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Curso: Direito Turno: Noturno

Disciplina: Direito à Informação Data: 31/08/21


Turma: T1
Professor: Ricardo Perlingeiro
Aluno(a): Júlio Cesar Santos da Silva
Caso Claude Reyes e outros vs. Chile

Logo de início é imperativo lembrar que a Corte Interamericana de Direitos Humanos foi o
primeiro tribunal internacional a declara que o direito de acesso à informação pública é um direito
humano fundamental.1 O pioneirismo de tal julgamento abriu caminho para uma alteração no cenário
internacional no que diz respeito ao reconhecimento do direito de acesso à informação como essencial
na garantia do estado democrático de direito.
O aludido caso, levado à Corte Interamericana, trás luz ao cometimento de arbitrariedades por
parte do Governo do Chile, por meio de seus prepostos que integravam o Comitê de Investimentos
Estrangeiro (CIE) – com destaque para o Vice-Presidente Executivo do Comitê. Não é raro termos,
ainda hoje, a pretexto de salvaguardar interesses de particulares, a turbação do acesso às informações
de interesse público.
O Processo, que se iniciou nos tribunais de justiça do Chile em 1998, só chegou à Corte
Interamericana em 2005 através de demanda apresentada pela Comissão Interamericana de Direitos
Humanos, sendo resolvido no ano de 2006. Tal “morosidade” na resolução da questão demonstra a
dificuldade de considerar o objeto como direito a ser garantido pelo Estado. As controvérsias
apresentadas pelas partes, com as manifestações de inúmeros amicus curae , atestam a relevância do
debate – inesgotável – acerca dos limites à reserva legal diante do Direito à informação, já garantido
no âmbito da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (1969).
A Corte Interamericana teve que revisar todo o percusso judicial da demanda, fim verificar se o
Estado estava agindo consonância com os tratados internacionais sobre direitos humanos, dos quais o
Chile é signatário – centrando, por óbvio, sua análise na Convenção Americana. Fazendo bem, como
fundamenta o então Juiz Presidente da Corte Interamericana, observar a jurisprudência internacional
que afirma: “os tratados de direitos humanos são instrumentos vivos cuja interpretação tem que
acompanhar a evolução dos tempos e as condições de vida atuais. Tal interpretação evolutiva é
consequente com as regras gerais de interpretação consagradas no (…) artigo 29 (da Convenção
Americana), bem como as estabelecidas na Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados”.
Fato que o Estatuto Constitucional chileno não era taxativo quanto ao direito de acesso à
informação pública, o que levou a 8 (oito) anos de trâmite da lide até a resolução do mérito. N’outro
ponto o Pacto de San José, é excessivamente amplo no conceito de liberdade de expressão, mas não se
pode pensar no exercício da liberdade de expressão em plenitude sem o direito de acesso à informação.
Já é pacífico dizer que os direitos fundamentais não se anulam ou se contrapõem, mas são
complementares e harmônicos entre si – tais direitos funcionam como um eterno sistema de freios e
contrapesos na preservação das garantias individuais e coletivas.
O CIE argumentou em todo tempo, que a publicidade de documentos referentes ao Projeto “Rio
Condor” ocasionaria na divulgação de dados financeiros sobre as Empresas investidoras e que “a
entrega desta informação seria contrária ao interesse coletivo” 2. Contudo a inexistência de controle
social no escopo do Projeto, cuja atuação estava direcionada para “industrialização florestal da décima
1 PERLIGEIRO, Ricardo. DÍAZ, Ivonne. LIANI, Millena. Princípios sobre o direito de acesso à informação oficial na
América Latina. Disponível em <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2359-
56392016000200143>. Acesso em 15/10/2020
2 Trecho do testemunho do Sr. Eduardo Moyano Berríos, Vice-Presidente Executivo do Comitê de Investimentos
Estrangeiros de 1994 a 2000 .
segunda região”, impede a fiscalização da atuação de empresas privadas sobre bem público do qual o
Estado figura como Gestor.
Apesar do voto dissidente dos Juízes Alirio Abreu Burelli e Cecilia Medina Quiroga, no que diz
respeito à aplicação do artigo 8.1 da Convenção Americana no caso analisado, a negativa ou
obstaculização do acesso à informação está dado, uma vez que há comprovado interesse público na
operacionalização do Projeto “Rio Condor”. O que resta claro é a aplicação de reserva legal deve ser
fundamentada, e que a omissão de resposta pelo CIE atesta violação direta à liberdade de expressão,
como afirma o Juiz Sergio Ramírez:

“A rigor, é preciso observar as garantias em todas as etapas, cada uma das quais leva, de
maneira provisória ou definitiva, à determinação dos direitos. O controle que a última etapa
promete ao particular não justifica que na primeira - qualquer que seja, tecnicamente, seu
encadeamento - deixem de lado essas garantias com a expectativa de recebê-las
posteriormente.”