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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA

CURSO DE GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

PAULO PIRES DUPRAT

AS NOVAS ACEPÇÕES DA ROMANIZAÇÃO SOB A ÓTICA DO PÓS-


COLONIALISMO

NITERÓI

2011
PAULO PIRES DUPRAT

AS NOVAS ACEPÇÕES DA ROMANIZAÇÃO SOB A ÓTICA DO PÓS-


COLONIALISMO

Monografia de conclusão do curso


de graduação em História da
Universidade Federal Fluminense
apresentada como requisito parcial
para a obtenção do grau de Bacharel e
Licenciado.

Orientador: Prof. Me. MANUEL ROLPH DE VIVEIROS CABECEIRAS

Leitor Crítico:

NITERÓI

2011
2
AGRADECIMENTOS:

À Márcia, pelo apoio incondicional. Incentivadora incansável e fã nº 1.

À minha mãe, fonte de inspiração permanente.

À minha família, que compreendeu minha presença quase ausente durante alguns
meses.

Ao meu orientador e amigo Manuel Rolph. Sua direção segura e serena mostrou o
caminho.

Aos amigos, em especial José Ricardo Rodrigues, presença certa nas lutas do cotidiano.

Aos companheiros que trabalham comigo da Biblioteca de Arquitetura e Belas Artes da


UFRJ.

À Universidade Federal Fluminense e a todos os seus professores, funcionários e


alunos, que fazem parte da minha história desde os idos tempos do Curso de
Biblioteconomia e Documentação.

3
“Começar não é apenas um tipo de ação. É também um estado
de espírito, um tipo de trabalho, uma atitude, uma consciência”.
(Edward Said).

4
Resumo

O objetivo deste trabalho é analisar como foi construído o conceito de


Romanização, destacando como a política moderna contaminou as avaliações
acadêmicas sobre a conquista romana. Essas perspectivas foram formuladas sob
contexto eurocêntrico e ainda hoje influenciam os textos dos especialistas. Alguns
acadêmicos estão questionando esta categoria de análise, contextualizando-a como uma
produção científica datada, que reflete os valores ingleses na época do neocolonialismo.
É a teoria pós-colonial, que procura contestar esses pressupostos, buscando modelos
interpretativos mais equilibrados. No novo modo de ver, a Romanização foi um
processo que ocorreu numa dinâmica de negociação bidirecional, resultando numa
síntese cultural. Tal abordagem permite um debate mais crítico sobre a natureza do
Império Romano.

Palavras-chave: Romanização – Aculturação – Etnicidade – Globalização –


Eurocentrismo – Pós-colonialismo.

5
Abstract

The purpose of this paper is to analyze how was built the Romanization concept,
highlighting how modern politics has influenced the academic evaluations of the Roman
conquest. These perspectives have been formulated in a Eurocentric framework and
continue to influence the academic production. Some scholars are challenging this
framework, contextualizing it as an outdated discourse which reflects the British neo-
colonialism values. It is the post-colonial theory, which seeks to oppose these
assumptions, suggesting more balanced interpretive models. In the new approach,
Romanization was a process that took place in a dynamic two-way negotiation, resulting
in a cultural synthesis. Such an approach allows a more critical debate about the nature
of the Roman Empire.

Keywords: Romanization – Acculturation – Ethnicity – Globalization – Eurocentrism –


Post-Colonialism.

6
SUMÁRIO

Introdução - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 08
Capítulo 1 – Como foi construída a teoria da Romanização – uma perspectiva comparada - - - - - - - - - - - 09

1.2. Desconstruindo a teoria da Romanização – a teoria pós-colonial - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 17


Capítulo 2 - Humanitas e Evergetismo na visão de Paul Veyne -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 27

Philantrophia, Humanitas e Romanização - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 29

A classe governante e o evergetismo- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 31

Capítulo 3 – Os novos caminhos da teoria pós-colonial - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 34


34
3.1. Sîan Jones e a etnicidade multidimensional.- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
39
Habitus - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - --- - - - - - - -

Reconsiderando a Romanização - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 42

3.2. Richard Hingley: globalizando a cultura romana -- -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 45

O latim como instrumento de dominação - - - - - - - - - - - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 48


50
Bárbaros e Humanitas - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -- - - -

Cultura material - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 53

Novas propostas - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 54

Conclusões - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 56

3.3. Mendes, Bustamante e Davidson: analisando a dinâmica do projeto imperialista romano: dois estudos
57
de caso - - - - - - - - - - - - - - - - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
60
Primeiro caso: - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Segundo caso: - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 61

Considerações finais - - - - - - - - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 65

Referências bibliográficas: - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - 73

7
Introdução

Este trabalho é o resultado de uma idéia que foi amadurecendo aos poucos.
Quando resolvi escrever sobre a Romanização, eu não tinha idéia no que eu estava me
metendo. Meu interesse original era entender porque somos o que somos. Sempre tive
enorme admiração pela cultura Greco-romana. Acho incrível como esses povos
conseguiram construir uma civilização de tal magnitude com meios tão precários e a
parca tecnologia da época. Eu acreditava firmemente que civilização romana era o
fundamento de Ocidente moderno. Portanto, todos os preconceitos eurocêntricos que eu
teria que combater nesse trabalho estavam “incrustados” em mim. A cada lauda, eu me
desfazia deles. Posso dizer que foi mesmo, um aprendizado e tanto.

Utilizando como fontes principais as obras de Richard Hingley, Sîan Jones, Paul
Veyne, Norma Musco Mendes, Regina Bustamante, Renata Garraffoni, entre outros,
desenvolverei uma problemática buscando evidenciar como foi construída a teoria da
Romanização, demonstrando o contexto eurocêntrico no qual foi elaborada e como isso
pode ser considerado inadequado atualmente.

O período histórico abordado será principalmente o último século a.C. e o


primeiro d.C. - o período de Augusto - e o objetivo é apresentar a teoria pós-colonial e
os novos caminhos interpretativos que ela aponta, comparando as perspectivas e
buscando maior clareza.

Este trabalho está longe de esgotar o assunto. Busca apenas oferecer o que se
espera de um trabalho de conclusão de curso, com vivas esperanças de que o
considerem relevante. Minha formação original é a Biblioteconomia e bem sei que obra
relevante é aquela que é consultada. Portanto, eu espero que sirva pra alguém. Desde já
peço desculpas pelas muitas e inevitáveis omissões, que pretendo tratar em futuras
empreitadas, se houver oportunidade.

8
Capítulo 1. Como foi construída a teoria da Romanização – uma
perspectiva comparada

Segundo Garraffoni (2005), em finais do século XVIII e início do XIX surge em


terras italianas uma nova preocupação: com as campanhas napoleônicas sobre a
península itálica, o papado inicia um processo de luta pela tutela e preservação do
patrimônio histórico dos saques e espoliações que este vinha sofrendo. A necessidade de
preservar os antigos monumentos romanos da ação do tempo e do vandalismo passa a
ser discutido, pela primeira vez, como um empenho cívico e coletivo. Em um momento
de invasões francesas, essa súbita necessidade de recuperar a memória de Roma surge
inserida num contexto mais amplo: a necessidade de construir uma identidade nacional
estava em conformidade com as novas necessidades da moderna nação italiana que
então nascia.

Embora a relação aqui seja direta - uma vez que Roma situa-se geograficamente
na península itálica - recuperar a história do império Romano e sua cultura material na
definição de identidades nacionais não foi tarefa exclusivamente italiana. Como o
Império romano cobriu extensas áreas, não era difícil encontrar resquícios de sua época
áurea nas mais distintas regiões do continente europeu. Assim, em uma época de
unificação política e criação de identidades nacionais, somada à expansão e ao
neocolonialismo, abriu-se espaço para que os intelectuais do período voltassem sua
atenção para o estudo do passado. Nesse contexto, Roma foi revisitada e teve papel
fundamental para a criação do conceito de Cultura Ocidental1

Neste processo de retorno à Antiguidade, a História e a Arqueologia tiveram


atuação decisiva. Ao se profissionalizarem, estas disciplinas passaram a ter o status de
“neutralidade” da Ciência. Num período de intensos investimentos científicos, os
esforços dos classicistas se multiplicaram, culminando com o desenvolvimento de
vários métodos para a elaboração de interpretações objetivas do passado. Amplos

1
Estudos sobre a Grécia também estão associados à idéia de cultura ocidental e foram intensificados no
mesmo período. Trataremos apenas o caso romano por ser o objeto específico deste estudo.
9
estudos sobre a sociedade romana se definiram e se construíram a partir do olhar
positivista destes eruditos. A partir do trabalho destes estudiosos foi criado o conceito
de Romanização, que ainda hoje influencia os textos dos especialistas e noções
disseminadas pelos meios de comunicação de massa. A idéia de uma Roma Imperial
dotada de Estado forte, irradiadora de cultura e luz sobre o mundo bárbaro que havia
sido submetido é muito frequente neste período e ainda hoje é aceita por inúmeros
classicistas. No entanto, a autora faz um alerta: Romanização é uma construção que
produz dicotomias – pois parte do pressuposto de que Roma era dotada de identidade
única e cultura homogênea, o que resulta em oposições binárias, tais como
civilizado/bárbaro, povo/imperador, culto/inculto, entre outras.

A autora faz uma análise criteriosa sobre as interpretações do século XIX sobre
o Império Romano. Ela cita os trabalhos de Mommsen, Friedländer, e Meier como
referências importantes no campo das interpretações do período. E no que tange às
interpretações propriamente ditas, ela atribui a Mommsen e Friedländer papel
importante na elaboração das idéias que aos poucos foram se tornando conceitos
"canônicos" entre muitos dos pesquisadores do mundo antigo.

Nas últimas décadas do século XIX, momento em que tanto Mommsen quanto
Friedländer viveram e pesquisaram, predominavam entre os classicistas interpretações
que visavam ressaltar a grandiosidade do Império romano. Este viés encontra contexto
numa época de plena expansão dos ideais liberais e burgueses, concomitantemente com
o advento do neocolonialismo e - como se já não bastasse - coincidindo com o apogeu
do Império Britânico – que se identificou com o romano em sua suposta "missão
civilizatória" sobre os "povos bárbaros".

Em seguida, nos apresenta Haverfield como um dos fundadores da Arqueologia


romano-britânica. Explica que ele elaborou o conceito de Romanização a partir de suas
escavações em território britânico, buscando conformidade com as idéias de Mommsen.
Para ela, o papel de Haverfield foi decisivo tanto para o desenvolvimento da
Arqueologia inglesa quanto para a formalização deste conceito que virá a ser tornar um
mito de origem pouco questionada.

Em seu retrospecto sobre as origens dessa idéia, Hingley (2005) demonstra a


conexão entre o mundo antigo e moderno e destaca como a política moderna
10
contaminou as avaliações acadêmicas sobre a conquista romana e a Romanização. A
perspectiva evolucionária é teleológica em sua ênfase no contínuo aperfeiçoamento dos
aspectos do passado, cuja idéia de progresso inexorável é entendida como uma espécie
de desenvolvimento e conclusão de sucessivas etapas que resultaram na formação do
presente até a atualidade. Esse processo, ao buscar por continuidade, desconsidera as
especificidades do passado, empobrecendo-o. Partindo dessa premissa, o mundo antigo
e o mundo moderno precisam ser analisados em seus próprios contextos. No entanto,
não se deve negar que o passado clássico preserva uma relação significativa com o
presente - a cultura clássica produz amplas e poderosas ressonâncias para as questões
modernas. Tal como Hingley afirma:

it is drawn upon in many complex ways to provide both


parallels and contrasts with the present. At the same time, the
present is also used to inform the past (HINGLEY, 2005, p.
2
6) .

O autor chama a atenção para o contexto eurocêntrico no qual foram formuladas


as perspectivas sobre o Império romano e a Romanização. Durante o final do século
XIX e início do século XX, surge a idéia de que o Império Britânico seria o sucessor de
Roma em sua suposta missão de civilizar os povos “bárbaros”, bem como foram
apropriados diversos elementos da Roma clássica no decorrer da consolidação de
diversos estados nacionais europeus modernos. O autor considera que a criação da idéia
de Romanização pelos meios acadêmicos da época decorre da noção de que o Ocidente
é herdeiro da cultura romana. O conceito de Romanização segue o pensamento moderno
tradicional sobre mundo clássico, onde o espírito europeu teria se originado na Grécia e
Roma seria o elo entre o passado grego e o presente do século XIX, sugerindo idéias de
superioridade ocidental. A Romanização seria um meio através do qual se poderia
analisar como os bárbaros ocidentais adotaram a civilização romana.

Hingley considera que o papel da literatura clássica foi altamente relevante na


criação da idéia de continuidade da história do Ocidente. O autor trabalha com o
conceito de humanitas no contexto romano como uma justificativa ideológica na qual a

2
Tradução: esta se delineia sob muitas maneiras complexas para fornecer paralelos e contrastes com o
presente. Ao mesmo tempo, o presente é também utilizado para esclarecer o passado.
11
elite romana havia financiado a conquista e a dominação. Alguns autores clássicos
consideram que a humanitas se originou na Grécia e se disseminou pelo mundo através
da expansão imperial romana. A idéia da herança cultural romana sobre os povos
ocidentais seduziu políticos e intelectuais do período e foi usado para justificar a
dominação dos demais povos pelas nações do Ocidente. Hingley esclarece que esse tipo
de perspectiva é uma associação do clássico conceito de Humanitas e o moderno
conceito de progresso, que sugerem que a adoção da civilização foi uma transição de
um estado bárbaro para um que está mais próximo do atual. As implicações disso,
segundo Hingley:

A teleological perspective on technology and innovation


helped to articulate ideas of imperialism and progress that then
fed back into images of imperial purpose and power
3
(HINGLEY, 2005, p.27)

Sîan Jones (1997), ao fazer sua abordagem sobre a Romanização, prioriza os


pressupostos da cultura material ao afirmar que o momento histórico da conquista
romana foi profundamente estruturado a partir da interpretação dos vestígios
arqueológicos que datam entre 100 a.C. e 200 d.C. no noroeste da Europa. A
incorporação das sociedades do final da Idade do Ferro pelo Império Romano foi
considerada de maneira a constituir um limite temporal entre as culturas do passado,
bem como entre sociedades não-alfabetizados e letradas - que por sua vez forneceu a
base para um limite temporal e a divisão entre a arqueologia pré-histórica e clássica.
Segundo a autora, isso pode ser detectado desde o século XVIII.
Durante a maior parte da história da pesquisa arqueológica, esta delimitação
entre o final da Idade do Ferro e o período romano acabou por formar um quadro que
estruturou uma interpretação rígida da identidade cultural. Além disso, Jones enfatiza
que há outras dimensões a considerar sobre o passado social e cultural dessas
sociedades. A interpretação da identidade cultural ou étnica no final Idade do Ferro na
Grã-Bretanha tem sido tradicionalmente inserida nesse quadro cultural e histórico. Jones

3
Tradução: A perspectiva teleológica sobre tecnologia e inovação ajudou a articular idéias de
imperialismo e progresso que depois resultaram em imagens de propósito imperial e poder.
12
cita Hawkes4, que desenvolveu o primeiro padrão de classificação cultural para toda a
Idade do Ferro, definindo três grandes culturas arqueológicas: Idade do Ferro A, B e C
– esquema que foi posteriormente popularizada por Childe5. A classificação ABC foi
baseado num esquema migracionista, no qual as sociedades continentais da Idade do
Ferro foram considerados como a maior fonte de inovação e mudança que se
disseminou para áreas periféricas como resultado da mobilidade dos povos.

Esses povos e suas culturas suscitaram o sistema interpretativo de classificação


espaço-temporal de dados e a explicação da mudança cultural durante toda a Idade do
6
Ferro. No entanto, Jones menciona Champion , que em sua análise do período alertou
que “os arqueólogos muito prontamente construíram uma cultura de nada mais do que
um único tipo de cerâmica, e invocaram uma interpretação étnica para a sua
distribuição”.

O paradigma de que os povos pré-históricos migrariam constantemente


justificou interpretações migracionistas e difusionistas. Jones considera que essa idéia
continuou influenciando a Arqueologia no sentido de interpretar os objetos recuperados
sob uma ótica onde similaridades indicam proximidade sócio-espacial e diferenças
significam distanciamento – o que levou ao pressuposto da cultura e identidade como
algo monolítico e homogêneo. Estudos sobre a cultura e identidade após a conquista
romana em território britânico foram configuradas em termos de um limite temporal
entre nativo e romano, considerando que imediatamente após o contato dos romanos
com a população nativa iniciou-se um processo de mudança cultural que culminou na
síntese cultural romano-bretã - um processo que tem sido chamado de Romanização.

Jones considera que há poucas indicações teóricas detalhadas sobre o que se


poderia considerar Romanização, porém vários elementos podem ser isolados a partir da
literatura. Primordialmente, é descrito como o processo cultural que resulta da interação
entre duas culturas supostamente distintas. Segundo a percepção da maioria dos
estudiosos, a natureza desse processo se constituiria na progressiva adoção da cultura

4
Hawkes, C.F.C. ‘Hillforts’. Antiquity 5:60–97, 1931.
5
Este modelo histórico-cultural foi difundido em escala mundial por Gordon Childe, que é considerado o
patrono da Arqueologia moderna. Seu influente trabalho se tornou clássico para ciências como a
Antropologia e a História. Segundo sua perspectiva, os arqueólogos deveriam tentar descobrir padrões
culturais com ênfase na homogeneidade.
6
Champion, T.C. Britain in the European Iron Age. Archaeologia Atlantica 1: 127–45, 1975.
13
romana pelas populações indígenas, envolvendo a adoção progressiva do idioma e
costumes romanos, da franquia política, da vida urbana, economia de mercado, cultura
material, arquitetura e assim por diante7. Embora tenha sido sugerido que a
Romanização foi um processo de duas vias, resultando na síntese de ambas as culturas,
ainda se considera que o processo envolveu a adoção da cultura romana pelos povos
indígenas. Além disso, a adoção desta cultura implicaria também a adoção da identidade
romana. Por exemplo, sobre a romanização da Britânia, Haverfield declarou que:

Romanization extinguished the difference between Roman and


provincial through all parts of the Empire but the East, alike in
speech, in material culture, in political feeling and religion.
When the provincials called themselves Roman or when we call
them Roman, the epithet is correct (HAVERFIELD apud
8
JONES, 1997, p. 33, grifo da autora) .

