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A produção de conhecimento enquanto instrumento de

transformação social: uma análise dos conceitos de


crítica e libertação na obra de Ignacio Martín-Baró

Fernanda Barbosa Carreiro Tavares


Orientador: Francisco Teixeira Portugal
Outubro, 2018
Introdução
Ignácio Martín-Baró (1942-1989)

Jesuíta espanhol
Ignácio Martín-Baró
Graduação em Psicologia na UCA, Universidad Centro Americana José
Simeón Cañas (El Salvador) .

Mestrado em Ciências Sociais e Doutorado em Psicologia Social pela


Universidade de Chicago, nos Estados Unidos.

Professor do departamento de Psicologia da UCA

Contexto em que a obra de Martín-Baró foi escrita: Guerra Civil de El Salvador


(1979-1992)

Assassinado por forças pró-governamentais em 1989 dentro da UCA


Mapa da América Central
Psicologia Social da Libertação

Psicologia Social da Libertação (PSL)

Objetivo: investigar e explicitar as


dimensões ideológicas forças e interesses sociais
contidas nos processos subjetivos e
intersubjetivos das relações
psicossociais

Isso começa com a investigação do que há de ideológico na


Livro base da pesquisa
Psicologia, ou seja, por revisões críticas e reconsiderações teóricas de
todo o material presente na formação e no instrumental do psicólogo.
Libertação

Libertação?

Bullhan, 1985: superação da internalização das relações opressoras por


grupos oprimidos (perspectiva das relações coloniais)

Análise histórica e crítica da realidade existente para abrir o caminho para a


construção de outras racionalidades, outros modos de vida.

O psicólogo: identificar e operar transformações político subjetivas por meio


da ação em coletivos e nos dispositivos da Psicologia que estejam produzindo
desigualdades, injustiças e cristalizando identidades. Compromisso com a
transformação social e com os interesses dos grupos sociais fragilizados.

Não se elege uma linha teórica exclusiva, há, contudo, um projeto ético-
político para a prática da Psicologia nas mais diversas áreas de atuação.

Mural do artista equatoriano Oswaldo Guayasamín


A crítica de Martín-Baró em relação a produção do conhecimento em Psicologia

Foco de Martín Baró: Psicologia ensinada, reproduzida e aplicada na América Latina ainda está presa a
esquemas e teorizações importadas de nações centrais, capitalistas e desenvolvidas, que trazem
pressupostos, interesses e objetivos e especificidades históricas, políticas, culturais, sociais e econômicas
muito diferentes da realidade dos países latinos. Os problemas e objetivos, já pré-concebidos dentro das
teorias, não seriam correspondentes às reais questões e interesses da população latino-americana.

Normal no contexto burguês e acadêmico em um país central X normal em comunidade pobre de um país
periférico → importação acrítica de conhecimentos europeus e estadunidenses gera uma falsa
correspondência entre essas noções.

A Psicologia tem o poder de produzir e reproduzir certos desejos, necessidades e vivências, então ela é
capaz de operar a legitimação de um padrão de normalidade, de "homem comum", e de criminalizar e
patologizar experiências que não correspondam a esse formato.
"Esse "homem comum" (...) é o produto de uma determinada ordem social. Assumir
o seu funcionamento psíquico como referência significa aceitar as exigências
ideológicas do poder estabelecido, universalizar sua visão específica de ser
humano e, assim, isentar de análise, deixar de questionar a relação entre as formas
e os conteúdos, entre os processos psíquicos e os interesses sociais." (p. 164)
A produção de conhecimento em Martín-Baró

Exemplos práticos de como a importação acrítica de teorias estrangeiras pode afetar a


prática da Psicologia:
- Psicologia do Trabalho/Psicologia do Sem Trabalho (El Salvador)

- Elaboração de Políticas Públicas que utilizam soluções individuais para


problemas sociais (Brasil)
Caminhos e práticas possíveis

Caminhos e sugestões para uma prática psicológica que atendesse aos interesses do público popular:

Inversão metodológica → as questões psicossociais concretas que se apresentam dentro de uma sociedade são o
ponto de partida do psicólogo, que a partir daí deve começar a pensar quais respostas, esquemas e técnicas podem
ser adequadas àquela situação. → indissociabilidade da teoria e da prática.

Para isso, é necessário o convívio e o acesso à população, e um entendimento do cenário político, cultural, social e
histórico dela. → evitar construir um conhecimento alienado da realidade daqueles com os quais se pretende
trabalhar.

Horizonte: compromisso com a libertação e a autonomia e a construção de uma sociedade verdadeiramente


democrática. → utilizar esse conhecimento para abrir possibilidades de construção de novas racionalidades, novos
horizontes, e não validar e cristalizar uma única maneira de ser.
Alguns questionamentos

Diferenças: Brasil 2018 x El Salvador dos anos 80.

Movimentos de minoria x Maiorias populares

"Crise da Psicologia Social” e surgimento de Psicologias críticas na América Latina —> A formação
e a produção de conhecimento em Psicologia ainda corresponde às descrições de Martín-Baró? O
trabalho que ele propunha já foi realizado? Qual a relevância de sua obra no Brasil contemporâneo?
Qual a relevância da obra de Martín-Baró no Brasil contemporâneo?

Momento de crise social e política --> intensa polarização e fragilidade das instituições.

Quando as bases daquilo que é instituído mostram suas incoerências e contradições, pode-se vislumbrar
novas racionalidades que antes não pareciam possíveis dentro da aparente solidez da ordem do momento.

Sociedade polarizada --> correspondência de certos programas e paradigmas científicos com um ou outro
projeto de sociedade, descortinando o viés político e ideológico da ciência, especialmente das ciências
sociais.
Qual a relevância da obra de Martín-Baró no Brasil contemporâneo?

Ofensiva de um projeto de sucateamento e desrespeito à educação pública como uma


preparação para a inserção da "solução da privatização"

Teoria da PSL como instrumento de defesa da universidade pública

Polo de ensino crítico e autônomo >


integração ensino, pesquisa e extensão, 98%
da produção em pesquisa do país, grande
projeto de integração com a comunidade.
Qual tipo de formação do psicólogo é mais
X
propícia a práticas produtoras de autonomia e
atentas às questões psicossociais locais?
Ensino otimizado, mecanizado, acrítico >
transformação da educação em produto do
mercado financeiro, “otimização" do processo
educativo (= lucro) (OLIVEIRA, 2009)
Referências:

Martín-Baró, I. (2017). Crítica e libertação na Psicologia: estudos psicossociais. Editora


Vozes Limitada.

Hur, D. U., Lacerda, F., Jr. (Org.). (2016). Psicologia, política e movimentos sociais. (1st
ed.) Petrópolis: Vozes.

Oliveira, R. P. D. (2009). A transformação da educação em mercadoria no Brasil.


Educação & Sociedade, 30(108), 739-760.

Portugal, F.T.; Facchinetti, C.; Castro, A.C. (Org.). (2018). História Social da Psicologia.
(1st. ed.) Rio de Janeiro: Nau.
Obrigada!

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