que o ligante não se encontra livre. As amostras
produzidas por recurso ao procedimento laboratorial com as alterações acima referidas
mostraram ser de grande qualidade em termos de homogeneidade e reprodutibilidade (Quadro 3
e Figura 2b)). Registe-se a redução da variabilidade dos valores de γd e cu, assim como o
aumento da resistência não drenada, cu, factos que atestam as melhorias obtidas com a
introdução das alterações ao procedimento laboratorial inicial.

Apesar de não referido em nenhum documento normativo, antes de se iniciar o estudo


laboratorial da estabilização propriamente dito, dever-se-ão ajustar alguns parâmetros iniciais,
tais como, o tempo de mistura, a velocidade de rotação e a velocidade de deformação no ensaio
de compressão não confinado. Estes valores dependem fundamentalmente do tipo de solo e do
tipo de ligante.

4. CONCLUSÕES

A aplicação ao solo mole do Baixo Mondego do procedimento laboratorial de preparação de


amostras enunciado na norma europeia EN 14679:2005, ou mais rigorosamente no documento
EuroSoilStab, 2001, originou amostras de deficiente qualidade. Contudo, após a introdução de
alterações ao procedimento original, obtiveram-se amostras de boa qualidade quer em termos de
homogeneidade como de reprodutibilidade.

REFERÊNCIAS

ASTM D3551-02 (2002). "Standard Practice for Laboratory Preparation of Soil-Lime Mixtures
Using a Mechanical Mixer", American Society for Testing and Materials, September of
2002, pp. 2.
ASTM D4609-01 (2002). "Standard Guide for Evaluating Effectiveness of Chemicals for Soil
Stabilization", American Society for Testing and Materials, February of 2002, pp. 5.
ASTM D6236-98 (2004). "Standard Guide for Coring and Logging Cement - or Lime-Stabilized
Soil", American Society for Testing and Materials, June of 2004, pp. 6.
Carlsten, P. e Ekström, J. E. (1997). “Lime and lime cement columns. Guide for project
planning, construction and inspection”, Swedish Geotechnical Society, Report 4:95E,
Linköping, Sweden, pp. 111.
EN 14679:2005, “Execution of special geotechnical works – Deep mixing”, CEN, English
version, April of 2005, pp. 52.
EuroSoilStab (2001). “Development of design and construction methods to stabilise soft organic
soils. Design guide soft soil stabilization”, CT97-0351, EC Project No. BE 96-3177,
Industrial & Materials Technologies Programme (BriteEuRam III), European
Commission, pp. 94.
IPQ (2008). Informação relativa à norma europeia EN 14679:2005. Disponível em: <
http://www.ipq.pt/custompage.aspx?modid=0&pagid=1250&TPA=C&ncert=82144>.
Acesso em 18 de Janeiro de 2008.
JGS 0821 (2000). “Practice for making and curing stabilized soil specimens without
compaction”, Japanese Geotechnical Society Standard, Draft version, pp. 21.

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