Descrito como um processo de mudança cultural resultante da incorporação de


uma cultura por outra, o conceito de Romanização tem muitos paralelos com o conceito
de aculturação, tal como usado na antropologia e sociologia, entre os anos 1920 e 1960.
Ambos os conceitos foram desenvolvidos sob amplo contexto ideológico derivado da
era colonial, com grande interesse na assimilação e modernização das sociedades não-
ocidentais. A utilização do conceito de Romanização na arqueologia britânica foi
adotada de uma estrutura do século XIX e início do século XX: a política imperial, com
especial referência para a Índia9.

Os estudos antropológicos sobre aculturação e assimilação cultural foram muitas


vezes relacionados com a aplicação prática da antropologia em áreas coloniais entre
1920 e 1930, particularmente na antropologia britânica. Além disso, por compartilhar da
mesma preocupação com relações coloniais e imperiais, seu estudo - tanto da
Romanização como da aculturação - tendem a consistir da descrição dos traços
culturais, com incipiente discussão teórica e análise insatisfatória da dinâmica da
aculturação.

7
Haverfield, F. Romanization of Roman Britain. Oxford: Clarendon Press, (1923 [1912]).
8
Tradução: “Romanização extinguiu a diferença entre romanos e provincianos através de todas as partes
do Império exceto no Oriente, tanto na fala, na cultura material, na sensibilidade política e religião.
Quando os provincianos chamavam a si próprios romanos, ou quando os chamamos romano, o epíteto
está correto.”
9
Haverfield, F. An inaugural address delivered before the first annual general meeting of the Society.
Journal of Roman Studies, 1: xi—xx, 1911.
14
Jones dá como exemplo clássico da utilização da arqueologia com fins
nacionalistas a política de manipulação do passado da Alemanha nazista. O nome do
filólogo e arqueólogo alemão, Gustaf Kossinna10, está indissoluvelmente ligado à
prática da interpretação étnica pela arqueologia alemã e sua utilização com fins
nacionalistas pelo regime do Terceiro Reich. Entre 1895 e sua morte, em 1931,
desenvolveu um paradigma étnico que Kossinna chamou de "arqueologia de
assentamento”. A premissa básica era que tipos de artefato poderiam ser utilizados para
identificar culturas claramente distinguíveis a partir de áreas de assentamento de tribos
ou grupos étnicos do passado. Mas talvez o aspecto mais crucial de sua metodologia -
com relação ao seu caráter nacionalista - foi a técnica da genealogia direta utilizada com
o fim de rastrear a presença de povos historicamente conhecidos, remetendo-os a uma
suposta origem pré-histórica. Foi com base nessa técnica que Kossinna procurou
delinear a pretensa descendência ariana do povo alemão, explicitando matizes
nacionalistas e racistas em seu trabalho ao alardear a suposta superioridade racial e
cultural alemã sobre as demais.

Portanto, de acordo com Jones, os conceitos de Romanização e aculturação se


enquadram claramente dentro de um quadro histórico-cultural. Os processos de
mudança tradicionalmente associados com ambos os conceitos são baseados na hipótese
de uma correlação de indivíduo para indivíduo entre cultura e identidade étnica e a idéia
de que o contato cultural decorrente da conquista resultou numa rápida transmissão de
traços culturais e idéias. Assim, a interpretação tradicional sobre o que teria sido a
Romanização dos nativos durante o final da Idade do Ferro é baseada em princípios
semelhantes.

Segundo a ótica de Mendes (2007), Romanização é um termo que surge na


historiografia de fins do século XIX e inicio do século XX para significar o contato
entre os romanos e os outros povos. Ou melhor, a adoção dos padrões estéticos e éticos
dos romanos nas práticas de consumo e produção encontrados nas províncias e nas
regiões de fronteiras do Império. Ela considera que:

10
Kossinna, G. Die Herkunft der Germanen. Leipzig: Kabitzsch, 1911; e Die Deutsche Vorgeschichte:
eine Hervorragend Nationale Wissenschaft. Mannus-Bibliothek 9, 1921.
15
(...) o historiador circula por três níveis teóricos de
representação do real, tais como: realidade teórica (formal e
pré-estabelecida pelo conhecimento científico), realidade
historiográfica (construída pelo historiador, discurso
interpretativo) e a realidade documental (dados de natureza
diversa dos veículos de informação). Isto porque o termo vem
sendo reinterpretado de acordo com as transformações e novas
exigências impostas pelos distintos contextos histórico-
culturais (MENDES, 2007, p.2).

A autora faz um breve retrospecto da historiografia de fins do século XIX e


inícios do século XX, no qual evidencia os paralelos entre o Império Romano e aqueles
construídos pelas potências imperialistas do mundo moderno. A experiência
imperialista romana foi apropriada pelos discursos ideológicos das potências coloniais,
que a utilizaram para justificar e legitimar o direito de conquista, vinculando a ação
imperialista da Inglaterra, França, Itália como herdeiras de Roma e como uma forma
legítima de disseminar entre os nativos o que os romanos chamavam de civilização.
Criou-se assim uma hierarquia baseada em critérios de complexidade social e técnica da
selvageria à civilização. Neste contexto histórico-cultural foram produzidos esquemas
de análise que consideraram o Império Romano como “imperialista” no mesmo sentido
que este termo adquiriu desde o final do século XIX.

Em consonância com diversos autores aqui tratados, Mendes entende que a


noção da Romanização como mudança cultural resultante da incorporação de uma
cultura pela outra foi construída principalmente por Mommsen11, F. Haverfield12 e F. de
Coulanges e está associado ao princípio de aculturação, o que pressupõe que as
populações indígenas tinham um primitivo nível de cultura e não havia nada a fazer
além de deixar-se absorver pela “alta cultura” dos colonialistas. Nasce assim a idéia de
uma Romanização progressista e uniforme, cujo conceito implica na idéia de
transferência de cultura, de mudança cultural por imitação, partindo-se do suposto
abandono da identidade nativa pela adoção da “progressista” cultura romana. Esta noção
refletia a ideologia imperialista Britânica, na qual o conceito de progresso se encontra
associado. Segundo a autora:

11
MOMMSEN, Th. Römische Geschichte IV. Berlin: [s.n], 1874.
12
HAVERFIELD, F. The Romanization of Britain – Proceedings of the British Academy, Londres:
Oxford, 1905-1906.
16
Esta perspectiva marcou os estudos arqueológicos e as
escavações, pois a teoria e a metodologia de análise estavam
baseadas na oposição básica entre duas categorias: civilizado e
primitivo (MENDES, 2007).

Já em artigo no qual Mendes, Bustamante e Davidson (2005) desenvolveram


para análise da experiência imperialista romana, os autores interpretam a Romanização
como um processo interativo decorrente do contato entre culturas que ocorreu a partir
da constituição do Império Romano, condicionando sua compreensão à análise da
dinâmica de seu projeto imperialista. Eles explicam que a palavra império deriva do
termo romano imperium, que mantém o seu sentido básico de soberania e comando, mas
também comportando novas conotações, adquiridas por este vocábulo para se adaptar à
identidade cosmopolita da Roma Imperial.

Em seguida, afirmam que toda a estrutura do Império Romano sobreviveu na


história como um "modelo cognitivo" de identificação de império. Assim, teria se
tornado um referencial de apropriações para a construção de novas ideologias imperiais
na Idade Média, nas eras napoleônica e vitoriana, para a experiência fascista e de nossa
contemporaneidade e até para a ficção futurista13.

Portanto, podemos dizer com certa margem de segurança que muitas das
modernas explicações sobre a Romanização são mesmo releituras dos argumentos do
século XIX. Portanto, é imprescindível uma discussão destes conceitos para a busca de
caminhos alternativos que visem interpretações mais plurais e dinâmicas do complexo
fenômeno que decorre da interação de culturas. Veremos adiante novas propostas.

1.2. Desconstruindo a teoria da Romanização – a teoria pós-


colonial

Para fazer a devida apresentação da teoria pós-colonial, é necessário fazer uma


breve reflexão a respeito do pensamento pós-colonial, aqui qualificado como uma
corrente que busca expor os efeitos da colonização nas culturas e sociedades periféricas.
Destaca-se o trabalho do palestino Edward Said. Suas análises se voltaram para o
discurso colonial sob uma perspectiva pós-estruturalista, ganhando projeção no mundo
13
Os autores fazem referência às alegorias utilizadas pela série cinematográfica de Guerras nas Estrelas.
17
anglófono nos anos 1980 e daí se disseminaram, seduzindo especialistas ao redor do
mundo. O próprio Hingley afirma em entrevista que a teoria originou-se a partir do
trabalho de Said14. Sempre buscando inverter a imagem produzida pela tradição
eurocêntrica, a teoria é caracterizada pela sua multidisciplinaridade e é amplamente
aplicada em diversas áreas, tais como Antropologia, Sociologia, Arqueologia, História,
Letras, Administração, Teatro e muitas mais.

Outro destaque indispensável é apresentar Pedro Paulo Funari como um dos


maiores difusores da teoria pós-colonial aplicada à Arqueologia Histórica no Brasil.
Funari é professor e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais
(Nepam/Unicamp). Participa do conselho editorial de pelo menos trinta revistas
científicas nacionais e 14 estrangeiras15. Dentre estas últimas destacam-se publicações
como o “Public Archaeology”, o “Journal of Social Archaeology” e o “International
Journal of Historical Archaeology”. É autor de mais de 330 artigos publicados em
revistas de todo o mundo e escreveu ou coescreveu mais de 80 livros na área de História
e Arqueologia. Vários dos estudantes que já passaram pelo crivo de Funari tornaram-se
professores de universidades como a UFMG, UFPR, Unifesp e UFRJ, entre outras.
Apesar de eu não ter analisado suas principais obras, ele está indiretamente representado
nessa monografia através do livro de Renata Garraffoni, Gladiadores na Roma Antiga:
dos combates às paixões cotidianas, presente em minha bibliografia e que foi
amplamente baseado na tese de doutorado da autora, trabalho orientado por Funari.

Há tempos Funari trabalha e publica em parceria com vários ícones nacionais e


estrangeiros da Arqueologia pós-colonialista. Alguns deles foram tratados nessa
monografia. Funari, Martin Hall e Sîan Jones trabalharam juntos no World
Archaeological Congress 3, realizado, em Nova Delhi, em dezembro de 1994, que
resultou no volume Historical Archaeology: Back From the Edge, publicado pelos três
em 1999. Recente publicação de Hingley em língua portuguesa, O Imperialismo
Romano: novas perspectivas a partir da Bretanha,foi organizado por Funari, Renata

14
Edward Said (1935-2003) é citado por Hingley em entrevista concedida a Ellen Nemitz, publicada em
dezembro de 2008 pela Revista eletrônica história e-história, do Grupo de Pesquisa Arqueologia
Histórica da Unicamp. Hingley faz essa afirmação para contestar artigos então recentes que haviam
sugerido que o tema seria fixação britânica. Disponível em:
<http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=entrevistas&id=9>. Acesso em 19/09/2010.
15
Fonte: Leituras da História, edição nº 41. Disponível em:
<http://leiturasdahistoria.uol.com.br/ESLH/Edicoes/30/artigo174155-1.asp>. Acesso em 09/07/2011.
18
Garraffoni (UFPR) e pelo Professor Renato Pinto (doutorando da Unicamp). O projeto
do livro surgiu a partir de curso ministrado por Hingley na Unicamp em agosto de 2008
com o apoio concedido pela Escola de Altos Estudos da CAPES. O prefácio é da Norma
Musco Mendes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ou seja, podemos
dizer que há um grupo de trabalho transnacional contestando a perspectiva eurocêntrica
- uma parceria em prol de reflexões mais adequadas sobre a Romanização.

Quase todos os autores analisados apontam Richard Hingley e Sîan Jones como
expoentes do movimento da Arqueologia Histórica pós-colonialista. Ambos partem da
premissa de que o historiador interpreta o passado a partir do contexto em que vive,
construindo seu discurso a partir de suas escolhas. Portanto, precisamos analisar como e
em que contexto foram formuladas as interpretações sobre Romanização. Ao propor que
a cada época desenham-se distintas imagens da sociedade romana, surge uma questão:
qual imagem estaria sendo construída agora?

Começo por Hingley, que ressalta que é impossível compreender esse conceito
sem recorrer ao momento histórico ao qual está inserido: um período em que ingleses
estavam convencidos que o progresso e a civilização só poderiam prosperar sob
liderança colonial. Há uma transposição de valores ingleses para o passado romano –
acreditava-se que os ingleses herdaram dos romanos, via descendência bretã, a missão
de civilizar os povos bárbaros do mundo. Em um momento de expansão imperial, a elite
inglesa constrói, a partir da Arqueologia e da História, interpretações nas quais
britânicos e romanos partilhavam de uma mesma missão em períodos históricos
diferentes: levar progresso a terras longínquas.

Muitos intelectuais preferem adequar o conceito de Romanização aos seus


objetos de estudo – enquanto outros preferem empregá-la de maneira mais plural e
menos simplista, enfatizando sua complexidade. Garraffoni (2005) destaca o trabalho de
Norma Musco Mendes16 como exemplo desta perspectiva. Mendes vê a Romanização
como um processo multifacetado e complexo no campo das relações sociais, na qual
não se deve excluir o contínuo desenvolvimento da cultura indígena presente nos
territórios conquistados pelos romanos. Essas abordagens são fundamentais para melhor
refletir sobre um conceito tão arraigado na historiografia – bem como para a definição

16
MENDES, Norma Musco, 2001. Romanização e as questões de identidade e alteridade, in: Boletim do
CPA, Campinas, nº 11, pp.25-42.
19
de limites para sua utilização. A cultura romana apresentada sob prisma monolítico
obscurece a heterogeneidade que envolve a negociação de poder e identidade.

Mendes considera que a teoria pós-colonial tem como objetivo reconstruir os


estudos sobre o Império Romano, sugerindo que as análises devem ser norteadas por
três aspectos interrelacionados: tentativas de estudos descentralizados; buscar as
respostas complexas e variadas dos nativos perante o contato colonial e valorizar
trabalhos que sugerem uma oposição aberta ou camuflada à dominação imperial.
Esta postura teórica privilegia como unidade de análise as periferias, afastando-
se dos estudos centralizados na ótica de Roma. Enfatiza a existência da heterogeneidade
na definição daquilo que se classifica como romano ou nativo. O que se pode
depreender através da análise dos vestígios materiais encontrados nas regiões do
Império Romano é que havia uma situação de grande complexidade. Em muitas
províncias, a cultura romana chegou após ter interagido com culturas diferentes.
Ademais, a apropriação da cultura material dos romanos variou de significado e
intensidade de acordo com as características regionais e os interesses dos distintos
grupos sociais que formavam as comunidades nativas.
A autora cita trabalho de J. Webster17, que considera esta teoria não apenas
como anticolonialista, bem como declara que é incorreto fazer um balanço positivo do
imperialismo britânico, pois considera que tal como a Pax Britannica, a Pax Romana
significou violência, provocou distúrbios e significou a perda da liberdade das
comunidades nativas18.
Versando a respeito da dominação como forma institucionalizada de poder e
resistência como uma oposição organizada ao poder estabelecido, Mendes expõe que
nem todas as formas de resistência têm de ser abertas e violentas, acrescentando
acreditar que esta noção de resistência é uma categoria analítica que permite ressaltar a
presença e a atuação do poder em várias formas de relacionamento entre dominadores e
dominados, podendo ser observada através das formas de comportamento e da cultura
material.

17
WEBSTER, J. Roman imperialism and the post imperial age. In: WEBSTER, J.; COOPER, N. J.
(Eds.). Roman imperialism: post-colonial perspectives. Leicester: School of Archaeological Studies of
University of Leicester, 1996. p. 1-17.
18
Importante ressaltar que Hingley expõe essa mesma opinião, que será evidenciada mais adiante.
20
Ciro Flamarion Cardoso e Virgínia Fontes, discorrendo sobre imperialismo em
artigo19 também nos dão elementos importantes sobre as antigas e modernas
perspectivas sobre a Romanização. Recapitulando a linha de raciocínio, afirmam que
imperialismo ocorre cada vez que "um Estado procure absorver outros em si mesmo, ou
estender-se sobre territórios desorganizados" – noção descritiva que contém um
preconceito favorável aos assim chamados "povos civilizados", já que, ao se falar de
"territórios desorganizados", estava se referindo não a territórios vazios de população,
mas, sim, a territórios politicamente ordenados em tribos ou chefias (no sentido do
termo chiefdoms do vocabulário antropológico de língua inglesa), entidades não estatais
que nada têm, entretanto, de "desorganizadas".

Partindo da premissa de Adam Schaff, "a História se reescreve sem cessar", ele
considera que partindo de um presente mutável e inserido num contexto de constantes
reinterpretações de um mesmo fato histórico, houve também intercâmbios de
interpretações e de enfoques teóricos entre estudiosos de casos e períodos muito
diversos entre si.

Ao abordar um exemplo desses intercâmbios, Cardoso e Fontes recorrem ao


supracitado artigo que Mendes, Bustamante e Davidson (2005) consagram à experiência
imperialista romana vista em suas teorias e práticas. O artigo em questão assume crítica
recentemente oposta ao eurocentrismo da tradição historiográfica predominante até
meados do século XX, a qual, sob o influxo do imperialismo contemporâneo, tinha uma
concepção unilateral da romanização como aculturação imposta às províncias, nas quais
as populações indígenas, culturalmente inferiores aos romanos (pelo menos na parte
ocidental do Império), simplesmente se deixaram ganhar por uma cultura superior.
Cardoso e Fontes colocam esta perspectiva nesses termos:

Tal crítica foi desenvolvida por uma corrente chamada "teoria


pós-colonial" dos estudos da romanização, que proclamou sua
dívida para com o pensamento crítico surgido em áreas do
Terceiro Mundo na fase da descolonização, ou posteriormente
a esta. No novo modo de ver, a romanização foi avenida de
mão dupla, uma relação entre os padrões culturais romanos e a
diversidade cultural provincial, numa dinâmica de negociação
bidirecional (CARDOSO; FONTES, 2005, p. 3).

19
CARDOSO, Ciro Flamarion; FONTES, Virgínia. Apresentação. Tempo. Niterói, v. 9, n. 18, 2005.
21
Jones (1997) indica que investigações recentes sobre a Romanização tentaram
romper o limite temporal entre o final da Idade do Ferro e a conquista romana, de
maneira a examinar os heterogêneos processos culturais numa perspectiva que
transcenda a conquista romana. A análise da mudança cultural do início do Império
ainda está muito associada à teoria da aculturação. Portanto, muitos autores
consideram Romanização como uma forma de aculturação. No entanto, há uma
mudança no foco da pesquisa, que se desvia da análise dos traços culturais para as
dimensões econômicas e políticas da Romanização - e a natureza do imperialismo
romano. Neste quadro, grande ênfase foi dada na análise de potenciais variações entre
os sistemas sócio-culturais dos povos que se envolveram na Romanização em diferentes
épocas e regiões do Império. Tem sido proposto que o Império romano não possuía
aparelho burocrático para sustentar uma política de intervenção generalizada nos
territórios, bem como não seguia uma política ativa de Romanização nas províncias.
Além disso, Jones recorre a Millet20 para expor nesses termos:

On the contrary it has been suggested that, although the


Romans may have encouraged the adoption of Roman practices
and cultural styles in some instances, the impetus for such
processes was essentially locally driven; the ‘motor for
Romanization can be seen as internally driven rather than
21
externally imposed’ (JONES, 1997, p. 34) .

Assim, a Romanização teria sido mais uma decisão interna do que uma
imposição externa. Dessa maneira, foi sugerido que as sociedades nativas foram
envolvidas por um sistema hierárquico de classificação baseada em rivalidade
competitiva e relações de clientela. Em tal sistema de reprodução social, poder e
identidade já estavam dependentes da participação de grupos em escala crescente de
inclusão. O Império Romano foi capaz de estender a escala de participação e de
dependência através da criação de relações clientelistas com a elite local, permitindo

20
Millett, M. Romanization: historical issues and archaeological interpretation. In: T.F.C.Blagg and M.Millett
(eds.) The Early Roman Empire in the West, pp. 35– 41. Oxford: Oxbow Books, 1990.
21
Tradução: Ao contrário do que tem sido sugerido, embora os romanos possam ter incentivado a adoção
de práticas e estilos culturais romanos em alguns casos, o impulso para esses processos ocorriam
essencialmente em nível local; o “motor da Romanização pode ser visto como internamente conduzido,
ao invés de externamente imposto”.
22
que o Império mantivesse o poder sobre as províncias através das estruturas sociais
existentes, com contingentes militares mínimos e pouca intervenção administrativa.
Nesse contexto, o acesso à cultura material e a adoção de formas de vida romanas
transformaram-se no meio pela qual as posições hierárquicas da elite foram constituídas
e mantidas. Por sua vez, argumenta-se que o comportamento da elite foi incentivado por
outros setores da sociedade, fornecendo o ímpeto para difundir mudanças na cultura,
arquitetura e objetos associados à Romanização.
Para reforçar sua ênfase na diversidade, Jones cita Haselgrove22, que
argumentou que embora possa haver eventual uniformidade do resultado final em
termos materiais, a Romanização representa "um conjunto de processos operacionais
essencialmente em nível local, de pessoa para pessoa. Mesmo dentro de uma única
província, a forma e o grau de mudança variou entre os diferentes grupos e regiões.” Ou
seja, não haveria um padrão e cada caso se desenvolveu de maneira específica.

Hingley descreve panorama ocorrido no final do século XX e início do século


XXI, quando foi estabelecida relação entre as trajetórias do Império e os Estados Unidos
da América, resultando numa abordagem onde ambas as nações teriam sido as
superpotências em suas respectivas eras e que o sistema republicano romano teria sido
reinventado pelos norte-americanos, bem como foram feitas analogias entre o processo
imperialista romano e o moderno processo de globalização. Hingley crê que o moderno
debate sobre a globalização, aventado na última década do século XX, pode levantar
relevantes questões para o entendimento do Império romano, aqui entendido como o
primeiro império global23. Recentes estudos dão conta sobre a relação de dois aspectos:
a perspectiva global e a diversidade cultural regional, privilegiando aspectos entre
unidade/diversidade e global/local24.

Hingley ressalta que é necessário levar em consideração que as interpretações do


período de Augusto25 foram desenvolvidas a partir de fontes que, em grande parte,

22
Haselgrove, C. The Romanization of Belgic Gaul: some archaeological perspectives. In: T.Blagg and
Millett (eds) The Early Roman Empire in the West, pp. 45–71. Oxford: Oxbow Books, 1990.
23
Hingley cita em seu livro perspectiva de Jerry Toner, p. 1.
24
A analogia que Hingley faz entre a trajetória do império Romano e o moderno processo de globalização
é elemento crucial para compreensão da perspectiva do autor e serão pormenorizadas adiante.
25
Hingley declara que o recorte temporal de seu trabalho é o período de Augusto (p. 2), que foi
considerado “louvável” por muitos autores exatamente por sua fundamental atuação para o
estabelecimento da “civilização” romana e a resultante formulação da idéia de um Império em
permanente defesa contra os bárbaros (p. 8).
23
foram produzidas pela elite letrada e masculina, apresentando um discurso de
dominação que foi apropriado como um legado de poder e influência pela moderna
civilização ocidental. Não obstante, diversos estudiosos modernos empregam essas
fontes sem adotar postura crítica. Após descrever esse panorama, Hingley faz uma
exortação para que sejam reformuladas as noções hegemônicas do Império romano que
se formaram no imaginário dos estudiosos, de maneira a evitar dicotomias e
anacronismos.

O autor prossegue sua narrativa lembrando que nos últimos cem anos houve um
constante estado de mudanças políticas e sociais. Nesse período, os especialistas sobre
Roma passaram por constante redefinição em seus entendimentos sobre o passado
romano. Sua opinião é que a Romanização tem sido reinventada a cada época de
maneira a refletir a situação contemporânea. Hingley destaca a questão de que a
Romanização é uma construção dos tempos modernos - essa terminologia não foi
cunhada pelos autores clássicos e não faria sentido naquele contexto cultural.
Inicialmente considerado como simples processo centralizado de civilização, a partir
dos anos setenta muitos estudiosos contribuíram para descentralizar nossas acepções
sobre identidade romana e mudança social. Surge assim a idéia de que as “ofertas” de
Roma não eram de todo aceitas pela população nativa e que houve resistência ao
imperialismo romano.

A despeito das crescentes críticas à Romanização nas últimas duas décadas, o


conceito não desapareceu. Diversos autores continuam buscando um acordo que os
permita continuar usando essa teoria. Admite-se que, em última análise, o conceito não
existe. Mas alguns acreditam que ainda pode ser útil como ferramenta para arqueólogos
e historiadores – se for utilizada de maneira flexível. Alguns estudiosos seguem
abordagens comparadas de Romanização, que de fato permitem maior flexibilidade
analítica do que trabalhos anteriores. Esses autores buscam estabelecer um conceito
efetivamente global que auxilie nos estudos sobre a diversidade regional. Hingley
considera positivos os recentes debates acerca da Romanização, uma vez que se
tornaram mais sofisticados e menos contaminados por visões pró-imperialistas. Esses
novos estudos enfatizam a diversidade regional no Império e focam nas populações
nativas, admitindo a possibilidade de resistência. Porém, faz a ressalva de que essas
perspectivas, ao privilegiar o local, perderam de vista um panorama mais global do
24
fenômeno. Fica evidente aqui a sua reserva quanto aos estudos de caso focados em áreas
delimitadas, uma vez que ele considera que a visão do todo fica comprometida.

Além disso, Hingley argumenta que publicações recentes indicam que os


pressupostos de Mommsen e Haverfield continuam norteando muitos estudiosos atuais
da história romana, o que ele considera um retrocesso. Para demonstrá-lo, faz um
retrospecto dos conceitos que fundamentam a visão nacionalista de Mommsen e sua
visão de cultura homogênea, supondo um império que promove Romanização através
da franca disseminação de sua “civilização” - bem como evidencia a perspectiva pró-
imperialista presente no discurso de Haverfield e sua teoria da Romanização refletindo e
justificando os interesses do imperialismo ocidental. Ao lembrar-se dos recentes estudos
com conotações da teoria da "globalização" para estudos romanos, Hingley faz a
seguinte relação: se a Romanização se originou através de conceitos modernos de
imperialismo, os recentes estudos sobre identidade romana estão sendo influenciados
pelas idéias da globalização. Hingley conclui sua crítica propondo uma revisão das
perspectivas acadêmicas sobre Romanização. Ele propõe o abandono desta concepção
para que possamos nos desconectar desse passado e assim elaborar uma postura crítica
que evite anacronismos e permita o surgimento de novos caminhos interpretativos.

Mendes conclui sua crítica recorrendo a J. Webster26, que em recente artigo


propõe a substituição do termo Romanização por Crioulização. Ou seja, defende a
aplicação da teoria da crioulização, utilizada para explicar a criação das sociedades
Afro-Americana e Afro-Caribeana, para o estudo do processo de ajustamento
multicultural e da interação sociopolítica com o objetivo de estudar a arte provincial no
Ocidente Romano.
Em busca de uma redefinição para o conceito de Romanização, Mendes cita
trabalho de Greg Woolf27, onde afirmou que o termo Romanização não tem um
potencial explicativo. Deve ser entendido como um termo guarda-chuva para abarcar os
múltiplos processos de mudanças socioculturais que teve início com o relacionamento
entre padrões culturais Romanos e a diversidade cultural provincial. Desta maneira, a
Romanização seria entendida como um processo através do qual os habitantes locais de
tornavam e se identificavam como romanos – mas lembrando que havia mais de um tipo
26
WEBSTER, J. Art as Resistence and Negotiation. In: SCOTT, S.; WEBSTER, J. (Eds.). Roman
Imperialism and Provincial Art. New York: Cambridge Ancient Press, 2003. p. 24-51.
27
WOOLF, G. Becoming Roman. New York: Cambridge University Press, 1998, p. 7.
25
de romano e os estudos da cultura provincial devem se pautar pela análise da
diversidade.
Mendes acredita que um argumento explicativo para estes processos de
mudanças possa ser encontrado na tese de Sîan Jones, que propõe uma reconsideração
do termo Romanização, com base na aplicação do conceito de etnicidade para o estudo
da Arqueologia da Britânia. O trecho abaixo evidencia a interpretação que Mendes faz
da destacada autora:

Jones entende a etnicidade como todos os fenômenos sociais e


psicológicos associados com a identidade do grupo e
construída culturalmente. O conceito de etnicidade focaliza as
formas pelas quais os processos de interação social e cultural
interagem entre si para a identificação e interação dos grupos
étnicos (MENDES, 2007, p. 8).

Tal raciocínio – que veremos no próximo capítulo nas palavras na própria Jones
- se baseia no conceito de habitus de Pierre Bourdieu28, o qual procura estabelecer uma
lógica para os meios e as modalidades de apropriação de bens culturais, podendo ser
definido como as estruturas mentais mediante as quais os homens apreendem o mundo
social, as quais são essencialmente produtos da internalização dessas mesmas estruturas
do mundo social. Em outras palavras, habitus é determinado pelo mundo social e, ao
mesmo tempo é determinado pela percepção que dele se tenha.29
Mendes adianta perspectiva de Jones, na qual o registro arqueológico evidencia
a praxis do processo de interação social, ou melhor, de construção da etnicidade, pois
envolve a produção e o consumo dos distintos estilos da cultura material. Entendida
como realização da etnicidade, a cultura material se constitui mais no produto da
interseção dos interesses e oposições entre os grupos sociais, em particulares contextos
históricos, do que em categorias abstratas da diferença30. Logo, Mendes crê que esta
linha de raciocínio contempla possibilidade da existência de uma resistência pacífica, a
qual não pode ser expressa através da literatura, mas através das formas de
comportamento e da cultura material. Portanto, os processos de mudanças sócio-

28
BOURDIEU, P. In other words. Essays towards a reflexive sociology. Londres: Polity Press, 1990.
29
CARDOSO, C. F. de S. Uma opinião sobre as representações sociais. In: CARDOSO, C. F. de S.;
MALERBA, J. Representações: contribuição a um debate transdisciplinar. São Paulo:Papirus, 2000.p. 9-
40.
30
JONES, S. The Archaeology of Ethnicity. London: Routledge, 1997, cap.6.
26
culturais descritas pelo termo Romanização devem ser estudados com base na
documentação material e considerados a partir de uma dinâmica de assimilação,
ajustamento, conflito, negociação e resistência.
Apesar de a visão pós-colonialista estar se impondo ultimamente, há autores
influentes e atuantes que ainda trabalham sob a ótica colonialista. Um dos mais
renomados historiadores da França, Paul Veyne, se encaixa nessa classificação. Grande
erudito e leitor insaciável, em 1976 publicou sua tese “Le Pain et le Cirque”, um estudo
fascinante sobre a sociedade romana, que lhe valeu uma cadeira no College de France.
Desde então, escreveu várias obras que unem reflexão epistemológica sobre o
conhecimento histórico e análise do mundo Greco-romano.
Ressalto que a escolha de Veyne como contraponto é um risco calculado. Vários
estudiosos trabalham sob a inspiração de suas bem elaboradas e esclarecedoras
perspectivas sobre os romanos e a relevância de seu trabalho é inquestionável. Veyne
não fica limitado a fronteiras acadêmicas e nunca permanece nas correntes constituídas,
repudiando qualquer idéia de racionalidade da história, como de ser movida por fatores
profundos como progresso ou luta de classes. Ele denuncia a subjetividade de toda
narrativa histórica e coloca em xeque seu suposto estatuto de verdade, concluindo que
“não se pode tirar nenhuma lição da história” 31. No entanto, tentaremos demonstrar que
as novas abordagens pós-colonialistas apresentam um modelo interpretativo mais
equilibrado do fenômeno romano, que pode ser considerado como um passo adiante à
visão de Veyne - que será exposta a partir de alguns de seus trabalhos, no capítulo que
segue.

Capítulo 2 - Humanitas e evergetismo na visão de Paul Veyne

Obras analisadas: Humanitas: Romanos e não romanos. In: Giardina, A. (org.). O


Homem Romano. Editorial Presença: Lisboa, 1992, p. 281-302.

O Império Romano. In: Philippe Ariès e G. Duby, História da Vida Privada: Do


Império Romano ao ano mil, vol. I, São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p.13-223.

31
Declaração proferida em entrevista ocorrida em 2004, concedida a John Moore, em versão traduzida
por Clara Allain. Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/36123088/Entrevista-Com-Paul-Veyne>.
27
Com este artigo, Veyne busca definir o que era o homem romano, o que ele
entendia por civilização e as características que distinguiram a civilização romana das
demais grandes civilizações. Para tanto, inicia declarando que humanitas é uma palavra
"vaga e elogiosa ao mesmo tempo" e significa cultura literária, virtude de humanidade e
estado de civilização. Designa os seres humanos que são dignos desse nome, por não
serem bárbaros nem incultos. O autor explica que o termo humanitas é a tradução da
palavra grega paideia32. Além disso, corresponde à outra palavra grega, philantropia –
que, segundo suas palavras, teriam o seguinte significado:

(...) característica de um homem que não era duro nem


arrogante, que fazia mais do que o estritamente necessário ou
que não exigia tudo que lhe era devido (VEYNE, 1992, p.
283).

Esta noção está geralmente ligada ao indivíduo bem educado e de boa família,
distinguindo o homem culto do inculto. Todos os homens pertencem ao gênero humano,
mas, segundo a percepção dos antigos, alguns são “mais humanos” do que “os outros”
porque não vivem como “bárbaros selvagens”. Os homens civilizados estão
impregnados daquilo que um dia se chamará humanismo.

A humanitas corresponde àquilo que continuamos a chamar de civilização, uma


modificação interior no homem, mas que também se exterioriza através da construção
de cidades, casas de pedra, edifícios públicos, agricultura. É o homem que teve contato
com a cultura e descobriu a civilização. Está em contraposição permanente com o
bárbaro – o outro.

Veyne questiona a noção que fora dos povos helênicos ou helenizados só haveria
ignorância e brutalidade. Prossegue numa consideração de que os greco-romanos não

32
O autor cita Plínio o Jovem (cartas 8, 24, 2) "foi na Grécia que foram descobertas as humanitas, as
letras e o cultivo das plantas".

28
eram mais etnocêntricos do que a média dos homens e, lembrando que a civilização não
é feita de invenções, mas de descobertas, levanta a questão: onde é que se descobre
alguma coisa? A resposta dos antigos seria: nos estrangeiros, quando sabem aquilo que
nós ignoramos, ou então na própria natureza. Por conseqüência, a idéia que os antigos
fazem das descobertas e da passagem à civilização é muito diferente da idéia
contemporânea de progresso. O autor alerta para que não confundamos a percepção que
os antigos tinham de progresso com o atual conceito deste termo. Para eles, as
descobertas da civilização não revelam uma ordem de cultura que acaba por se sobrepor
à natureza. Segundo a perspectiva dos antigos, os segredos da natureza estão bem
escondidos e só se revelam pouco a pouco, progressivamente. E essa progressividade
demonstra mais a fraqueza do gênero humano do que o seu suposto poder. A idéia
moderna de progresso implica as noções de cultura oposta à natureza e de invenção
oposta à descoberta.

Segundo Veyne, os habitantes do Império sabem que o mundo é vasto e que não
são os únicos seres civilizados. Os romanos não ignoravam que a fronteira oriental de
seu Império não chegava à metade daquela ilha gigantesca que era, para ciência da
época, o conjunto das terras emersas. É tão somente uma postura etnocêntrica, na qual a
pequena parte do mundo da qual os romanos faziam parte era o centro que lhes
interessava mais do que tudo.

Philantrophia, humanitas e Romanização

A virtude de humanidade é feita de piedade, de afabilidade, de brandura, de


simplicidade, de interesse pela sorte dos outros. Mas durante o século IV a.C. surge uma
palavra nova, philantrophia, que resume todos esses atributos num comportamento
geral para com os outros. A philantrophia, que nós podemos designar pelo seu
correspondente latino humanitas, consiste em ter um comportamento amigável com
todos os homens e não apenas os amigos políticos. Sob essa perspectiva, humanidade é
magnanimidade. O termo indica mais um processo de reflexão do cidadão acerca de seu
papel na sociedade e do autoconhecimento do que uma mudança das regras morais.

29
A verdadeira unidade administrativa do Império romano era a cidade; essa
cidade era autônoma e a autoridade era exercida pelos seus notáveis locais. O governo
central os colocava no poder não tanto por solidariedade de classe, mas porque esse era
o meio mais simples de manter o Império submetido de maneira pacífica. Quando Roma
constata a submissão das províncias conquistadas, considera ter desempenhado uma
missão: fazer reinar a paz.

A continuação dessa história, até a extensão da nacionalidade romana a todos os


homens livres do Império, em 212 d.C., é bem conhecida. O poder central, com altivez
de proprietário, tenta fazer prosperar o seu domínio e zelar pelo bem dos seus
administrados e é necessário implantar políticas agrárias. Gradativamente, vai deixando
de considerar as províncias como possessões externas. Passam a ser consideradas partes
integrantes do Império e a própria Itália acaba por se converter na primeira das suas
províncias. Há uma conversão de uma hegemonia “colonial” para Estado centralizado.
Os provincianos, por sua vez, deixam pouco a pouco de considerar o imperador como
um senhor de raça estrangeira e passam a reverenciá-lo como o legítimo soberano, ao
qual a obediência devida está acima da diversidade étnica. Esta evolução do espírito,
segundo Veyne, é de ordem psicológica e bastaram alguns símbolos para reforçá-la.

Esta unificação moral ia se desenvolvendo em torno de um ideal de civilização.


No tempo de Augusto, quando as guerras civis cessaram, os contemporâneos
perceberam que seu mundo havia atingido um nível de prosperidade até então
desconhecido e seu pensamento articulou-se em torno de um ontem bárbaro e um hoje
civilizado. Veyne utiliza passagens de Columela e Sêneca para corroborar sua teoria:

Outrora, as mulheres trabalhavam com as suas mãos, como


donas de casa ou camponesas (Columela, 12, pref. 4-5); as
pessoas não se lavavam e cheiravam mal; considerava-se
luxuoso aquilo que hoje pareceria grosseiro (Sêneca, Epistulae
ad lucilium, 86, 8 e 12). Havia uma certa verdade nestas
impressões (VEYNE, 1992, p. 298).

30
Veyne crê que essa prosperidade fez do Império romano uma unidade de
civilização frente aos bárbaros. Segundo essa perspectiva, não se romanizava:
civilizava-se. O poder central não tentava romanizar, os habitantes das províncias
romanizavam-se espontaneamente, sob os aplausos do poder central, que dava sanção
jurídica para a formação de novas cidades – que era o local natural de uma vida
civilizada. Vai se formando uma categoria “internacional” de funcionários, juristas,
médicos, entre muitos outros, cuja verdadeira nacionalidade é imperial, embora suas
origens sejam as mais diversas.

Esta era a civilização a qual se tinham aculturado todas as etnias do Império. O


Império romano, que tinha a cidade como circunscrição administrativa, não
hierarquizava seus adeptos. Uma aldeia bárbara, para romanizar-se, urbanizava-se e
adotava os valores romanos. Assim, tornava-se imediatamente uma das células
constitutivas da civilização mundial daquele tempo, na qual desempenharia papel ativo,
não subalterno.

A classe governante e o evergetismo

Características externas permitiam reconhecer um membro da classe governante:


a distinção das maneiras não era a principal nessa sociedade pouco mundana. Menos
estetas que os gregos, os romanos desconfiavam da elegância e não lhe conferiam um
sentido social. A severidade das maneiras e da linguagem mostrava melhor o homem de
autoridade. Todo notável deve ser reconhecido também pela boa educação, que culmina
na cultura literária e no conhecimento da mitologia. Normalmente eram nomeados
senadores ou mesmo um simples chefe de departamento os indivíduos conhecidos pela
sua cultura. Os primeiros gregos que, naturalizados, acederam ao Senado, eram
aristocratas de cultura renomada.

De nada adiantava um romano ser rico se não estava entre os primeiros da


cidade. Era necessário projetar-se na cena pública a fim de que cada uma dessas
dignidades que duravam um ano e conferiam uma posição vitalícia. Ocorre que cada
uma dessas “dignidades” custava muito caro ao indivíduo, num contexto onde havia
uma indistinção dos fundos públicos e dos patrimônios privados.

De acordo com Veyne, muito da gestão financeira da cidade se dava através da


curiosa instituição que se chama evergetismo. Quem recebia a nomeação de pretor ou
31
cônsul devia conceder ao povo de Roma espetáculos públicos, representações teatrais,
corridas de carros no circo e combates de gladiadores financiados com o próprio bolso.
Depois este dignatário ia refazer-se dos gastos no governo de uma província. Esse era o
destino de uma família de nobreza senatorial. Mas é entre os notáveis municipais que o
evergetismo adquire sua verdadeira dimensão, sem encontrar compensações para os
sacrifícios financeiros que lhes eram impostos.

Veyne afirma que a maior parte dos edifícios públicos que se encontram nas
diversas cidades que um dia constituíram o Império romano foi construída pelos
notáveis locais com recursos próprios. Independentemente de qualquer função pública,
os notáveis ofereciam a seus concidadãos, de livre e espontânea vontade, os mais
diversos eventos. Este tipo de mecenato, segundo Veyne, era ainda mais freqüente que
nos Estados Unidos contemporâneo, com a diferença de que seus objetos se referiam
quase que exclusivamente à ornamentação da cidade e de seus prazeres públicos. A
grande maioria dos anfiteatros foi oferecida livremente por mecenas que assim
imprimiam à cidade sua marca definitiva.

Pouco a pouco, as cidades transformaram em dever a tendência dos ricos à


generosidade ostentatória, adquirindo o hábito de um luxo público que passaram a
exigir como um direito. A nomeação dos dignitários anuais fornecia a oportunidade: a
cada ano, era preciso encontrar novas fontes de financiamento. Havia uma disputa entre
os membros do conselho, cada qual tentando se eximir da obrigação indicando outro
colega como o perfeito candidato para arcar com a despesa, assim consecutivamente, até
que surgisse um financiador. Se havia um impasse, o governador da província interferia.
A própria plebe, segundo Veyne, podia interferir pacificamente no processo, aclamando
o notável escolhido numa exortação pública, até convencê-lo. A não ser que algum
mecenas se oferecesse espontaneamente para arcar com a despesa. Nesse caso, a
“cidade” agradecia fazendo o Conselho nomeá-lo alto dignatário local, concedendo-lhe
um título de excepcional honra, tal como “patrono da cidade”, “benfeitor magnânimo”,
entre outros.

Foi assim que os dignatários locais gradativamente deixaram de ser eleitos pelos
cidadãos para serem escolhidos pela oligarquia do Conselho. Esta atividade consistia
mais em pagar as despesas do que governar – e o melhor candidato era aquele que

32
aceitava arcar com os custos. A classe dos notáveis tinha assim a satisfação de dizer que
a cidade lhe pertencia, pois era ele quem pagava. Em troca, podia repartir os impostos
do Império em seu proveito, fazendo-os recair o máximo possível sobre o campesinato
pobre.

Cada cidade se dividia em dois campos: os notáveis que davam e a plebe que
recebia. Assim, foi se formando uma oligarquia dirigente hereditária, que ofereciam
prazeres aos concidadãos por civismo e edifícios à cidade por ostentação. Segundo
Veyne, são essas as duas raízes do evergetismo, que confundem o homem público e o
privado.

O Império romano apresenta o seguinte paradoxo: um civismo nobiliário; tal


civismo ostentatório deve confirmar sua presunção hereditária com uma proeza de
liberalidade que o distingue, mas no interior do quadro cívico: superior à plebe de seu
vilarejo, o notável é grande em sua cidade porque mereceu aos olhos desta e no
benefício desta. A cidade é, ao mesmo tempo, beneficiária e juíza da dedicação de seu
“filho” ilustre. Nas palavras do autor:

O evergetismo era ao mesmo tempo dedicação patriótica e


busca de glória pessoal (VEYNE, 1989, p. 119).

O evergetismo foi um ponto de honra nobiliário em que o orgulho de casta


acionou todas as motivações cívicas e liberais sobre as quais os historiadores se
estenderam habilmente. Pão e Circo, ou melhor, edifícios e espetáculos: a autoridade
ainda era mais a projeção de um indivíduo do que uma capacidade pública ou privada
de obrigar alguém a fazer alguma coisa: era monumentalização e teatralidade.
Concluindo, Veyne faz a seguinte afirmação:

O evergetismo não era tão virtuoso como crêem seus últimos


comentaristas nem tão maquiavélico como dizem os
comentaristas precedentes, imbuídos de vago marxismo
(VEYNE, 1989, p. 121).

33
No próximo capítulo, apresentaremos uma seleção de trabalhos de cada autor
envolvido com a proposta pós-colonial, evidenciando suas respectivas peculiaridades.
Ao final, buscaremos fazer uma perspectiva comparada entre as teorias, apontando as
proximidades e afastamentos entre elas.

Capítulo 3 – os novos caminhos da teoria pós-colonial

3.1. Sîan Jones e a etnicidade multidimensional.

Obra analisada: The Archaeology of Ethnicity: constructing identities in the past


and present. Londres: Routledge, 1997.

Sîan Jones cursou Arqueologia na Universidade de Southampton, onde fez


doutorado em Arqueologia (1994) sob a supervisão do Professor Peter Ucko. Este livro
é amplamente baseado em sua tese de doutorado. Permaneceu em Southampton por três
anos de com bolsa de pós-doutorado. Em 1998 foi nomeada professora na Universidade
de Manchester. Foi promovida a Professora Adjunta em 2003 e Professora (Catedrática)
em 2010. Trabalhou no Council of the Royal Anthropological Institute (2001-04) e
atualmente exerce cargo administrativo no Council for British Archaeology33.

Jones considera que o uso prolífico do termo etnicidade para referir-se a diversos
fenômenos sócio-culturais nas últimas duas ou três décadas resultou em considerável
desacordo sobre a natureza dos grupos étnicos. Afinal, o que é a etnicidade, e como
deveria ser definido? Nas ciências humanas, as definições de etnicidade têm sido
influenciadas por uma variedade de fatores que se entrecruzam. De acordo com Jones,
estes incluem:

• o impacto de diferentes tradições teóricas e disciplinares (como o neo-


Marxismo ou fenomenologia, psicologia ou antropologia);

• os aspectos particulares da etnicidade que estão sendo pesquisados (desde


dimensões sócio-estruturais da etnicidade em uma sociedade plural, para o
33
Fonte: site da University of Manchester. Disponível em:
<http://www.manchester.ac.uk/research/Sian.jones/>.

34
desenvolvimento cultural construção da diferença étnica, para os efeitos da identidade
étnica no desempenho individual em educação, e assim por diante);

• a região do mundo onde a pesquisa está sendo realizado;

• o grupo específico que é objeto da investigação.

Esse quadro é ainda mais complicado pelo fato de que poucos pesquisadores
definem explicitamente o que eles querem dizer ao abordar os termos etnicidade e
grupo étnico34. No entanto, apesar da ausência de definições explícitas sobre etnicidade
na literatura, é possível identificar questões centrais que se entrecruzam em diferentes
conceituações de etnicidade.

O debate clássico antropológico sobre a priorização de perspectivas éticas ou


êmicas35 foi reconfigurado sob a forma de uma distinção entre definições de etnicidade
"objetivista" e "subjetivista". Em um sentido genérico, “objetivistas” consideram grupos
étnicos como entidades sociais e culturais com limites distintos, caracterizados por
relativo isolamento e falta de interação, enquanto "subjetivistas" consideram grupos
étnicos como categorizações culturalmente construídas que informam as interações
sociais e comportamentais. Assim, na prática, os “objetivistas” tendem a ter uma
perspectiva ética, definindo os grupos étnicos a partir da percepção de diferenciação
sócio-cultural de quem a analisa. Em contrapartida, entre os "subjetivistas" prevalece a
perspectiva êmica, que busca definir os grupos étnicos com base em subjetivas
autocategorizações dos povos que estão sendo estudados.

Jones considera que essas definições de etnicidade sob as perspectivas


objetivistas e subjetivistas são simplistas e problemáticas, pois implica na ingênua
suposição de uma análise isenta de valor pelo pesquisador, em oposição às subjetivas
autocategorizações dos indivíduos que estão sendo estudados. Ela conclui que a

34
A autora informa que foi feito levantamento a partir de sessenta e cinco estudos antropológicos e
sociológicos sobre a etnicidade, dentre os quais apenas treze incluíam algum tipo de definição sobre o
termo (p. 56).
35
O termo “êmico” refere-se à perspectiva de uma sociedade produzida através dos modelos indígenas da
realidade, enquanto "ético” aqui nada tem a ver com conduta moral: refere-se a uma visão gerada pela
descrição e análise dos sistemas sociais a partir da percepção e modelos intrínsecos do observador.
Segundo definições proferidas em curso de extensão promovido pela profª Adriene Tacla através do
NEREIDA-UFF, ocorrido entre 12 a 14 de abril de 2011, ministrado pelo Dr. Philipp Stockhammer, da
Universidade de Heidelberg, êmico se refere à visão de dentro, ou seja, a percepção que o indivíduo ou
comunidade têm de si próprio; ético se refere à visão de fora, ou seja, a percepção de terceiros sobre um
determinado grupo. Exemplo: a percepção que o arqueólogo ou historiador tem da comunidade estudada.
35
dicotomia entre "objetivismo" e "subjetivismo" continua afligindo a definição de
etnicidade, tal como o faz em estudos mais amplos da sociedade e da cultura, onde estas
contraposições são inerentes – tais como estruturalista e fenomenológica, ou
materialista e idealista.

As definições de etnicidade também são caracterizadas por uma tensão entre


especificidade e generalidade, que está entre as definições genéricas que são
consideradas demasiadamente amplas para serem de alguma utilidade analítica no
estudo de casos especiais, cujas definições são tão estreitas que tornam seu potencial
mínimo, atribuindo-lhe apenas uma função descritiva. A formulação de uma definição
adequada da etnicidade é frustrada pela falta de uma teoria específica sobre esse
conceito e da tendência em elevar as regularidades observadas no comportamento étnico
ao nível dos princípios de causalidade para conceituação e explicação da origem étnica.
Jones exemplifica, informando que em algumas instâncias a identidade étnica pode ser
manipulada para se obter ganho econômico, num contexto onde grupos étnicos podem
ser definidos como grupos de interesse.

A análise que Jones faz da polêmica entre “objetivistas” e “subjetivistas” se


apresenta de forma complexa e multifacetada. Para tanto, será necessário definir
também as perspectivas primordialista e instrumentalista. Tentarei aqui desenvolver um
resumo que busca esclarecer os principais pontos e autores relacionados.

Durante os anos 1960 e 1970, uma abordagem francamente "subjetivista" para a


definição de etnicidade prevaleceu na literatura. Fredrik Barth36 foi o primeiro a atribuir
uma abordagem "subjetiva" à etnicidade sob um modelo teórico programático em seu
Ethnic Groups and Boundaries (1969). O objetivo principal de Barth era investigar as
dimensões sociais de grupos étnicos, particularmente a manutenção de fronteiras
étnicas, que ele distinguiu da tradicional investigação de unidades culturais isoladas.
Argumentando sobre as dimensões sociais da etnicidade, Barth enfatizou que os grupos
étnicos devem ser definidos com base em categorizações do ator sobre si próprio e de
outros. A partir desta perspectiva, a variação cultural não é algo dotado de função
determinante. Tal abordagem é propícia para considerar a etnicidade como uma
estratégia individualista. Por exemplo, Barth argumenta que os indivíduos podem passar

36
Fredrik Barth nasceu em 1928. Antropólogo social norueguês, atualmente professor do departamento
de Antropologia da Universidade de Boston. Fonte: Wikipedia.
36
de uma identidade categórica para outra de maneira a promover seu desenvolvimento
pessoal, devido a interesses econômicos e políticos, ou para minimizar suas perdas.
Segundo Jones, Barth pode ser definido como instrumentalista. No decorrer dos anos
1970 e 1980, a perspectiva instrumentalista passou a dominar a pesquisa sobre
etnicidade, muitas vezes inspirada na sequência do trabalho de Barth e Cohen37.

Já a perspectiva “primordialista” representa a outra abordagem teórica que


também tem dominado a literatura sobre etnicidade nas últimas três a quatro décadas. O
conceito da teoria primordialista foi inicialmente desenvolvido por Shils38, ao buscar
descrever as qualidades relacionais inerentes aos laços de parentesco. Ele alegou que o
significado dessas qualidades primordiais não seria meramente uma função de
interação, mas se encontraria na “inefável” significância atribuída a laços de “sangue”.
Por isso, argumentou que laços primordiais entre indivíduos resultam de fatos
associados ao nascimento, “sangue”, língua, religião, território e cultura, que podem ser
distinguidos de outros laços sociais com base da “inefável e inexplicável” importância
do laço em si.

Segundo essa perspectiva, as associações primordiais são involuntárias e estão


dotadas de uma coercitividade que transcendem as alianças e relações engendradas por
interesses situacionais e circunstâncias sociais particulares. Para resumir, as abordagens
primordialistas sobre etnicidade e fenômenos relacionados procuram explicar a
dimensão psicológica da etnicidade e a força de certos símbolos que não são
adequadamente tratadas por muitas teorias instrumentalistas da etnicidade. No entanto,
sob a ótica do conhecimento atual, as supostas bases psicológicas e/ou biológicas
associadas à teoria primordialista são vagas e o nível de explicação não alcança a
natureza dinâmica e fluida da etnicidade em variados contextos sociais e históricos.
Além disso, as abordagens primordialistas muitas vezes incorporam idéias derivadas de
ideologias nacionalistas, sem as historicizar de maneira adequada.

Pesquisa realizada no mesmo período – ainda sob os pressupostos


instrumentalistas - buscou enfatizar os aspectos fluidos e situacionais tanto da

37
Cohen, A. ‘Introduction: the lesson of ethnicity.’ In: A. Cohen (ed.) Urban Ethnicity, pp. ix-xxiv.
London: Tavistock Publications, 1974.
38
Shils, E.A. Center and Periphery: essays in macrosociology. Selected papers of Edward Shils, vol. II,
111–26. Chicago: Chicago University Press, 1957.
37
identidade individual quanto de grupos39. Jones as considera um avanço e informa que
estas são as dimensões da etnicidade que foram negligenciadas por escritores como
Barth, que considerava categorias étnicas abrangentes e relativamente fixas, apesar do
fluxo de pessoas através das fronteiras. O grupo, como uma entidade integrada fixa, fica
ainda mais corporificado através da ênfase contínua na etnicidade como um mero
reflexo de normas compartilhadas.

Para evitar tal reificação do grupo, vários autores40 sugeriram que é importante
explorar a percepção e a negociação de etnicidade dos indivíduos em diferentes
contextos de interação. Tal assertiva demonstrou que a percepção e expressão da
identidade étnica de uma pessoa podem variar em situações diferentes, dependendo do
contexto e da escala de interação, resultando em uma série de dicotomias.

Além disso, a identidade étnica pode ser suprimida em situações onde se verifica
um estigma social e que em outras situações pode ser irrelevante como uma base para a
interação. Assim, para além de seu caráter segmentário e fluido, etnicidade em si é uma
variável e projeta mudanças em contextos diferentes, constituindo elemento
significativo na estruturação de interação social. O reconhecimento desse deslocamento
e da natureza segmentária da etnicidade revelou também a maneira pela qual cultura e
tradição são delineadas na construção da etnicidade, sendo muitas vezes transformadas
no processo.

Jones argumenta que, embora a abordagem instrumentalista tenha contribuído


para a descrição e explicação dos aspectos dinâmicos e situacionais da etnicidade, há
problemas com certos aspectos desta perspectiva. A autora lista cinco, descritas
resumidamente abaixo:

1. Muitas das abordagens dos instrumentalistas caem num modo reducionista


ao explicar como a etnicidade é definida em termos de regularidades
observadas em uma situação particular.

2. A redução da etnicidade sob a ótica de relações econômicas e políticas


resulta frequentemente numa abordagem negligenciada da dimensão cultural.

39
Jones nos remete para análise de Cohen; Handelman; e Horowitz, p. 75.
40
Textualmente referidos: Vincent; Cohen; Handelman e Wallman, p. 75.
38
3. O modo reducionista de análise em muitos estudos instrumentalistas
negligencia também as dimensões psicológicas da etnicidade.

4. A suposição de que o comportamento humano é essencialmente racional e


voltado a maximizar seus próprios interesses de bem estar incorre em
simplificação excessiva e desconsidera as dinâmicas de poder que atuam
sobre o grupo.

5. Como resultado da tendência em definir etnicidade como uma espécie de


mobilização política do grupo, negligenciando suas dimensões culturais e
psicológicas, torna-se difícil distinguir grupos étnicos dos demais grupos
associados por interesses coletivos.

Jones conclui reconhecendo que as abordagens instrumentalistas têm contribuído


para a análise comparativa de grupos étnicos e suas relações sócio-econômicas e
políticas, buscando explicar a manutenção das fronteiras e as relações interétnicas -
aspectos que são negligenciados pelas abordagens primordialistas. No entanto, a autora
crê que tanto as abordagens instrumentalistas quanto as primordialistas tendem a ser
reducionistas e falham ao explicar plenamente a geração dos grupos étnicos. Isso fica
evidente nessa passagem:

Moreover, like the proponents of the primordial perspective,


instrumental approaches do not provide an adequate theory of
the relationship between culture and ethnicity (JONES, p.
79)41.

Habitus

Jones crê que é necessário analisar o tipo de diferenças culturais envolvidos na


comunicação de etnicidade - e de que maneira a etnicidade é institucionalizada em
contextos sociais e culturais. A ênfase deve ser direcionada à autopercepção dos
indivíduos a respeito da etnicidade e seus modos de interação, levando em consideração
os contextos culturais e sociais nas quais estão inseridas. O que falta é uma teoria
adequada da relação entre etnicidade e cultura, sentencia Jones. Ela crê que a teoria de
41
Tradução: Além disso, tal como as propostas da perspectiva primordial, as abordagens instrumentais
não fornecem uma teoria adequada da relação entre cultura e etnicidade.
39
Bourdieu42 transcende a dicotomia entre objetivismo e subjetivismo43, bem como outras
oposições associadas - tais como determinismo e liberdade, condicionamento e
criatividade, sociedade e individual - através do desenvolvimento do conceito de
habitus.

Para Bourdieu, o habitus é composto de disposições duráveis para certas


percepções e práticas - como as relacionadas com a exploração da divisão sexual do
trabalho, a moral, os gostos e assim por diante - que se tornam parte de um sentido de
identidade individual desde a infância e que pode ser transposto de um contexto para
outro. Como tal, o habitus envolve um processo de socialização através do qual novas
experiências acontecem de acordo com estruturas já produzidas por experiências
passadas. Desta forma, as estruturas de poder incorporam-se ao cotidiano, resultando em
determinadas atitudes que não constituem produto de obediência a regras impostas,
atuando sobre o indivíduo de modo inconsciente.

Jones considera que a aplicação do conceito de habitus para o desenvolvimento


de uma teoria da etnicidade fornece também um meio de integrar às dimensões
denominadas primordiais e instrumentais da etnicidade dentro de uma teoria coerente do
arbítrio humano. Como o reconhecimento da etnicidade é, até certo ponto, derivado de
semelhanças de habitus, pode-se argumentar que há forte componente psicológico
associado com a identidade étnica e o simbolismo étnico, que são gerados pelo papel
crítico que o habitus desempenha, inscrevendo sentido social ao indivíduo. No entanto,
a autora ressalta que isso não é sugerir que as identificações étnicas ou as representações
simbólicas associadas são fixas e determinantes, lembrando que diferentes dimensões da
etnicidade serão ativadas em diferentes contextos sociais.

Além disso, a etnicidade também é influenciada por interesses econômicos e


políticos, resultando em mudanças na percepção e expressão da identidade étnica por
indivíduos, bem como na representação da identidade do grupo como um todo.
Identidades étnicas são continuamente reproduzidas e transformadas em diferentes
contextos enquanto os agentes sociais agem estrategicamente na busca de seus

42
Jones lista três obras de Bourdieu em suas referências: Outline of a Theory of Practice. Cambridge:
Cambridge University Press, 1977; The Logic of Practice. Cambridge: Polity Press, 1990; e An Invitation
to Reflexive Sociology.Cambridge: Polity Press, 1992, com L.J.D.Wacquant como co-autor.
43
A tentativa de superação da dicotomia objetivismo/subjetivismo está na raiz do quadro teórico-
metodológico de análise da vida social formulado por Bourdieu.
40
interesses. As disposições do habitus funcionam também em nível coletivo, onde a
percepção de afinidades étnicas pode resultar no reconhecimento de sentimentos e
interesses comuns em dada situação, fornecendo estímulo para a mobilização política de
um grupo étnico. No entanto, Jones lembra que essa mobilização não ocorre
sistematicamente e que em muitos casos os membros de um grupo étnico podem ter
interesses divergentes.

Jones conclui propondo que a etnicidade é um fenômeno multidimensional, que


se forma de diferentes formas, em diversos domínios sociais. Representações da
etnicidade envolvem a oposição dialética de práticas culturais e históricas relevantes em
experiências associadas com as diferentes tradições culturais. Assim, a expressão da
etnicidade estaria vinculada ao contexto social e seria altamente variável. Tal
perspectiva se choca frontalmente com as abordagens tradicionais da Arqueologia, que
busca padrões homogêneos para fins de definição étnico-cultural. A busca por
homogeneidade na pesquisa arqueológica, com ênfase em identificação de idioma, raça
e cultura delimitados no espaço/tempo são construções mitificadas do moderno Estado
Nacional.

Jones enfatiza que as manifestações de etnicidade são o produto de um processo


contínuo envolvendo a objetivação da diferença cultural e a acomodação das diferenças
entre as disposições do habitus compartilhado. Tais processos são sujeitos a flutuações
ao longo do tempo entre a representação de uma identidade étnica particular, em termos
de objetivação da diferença cultural, e as práticas culturais e experiências históricas dos
indivíduos envolvidos. A manifestação real de qualquer identidade étnica também pode
variar em diferentes contextos sociais e históricos. A comunicação da diferença cultural
depende das práticas culturais específicas e experiências históricas, ativadas por um
determinado contexto de interação social, bem como por amplas expressões da
diferença cultural, resultando em substanciais diferenças no conteúdo cultural da
etnicidade em diferentes situações.

Etnicidade é um fenômeno multidimensional constituído de diferentes formas,


em diferentes domínios sociais. Representações da etnicidade envolvem a oposição
dialética das práticas culturais e experiências históricas relevantes associadas com
tradições culturais diferentes. Por conseqüência, é raro haver um relacionamento

41
personalizado entre as representações da etnicidade ou a noção do alcance das práticas
culturais e condições sociais associadas a um grupo em particular. Sob ampla
perspectiva, o padrão resultante será uma sobreposição das fronteiras étnicas constituída
por representações da diversidade cultural, que são transitórios, mas também sujeitos à
reprodução e transformação nos processos em curso da vida social. A autora cita
Eriksen44, que expõe:

(...) oposições étnicas são segmentares em caráter, o grupo


criado através de uma causa comum se expande e se contrai
circunstancialmente, e não há existência absoluta em relação
aos princípios inequívocos de inclusão e exclusão. Este
mecanismo de segmentação não cria sempre um sistema
elegante de círculos concêntricos ou «caixas chinesas de
identidades", ou qualquer sistema classificatório segmentário
45
internamente consistente (ERIKSEN apud JONES, p. 100).

Reconsiderando a Romanização

O quadro teórico acima descrito é comparativo e generalizante na medida em


que consegue identificar os processos básicos envolvidos na reprodução e
transformação da etnicidade em diversidade social e contextos históricos. A proposta de
um quadro analítico contextual representa um avanço, abordando a etnicidade como um
fenômeno multidimensional. Jones considera que tal teoria fornece argumentos tanto
sobre semelhanças como também permite a compreensão das diferenças na
manifestação da etnicidade, por permitir a consideração dos contextos sociais e
históricos. Como resultado, essa abordagem preserva a possibilidade de vislumbrar as
diferenças do passado, ao invés de meramente reproduzi-lo vinculado à imagem do
presente.

As implicações e as potencialidades dessa abordagem para a interpretação


arqueológica da etnicidade em geral pode ser exemplificado com relação ao caso da

44
Eriksen, T.H. Us and Them in Modern Societies: ethnicity and nationalism in Mauritius, Trinidad and
beyond. London: Scandinavian University Press, 1992.
45
No original: “ethnic oppositions are segmentary in character; the group created through a common
cause expands and contracts situationally, and it has no absolute existence in relation to unambiguous
principles of inclusion and exclusion. This mechanism of segmentation does not always create a neat
system of concentric circles or ‘Chinese boxes of identities’, or an otherwise internally consistent
segmentary classificatory system.”
42
Romanização. Jones mostrou que, apesar da recente preocupação com os contextos
sócio-históricos em que o estilo romano de cultura material e modos de vida foram
aprovados na negociação do poder político, tal investigação ainda é enquadrada em
termos de entidades sócio-culturais delimitadas, na maioria das vezes. Além disso, a
suposição de que povos e suas culturas constituem entidades monolíticas fazem parte de
um quadro metodológico que influencia muito os métodos de classificação e datação
arqueológicos.

A abordagem teórica desenvolvida por Jones sugere que há problemas


fundamentais com essa metodologia. Ela considera que a cultura material está
estruturada pela expressão e negociação de etnicidade, minando a suposição
arqueológica de que o estilo é um reflexo da interação e do isolamento. Além disso, o
reconhecimento e a articulação de etnicidade variam em diferentes domínios sociais, de
acordo com diferentes formas e escalas de interação social. A produção e o consumo de
estilos particulares da cultura material envolvidos na expressão de uma "mesma"
identidade étnica variam tanto qualitativa quanto quantitativamente, em diferentes
contextos sociais. Assim, em muitos casos, a etnicidade pode romper padrões regulares,
resultando na desordenação e sobreposição de limites estilísticos - em diferentes classes
de culturas materiais e em diferentes contextos - que pode ser descontínua no espaço e
no tempo.

Como importante elemento da noção de habitus, a arquitetura doméstica pode


ter estado envolvida no reconhecimento e significação de uma identidade romana ampla
para determinados indivíduos, em alguns domínios sociais. Entretanto, a variação de
outros aspectos da cultura material, tais como estilos de cerâmica ou rituais funerários,
podem se cruzar em ampla escala de identificação e tomar parte da reprodução e
transformação da etnicidade regional. Assim, diferentes configurações de etnicidade e
outras formas de identidade podem ter sido expressas em diferentes aspectos da cultura
material e sob diversos contextos sociais.

Nas pesquisas atuais, a adoção do estilo da "cultura material romana” é


amplamente considerada sob o viés de seu uso na negociação e legitimação de status no
interior dos sistemas indígenas de rivalidade competitiva, ao invés dos processos
anteriores que focavam numa suposta identificação étnica. É árduo estabelecer relação

43
entre estilos particulares da cultura material e determinados tipos de identidade do
passado. Na verdade, a pesquisa sobre determinados tipos de cultura material e sua
relação com a identidade não pode ficar subordinada a noções tradicionais. Portanto, é
necessário tentar estabelecer a relação entre determinados padrões estilísticos e
processos de identificação com base na evidência contextual independente. No entanto,
também é necessário considerar que a etnicidade é frequentemente associada a outras
dimensões da identidade, tais como gênero e status, pois a geração da identidade étnica
é em parte baseada no reconhecimento de certo grau de uniformidade e dispositivos
culturais que estruturam a vida social.

Essa diversidade expõe as limitações da idéia da Romanização como um


processo inevitável e uniforme de aculturação, bem como as categorias de cultura e
identidade que lhes são associados - “romano” e “nativo” ou “civilizado” e “bárbaro”. A
única maneira de sustentar tais categorias ao confrontá-las com esta diversidade é
sugerir que resultaram de outros fatores, tais como o comércio e o intercâmbio - e não
de uma suposta Romanização da população no passado.

Ao abordar o caso específico do território britânico, Jones lembra que a natureza


heterogênea dos materiais recuperados nas escavações revela uma variedade
considerável, que remetem para um quadro contextual amplo e diverso que, não
obstante, é ignorado no momento atual devido às restrições do modelo de Romanização
– e sua ênfase na homogeneidade e alteração cultural uniforme46. Um exame contextual
dos despojos revela um conjunto complexo e heterogêneo de padrões estilísticos, que
foram mascarados pela convencional preocupação em buscar uma ampla e uniforme
mudança cultural durante o primeiro século d.C. Sua devida interpretação sugere que a
adoção dos chamados estilos romanos de cultura material por parte da população do
sudeste da Inglaterra possivelmente envolveu a negociação de identidade, com
variações dentro dos grupos sócio-culturais. A análise dessa variação constitui a
extensão lógica de estudos recentes sobre a Romanização na Inglaterra, nos quais se
argumenta que a apropriação do estilo romano de cultura material foi diferente dos

46
Jones, nessa passagem, faz alusão a dois trabalhos de Hingley: Rural Settlement in Roman Britain.
London: Seaby, 1989 - e The “legacy” of Rome: the rise, decline, and fall of the theory of Romanization.
In: J.Webster and N.Cooper (eds) Roman Imperialism: postcolonial perspectives, pp. 35–48. Leicester:
School of Archaeological Studies, University of Leicester.
44
demais casos ocorridos na Europa Ocidental, no que tange à reprodução e
transformação das relações sociais hierárquicas pré-existentes.

A abordagem teórica sugerida por Jones parte do princípio que para analisar
processos complexos de identificação étnica como a Romanização, é necessário
abandonar o rígido modelo histórico cultural, a fim de analisar as expressões
contextuais do que pode ser reconhecido como etnicidade. Além disso, os arqueólogos
não devem apenas se preocupar com a identificação dos estilos que foram envolvidos na
expressão consciente da etnicidade, mas com a ampla composição de montagens que
integrem a cultura material nos diferentes contextos espaciais e temporais,
possibilitando o levantamento de informações sobre as relações sociais e práticas
culturais subjacentes à geração de transitórias, porém repetidas, expressões da
etnicidade.

3.2. Richard Hingley: globalizando a cultura romana.

Obra analisada: Globalizing Roman Culture: unity, diversity and empire.


London and New York: Routledge, 2005.

Richard Hingley é professor do Departamento de Arqueologia da Universidade


de Durham, na Inglaterra. Nos últimos anos, tem se dedicado a diferentes áreas de
atuação nas quais incluem estudos arqueológicos sobre as populações romanas das
províncias do norte e oeste da Grã-Bretanha e sobre os povos pré-romanos da Idade do
Ferro, bem como tem refletido sobre a importância de revisões teórico-metodológicas
para possibilitar novas abordagens acerca do passado clássico47.

Hingley entende que a convergência de interesses entre os acadêmicos que


estudam a sociedade imperial romana resultaram no desenvolvimento de uma
abordagem que incide sobre a aparente unidade cultural romana. Isto envolve a
recriação da metanarrativa da identidade romana em termos mais flexíveis do que os
utilizados nas antigas acepções de Romanização. Para tanto, é necessário examinar
diversas interpretações recentes que buscam explicar o desenvolvimento da cultura
romana em termos da criação e manutenção do Império.

47
Retirado de resenha de Renata Senna Garraffoni(UFPR) sobre a mesma obra.

45
A expansão imperial romana dependeu de trabalho humano sob regime escravo,
bem como de uma cultura - simbolismo este que precisa ser decodificado de acordo com
os preceitos da educação clássica. Os significados através dos quais os indivíduos foram
persuadidos, coagidos, encorajados ou mesmo capacitados a tornarem-se romanos têm
sido interpretados como uma das significantes maneiras nas quais as relações imperiais
foram imaginadas, criadas e mantidas. Essa criação de império perpassa uma série
complexa de acomodações entre a aristocracia imperial e os vários grupos de elite locais
que foram gradualmente incorporados. A cultura de elite romana fazia parte de uma
identidade trazida à existência e mantida como elemento vital na criação do Império,
constituindo aspecto essencial de ordem e estabilidade imperiais.

A esta altura é importante considerar um aspecto que está por trás de todos os
estudos sobre o império: a questão da identidade. As antigas perspectivas de
Romanização consolidaram a imagem da cultura romana como algo claramente definido
– estando normalmente adjetivada como delimitada, homogênea ou monolítica.
Entretanto, modernas abordagens têm redefinido essa idéia em termos mais flexíveis,
onde parte do sucesso de Roma em incorporar, assimilar e cooptar outros povos
decorreria justamente da flexibilidade operacional de sua cultura. Suas palavras:

The geographical extent of the empire, and its historical


stability may partly have derived from the maleability of
48
Roman identity (HINGLEY, 2005, p. 50)

Embora não haja uma só palavra em latim que seja equivalente a cultura, alguns
acadêmicos consideram o tema central para os estudos clássicos. Cultura é um termo
que tem sido largamente aplicado no âmbito da Sociologia e Antropologia Social.
Hingley contextualiza a moderna abordagem de cultura sob a ótica da identidade, cujas
definições estão associadas com a formação de unidades nacionais ou regionais. Esse
processo interpretativo do comportamento de grupos étnicos ajudou na identificação das
distintas nações que se formaram pelo mundo afora. O autor comenta que tal perspectiva

48
Tradução: a extensão geográfica do império, e sua estabilidade histórica podem, em parte, ter derivado
da maleabilidade da identidade romana.
46
passou por notável desenvolvimento a partir dos anos de 1960 e 1970, com o advento da
New Archaeology.

Esses estudos demonstram que a cultura não é algo definido e circunspecto.


Todas as culturas estão sujeitas a serem influenciadas por outras. A cultura é criada para
projetar estabilidade a um mundo instável, representando a maneira na qual as pessoas
fazem suas vidas dotadas de sentido para si próprias, individualmente e coletivamente,
ao comunicar com o próximo um modo de vida. Uma interpretação mais complexa e
multifacetada de cultura requer o repensar de algumas idéias que antes foram debatidas
no contexto da disseminação da identidade Ocidental. Assim, cultura não é mais
considerada como algo geograficamente localizado. Nesse contexto, é possível conceber
a idéia de desterritorialização da cultura, que está relacionada com o movimento em
duas vias que é inerente num processo desse tipo. Tal como Hingley afirma:

Culture is not merely directly adopted by the local society, it is


modified and redefined in the context of local needs and
projected back onto the societies from which inspiration was
49
originally derived (HINGLEY, 2005, p. 53) .

A expansão de Roma promoveu o crescimento da circulação de pessoas e


artefatos dentro e fora de suas fronteiras originais, que foi acompanhado de
instabilidade através do Mediterrâneo, Norte da Europa e Oriente Próximo – enquanto
indivíduos de diversas origens entraram em contato umas com as outras num amplo
“caldeirão cultural”. Durante essa expansão - quase sempre violenta e destrutiva - os
exércitos e administradores romanos desenvolveram idéias associadas à expansão do
Império, incluindo a concepção do que era ser “romano”.50 Hingley examina a questão
na qual ser romano estaria associado com ao menos dois grupos distintos – a cultura
original da cidade-estado de Roma propriamente dita, que remonta à Idade do Ferro
latina – e a cultura imperial desenvolvida através da própria expansão, que mais tarde
iria caracterizar a sociedade romana em sua forma mais ampla.

49
Tradução: cultura não é direta e simplesmente adotada pela sociedade local, ela é modificada e
redefinida no contexto das necessidades locais e projetadas de volta sobre as sociedades a partir da qual a
inspiração foi originalmente derivada.
50
Hingley cita dois autores, Simon Keay e Nicola Terrenato, para reforçar sua perspectiva (p. 54).
47
A cultura romana, portanto, não deveria ser considerada como entidade
delimitada e monolítica, e sim como algo dinâmico, resultado de uma variedade de
origens através do Mediterrâneo, uma eclética síntese de ideais e de cultura material dos
mais variados locais. Na medida em que as comunidades nativas entravam em contato
com o crescente poder de Roma, as elites locais eram cooptadas pela elite imperial, que
se identificavam como grupo por conta de sua privilegiada posição. Hingley acredita
que na maior parte dos casos ocorreu uma convergência de culturas e interesses, num
contexto no qual a adoção de valores romanos expressava reconhecimento de poder e
tratamento diferenciado.

Rome acted as a catalyst in the transformation that ocurred


across the Italy and then throughout the empire by offering a
widely relevant package, including light administrative control,
pacification, a degree of economic intensification and, above
all, from Augustan times onward, a highly powerful and
flexible incorporative ideology. The convergence of elite
culture and values throughout the Mediterranean is a central
issue in understanding the extent, durability and longevity of
51
the empire (HINGLEY, 2005, p. 53)

A elite romana havia criado sua eclética identidade ao absorver as culturas dos
demais povos do Mediterrâneo enquanto comerciavam, conquistavam e assimilavam.
No processo, eles criaram o que foi chamado de “linguagem mediterrânica de sucesso
52
geral” . Essa transformação incluiu uma assimilação massiva da cultura grega,
particularmente a partir do segundo século a.C. em diante, num processo muitas vezes
chamado de helenização.

O latim como instrumento de dominação

As aristocracias do império utilizavam o latim para estabelecer e policiar suas


fronteiras. A formação do comportamento aristocrático na sociedade ocorreu através de

51
Tradução: Roma agiu como um catalisador na transformação que ocorreu em toda a Itália e em seguida
por todo o império, através da oferta de pacote muito relevante, incluindo leve controle administrativo,
pacificação, certo grau de intensificação econômica e, acima de tudo, desde os tempos de Augusto para
frente, uma ideologia altamente poderosa e de incorporação flexível. A convergência das culturas e
valores das elites em todo o Mediterrâneo é uma questão central para a compreensão da extensão,
durabilidade e longevidade do império.
52
Hingley cita Andrew Wallace-Hadrill como autor da expressão.
48
uma educação em grego e latim e suas respectivas literaturas, sob os auspícios da
adoção de uma cultura comum. Era esperado que os cidadãos dominassem o latim e seu
uso era obrigatório em algumas circunstâncias legais. Essa educação constituía
elemento vital na socialização da elite romana e estava profundamente implicada na
criação e perpetuação do poder imperial.

A criação do império como um discurso de dominação foi balizada por um ideal


imperial que foi expressa pelos escritores do período de Augusto e posteriores. Hingley
cita Habinek, que argumentou que poetas, escritores, novelistas e outros intelectuais se
viram envolvidos no processo de construção, refinamento e promulgação do discurso
que define não só os dominados como também os dominadores, elaborando a idéia da
superioridade romana sobre os povos dominados. Nessa perspectiva, cultura romana
pode ser interpretada como uma espécie de educação que acabou por constituir um
conjunto literário e cultura material próprios, que comunicam suas características em
contraposição ao que seria considerado bárbaro.

Parte dessa literatura é explicitamente imperialista. Hingley exemplifica:

(...) Virgil’s Aeneid includes the enactment by Juno and Jupiter


of a Latin myth of origin that express the power of Latin
language to establish its sway over non-Latins (HINGLEY,
53
2005, P. 61).

Assim, o latim se impõe como uma força civilizadora, com poderes para
“ordenar a desordem”. Ao definir a formação da aristocracia romana, essa literatura
clássica adquiriu valor e significado, através dos quais os membros dos grupos nativos
das províncias puderam ser atraídos para fins de adoção da cultura clássica.

No entanto, para fins de uma análise mais ampla, não se deve observar apenas a
trajetória das elites. Hingley oferece um interessante olhar para a propagação do latim
entre os indivíduos comuns, argumentando que as questões práticas do cotidiano podem
ter sido de grande importância na assimilação de cultura romana. Exemplifico dois
casos: o autor informa que documentos encontrados em locais de grande movimentação

53
Tradução: A Eneida de Virgílio inclui a promulgação por Juno e Júpiter do mito latino que expressa o
poder da língua latina para estabelecer seu domínio sobre os não-latinos.
49
militar sugerem que o latim deve ter se tornado uma linguagem comum para muitos
soldados54. Comerciantes também tiveram contato com o latim ao praticarem suas
atividades e seu domínio teria valor inestimável para seu modo de vida. Muitos devem
ter adquirido habilidades em latim falado e escrito, como resultado do transporte e
comercialização de bens através das fronteiras lingüísticas do império, bem como se
deve considerar que negócios comerciais em larga escala frequentemente estão
associados à manutenção de registros escritos. Essa idéia fica evidente nesta passagem:

Latin (...) was the language of business and communication


within the empire. Latin enabled traders to communicate with
people in different societies with whom they conducted
business, while also allowing those who produced objects to
communicate with traders who came to them to purchase their
55
produce (HINGLEY, 2005, p. 100)

Bárbaros e humanitas

Valendo-se da idéia de uma civilização própria, muitas sociedades se definiram


através da identificação de um “outro”. A sociedade grega concebeu a idéia de
parentesco entre si como resultado de uma religião e origem étnica comuns, mas isso
não era suficiente para distingui-los dos não-gregos. A distinção entre os grupos acabou
incidindo na linguagem: bárbaros eram aqueles que não falavam grego. Para os
membros da elite romana, a distinção tinha mais a ver com um comportamento
civilizado. Os bárbaros eram percebidos como aqueles que estavam mais próximos da
natureza, marcados por um comportamento tido como irracional, roupas e modos de
vida distintos. Pelo ponto de vista romano, os bárbaros eram desprovidos da qualidade
moral e da cultura que definia a elite romana.

54
Hingley aborda também a questão que a presença de tropas tinha grande impacto na área ocupada,
provocando interferências sociais, culturais e econômicas no seu cotidiano (p. 94).
55
Tradução: Latim (...) foi a língua dos negócios e da comunicação no seio do império. Latim habilitou
comerciantes para se comunicarem com pessoas em diferentes sociedades com as quais realizaram
negócios, permitindo também que aqueles que produziam objetos se comunicassem com os comerciantes
que vieram para comprar seus produtos.
50
Bárbaros derrotados eram sempre retratados nos monumentos imperiais, tanto
em Roma quanto nas províncias. Essas imagens mostravam os bárbaros de forma
estereotipada – os “outros”, nus e cabeludos – e serviam para demonstrar a extensão do
império, bem como sua superioridade militar e religiosa. Esses símbolos serviam
também para que os povos conquistados das províncias pudessem recordar-se de seu
passado, incentivando-os a se transformarem através do domínio romano e alcançarem
um novo estágio de civilização.

As definições gregas dos bárbaros eram mais inflexíveis do que as romanas. Para
os gregos, estava frequentemente associada a idéias de ancestralidade comum e domínio
do idioma. Para os romanos, não havia oposição direta entre romano e não-romano – os
bárbaros poderiam tornar-se romanos se abandonassem seu passado e adotassem o
“virtuoso” modo de vida dos conquistadores.

Hingley levanta questões relevantes quanto às percepções sobre Humanitas. O


termo foi utilizado pelos romanos para descrever sua cultura e reflete a configuração de
poder no período de consolidação imperial romano, bem como a crescente
conscientização da elite sobre seu papel num mundo mais amplo. Humanitas é
normalmente traduzida como civilização, mas representa complexa associação de idéias
que serviam para definir o homem romano56. Constitui um padrão comportamental e
está relacionado com uma conduta aristocrática, definindo a elite romana como um
grupo de indivíduos esclarecidos e iluminados, capazes de liderar os demais através do
exemplo.

Assim, Humanitas firmou-se como importante elemento na definição do


comportamento aristocrático, que sinalizava um estágio ideal de desenvolvimento
pessoal que deveria ser alcançado pelos demais. Diferentemente do conceito que o
originou, paideia, que foi concebido como sinônimo de boa educação e comportamento
civilizado numa espécie de monopólio grego, a humanitas romana estava imbuída da
noção na qual aqueles que não haviam alcançado esse estado ideal ainda poderiam ser
bem sucedidos nesse intuito, caso adotassem os procedimentos adequados.

56
Hingley cita Veyne, Woolf e Wallace-Hadrill, que definem humanitas como a combinação de educação
e comportamento do homem civilizado. Veyne especifica como cultura literária, virtude de humanidade e
estágio de civilização. O trabalho de Veyne citado é Humanitas: Romans and non-Romans. In: A.
Giardina (Ed.) The Romans. London: University of Chicago Press, 1993.
51
A humanitas serviu como elemento efetivo do discurso imperial romano,
capacitando o império a absorver em sua estrutura ampla variedade de povos,
fornecendo justificativa ideológica para o ímpeto imperialista. Roma havia substituído a
Grécia como poder dominante e trazia consigo a humanitas para disseminar
amplamente através do mundo bárbaro, impregnada de valor positivo. Através do
processo de “civilização”, os bárbaros poderiam adquirir não só a identidade, como
também alcançar a cidadania romana.

No entanto, o topo dessa hierarquia estava reservado aos bem nascidos, ricos e
bem relacionados. O conceito de humanitas servia não só para distinguir o romano
civilizado do bárbaro inculto: servia também para distinguir os indivíduos educados dos
incultos do império. Além disso, ser cidadão podia não ser suficiente para definir um
indivíduo como culto. A extensão da cidadania no início do império incorporou como
cidadãos muitas pessoas que não estavam plenamente aptas para essa qualificação ante
os olhos da elite imperial, incluindo boa parte dos membros das elites locais. Hingley
define dessa maneira:

As such, this conception of civilization effectively continued to


exclude others, as differences of wealth, education, and contact
meant that only a limited number of people within Rome, Italy
and the provinces could achieve a full Roman identity in the
57
view of the imperial elite (HINGLEY, 2005, p. 64)

A questão se Roma teria uma política consciente de disseminação cultural sobre


os territórios conquistados constitui contenda entre os estudiosos. Para alguns,
humanitas seria elemento de uma deliberada política imperialista para as províncias
recém-conquistadas. Para outros, faria parte de uma influência que teria se disseminado
em nível psicológico, de maneira inadvertida e inconsciente. Hingley informa que há
poucas referências diretas a respeito disso, mas ressalva que isso não constitui,
necessariamente, um indício de que essa política central não existiu.

57
Tradução: como tal, esta concepção de civilização efetivamente continuou a excluir outros enquanto
diferenças de riqueza, educação e contato significavam que apenas um número limitado de pessoas em
Roma, na Itália e as províncias poderiam conseguir plena identidade romana na visão da elite imperial.
52
Em termos gerais, a partir do início do primeiro século a. C., a concepção
advinda da conquista habilitou padrões morais e éticos considerados mais elevados para
se transmitir aos não-romanos, que foram convertidos em forma escrita. Os autores
clássicos, ao articularem com as idéias de superioridade romana, criaram um acervo
textual para demonstrá-la às elites nativas. Hingley julga ser possível que as elites
nativas tenham promovido um processo de auto-educação a partir desses textos, com a
assistência da administração central. Quando necessário, a coerção direta podia ser
utilizada para “convencer” os membros mais recalcitrantes.

De qualquer maneira, a partir dessa abordagem podemos pensar humanitas de


maneira diversa da imaginada no século XIX, associada à moderna noção de progresso.
Cultura romana seria algo como um código voltado para indivíduos da alta hierarquia,
que eram instruídos e capacitados para seu exercício, bem como estava associado à
possibilidade de ascensão social, através da obtenção da cidadania.

Cultura material

Hingley declara que a cultura material é algo proeminente na discussão presente


em seu livro. Grande parte das evidências que indicam mudança social provém de bens
materiais recuperados por meio de pesquisa arqueológica. Como demonstrado acima, a
educação da elite foi direcionada, mas na sociedade romana a comunicação ocorria de
maneira predominantemente visual. Roupas, monumentos, edifícios, arquitetura – tudo
veiculava as mensagens de ordem e unidades imperiais. Os significados desses
elementos podem ter variado de contexto.

Frequentemente se verifica uma divisão entre “cultura” e “cultura material”.


Antropólogos e arqueólogos têm demonstrado que a cultura material é o meio através
do qual as pessoas criam e negociam papéis sociais, e que a cultura opera através de
dimensões materiais. Pode-se considerar que cultura material se refere aos elementos
físicos da sociedade e são os objetos de estudo da pesquisa arqueológica. Incluem desde
objetos de uso doméstico até os materiais que constituem os assentamentos e suas
respectivas habitações.

Culturas e bens materiais são dotados de significados e valores simbólicos, que


são uma forma não-verbal de comunicação. A cultura material não está separada dos
outros elementos do mundo social e não é correto tratar as interações indivíduo-objeto
53
como secundárias no processo cultural. Hingley segue afirmando mais uma vez que não
devemos seguir caminhos interpretativos previamente estabelecidos, considerando mais
adequado buscar uma perspectiva mais esclarecida, onde se considere que a cultura
material está profundamente ligada com as vidas do povo que a criou. O autor lembra
também que estudos focados apenas nas evidências materiais não fornecem perspectiva
confiável do passado - sempre que possível, é aconselhável utilizar fontes escritas para
apoiar as interpretações da cultura material.

Novas propostas

Desde 1960, surgiram novas abordagens que buscam analisar as contribuições


nativas na formação da sociedade romana. Dotada de estratégia metodológica mais
aberta, está possibilitando novos entendimentos que incidem menos na direção das
elites e mais para aspectos dos indivíduos comuns da sociedade. Esses estudos sobre a
diversidade regional, ao fazer contraponto com as perspectivas evolutivas e
centralizadas de cultura romana, resultaram em flagrante desacordo. Especialistas se
dividiram sobre um tema em particular: afinal, o império romanizava ou a identidade
romana seria mero discurso imperial, que obscurecia as complexidades sociais das
províncias? A idéia de uma identidade romana integradora poderia ser apenas uma
imagem colonizadora capaz de mascarar realidades complexas?

A mudança de ênfase a partir dos anos de 1960 foi formulada em parte como
uma reação à visão romanocêntrica presente nos estudos desenvolvidos anteriormente.
Hingley crê que a idéia de identidade romana é útil como conceito de unidade cultural,
permitindo explorar as relações de poder, mas que devemos aceitar que se trata apenas
de um panorama parcial das conexões através das quais o império se formou e
prosperou. Sugere que precisamos ir além da útil, porém simplista imagem de
identidade romana, que foca apenas nas elites e provê entendimento bastante limitado
dos demais componentes da sociedade. Discursos de poder nunca operam inteiramente
independentes das pessoas que são dominadas. O mundo romano não operava de acordo
com regras simples e rigidamente estabelecidas. A combinação de abordagens que
competem entre si permitem que mantenhamos o foco nas relações de poder que foram
exercidas para criar o império, se considerarmos seu caráter como uma variedade de
redes sobrepostas de poder e identidade. Tal como Hingley aborda:

54
These relations will have created new stresses and
opportunities within society that cannot be comprehended
adequately through simple emulation models (HINGLEY,
58
2005, p. 93) .

Sua proposta é inspirada na teoria contemporânea de recentes trabalhos sobre a


globalização, possibilitando o desenvolvimento de uma imagem mais dinâmica e
descentralizada do mundo romano. Cultura romana poderia então ser concebida de
maneira flexível, simbolizando motivações individuais variáveis. Assim, o império seria
uma influência cultural franca, na qual as pessoas eram relativamente livres para adotar
sua cultura de acordo com seus próprios contextos, assimilando elementos de acordo
com seus sentimentos e desejos.

Em tal abordagem, a cidade tomaria um significado primordial para a


comunicação e conectividade das sociedades imperiais e locais. Seria o local onde os
indivíduos poderiam se encontrar e estabelecer novos relacionamentos que
expressassem identidade, numa interação na qual novas formas de identidade poderiam
ser construídas através do envolvimento das pessoas nas diversas atividades
relacionadas à negócios, comércio e trabalho em geral. O contexto urbano pode ter
representado parte dos meios através dos quais as elites criaram sua unidade imperial,
porém as oportunidades fluíram também para os membros das classes menos
favorecidas. Em suas palavras:

Although the urban centres emerged partly through the


template provided by the Graeco-Roman concept of city, urban
trends led to many different results in varying concepts, results
that provided opportunities to people from different
59
backgrounds (HINGLEY, 2005, p. 109) .

58
Tradução: Essas relações terão criado novas tensões e oportunidades no seio da sociedade que não
podem ser compreendidas adequadamente através de modelos simples de emulação.
59
Tradução: Embora os centros urbanos tenham surgido em parte através do modelo fornecido pelo
conceito greco-romano de cidade, tendências urbanas conduziram a diferentes resultados em variados
conceitos, resultados estes que proporcionaram oportunidades para pessoas de diferentes origens
55
Conclusões
O estudo do imperialismo romano é um debate complexo, no qual presente e
passado são interrogados ao mesmo tempo para criar entendimento. Muitas das
crenças que estruturaram o debate no início do século XX são agora inaceitáveis. Isto
ocorre porque o contexto contemporâneo altera continuamente nossa interpretação do
passado romano, reformatando nossa compreensão do fenômeno. A História é
reescrita continuamente de maneira a refletir idéias atuais de mundo.

Hingley cita constantemente Greg Woolf60, cujo trabalho conceitua cultura


romana sob a ótica de uma nova lógica cultural, tornando os nativos capazes de
transformar suas vidas nos contextos de suas necessidades locais. Ao adotar o atual
conceito de globalização como ferramenta interpretativa, é possível conceber que o
império Romano foi estabelecido efetivamente através de um conjunto de formatos e
estruturas nas quais a cultura foi mediada e construída pelas sociedades que
interagiram em múltiplos contextos.

A investigação da diversidade de reações perante a expansão do controle romano


auxilia a definir um dos significados dos estudos sobre Roma atualmente. O
significado contemporâneo do império Romano como civilização quase global tem seu
valor como fonte de comparação e contraste mais direta. Nesse sentido, estudar os
romanos deve continuar nos ajudando a questionar nosso próprio mundo e os valores
que conservamos e procuramos perpetuar.

Foi demonstrado que grande parte do poder que se atribui a Roma clássica
continua derivando da relevância que isso tem para as noções de identidade Ocidental.
Muitas das teorias do século XIX e inícios do século XX ainda reverberam e precisam
ser substituídas por posições mais equilibradas.

A partir dos anos de 1990, foi evidenciada a possibilidade de negociação e


interação cultural nos relatos sobre o império Romano. Assim, o império é recuperado
como um poder imperial dotado de estratégia flexível de incorporação, definindo
relações com seus súditos de maneira a encorajá-los à acomodação e aceitação de um

60
Hingley lista em suas referências bibliográficas quinze fontes distintas de Greg Woolf. Em várias
passagens foram feitas referências diretas a Becoming Roman: the Origins of Provincial Civilization in
Gail. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.
56
poder central. Aproximações com a ótica da globalização permitiram a concepção da
diversidade regional como ferramenta eficiente na disseminação de um sistema de
mundo global: o local está integrado ao global e é elemento vital na propagação de sua
estrutura. Essas novas abordagens encaram o império sob uma ótica menos
dicotômica, encarando-o como um padrão intricado de desigualdades.

É provável que impérios antigos e contemporâneos sempre dependeram da


negociação para surgirem e sobreviverem, mas é necessário lembrar que há outras
forças atuando. Hingley lembra que precisamos de um foco renovado sobre a política
imperial romana, inclusive sob aspectos que são menos lembrados, tais como a
imposição violenta de uma nova ordem, genocídio, deportação, exploração de
sociedades através de um processo contínuo de escravidão de amplas parcelas da
população, bem como recrutamento militar forçado. Esses temas recebem escassa
atenção nos estudos sobre o império Romano e poderiam ajudar a fazer relevante
contraposição às imagens manifestadamente positivas de sua atuação.

3.3. Mendes, Bustamante e Davidson: analisando a dinâmica do projeto imperialista


romano: dois estudos de caso.

Obra analisada: A experiência imperialista romana: teorias e práticas. Tempo, Niterói,


v. 9, n. 18, June 2005.

Autores: Prof.ª Dr.ª Norma Musco MendesI; Prof.ª Dr.ª Regina Maria da Cunha
BustamanteII; Prof. Dr. Jorge DavidsonIII.

I
Professora Adjunta de História Antiga do Departamento de História e do Programa de
Pós-graduação em História Comparada (PPGHC) da UFRJ. Membro do Laboratório de
História Antiga (LHIA) / UFRJ. Pesquisadora de Produtividade do CNPq.
II
Professora Adjunta de História Antiga do Departamento de História e do Programa de
Pós-graduação em História Comparada (PPGHC) da UFRJ. Membro do Laboratório de
História Antiga (LHIA) / UFRJ. Pesquisadora de Produtividade do CNPq.

III
Membro do Centro de Estudos Interdisciplinares da Antigüidade (CEIA) / UFF.

57
Em busca de categorias analíticas para a construção de um modelo para o estudo
comparativo de impérios, foi selecionado o estudo do antropólogo Thomas J. Barfield61,
que problematiza a existência de Estados que controlavam vastos territórios e suas
particularidades. Neste sentido, este autor classifica os Estados imperiais em primary
empires e shadow empires. Nessa última categoria, o autor inclui os impérios xiongnu,
núbio, carolíngio e o dos portugueses nas Índias, definindo-os como fenômenos
secundários - que escapam ao nosso foco de análise. Já a concepção dos chamados
"impérios primários" está identificado com a experiência imperialista dos romanos,
entre outros62. Segundo o mesmo autor, a construção da estrutura de governo imperial é
um processo complexo que se baseia em cinco características principais:

1) Existência de um sistema administrativo para explorar a diversidade, seja


econômica, política, religiosa ou étnica.

2) Estabelecimento de um sistema de transporte destinado a servir, militar e


economicamente, ao centro imperial.

3) Criação de um sofisticado sistema de comunicação que permita administrar


diretamente do centro todas as áreas submetidas.

4) Manutenção do monopólio de força dentro do território imperial e sua projeção


frente às regiões externas.

5) Construção de um 'projeto imperial' que impõe certa unidade através do


império63.

É neste sentido que os autores definem o termo imperialismo: ação de pensar,


colonizar, controlar terras distantes que não são as suas, habitadas e pertencentes a

61
Thomas J. Barfield, "The shadow empires: imperial state formation along the Chinese-Nomad frontier",
S. E Alcock, T. E. D´Altroy et al. (Orgs.), 2001.
62
Incluídos na categoria de “impérios primários”, além do romano: assírios, persas aquemênidas,
chineses, incas, astecas, espanhóis e otomanos.
63
Enfatizo a quinta característica por ser interesse específico da análise aqui construída. Segundo os
autores, a manutenção dos impérios está ligada à criação de um sistema de valores compartilhados,
formado com base nos padrões culturais do centro imperial, que possa sobrepujar a diversidade local. Isto
se reflete em todas as variáveis que marcam a presença imperial (formas de organização do espaço, arte,
cosmologia, estilo arquitetônico, práticas sociais, rituais), as quais, atuando de forma não coercitiva,
favorecem a cooptação, a cooperação e a identificação.
58
outros povos. É a prática, a teoria e as atitudes de um centro metropolitano dominante,
governando outro território. Pode ser alcançado pela força, pela colaboração política,
por dependência econômica, social e cultural. Concluem, pois, que o imperialismo é um
processo da cultura metropolitana, entendida como um conjunto de códigos de
identificação, referência e distinção geográfica, controle, autoridade, dependência,
vantagem e desvantagem, cuja função é a de sustentar, elaborar e consolidar a prática
imperial. Referem-se a todas as formas de construções culturais, perante as quais há
uma percepção dos processos de regulação e coesão, que sustentam e reproduzem a
hegemonia. Portanto, os autores reforçam a importância da abordagem comparativa para
o estudo dos impérios, respaldando-se na teoria pós-colonial, cujo surgimento está
vinculado aos movimentos nativistas. Expandindo-se a partir de estudos focados no
discurso colonial, resultaram em interpretações de que não há uma única e consistente
cultura colonial e que as análises devem ser norteadas por três aspectos inter-
relacionados: tentativas de estudos descentralizados; busca de respostas complexas e
variadas dos provinciais ao contato colonial e trabalhos que sugerem uma oposição
aberta e camuflada à dominação imperial.

Esta postura se afasta da noção de impérios como fenômenos eminentemente


políticos, levando ao estudo do contexto geopolítico no qual se inserem e identificando-
os como amplos Estados que incorporam milhões de pessoas, cujos mecanismos de
integração e funcionamento, apesar de manterem a diversidade, asseguram a hegemonia
sobre vasta extensão territorial.

Abordarei resumidamente as análises resultantes dos estudos de casos nas


províncias da África Proconsular e da Britânia, uma vez que os autores acreditam que
estas categorias analíticas podem lançar luzes à experiência imperialista romana. Para o
primeiro caso, privilegiou-se o aspecto cultural, abordando o processo de construção de
um sistema de valores compartilhados, cujo objetivo era favorecer a integração imperial
através da cooptação das elites locais. Partindo da análise de dois mosaicos pertencentes
à “Casa da África”, enfoca as relações ambíguas e complexas entre Roma e a elite
provincial, demonstrando que os processos de produção de identificação abrigam um
processo permanente de negociações e conflitos, uma vez que as identificações ocorrem
no plural, sujeitas a uma diferenciação e a uma hierarquia em relação ao “outro”.

59
Já no caso da Britânia, a abordagem escolhida examina os mecanismos de
integração que - através da forma de organização do espaço - favoreceram a construção
do "projeto imperial", evidenciando as estratégias adotadas por Roma nos séculos I e II
para modelar o território e incorporá-lo a um espaço mais vasto - com o objetivo de
formar hábitos e formas de vida. Parte do princípio que o estabelecimento de fronteiras,
a construção de uma rede viária e a fundação de cidades tornaram-se elementos-chave
no processo de desterritorialização e reterritorialização, impulsionado por Roma para
dotar a Britânia de uma nova lógica e viabilizar sua colonização.

Primeiro caso:

Os dois mosaicos analisados foram datados da segunda metade do século II ou


do começo do III e decoravam64 uma rica residência, a "Casa da África", cuja
denominação adveio justamente por sua causa. Situava-se no bairro sudeste da cidade
de Thysdrus (atual El Djem), na África Proconsular, a mais antiga província romana
ultramarina, que fora criada no território cartaginês (hoje Tunísia), após a vitória de
Roma em 146 a.C. A posição geográfica da África Proconsular era estratégica para
controlar o Mediterrâneo Ocidental. Possuía tradição urbana e intensa atividade
agrícola, em especial, de cereal, vinha e oliveira. Sua importância econômica se
manteve no Império, sendo considerado um dos “celeiros” de Roma.

Numa sociedade em que o domínio da escrita era privilégio de poucos e os


documentos escritos tinham circulação restrita, pode-se considerar a imagem como uma
forma de comunicação mais ampla que a escrita, demandando apenas uma postura
interpretativa adequada para ser decodificada.

Após desenvolverem sua interpretação, os autores chegaram à conclusão que os


elementos dispostos nos mosaicos da “Casa da África” são resultantes de uma cultura
híbrida, seu exame permitiria inferir a ênfase na harmonia do Império Romano e a
prosperidade norte-africana. A superioridade romana se embasaria no domínio militar
sobre todos, permitindo o enriquecimento do Império através do comércio

64
Atualmente os mosaicos fazem parte do acervo do Museu de El Djem, na Tunísia.
60
interprovincial. No entanto, segundo os autores, as províncias manteriam liberdade de
culto, suas características físicas e seus atributos, mesmo sob a égide romana.

O reconhecimento da supremacia romana não teria impedido que os elementos


culturais africanos fossem preservados e valorizados. O domínio africano ocorreria em
níveis diferentes do que no de Roma: não no nível do domínio humano pela hegemonia
militar (armas ofensivas e defensivas), econômica (comércio) e cultural (roupas), mas
na ênfase da natureza, pelas Estações e seus atributos. Se, por um lado, haveria uma
identidade romana, por outro, a "africanidade" não seria excluída. Na "Casa da África",
diferentes identidades coexistiriam, ainda que hierarquizadas.

Como beneficiária da ordem romana, a elite norte-africana adotou um padrão


decorativo que serviria de elemento de identificação e integração ao modo de viver
romano, manifestando sua participação na gestão do Império Romano e afirmando sua
posição privilegiada na sociedade local. Estaríamos diante de uma comunidade cultural
mediterrânea, incentivada pela civilização romana, através de um intenso intercâmbio
econômico, político e cultural. A homogeneidade social e a cumplicidade política das
elites propiciariam a perceptível uniformidade dos princípios básicos de seu modo de
vida, sem, contudo, excluir de todo os elementos locais, ainda que hierarquicamente
posicionados.

Não havia, entretanto, segurança de que os valores locais não pudessem resultar
em episódios de insatisfação e de protesto contra Roma, acentuando ainda mais o
caráter de alteridade frente à identidade romana.

Segundo caso:

Depois da breve invasão comandada por César, em 55 e 54 a.C., e apesar das


renovadas ameaças de invasões, a Britânia permaneceu fora das fronteiras do Império
ainda durante quase um século, até ser conquistada pelo imperador Cláudio, em 43 d.C.
Pensando em termos de organização espacial, a conquista de Roma provocou um
impacto muito profundo. Embora os autores deixem claro que a invasão romana não era
a primeira experiência que as tribos da ilha haviam tido em termos de guerra, a
61
conquista por parte de Roma e sua resultante organização territorial se revelaria como
uma mudança radical.

A incorporação do novo território implicou para Roma na necessidade de fazer


diversos tipos de intervenções no espaço: desterritorializações e reterritorializações,
com a finalidade de estabelecer as suas bases geográficas de poder. Ao falar em
desterritorialização, os autores se referem àquelas intervenções que agem de forma
desestruturante sobre a lógica de um determinado território, abrindo caminho para sua
substituição por uma nova forma de conceber o espaço, uma verdadeira
reterritorialização.

É claro que isto não implicava na total dissolução das relações de poder locais
(de fato, o Império sempre soube aproveitar as formas de organização preexistentes).
Mais do que isto, tratou-se de um processo de reordenamento, marcado pela
hierarquização, pela integração e, paradoxalmente, pela fragmentação.

Desta forma, o poder imperial demonstrava a sua capacidade de intervir,


exercendo o poder, em muitas ocasiões, através de negociações com as elites locais –
com a importante economia de recursos que isto representava – e, em outras, através de
pressões diretas ou mediante a utilização das legiões.

No processo de mudança da lógica do território, Roma investiu no controle e na


modulação da mobilidade, isto é, da circulação de pessoas, bens e dinheiro. Para atingir
este objetivo, limites, caminhos e cidades revelaram-se como peças-chave. O Império
Romano não podia crescer e consolidar-se sem olhar constantemente para além de suas
fronteiras.

O controle da mobilidade exigiu também a construção de uma rede viária para


comunicar e integrar a ilha. O objetivo prático imediato era estabelecer vias de
comunicação rápidas e seguras entre as diversas cidades e regiões para permitir a
circulação de pessoas – soldados, representantes do poder central, etc. – informação e
mercadorias. A rede de caminhos da Britânia, por sua vez, integrava o novo território ao
resto do Império e estabelecia uma via de contato com a cidade de Roma. Os caminhos
da Britânia potencializaram os deslocamentos, segundo se deduz a partir de numerosas
fontes epigráficas e registros arqueológicos, que indicam uma importante circulação de
bens e pessoas durante os primeiros séculos depois da conquista romana.
62
Da mesma maneira que acontecia a cada vez que se incorporava um novo
território, Roma enfrentou, na Britânia, o problema de ter que estabelecer as bases da
administração local, assegurando a manutenção da lei e da ordem e a arrecadação de
impostos. Para isto, era necessário contar com cidades, além da cooperação dos nativos,
para o andamento dos assuntos do dia-a-dia. Mas, o que fazer com um território, como o
da Britânia, onde não existiam cidades? A fixação da população nativa no espaço
geográfico era um elemento fundamental para conseguir o controle efetivo.

As novas cidades tiveram também o papel principal de constituir lugares de


expressão do poder de Roma e centros de concentração, criação e difusão de cultura.
Mesmo com um custo econômico elevado, o cuidado do lado estético das cidades
fundadas ajudava a gerar um processo de inclusão dos bretões, uma inclusão que era, ao
mesmo tempo, hierarquizante e homogeneizadora. Hierarquizante, porque, em troca de
aporte de recursos e da sua submissão, as elites foram incluídas em um sistema
complexo – o sistema imperial – em um lugar diferenciado, que os afirmava como
grupo dominante. E homogeneizadora, porque supunha uma submissão, tanto para as
elites como para o resto do grupo: tratava-se de um mecanismo de inclusão, inscrito
numa dinâmica do poder imposta por Roma.

Apesar de até aqui termos falado sobre as intervenções de Roma, é importante


destacar que o poder central imperial nunca foi o único ator no processo de criação do
espaço e, para cada tipo de intervenção, é possível constatar alguma forma de
resistência.

Os autores, porém, enfatizam que em várias áreas da Britânia, especialmente


fora da região sudeste, a resistência manifestou-se também na não-aceitação da cultura
romana, como foi comprovado, por exemplo, no estudo realizado pela equipe
arqueológica da Universidade de Bradford. Esta pesquisa, corroborada por outras,
permitiu concluir que a presença de contingentes relativamente importantes de soldados
romanos não parecem ter trazido conseqüências significativas aos nativos, nem na
arquitetura, nem nos objetos utilizados cotidianamente. Tudo isso parece indicar que o
desenvolvimento das cidades dependia em grande parte da dinâmica que os habitantes
fossem capazes de lhes conferir. Algumas cidades da Britânia nunca chegaram a se

63
consolidar, devido a uma multiplicidade de fatores. Nestes casos, o desinteresse ou
mesmo a fuga dos nativos podem ser interpretados como mecanismos de resistência.

Por fim, os autores ressaltam que a lógica espacial construída por Roma teve
sentido enquanto fazia parte do sistema imperial. Quando os eventos militares e
econômicos do século III fizeram com que se perdesse a direção administrativa das
províncias, as cidades que sobreviveram foram as que funcionavam como mercados
locais. Muitas das que obedeciam à lógica imperial e não à lógica local desapareceram,
o que indica que, de certa forma, o Império Romano foi uma moda passageira no real
desenvolvimento da Britânia.

Os autores consideram que a hegemonia romana não foi simplesmente imposta


nas províncias. Envolveu processos interativos que implicaram em diferentes níveis de
coerção, recompensa, transformação estrutural, cooptação, resistência e acomodação.
Denominam estes processos como mecanismos de Romanização e que estes teriam
atuado de formas variadas, ou seja, distintas estratégias para cada caso

A tradição historiográfica do final do século XIX até meados do XX -


impregnada pela atmosfera eurocêntrica e inserida no contexto histórico do
imperialismo moderno - aborda a Romanização como um modelo de aculturação,
supondo que Roma teria iniciado um processo civilizatório amplamente aceito pelos
nativos, pois significava progresso e paz. A idéia central desta visão pressupõe a
existência de um primitivo nível de cultura e que as populações indígenas nada tinham a
fazer a não ser observar a "alta cultura" dos colonialistas.

Atualmente, baseados em estudos comparativos sobre o relacionamento


sociocultural entre dominadores e dominados – e levando-se em consideração os
distintos contextos coloniais - a Romanização é vista como um processo de mudança
sociocultural, multifacetada em termos de significados e de mecanismos, que teve início
a partir do contato dos padrões culturais romanos com a diversidade cultural provincial,
numa dinâmica de negociação bidirecional. Citando Gruzinski65, que vaticinou que os
elementos opostos das culturas em contato tendem a se excluir mutuamente, eles se
enfrentam e se opõem uns aos outros; mas, ao mesmo tempo, tendem a se interpenetrar,
a se conjugar e a se identificar, os autores consideram que foi este enfrentamento que

65
Serge Gruzinski, O Pensamento Mestiço, São Paulo, Companhia das Letras, 1999, p. 45.
64
permitiu o surgimento, no Império Romano, de locais de ambigüidade, de culturas
híbridas, que potencializaram os mecanismos de integração e minimizaram a resistência,
embora não a tenham eliminado de todo.

Considerações finais

Tentarei fazer uma análise das contribuições contidas nas obras de cada autor.
Para uma melhor confrontação de seus conteúdos, é necessário deixar claro que para o
caso das obras de Jones, Hingley e Mendes, Bustamante & Davidson, a questão é
demonstrar que não há, propriamente, uma discordância entre suas análises. Eu as
interpretei considerando que podemos observar mais aproximações do que
afastamentos. Acredito que podemos considerá-las como perspectivas que se completam
entre si. As discordâncias serão mais evidentes ao compará-las com as percepções
contidas nas obras de Paul Veyne.

Jones busca uma reavaliação da relação entre cultura material, objetos e


etnicidade, de maneira a fornecer base mais sólida para o engajamento moral e político,
particularmente em situações concretas. Há indícios de que a etnicidade envolve a
construção subjetiva e situacional da identidade, especialmente em situações de
oposição ao "outro" no contexto de interação social. No entanto, as identidades étnicas
não são construções dotadas de livre flutuação através das quais indivíduos e grupos
optam por identificar-se da forma que lhes convier. Em vez disso, particularmente em
relação às identidades étnicas associadas a representações do passado, estas são
produzidas em específicos contextos sócio-históricos e são caracterizados por relações
de poder.

Hingley tem uma importante contribuição para o debate da incorporação das


populações indígenas pelo império Romano e a revolução cultural decorrente do
processo. Ao confrontar-se com o conceito de Romanização, Hingley propõe seu
abandono, de maneira a evitar anacronismos e sugere a adoção de novos caminhos
interpretativos. À exceção de Paul Veyne, todos os autores analisados adotam postura
antagônica à visão eurocêntrica e buscam promover a desconstrução do discurso
imperialista para repensar a relação entre as culturas de forma mais adequada. Jones não
chega a recomendar o descarte do termo Romanização, porém aconselha sua
65
reconsideração e faz uma exortação no sentido de abandonarmos a estrutura espaço-
temporal baseada em grupos coerentes e delimitados. Mendes, Bustamante e Davidson
também não propõem o abandono do conceito de Romanização. Alinhados com Jones,
readaptaram o conceito, adotando uma análise mais balanceada do fenômeno e recorrem
aos estudos de caso para melhor lidar com um panorama caracterizado por ampla
diversidade. Já Veyne parte do pressuposto de que a Romanização e civilização são a
mesma coisa e isso pode ser considerado como uma perspectiva ultrapassada.

O trabalho de Jones traz uma análise mais abrangente e multidisciplinar da


perspectiva arqueológica, na medida em que contextualiza e discute definições de
etnicidade sob as teorias objetivistas e subjetivistas - o que a levou a discorrer também
sobre as abordagens primordialistas e instrumentalistas – resultando numa análise
pormenorizada onde destaca com propriedade seus avanços e deficiências. Após
abordar esse amplo panorama, a autora busca superar essas construções dicotômicas
através dos pressupostos de Bourdieu, utilizando o consagrado conceito de habitus para
propor sua teoria da etnicidade multidimensional como um caminho mais adequado
para a compreensão de fenômeno tão multifacetado.

Para Jones, etnicidade é um fenômeno multidimensional, que se forma de


diferentes formas, em diversos domínios sociais. A autora questiona a existência de
grupamentos étnicos como blocos culturais e a resultante noção de que graus de
similaridade e diferença inferidos na cultura material seriam elementos seguros para
supor proximidades ou afastamentos culturais. Dessa maneira, o fenômeno da
etnicidade estaria associado ao contexto social e seria caracterizado por imensa
diversidade. A busca por homogeneidade na pesquisa arqueológica, com ênfase em
identificação de idioma, raça e cultura delimitados no espaço/tempo são fantasias
mitificadas pelo moderno Estado Nacional e não encontram paralelo no estudo das
sociedades antigas. Jones considera que sua teoria fornece argumentos tanto sobre
semelhanças como também permite a compreensão das diferenças na manifestação da
etnicidade, na medida em que considera os contextos sociais e históricos. Há certo
consenso nessa assertiva.

Após propor o abandono da concepção de Romanização, Hingley faz uma


interessante análise dos estudiosos que seguem abordagens comparadas de

66
Romanização, reconhecendo que permitem maior flexibilidade analítica do que
trabalhos anteriores. Ele considera positivos os recentes debates que enfatizam a
diversidade regional no Império e focam nas populações nativas, admitindo a
possibilidade de resistência. Porém, faz a ressalva de que essas perspectivas, ao
privilegiar o local, perderam de vista um panorama mais global do fenômeno. Podemos
considerar essa declaração como uma crítica à atual tendência de estudo de casos.
Contudo, considero válida a técnica de estudo de caso, no sentido que das partes
podemos vislumbrar o todo – e isso é o máximo podemos alcançar: apenas um
vislumbre, um panorama difuso. Nunca poderemos apreender plenamente esses modos
de vida.

Continuando, Hingley parte do fato inquestionável de que o império Romano


dominou vasta área, anexando uma extensa região da Europa, Ásia e África. Portanto, a
trajetória do império fornece valioso modelo de interação cultural sobre vasto território.
Suas interações com culturas diversas proporcionam amplo material para estudos sobre
imperialismo, alteridade e subjetividade, o que por si só já justifica o interesse pelo
tema. No entanto, ele procura contestar a idéia de que a conquista seria algo dotado de
valor eminentemente positivo, devido à disseminação de padrões civilizatórios
considerados mais elevados. Ele aponta como fatores negativos o extermínio de imenso
número de pessoas e a subjugação de populações inteiras, bem como nos lembra que o
“motor” da expansão romana foi o trabalho escravo de contingentes imensos. Hingley
crê que os aspectos positivos e negativos da colonização imposta pelos romanos
precisam ser balanceados, para que os fatos sejam interpretados de maneira verossímil.
Veyne, em contrapartida, considera que a conquista romana foi francamente positiva e
representou um inequívoco avanço civilizatório.

Outra contribuição de Hingley é pensar a cultura romana como algo flexível. As


antigas perspectivas de Romanização delinearam a cultura romana como algo
delimitado, homogêneo e monolítico. A perspectiva que Veyne tem da cultura romana
ainda se encontra impregnada dessa noção de homogeneidade e que nada restava aos
nativos a não ser assimilar a cultura superior dos invasores. Hingley aposta na direção
contrária, sugerindo que parte do sucesso dos romanos em incorporar, assimilar e
cooptar outros povos decorreria justamente da maleabilidade operacional de sua cultura.
É algo original em seu trabalho e considero que isso faz sentido, se levarmos em
67
consideração que se eles foram capazes de assimilar a cultura grega, não é difícil
imaginar a possibilidade de os romanos terem assimilado elementos culturais das
populações nativas nos territórios ocupados – resultando no surgimento de culturas
híbridas locais.

Hingley se aproxima de Jones e Mendes, Bustamante & Davidson ao


contextualizar a moderna abordagem de cultura sob a ótica da identidade, cujas
definições estão associadas com a formação de unidades nacionais ou regionais. Ao
demonstrar que a cultura não é algo definido e circunspecto, fica claro que todas as
culturas estão sujeitas a serem influenciadas por outras. Ao acrescentar que cultura é
algo criado para projetar estabilidade a um mundo instável - atribuindo sentido à vida
do indivíduo - Hingley consegue dotar de substância conceito bastante abstrato. Assim,
é possível abandonar a noção de cultura como algo geograficamente localizado e
conceber a idéia de desterritorialização da cultura, como processo que sempre ocorre em
duas vias. Cultura romana, portanto, não deveria ser considerada como entidade
delimitada e monolítica, e sim como algo dinâmico, uma eclética síntese de ideais e de
cultura material proveniente de variados locais e estaria marcada por ampla diversidade.
Hingley não aborda etnicidade diretamente, mas, de certa maneira, sua perspectiva não
difere muito da descrita por Jones e Mendes, Bustamante & Davidson. Todos são
unânimes em desconstruir a idéia de que a conquista romana teria resultado na
aculturação das populações nativas. Portanto, todos se contrapõem à visão de Veyne,
que considera que a suposta prosperidade do Império romano fez com que esta se
tornasse uma “unidade de civilização frente aos bárbaros”. Segundo sua perspectiva,
“não se romanizava: civilizava-se”. E prossegue afirmando que “esta era a civilização a
qual se tinham aculturado todas as etnias do Império”.

Para Hingley, as elites locais eram cooptadas pela elite imperial, que se
identificavam como grupo por conta de sua privilegiada posição. Roma adentrava nos
territórios e oferecia às elites locais controle administrativo moderado, pacificação,
desenvolvimento econômico, ideologia poderosa e incorporação flexível. Jones afirma
que o Império Romano foi capaz de estender a escala de participação e de dependência
através da criação de relações clientelistas com a elite local, permitindo que o Império
mantivesse o poder sobre as províncias através das estruturas sociais existentes, com
contingentes militares mínimos e pouca intervenção administrativa. É a mesma
68
assertiva com palavras diferentes. Na análise do primeiro estudo de caso de Mendes,
Bustamante & Davidson, eles abordam a mesma questão: a construção de um sistema
de valores compartilhados, com objetivo de favorecer a integração imperial através da
cooptação das elites locais. Dois mosaicos foram utilizados como fonte documental e,
diga-se de passagem, são elementos da cultura material. Os autores lembram que numa
sociedade em que o domínio da escrita era privilégio de poucos e os documentos
escritos tinham circulação restrita, pode-se considerar a imagem como uma forma de
comunicação mais ampla que a escrita, demandando apenas uma postura interpretativa
adequada para ser decodificada. Essas fontes permitiram chegar à conclusão que há
elementos que permitem concluir o surgimento de uma cultura híbrida na África
ocupada. Já Veyne considera que “uma aldeia bárbara, para romanizar-se, urbanizava-
se e adotava os valores romanos”. Esse discurso deixa claro que em sua perspectiva
não há espaço para negociação de poder nem para o surgimento de uma cultura dotada
de valores compartilhados.

Hingley crê que a compreensão do sucesso da política imperial romana é a chave


para a compreensão da extensão, durabilidade e longevidade do império. Mendes,
Bustamante & Davidson oferecem uma abordagem que não só coincide como
complementa a perspectiva de Hingley. Ao versarem sobre o profundo impacto que a
invasão romana provocou na Britânia, descrevem um panorama no qual a
incorporação do novo território implicou para Roma na necessidade de fazer diversos
tipos de intervenções no espaço: desterritorializações e reterritorializações. Consiste
no processo da reformulação espacial e lógica de um determinado território,
substituindo-a por uma nova forma de conceber o espaço. Roma investiu no controle e
na modulação da mobilidade. Num local onde não existiam cidades, elas tiveram que
ser criadas, pois estas eram as unidades administrativas do império. A fixação da
população nativa no espaço geográfico era um elemento fundamental para conseguir o
controle efetivo. Foram implantadas políticas homogeneizadoras e hierarquizantes
tanto para as elites quanto para o restante da população. Ou seja, trata-se de uma
política imperialista ativa. No entanto, o poder central imperial nunca foi o único ator
no processo de criação do espaço: a cada ação, foi constatada alguma forma de reação.
A colonização romana foi muito desigual e em algumas áreas seu poder nunca chegou

69
a se consolidar. Chegaram à conclusão que o processo dependia muito da colaboração
da população.

Já Veyne afirma que “a verdadeira unidade administrativa do Império romano


era a cidade; essa cidade era autônoma e a autoridade era exercida pelos seus notáveis
locais. O governo central os colocava no poder não tanto por solidariedade de classe,
mas porque esse era o meio mais simples de manter o Império submetido de maneira
pacífica. Quando Roma constata a submissão das províncias conquistadas, considera
ter desempenhado uma missão: fazer reinar a paz”. Ora, essa afirmação, além de
articular com os duvidosos pressupostos de Pax Romana, parte do princípio que tanto
o imperialismo romano quanto a reação nativa seguiam uma espécie de padrão
imutável.

Hingley aborda o tema da disseminação do latim nas áreas ocupadas, afirmando


que isso esteve envolvido na elaboração de discurso de dominação imperial ao sugerir
idéias de superioridade romana. Assim, cultura romana poderia ser algo como uma
educação que comunica suas características em contraposição ao que seria considerado
bárbaro. O latim teria se imposto como uma força civilizadora, formando uma literatura
clássica com valor e significado, através dos quais as elites nativas puderam ser atraídas
para fins de adoção da cultura clássica. Porém, Hingley vai além e nos dá diversos
exemplos nos quais o latim teria se tornado o idioma dos negócios e da comunicação no
seio do império, permitindo aos indivíduos uma interação mais profícua. Essa
abordagem vai além da análise histórica de grupos de elite, permitindo um enfoque no
cotidiano dos membros das camadas menos favorecidas e pode ser considerado um
avanço.

Hingley é o único dos autores pós-colonialistas aqui tratados que levanta


questões relevantes sobre Humanitas. Normalmente traduzida como civilização,
representa complexa associação de idéias que serviam para definir o homem romano.
Seria algo como um padrão comportamental que sinalizava um estágio ideal de
desenvolvimento pessoal, um ideal que deveria ser alcançado pelos demais. Através
desse processo de “civilização”, os bárbaros poderiam adquirir não só a identidade,
como também alcançar a cidadania romana. Mas essa “qualificação” estava reservada
aos bem nascidos, ricos e bem relacionados, servindo pra distinguir membros da elite,

70
fossem romanos ou nativos. Os autores clássicos, ao articularem com as idéias de
superioridade romana, criaram um acervo textual para demonstrá-la às elites nativas.
Hingley julga ser possível que as elites nativas tenham promovido um processo de auto-
educação a partir desses textos, com a assistência da administração central. A partir
dessa abordagem podemos pensar humanitas de maneira diversa da imaginada no
século XIX, associada à moderna noção de progresso. Cultura romana seria algo como
um código voltado para indivíduos da alta hierarquia, que eram instruídos e capacitados
para seu exercício, e estava associada à possibilidade de ascensão social, através da
obtenção da cidadania.

Concluindo, Mendes, Bustamante & Davidson interpretam a Romanização como


um processo interativo decorrente do contato entre culturas que ocorreu a partir da
constituição do Império Romano, vinculando sua compreensão à análise da dinâmica
de seu projeto imperialista. Seu trabalho segue a tendência atual de desenvolvimento
de estudos regionais, através dos quais se procura validar hipóteses por meio de estudo
de casos. Portanto, os autores reforçam a importância da abordagem comparativa para
o estudo dos impérios, respaldando-se na teoria pós-colonial, cujo surgimento está
vinculado aos movimentos nativistas, cujas análises devem ser norteadas por três
aspectos inter-relacionados: tentativas de estudos descentralizados; busca de respostas
complexas e variadas dos provinciais ao contato colonial e trabalhos que admitem uma
oposição aberta e camuflada à dominação imperial. Portanto, os autores vão além da
abordagem teórica e sugerem uma metodologia prática para lidar com um problema
complexo. Em minha opinião, os resultados são muito pertinentes e falam por si.

A proposta de Hingley é inspirada na teoria contemporânea de recentes trabalhos


sobre a globalização, Assim, o império seria uma influência cultural franca, na qual as
pessoas eram relativamente livres para adotar sua cultura de acordo com seus próprios
contextos. Aproximações com a ótica da globalização permitiram a concepção da
diversidade regional como ferramenta eficiente na disseminação de um sistema de
mundo global: o local está integrado ao global e é elemento vital na propagação de sua
estrutura. Assim, cultura romana foi algo mediado e construído pelas sociedades que
interagiram em múltiplos contextos. Considero o trabalho de Hingley indispensável
para qualquer abordagem sobre império Romano.

71
A proposta de Jones consiste numa estratégia onde arqueólogos devem trabalhar
de maneira a levar em consideração os interesses de todas as partes envolvidas na
definição e formação da identidade. No entanto, tal projeto não deve ser puramente
crítico, buscando também o diálogo e a negociação entre arqueólogos e demais grupos
das ciências sociais a fim de construir espaços comuns de entendimento e fortalecer
nossas interpretações do passado. É necessário historicizar a própria disciplina e tomar
ciência das interpretações sociológicas e antropológicas, para que seja possível a
interpretação do contexto arqueológico empírico e transformá-lo em conhecimento
científico. Em última análise, são tais procedimentos de interação e análise que irão
fornecer o caminho para uma compreensão mais completa da construção de identidades
no passado e no presente. Eu acredito que a teoria de Jones é mais completa, uma vez
que apresenta uma explicação convincente não só para o fenômeno romano: é viável
para várias aplicações. Além disso, propõe que arqueólogos e demais cientistas das
ciências sociais trabalhem em conjunto, privilegiando o aspecto colaborativo e
interdisciplinar que é inerente ao processo científico, cujo resultado se traduzirá em
análises históricas mais coerentes.

72
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